Family Relations · Família

Ser mãe ou pai, mas não: uma teoria fundamentada do acolhimento em ambiente familiar

Pede-se que amem, que ofereçam estabilidade, que construam apego, mas sem nunca se tornarem de fato mães ou pais. Dezesseis pessoas de famílias acolhedoras e parentes que acolhem, em Victoria, na Austrália, contam esse papel dividido entre a casa e a instituição. A equipe de Kimberlea Cooper extrai daí uma teoria fundamentada centrada em uma fórmula: “ser mãe ou pai, mas não”.

Autores Kimberlea Cooper (Serviço Social, Federation University Australia, Mt Helen, e Universidade La Trobe, Bundoora), Christina Sadowski (Serviço Social, Federation University Australia, Mt Helen) e Rob Townsend (Institute of Health and Management, Melbourne), Victoria, AustráliaPrimeira publicação Family Relations, 27 de novembro de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Ser mãe ou pai, mas não: uma teoria fundamentada do acolhimento em ambiente familiar, de Kimberlea Cooper, Christina Sadowski e Rob Townsend, publicado na Family Relations (Wiley) (2024), doi: 10.1111/fare.12969, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; a figura é reproduzida na versão original em inglês, com legenda traduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Quer as pessoas acolhedoras concebam seu papel principalmente por uma lente profissional ou parental, seus papéis não se encaixam perfeitamente em nenhuma dessas categorias normativas.

Kimberlea Cooper, Christina Sadowski e Rob Townsend

Resumo

Objetivo. Este estudo de teoria fundamentada construtivista explorou como famílias acolhedoras e parentes que acolhem uma criança da própria rede familiar concebem e vivenciam seu papel.

Contexto. No mundo todo, em meio à ênfase crescente no acolhimento em ambiente familiar para crianças e jovens que vivem fora dos cuidados dos pais, problemas como a falta de pessoas que acolham, sua insatisfação e a instabilidade dos acolhimentos representam desafios importantes.

Método. Dezesseis pessoas acolhedoras (sete de famílias acolhedoras e nove parentes acolhendo uma criança da família) de uma área regional de Victoria, na Austrália, participaram de entrevistas em profundidade conduzidas segundo os protocolos da teoria fundamentada construtivista.

Resultados. Seis categorias revelam as principais formas pelas quais as pessoas acolhedoras cuidam de crianças e jovens e os principais desafios que enfrentam ao fazê-lo. A categoria central, “ser mãe ou pai, mas não”, mostra as tensões que elas vivem ao tentar construir um sentimento de pertencimento e de vínculo com uma criança, dentro dos limites do sistema de acolhimento familiar de Victoria.

Conclusão. As pessoas acolhedoras veem seu papel por uma lente parental, mas com diversas limitações que restringem seu sentimento de ser mãe ou pai.

Implicações. A presente pesquisa reconhece as tensões de papel inerentes ao sistema de acolhimento familiar de Victoria e ressalta a importância de elevar o status das famílias acolhedoras e dos parentes que acolhem, para reconhecer melhor a expertise dessas pessoas no cuidado de crianças e jovens nesse contexto complexo.

Parentes que acolhem uma criança da família e famílias acolhedoras têm um papel crucial na criação e no desenvolvimento de crianças e jovens que vivem fora dos cuidados dos pais. Em razão da tendência à desinstitucionalização, os programas de acolhimento familiar e de acolhimento por parentes vêm crescendo muito no mundo todo (Garcia Quiroga e Hamilton-Giachritsis, 2014). No entanto, essas modalidades de cuidado alternativo em ambiente familiar enfrentam hoje grandes desafios, entre eles a falta de pessoas que acolham, a sobrecarga e a insatisfação de quem acolhe e a instabilidade dos acolhimentos (D’Amato e Brownlee, 2022; McPherson et al., 2022; Rose et al., 2022). Os programas de acolhimento em ambiente familiar dependem de famílias acolhedoras e de parentes para receber crianças e jovens em suas casas. Por isso, é fundamental recorrer às opiniões e às experiências das próprias pessoas que acolhem para construir uma base de pesquisa sólida, que oriente os esforços de fortalecimento dos programas de acolhimento familiar e garanta que essas pessoas se sintam apoiadas para continuar exercendo seu papel.

Contexto: a mudança para o acolhimento em ambiente familiar

No mundo todo, há uma tendência crescente e contínua de preferir o acolhimento em ambiente familiar às formas institucionais de cuidado alternativo para crianças afastadas dos pais (Garcia Quiroga e Hamilton-Giachritsis, 2014), com uma redução notável de abrigos e instituições em países como os Estados Unidos (Child Welfare Information Gateway, s.d.) e a Austrália (Musgrove e Michell, 2018). Esse movimento em direção ao acolhimento em ambiente familiar está ocorrendo em todas as partes do mundo, inclusive naquelas em que o acolhimento institucional ainda predomina (Garcia Quiroga e Hamilton-Giachritsis, 2014). É a própria natureza do “lar” que diferencia o acolhimento em ambiente familiar dos modelos institucionais de cuidado alternativo, já que um lar é visto como um ambiente seguro, estável e familiar, que dá às crianças a oportunidade de construir vínculos afetivos com quem cuida delas (Musgrove e Michell, 2018).

A teoria do apego teve papel decisivo no crescimento do acolhimento em ambiente familiar no mundo todo (Hart et al., 2011; Smith et al., 2017). Segundo essa teoria, as primeiras relações com as figuras de cuidado são fundamentais para o desenvolvimento das crianças, e esses vínculos afetivos são tão importantes para o seu bem-estar quanto o atendimento de suas necessidades físicas e biológicas (Chinnery, 2016). As relações de apego com as figuras de cuidado permitem que as crianças se sintam seguras e protegidas e, assim, lhes dão uma base a partir da qual podem explorar o mundo com confiança. Essa visão se reflete na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, segundo a qual a principal prioridade do cuidado alternativo deve ser uma relação de apego com pelo menos um adulto, além de cuidado, estabilidade e vida familiar (Comitê dos Direitos da Criança das Nações Unidas, 2011, par. 72e).

O contexto de Victoria, na Austrália

No estado de Victoria, na Austrália, a atual estratégia do governo estadual para o acolhimento coloca o acolhimento em ambiente familiar como a forma preferida de cuidado alternativo (Department of Health and Human Services [DHHS], 2019), o que se confirma na prática: em 2021, 91% das crianças em acolhimento fora de casa (Out-of-Home Care, OOHC) na Austrália viviam em arranjos de acolhimento familiar (Australian Institute of Health and Welfare [AIHW], 2022). A visão política do estado para o acolhimento em ambiente familiar é que todas as crianças “vivam com pessoas acolhedoras apoiadas para criar um lar seguro e acolhedor” (DHHS, 2019, p. 6) e “cresçam em famílias amorosas, cuidadosas e estáveis” (DHHS, 2019, p. 9). Essa visão reflete com clareza o reconhecimento crescente da importância dos vínculos relacionais com as figuras de cuidado para o desenvolvimento infantil, em sintonia com a tendência internacional ao acolhimento em ambiente familiar e com a ênfase nas relações de apego.

Na Austrália, a proteção à criança e o acolhimento fora de casa são administrados pelos governos estaduais. Em Victoria, o serviço de proteção à criança (Victoria Child Protection Service) supervisiona e gerencia o acolhimento, mas financia uma série de organizações sociais não governamentais em todo o estado para executar os programas (AIHW, 2022). Essas organizações são responsáveis por recrutar famílias acolhedoras e parentes que acolhem, oferecer-lhes formação e apoio e acompanhar os casos das crianças e jovens acolhidos. Elas têm obrigações contratuais de cumprir legislações, normas, políticas e medidas de conformidade específicas e de prestar contas à proteção à criança (AIHW, 2022).

