Revista Latino-Americana de Enfermagem · Família
E se as famílias afetadas pela dependência química fossem vistas a partir de seus recursos, e não de suas falhas? No Brasil, onze familiares de pessoas atendidas em um CAPS-AD contam, com a ajuda do genograma e do ecomapa, o que as ajuda a seguir em frente: mobilizar-se em busca de apoio, manter a esperança e a fé, aprender a conversar de outro jeito.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Resiliência familiar: percepção de familiares de dependentes de substâncias psicoativas, de Bianca Oliveira Ruiz, Sonia Regina Zerbetto, Sueli Aparecida Frari Galera, Bruno José Barcellos Fontanella, Angélica Martins De Souza Gonçalves e Simone Teresinha Protti-Zanatta, publicado na Revista Latino-Americana de Enfermagem (Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (SciELO)) (2021), doi: 10.1590/1518-8345.3816.3449, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os trechos de entrevista reproduzem a versão original em português publicada pela revista; as notas do original foram reunidas no fim do artigo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Com essa postura, pode-se evitar estereotipar e rotular a família como “disfuncional”, “codependente” ou “resistente”, e percebê-la também como agente potencialmente ativo do processo.
Bianca Oliveira Ruiz, Sonia Regina Zerbetto, Sueli Aparecida Frari Galera, Bruno José Barcellos Fontanella, Angélica Martins De Souza Gonçalves e Simone Teresinha Protti-Zanatta
Resumo
Objetivo. Compreender a percepção de familiares de dependentes de substâncias psicoativas sobre os elementos do funcionamento de sua família na resiliência familiar.
Método. Estudo de abordagem qualitativa, fundamentado no referencial teórico interpretativo da resiliência familiar na perspectiva sistêmica. Participaram onze familiares de pessoas dependentes de substâncias psicoativas em atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas de uma cidade do estado de São Paulo. Para a coleta de dados, foram usados entrevista semiestruturada, genograma e ecomapa. A análise dos dados se baseou na técnica de análise de conteúdo, na modalidade temática.
Resultados. A partir das entrevistas, foram formuladas três categorias temáticas: mobilização em busca de apoio e suporte social; perspectivas positivas que fortaleceriam a família; e comunicação assertiva. Essas categorias remetem à mobilização e à união da família em busca de suporte social nos contextos intrafamiliar, da família ampliada e extrafamiliar, e a perspectivas positivas, como persistência, perseverança, esperança, fé e religiosidade.
Conclusão. Ter na família uma pessoa dependente de substâncias psicoativas pareceu mobilizar dispositivos de enfrentamento e tentativas de superação por meio das forças de resiliência. Os resultados podem favorecer o raciocínio clínico cotidiano das equipes de saúde, ajudando-as a reconhecer e valorizar os atributos de resiliência identificados.
Descritores: resiliência psicológica, família, relações familiares, transtornos relacionados ao uso de substâncias, adaptação psicológica, enfermagem psiquiátrica
O uso de substâncias psicoativas (SPA) costuma ter impacto negativo em vários aspectos da vida da pessoa dependente e de sua família: conflitos familiares, violência doméstica e alterações nas relações interpessoais são comuns, por exemplo(1-2).
Os estudos nacionais e internacionais sobre família e dependência de SPA costumam abordar a família como fator ou cenário de risco; predomina, portanto, uma visão negativa, voltada para as disfuncionalidades das relações familiares(2-3).
No entanto, aspectos funcionais da dinâmica familiar têm sido evidenciados no contexto da dependência de SPA(4-5). Nessa visão, a resiliência é construída, desenvolvida e vivida em contexto relacional e de experiência ao longo da vida. Assim, a resiliência familiar, percebida na unidade familiar e em sua funcionalidade, considera o modo como esse grupo enfrenta e lida com situações adversas, para se reorganizar de forma eficaz e superar tais dificuldades(6).
Estudos internacionais sobre resiliência familiar apontam que as famílias que vivenciam situações de sofrimento psíquico reorganizam seus padrões funcionais ao estabelecer rotinas diárias, ao promover eventos regulares que minimizam ou aliviam situações estressantes(6), ao proporcionar conexões intra e extrafamiliares(6) e ao buscar recursos de apoio e suporte social intra e extrafamiliar(6-7). No Brasil, há poucos estudos sobre o tema da resiliência familiar(8) e, no âmbito da saúde mental, o foco recai sobre características e fatores de resiliência individuais de familiares, que podem influenciar outro membro da família(8).
