Diálogo aberto pelo mundo · Estudo de caso
No diálogo aberto, o fato de a equipe profissional compartilhar suas reflexões diante da família contribui para instalar uma polifonia entre as pessoas presentes. Este estudo de caso holandês acompanha uma reunião de rede gravada em vídeo, reunindo um pai, seu filho adolescente, uma assistente social e um assistente social, e retomada no dia seguinte com cada pessoa diante da tela. Ele observa o que acontece com o diálogo interno de cada pessoa conforme uma reflexão seja dita em voz alta ou guardada para si.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Open Dialogue: A case study on the influence of sharing or withholding reflections during a network meeting, de Albert van Dieren e Corine Clavero, publicado em Frontiers in Psychology (2022), doi: 10.3389/fpsyg.2022.1028757, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e rediagramado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi realizada pelos autores nem pela editora, que não respondem por seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo
No diálogo aberto, o compartilhamento de reflexões pela equipe profissional constitui uma contribuição importante para promover um diálogo polifônico entre as pessoas presentes. No diálogo interno, o passado e o futuro influenciam o momento presente. Neste estudo, exploramos a influência que o fato de a equipe profissional compartilhar ou reter suas reflexões exerce sobre o jogo entre diálogo interno e diálogo externo. Recorremos a um estudo de caso com metodologia de múltiplas perspectivas, que combinou a gravação em vídeo de uma reunião de rede e entrevistas de recordação estimulada por vídeo, realizadas em seguida separadamente com o pai e o filho e conjuntamente com a dupla de serviço social. Constatamos que o compartilhamento das reflexões pela equipe profissional estimula o diálogo interno e abre a possibilidade de levá-lo ao diálogo externo. Observamos, além disso, que, quando as reflexões são retidas, o diálogo interno da pessoa atendida prossegue mesmo assim, mas não é compartilhado no diálogo externo.
No diálogo, o passado ressoa, e nas respostas, o futuro pode emergir.
Albert van Dieren e Corine Clavero
Desde janeiro de 2015, o campo social holandês passa por uma transformação, com a entrada em vigor de uma nova legislação: a lei da participação e as leis sobre o cuidado à juventude e sobre os cuidados de longa duração (Kelders et al., 2016). Essa mudança afetou todos os aspectos do campo social: a redução dos fluxos financeiros no sistema de saúde, mas também um deslocamento da organização do bem-estar e do cuidado, do governo holandês para as autoridades locais e a população. A autonomia é incentivada, junto com o cuidado informal prestado pela família, por pessoas voluntárias ou por outros membros importantes da rede social (Dekker e Van Dieren, 2016).
Essa transformação exige que o serviço social trabalhe ativamente com as pessoas atendidas e com os membros de sua rede social desde o início do atendimento ou do acompanhamento. Um dos princípios centrais do trabalho social é que a ação profissional consiste em acompanhar a pessoa em seu desenvolvimento na relação com seu ambiente social e dentro de seu contexto sociocultural (Van der Mei e Luttik, 2018). Isso está em consonância com a agenda de conhecimento e de pesquisa do trabalho social nos Países Baixos, que promove reuniões de rede social em que os membros da rede informal participam ativamente. Nos últimos anos, construiu-se um saber sobre as abordagens de rede social e sobre o fortalecimento da rede social. Mas a pesquisa reconhece que é preciso mais conhecimento oriundo da prática sobre como aplicar as abordagens de rede informal no cotidiano (Hooghiemstra et al., 2020).
Trabalhos recentes mostram que boa parte das equipes de serviço social hesita em fazê-lo. A maioria confirma a importância dessa maneira de trabalhar, mas, na prática cotidiana, ela raramente é operacionalizada. As pesquisas anteriores apontam, com frequência, nessas equipes:
a impossibilidade de trabalhar com a pessoa atendida e sua rede social, já que a maior parte dos atendimentos é organizada de forma individual;
a dificuldade de sintonizar o cuidado ou o acompanhamento, que é uma busca relacional e exige, no serviço social, competências relacionais e dialógicas;
um sentimento de insegurança ligado à falta de conhecimentos, de ferramentas e de formação (Van Regenmortel e Lemmens, 2012);
o fato de as organizações incentivarem o trabalho com as redes sociais sem ter uma visão de como fazê-lo (Dekker e Van Dieren, 2020, 2021).
