Frontiers in Psychology · Casal
Uma terapeuta convida um marido a falar de si, e ele responde com uma contrapergunta. Bernadetta Janusz, Jörg Bergmann, Feliks Matusiak e Anssi Peräkylä examinam, com a lupa da análise da conversa, quatro primeiras consultas de terapia de casal em Cracóvia nas quais um membro do casal apresenta transtorno da personalidade narcisista. Esquivar-se da pergunta, travar o tópico, exibir independência: o narcisismo aparece aqui como um modo de interagir tanto quanto como um traço de personalidade.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Práticas de reivindicação de controle e independência na terapia de casal com narcisismo, de Bernadetta Janusz, Jörg R. Bergmann, Feliks Matusiak e Anssi Peräkylä, publicado na Frontiers in Psychology (Frontiers Media) (2020), doi: 10.3389/fpsyg.2020.596842, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os dezesseis trechos de transcrição e a tabela dos símbolos de transcrição (apêndice) são reproduzidos em imagem, tal como estão, em inglês e em notação de análise da conversa; os fragmentos citados na análise são traduzidos. A declaração sobre a disponibilidade dos dados não foi reproduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Para além de sua conceituação como transtorno da personalidade, o narcisismo deveria ser entendido como um padrão de práticas interacionais.
Bernadetta Janusz, Jörg R. Bergmann, Feliks Matusiak e Anssi Peräkylä
Resumo
Este estudo examina quatro primeiras consultas de terapia de casal envolvendo pessoas com problemas narcísicos diagnosticados. Um conceito sociologicamente enriquecido e ampliado de transtorno narcísico foi elaborado a partir da microssociologia do self de Goffman. Os métodos da análise da conversa foram usados para estudar em detalhe episódios em que essas pessoas resistem a responder a uma pergunta da pessoa terapeuta, bloqueiam ou dominam o desenvolvimento do tópico da conversa ou exibem ostensivamente sua independência interacional. Essas atividades são interpretadas como um padrão de práticas de controle desencadeadas pelas ameaças que a primeira consulta de terapia de casal impõe à autoimagem das pessoas atendidas. Os resultados são discutidos à luz dos debates psiquiátricos contemporâneos sobre o narcisismo; a equipe de pesquisa sugere que, para além de sua conceituação como transtorno da personalidade, o narcisismo seja entendido como um padrão de práticas interacionais.
“Das erste steht uns frei, beim zweiten sind wir Knechte”
“O primeiro passo nos é livre; no segundo, somos servos”
Goethe
Neste artigo, investigamos um conjunto de práticas interacionais que ocorrem em primeiras consultas de terapia de casal com parceiros que apresentam problemas narcísicos. Como essas pessoas têm dificuldade de demonstrar fraqueza ou necessidade de ajuda, muitas vezes negam a necessidade de uma terapia individual e ficam mais motivadas a vir à terapia de casal pelo risco de perder o parceiro ou a parceira (Links e Stockwell, 2002). Além disso, a terapia de casal com pessoas que apresentam condutas narcísicas tem interesse particular, porque as relações de longa duração são consideradas capazes de ter um efeito estabilizador, senão curativo (Ronningstam et al., 1995; Lewis, 1998, 2000).
Nas consultas de casal, os casais em que um dos membros é narcisista relatam com frequência problemas básicos de comunicação e, consequentemente, um nível significativo de estresse. Isso está de acordo com os resultados de estudos experimentais que indicam que cônjuges narcisistas são muito problemáticos para quem vive com eles. Eles são descritos como manifestando hostilidade (por exemplo, críticas e insultos) ao discutir conflitos (Peterson e DeHart, 2014; Lamkin et al., 2017), como tendo comportamento agressivo em tarefas competitivas (Keller et al., 2014) e como agindo de maneira exploradora (Konrath et al., 2014).
Na mesma linha, os estudos mostram que o tratamento do transtorno da personalidade narcisista representa um enorme desafio tanto para a terapia de casal quanto para a terapia individual. Yakeley (2018) relata a rejeição do diagnóstico, o sentimento de ser tratado injustamente ou a interrupção prematura da terapia como sérias dificuldades que entravam a psicoterapia. Um quadro semelhante é traçado por Tanzilli et al. (2017), que identificam a dificuldade de estabelecer uma relação terapeuta-paciente suficientemente boa como o principal obstáculo da terapia individual.
A terapia de casal com um cônjuge narcisista oferece um cenário naturalístico específico para o espetáculo interpessoal do casal (MacFarlane, 2004), que a pessoa terapeuta pode testemunhar na posição de destinatária (implícita) ou de escuta indireta (cf. Goffman, 1979). Lachkar (2004) destaca os padrões circulares e destrutivos de comunicação dos casais borderline-narcisistas que são encenados durante as sessões de terapia de casal. Links e Stockwell (2002) apontam como um desafio particular a defensividade aumentada das pessoas com problemas narcísicos quando o parceiro ou a parceira presencia uma interpretação, ou suas reações de desdém e raiva aos comentários da pessoa terapeuta.
Nos manuais diagnósticos, o narcisismo é conceituado como transtorno da personalidade que inclui caracteristicamente prejuízos no funcionamento do self e uma autodireção predominante, e que se manifesta em “um padrão difuso de grandiosidade (em fantasia ou comportamento), necessidade de admiração e falta de empatia” (APA, 2013). Nas teorias clínicas, a grandiosidade é entendida como defesa contra um estado interno de vulnerabilidade (Kohut, 1971; Levy et al., 2007, 2011; Ronningstam, 2012). Em contraste com essa visão intrapessoal, abordagens recentes conceituam o transtorno da personalidade como parte de um sistema dinâmico de interações (Livesley, 2018) que inclui fatores interpessoais ou situacionais. Esses fatores podem amplificar predisposições individuais da personalidade, de modo que, por exemplo, a apresentação da grandiosidade de uma pessoa pode variar ou oscilar durante uma sessão terapêutica, dependendo de quão segura ela se sente na relação com a pessoa terapeuta (por exemplo, Hopwood, 2018). Supondo que a manifestação do transtorno narcísico, conceituado como prejuízo no funcionamento do self, depende de certas condições sociais, são necessárias mais pesquisas na interseção entre o mundo interno e o self no mundo social. Para entender isso, precisamos de conceitos que vêm da sociologia do self.
Em nossa visão, a descrição clínica da vulnerabilidade na personalidade narcisista e o trabalho de Goffman sobre a vulnerabilidade genérica do self na interação social se complementam idealmente. Como argumentou Peräkylä (2015), há uma conexão teórica ainda não reconhecida entre a teoria da face de Goffman e a compreensão psiquiátrica das perturbações do self nos transtornos da personalidade. Essa ligação entre a descrição goffmaniana do self e as teorias clínicas contemporâneas do narcisismo implica que é a experiência da “face” que está prejudicada nos transtornos da personalidade, especialmente no narcisismo patológico.
Ao longo de sua obra, Goffman ressaltou que, sempre que indivíduos se engajam numa interação, eles necessariamente exibem aquilo que afirmam ser. Em seus primeiros trabalhos (Goffman, 1955), ele discutiu isso em termos de “face”. A face surge dos atributos sociais positivos que uma pessoa, por sua linha de ação na interação, reivindica para si e que ela espera que os outros ratifiquem. Em outras palavras, sustenta Goffman, por tudo o que fazemos na interação, reivindicamos uma imagem particular de nós mesmos, seja pelo que dizemos, seja pelo que fazemos.
Goffman mostra assim que o self é inteiramente social. Para manter a face, uma pessoa precisa do reconhecimento dos demais participantes da interação. Além disso, a socialidade do self implica que somos sensíveis não apenas à nossa própria face e ao nosso próprio self, mas também à face do outro. O ator goffmaniano sente embaraço também quando é o outro participante da interação que perde a face (Goffman, 1955).
Em seu ensaio de 1955 e em outros textos, Goffman é muito atento ao significado emocional do self assim reivindicado. Tomando emprestada a terminologia psicanalítica, ele observa que nós investimos nosso self: atribuímos uma emoção positiva à nossa autoimagem. Mas, por outro lado, também vivemos uma ansiedade intrínseca em relação ao nosso self. Os outros podem não ratificar o self que afirmamos ser. Isso significa que nossa face e nossa autoimagem são perpetuamente vulneráveis (Goffman, 1983).
Para Goffman, a vulnerabilidade do self é um subproduto inerente à interação social: engajar-se na interação significa aceitar o risco de não ser levado em conta, de não ser ratificado e de não receber resposta como aquilo que afirmamos ser (Goffman, 1955, 1971). As teorias clínicas do narcisismo especificam a vulnerabilidade do self ao apontar que existem indivíduos, por assim dizer, hipervulneráveis. Desde o ensaio de Freud “Sobre o narcisismo: uma introdução” (Freud, 1957, orig. 1914), esses indivíduos são chamados de “narcisistas” na medida em que dependem inteiramente da aprovação e da atenção dos outros (Kohut, 1971, p. 17) e têm grande necessidade de ser amados e admirados (Kernberg, 1975, p. 227).
Ao investigar as interações de pessoas narcisistas, podemos ver uma versão “realçada” da vulnerabilidade que está presente, de forma mais implícita, em todas as interações sociais. Por outro lado, a maneira goffmaniana de compreender a onipresença do self e de sua vulnerabilidade na interação social pode nos ajudar a ver com mais clareza os riscos ligados ao self em nossos materiais clínicos.
Em suas publicações, Goffman nunca tratou da psicoterapia, muito menos da interação psicoterapêutica. Embora seu trabalho sobre as sutilezas da apresentação de si na interação social tenha sido enormemente influente, ele nunca baseou seus estudos em gravações de episódios sociais reais: apoiava-se sobretudo em observações etnográficas e, ocasionalmente, em recortes de jornal ou citações de romances. É aí que entra a análise da conversa.
A análise da conversa foi desenvolvida como a microanálise das práticas pelas quais a ordem social é produzida pelos interagentes nas minúcias da interação social em curso na vida cotidiana comum.1 Em seus primeiros anos, a análise da conversa se concentrou na identificação e na descrição de mecanismos e dispositivos básicos, senão universais, da organização da interação social. É uma premissa básica da análise da conversa que as diversas peças que compõem a maquinaria interacional têm a dupla característica de ser independentes do contexto e sensíveis ao contexto (Sacks et al., 1974, p. 699). Os princípios dessa maquinaria interacional regulam, por exemplo, a alternância de falantes, o reparo conversacional, o desenvolvimento de tópicos ou a referência a pessoas. Eles se aplicam em diferentes contextos sociais, mas ao mesmo tempo oferecem aos participantes oportunidades de mostrar sua compreensão das condições contextuais particulares da interação e sua orientação para elas.
O potencial da análise da conversa para estudar as práticas pelas quais os interagentes particularizam um encontro social levou as equipes de pesquisa a ampliar o campo de estudo para além da interação cotidiana informal e a incluir a fala institucional, por exemplo audiências judiciais ou chamadas de emergência (Drew e Heritage, 1992), a psicoterapia (Peräkylä, 2019), a psiquiatria (Bergmann, 1992, 2017), e a fala que envolve participantes com desenvolvimento atípico, por exemplo pessoas com afasia (Goodwin, 1995; Goodwin (org.), 2003) ou autismo (Maynard, 2005). Mais recentemente, a análise da conversa tem sido usada como método em estudos sobre terapia familiar e de casal, abrangendo padrões interacionais no estabelecimento (Sutherland e Strong, 2011) e nas rupturas e reparos (Muntigl e Horvath, 2016) da aliança terapêutica, nas perguntas circulares (Diorinou e Tseliou, 2014) e nas assimetrias interacionais (Janusz et al., 2021).