Em toda a Austrália, o acolhimento em ambiente familiar inclui o acolhimento familiar e o acolhimento por parentes, que se diferenciam pelo fato de que os parentes já têm uma relação ou um vínculo familiar ou social com a criança, ao passo que as famílias acolhedoras não. Em Victoria, essas duas formas de acolhimento funcionam como dois programas separados, com níveis diferentes de acesso a apoio e recursos; do ponto de vista das políticas públicas, porém, o acolhimento familiar e o acolhimento por parentes são reunidos e tratados em conjunto, como na atual estratégia estadual de acolhimento em ambiente familiar (DHHS, 2019). As pessoas acolhedoras assumem o cuidado cotidiano de crianças e jovens de forma voluntária, com algum apoio financeiro na forma de auxílios e reembolsos para cobrir os custos (AIHW, 2022).

Às vezes, parentes que acolhem ou famílias acolhedoras passam a cuidar da criança a longo prazo, por meio de um cuidado permanente ou de uma adoção, quando a criança não pode voltar para os pais biológicos. Em toda a Austrália, o cuidado permanente tem prioridade sobre a adoção para crianças e jovens que não podem voltar a viver com os pais biológicos (Permanent Care and Adoptive [PCA] Families, 2021). A adoção é rara em Victoria: apenas 17 crianças foram adotadas em 2019-2020 em todo o estado (PCA Families, 2021). Os objetivos de permanência ali costumam ser alcançados por meio de ordens de acolhimento familiar de longo prazo (em que a responsabilidade parental continua com o Estado) ou de ordens de cuidado permanente. As ordens de cuidado permanente transferem a responsabilidade parental para a pessoa acolhedora até a criança completar 18 anos, mas diferem da adoção porque não há mudança automática na certidão de nascimento nem nos direitos de herança da criança, e espera-se que o contato com a família biológica seja mantido (PCA Families, 2021). [Correção acrescentada em 29 de dezembro de 2023, após a primeira publicação on-line: o trecho “A principal diferença entre o cuidado permanente e a adoção é que a responsabilidade parental pelas crianças em cuidado permanente cabe ao órgão governamental competente, e não à própria pessoa acolhedora, como na adoção. No entanto, a adoção é rara em Victoria, com apenas 17 crianças adotadas em 2019-2020 em todo o estado (PCA Families, 2021)” foi substituído por “A adoção é rara em Victoria, com apenas 17 crianças adotadas em 2019-2020 em todo o estado (PCA Families, 2021). Os objetivos de permanência ali costumam ser alcançados por meio de ordens de acolhimento familiar de longo prazo (em que a responsabilidade parental continua com o Estado) ou de ordens de cuidado permanente. As ordens de cuidado permanente transferem a responsabilidade parental para a pessoa acolhedora até a criança completar 18 anos, mas diferem da adoção porque não há mudança automática na certidão de nascimento nem nos direitos de herança da criança, e espera-se que o contato com a família biológica seja mantido (PCA Families, 2021)”.] No plano internacional, as respostas das políticas públicas diferem quando não é possível reunir as crianças com a família biológica. A Austrália, os países nórdicos, os Países Baixos e a Espanha priorizam um acolhimento familiar estável e de longo prazo, enquanto os Estados Unidos e o Reino Unido priorizam a adoção (Konijn et al., 2019). Assim, embora nos países que priorizam a adoção as pessoas acolhedoras possam acabar adotando a criança, esse desfecho é muito improvável em Victoria (PCA Families, 2021). Além disso, os documentos de política pública de Victoria enfatizam claramente o uso do termo carer (pessoa acolhedora) como terminologia preferida, em vez do termo foster parent (pai ou mãe de acolhimento), às vezes usado em outras jurisdições (Kirton, 2022). Portanto, embora as diretrizes políticas de Victoria incentivem as pessoas acolhedoras a construir vínculos estáveis e amorosos com as crianças, elas não as incentivam abertamente a se considerar, a longo prazo, mãe ou pai das crianças sob seus cuidados.

O papel complexo das pessoas acolhedoras

A forma como as pessoas acolhedoras concebem seu papel tem despertado o interesse da pesquisa em diversos contextos, por causa da complexidade que decorre de sua posição entre a esfera pública dos serviços sociais e a esfera privada da família (Blythe et al., 2014; Pinto e Luke, 2022). Embora, historicamente, o papel de quem acolhe tenha sido o de substituir os pais, com o tempo ele se ampliou e passou a exigir mais habilidades profissionais para ajudar crianças e jovens que vivem emoções e comportamentos difíceis decorrentes de experiências de trauma complexo e/ou maus-tratos (Fergeus et al., 2017; Musgrove e Michell, 2018). Berrick e Skivenes (2012) usaram a expressão “parentalidade plus” (Parenting Plus) para descrever “as exigências singulares de uma parentalidade que inclui o componente de ‘acolhimento’ do cuidado” (p. 1964). Os resultados das pesquisas sobre a percepção do papel pelas pessoas acolhedoras, porém, são variados: algumas se veem principalmente em um papel parental (Blythe et al., 2013; Borenstein, 2022; De Wilde et al., 2019; Riggs et al., 2009), outras principalmente em um papel profissional (Hollett et al., 2022; Smyth e McHugh, 2006), e outras ainda veem seu papel como um híbrido dos dois (Blythe et al., 2014; Farmer e Lippold, 2016) ou relatam resultados mistos (Schofield et al., 2013). Segundo Sprecher et al. (2021), as relações entre famílias acolhedoras e jovens são diversas e não deveriam ser simplificadas em categorias como “mãe ou pai” ou “profissional”.

A presente pesquisa

O objetivo desta pesquisa foi recorrer à expertise das pessoas que têm mais experiência na prática do acolhimento em ambiente familiar, isto é, as famílias acolhedoras e os parentes que acolhem. A meta era usar suas percepções para orientar estratégias de fortalecimento dos programas de acolhimento familiar e enfrentar alguns dos desafios que o acolhimento em ambiente familiar vive hoje, entre eles a falta de pessoas que acolham, a instabilidade dos acolhimentos e a pressão sobre os parentes que acolhem (D’Amato e Brownlee, 2022; McPherson et al., 2022; Rose et al., 2022).

Contexto e perguntas de pesquisa

A Central Highlands Children and Youth Area Partnership (CHCYAP) reuniu as principais organizações de serviços para crianças e famílias, alianças de serviços e o governo nas Central Highlands (uma região no oeste do estado de Victoria, na Austrália, que tem como centro a cidade regional de Ballarat) para criar inovações colaborativas nos serviços, em resposta aos desafios enfrentados por crianças, jovens e famílias (Vulnerable Children Reform Unit, s.d.). Como parte dessa parceria territorial, a Federation University estabeleceu uma colaboração de pesquisa com as partes interessadas participantes, com o objetivo comum de oferecer evidências de pesquisa para embasar o desenvolvimento de serviços locais inovadores. As partes interessadas escolheram temas relevantes e reuniram recursos para financiar e apoiar em espécie projetos de doutorado, entre eles o presente estudo. A equipe de pesquisa deste estudo era formada pela doutoranda, por duas pessoas responsáveis pela orientação acadêmica e por duas pessoas responsáveis pela orientação dentro da organização (gestoras de programa). Com o desejo de compreender melhor o acolhimento em ambiente familiar no contexto local e de contribuir para orientar o desenvolvimento dos programas, a equipe de pesquisa e diversas partes interessadas elaboraram juntas duas perguntas de pesquisa amplas:

Como as pessoas acolhedoras compreendem e apoiam as crianças e os jovens sob seus cuidados?

O que as pessoas acolhedoras consideram apoiador e desafiador no cuidado de crianças e jovens?

Método

A equipe de pesquisa usou a teoria fundamentada construtivista para guiar um processo iterativo de coleta e análise de dados, com base em Charmaz (2014). A teoria fundamentada foi considerada uma metodologia útil para explorar significados, ações e processos sociais do cotidiano sob a perspectiva das pessoas acolhedoras (Charmaz, 2014). A metodologia se apoiou no interacionismo simbólico (Blumer, 1969) para explorar melhor como as concepções que as pessoas acolhedoras têm de seu papel, e o contexto em torno dele, enquadram as ações que elas utilizam no cuidado de crianças e jovens. Na teoria fundamentada, a coleta e a análise de dados acontecem ao mesmo tempo, já que a análise e a teoria emergentes orientam os rumos da coleta (Charmaz, 2014). Os métodos aqui descritos fizeram parte, portanto, de uma abordagem iterativa.