Nossa hipótese é que o diálogo aberto pode ajudar as equipes profissionais a conduzir reuniões de rede que deem lugar às preocupações e às necessidades de cada pessoa presente. Ele cria um lugar onde todas as vozes serão ouvidas e onde se estará junto para encontrar maneiras novas e construtivas de lidar com as preocupações que possam emergir (Seikkula e Arnkil, 2006, 2017).
O diálogo é entendido como uma maneira de conversar sobre problemas ou preocupações entre a pessoa atendida (ou as pessoas atendidas) e os membros de sua rede social, além de encontrar um caminho para adquirir mais agência sobre a própria vida. É uma investigação mútua ou compartilhada, feita de escuta (Anderson, 2007), de perguntas e de reflexão sobre o problema, a fim de encontrar novas maneiras de seguir adiante. Quem conduz responde com respeito aos enunciados das demais pessoas presentes, compartilha suas próprias reflexões e as convida a reagir: é assim que se evita um contexto unilateral (Olson et al., 2012, 2014; Seikkula e Arnkil, 2017).
Segundo Alanen (1997), uma reunião de rede tem três funções: reunir informações sobre o problema vivido, elaborar um plano de tratamento e gerar diálogo. No diálogo, a ênfase recai sobre o fortalecimento do lado adulto da pessoa (Seikkula, 2002) e sobre uma conversa que vê seu comportamento como portador de sentido (Alanen, 1997; Anderson, 2007; Olson et al., 2014; Seikkula e Arnkil, 2017). O diálogo é uma atividade relacional e colaborativa (Anderson, 2007).
No processo dialógico, diferentes vozes emergem. Há, primeiro, a polifonia horizontal, ou vozes externas: são as palavras pronunciadas pelas pessoas presentes. Mas há também uma polifonia vertical, ou diálogo interno: são os pensamentos e os sentimentos que cada pessoa tem durante a reunião e que ainda não foram ditos em voz alta. Gerar diálogo é abrir espaço para “o que ainda não foi dito” (Anderson e Goolishian, 1988; Rober, 2002).
Polifonia horizontal
As vozes externas: as palavras efetivamente pronunciadas pelas pessoas reunidas.
Polifonia vertical
O diálogo interno: os pensamentos e os sentimentos presentes em cada pessoa, e que ainda não foram ditos.
O diálogo não comporta apenas enunciados verbais: inclui todas as respostas, inclusive os sinais de empatia, a compaixão, as emoções e as mudanças corporais ligadas ao processo de construção de sentido na interação social (Bertrando e Arcelloni, 2014; Kykyri et al., 2017). Todas as vozes, todas as perspectivas são igualmente importantes, e é importante que a equipe profissional responda a elas (Seikkula e Arnkil, 2017; Ong e Buus, 2021). No diálogo, a equipe não busca um acordo sobre o problema: ela convida o maior número possível de vozes ou de perspectivas, para que novos sentidos possam emergir (Anderson, 2007; Rober, 2012; Lidbom et al., 2014). Desse ponto de vista, poderíamos dizer que todos esses enunciados ocorrem no momento presente. Mas, no diálogo, o passado ressoa, e nas respostas, o futuro pode emergir. Assim, no diálogo, o futuro pode servir de ponto de vista inspirador para criar novos sentidos, novas ações e novas compreensões (Boe et al., 2015; Seikkula e Arnkil, 2017).
Durante uma reunião de rede, a equipe profissional cria uma oportunidade para que as pessoas atendidas e os membros da rede compartilhem reflexões enquanto as demais escutam. Ao fazê-lo, os membros da equipe se olham e se falam diretamente, sem se dirigir à família ou à rede, para dizer o que foi ouvido durante a conversa. Nesse processo reflexivo, a equipe compartilha ideias, imagens e metáforas que vieram à mente durante a conversa com a pessoa atendida e sua família.
Andersen (1995) formulou algumas orientações para guiar esse processo reflexivo. As reflexões devem se apoiar no que foi dito ou expresso durante a conversa. É importante que não sejam afirmações, opiniões ou asserções de sentido, mas que sejam formuladas como ideias ou sugestões: afirmações e opiniões podem ser facilmente ouvidas como críticas. Outra regra: a equipe evita reflexões negativas. Ela é encorajada a usar uma linguagem comum, e o jargão profissional deve ser evitado (Andersen, 1992, 1995; Olson et al., 2014).