A pesquisa em análise da conversa também retomou a ideia goffmaniana do self na interação social. Embora seu conceito de self não se traduza diretamente em observações detalhadas de análise da conversa, analistas da conversa começaram a investigar contextos de ação e ambientes sequenciais específicos em que as identidades situadas dos participantes se tornam relevantes ou em que os participantes se orientam para problemas de face (ver Maynard e Zimmerman, 1984; Lerner, 1996). Os estudos realizados até agora demonstraram que a orientação dos participantes para questões de face diz respeito apenas a momentos específicos da interação. Em sua análise da concordância em sequências de avaliação, Heritage e Raymond (2005) sugeriram que as reivindicações, e às vezes as disputas, sobre o conhecimento envolvem não apenas questões epistêmicas, como expectativas sociais, direitos e obrigações de saber, mas também questões de face. No entanto, a afirmação radical de Goffman sobre a onirrelevância da face não encontrou apoio empírico em estudos de AC, que se concentram em objetos conversacionais claramente definíveis.
De acordo com sua postura epistemológica, a análise da conversa se abstém de julgamentos sobre a factualidade de prejuízos no funcionamento do self, do transtorno da personalidade narcisista ou de outras condições clínicas; ela não pode contribuir diretamente para nossa compreensão do transtorno da personalidade. Pode, no entanto, analisar quando e como o comportamento de um participante se torna “notável”, para os demais participantes e para a equipe de pesquisa, como inesperado, inadequado, impróprio e, portanto, possivelmente não normal. Com base nessa concepção processual, não perguntamos “o que é e quem tem um transtorno da personalidade narcisista”, mas sim “quando” há um transtorno da personalidade narcisista.2 Assim, nosso foco principal está em quando, onde e como ocorre, numa sessão de terapia de casal, uma atividade que um olhar clínico identificará como traço de narcisismo.
O foco de nosso artigo é a questão de como pessoas com problemas narcísicos agem no contexto interacional da terapia de casal. Buscamos, em particular, analisar em detalhe as atividades dessas pessoas em situações em que se espera que respondam a perguntas pessoais. E observamos de perto como reagem quando sua personalidade ou seu comportamento é comentado pelo outro membro do casal ou pela pessoa terapeuta.
O conjunto de dados com o qual nosso estudo começou compreende as sessões iniciais de terapia de sete casais que relatavam, todos, problemas em sua relação conjugal.3 Em cada um desses casais, pelo menos um dos cônjuges havia sido diagnosticado com traços de transtorno da personalidade. Em quatro desses casais, um cônjuge (três homens, uma mulher) havia sido diagnosticado com traços narcísicos. Esses quatro casais, em conjunto, constituíram a base de dados deste artigo.
Quem conduziu as terapias tinha formação sistêmica em comunicação, em teoria sistêmica estrutural e nas abordagens de Milão, que constituíam sua abordagem terapêutica principal. Mas essas pessoas terapeutas também tinham formação complementar em terapia psicanalítica ou psicodinâmica.
A decisão de incluir no conjunto de dados apenas primeiras consultas se baseia no fato de que, no referencial sistêmico, as primeiras sessões costumam ser mais estruturadas do que as sessões terapêuticas seguintes, o que facilita as comparações entre casos. Nas primeiras consultas de terapia de casal sistêmica, as pessoas terapeutas incentivam os cônjuges a definir seus objetivos terapêuticos e as mudanças desejadas, investigando ativamente como as queixas podem ser influenciadas pela interação do casal. Na abordagem de Milão, as perguntas circulares são usadas na coleta de informações sobre os padrões relacionais da família; o objetivo da pessoa terapeuta é observar o que pode desencadear mudança nas interações (Selvini et al., 1980). Nas abordagens estruturais, espera-se que a pessoa terapeuta observe as transações familiares, em particular as ligadas ao problema apresentado, e organize a entrevista de tal modo que sua condução da sessão seja fonte de segurança e confiança para o casal (Weber et al., 1985; Nichols e Tafuri, 2013).
A questão da segurança é particularmente importante nas primeiras sessões. Os dois membros do casal enfrentam a dificuldade de ter de falar com uma pessoa desconhecida (a pessoa terapeuta) sobre seus assuntos conjugais mais privados, suas decepções um com o outro, sua história comum de conflitos, suas feridas e transgressões mútuas, seus desejos, esperanças e experiências mais íntimos. Em geral, os dois membros do casal sabem, ou ao menos pressentem, que cada um tem sua parte na turbulência e nos riscos do casamento. E, embora o papel da pessoa terapeuta seja reformular os “enunciados acusatórios” em termos de padrões relacionais problemáticos, estudos interacionais mostram que esse tipo de perspectiva circular pode contribuir para desenvolver ainda mais sequências conversacionais acusatórias (Patrika e Tseliou, 2016).
Em conjunto, o dispositivo da terapia de casal impõe aos dois membros do casal ceder o controle da imagem que se quer preservar. E essa situação é considerada particularmente ameaçadora para pessoas que já têm dificuldade de receber e manter o reconhecimento de sua autoimagem ideal (Links e Stockwell, 2002; MacFarlane, 2004).
Na análise das primeiras trocas entre terapeuta e pessoas atendidas, seguimos os princípios metodológicos da análise da conversa, ou seja, no primeiro estágio da análise, os dados foram estudados de maneira “não motivada” (Sacks, 1992, p. 175). O fato de as conversas examinadas terem ocorrido durante uma sessão psicoterapêutica não teve, de início, nenhum papel na análise dos dados, e os enunciados das pessoas atendidas não foram vasculhados em busca de sintomas clínicos. A equipe de pesquisa fez todo o esforço para evitar especular sobre as intenções ou os objetivos das pessoas atendidas e se comprometeu a ater-se à máxima da observabilidade. A validade de uma descrição tinha de ser alcançada remetendo a um detalhe observável da interação em curso. Nisso, a equipe seguiu a “política de estudo” etnometodológica, que consiste em tratar as atividades cotidianas como métodos dos membros para tornar essas mesmas atividades reflexivamente “relatáveis” (accountable), isto é, observáveis e descritíveis (Garfinkel, 1967).
A partir das gravações em vídeo das sessões psicoterapêuticas, grandes partes do conjunto principal de dados, além de consultas adicionais, foram transcritas segundo o sistema de transcrição consagrado na análise da conversa, desenvolvido originalmente por Jefferson (1984). A análise começou por “fazer uma observação”. O que chamou a atenção da equipe foram momentos em que a interação transcorria de modo inesperado: algo incomum acontecia, surgia um “tropeço” interacional manifesto, uma interrupção do fluxo da interação, uma intervenção notável de uma pessoa atendida ou alguma outra infração a uma regra conversacional. Deu-se atenção especial às maneiras como os participantes criavam esses momentos notáveis, contribuíam para eles ou respondiam a eles, e projetavam (como afirmações ou perguntas explícitas, como pressupostos ou, implicitamente, por meio de suas ações) atribuições positivas ou negativas sobre o próprio self e o dos outros.
Reuniu-se uma coleção desses eventos notáveis e de sua gestão interacional, ainda sem nenhuma interpretação clínica, mas atenta à questão de como esses eventos se relacionam com o posicionamento interacional e as autoimagens dos participantes. Diversos episódios foram analisados turno a turno quanto a seu desenrolar interacional, com o objetivo de identificar e desemaranhar as várias camadas de sentido de um enunciado num dado ambiente sequencial. Por fim, o “controle interacional” foi identificado como o fio condutor comum aos episódios reunidos. O conceito de controle interacional diz respeito a atividades por meio das quais as pessoas atendidas resistem à dependência interacional em relação aos outros (terapeuta ou cônjuge) ou determinam o curso seguinte da conversa. A análise mostrou que as atividades de controle são desencadeadas por ameaças às autoimagens interacionais das pessoas atendidas e servem como meio de gerir essas ameaças e de manter o self pretendido.
Os dados de nosso estudo foram coletados em primeiras consultas de terapia de casal realizadas no Departamento de Terapia Familiar e Psicossomática do Colégio Médico da Universidade Jaguelônica de Cracóvia.4 No departamento, as sessões de terapia são regularmente gravadas em vídeo para fins de formação e supervisão. Os casos que compõem nossa base de dados foram selecionados pelas pessoas terapeutas, que identificaram casais com os quais era particularmente difícil conversar. Com efeito, ao longo da terapia, a pessoa terapeuta chegara à conclusão de que uma patologia da personalidade poderia estar em segundo plano. Os casais que as pessoas terapeutas consideraram preencher os critérios foram informados sobre o projeto de pesquisa e consultados sobre sua disposição de participar. Os casais que aceitaram assinaram, por fim, a declaração de consentimento. A sintomatologia narcísica situava-se no nível de um transtorno da personalidade. O diagnóstico inicial de transtorno da personalidade foi depois confirmado por avaliação formal com o Procedimento de Avaliação de Shedler-Westen, SWAP (Shedler e Westen, 2007).
Na etapa seguinte, foram analisadas as gravações em vídeo transcritas de quatro primeiras consultas terapêuticas. Como resultado da análise dos dados, o fenômeno do controle interacional em casais com TPN (transtorno da personalidade narcisista) emergiu como o principal objeto de nosso estudo. Para verificar se esses fenômenos ocorriam mais de uma vez, percorremos novamente as gravações das quatro sessões que constituíam os dados deste estudo. Para comparação, também examinamos de maneira não sistemática outras sessões gravadas com cônjuges que não tinham diagnóstico de transtorno da personalidade narcisista, mas, como isso foi feito em modo exploratório, não foi incluído neste artigo. As práticas de controle próprias dos cônjuges narcisistas não foram identificadas em cônjuges com outros problemas de personalidade que não narcísicos nem em cônjuges sem problemas relacionados a transtorno da personalidade. No entanto, uma comparação sistemática precisa ser feita em estudos futuros.
As práticas de controle empregadas pelos cônjuges com problemas narcísicos dizem respeito à posição sequencial na interação, à gestão do fluxo de tópicos da conversa e à exibição e encenação da identidade. A seguir, essas três áreas de práticas serão tratadas uma a uma, embora na realidade se sobreponham e se entrelacem, razão pela qual os mesmos exemplos são às vezes usados para diferentes propósitos analíticos.
Em nossos dados, as pessoas atendidas fazem repetidamente movimentos pelos quais se esquivam, no plano interacional, da posição de resposta. De modo geral, na interação social, todo enunciado que inicia uma sequência estipula o tipo e o leque das atividades subsequentes. Ao fazer uma pergunta, quem fala gera em quem recebe a expectativa de uma resposta e restringe os termos dessa resposta. Assim, quem recebe a pergunta fica fortemente limitado por ela e por sua formulação, seu modo e seus pressupostos; seu turno é “sequencialmente dependente do anterior” (Schegloff, 1968, p. 1076).
Na psicoterapia, o regime pergunta-resposta é afrouxado; as perguntas não são formuladas como pedidos insistentes de informação, mas como convites a cooperar oferecendo espontaneamente uma resposta. De fato, no segmento a seguir (o significado dos símbolos de transcrição está no apêndice),