Amostragem e recrutamento

Em consonância com a teoria fundamentada construtivista (Charmaz, 2014), usou-se inicialmente uma amostragem intencional para encontrar pessoas com expertise cotidiana em acolhimento em ambiente familiar, isto é, parentes que acolhem e famílias acolhedoras da região. Iniciada a coleta de dados, passou-se a usar a amostragem teórica para recrutar pessoas acolhedoras com experiências ou características específicas que ajudassem a desenvolver a teoria emergente (Charmaz, 2014). A equipe de pesquisa optou por convidar tanto famílias acolhedoras quanto parentes que acolhem, por causa da forte ênfase nos dois grupos nas diretrizes políticas de Victoria sobre acolhimento em ambiente familiar.

O recrutamento foi feito por meio de avisos em boletins voltados às pessoas acolhedoras, em grupos de apoio para elas e por cartazes na sala destinada a elas na organização parceira. Para lidar com os riscos éticos relacionados a coerção, influência indevida para participar e confidencialidade, dada a relação já existente entre as pessoas acolhedoras e a organização parceira, as pessoas interessadas entravam em contato diretamente com a pesquisadora para manifestar interesse. Além disso, os membros da equipe ligados à universidade retiraram os detalhes que permitiam identificação e agregaram os dados antes de qualquer discussão de análise com os membros da equipe ligados à organização.

Participantes

Participaram desta pesquisa 16 pessoas acolhedoras da região das Central Highlands, em Victoria, ligadas a uma mesma organização de serviços comunitários. Seis eram de famílias acolhedoras, nove acolhiam crianças da própria família ou rede, e uma fazia acolhimento de descanso (respite). A experiência dessas pessoas no acolhimento ia de 1 a 25 anos. Entre as crianças acolhidas havia três bebês (0 a 2 anos), duas crianças em idade pré-escolar (3 a 5), 10 crianças em idade de ensino fundamental (6 a 12) e oito jovens de 13 a 18 anos. A maioria dos acolhimentos havia começado quando as crianças eram bebês ou estavam em idade de ensino fundamental; duas pessoas, porém, tinham acolhido jovens já na adolescência. Catorze pessoas tinham ascendência britânica branca e duas tinham ascendência da Europa continental. A Tabela 1 detalha as características demográficas das pessoas participantes.

Tabela 1 — Participantes da pesquisa e características demográficas

  • Marie. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior com a criança: avó; faixa etária: 60-70 anos; gênero: feminino; tempo como pessoa acolhedora: 5-10 anos; informações adicionais: cuidado permanente.
  • Sharon. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: tia; faixa etária: 40-50 anos; gênero: feminino; tempo: 5-10 anos; informações adicionais: não se aplica.
  • Lorraine. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 60-70 anos; gênero: feminino; tempo: 10-15 anos; informações adicionais: cuidado permanente, iniciado em outro estado.
  • Elizabeth. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 60-70 anos; gênero: feminino; tempo: 0-5 anos; informações adicionais: iniciado em outro estado.
  • Debbie. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 50-60 anos; gênero: feminino; tempo: 5-10 anos; informações adicionais: cuidado permanente.
  • Heather. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 60-70 anos; gênero: feminino; tempo: 10-15 anos; informações adicionais: cuidado permanente.
  • Denise. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 50-60 anos; gênero: feminino; tempo: 0-5 anos; informações adicionais: não se aplica.
  • Les. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avô; faixa etária: 50-60 anos; gênero: masculino; tempo: 0-5 anos; informações adicionais: não se aplica.
  • Joan. Tipo de acolhimento: por parentes; relação anterior: avó; faixa etária: 50-60 anos; gênero: feminino; tempo: 0-5 anos; informações adicionais: informal.
  • Jane. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 60-70 anos; gênero: feminino; tempo: 10-15 anos; informações adicionais: vários acolhimentos.
  • Hugh. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 60-70 anos; gênero: masculino; tempo: 10-15 anos; informações adicionais: vários acolhimentos.
  • Alexandra. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 40-50 anos; gênero: feminino; tempo: 5-10 anos; informações adicionais: cuidado permanente.
  • Evelyn. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 40-50 anos; gênero: feminino; tempo: 20-25 anos; informações adicionais: vários acolhimentos.
  • Steve. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 60-70 anos; gênero: masculino; tempo: 35-40 anos; informações adicionais: vários acolhimentos.
  • Nicole. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 50-60 anos; gênero: feminino; tempo: 0-5 anos; informações adicionais: deseja passar a cuidado permanente.
  • Gary. Tipo de acolhimento: família acolhedora; relação anterior: nenhuma; faixa etária: 50-60 anos; gênero: masculino; tempo: 5-10 anos; informações adicionais: acolhimento de descanso, vários acolhimentos.

Mais informações sobre as pessoas participantes poderiam permitir identificá-las, dado o tamanho reduzido da comunidade de pessoas acolhedoras em que a pesquisa se desenvolve. Por isso, dosamos as informações incluídas para dar a quem lê conhecimento suficiente sobre as pessoas participantes, priorizando sua confidencialidade. Todos os nomes usados neste artigo são pseudônimos.

Coleta de dados

A coleta de dados consistiu em entrevistas em profundidade, presenciais, com famílias acolhedoras e parentes que acolhem. A autora principal usou um roteiro temático geral e fez diversas perguntas de aprofundamento para conversar mais com as pessoas participantes a partir dos temas de interesse delas e da teoria emergente (Charmaz, 2014). Alguns exemplos de perguntas feitas pela pesquisadora foram: (a) como você descreve seu papel de pessoa acolhedora?; (b) quais são as principais necessidades das crianças/jovens sob seus cuidados?; (c) pense em um exemplo recente em que você reagiu a uma situação difícil ao cuidar de uma criança ou jovem (descreva e desenvolva); (d) o que mais ajuda você a apoiar as crianças sob seus cuidados?; e (e) que tipos de barreiras você enfrenta para apoiar as crianças sob seus cuidados?

A autora principal realizou 15 entrevistas iniciais com 16 pessoas acolhedoras (uma das entrevistas foi com um casal) e uma entrevista de acompanhamento com uma das primeiras pessoas participantes. Todas consentiram com a gravação de voz das entrevistas, que duraram de 52 a 106 minutos, com média de 68 minutos. No total, foram 20 horas e 39 minutos de entrevistas. A autora principal transcreveu os dados manualmente. A equipe encerrou a coleta de dados quando considerou que a saturação teórica tinha sido alcançada, porque novos dados não estavam mais desenvolvendo as categorias (Charmaz, 2014).

Análise dos dados

A análise dos dados consistiu em etapas iterativas de codificação, começando pela codificação inicial linha a linha das transcrições das entrevistas e passando depois pelas etapas de codificação focalizada e de integração teórica, conforme descrito por Charmaz (2014). Sempre que possível, a autora principal usou palavras ditas pelas pessoas participantes para nomear os códigos iniciais, a fim de preservar a voz delas na análise (Charmaz, 2014). A equipe usou um processo de comparação constante, que consiste em comparar duas informações para avaliar sua semelhança ou diferença para fins de análise dos dados (Charmaz, 2014), para decidir quais códigos ou categorias eram semelhantes o bastante para serem agrupados, quais eram diferentes e por quê, e para explicar as relações entre eles. A equipe combinou a codificação em papel e técnicas de mapeamento de códigos (Saldaña, 2013) com o programa NVivo (https://lumivero.com/products/nvivo/) para gerenciar e organizar o grande número de códigos gerados durante a análise. A autora principal fez a codificação inicial, e os demais membros da equipe de pesquisa contribuíram para as discussões sobre as etapas posteriores de codificação e integração teórica.

A equipe redigiu memorandos em cada etapa do processo de pesquisa. A redação de memorandos é uma forma importante de permanecer em imersão nos dados ao longo da análise em teoria fundamentada (Lempert, 2007), de refletir sobre o próprio papel no processo de pesquisa e de constituir uma trilha de auditoria importante do processo de análise (Charmaz, 2014). A autora principal redigiu memorandos para expor o processo de análise e o desenvolvimento de cada categoria, bem como para esclarecer seus pensamentos, pressupostos e reflexões durante a pesquisa, o que ajudou a trazer percepções reflexivas sobre como a equipe de pesquisa e o contexto moldaram a teoria resultante.