Os estudos nacionais sobre resiliência e consumo de SPA recorrem a métodos quantitativos, com a aplicação de escalas com dimensões do funcionamento familiar, para investigar a relação entre resiliência familiar e problemas decorrentes do consumo de álcool e outras substâncias nas famílias(9), ou para validar uma escala que envolve dimensões de funcionamento familiar e resiliência(10). Ambos os estudos apontam o reconhecimento da resiliência como fator de proteção para familiares que vivenciam problemas com SPA(9-10). Esses estudos salientam que vivenciar situações de alta vulnerabilidade pode despertar aspectos positivos individuais que ajudam a pessoa a enfrentar e superar as adversidades(9-10).
Assim, em 2013, a Organização Mundial da Saúde elaborou o Plano de Ação Integral de Saúde Mental 2013-2020, salientando que a saúde mental de uma população requer que as pessoas reconheçam seu potencial para lidar com os conflitos e as tensões da vida. Portanto, investir em estudos que compreendam as situações adversas vivenciadas por familiares da pessoa dependente de SPA pode ser útil para implementar estratégias de promoção da saúde mental que incluam a família.
Compreender o processo de resiliência da família, a partir da perspectiva de seus membros, contribuirá para aprofundar o conhecimento sobre o conceito de resiliência e sua aplicabilidade à prática de enfermagem. Entende-se que essa prática consiste em planejar, junto com as famílias, ações estratégicas de cuidado de enfermagem que as instrumentalizem para desenvolver e fortalecer sua resiliência, habilitando-as a responder como unidade funcional.
Diante do exposto, as perguntas que nortearam esta pesquisa foram: como familiares de dependentes de SPA têm enfrentado e superado esse problema? Que estratégias de enfrentamento essas pessoas usam e reconhecem como aquilo que as mantém em resiliência? Que elementos do funcionamento familiar contribuem para o processo de resiliência familiar, na perspectiva de familiares? Que forças, reconhecidas por esses membros da família, provocam mudanças positivas no funcionamento de sua família?
O objetivo foi compreender a percepção de familiares de dependentes de substâncias psicoativas sobre os elementos do funcionamento de sua família na resiliência familiar.
Estudo de abordagem qualitativa realizado com familiares de pessoas dependentes de SPA em atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS-AD) de uma cidade do interior paulista, Brasil. Adotou-se o conceito de resiliência familiar de Walsh(6), que valoriza o modo como o sistema familiar enfrenta experiências adversas e desafiadoras, se reorganiza de maneira eficiente e as supera, com repercussões em toda a família e em suas relações(6).
Os elementos constituintes do conceito de resiliência familiar envolvem o sistema de crenças, os padrões organizacionais e os processos de comunicação. As crenças se relacionam às percepções e à compreensão do mundo pela família. A unidade familiar pode extrair significados positivos de uma situação adversa para enfrentá-la e superá-la, por meio de atitudes de perseverança e esperança, de modo a identificar suas forças e seu potencial para resolver problemas(6). A família também pode recorrer a seus recursos religiosos e espirituais, como a fé, a meditação e as práticas religiosas, bem como aos aprendizados trazidos pela adversidade, que constituem fontes importantes de resiliência(6).
A organização familiar é compreendida pelo padrão organizacional que promove um relacionamento eficaz. O fortalecimento da resiliência decorre de uma estrutura funcional flexível da família, na qual ocorrem a conexão, a cooperação e o apoio entre os membros da família, bem como a descoberta e a mobilização de seus recursos sociais, econômicos e laborais(6).
O processo comunicativo consiste em formas de comunicação que facilitam o funcionamento da família(6), as quais devem ser claras, esclarecedoras e possibilitar a expressão aberta das emoções e o compartilhamento de sentimentos, a fim de decidir e resolver os conflitos coletivamente(6).
Participaram do estudo onze familiares de dependentes de SPA, por indicação da equipe de saúde do CAPS-AD: uma irmã, um cunhado, uma avó, quatro mães e quatro pais.
Os critérios de inclusão foram: ser familiar de uma pessoa dependente de SPA com mais de 18 anos de idade; participar de grupos de família ou de atendimento individual com profissionais do serviço, considerando-se esses indicativos de resiliência; e conviver com a pessoa usuária pelo menos duas vezes por semana. O critério de exclusão foi apresentar sinais de intoxicação por SPA no dia da entrevista.
A amostragem foi intencional e o fechamento amostral se deu por exaustão, isto é, quando todas as famílias disponíveis e elegíveis haviam sido entrevistadas, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão(11).
O encontro era agendado por telefone, com um encontro por família. As entrevistas foram realizadas no CAPS-AD ou no domicílio da família, de junho a novembro de 2016, com duração média de 1 hora e 30 minutos, e conduzidas por duas pesquisadoras (a primeira autora, então mestranda, e a segunda autora, doutora e docente universitária).