a psicoterapeuta nem sequer formula uma pergunta, mas expressa seu desejo de saber mais sobre seu interlocutor, o marido. E, como o marido permanece em silêncio por dois segundos, ela prossegue explicando-lhe por que sua participação é importante.
A iniciativa discreta da psicoterapeuta para levar o marido a falar de si mesmo tem apenas sucesso parcial. Ele reage, mas não responde à pergunta da terapeuta.

Em sua recusa (“Não”), o marido contesta dois aspectos da iniciativa da terapeuta. Ele recusa a oportunidade de decidir por si mesmo o que é importante para ele e sobre o que gostaria de falar. E, embora, ao formular um contrapedido, reaja à pergunta da terapeuta, ele não a responde. Resiste às condições estabelecidas e controladas pela pergunta da terapeuta e formula, por sua vez, as condições sob as quais estaria disposto a responder. Assim, sua resposta evasiva e seu contrapedido podem ser vistos como um movimento para controlar os termos de sua participação.
Não é incomum, na interação cotidiana, que destinatários, em vez de responder a uma pergunta e assim aceitar implicitamente sua legitimidade, tentem resistir às restrições do formato pergunta-resposta e alterar o curso da interação (Stivers e Hayashi, 2010; Heritage e Raymond, 2012). Em muitas organizações que processam pessoas, a interação consiste numa série de sequências de pergunta-resposta (Drew e Heritage, 1992) e, embora se espere que as pessoas atendidas se atenham às condições da pergunta, elas com frequência se esquivam das perguntas ou resistem a elas, como foi mostrado em interrogatórios policiais (Jol e Stommel, 2016), entrevistas jornalísticas (Carranza, 2016), aconselhamentos (Muntigl, 2013), psicoterapia (Yao e Ma, 2017) e outros contextos institucionais (Chevalier e Moore, 2015).
No entanto, a relutância de H, no trecho n.º 1, em se submeter aos vínculos sequenciais de uma pergunta anterior não é um evento isolado, mas um evento recorrente, que pode ser observado como padrão habitual em muitos outros momentos desta sessão terapêutica, como no segmento a seguir:

Cerca de quinze minutos depois do início da primeira sessão com um casal de cerca de 40 anos, a terapeuta convida o casal a contar mais sobre seus motivos para vir à terapia. Depois que a esposa dá algumas informações sobre si mesma e sobre sua visão dos problemas do casal, a terapeuta se volta para o marido e pede sua contribuição complementar. Em vez de responder dando a informação pedida, o marido responde com uma contrapergunta, querendo saber se isso é necessário. A pesquisa mostrou que há uma despreferência por perguntas iniciadas por pacientes nos encontros médico-paciente e que as perguntas que, ainda assim, os pacientes fazem são modificadas para indicar seu status despreferido (Frankel, 1990). No segmento n.º 2, a contrapergunta do marido não é marcada como atividade despreferida. Com sua indagação sobre a necessidade da pergunta da terapeuta, ele não apenas desafia a autoridade profissional dela, mas sai do espaço interacional em que sua ação é controlada pela pergunta anterior da terapeuta. Ao fazer ele mesmo uma pergunta, ocupa uma primeira posição sequencial, tornando uma resposta da terapeuta “condicionalmente relevante” (Schegloff, 1968, p. 1084) e exercendo, por sua vez, controle sobre a ação seguinte da terapeuta.
Em uma de suas primeiras aulas (1964), Sacks observou que “a tentativa de passar para a posição de ‘quem pergunta’ parece ser algo que as pessoas se esforçam bastante para fazer. (…) Enquanto se está na posição de fazer as perguntas, tem-se em parte o controle da conversa” (1992, p. 54). E, a respeito da interação adulto-criança, Mishler (1975, p. 99) observou que “quando adultos iniciam uma conversa com uma pergunta, mantêm o controle de seu curso por meio de perguntas sucessivas, (…) quando crianças fazem uma pergunta a um adulto, o adulto recupera o controle respondendo com uma pergunta”. Parece óbvio que a sequência pergunta-resposta tem uma lógica de controle embutida. As perguntas não apenas estipulam que uma resposta é devida, mas também determinam que tipo de resposta é esperado.5 Como mostramos, é característico das pessoas narcisistas atendidas “escapar” depois de uma pergunta pessoal, por meio de respostas evasivas ou contraperguntas. Com suas manobras de resistência, marcam a pergunta anterior da pessoa psicoterapeuta como uma violação de sua autonomia e, ao mesmo tempo, reivindicam ostensivamente sua independência.
Em nossos dados, as pessoas atendidas controlam e restringem o fluxo de tópicos da conversa terapêutica. A seguir, mostraremos práticas por meio das quais isso é feito.
Numa interação verbal, sempre se fala “de alguma coisa”, e aquilo de que se fala constitui o “tópico” da conversa. De modo geral, o tópico se caracteriza por dois componentes complementares que, juntos, formam uma unidade contraditória (Bergmann, 1990). De um lado, há uma restrição que garante que exista de fato um fluxo de tópicos. Essa restrição de progressividade impõe a cada falante a obrigação de contribuir com algo novo para a troca verbal em curso. De outro, a obrigação de introduzir elementos novos é contrabalançada pela restrição de não lançar qualquer assunto novo, mas de permanecer no tópico e zelar pela manutenção do tópico em curso da conversa. O desenvolvimento do tópico geralmente resulta da cooperação entre os coparticipantes, mas um participante pode recorrer a um “controle de tópico” mais estrito “para evitar a contestação de avaliações incômodas” (McKinlay e McVittie, 2006). A organização mais detalhada do tópico depende do tipo e da finalidade institucional do encontro.
Nas sessões de terapia de casal, uma maneira de as pessoas atendidas circunscreverem e dominarem o tópico da conversa é perseverar e insistir no próprio ponto de vista, como se pode ver no segmento a seguir.

Por meio de uma prática de reparo próxima da “substituição lexical” (Rae, 2008), a esposa rejeita o que a terapeuta disse sobre restaurar o terreno comum da vida do casal (l. 8 “Não se trata de restaurar”) e introduz uma versão alternativa do estado de coisas conjugal (l. 9 “trata-se de construí-lo”). Em seus enunciados seguintes (l. 11, 13, 14-15), ela enfatiza e explica seu ponto de vista antes de entrar num monólogo com uma lista de diferenças entre ela e o marido. Essa lista é instrutiva em dois sentidos. Por um lado, é construída como uma série de formulações de caso extremo (“totalmente…”) que são usadas “em antecipação a escutas pouco solidárias” (Pomerantz, 1986, p. 227), para sublinhar a justeza de uma causa e prevenir possíveis refutações. Por outro lado, a lista de E é notável na medida em que é construída com quatro itens (l. 18-29) e, assim, se afasta da “tripartição” que Jefferson (1990, p. 89 e seg.) mostrou ser “um princípio estrutural básico” das listas. Com esse duplo exagero, E marca claramente que, para ela, essa questão não é negociável nem merece mais discussão; para ela, o assunto está encerrado.
Os dois trechos seguintes mostram ainda outro tipo de controle de tópico. Nesses casos, o controle de tópico ocorre depois que uma questão problemática foi levantada e descrita pelo cônjuge. No início do trecho 4 (l. 1-3), a esposa descreve o estado de espírito do marido, que ela considera problemático.

Embora a esposa esteja falando dele, o marido não aproveita a oportunidade para responder e permanece em silêncio (ver a pausa de 3 segundos na linha 07). Só quando a esposa aponta sua incapacidade de compreender a vida mental e emocional do cônjuge (“não sei o que está acontecendo com elas”) é que ele faz um comentário:

Com sua afirmação “faço o possível para não tê-las”, o marido transforma aquilo que a esposa acabou de descrever como problema em uma conquista sua. Mas, com o rosto num sorriso irônico, ele enquadra seu enunciado como uma observação engraçada e chega a olhar para a terapeuta, aparentemente monitorando a reação e a possível apreciação dela. Em caso de sucesso, uma observação engraçada gera riso conjunto, o que por sua vez leva regularmente ao encerramento do assunto em pauta.6 No entanto, no trecho acima, em vez de rir, a esposa reage com um comentário que exibe “saber” (l. 10: “pois é, exatamente”), e a terapeuta, em sua resposta, trata o enunciado dele como uma afirmação séria, ignorando seu subtexto irônico. No fim, a piada dele não encerrou o assunto. O desalinhamento entre as ações da terapeuta e as do marido continua nos turnos seguintes:

O marido começa a responder hesitante (l. 16), expressa dúvida quanto à adequação das palavras da terapeuta e, após uma pausa de 1 segundo, continua corrigindo a escolha de palavras da terapeuta (sentimento ou emoção). Embora o significado semântico do reparo permaneça obscuro, ele tem consequências interacionais em dois sentidos: provoca uma interrupção do fluxo de tópicos (Egbert, 1997), liberando assim o marido de ter de responder à questão levantada pela esposa (a ligação com suas emoções). E, ao rejeitar o vocabulário da terapeuta, o marido põe além disso em dúvida a competência profissional dela e mostra que não está disposto a entrar numa relação terapeuta-paciente com ela.
Uma prática ainda mais poderosa e ousada para assumir o controle do tópico da conversa pode ser encontrada nos trechos seguintes. Acima, examinamos esses trechos quanto ao controle da sequência; mas os mesmos exemplos envolvem também controle do tópico. Embora caiba à pessoa terapeuta conduzir a conversa e guiar o casal ao longo dessa primeira sessão, observamos em nossos dados vários casos em que a pessoa atendida age de modo a decidir o assunto da conversa e a maneira de abordá-lo. No exemplo a seguir, o pedido da terapeuta por dados pessoais básicos do marido leva a um silêncio de dois segundos.