Inicialmente, a equipe de pesquisa pretendia analisar famílias acolhedoras e parentes que acolhem como dois grupos distintos. Durante a análise, porém, decidiu manter juntos os dados referentes aos dois grupos. No processo iterativo da teoria fundamentada, decisões desse tipo podem ser guiadas pela análise emergente e pelas opiniões das pessoas participantes (Charmaz, 2014). Embora houvesse algumas circunstâncias específicas de cada grupo, os significados, as ações e os processos subjacentes eram comuns a todas as pessoas participantes. O uso do interacionismo simbólico (Blumer, 1969) ajudou a explorar esses significados subjacentes e contribuiu para essa compreensão. Algumas considerações adicionais, relevantes apenas para os parentes que acolhem, são relatadas separadamente na seção “Resultados”.

Ética, qualidade e rigor

A aprovação do comitê de ética em pesquisa com seres humanos (Human Research Ethics Committee, HREC) foi concedida em 3 de agosto de 2017 (A17-103), e todos os protocolos seguiram essa aprovação e as diretrizes do comitê. A pesquisadora obteve o consentimento escrito e verbal de todas as pessoas que poderiam participar antes de iniciar as entrevistas.

A equipe de pesquisa se apoiou nos quatro critérios propostos por Charmaz (2014) para garantir qualidade e rigor: credibilidade, originalidade, ressonância e utilidade. Entre as estratégias usadas para cumprir esses padrões estavam a redação de memorandos detalhados sobre as razões das escolhas do processo de pesquisa, o uso das palavras das pessoas participantes na análise e na apresentação dos resultados, a verificação com as pessoas participantes de que os sentidos que elas pretendiam dar haviam sido captados, a inclusão de uma ampla gama de observações para sustentar cada categoria e a redação de memorandos sobre as crenças e os pressupostos pessoais da pesquisadora.

Resultados

Os resultados mostram como parentes que acolhem e famílias acolhedoras da região das Central Highlands, em Victoria, na Austrália, concebem e exercem seu papel. Primeiro, serão discutidos os três temas relacionados às ações das pessoas acolhedoras, para mostrar como elas cuidavam das crianças e dos jovens e o que consideravam mais importante. Esses temas são “trazer as crianças para o seu círculo”, “dar às crianças uma vida normal” e “lidar com tudo o que as crianças trazem consigo”. Em seguida, serão discutidos os três temas relacionados às experiências das pessoas acolhedoras, para mostrar o que elas consideravam apoiador e desafiador em seu papel. Esses temas são “sentir que você é ‘só’ quem acolhe”, “servir de uma xícara vazia” e “viver no limbo”. Por fim, será discutida a categoria central, “ser mãe ou pai, mas não”, para mostrar as tensões e contradições que as pessoas acolhedoras das Central Highlands viveram ao tentar cuidar de crianças e jovens em um contexto complexo. A categoria central mostra como essas pessoas concebiam seu papel por uma lente parental, mas com diversas limitações à sua capacidade de cumprir esse papel. A Figura 1 ilustra os principais temas da pesquisa e representa um modelo de como as pessoas acolhedoras compreendiam e apoiavam as crianças e os jovens sob seus cuidados na região das Central Highlands.

Esquema de síntese dos resultados: três ações das pessoas acolhedoras (trazer as crianças para o seu círculo, dar uma vida normal, lidar com o que as crianças trazem), três experiências (ser só quem acolhe, servir de uma xícara vazia, viver no limbo) e a categoria central “ser mãe ou pai, mas não”
Figura 1. Visão geral dos resultados da pesquisa (esquema original em inglês)

O apoio das pessoas acolhedoras a crianças e jovens

Famílias acolhedoras e parentes que acolhem cuidavam das crianças e dos jovens de três formas principais. Embora cada pessoa abordasse de maneira diferente o cuidado cotidiano, para atender às necessidades e à idade das crianças acolhidas, todas compartilhavam intenções semelhantes quanto ao que buscavam alcançar. Três ações principais lhes pareciam as mais importantes na forma de encarar seu papel no dia a dia:

  1. trazer as crianças para o seu círculo: construir um sentimento de pertencimento e de vínculo por meio de uma relação de confiança com a criança;
  2. dar às crianças uma vida “normal”: oferecer às crianças a normalidade do cotidiano, atendendo às suas necessidades básicas e ajudando-as a se preparar para a vida futura;
  3. lidar com tudo o que as crianças trazem consigo: ajudar as crianças em dificuldades físicas, emocionais, comportamentais e/ou psicológicas, reunindo informações para entender o que se passa com a criança e encontrando estratégias para responder de forma eficaz.

Trazer as crianças para o seu círculo

“Trazer as crianças para o seu círculo” mostra a importância que as pessoas acolhedoras desta pesquisa davam à criação de vínculo com as crianças e os jovens que chegavam aos seus cuidados, para construir confiança. Elas explicaram que o vínculo é um processo que acontece com o tempo, à medida que uma relação de confiança se constrói aos poucos de parte a parte e que elas mostram à criança que vão apoiá-la. A longo prazo, disseram, mantêm esse vínculo estando presentes para as crianças, a fim de nutrir um sentimento de pertencimento, de conexão, de amor e de segurança. Todas expressaram sua compreensão das experiências passadas das crianças e jovens acolhidos e reconheceram ajustar sua abordagem para apoiar crianças que tinham mudado de lugar muitas vezes ou que não tinham tido adultos que as apoiassem.

As citações a seguir mostram como as pessoas acolhedoras descreviam as ações de criar vínculo e de estar presentes para as crianças, e por que as consideravam importantes:

Você tem que trazê-los para o seu círculo. Se você não os traz para o seu círculo, eles vão sempre ficar do lado de fora, e não vão se sentir seguros. Não vão se sentir amados e desejados. (Debbie)

Com o amor, a criança ganha um sentimento de pertencimento, hum, um sentimento de lugar, orgulho, hum, “alguém me ama”, sabe, “eu mereço ser amado”, devo estar fazendo alguma coisa para que seja assim, mas sim, hum, isso está lá. E houve momentos em que senti que era a única [a amar Jack]. (Marie)

Todas as pessoas acolhedoras desta pesquisa explicaram que criar vínculo e estar presente eram ações importantes para elas. Explicaram, porém, que a forma de construir essas conexões dependia de cada criança, de sua situação particular e de seus interesses, como no exemplo a seguir, de Steve:

Ela não confia em ninguém e está acostumada a se decepcionar, então espera por isso, e faz de tudo para te afastar só para ter certeza de que você vai voltar, esse tipo de coisa… você tem que ir até ela e puxá-la para perto, porque ela vai ficar lá atrás dizendo, é, é isso que eu conheço, e sabe, a vida não mudou muito, talvez eu tenha comida na hora certa, mas, sabe, ninguém se importa comigo, ninguém me ama, esse tipo de coisa… você tem que ir conduzindo ela com delicadeza por isso, para ela saber que você se importa.

Dar às crianças uma vida “normal”

“Dar às crianças uma vida ‘normal’” mostra que as pessoas acolhedoras desta pesquisa consideravam que seu objetivo fundamental era dar às crianças uma vida tão normal quanto possível. Isso envolvia ajudar as crianças nas necessidades do dia a dia e garantir que tivessem acesso a uma educação adequada, a oportunidades de socialização e a lazer e diversão. Essas pessoas se viam com um papel importante para ajudar as crianças a se tornar independentes e a planejar a vida futura. As citações a seguir ilustram esses sentimentos:

Então, sabe, a gente tenta dar às crianças uma vida tão normal, crescendo aqui, uma estadia na nossa casa, quanto a gente consegue, meio que, dar a elas. (Hugh).

Estou tentando preparar essa criança com as ferramentas que ela tem, estou tentando acrescentar a essas ferramentas, para que, quando essa criança for independente, ou se ela tiver passado por nós, leve consigo outro conjunto de ferramentas que possa ajudá-la. Ou, prepará-la para a vida. E é assim que eu vejo a parentalidade. (Jane).