Seikkula e Arnkil (2017) afirmam que, quando a equipe profissional reflete em voz alta, as demais pessoas escutam presentes em seu próprio diálogo interno. Convidá-las a responder à reflexão abre um espaço para compartilhar esses diálogos internos. O objetivo é criar lugar para novas conversas, onde novos sentidos possam nascer durante a reunião de rede e onde a rede possa encontrar maneiras de seguir adiante. Compartilhar reflexões talvez seja abrir espaço para “o que ainda não foi dito” (Anderson e Goolishian, 1988; Rober, 2002).
Em uma reunião de rede, o compartilhamento das reflexões, o diálogo interno e externo, bem como o tempo, influenciam o processo dialógico.
A pergunta de pesquisa
Que influência o compartilhamento ou a retenção das reflexões pela dupla de serviço social exerce sobre o diálogo interno e sobre o diálogo externo, no curso de uma reunião de rede?
Nossas hipóteses levaram a um projeto de pesquisa em uma organização de cuidado à juventude, sobre a maneira como as equipes de serviço social trabalham junto com crianças, jovens, pais e outros membros da rede social. Nesta pesquisa-ação, trabalhamos com equipes profissionais abertas a mudar seu modo de atuar e desejosas de trabalhar ativamente com a rede social (Dekker e Van Dieren, 2020, 2021). Em novembro de 2020, as equipes de serviço social receberam uma formação básica na abordagem dialógica em reuniões de rede. Durante e depois dessa formação, estudamos como a abordagem dialógica pode ajudar crianças, jovens, pais, membros da rede social e equipes profissionais a encontrar sintonia quanto ao cuidado ou ao acompanhamento social. Como resultado dessa formação, uma assistente social e um assistente social gravaram uma reunião de rede, que usamos para o estudo de caso. Uma dessas duas pessoas assina este artigo em segundo lugar.
Neste estudo de caso, exploramos de que maneira o fato de a dupla de serviço social compartilhar ou reter suas reflexões influencia o diálogo interno e externo de todas as pessoas envolvidas. Na esteira dos trabalhos de Rober et al. (2008) e de Lidbom et al. (2014), quisemos explorar o processo dialógico por meio de um estudo de caso, observando como o compartilhamento de reflexões influencia todas as pessoas que participam da reunião de rede. Trata-se de um estudo de caso qualitativo sobre um pai e seu filho, atendidos após a morte da mãe.
A situação
O filho havia entrado no dispositivo local de cuidado à juventude alguns anos antes, aos quinze anos, em razão de um transtorno do espectro autista. Fora encaminhado a um programa de acolhimento em fazenda, um fim de semana por mês, a fim de aliviar a família e ajudá-lo a lidar com suas dificuldades. Quando a assistente social 1 encontrou a família pela primeira vez, ficou claro que era necessária uma ajuda maior, por causa dos acessos de raiva e dos sintomas depressivos do filho. No início, as conversas ocorriam somente com o filho; mas, bem cedo no processo, a dupla de serviço social decidiu que poderia ser útil atender o pai e o filho juntos.
Um ano depois, gravamos uma reunião de rede com o pai, o filho e a dupla de serviço social. Essa reunião foi organizada pela organização de cuidado à juventude e aconteceu na casa do pai e do filho. Foi gravada e durou uma hora e quinze minutos. Antes dela, a dupla havia tido vários encontros com o filho sozinho e haviam encontrado o pai quatro vezes ao longo de onze meses.
Depois da gravação, as pessoas presentes foram entrevistadas por quem assina o artigo em primeiro lugar, segundo o método da recordação estimulada por vídeo (Rober et al., 2008; Nguyen et al., 2013). Para analisar o conteúdo dos diálogos internos e externos, as reflexões e o jogo entre eles, recorremos ao conceito dialógico de Sullivan para a análise de dados qualitativos. Essa abordagem oferece ferramentas para analisar a subjetividade em dados qualitativos: “a subjetividade é teorizada como mutável e responsiva aos outros” (Sullivan, 2012, p. 1). Usamos em particular a noção de momentos-chave, que contêm enunciados portadores de significação, de reflexão e de impacto relacional (Sullivan, 2012, p. 21-23).
Três grandes temas foram abordados durante a reunião: a avaliação do comportamento social do filho, a relação entre o filho e o pai, e o encerramento do acompanhamento por uma das duas pessoas da dupla de serviço social. Os trechos escolhidos situam-se na segunda parte da conversa.