O silêncio é interrompido pela terapeuta, que continua ampliando sua pergunta e sublinhando a importância da participação do marido. Em sua resposta, o marido se recusa a responder, alegando não saber o que a terapeuta espera (l. 04). Logo depois, o marido pede à terapeuta uma pergunta clara e objetiva para poder fornecer a informação solicitada (l. 07):

Enquanto o trecho (02) mostra a resistência do marido a entrar numa conversa temática segundo as condições estipuladas pela terapeuta, o trecho seguinte (01) capta um episódio em que o mesmo paciente bloqueia a iniciativa da terapeuta, desviando o foco temático de si mesmo para a terapeuta.

Após uma pausa de 1,5 segundo e um marcador de hesitação (m::::::), o marido primeiro rejeita a pergunta da terapeuta e continua a se esquivar de uma resposta com uma contrapergunta que indaga sobre a necessidade do assunto. Em vez de falar de suas perspectivas e problemas, ele inicia um movimento para transformar a conversa numa metadiscussão sobre a necessidade da pergunta da terapeuta, contestando, assim, a autoridade profissional dela.
Em resumo: como e em que direção o tópico de uma conversa se desenvolve no fluxo da fala é, em muitos aspectos, imprevisível para os coparticipantes. Na situação de uma terapia de casal, as pessoas atendidas podem se ver em situações embaraçosas, porque os assuntos levantados ameaçam seu self ideal e evocam sua vulnerabilidade. Como mostramos, as pessoas atendidas aplicam diversos métodos para assumir o controle do tópico conversacional, com o efeito de desviar ou prevenir a conversa sobre questões que poderiam ameaçar sua face. Podem insistir num assunto por meio de enunciados longos e monológicos, ou bloquear o desenvolvimento do tópico provocando riso com uma observação engraçada ou uma piada. O modo mais flagrante de afastar a conversa de um tópico ameaçador é envolver a pessoa terapeuta numa metaconversa, pondo em dúvida sua legitimidade para saber e fazer perguntas sobre questões pessoais.
Segundo Sacks et al. (1974), um aspecto-chave da maquinaria de tomada de turnos da conversa é que ela pode acomodar a “interação entre partes com quaisquer identidades potenciais” (p. 700). As identidades sociais dos participantes da conversa ganham existência por meio de suas maneiras de operar o sistema de tomada de turnos. Sacks et al. (1974, p. 718) destacam as transformações locais dessas identidades: a maquinaria da conversa “é compatível com multiplicidades e mudanças das identidades sociais de alguns ‘mesmos’ participantes”. A seguir, examinaremos essas multiplicidades de identidades das pessoas atendidas na terapia de casal.
Com frequência se distinguem duas facetas do self e da identidade. Uma tem a ver com o que é explicitamente dito ou pensado sobre uma pessoa; a outra, com o que uma pessoa vivencia ou transmite sobre si por meio de suas ações, sem necessariamente pôr essas coisas em palavras (ver Goffman, 1955; Neisser, 1988; Leary e Tangney, 2012). Bamberg (2007), Deppermann (2015) e Deppermann et al. (2020) distinguem, em linhas gerais, o “self narrado” e o “self encenado”, distinção que achamos particularmente útil no estudo da terapia de casal e que adotaremos a seguir. O “self narrado” envolve as atribuições verbalizadas que cada membro do casal faz sobre si e sobre o outro; o “self encenado” envolve aquilo que cada um transmite de si por meio de suas ações.7
Nas primeiras sessões de terapia de casal, como as que usamos como dados, as questões de identidade são particularmente pertinentes. A tarefa primordial da pessoa terapeuta é conhecer o casal: quem são os dois membros do casal e qual é o seu problema. Para a pessoa terapeuta, o self narrado (o que cada um conta de si) é importante, mas o self encenado, isto é, aquilo que cada um transmite por meio de suas ações sobre “quem se é”, é no mínimo igualmente importante.
Vamos agora percorrer novamente nossos trechos, reexaminando-os do ponto de vista da construção da identidade. Consideremos mais uma vez o trecho 2 apresentado acima. A terapeuta pediu ao marido que lhe contasse mais sobre si mesmo, e o marido se recusou a responder:

O marido, de fato, se recusa a falar de si: com isso, deixa de especificar melhor seu self narrado. Em termos de self encenado, porém, o marido é muito mais ativo. Recusar-se a responder à pergunta é um movimento poderoso de autoapresentação performativa: o marido mostra que não é alguém controlado pela terapeuta; ele destaca sua independência em relação à terapeuta. Nesse contexto, isso também pode significar que ele não é alguém que estaria buscando ajuda. Assim, ele reivindica e demonstra uma forte independência.
O trecho 2, também apresentado acima, envolve uma construção de identidade muito semelhante à do trecho 1. Novamente, o marido se recusa a revelar mais sobre seus problemas ou sobre os problemas do casal tal como os vê e, com isso, deixa de especificar melhor seu self narrado.

Em termos de self encenado, sua contrapergunta (linhas 3-4) mostra, como no trecho 2, que ele não é controlado pela terapeuta. O contexto específico em que o marido agora reivindica independência é importante: na linha 01, a terapeuta está buscando uma descrição dos problemas do casal tal como o marido os vê. Pelo próprio ato de se recusar a responder, o marido transmite algo sobre sua relação com os problemas: como não tem nem a necessidade nem a vontade de especificar problemas, ele também mostra que não tem problemas urgentes, ao menos não do tipo que poderia ser tratado aqui, na terapia de casal.
Nos casos mostrados acima, a construção de identidade mais intensa parece ocorrer no campo performativo, e não no declarativo. Consideremos agora o trecho 5, apresentado abaixo, em que as questões do self narrado são centrais. Olhando mais de perto, porém, os aspectos performativos da identidade são igualmente importantes também aqui. Pouco antes da troca mostrada no trecho 4, a esposa havia se queixado do hábito do marido de fumar maconha (dados não apresentados). No trecho 5, o marido contesta essa queixa.

O marido se lança numa descrição complexa do problema do casal, pela qual transmite também uma descrição de si mesmo. Primeiro, na linha 01, ele rejeita a atribuição do problema feita pela esposa (dados não apresentados) e depois, nas linhas 2-3, afirma que o problema está na verdade na incapacidade da esposa de entender o fumo. Enquanto a queixa anterior da esposa atribuía ao marido uma identidade de “fonte do problema”, ele agora faz uma contra-atribuição, afirmando que a esposa é a fonte do problema. O marido prossegue seu relato admitindo que teve uma dependência. A admissão vem envolta em recursos de minimização, como a referência temporal (por um mês) e a relativização da categoria “dependência” (talvez seja assim que se deva chamar). No plano do self narrado, o marido constrói assim uma imagem de si mesmo como usuário de maconha não problemático, maltratado e incompreendido pela esposa, portanto como vítima, e não como o culpado.
Alguns segundos depois, o marido volta a fazer movimentos que implicam uma identidade de vítima. Em resposta ao que a terapeuta disse no final do trecho anterior (linha 4) sobre a dificuldade, para ela, de julgar (se o uso de maconha pelo marido era uma dependência), os dois cônjuges afirmam que não esperam que a terapeuta julgue (dados não apresentados). Isso leva a terapeuta a perguntar o que eles acham que é a terapia (linha 16 abaixo). A resposta da esposa é que eles aprenderiam a se comunicar (linhas 16-17).