Todas as pessoas acolhedoras explicaram que essas atividades cotidianas não servem só para atender às necessidades básicas, mas também para dar às crianças constância, rotina e estrutura, o que revela que, embora as tarefas específicas variem conforme a idade e a situação de cada criança, as intenções com que eram realizadas se mantinham constantes.

Eles têm disciplina aqui, eles têm estrutura, sabem o que se espera deles e, com isso, encontraram segurança e proteção. E acho que é isso que acontece com as crianças quando têm estrutura, sabem o que se espera delas, conhecem os limites. Hum, têm uma rotina boa, saudável, comem bem, dormem, sabe. Aí elas, elas têm a chance de simplesmente florescer. (Alexandra)

As pessoas acolhedoras explicaram que buscavam preparar as crianças para o futuro reconhecendo primeiro em que ponto cada uma estava e, a partir daí, trabalhando para uma maior independência. Isso tomava formas diferentes para cada criança, conforme a idade, as capacidades e os interesses. Para Jane, acolher adolescentes significava concentrar-se no desenvolvimento de habilidades de educação financeira, em poupar dinheiro, na tomada de decisões e no trabalho em torno de uma habilidade ou interesse específico, visando estudos ou emprego no futuro. Para Marie, Steve e Sharon, cuidar de crianças ou jovens com deficiência significava ajudá-los em seus objetivos futuros, como viver de forma independente. Para Evelyn, acolher bebês por curto prazo significava ajudá-los a alcançar os marcos do desenvolvimento e a desenvolver habilidades de linguagem e de brincadeira que os ajudarão quando deixarem sua casa.

Lidar com tudo o que as crianças trazem consigo

“Lidar com tudo o que as crianças trazem consigo” mostra que as pessoas acolhedoras desta pesquisa viam como parte importante de seu papel ajudar crianças e jovens a enfrentar suas próprias dificuldades, ou a se recuperar delas. Essas dificuldades incluíam problemas físicos, emocionais, comportamentais e/ou psicológicos que as pessoas acolhedoras atribuíam às experiências passadas das crianças. Como disse Nicole: “Então algumas crianças trazem, tipo, hum, trauma, mentalmente, e outras é físico.” Catorze das 16 pessoas acolhedoras relataram que as crianças e jovens sob seus cuidados apresentavam comportamentos e emoções difíceis. Embora as dificuldades vividas por cada criança e cada pessoa acolhedora fossem singulares, elas descreveram um processo comum na caminhada para entender o que se passa com a criança e como apoiá-la da melhor forma. Explicaram que recorriam de forma proativa ao apoio profissional e participavam de formações para descobrir como responder melhor a cada criança.

Jane deu um exemplo desse processo de aprendizagem. Na época de sua primeira entrevista, Jane disse que não sabia exatamente o que se passava com a criança, mas se perguntava se ela era autista e estava organizando avaliações profissionais para investigar melhor. Na entrevista de acompanhamento desta pesquisa (12 meses depois), Jane explicou que tinha novas estratégias que apoiavam a criança de forma mais eficaz e um diagnóstico profissional de autismo. Jane refletiu sobre a própria aprendizagem nesse processo na seguinte explicação:

Olhando para trás, consigo ver que piorei as coisas. Hum, pensando, tá, isso é mau comportamento, vou reprimir, ih, grande explosão, ih, bom, isso foi feio [risos]. Então, agora já avancei um pouco no caminho. […] Então agora faço as coisas de um jeito muito diferente. Ainda quero o mesmo resultado, mas agora aprendi [estratégias mais eficazes para chegar lá].

Algumas pessoas acolhedoras concebiam seu papel de ajudar crianças com comportamentos e emoções difíceis como parte do papel de qualquer mãe ou pai. Outras, porém, descreveram esse aspecto de seu papel como algo que ia além do que esperavam de uma parentalidade “comum”. Steve afirmou: “[As crianças] todas têm necessidades especiais. A maioria, pelo menos, então é ser pai com extras, na verdade, é.” Ele explicou que via essa parte de seu papel como algo além de sua visão da parentalidade comum, porque não tinha vivido isso ao criar os filhos biológicos, enquanto outras pessoas acolhedoras viam isso como parte do papel de mãe ou pai de qualquer criança com necessidades especiais. Muitas, no entanto, falaram dos desafios adicionais de tentar cumprir esse papel como pessoa acolhedora sem acesso completo às informações sobre a criança. Algumas descreveram momentos em que não sabiam de comportamentos ou emoções específicos que as teriam ajudado a oferecer um cuidado mais direcionado e eficaz às crianças e jovens. Marie, por exemplo, explicou que deixou passar “sinais de alerta” sobre a criança sob seus cuidados porque não sabia de sua história de exposição a drogas intraútero, e que se sentiu culpabilizada por não ter buscado ajuda profissional mais cedo. Marie disse sentir que “é sempre a minha falta de conhecimento… tenho que continuar procurando… às cegas”.

Experiências de apoio e de dificuldade das pessoas acolhedoras

Esta seção explica os três principais fatores que representam o que famílias acolhedoras e parentes que acolhem consideravam apoiador e desafiador em seu papel de cuidado. Cada categoria se situa em um contínuo: uma ponta explica o que apoiava as pessoas acolhedoras em seu papel, e a outra o que as desafiava. As três categorias são as seguintes:

  1. sentir que você é “só” quem acolhe: a medida em que as pessoas acolhedoras se sentiam valorizadas, ouvidas e reconhecidas. Isso influenciava a forma como se comunicavam com as equipes profissionais, participavam das decisões e defendiam a si mesmas e a criança sob seus cuidados;
  2. servir de uma xícara vazia: a medida em que as pessoas acolhedoras se sentiam apoiadas para lidar com o estresse emocional do cuidado das crianças, o que pode afetar sua capacidade de cuidar de crianças e jovens no dia a dia;
  3. viver no limbo: a medida em que as pessoas acolhedoras eram informadas sobre a duração da estadia de uma criança ou sobre sua transição de acolhimento. Isso influenciava a capacidade de se preparar, e de preparar os membros da família, para se despedir de uma criança ou recebê-la, de preparar a criança para uma transição, e também a forma como criavam vínculo com ela.

Sentir que você é “só” quem acolhe

“Sentir que você é ‘só’ quem acolhe” representa o sentimento de reconhecimento de famílias acolhedoras e parentes que acolhem. As pessoas acolhedoras deste estudo variavam quanto à medida em que diziam sentir que eram apenas quem acolhe. O sentimento de reconhecimento estava ligado à forma como, a seu ver, outras pessoas (principalmente as equipes dos serviços) percebiam sua contribuição específica ao cuidado de uma criança ou jovem. Quem sentia sua contribuição valorizada achava que as equipes a viam como capaz, confiável e conhecedora da criança ou do jovem sob seus cuidados. Quando eram mantidas a par de informações importantes sobre a criança e incluídas nos processos de decisão, as pessoas acolhedoras diziam se sentir valorizadas. Steve, por exemplo, contou como “fizeram uma reunião com todo mundo e… todo mundo concordou que era isso que ia acontecer. É. Essa é uma forma muito melhor de fazer as coisas”.

Por outro lado, quem sentia que era apenas quem acolhe dizia ter a impressão de que as equipes a consideravam “só um número” e de que não tinha o mesmo valor que os profissionais. Sharon exemplificou isso ao contar que “às vezes sinto que não sou nada, sou só quem cuida da Sienna, e é isso. Sabe?”.

Quando não eram incluídas, as pessoas acolhedoras sentiam que as equipes não reconheciam sua contribuição nem as consideravam dignas de uma participação significativa. Muitas relataram relutância em defender a si mesmas ou as crianças sob seus cuidados junto à proteção à criança, por receio de que as equipes ficassem menos propensas a recomendar que a criança permanecesse com elas a longo prazo e as julgassem por isso. Na citação a seguir, Denise expressou como sentia que as equipes julgavam sua capacidade de cuidar e que suas opiniões não eram valorizadas nem reconhecidas:

Nossa técnica de referência na proteção à criança, ela tinha uns 20, 21 anos, hum, recém-chegada no trabalho, hum, me dizendo o que fazer, e é, como fazer, e como cuidar de criança, e eu pensei, sabe, já chega. E em 12 meses ela só veio na nossa, ela veio na nossa casa? Veio, uma vez… E mesmo assim, quando eu queria fazer alguma coisa, ah não, não dá para fazer assim, tem que fazer assado. Não dá para discutir, porque você não vai ganhar.