A primeira etapa foi a gravação da reunião de rede. A segunda consistiu em assistir à gravação com o filho e, depois, com o pai, separadamente, no dia seguinte. Pedimos que parassem o vídeo nos momentos significativos e respondessem à pergunta: “o que estava passando pela sua cabeça naquele momento?” Nenhuma outra pergunta havia sido preparada para essas entrevistas. As respostas foram filmadas. O mesmo procedimento foi repetido com a dupla de serviço social reunida, dois dias após a gravação, com o mesmo método e a mesma pergunta. Esse encontro também foi filmado.
A terceira etapa foi a transcrição de todas as gravações. A quarta foi a seleção dos trechos: só foram retidos aqueles em que as quatro pessoas haviam parado o vídeo e compartilhado seus pensamentos e sentimentos internos. Foram feitas treze seleções, em que essas quatro pessoas pararam a gravação aproximadamente no mesmo momento e apontaram esses instantes como significativos. Não obtivemos o tempo exato da pausa para as quatro pessoas: o vídeo era pausado com alguns segundos de diferença entre as pessoas. Foi dito muitas vezes que elas procuravam o momento certo para parar, e observamos que todas falavam do mesmo assunto. Havia, portanto, proximidade suficiente para poder reunir essas seleções.
Na quinta etapa, a partir dessas seleções, situamos os diálogos externos e internos de todas as pessoas presentes na posição correspondente à pausa que haviam feito na gravação. Na sexta etapa, procuramos a presença ou a retenção de reflexões compartilhadas nesses trechos e examinamos o que acontecia então no diálogo interno e o que se seguia no diálogo externo.
Entre esses trechos, escolhemos um que mostra a presença de reflexões compartilhadas e outro que mostra sua ausência, para construir nossa análise. O primeiro foi escolhido por quem assina o artigo em primeiro lugar como significativo por causa da riqueza do diálogo interno de todas as pessoas presentes, mesmo estando ausente o compartilhamento de reflexões. O segundo foi retido porque o pai e o filho designaram esse momento, depois, como poderoso e portador de sentido, uma vez compartilhada uma reflexão.
Nota da tradução
O artigo original apresenta a análise de cada trecho sob a forma de uma matriz de quatro colunas (a assistente social 1, o assistente social 2, o pai, o filho), cruzando diálogo externo, destinatário e diálogo interno, com um código de cores que distingue passado, presente e futuro. Essas duas matrizes não são reproduzidas aqui: sua leitura pressupõe a diagramação de origem. Os trechos de fala que elas contêm são restituídos nos comentários que seguem, e as matrizes completas constam do artigo original (tabelas 1 e 2). O título do segundo trecho continha um erro na versão publicada: ele é anunciado como uma retenção de reflexões quando ilustra o seu compartilhamento. Nós o corrigimos.
O tema deste trecho era a avaliação das mudanças ocorridas na relação entre o pai e o filho.
O diálogo externo trata da maneira como o pai queria elogiar o filho pela mudança de seu comportamento. A resposta do filho foi ofensiva para o pai. O assistente social 2 (um homem) perguntou ao filho a razão dessa resposta, e a assistente social 1 (uma mulher) pediu que a pergunta fosse deixada de lado.
O assistente social 2 fez a pergunta ao filho, e a assistente social 1 quis deixá-la de lado. Em seu diálogo interno, a assistente social 1 temia que a pergunta levasse a repetir a interação já vivida nos encontros anteriores com o pai e o filho. O assistente social 2 ouviu esse pedido e sentiu que ela provavelmente tinha boas razões; por isso concordou.
O diálogo interno do pai, durante esse trecho, era que ele queria fazer um elogio ao filho. Queria avançar com cuidado para que o adolescente pudesse receber esse elogio. A reação do filho despertou no pai sentimentos dolorosos de incompetência. Em seu próprio diálogo interno, o filho se perguntava por que havia tido aquela reação com o pai, pois percebia que a relação com o pai continuaria de um jeito ou de outro, enquanto a relação com a dupla de serviço social terminaria.