Em vez de se posicionar sobre a sugestão de E, ou de tratar de alguma outra forma a pergunta da terapeuta, M retoma seus argumentos anteriores, apontando que E não o entende (linha 20) e que o problema está em E, e não em M (22-23, 25). Novamente, ele assume a identidade de vítima.
Enquanto o self narrado que o marido reivindicou é o de alguém incompreendido pela esposa, que não é a fonte dos problemas, mas antes vítima do comportamento dela, a identidade performativa parece bem diferente. O marido se engaja numa autodefesa que ele apresenta de maneira agitada, falando depressa, em tom agudo e gesticulando vivamente enquanto fala. Ele produz seus enunciados de modo autoiniciado, e não como respostas ou outras reações às iniciativas da terapeuta. Esse controle sequencial e temático se vê com mais clareza na parte final do trecho 4, em que o marido não responde à pergunta da terapeuta (l. 16) nem à resposta de E a ela (l. 17-18). Em vez disso, ele segue sua própria agenda autoiniciada. E mais: ele constrói sua (re)definição do problema do casal, nas linhas 19-20, 22-23 e 25, como uma afirmação com a qual a esposa deveria concordar, afastando-se assim do sistema normativo de tomada de turnos da terapia de casal (em que é a pessoa terapeuta quem faz as perguntas). Por essa ação autoiniciada, em que assume a primeira posição na organização sequencial, o marido exibe uma identidade. Apesar da reivindicação declarativa de ser vítima, sua performance o constitui como um ator independente.
Consideremos agora outro exemplo em que o self narrado está na superfície da interação e, no entanto, o trabalho de identidade é feito igualmente em termos do self encenado. Voltaremos ao trecho 3 discutido acima. No início do trecho, a terapeuta descreve uma maneira “típica” de vivenciar os problemas nos casais (ver o problema no outro cônjuge) e depois retrata a alternativa aparentemente melhor da “perspectiva de restauração” (l. 04-05) e do cuidado conjunto com os problemas (linha 05).

Enquanto o marido, na linha 07, parece ao menos minimamente concordar com a formulação da perspectiva alternativa proposta pela terapeuta, a esposa a refuta nas linhas 08-09, 11 e 12. A refutação tem, a princípio, uma espécie de aresta positiva, já que na linha 09 ela fala em construir (algo novo) como alternativa a “restaurar”. No entanto, ao continuar seu enunciado (linhas 11 e 12), ela desloca o foco referencial e enfatiza o negativo: não há nada a restaurar. Com isso, começa a construir, para si e para o marido, um self narrado de casal intrinsecamente infeliz. Essa construção da identidade negativa se intensifica à medida que a esposa continua a falar:

Como mostramos acima, com uma lista de descrições que empregam formulações de caso extremo, a esposa retrata nas linhas 14-24 o casal como um caso perdido. Se nos voltarmos agora para o self encenado, surge um quadro bem diferente. Como argumentamos na seção anterior, E assume no trecho 5 o controle do tópico e o controle da sequência. Ao mudar a perspectiva temática (da expectativa de restauração para a lamentação do fracasso) e ao passar de uma posição de resposta preparada para ela pela terapeuta para a primeira posição, por meio de uma autorrevelação carregada de emoção, ela exibe independência interacional em relação à terapeuta. Essa independência é colorida pelo que se poderia chamar de “honestidade apaixonada”, já que ela assume atribuições abertamente negativas para o casal.
No início desta seção, distinguimos entre self narrado e self encenado. Os casos examinados nesta seção mostraram que os selves narrados reivindicados pelos participantes eram bastante variáveis: nos trechos n.º 1 e n.º 2, o paciente evitava declarar uma identidade; no trecho n.º 5, o paciente se apresentava como vítima e situava o problema na esposa; já no trecho n.º 4, a paciente assumia ativamente os problemas como parte da identidade do casal. Se o quadro dos selves narrados era assim variável, o exame dos selves performativos mostrou um quadro mais unificado. Em todos os casos mostrados acima, os selves performativos das pessoas atendidas punham em primeiro plano sua independência em relação à interação em curso e, portanto, em relação aos demais participantes dessa interação.
Sugerimos que essa reivindicação performativa de independência é tão importante quanto as reivindicações declarativas variáveis, se não mais, no trabalho de identidade e na autoapresentação das pessoas atendidas nas primeiras consultas. Sugerimos, além disso, que a reivindicação de independência interacional depende fortemente do contexto. A consulta de terapia de casal, como situação social, envolve uma possibilidade de dependência: o casal está ali para buscar ajuda. Os contextos sequenciais locais que examinamos acima envolviam possibilidades mais específicas de dependência, especialmente quando o outro membro do casal atribui problemas à pessoa atendida. Por isso, sugerimos que as reivindicações de independência são desencadeadas por riscos de dependência que emergem na interação da terapia de casal.
Neste artigo, descrevemos, por meio da AC, três facetas da interação (sequência, tópico e construção da identidade) em que se pode ver as pessoas narcisistas de nossa amostra exercerem controle interacional. Observamos:
As práticas de controle das pessoas atendidas colocam diferentes desafios e dificuldades para quem faz terapia de casal. Parece haver duas áreas-chave do trabalho terapêutico a que essas dificuldades dizem respeito: a capacidade de revelar fraquezas e problemas pessoais e, ligado a ela, o estabelecimento da relação terapêutica.
O conceito clássico de aliança terapêutica de Bordin (Bordin, 1994) envolve o engajamento num trabalho colaborativo orientado por objetivos, bem como o desenvolvimento de relações recíprocas e interativas. Sugerimos que a exibição de independência pelas pessoas atendidas pode representar um grande desafio para o desenvolvimento da colaboração terapêutica em “micronível”.
Um aspecto da teoria de Bordin diz respeito à aliança de trabalho. Significa que construir uma aliança é um processo de negociação ativo, às vezes implícito, que começa desde o início do tratamento e é renegociado ao longo das sessões terapêuticas seguintes (Bordin, 1994; Hatcher e Barends, 2006). As práticas pelas quais as pessoas com problemas narcísicos negam a dependência interacional e controlam o curso do encontro podem bloquear esse “processo implícito de negociação”. Essas práticas muitas vezes induzem, tanto na pessoa terapeuta quanto no outro membro do casal, silêncios, marcadores de hesitação, disfluências verbais e outras manifestações de confusão momentânea, que podem indicar dificuldades em micronível na construção da “colaboração recíproca e interativa” entre todos os participantes da conversa da terapia de casal.
O outro aspecto da aliança, segundo a teoria de Bordin, diz respeito ao vínculo afetivo. As práticas de controle das pessoas atendidas também podem ser vistas como um bloqueio ao desenvolvimento do vínculo afetivo entre elas e a pessoa terapeuta, vínculo constituído pela dependência mútua e que contribui para o trabalho colaborativo. Por meio de suas práticas de controle, as pessoas atendidas marcam sua própria independência e autoridade, mas ao mesmo tempo exibem implicitamente seu desprezo pela face da pessoa terapeuta, corrigindo seu vocabulário ou minando sua agenda.
Concentrando-se no desenvolvimento da aliança terapêutica nos estágios iniciais do tratamento, Ronningstam (2012) sugere que pessoas narcisistas tendem a provocar e controlar a pessoa terapeuta, enquanto Dimaggio et al. (2006) descrevem sua tendência à luta de poder. Nossas observações estão de acordo com isso, mas nosso estudo mostra, além disso, que a própria organização interacional da primeira sessão de consulta, com sua estrutura geral de perguntas e respostas, prende essas pessoas num quadro de dependência (sequencial) que pode aumentar sua resistência e sua obstrução ao desenvolvimento da aliança.
A resistência a revelar os próprios assuntos pessoais tende a ocorrer cedo na psicoterapia, na maioria das vezes já durante as primeiras consultas de casal. Ao expor os problemas do casal, cada membro muitas vezes situa o problema no outro. Também é comum adotar posições defensivas quando se é descrito pelo parceiro ou pela parceira como a fonte dos problemas conjugais. Nosso estudo mostrou que as pessoas com problemas narcísicos parecem usar estratégias mais específicas para frustrar a revelação de seus problemas pessoais. Em nossa visão, essas práticas podem ser atribuídas à antecipação, pela pessoa atendida, de que uma conversa temática não controlada, com suas transições suaves e discretas de um assunto a outro, possa revelar fraquezas ou falhas e seja, por isso, percebida como “arriscada”.8
A literatura clínica sugere que pessoas narcisistas são particularmente sensíveis a ameaças à autoestima (Freud, 1957). A taxa mais alta de abandono da psicoterapia entre pessoas narcisistas tem sido entendida como reflexo de esforços para gerir a autoestima (Ellison et al., 2013). Isso está de acordo com as observações clássicas de Abraham (1927, orig. 1919), que descreveu a tendência de pessoas narcisistas em análise a perturbar ativamente as intervenções que ameaçam sua autoimagem grandiosa.
Os riscos que uma pessoa atendida pode antecipar dizem respeito à sua autoimagem e podem decorrer de três contingências entrelaçadas. Para começar, a pessoa terapeuta, com base em sua autoridade institucional, tem legitimidade para definir as condições da conversa e fazer perguntas pessoais, uma assimetria que pessoas com problemas narcísicos podem perceber como ameaça à sua independência. Em segundo lugar, o outro membro do casal pode ser uma fonte adicional de ameaça à face da pessoa atendida, pois presencia a maneira como ela fala da situação conjugal; presencia também os comentários da pessoa terapeuta e pode, além disso, formar uma coalizão temporária com ela (Janusz et al., 2021). Em terceiro lugar, como mostramos, uma pessoa atendida pode perceber o fluxo temático livre da conversa terapêutica como ameaçador, já que ele poderia levar a afirmações ou histórias reveladoras de seus problemas ou fraquezas.
A coocorrência, em nossos dados, dos riscos ao self e das atividades de controle pode ser interpretada à luz do debate clínico clássico sobre vulnerabilidade e grandiosidade no narcisismo. A grandiosidade se manifesta nas sessões terapêuticas raramente como “grande grandiosidade”, isto é, como jactância e fanfarronice, e mais frequentemente como exibição de superioridade momentânea e de dominância interacional. Exercer controle é uma das formas pelas quais a “pequena grandiosidade” pode aparecer; quem está no controle pode se deleitar com sua suposta admirabilidade. Kohut (1971), Kernberg (1975) e Levy et al. (2007, 2011) sugeriram que, em pessoas narcisistas, os estados mentais grandiosos oscilam ou até coexistem com estados mentais vulneráveis. Com base em estudos empíricos, outros trabalhos (Cain et al., 2008; Pincus e Lukowitzsky, 2010) apontaram que há contextos sociais específicos que intensificam a dualidade entre grandiosidade e vulnerabilidade, resultando em desregulação da autoestima. A primeira sessão de terapia de casal pode ser um desses contextos.
A dialética entre riscos ao self e atividades de controle não é algo que esperaríamos encontrar apenas no ambiente da terapia de casal e em pessoas narcisistas. Goffman (1955) sugeriu que todas as interações trazem riscos ao self dos participantes e que esses riscos normalmente recebem resposta por meio de um trabalho corretivo (o trabalho de face, ou face work) para restaurar os selves ameaçados. A terapia de casal com pessoas narcisistas pode, portanto, ser tomada como um “prisma” que torna particularmente salientes e perceptíveis dinâmicas do self na interação social que estão presentes em todos os encontros sociais.
Pode-se argumentar que as primeiras consultas de terapia de casal são embaraçosas, senão ameaçadoras, para todas as pessoas atendidas, e não apenas para as narcisistas. A experiência clínica sugere que a primeira consulta é particularmente ameaçadora para pessoas narcisistas. Ainda assim, são necessários mais estudos sistemáticos que comparem pessoas narcisistas e não narcisistas. Seria muito interessante um estudo adicional que comparasse primeiras consultas e consultas posteriores, para saber se as pessoas com problemas narcísicos mantêm suas práticas de controle ou aprendem a soltar e afrouxar seu hábito defensivo.
Outra linha de pesquisa que não pudemos seguir decorre diretamente da configuração da terapia de casal. Embora tenhamos identificado as práticas de controle das pessoas narcisistas como manobras interacionais, não levamos em conta de forma sistemática a estrutura triádica da interação na terapia de casal. Na maioria dos casos, nosso foco foi a interação entre a pessoa terapeuta e um dos cônjuges, e não a tríade. Mas a presença simultânea da pessoa terapeuta e do parceiro íntimo, em que sempre um é o destinatário enquanto o outro é o ouvinte passivo, é certamente relevante para as práticas de apresentar, e continuar exibindo, uma autoimagem ideal coerente. Uma pesquisa sobre como as práticas de controle afetam as configurações terapêuticas triádicas, e são afetadas por elas, seria um complemento necessário e dos mais instigantes para o nosso estudo.
Uma questão crítica que atravessa todo o nosso texto é a de como afirmações sobre o domínio interacional (comportamentos de controle, riscos interacionais) podem ser ligadas a afirmações sobre o domínio interno (disposições ligadas à personalidade, percepções dos riscos ao self, narcisismo). Trata-se de uma questão ampla, e não menos filosófica, que evidentemente não pode ser enfrentada num único estudo, ainda mais empírico. Em nosso estudo, partimos do pressuposto, que é um pressuposto metodológico central da AC, de que ninguém pode olhar por trás da testa de outra pessoa e de que, portanto, a mente do outro não é diretamente acessível a ninguém.9 Por outro lado, no mundo cotidiano, somos capazes de “ver” as intenções dos outros, de “ler” suas mentes, já que não temos outra escolha senão dotar seu comportamento de sentido10. Nesse sentido, a mente dos outros é “transparente” para nós (Coulter, 1977). Os estudos etnometodológicos e de análise da conversa tratam de questões “cognitivas” como expectativas, memória ou percepção, mas essas questões são sempre e apenas tratadas como atividades observáveis. Nessa linha, abordamos o “narcisismo” como um objeto realizado e concretizado na e pela interação. Isso está de acordo com teorias psicológicas mais recentes (Hopwood, 2018; Livesley, 2018), segundo as quais os transtornos da personalidade não podem ser conceituados apenas como característica intrapessoal, mas devem também ser vistos como um fenômeno no contexto interpessoal. Ainda assim, reconhecemos também que a mente, como experiência subjetiva que emerge em contextos interacionais, é real e relevante para a compreensão dos transtornos da personalidade. Com base em nossa visão coconstrutiva dos transtornos da personalidade, surgem duas questões que poderiam ser temas de estudos futuros.
O diagnóstico de “narcisismo” (ou de qualquer outro transtorno da personalidade) é o resultado final de uma série de testes, entrevistas e outros procedimentos de avaliação por meio dos quais especialistas conseguem identificar e “ler” eventos interacionais observáveis como “sinais” ou “evidências” de uma condição intrapessoal não observável, isto é, como sintoma de uma disposição patológica oculta (Bergmann, 2017). Por outro lado, pessoas leigas se observam mutuamente em todas as interações, fazendo também, a seu modo, uma espécie de avaliação coloquial da personalidade. Pouco se sabe sobre como o modo do diagnóstico profissional e o modo da avaliação leiga se relacionam. É necessário um estudo que exponha e reconstrua as lógicas divergentes da avaliação psicológica em contextos leigos e profissionais.
Um segundo estudo, paralelo, seria necessário para esclarecer o status epistêmico respectivo da particularidade ou do prejuízo que motivou a demanda de ajuda psicoterapêutica. Em geral, o programa profissional de testes e sondagens leva a uma categoria diagnóstica na qual as contribuições dos procedimentos de teste e da interação social com a equipe que aplica os testes desapareceram. O problema é objetivado e atribuído a um mau funcionamento interno, com o resultado de que a pessoa atendida passa a aparecer como a única portadora responsável de uma doença. Um desafio, tanto para a clínica quanto para a pesquisa, é compreender o “transtorno da personalidade” não como um traço interno fixo, mas como padrões de interação contextual desencadeados por condições interacionais especificáveis.
Os encontros de terapia de casal com pessoas que têm problemas narcísicos impõem desafios específicos à pessoa terapeuta. Abordar os assuntos pessoais, os problemas e a vulnerabilidade da pessoa atendida pode ser percebido como ameaçador e pode levar diretamente a resistência e a respostas obstrutivas e não cooperativas. Mas abordar as práticas de controle interacional e as marcas de independência da pessoa atendida pode desencadear reações de recusa e de competição. Uma lição que se pode tirar de nosso estudo é que, em nossa visão, é aconselhável que terapeutas que trabalham com uma pessoa que apresenta problemas narcísicos organizem a primeira sessão de terapia de casal de modo discreto e exerçam, por ora, sua autoridade institucional de forma atenuada. Essa estratégia interacional “aberta” pode, é claro, também ser percebida como ameaçadora (como mostramos na seção “Controlar a posição sequencial”), mas aumenta as chances de que a pessoa atendida encontre por si mesma formas de participação cautelosa que possam, no processo seguinte, desenvolver-se numa cooperação mais livre e sem controle.
Outro desafio da terapia de casal com pessoas que têm problemas narcísicos está na confusão que terapeutas experimentam, com a sensação de que é difícil trabalhar com essas pessoas. Quem conduz a terapia pode não conseguir identificar com precisão as práticas que geram essa impressão. Os resultados de nosso estudo devem permitir a terapeutas desemaranhar sua compreensão intuitiva, isto é, discernir e identificar, no próprio curso da interação, as atividades e os fenômenos que causam seu mal-estar. Conhecer as práticas de controle das pessoas com problemas narcísicos ajudará terapeutas a trabalhar com suas próprias respostas internas e interacionais. Desse modo, poderão regular melhor sua própria contribuição para as interações problemáticas.