Já quando as pessoas acolhedoras sentiam que as equipes confiavam nelas e as valorizavam, tinham mais segurança para discutir questões e levantar preocupações, pois não achavam que isso depusesse contra sua capacidade de cuidar. Foi o caso de Hugh, que contou ter entrado em contato com uma pessoa do serviço para informar um problema: uma criança tinha acendido fogo em casa. A autora principal perguntou a Hugh se ele tinha sentido alguma relutância em comunicar o problema, já que outras pessoas acolhedoras tinham manifestado essa preocupação nas entrevistas. Hugh respondeu que não, porque “o serviço confia em nós, seja qual for a situação, e sabe muito bem que vamos lidar com ela da melhor forma possível”.

Servir de uma xícara vazia

“Servir de uma xícara vazia” representa a medida em que as pessoas acolhedoras, de famílias acolhedoras ou parentes, se sentem apoiadas em seu papel de cuidado. As pessoas acolhedoras variavam quanto à capacidade de lidar com o estresse associado a esse papel, mas todas sentiam que o próprio bem-estar afetava o cuidado que davam às crianças e/ou aos jovens.

Porque às vezes você sente que está servindo de uma xícara vazia, mas se você se sente apoiada, e se sente valorizada, meu Deus, faz toda a diferença do mundo. E isso se traduz no cuidado, na qualidade do cuidado que você dá às crianças. (Elizabeth)

As pessoas acolhedoras, de famílias acolhedoras ou parentes, explicaram que se sentiam mais capazes de lidar com a situação quando tinham boas relações com as equipes, redes sólidas de apoio de família e amizades, apoio de outras pessoas acolhedoras, apoio prático e financeiro e oportunidades de fazer pausas. Quando relatavam se sentir emocionalmente esgotadas, sentiam que não tinham apoio suficiente em suas próprias redes pessoais nem o recebiam das equipes. Para algumas, esse esgotamento emocional era grave a ponto de considerarem desistir do cuidado das crianças ou dos jovens, por sentirem que não conseguiriam continuar. Foi o que relatou Debbie, avó que acolhia os netos, às voltas com dinâmicas familiares difíceis e com pouco apoio pessoal ou profissional, e que tinha receio de pedir ajuda às equipes porque achava que poderiam ver nisso um sinal de incapacidade e tirar as crianças de seus cuidados. Mas a tensão continuou e levou Debbie a considerar ela mesma essa opção, como mostra a citação a seguir:

Então, chegou um ponto não faz muito tempo, acho que foi em junho, junho-julho, em que eu estava passando por uma coisa emocional muito forte, e eu estava a ponto de devolver, de abrir mão das crianças depois de 8 anos por causa do que estava acontecendo.

Nessa situação, Debbie acabou conseguindo acesso a um acolhimento de descanso por meio de um serviço de saúde para pessoas com deficiência, separado do sistema de acolhimento, o que lhe deu espaço para recuperar a energia emocional e continuar cuidando dos netos.

Algumas pessoas acolhedoras relataram ressentimento com o tipo de envolvimento das equipes do sistema de acolhimento: sentiam que as equipes deveriam estar ali para apoiá-las, mas, em vez disso, sentiam-se sobretudo fiscalizadas. É o que mostra a citação a seguir, de Steve:

A fiscalização, eu acho, você fica em alerta o tempo todo… você sabe que vai levar bronca depois se fizer a coisa errada, mas é algo que você aguenta… Quando eu preciso de alguém, nunca tem ninguém aqui, quando eu não preciso de vocês, vocês estão sempre me incomodando!

Viver no limbo

“Viver no limbo” representa a medida em que as pessoas acolhedoras sentem que têm estabilidade e previsibilidade em seu papel. As pessoas acolhedoras das Central Highlands explicaram que esse sentimento vem de não saber o que esperar quanto ao tempo em que a criança ficaria sob seus cuidados. Elas assumiram o papel sabendo que as crianças poderiam voltar para os pais ou seguir para outro acolhimento, mas explicaram que não se sentiam “mantidas a par” e, por isso, se preocupavam com crianças chegando e saindo de seus cuidados sem aviso. Explicaram que esse sentimento de viver no limbo influenciava a forma como exerciam seu papel, sobretudo no vínculo com a criança e na ajuda para prepará-la para o futuro. Quando sabiam o que esperar, diziam sentir elas mesmas mais estabilidade e previsibilidade, que podiam transmitir às crianças sob seus cuidados. As pessoas acolhedoras disseram ter consciência de que as transições podiam ser momentos difíceis para todas as pessoas envolvidas; por isso, planejavam como se despedir adequadamente e tornar a passagem tranquila.

Quando a criança vai embora, as crianças escrevem uma carta ou fazem um desenho para se despedir da criança, e depois a criança leva esse livro com ela. E a gente sempre compra, tipo, quando a criança está indo embora, a gente sempre vai comprar um ursinho ou um livro ou alguma coisa, e as crianças me ajudam a escolher e podem se despedir. (Evelyn)

Por outro lado, quando as pessoas acolhedoras não sabiam o que esperar, sentiam uma incerteza que vinha de não saber por quanto tempo uma criança ficaria sob seus cuidados. Como Elizabeth explicou na citação a seguir, preparar-se com frequência para se despedir de uma criança afetava sua capacidade de fazer planos e de oferecer estabilidade à criança sob seus cuidados:

Foi por isso que acabei ficando com o cuidado permanente do Toby. Como eu disse, ele ia vir só por 3 meses. Hum, então, chega o fim desses 3 meses, e a técnica do caso dizia, certo, vamos à comissão de cuidado permanente no mês que vem, então você racionava as fraldas, lavava as roupas dele, fazia as malas dele. Hum, e depois, você nem recebia um telefonema, só recebia um e-mail na noite anterior dizendo ah, bom, não encontraram ninguém adequado, você vai ficar com ele mais um mês. E isso aconteceu 3 ou 4 vezes, tá, e eu acabei pensando, coitadinho, sabe, você só fica sendo jogado de um lado para o outro, hum, minha vida está no limbo, a vida dele está no limbo, não consigo planejar nada.

Em contrapartida, as pessoas acolhedoras descreveram situações em que crianças foram retiradas de seus cuidados de forma abrupta, sem aviso, e explicaram que isso as fazia temer não ter tempo para se preparar, preparar as crianças e o restante da família para essas transições. Deram exemplos de ocasiões em que só foram avisadas com poucas horas de antecedência de que uma criança sairia de seus cuidados, e de ocasiões em que as autoridades retiraram uma criança sem oportunidade de despedida. Explicaram que isso as levava a se preocupar antecipadamente com possíveis finais abruptos, sobretudo por seus efeitos sobre as crianças envolvidas. Na citação a seguir, Evelyn descreveu uma situação em que uma criança sob seus cuidados foi devolvida à mãe biológica sem aviso. Embora Evelyn tenha ficado contente por a criança poder se reunir com a família, preocupou-se com o caráter inesperado da transição e com seu impacto sobre a criança, sobre ela mesma e sobre as outras crianças sob seus cuidados.

[O órgão] ligou e disse que tinha uma vaga em um programa para mãe e bebê em Melbourne, que [a criança] ia para lá e que eu tinha que arrumar as coisas dela e levá-la até lá em uma hora. Então eu disse, tá, ela vai voltar? Vai, com certeza vai voltar, vamos dar uma semana e ver como fica. E aí me ligaram duas horas depois dizendo ah, não, a mãe está se saindo muito bem, em 2 horas, a mãe está se saindo muito bem, vamos mandá-la para casa.

Ser mãe ou pai, mas não

“Ser mãe ou pai, mas não” resume como as pessoas acolhedoras compreendem e dão sentido ao seu papel. As pessoas acolhedoras deste estudo explicaram que se viam assumindo a parentalidade de uma criança ou jovem por meio do cuidado cotidiano, mas que não podiam ser plenamente mães ou pais por causa das tensões inerentes aos arranjos de acolhimento fora de casa. Como disse Joan: “Sabe, quando você está fazendo algo por uma criança que é sua, mas não é sua.”