Realizou-se uma entrevista semiestruturada, com o uso do genograma e do ecomapa(12) na abordagem inicial das pessoas entrevistadas, com o objetivo de facilitar a interação e o acolhimento da família. Esses instrumentos foram construídos manualmente durante a entrevista e validados com as famílias, o que permitiu compreender a configuração familiar e os padrões organizacionais e relacionais do funcionamento familiar considerados positivos e flexíveis, destacando os processos fundamentais para a resiliência relacional, bem como a rede de suporte social. Em seguida, buscou-se fazer a caracterização sociodemográfica das pessoas participantes e introduzir a questão norteadora: “Conte-me como a sua família tem vivido, enfrentado e superado o problema das drogas”, a partir da qual se estimulou a expressão dos pensamentos da pessoa participante.
As entrevistas foram gravadas, transcritas e analisadas segundo a técnica de análise de conteúdo, na modalidade temática(13). A análise foi feita de forma independente pelas duas pesquisadoras, que depois se reuniram para rever, decidir, validar e chegar a um consenso sobre os relatos e os significados dos temas e das categorias. O processo consistiu em: leitura atenta aos detalhes de cada entrevista, identificando e codificando frases ou parágrafos relevantes que apontassem as percepções da família sobre a situação vivenciada, as estratégias de enfrentamento e superação das adversidades e as forças positivas utilizadas na organização e no funcionamento da família. Foram elaboradas planilhas para cada família em arquivo Microsoft Word, com anotações que indicavam os temas emergentes e seus respectivos relatos ilustrativos. Depois, as pesquisadoras leram todas as planilhas e buscaram agrupar e reagrupar os temas e os relatos de todas as entrevistas, que foram se constituindo em núcleos de sentido (considerando tanto a frequência das ocorrências quanto a inferência de sua importância para as pessoas entrevistadas). Em seguida, a classificação dos temas possibilitou formular categorias temáticas(13). Desse processo resultaram três categorias temáticas, comentadas na próxima seção deste artigo, que foram interpretadas por meio dos elementos presentes no funcionamento das famílias que auxiliam na resiliência familiar, segundo o modelo de Walsh(6): padrões organizacionais, sistemas de crenças e padrões de comunicação.
Os trechos que ilustram os relatos das pessoas participantes foram identificados segundo a seguinte convenção: F (número da família) e uma letra adicional que identifica o parentesco [M = mãe; P = pai; I = irmã ou irmão; C = cunhado]. Assim, o código F5-M significa a entrevista com a família 5, na qual foi entrevistada a mãe da pessoa usuária com dependência de SPA.
O estudo foi aprovado em 29/10/2015 pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sob o parecer número 1.302.491. Todas as pessoas participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido após o esclarecimento dos objetivos e da técnica de coleta de dados.
Quanto à caracterização de quem participou, o grau de parentesco com a pessoa dependente de SPA consistiu em uma irmã, um cunhado, uma avó, quatro mães e quatro pais, com idades entre 45 e 97 anos. Entre as famílias, quatro têm configuração nuclear. Quanto à religião, houve unanimidade cristã: uma família evangélica praticante e as demais católicas, também praticantes.
Foram formuladas três categorias temáticas que descrevem aspectos da percepção de familiares de dependentes de SPA sobre o que consideram ser ou acontecer no funcionamento de sua família e que as auxilia naquilo que a teoria chama de resiliência familiar: a) mobilização em busca de apoio e suporte social; b) perspectivas positivas que fortaleceriam a família; e c) comunicação assertiva.
Na primeira categoria, mobilização da família em busca de apoio e suporte social, a resiliência familiar consistiu na mobilização de recursos emocionais, afetivos, informacionais, institucionais, econômicos e sociais pelas famílias, para enfrentar e superar os desafios vivenciados, tanto no ambiente intrafamiliar e da família ampliada quanto no meio extrafamiliar. No ambiente intrafamiliar e da família ampliada, houve mudança de rotinas, com participação em grupos de mútua ajuda e em grupos de família no CAPS-AD, para auxiliar no tratamento da pessoa dependente e aprender a conviver com ela.
Eu fui ontem, no Amor Exigente, né? Fui com a esposa dele [dependente] porque, como ela está trabalhando, ela vai precisar frequentar as reuniões à noite. Então nós fomos lá [grupo de mútua ajuda], mas normalmente nós estamos vindo no CAPS, desde quando ele se internou. (E1F1-I)
Como demonstração de preocupação e cuidado, parte dos familiares abriu mão de um emprego para acompanhar a pessoa dependente da família no tratamento.