Complexe Systémique: a reter
Costuma-se pensar o narcisismo como uma propriedade da pessoa; este estudo o desloca para a troca. Em quatro primeiras consultas, a equipe identifica três gestos: sair da posição de resposta com uma contrapergunta, travar ou desviar o tópico e, sobretudo, exibir uma independência encenada, qualquer que seja a história contada sobre si (vítima, casal perdido, nada a dizer). A leitura é preciosa para a clínica sistêmica, porque essas condutas são suscitadas pelo próprio dispositivo: a primeira sessão, feita de perguntas e de uma testemunha conjugal, coloca cada um em posição de dependência. O sintoma se torna uma resposta ao contexto, e a orientação clínica que daí decorre é concreta: conduzir a primeira sessão de modo discreto, atenuar por ora a autoridade institucional e ler o próprio mal-estar como indicador das manobras de controle, e não como prova de patologia. Limites: quatro casais, um único centro, nenhuma comparação sistemática, uma tríade ainda pouco analisada e trechos de transcrição acessíveis aqui apenas em inglês. Para ler junto com o artigo sobre o transtorno de personalidade narcisista além das caricaturas e com a análise da conversa das perguntas de perspectiva de observação na terapia de casal.
Notas do original
1 Muitos dos analistas da conversa da primeira geração (Sacks, Schegloff, Sudnow, Turner) foram originalmente alunos de Goffman, mas, em seus trabalhos pioneiros, foram fortemente influenciados pelo programa etnometodológico de Garfinkel (1967).
2 Esse deslocamento etnometodológico da pergunta se inspira em Moerman, que fez pesquisa de campo com os Lue, na Tailândia, e mostrou que a pergunta “quem são os Lue?” precisa ser reformulada e substituída pela pergunta “quando são os Lue?” (Moerman, 1974, p. 66).
3 Originalmente, o conjunto de dados incluía também dois casais em crise. No decorrer da análise, esses dois casais foram excluídos e usados apenas como meio heurístico de comparação.
4 O projeto obteve a aprovação do Comitê de Bioética do Colégio Médico da Universidade Jaguelônica, n.º 1072.6120.76.2020.
5 Uma caracterização ainda mais forte das perguntas como instrumento de poder encontra-se em Massa e poder, de Canetti (1982): “Toda pergunta é uma intrusão à força. Usada como instrumento de poder, é como uma faca que corta a carne da vítima” (p. 284).
6 Sobre piadas e observações engraçadas como “dispositivos de saída” na interação, ver Haugh e Musgrave (2018).
7 A distinção entre self “narrado” e self “encenado” está ligada a uma questão sobre o lugar do “conteúdo” da fala na AC. Embora a AC siga a máxima de Wittgenstein de que “o significado de uma palavra é o seu uso na linguagem” (Wittgenstein, 2002 [1953], p. 18), ela também investiga como um conteúdo é formulado, por exemplo no uso de “categorias de pertencimento” ou em práticas de “formulação”, como “formular o lugar” (Schegloff, 1972) ou “formular planos” (Goodwin e Goodwin, 1996).
8 Queremos enfatizar que nossa noção de “antecipação” não é cognitivista, mas se refere às expectativas e percepções do futuro dos interagentes, que constituem um dos “contextos” para os quais se orientam suas ações; ver o artigo pioneiro de Drew (1995) sobre o “planejamento interacional antecipatório” ou Streeck e Jordan (2009) sobre a “natureza prospectiva da comunicação corporificada”.
9 Uma afirmação célebre de Garfinkel (1963, p. 190), que se tornou pedra angular da autocompreensão da etnometodologia, é: “Não há razão para olhar debaixo do crânio, já que nada de interessante se encontra ali além de cérebros.”
10 A respeito da estranheza do outro, Husserl (1960, p. 114) falava da “acessibilidade verificável daquilo que não é originariamente acessível”. Debates acalorados recentes sobre a “epistêmica” entre etnometodólogos e analistas da conversa mostram que há muito espaço para compreensões divergentes dessa perspectiva; ver as discussões na revista Discourse Studies em 2013 e 2016.
Financiamento. Este trabalho foi apoiado pelo subsídio 320248 da Academia da Finlândia.
Ética. Os estudos envolvendo seres humanos foram avaliados e aprovados pelo Comitê de Bioética do Collegium Medicum da Universidade Jaguelônica. As pessoas atendidas e participantes deram consentimento informado por escrito para participar deste estudo.
Contribuições. Todas as pessoas que assinam o artigo deram contribuição substancial, direta e intelectual ao trabalho e aprovaram sua publicação.
Conflitos de interesse. A equipe declara que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que pudessem ser interpretadas como potencial conflito de interesses.
Agradecimentos. A equipe agradece a Karolina Dejko-Wańczyk e a outros colegas da Cátedra de Psiquiatria da Universidade Jaguelônica de Cracóvia, bem como a colegas do grupo de pesquisa Facing Narcissism da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Helsinque.
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Tradução não oficial em português de Práticas de reivindicação de controle e independência na terapia de casal com narcisismo, de Bernadetta Janusz, Jörg R. Bergmann, Feliks Matusiak e Anssi Peräkylä, Frontiers in Psychology, vol. 11, art. 596842 (2020), doi: 10.3389/fpsyg.2020.596842, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (trechos de transcrição reproduzidos em imagem, em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Practices of Claiming Control and Independence in Couple Therapy With Narcissism”, publicado em Frontiers in Psychology (2020) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Janusz, B., Bergmann, J. R., Matusiak, F., et Peräkylä, A. (2020). Práticas de reivindicação de controle e independência na terapia de casal com narcisismo (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/praticas-de-reivindicacao-de-controle-e-independencia-na-terapia-de-casal-com-narcisismo (Obra original publicada em 2021 em Frontiers in Psychology, 11, 596842 (2020); republicada em 2021 por Frontiers in Psychology, https://www.frontiersin.org/journals/psychology/articles/10.3389/fpsyg.2020.596842/full)
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