As pessoas acolhedoras explicaram que as ações cotidianas de cuidado faziam com que elas estivessem, antes de tudo, exercendo a parentalidade da criança ou do jovem. Viam, porém, seu papel como diferente do papel dos pais biológicos e reconheciam que isso cria complexidade em seu papel parental. Joan descreveu seu papel em relação à neta sob seus cuidados como “fazer o papel da mãe dela quando ela tem uma mãe”. Outras pessoas acolhedoras compartilharam esse sentimento, explicando que viam seu papel como o de mãe ou pai, embora a criança já tivesse pais biológicos. Jane explicou que interpretava seus atos cotidianos de cuidado como parentalidade, mas que os diferenciava do papel dos pais biológicos na vida de uma criança.

Mas eu deixo muito claro para as crianças que, embora a gente seja pai e mãe delas, a gente não é os pais biológicos, você só tem um par desses, ninguém tira esse papel, mas enquanto sou eu quem faz a sua comida, limpa a sua casa, eu sou a sua mãe.

As pessoas acolhedoras com acolhimento não permanente, como Jane, explicaram que esperavam deixar o papel de principal figura de cuidado da criança ou do jovem e, por isso, planejavam essa transição e entendiam desde o início que não seriam, a longo prazo, a única figura de cuidado. Isso limitava a forma como se viam como mães ou pais da criança. Em contrapartida, algumas pessoas em acolhimento familiar ou por parentes acabaram se tornando as figuras de cuidado permanentes, ou de longo prazo, das crianças. Elas descreveram sua passagem para um papel parental de forma diferente das pessoas que tinham se proposto a um acolhimento de curto prazo. Uma relação de cuidado de longo prazo ou permanente com uma criança ou jovem mudava as expectativas que essas pessoas tinham de seu papel e aumentava seu sentimento de ser mãe ou pai da criança.

Acho que isso nos fez sentir mais que éramos os pais dela. Estava sendo confirmado para nós, validado, que ela provavelmente ia ficar, e é, agora é só esperar. Pode ser um processo bem longo, pelo visto. Então é empolgante, mas ao mesmo tempo dá nervoso, porque ela ainda pode ser tirada de nós… Quanto mais tempo ela fica com a gente, mais ela é nossa, mais a gente cria vínculo e mais ela se encaixa perfeitamente na nossa família. E é, eu a considero minha filha, minha menina. (Nicole)

As pessoas acolhedoras descreveram um processo de transição, o de “se tornar mãe ou pai”, que surgia lentamente com o tempo, à medida que a relação com a criança se desenvolvia e as expectativas sobre o papel mudavam. Algumas explicaram que, quando passaram a ver o cuidado permanente como possibilidade, sentiram-se mais mães ou pais por causa da relação contínua que provavelmente teriam com a criança, como Nicole expressou na citação anterior. Além disso, o tempo durante o qual cuidavam da criança ou do jovem contribuía para o sentimento de “ser mãe ou pai”, já que essa transição ocorria de forma gradual, ao longo de experiências compartilhadas.

Não me vejo como quem cuida da Sienna, eu sou a mãe da Sienna… Estou com a Sienna desde que ela tinha 3 meses, então me considero simplesmente a mãe dela, porque estive presente em tudo. (Sharon)

Leva tempo para o papel de parente que acolhe chegar ao papel de mãe ou pai. Quando as crianças estão com você há tanto tempo, você se torna a mãe ou o pai delas. Você chega a esse mesmo nível. (Debbie)

Considerações adicionais sobre parentes que acolhem

De modo geral, a experiência de “ser mãe ou pai, mas não” e o processo de se tornar mãe ou pai eram comuns a famílias acolhedoras e parentes que acolhem. Os parentes que acolhem, porém, descreveram algumas complexidades adicionais decorrentes da relação que já tinham com a criança e com seu pai e/ou sua mãe biológicos. Esses parentes descreveram sua passagem para o papel de mãe ou pai como algo que envolvia também a perda do papel original, ou como a busca de um equilíbrio entre os dois papéis.

E quando eu era só a vovó dela, a gente fazia coisas muito legais juntas. Sabe, era totalmente diferente. Não sei. Eu era a vovó legal! Então agora eu meio que tenho que, tem que ter limites e tem que ter regras e coisas com que a gente não precisava lidar antes, então é um papel muito mais desafiador, porque eu ainda quero ser a vovó, mas não posso. (Joan)

Porque eu não vejo assim, quer dizer, sou a avó deles, claro, mas em um papel diferente, em um papel parental. E isso, isso não é o que os avós deveriam estar fazendo, eles deveriam estar mimando os netos e, hum, disso eu sinto falta. (Heather)

Os parentes que acolhem explicaram que as relações entre essas pessoas e os pais biológicos das crianças e jovens sob seus cuidados podiam ser fonte de tensão. Algumas dessas pessoas explicaram que a passagem para um papel parental e a relação que estabeleceram com as crianças e jovens podiam ser difíceis de administrar dentro da família mais ampla.

É, faz vários anos que eu sou a mãe deles. Hum, o menorzinho até me chamava de mãe. Até a mãe dele ouvir e, nossa, ela perdeu a cabeça com ele, e ele era só um bebezinho, um menininho, aquilo me deu um susto enorme. Mas, hum, é, faz muito tempo que eu sou de fato a mãe deles. (Debbie)

Discussão

O conceito de “ser mãe ou pai, mas não” levanta questões importantes sobre as expectativas de papel que recaem sobre as pessoas acolhedoras. Esta pesquisa sugere que as pessoas acolhedoras sentem que cumprem o papel de mãe ou pai de uma criança, mas com extras que vão além do que esperam de uma parentalidade comum, dentro de um grande sistema burocrático que cria complexidades e barreiras adicionais ao seu papel parental. Algumas dessas tensões são inerentes à própria natureza do acolhimento em ambiente familiar, já que as pessoas acolhedoras assumem o cuidado de crianças que já têm família, história e complexidades próprias. Outras, porém, surgem da forma como os sistemas de acolhimento familiar são concebidos e desenhados, o que exige pensar em como apoiar melhor as pessoas acolhedoras para lidar com as tensões inevitáveis de seu papel.

As pessoas acolhedoras atuam em um contexto em que são incentivadas a formar relações de apego sólidas e a oferecer ambientes seguros, estáveis e acolhedores às crianças e jovens sob seus cuidados, em sintonia com o reconhecimento crescente da importância dos vínculos relacionais para o desenvolvimento infantil e com o crescimento das modalidades de cuidado alternativo em ambiente familiar (DHHS, 2019; Harlow, 2021; Smith et al., 2017). As pessoas acolhedoras da pesquisa aqui descrita mostraram que suas opiniões estão de acordo com essa concepção do acolhimento em ambiente familiar, já que se esforçavam para criar relações de confiança com as crianças e um ambiente familiar normal e cotidiano. No entanto, tinham dificuldade para cumprir esse papel quando não sabiam por quanto tempo a criança ficaria sob seus cuidados e quando temiam ter de se despedir das crianças de forma inesperada, por causa de políticas sistêmicas que levam a altas taxas de instabilidade nos acolhimentos (Riggs et al., 2009). Assim, as pessoas acolhedoras viviam um dilema entre o desejo de fazer a criança se sentir parte de sua casa e de sua família e o medo de se apegar demais caso o vínculo fosse rompido de forma inesperada. Wheeler (2022, p. 123) descreveu essa tensão como um “risco emocional” que as pessoas acolhedoras assumem ao criar vínculo com as crianças, por causa do luto que esperam viver se a relação terminar. Essa antecipação de um possível fim é uma das limitações a uma identidade parental descritas pelas pessoas acolhedoras desta pesquisa.