Então nós [casal] abrimos mão de tudo [...]. Que eu abri mão de outro salário, de outro emprego que eu tinha, para eu me dedicar exclusivamente ao tratamento dela [dependente]. (E1F2-P)
A união e o senso de conexão familiar também foram comentados. Fortalecer vínculos afetivos, estabelecer alianças positivas e valorizar sentimentos de amor entre os membros da família deram força à unidade familiar, aparentemente ajudando no processo de superação da crise.
A gente [marido e mulher] é super unido. [...] Estamos juntos até hoje (risos). A gente se apoia muito um no outro. [...] Na hora da dificuldade, então nós ficamos muito mais unidos do que a gente já era. (E1F3-M)
As situações desafiadoras vivenciadas por familiares permitiram refletir sobre suas relações, mudar comportamentos e fortalecer o vínculo do casal para enfrentar a situação de crise.
A gente [casal] era pouco de dialogar, de estar presente, agora a gente está mais presente, mais junto [...]. A gente percebeu que precisava de mais união para superar isso, e acreditar na força para superar e para seguir em frente e forte. E olhamos para trás e vimos que a gente estava bastante desunido, longe um do outro, o diálogo era pouco. [...] Nós temos nos sentido bem melhor, porque a união, como diz aquele ditado, “a união faz a força”; então a gente se unindo se sente mais forte para enfrentar. (E1F5-P)
Um sentimento amoroso, expresso e compartilhado entre os membros da família, foi apontado como motivo para não desistir diante da adversidade.
E o amor, né? Que a gente tem com a família, pelo filho, o amor que tem um com o outro [...]. A gente tem que ter amor também, porque senão, não dá. (E1F5-M)
Foi reconhecida a importância de investir tempo em atividades de entretenimento e lazer em conjunto para fortalecer vínculos e laços afetivos entre os membros da família, promovendo momentos de humor, distração, alívio de tensão, relaxamento e desabafo, além de relembrar momentos significativos da vida.
Às vezes, a gente [casal] fala: “vamos tomar um café da tarde junto”. E ele [irmão da entrevistada] também vem, ele passa. Então a gente é, entre irmão, muito unido. Esse momento de café da tarde, a gente esquece de tudo, né? A gente começa a rir, contar histórias, a gente relaxa. [...] A gente conversa, ri, conta piada, né? [...] Tanto a família minha, quanto a família dele é igual. [...] Faz o café da tarde. A gente tem os mesmos costumes. (E1F3-M)
Diante das dificuldades econômicas, buscou-se apoio financeiro de membros da família ou recorreu-se a outro emprego, com reorganização dos horários.
É, dificuldade [...]. Para você manter alguém na clínica, não é barato. A esposa [do dependente] ficou meio que na mão. Ela tem, trabalho ela tem, mas ela está sozinha, então ela teve que arrumar outro trabalho para agregar esse, conciliar, colocar a filha na escola o dia todo para poder ter meio período de muito trabalho e conciliar com o banho e tosa, e a gente dando suporte, tanto na medida do possível psicológico, quanto financeiro. Agora está se normalizando. (E1F1-I)
Por fim, recorreu-se ao apoio emocional de outros membros da família, por meio da escuta e de conselhos.
Emocional. [...] a gente é de família, a gente se sente mais à vontade para falar, né? Você sente segurança em falar para um irmão ou com uma pessoa mais chegada da gente, né? É difícil se abrir com uma pessoa de fora, você não fala, né? A gente fala, eles aconselham, né? Dá aquele apoio para gente, e tudo vai dar certo. A gente fica mais aliviado, né? (E1F3-M)
Quanto ao apoio extrafamiliar, houve busca de recursos da comunidade (clínicas de recuperação, internações particulares ou mediadas pelo CAPS-AD, defensoria pública e grupos de mútua ajuda: Amor Exigente e Narcóticos Anônimos), de equipes de saúde e de parentes ou amizades da família. Isso parece ter ajudado a compreender a situação, trazendo novos significados.
Então, nós procuramos uma clínica de reabilitação e ele foi internado. (E1F1-I)
A gente [casal] vai começar no Amor Exigente também, eu e ela, e ela [dependente] está louca para ir no NA [Narcóticos Anônimos]. (E1F2-P)
Por meio de sua equipe e do grupo de família, o CAPS-AD foi reconhecido como apoio institucional, informacional e emocional para o manejo de situações de crise, e esse ambiente é descrito como um espaço de aprendizado e acolhimento.
