Red Sistémica · Psicoterapia
O que se joga nas primeiras sessões? Claudio Des Champs vê nelas o momento em que se decide o roteiro da terapia: conforme as perguntas feitas, as palavras retidas e a atenção dada aos recursos em vez das faltas, o sistema consultante passa a contar uma versão de sua história e não outra. O autor articula aqui a prática narrativa, a pesquisa em psicoterapia — aliança terapêutica e teoria da mudança do cliente —, a contribuição da psicologia positiva e da resiliência, o contágio emocional e os neurônios-espelho, e o “Anel Autorreflexivo do Tempo” de Boscolo e Bertrando, que faz a sessão circular do passado ao futuro para tornar a mudança verossímil.
Resumo
O artigo descreverá a importância das primeiras sessões/encontros psicoterapêuticos. Levará em conta a epistemologia e a prática sistêmica, particularmente a Narrativa, a noção de contágio emocional — neurônios-espelho, a pesquisa em psicoterapia — aliança terapêutica e teoria da mudança do cliente —, e a contribuição da psicologia positiva e da resiliência, criando assim a possibilidade de mudanças duradouras a partir de um novo roteiro que usará também o Anel Autorreflexivo do Tempo para estabilizar a confiança e a percepção de progresso apesar dos acasos das circunstâncias na evolução da vida dos seres humanos, dos sistemas consultantes.
“O problema não é tentar adaptar a terapia a uma classificação (diagnóstica) particular, mas saber que potencialidades o paciente lhe revela quanto à sua capacidade de fazer isto ou aquilo.”
Milton Erickson
“Uma noção essencial da crise é a intermediação do atual e do virtual, do possível; trata-se de invenção, de imaginação criativa.”
As primeiras sessões terapêuticas são fundamentais para construir uma equipe de trabalho otimista, que visa criar um contexto aberto à mudança, não psicopatológico, centrado na mudança, nos recursos, nas competências, nas soluções, nos processos resilientes. Deve-se levar em conta as características do mundo do cliente — trabalho, família, lazer — e também, se houver, os outros profissionais direta ou indiretamente envolvidos. Ou seja, o ambiente mais amplo, mais complexo, que reagirá às minhas intervenções, independentemente da eficácia da terapia ou da satisfação ou insatisfação do cliente a respeito dela.
Os clientes percebem muito depressa, a partir das primeiras perguntas, das primeiras reações, das primeiras trocas, o que o terapeuta propõe e aquilo que mais lhe interessa: o que falta, o que deu errado, ou, ao contrário, as competências e a maneira de retomar o que aconteceu antes. A partir desse momento, o sistema cliente acompanha o movimento.
O doutor Knock, na peça de Jules Romains, sustenta que as pessoas saudáveis são apenas doentes que ainda não sabem que estão doentes.
Jules Romains, Knock
Como se apresentam esses clientes/consultantes de psicoterapia? Em geral, como pacientes, palavra de origem médica. Portanto, vêm para ser tratados. Se vão ser tratados, será que estão doentes? A psicologia faz parte da saúde mental, portanto do mundo da doença e da cura. Esses clientes se apresentam numa atitude passiva, e a queixa acompanha esse começo. Sua posição, segundo um dos axiomas da comunicação de Watzlawick, é complementar inferior em relação à do terapeuta. Com um roteiro mais ou menos elaborado, apresentado como um fato consumado: “estamos aqui, com estes sintomas, nesta situação por causa disto ou daquilo, por minha causa, por causa deles, dele ou dela, nestas circunstâncias: o que o senhor pode fazer a esse respeito a partir daí, doutor, pode me curar, pode me explicar, pode me ajudar?”. Parece o início de um filme, de um romance ou de uma peça de teatro: a partir desse fato, dessa comunicação, a história se desenrolará. Ou não. Ou não, porque, se eu escuto esse relato como uma versão, como um texto, em vez de escutá-lo como um fato consumado, isso quer dizer que existem muitas outras versões possíveis. Assim, mais do que um novo roteiro, passando por uma etapa de improvisação, de criação que não terá cara de criação, pode-se chegar a uma adaptação, no sentido de um filme, de uma peça de teatro que é quase a mesma e, no entanto, diferente. Quando a fonte de inspiração do roteiro é uma obra original já publicada, fala-se de “adaptação”. Ela pode ser um romance, um conto, ou algo criado sob a forma de peça de teatro, de comédia musical. Ou de sessão terapêutica. Durante a sessão, levaremos em conta os elementos originais, os fatos e os personagens da versão apresentada pelo sistema consultante, e até outros colegas que conheçam esses clientes e nos falem deles, ou qualquer relatório ou prontuário a seu respeito. Mas, uma vez começada a sessão, os pacientes/clientes não terão — felizmente — outra possibilidade senão contar, ou melhor, contar a si mesmos e contar a mim a sua história, seu conflito ou seus infortúnios, no quadro de uma conversa durante a qual certas perguntas que eu faria, certas inflexões da minha voz, expressões faciais, sobressaltos, olhares, indiferença ou interesse liberarão, criarão novos sentidos. Essas novas adaptações e/ou reconstituições dos mesmos fatos, que antes não existiam e que doravante estarão munidas de novas palavras e de novas interpretações possíveis, farão parte do começo de um possível novo relato/roteiro de vida.