O tema deste trecho dizia respeito aos progressos que o filho havia feito em seu comportamento ao longo dos últimos onze meses. Em seu diálogo interno, o pai procurava cuidadosamente as palavras para expressar a melhora. No diálogo externo, disse: “Sim, de alguma forma percebo que ele passou a me levar muito em conta, no sentido de: ei, talvez eu deva parar de fazer perguntas à noite para todo tipo de conversa.” O filho reagiu: “Não tem necessariamente a ver com te levar em conta, tem mais a ver com o fato de eu ter te dado um monte de informação e agora estar simplesmente me fechando para você.”
No diálogo externo, o assistente social 2 perguntou: “O que faz você dizer isso? Fiquei curioso.” A assistente social 1 perguntou a ele “se estava tudo bem deixar a pergunta de lado por ora e não ir nessa direção”. O assistente social 2 respondeu: “Tudo bem.”
Nos diálogos internos, sentidos completamente diferentes foram vividos. Por causa dos acessos de raiva do filho no passado, o pai tinha cuidado com o que dizia, com a maneira de dizer e de fazer um elogio. Na entrevista de recordação, o filho explicou sua reação com o pai: a pergunta do assistente social 2 o fez perceber que aquela maneira de reagir era “muito ofensiva” com o pai. O filho ficou contente que a assistente social 1 quisesse deixar a pergunta de lado. Em seu diálogo interno, o pai vivia a reação do filho assim: “sinto que estou ficando aquém”. No diálogo externo, o pai disse que duvidava da sinceridade daquela reação, mas respeitava os sentimentos do filho; ele a questionava porque, na vida cotidiana, o comportamento do filho mostra outra coisa. Depois de assistir a esse trecho, o filho começou a refletir sobre sua reação e a reconstruir maneiras de se entender com o pai no futuro: “Percebi que preciso lidar com isso, porque meu pai vai ter um papel na minha vida e a assistente social 1 terá desaparecido dela.”
No diálogo interno da assistente social 1, a interação entre pai e filho foi vivida de modo diferente do que pelo assistente social 2. Ela não queria discutir as razões da reação do filho com o pai. Seus motivos vinham das experiências anteriores com essa dupla e da esperança de dar ao pai espaço para se expressar.
Em seu diálogo interno, o assistente social 2 não sabia disso e viveu o pedido (de deixar a pergunta de lado) como inadequado, acreditando que a colega pensava que “se eu fizesse essa pergunta ao filho, isso não convidaria o pai a responder. Mas senti que você queria impedi-lo.” Ele sentiu que ela queria interromper aquela interação e concordou em deixar a pergunta de lado por ora, porque lhe reconhecia um conhecimento prévio da situação.
Para lembrar
Pode parecer que o espaço dialógico se fechou a pedido da assistente social 1. Mas, no diálogo interno entre pai e filho, muita coisa aconteceu. Isso mostra o quanto é importante ser sensível às expressões das pessoas atendidas e convidá-las a explorar o diálogo interno ligado a elas. Esclarece também o fato de que experiências anteriores podem gerar hesitação, no serviço social, em entrar no diálogo sobre temas já abordados (Olson et al., 2012; Seikkula e Arnkil, 2017). Neste trecho, a sintonia dentro da dupla de serviço social foi perturbada, o que levou a um fechamento do diálogo externo.
O tema deste trecho era a relação entre o adolescente e o pai.
O diálogo externo trata do uso do humor na relação entre pai e filho e do fato de o assistente social 2 ter apontado que, se as brincadeiras nem sempre são bem recebidas, é porque a relação entre um pai e um filho não é uma relação de amizade.
O assistente social 2 sentia que outra coisa estava em jogo na conversa além da simples incompreensão do humor entre pai e filho. Seu diálogo interno mostra: “ele pode sentir isso na relação com seu próprio pai”. Ele introduz então isso sob a forma de reflexão, depois que a assistente social 1 lhe diz que está pensando na relação entre os dois.
O diálogo interno do pai mostra que isso lançou outra luz sobre a situação. Nele, o pai diz que “gostou da síntese do assistente social 2 e que aquilo fez sentido” para ele.
Enquanto compartilhava sua reflexão com o pai e o filho, o assistente social 2 deu um tapinha no ombro do filho. Antes, na conversa, o filho havia dito claramente que não queria ser tocado pelo pai. Em seu diálogo interno, o filho conta que “achou muito corajoso que o assistente social 2 lhe desse um tapinha no ombro na hora certa e dissesse que o cerne do problema estava ali”. É o filho que, no diálogo externo, diz: “É isso.”