Então, primeiro o CAPS-AD aqui, né? Que eles [profissionais] me ajudam muito, o grupo de família tem me ajudado muito. [...] eu gosto de participar. [...] A gente aprendeu, aprende muita coisa, como lidar com ele [dependente]. [...] quando a gente vem no grupo de família, a gente sai daqui renovada, se sente muito melhor sabe, a gente sente força para continuar enfrentando, a pessoa, o doente [...] então eu me sinto assim forte, fortalecida para poder enfrentar ele em casa [...] eu saio daqui mais tranquila, mais calma. (E1F4-M)
Outra fonte de apoio emocional veio das amizades, seja na atenção, no cuidado espiritual, em palavras de conforto e de incentivo.
A gente [casal] busca força [...] nas pessoas que estão ali junto com a gente sempre dando apoio, sempre tem uma palavra que uma pessoa fala, já te põe ali em cima, né, ajuda, porque se você pega sozinho, você cai ali embaixo. [...] palavra de conforto, está ali sempre junto te perguntando como que está. Então quando a pessoa te dá uma força, te dá um abraço, te dá uma palavra amiga, te conforta um pouco, te conforta. (E1F5-M)
Na segunda categoria, isto é, a resiliência familiar envolvendo perspectivas positivas que fortalecem a família, foram relatadas crenças que teriam ajudado na resiliência, como a importância de manter a persistência e a perseverança.
Que a gente [casal] tem que lutar, não pode desistir, né? A gente tem que ir até o final, como eles [profissionais] falam [...]. Então a gente tem aquele apoio, sente aquela força de lutar, não desistir né? (E1F3-M)
Embora sentimentos e emoções negativos tenham sido expostos, foram relatadas fé e esperança de que a pessoa dependente da família se recuperasse, não voltasse ao consumo da substância e retomasse antigos hábitos e comportamentos saudáveis.
Tem que ter fé, né, porque se não, a gente não aguenta. Parece que a gente vai criando força na vida cada dia mais, e vai levando. A gente não pode perder a fé, não pode perder a esperança, não pode perder o amor, não pode perder a paciência, tem que estar sempre ali. (E1F5-M)
Então, tudo vai dar certo, que a gente acha que quando ele sair de lá [clínica], vai ser tudo diferente. [...] Essa esperança a gente tem, né? [...] Esperança que não vai mais usar droga. Que vai voltar a trabalhar, estudar, né? (E1F3-M)
Para parte dos familiares, o apego à religiosidade e às práticas religiosas pareceu importante para adquirir força e coragem no manejo da situação adversa e desafiadora das SPA; ele foi relatado como uma das estratégias de apoio espiritual e emocional e reconhecido como fonte de motivação para viver e continuar no tratamento.
Eu acho que se não fosse Ele, a gente não teria força de estar aqui hoje né? Para nós foi muito difícil. E a gente põe o joelho no chão e reza, e pede e ora e faz, né? Para Deus ajudar, para Deus pôr a mão, que tudo mude, né? Que mude a cabeça dele, né? (E1F3-M)
Na percepção da família, a oração individual ou em conjunto foi valorizada:
A oração está para fortalecer e pedir mais ajuda para gente estar firme, para seguir em frente. (E1F5-P)
Quanto à terceira categoria, isto é, a resiliência familiar envolvendo comunicação assertiva, reconheceu-se que a dificuldade vivida por familiares resgatou o diálogo entre os casais, sendo o desenvolvimento da “paciência” um aparente facilitador da união, já que possibilitaria avaliar e refletir sobre o que lhes acontece, para “tolerar” e “perdoar”.
Um pouco do diálogo, que antigamente quase não tinha. [...] Entre eu e ele [casal]. (E1F2-M)
Paciência [...]. A paciência é um combustível muito grande para união. Quem não tem paciência, não segue em frente. A paciência faz você dar um tempo para você analisar o fato. Se tudo for explodindo de imediato você não tem, você não tem paciência, aí você não tem tempo para analisar o fato: se eu estou certo, se eu estou errado, se eu devo tolerar, se ela [esposa] não tolerou, mas eu vou perdoar, mais tarde a gente fala sobre isso. (E1F5-P)
Percebeu-se, por exemplo, a necessidade de monitorar o tom de voz, para que houvesse compreensão e apoio mútuos.
Ele [esposo] é um exemplo dentro de casa, nunca me falta nada, né? Tenho sempre o apoio dele em tudo. Só que, às vezes, eu fico meio nervosa né? E, às vezes, falo um pouquinho alto com ele, ele fica nervoso, fala alto comigo. Aí eu falo: “nós estamos gritando um com o outro”. Falei: “não pode”. A gente procura se corrigir [...] não fica de cara virada para o outro, não fica de briga, de mal um com o outro, nós estamos sempre assim, um se apoiando no outro. (E1F4-M)
“Manter a calma” também foi uma estratégia mencionada, que permitia dialogar e buscar soluções para os problemas, evitando conflitos e agressões.