Uma vez que 40% dos resultados positivos em psicoterapia dependem das variáveis extraterapêuticas (do cliente), fatores que pertencem ao cliente e ao seu entorno e que contribuem para a mudança, segundo os dados da pesquisa em psicoterapia (Lambert, 1992), esse novo roteiro, ou nova adaptação ou reconstituição, deverá ser coconstruído com o sistema cliente no quadro da práxis do encontro. Isto é, nessa conversa inédita, singular, que pode criar raízes e integrar-se não apenas à vida dos clientes, mas também, em consequência, enriquecer sua identidade narrativa, já que nossa identidade é constituída, construída, inevitavelmente, por relatos. Ela está ligada ao possível, àquilo que a realidade permite neste caso único. Pode adaptar-se ao capital biopsicossocial de cada indivíduo, ao seu grau de maturidade ou imaturidade, ao seu modo de funcionamento, às palavras que ele usa para definir, apresentar, explicar sua visão.
Por outro lado, ela se inscreve num tempo e num espaço dados, no interior de um processo de mudança: o que pode ser pensado hoje talvez não possa mais ser pensado amanhã, e é bem provável que ainda ontem não se estivesse pronto para imaginá-lo.
“A práxis do encontro é uma cocriação entre o terapeuta/mediador e o sistema cliente: a sucessão de intervenções, a forma que estas assumem, constrói-se em função das trocas; elas são a consequência e a origem ao mesmo tempo.”
Isso deve acontecer numa situação de respeito e cordialidade e, desde o início, trabalhando para estabelecer uma sólida aliança terapêutica, responsável por 30% da predição da possibilidade de êxito ou de fracasso (Alexander, Luborsky, 1986) no campo das psicoterapias.
E não esqueçamos os 15% produzidos pelo fator placebo, isto é, as expectativas, a melhora produzida pelo fato de o cliente saber que está em tratamento psicoterapêutico e supor que isso lhe fará bem.
A teoria da mudança do cliente (Duncan, Hubble e Miller, 2003), a maneira do consultante/cliente de encarar sua mudança, de buscar as soluções para o seu problema, e sua colaboração ativa são fatores essenciais do sucesso terapêutico.
Uma vez firmado o vínculo entre o terapeuta e o sistema consultante, torna-se possível a construção de um novo relato, a criação de uma história/quimera nos termos de Boris Cyrulnik (2008), que permitirá ao cliente recuperar sua dignidade; em consequência, o processo de resiliência se põe em marcha.
Um aspecto essencial dessa abordagem é o conceito descoberto por Milton Erickson em seu artigo de 1954, “Pseudo-orientação temporal como procedimento hipnótico” (Pseudo-orientation in time as a hypnotic procedure), retomado por Steve de Shazer em 1980 com sua “pergunta do milagre” (1985, 1991) e desenvolvido ao longo do livro de Boscolo e Bertrando, Os tempos do tempo. Uma nova perspectiva para a consulta e a terapia sistêmica (1993).
Erickson descreve a hipnose não apenas como uma técnica de regressão ao passado, mas também como uma orientação para o futuro, na qual se sugere ao cliente que ele já obteve os objetivos hoje desejados. De Shazer retomará essa técnica sem a hipnose, em busca das soluções e considerando os problemas como essencialmente situacionais e ancorados na linguagem. É o cliente quem será o único juiz do que constitui uma solução, e é também ele quem considerará que as coisas vão suficientemente bem para que a terapia pare (1995). Isso se articula com a teoria da mudança do cliente (Duncan, Hubble e Miller, 1997), já descrita.
O conceito de “Anel Autorreflexivo do Tempo”, de Boscolo e Bertrando, é particularmente interessante a esse respeito.
Imagine o movimento de um balanço em câmera lenta, que vai em busca do passado do presente procurando imagens, lembranças que reforcem, por exemplo, aspectos positivos, para depois voltar, inevitavelmente, e passar ao presente do presente. Isso me permitirá observar o que se passa em mim, na minha imagem mental, qual é o resultado, o efeito desse retorno estratégico narrativo. E, sem solução de continuidade, o movimento desse balanço, sempre em câmera lenta, irá adiante, rumo ao presente do futuro. Tudo se passa, como num filme, durante a hora da sessão, e nessas cenas prospectivas, situadas num futuro possível, coconstruiremos um porvir inteiramente verossímil, estimulante, catalisador de ações proativas que conduzirão à realização desses objetivos, desses projetos, desses sonhos. Ou, ao menos — o que já não seria pouco —, essas cenas transformarão a visão presente que eles têm do seu passado e lhes permitirão encarar o desafio do presente do presente e do futuro imediato com uma atitude mais confiante e uma melhor autoestima.
Para terminar, o aspecto de ancoragem desses relatos está na técnica das perguntas, das conotações positivas entre outras, das minhas respostas verbais e não verbais, até aquele momento inéditas. Isso ampliará o campo do possível, já que os relatos respondem ao pensamento narrativo, sempre aberto a novas significações.