Durante a reunião, múltiplas vozes internas e expressões corporais podem ser suscitadas. As equipes de serviço social podem usar ativamente suas vozes internas e suas experiências e compartilhá-las no diálogo interno à equipe (Rober, 2005).
O tema deste trecho dizia respeito à relação entre o filho e o pai, e mais precisamente ao modo como usam o humor entre si. Não entendiam por que às vezes se desentendiam ao brincar. O filho afirma que não encontra os mesmos mal-entendidos em suas amizades.
As duas pessoas da dupla viveram esse momento como importante. A assistente social 1 tentou primeiro uma explicação do que poderia estar acontecendo, o que levou o filho a responder que ele era simplesmente assim.
A assistente social 1 voltou-se então para o colega e procurou dialogar com ele, tomando a relação entre os dois como ponto de partida. Em seu diálogo interno, ela conta que procurava a melhor maneira de continuar. Isso, no entanto, abriu ao assistente social 2 a possibilidade de compartilhar suas reflexões sobre a diferença entre a relação que se tem com um pai e uma relação de amizade, e sobre o fato de o filho querer ser reconhecido pelo pai e saber que importa para ele. Essa reflexão vinha do que ele sentia em relação a seu próprio pai.
Poder compartilhar essa reflexão com o pai e o filho acrescentou mais uma voz à conversa, lançando outra luz sobre a discussão anterior a respeito da capacidade de ambos de receber certas brincadeiras. Isso levou, em seu diálogo interno, a uma reconstrução da situação, que o filho torna explícita no diálogo externo. Ajudou a distender a discussão entre pai e filho. Teve o mesmo efeito sobre o pai, que diz em seu diálogo interno que aquilo fez sentido para ele naquele momento.
Neste trecho, a dupla de serviço social conseguiu sintonizar-se, o que abriu ao assistente social 2 a possibilidade de compartilhar suas reflexões. Uma voz a mais era assim acrescentada à conversa, trazendo uma nova perspectiva sobre a situação (Rober et al., 2008). Acrescentar uma nova perspectiva abriu a oportunidade de criar um novo sentido entre pai e filho. Isso aparece tanto no diálogo interno quanto no diálogo externo. É evidente que o compartilhamento das reflexões dá sentido à conversa e abre a possibilidade de que o diálogo continue (Seikkula e Trimble, 2005; Seikkula e Arnkil, 2006).
Além do que acontece no diálogo externo, muito se passou na comunicação não verbal entre o assistente social 2 e o filho. Antes, na conversa, o filho havia dito que não queria ser tocado. Neste trecho, o assistente social 2 lhe dá um tapinha no ombro. No diálogo interno do filho, esse gesto aparece como um momento significativo.
Neste estudo de caso, constatamos que o compartilhamento e a retenção das reflexões podem influenciar os diálogos internos e externos das pessoas atendidas. Esse resultado abre a porta a outras pesquisas sobre o tema, para uma visão mais ampla da influência do compartilhamento e da retenção das reflexões e da maneira como as equipes de serviço social podem encontrar sintonia nas reuniões de rede. Como cabe ao serviço social conduzir mais reuniões de rede, supomos que uma formação nessa maneira de conduzi-las fortalecerá o sentimento de competência das equipes nesse papel.
Neste estudo de caso, a reunião de rede foi conduzida por uma assistente social e um assistente social. Constatamos que a presença de ambos beneficiava a reunião: enquanto uma pessoa estava mais ativamente envolvida na conversa, a outra podia escutar e, assim, deixar a conversa ressoar em seu diálogo interno e compartilhar isso com o pai e o filho. Através dos dois trechos, descobrimos que é importante que os membros da dupla também se sintonizem mutuamente. Essa observação poderia constituir uma premissa interessante para outras pesquisas sobre a maneira como as duplas de serviço social se sintonizam no momento presente.
Queremos também destacar a utilidade que o método da recordação estimulada poderia ter no trabalho social. Assim, no trecho em que uma reflexão é compartilhada, vale notar que o assistente social 2 não apenas compartilhou uma reflexão: acrescentou também uma voz pessoal ao diálogo. Além dessa voz pessoal, deu um tapinha no ombro do filho, quando este havia dito antes que não queria ser tocado. Poderia ver-se nisso uma transgressão de limite. O filho, contudo, achou isso corajoso, o que apareceu durante a recordação estimulada; e, durante a própria reunião, ele designou esse momento como o cerne do problema, dizendo: “É isso.” Ainda que o assistente social 2 tenha ultrapassado um limite do ponto de vista da boa conduta profissional, ele entrou no espaço social favorável ao diálogo.