Porque a gente [casal] consegue dialogar, consegue conversar. Se um altera o outro já fala para abaixar a bola, vamos conversar, falar do assunto, buscar uma forma para resolver esse assunto, a pessoa sugere a fórmula e o outro analisa e acata. É impor uma conversa mais esticada, com calma, com diálogo mais tranquilo. Mãe fica mais brava e logo no início já altera e o pai não, pai já vai com outras palavras, mais com calma, buscando explicações, mais aprofundadas, sem se deixar alterar. Porque quando um altera, o outro se sente também agredido e ele também altera. (E1F5-P)
De modo geral, a literatura destaca a predominância da figura feminina no acompanhamento do tratamento de dependentes de SPA, principalmente mães, esposas e avós(14). Entretanto, os dados do presente estudo vêm de uma amostra que, embora numericamente reduzida, foi composta por um número muito próximo de homens e mulheres (cinco e seis, respectivamente); apresenta, portanto, equilíbrio de pontos de vista de familiares na perspectiva de gênero.
Quanto à primeira categoria, observou-se que as famílias participantes se mobilizaram de forma efetiva e espontânea em busca de apoio e suporte social, reorganizando-se para enfrentar as adversidades, como ocorre em outros contextos já pesquisados(7,15-16).
A necessidade de mudar a rotina das famílias para acompanhar o tratamento de seu membro adoecido mostra a presença de um dos atributos da resiliência familiar para resolver problemas, pois exigiu um novo padrão de funcionamento para atender às novas necessidades familiares, o que corrobora a literatura(6). Segundo o referencial sistêmico da resiliência familiar, ao lidar com uma situação adversa, a família pode mobilizar recursos e se reorganizar, adaptando-se às novas exigências decorrentes das condições de vida alteradas. A unidade familiar busca se reorganizar de maneira flexível e estável, a fim de preservar seu bom funcionamento(6).
Os dados deste estudo apontaram a busca de um equilíbrio funcional familiar na dimensão laboral, quando um membro da família precisou abrir mão do emprego para cuidar da pessoa dependente. A literatura salienta que os atributos da resiliência familiar envolvem reorganizar as condições de vida e, muitas vezes, abandonar desejos pessoais ou outras necessidades para se adaptar às novas demandas, com equilíbrio entre o trabalho cotidiano e a vida doméstica(6). No entanto, os problemas vivenciados no ambiente familiar também podem decorrer de contextos sociais e econômicos específicos, e parece importante que as equipes de saúde considerem essas dimensões mais amplas, que podem impactar o processo de resiliência familiar. Um estudo destacou a necessidade de os serviços criarem estratégias que facilitem a participação de familiares no tratamento da pessoa dependente, evitando ao mesmo tempo a interrupção da rotina de trabalho e de lazer(17).
Na visão das pessoas participantes deste estudo, a coesão e a conexão afetiva e emocional entre os membros da família dão força para enfrentar e superar situações de crise, o que manteve, em sua avaliação, algum equilíbrio da unidade familiar. De fato, nas entrevistas, familiares deram a entender um sentimento de união nos momentos de crise, com respeito às diferenças entre si(6). O senso de conexão permite à família trabalhar em equipe(6), estabelecer alianças flexíveis, rever papéis e responsabilidades individuais e alcançar metas(4). A resiliência familiar se fortalece quando os membros da família se apoiam mutuamente, colaboram e se comprometem no processo de enfrentamento da crise(5-6).
As pessoas participantes expressaram sentir o grupo familiar fortalecido ao vivenciar o sentimento de amor que permeia suas relações. No mesmo sentido, um estudo fenomenológico sobre o significado da convivência diária da família com um membro dependente de crack apontou que, apesar da sobrecarga emocional e física que vivencia, a família consegue expressar sentimentos de amor(5). A tolerância amorosa e o apoio mútuo pareceram presentes nas falas das pessoas participantes, mesmo quando vivenciam possíveis contradições (na fala de F5-M, por exemplo, “a gente tem que ter amor”, parece haver uma tensão entre um sentimento imanente à pessoa e uma fala que carrega certa formalidade).
Nas entrevistas, houve menções à promoção da convivência intrafamiliar e na família ampliada, que teria proporcionado momentos de lazer e distração. A literatura aponta que a resiliência familiar se beneficia dessas estratégias, que favorecem a conexão e a coesão familiar(6). Assim, a família tenderia a funcionar melhor ao equilibrar proximidade e tolerância às diferenças(6). Tanto no ambiente intrafamiliar quanto na família ampliada, os momentos de bom humor e distração parecem ter sido vistos pelas pessoas participantes como fatores que minimizam situações angustiantes, possivelmente aliviando sobrecargas emocionais(5-6), e que favorecem a expressão de emoções e sentimentos relacionados à situação adversa, algo mais difícil de ocorrer em outros contextos(5).