Levaremos em conta tanto a observação minuciosa das respostas verbais e sobretudo não verbais ou analógicas — sinais de assentimento, por exemplo — quanto a expressão de emoções ou de sentimentos positivos de aceitação do novo relato.
As técnicas da narração oral, a ação que avança, as descrições detalhadas são importantes: a escrita de roteiro, lembremos, distingue-se da escrita literária por sua apresentação de fatos visuais e auditivos, sempre no presente, e aproxima-se nisso da escrita teatral. Um roteiro deve descrever ou sugerir o que se verá e se ouvirá num filme.
Além dos diálogos, o roteiro contém também descritivos (as indicações visuais e auditivas). Durante as sessões, as descrições dos atos que serão realizados têm um efeito de sugestão muito importante.
Do mesmo modo, o entusiasmo e o estado de espírito do terapeuta serão um fator essencial: devemos levar em conta o contágio emocional, o wi-fi cerebral, descritos por Daniel Goleman em Inteligência social (2007), e a empatia sentida por meio do sistema da rede neural espelho, descrita por Giacomo Rizzolatti, Gallese, Iacoboni e outros, a partir da descoberta dos neurônios-espelho, graças à qual o efeito das nossas intervenções pode ser observado nesse cérebro que age no momento em que observamos as ações de outrem.
“O grupo de pesquisa do Instituto de Neurofisiologia da Universidade de Parma, dirigido por Rizzolatti, fez, no início dos anos 1990, uma descoberta muito importante para a compreensão dos processos mentais: a dos neurônios-espelho. Esses neurônios se ativam quando ações finalizadas são executadas, mas também quando observamos as mesmas ações executadas por outros… As mesmas cadeias de neurônios estão implicadas não só no reconhecimento da ação do outro, mas também no seu porquê, isto é, na intenção que a motivou. Esses processos… estruturam-se com base em circuitos que funcionam como se: não é possível compreender o sentido e as intenções do outro naquilo que ele faz senão imitando e reproduzindo em nosso corpo a sua ação (Rizzolatti & Sinigaglia, 2006). É esse processo que Gallese designa como uma simulação encarnada — embodied simulation — (Gallese, 2005 et al., 2006). Ela está na base de fenômenos psicológicos e relacionais muito importantes, como a empatia, a identificação emocional com o outro e a sintonização afetiva.” (Onnis, 2010)
Esses aspectos neurocientíficos constituem outros pilares desta abordagem terapêutica, que visa à emergência da evolução, ao florescimento das possibilidades de mudanças duradouras e das emoções positivas dos indivíduos, casais, famílias ou sistemas mais amplos com os quais interagimos.
Retomando a fórmula do doutor Knock, poderíamos dizer que:
“Na maior parte do tempo, nossos pacientes/clientes são pessoas saudáveis que não o sabem.”
Claudio Des Champs, 2010
Buenos Aires, 28 de agosto de 2011.
Nota do autor
Este artigo é uma versão corrigida e ampliada da exposição do autor no 7º Congresso da EFTA, nos dias 29, 30 e 31 de outubro de 2010, em Paris.
Quem é Claudio Des Champs
Claudio Des Champs é psicólogo, psicoterapeuta individual, de casal e de família. Professor universitário em Buenos Aires, é docente, fundador e supervisor da ESA (Escuela Sistémica Argentina). Editor e diretor da revista Perspectivas Sistémicas (1988-2007), dirige o site redsistemica.ar.
Referências
Onnis Luigi (2010). « Les voix intérieures de la famille. Mythes et fantasmes familiaux », chapitre I de Thérapie familiale en Europe : inventions à cinq voix, Goldbeter-Merinfeld E., Linares J. L., Onnis L., Romano E., Vanotti M., Éditions De Boeck Université, Bruxelles, Belgique.
Des Champs Claudio. « La Cour des Miracles de Rosario. Un travail communautaire systémique axé sur la crise », dans Auto-référence et thérapie familiale, Cahiers critiques de thérapie familiale et de pratiques de réseaux, n° 9, novembre 1998.
Des Champs Claudio. « Pathologie de la famille et interventions thérapeutiques dans un environnement démocratique : quels effets ? », mai 2006. Exposé de la 53e Conférence internationale du CIRCF (Commission internationale des relations du couple et de la famille), « Famille et démocratie, compatibilité, incompatibilité, chance ou défi », 7-10 juin 2006. Ce travail a été publié sur le site et dans le cahier de l'Exposition 2006 du CIRCF, en anglais et en français.
Este texto é a tradução para o português do original em francês do autor, publicado como “Le Réel comme le Possible : la Psychothérapie comme Scénario” pela Red Sistémica (primeira publicação: 7e Congrès de l’EFTA, Paris, 2010) e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Des Champs, C. (2023). O real como o possível: a psicoterapia como roteiro (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/o-real-como-o-possivel-a-psicoterapia-como-roteiro (Obra original publicada em 2010 em 7e Congrès de l’EFTA, Paris, 2010; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/30/le-reel-comme-le-possible-la-psychotherapie-comme-scenario-articulo-en-frances/)
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