Foi notável observar a significação reconstruída pelo fato de rever a conversa de rede com as pessoas atendidas. O recurso à recordação estimulada por vídeo levanta a questão de saber se e como esse método poderia ser empregado com mais frequência após as reuniões de rede. Os pensamentos e sentimentos expressos na sessão gravada pertencem ao momento presente dessa sessão. Rever a gravação no dia seguinte e refletir sobre os pensamentos e sentimentos daquele momento levou a ideias e emoções novas, no momento presente da exibição. Nesse processo, um novo sentido foi reconstruído, que enriqueceu a relação entre o pai e o filho. O filho declarou assim: “Percebi que preciso lidar com isso, porque meu pai vai ter um papel na minha vida e a assistente social 1 terá desaparecido dela.”
Isso aconteceu ao assistir ao trecho em que a assistente social 1 havia pedido ao colega que deixasse a pergunta de lado. Sem essa exibição, o diálogo interno do filho teria permanecido desconhecido e não teria havido nenhuma possibilidade de construir um novo sentido. Isso levanta a questão de saber se, caso a assistente social 1 não tivesse pedido para deixar a pergunta de lado, o filho teria ou não chegado à mesma conclusão. Ora, foi somente porque assistiu ao vídeo no dia seguinte que ele pôde formular isso.
São necessárias outras pesquisas sobre a maneira como as pessoas atendidas podem se beneficiar desse método e sobre como ele poderia ser usado na condução das conversas de rede. E, se esse método for utilizado, ele favorece ou mina os princípios fundamentais do dialogismo (Anderson, 2007; Anderson e Gehart, 2007), como a transparência e a criação de uma polifonia nas reuniões de rede?
Este estudo de caso mostra que o compartilhamento e a retenção de reflexões pela equipe profissional, no curso de uma reunião de rede, têm influência sobre os diálogos internos e externos de todas as pessoas presentes.
O compartilhamento das reflexões pela dupla de serviço social trouxe clareza à relação entre o pai e o filho. Fez aparecer a diferença em relação ao vínculo de amizade. No diálogo interno do pai e do filho, vê-se que se trata de um momento significativo para eles. E é o filho quem compartilha, no diálogo externo, a maneira como essa reflexão ressoa nele.
O resultado foi uma melhor compreensão entre pai e filho, o que fortaleceu sua relação e permitiu uma sintonia na conversa.
Neste estudo, vimos a importância do compartilhamento das reflexões em uma reunião de rede: ele contribui para abrir, no diálogo externo, a possibilidade de compartilhar o próprio diálogo interno.
Declarações do original
Financiamento. Ministerie van Volksgezondheid, Welzijn en Sport (VWS), auxílio no 332041.
Dados. As contribuições originais apresentadas no estudo constam do artigo e do material suplementar; outras solicitações podem ser dirigidas às pessoas designadas para correspondência.
Ética. Exame e aprovação éticos não eram exigidos para este estudo envolvendo seres humanos, conforme a legislação local e as exigências institucionais. O consentimento informado por escrito para participar foi dado pela representação legal ou pela família das pessoas participantes, assim como o consentimento para a publicação de qualquer imagem ou dado potencialmente identificável referente ao menor.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara que a pesquisa foi conduzida na ausência de qualquer relação comercial ou financeira que pudesse ser interpretada como um potencial conflito de interesses.
Nota da editora. Todas as afirmações expressas neste artigo são exclusivamente da equipe de pesquisa e não representam necessariamente as de suas organizações de vínculo, nem as da editora, da equipe editorial convidada e das pessoas responsáveis pela revisão.
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Tradução não oficial para o português de “Open Dialogue: A case study on the influence of sharing or withholding reflections during a network meeting”, publicado em Frontiers in Psychology (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
van Dieren, A., & Clavero, C. (2022). Diálogo aberto: compartilhar ou reter as reflexões durante uma reunião de rede. Estudo de caso (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/dialogo-aberto-compartilhar-ou-reter-as-reflexoes-durante-uma-reuniao-de-rede-estudo-de-caso (Obra original publicada em 2022 em Frontiers in Psychology, 13; republicada em 2022 por Frontiers Media, https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2022.1028757/full)
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