Outro atributo da resiliência familiar identificado por familiares neste estudo foi o apoio e o suporte extrafamiliar, envolvendo recursos comunitários e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), que ajudaram no enfrentamento da crise e na obtenção de apoio informacional, emocional e instrumental. De fato, o bem-estar e a resiliência da família em contextos de adversidade dependem do acesso a dispositivos e recursos de suporte formais e informais(7) e, no sentido oposto, de esses dispositivos se transformarem e se adaptarem às necessidades familiares(7). O CAPS-AD e sua equipe de saúde parecem ter sido fontes relevantes de apoio informacional e emocional para as pessoas entrevistadas, particularmente os grupos de família. Infere-se que essas famílias puderam reconhecer essa relevância porque, provavelmente, esses serviços possibilitaram o acesso e se adaptaram às demandas familiares. A julgar pelos relatos, esses grupos constituíram um espaço de acolhimento, escuta e partilha de experiências, sentido como promotor de ajuda mútua, aprendizado, reelaboração de estratégias de enfrentamento, segurança e conforto. Assim, o grupo de família pareceu fortalecer a resiliência familiar, considerando que as atividades grupais costumam ser reconhecidas como fonte de apoio emocional para familiares(18), já que as demandas do grupo tenderiam a ser compreendidas e acolhidas sem julgamentos(17).
Os grupos podem criar e fortalecer vínculos entre as(1,17) famílias e facilitar a mudança de comportamento por meio do desenvolvimento da paciência, da compreensão e do diálogo(8). Possivelmente, eles instrumentalizam o cuidado com a pessoa dependente da família(17).
As amizades também foram reconhecidas como fonte de apoio e força, o que corrobora a teoria sistêmica da resiliência familiar(6), segundo a qual as redes sociais também envolvem grupos comunitários e religiosos e amizades(7), que podem oferecer segurança e encorajamento.
A segunda categoria explorou crenças que promoveram perspectivas positivas e otimistas nos contextos vividos pelas pessoas participantes, favorecendo a resiliência. De fato, quando a família vive experiências de sucesso e promove um ambiente protetor, as perspectivas são revitalizadas e reforçadas(6).
Perseverança, persistência, esperança, fé, religiosidade e confiança pareceram se constituir como forças positivas para enfrentar e superar as dificuldades decorrentes do contexto da dependência de SPA, geralmente permeado por emoções negativas e pessimistas.
A esperança de que a pessoa dependente se recupere gera sentimentos motivacionais, que mobilizam e fortalecem os membros da família. A iniciativa e a perseverança são elementos fundamentais da resiliência familiar, muitas vezes estimulados pela confiança compartilhada(6). A esperança consiste na crença num futuro melhor, independentemente do contexto que a família vive no presente; ela encoraja o enfrentamento das adversidades e motiva a identificação de alternativas positivas(5-6,8).
Famílias em situações difíceis buscam conforto e orientação quando se conectam espiritualmente com suas tradições culturais, por exemplo, as crenças espirituais e religiosas(6,8).
Para pessoas cristãs, por exemplo, e assim se consideram todas as pessoas participantes da pesquisa, ter fé e viver experiências espirituais que consideram positivas gera conforto(6). As práticas religiosas parecem constituir mecanismos positivos de enfrentamento na vida e no tratamento de pessoas dependentes de SPA(5,19), pois haveria uma força superior que ajudaria a família a superar as crises(5). Na amostra, frequentar instituições religiosas, participar de seus rituais, orar e meditar foram as principais fontes de resiliência consideradas; nessas práticas, as pessoas entrevistadas perceberam alívio e bem-estar, aspectos que têm sido apontados em outros estudos(4,6). As práticas e crenças religiosas da família parecem constituir estratégias mediadoras do processo saúde-doença, pois promovem recursos de enfrentamento religioso e espiritual e fortalecem a resiliência(4,6).
A terceira categoria mostrou que as famílias teriam buscado uma comunicação assertiva para ajudá-las no processo de resiliência, envolvendo diálogo paciente, monitoramento do tom de voz e manutenção da calma.
Os padrões de comunicação interferem fortemente nas relações interpessoais e podem dificultar ou facilitar o manejo da situação estressante(6).
A situação de adversidade pode promover a união e a conexão familiar, facilitando o compartilhamento de sentimentos e a expressão emocional aberta(6). No entanto, a família que tem a possibilidade de se comunicar de modo ponderado geralmente tem melhores condições emocionais para vivenciar a situação e resolver seus problemas coletivamente(6,8). A criação, no contexto familiar, de espaços que facilitem a comunicação emocional pode promover a resiliência e minimizar o impacto negativo diante das situações adversas(20-21).
Um tom de voz afetivo e otimista pode facilitar o processo de enfrentamento, pois os membros da família conseguem demonstrar os sentimentos emergentes. Embora as mensagens possam ser inesperadas, elas podem ser transmitidas de forma empática e respeitosa(6).
Entre as limitações deste estudo, está a impossibilidade de validar as análises com familiares, justificada pela falta de tempo para encontrar as pessoas participantes da pesquisa; a solução para minimizar o impacto dessa limitação foi buscar na literatura evidências sobre aspectos da resiliência para discutir os resultados.
As contribuições deste estudo dizem respeito ao uso dos elementos fundamentais da resiliência no processo de avaliação e intervenção no cuidado às famílias, o que pode ajudar as equipes de saúde e de enfermagem a reconhecer e valorizar as forças familiares, apoiando as famílias no processo de (re)organização funcional. Com essa postura, pode-se evitar estereotipar e rotular a família como “disfuncional”, “codependente” ou “resistente”, e percebê-la também como agente potencialmente ativo do processo.
Este estudo permitiu aprimorar a compreensão de alguns aspectos da percepção de familiares de dependentes de SPA sobre os elementos de seu funcionamento que auxiliam na resiliência familiar, passando por seus padrões organizacionais, seus sistemas de crenças e seus processos de comunicação.
Embora a dependência de substâncias tenha repercussões importantes nas famílias, essas situações adversas também podem ser vistas como um desafio a ser enfrentado e superado por meio dos potenciais e das forças existentes no sistema familiar. Reconhecer e fortalecer esses potenciais parece importante para que a família compreenda seu papel, como unidade capaz de superar as adversidades e viver de forma mais saudável.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste estudo brasileiro está em deslocar o olhar: em vez de buscar na família a causa ou o terreno da dependência, ele pergunta a familiares o que sustenta sua caminhada, com o referencial de Froma Walsh (crenças, organização, comunicação). O genograma e o ecomapa servem mais para construir a relação do que para diagnosticar. Os recursos descritos são conhecidos na clínica: reorganizar-se, apoiar-se na família ampliada, nos grupos de mútua ajuda e no grupo de família do CAPS-AD, manter a esperança e a fé, baixar o tom para conseguir conversar. O alcance é limitado: onze familiares de confissão cristã, recrutamento restrito a quem já frequentava os grupos, o que o estudo tomava como sinal de resiliência; a resiliência “familiar” é reconstruída a partir da fala de um único membro, sem devolução das análises às famílias. Fica uma lição útil para a prática sistêmica: não prender a família em rótulos como “disfuncional” ou “codependente” e buscar com ela as forças que já estão em ação. Para ler junto com o artigo sobre o estigma e a culpabilização vividos por mães de pessoas que usam substâncias e com o artigo sobre uma intervenção familiar para mães e pais que usam substâncias.
Notas do original
* Artigo extraído da dissertação de mestrado “Processo de enfrentamento e resiliência familiar: percepção da família de dependentes de álcool, crack e outras drogas”, apresentada à Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, São Paulo, Brasil.
2 Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Brasil.
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Tradução não oficial em português de Resiliência familiar: percepção de familiares de dependentes de substâncias psicoativas, de Bianca Oliveira Ruiz, Sonia Regina Zerbetto, Sueli Aparecida Frari Galera, Bruno José Barcellos Fontanella, Angélica Martins De Souza Gonçalves e Simone Teresinha Protti-Zanatta, Revista Latino-Americana de Enfermagem, vol. 29, e3449 (2021), doi: 10.1590/1518-8345.3816.3449, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family resilience: perception of family members of psychoactive substance dependents”, publicado em Revista Latino-Americana de Enfermagem (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Ruiz, B. O., Zerbetto, S. R., Galera, S. A. F., Fontanella, B. J. B., Gonçalves, A. M. de S., et Protti-Zanatta, S. T. (2021). Resiliência familiar: percepção de familiares de dependentes de substâncias psicoativas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/resiliencia-familiar-percepcao-de-familiares-de-dependentes-de-substancias-psicoativas (Obra original publicada em 2021 em Revista Latino-Americana de Enfermagem, 29, e3449 (2021); republicada em 2021 por Revista Latino-Americana de Enfermagem, https://www.scielo.br/j/rlae/a/tJMP9QqP5GrrmLBq4mP4CwM/?lang=en)
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