O processo de se tornar mãe ou pai delineado nesta pesquisa mostra que as pessoas acolhedoras descreveram uma passagem de se ver agindo como mãe ou pai da criança para se ver sendo mãe ou pai da criança. Explicaram que se sentiam mais mães ou pais quando cuidavam das crianças por longos períodos e quando esperavam poder manter a relação com a criança a longo prazo, sobretudo se planejavam assumir um cuidado permanente. Esse resultado está de acordo com uma pesquisa nos Estados Unidos que mostrou que famílias acolhedoras assumiam um compromisso maior com as crianças sob seus cuidados quando esperavam manter a relação a longo prazo, por exemplo por meio da adoção (Leathers et al., 2019). A pesquisa existente mostra que famílias acolhedoras de longo prazo se veem como mães e pais (Blythe et al., 2013), e a presente pesquisa acrescenta a isso ao incluir tanto famílias acolhedoras quanto parentes que acolhem, em diferentes etapas de acolhimentos de longo e de curto prazo, para esclarecer o processo pelo qual a pessoa se sente cada vez mais mãe ou pai com o tempo. Vale notar que as pessoas acolhedoras do contexto de Victoria ainda relataram chegar aos poucos a uma identidade parental, embora provavelmente nunca viessem a ser reconhecidas como mães ou pais na mesma medida que alguém que adota.

Uma das principais frustrações relatadas pelas pessoas acolhedoras desta pesquisa foi a sensação de serem tratadas como garantidas e com desrespeito nas interações com as equipes do sistema de acolhimento. Isso está de acordo com pesquisas que mostram que tanto parentes que acolhem (McPherson et al., 2022; Rose et al., 2022; Zuchowski et al., 2019) quanto famílias acolhedoras (D’Amato e Brownlee, 2022) vivem a exclusão das decisões e sofrem na comunicação com organizações e órgãos governamentais em diversas jurisdições. Não surpreende que as pessoas acolhedoras tenham se descrito como “mães ou pais, mas não” quando recebiam mensagens contraditórias entre a intenção política do acolhimento em ambiente familiar (oferecer famílias estáveis e amorosas) e suas experiências com as práticas de nível meso no sistema de acolhimento (sentir-se sem reconhecimento, sem apoio e na incerteza). As pessoas acolhedoras queriam ser vistas e valorizadas como pessoas importantes na vida das crianças e ter sua expertise específica reconhecida. O sistema de acolhimento em ambiente familiar depende de famílias acolhedoras e parentes que acolhem para investir tempo, energia e emoção no cuidado das crianças; por isso, é fundamental valorizar a contribuição específica dessas pessoas e apoiá-las para que sustentem seu papel importante.

Os esforços para que as pessoas acolhedoras tivessem mais reconhecimento e apoio contribuíram, no Reino Unido, para o movimento de profissionalização do acolhimento familiar, como forma de enfrentar alguns desafios dessa modalidade de cuidado alternativo (Kirton, 2022). No entanto, uma pesquisa recente no Reino Unido com famílias acolhedoras mostrou que, mesmo concebendo seu papel por uma lente profissional, elas sentiam que seu status profissional ainda era visto como inferior ao dos profissionais “de verdade” que atendem crianças e pessoas acolhedoras no sistema de acolhimento (Wheeler, 2022). Isso se parece com o sentimento, relatado pelas pessoas acolhedoras desta pesquisa, de não serem “bem” mães ou pais. Ao que parece, quer as pessoas acolhedoras concebam seu papel principalmente por uma lente profissional ou parental, seus papéis não se encaixam perfeitamente em nenhuma dessas categorias normativas. Em vez de buscar mais reconhecimento apresentando as pessoas acolhedoras como mães e pais ou como profissionais, talvez seja mais útil elevar seu status e sua visibilidade reconhecendo a expertise de famílias acolhedoras e parentes que acolhem como categorias de papel singulares. Isso permitiria às pessoas acolhedoras ganhar status de expertise próprio, em vez de sentirem que não são bem mães ou pais nem bem profissionais.

Limitações e estudos futuros

A presente pesquisa foi uma exploração do acolhimento em ambiente familiar específica de um contexto. Por isso, é importante reconhecer o impacto das diferenças sistêmicas e culturais ao interpretar seus resultados, como recomendam Pinto e Luke (2022). A presente pesquisa nos incentiva a colocar famílias acolhedoras e parentes que acolhem no centro, em posição de expertise, na concepção de programas e na implementação de mudanças nas políticas. Recomendamos que pesquisas futuras reconheçam essa expertise por meio de metodologias de pesquisa emancipatórias, como a pesquisa-ação (Kolenick, 2021). Reunir as pessoas acolhedoras com a gestão dos programas, as equipes de campo e quem formula as políticas, em ambientes específicos de cada contexto, pode permitir colocar a voz das pessoas acolhedoras no centro e criar soluções que alinhem melhor políticas e práticas para apoiar suas experiências. Embora a presente pesquisa tenha sugerido algumas estratégias que podem ajudar a enfrentar os desafios dos programas de acolhimento em ambiente familiar, as diferenças de contexto fazem com que estratégias específicas precisem ser desenvolvidas dentro das condições sistêmicas e legais de cada jurisdição (Konijn et al., 2019).

Além disso, é importante reconhecer que as pessoas acolhedoras são apenas um dos muitos grupos importantes a considerar no acolhimento em ambiente familiar. As próprias crianças e jovens, os pais biológicos e diversas outras partes interessadas também precisam ser ouvidos, e é importante equilibrar as necessidades e os direitos de todas essas pessoas ao pensar em mudanças nos sistemas de acolhimento em ambiente familiar. Uma pesquisa australiana recente mostra, por exemplo, que tanto as mães biológicas quanto as mulheres que acolhem crianças a longo prazo precisam renegociar seus papéis para apoiar as crianças em arranjos de cuidado complexos (Collings e Wright, 2022). Se o objetivo do acolhimento em ambiente familiar é oferecer ambientes de tipo familiar e vínculos estáveis com as figuras de cuidado, é fundamental que todas as pessoas envolvidas no processo participem da pesquisa e da reforma das políticas.

Uma limitação da presente pesquisa é que nenhuma das pessoas acolhedoras participantes é aborígine ou das ilhas do Estreito de Torres. Considerando que crianças aborígines e das ilhas do Estreito de Torres entram no acolhimento fora de casa na Austrália em taxas mais altas do que as demais crianças (AIHW, 2022), é fundamental desenhar pesquisas que incluam de forma proativa os povos das Primeiras Nações. As perspectivas das Primeiras Nações e de outras culturas poderiam trazer contribuições valiosas para esse tema, dadas as diferenças nos sistemas de parentesco e nas concepções de família em relação às culturas ocidentais; por isso, é importante envolver de forma proativa a expertise de pessoas acolhedoras aborígines e das ilhas do Estreito de Torres em pesquisas futuras.

Implicações e conclusões

A presente pesquisa pode ajudar os programas de acolhimento em ambiente familiar a enfrentar alguns dos desafios que essa modalidade de cuidado alternativo vive hoje, como a falta de pessoas que acolham, a insatisfação de quem acolhe e a instabilidade dos acolhimentos (D’Amato e Brownlee, 2022). Em vez de considerar isoladamente cada desafio do acolhimento em ambiente familiar, a teoria fundamentada integrada oferece um quadro para entender como as ações e as intenções das pessoas acolhedoras, o contexto e as expectativas de papel se relacionam entre si. Em outras palavras, ela mostra o que famílias acolhedoras e parentes que acolhem fazem, por que fazem e o que as leva a fazer. Essa perspectiva integrada oferece a quem formula políticas um quadro para examinar as expectativas de papel impostas às pessoas acolhedoras e as formas como os sistemas de acolhimento em ambiente familiar apoiam ou limitam sua capacidade de atendê-las. Além disso, a presente pesquisa coloca famílias acolhedoras e parentes que acolhem em posição de expertise sobre o acolhimento em ambiente familiar e oferece um espaço para que suas perspectivas sejam ouvidas e compartilhadas.

Parentes que acolhem e famílias acolhedoras desta pesquisa compartilham suas experiências sobre o que ajudou e o que foi desafiador no exercício de seu papel de cuidado, sobretudo do ponto de vista do sistema de acolhimento em que atuam. O estudo mostra que fatores como boas relações com as equipes, redes de apoio sólidas, apoio de outras pessoas acolhedoras, apoio financeiro e oportunidades de fazer pausas faziam diferença na experiência das pessoas acolhedoras e em sua capacidade de cumprir e sustentar seu papel. Essas sugestões mostram algumas das formas pelas quais os programas de acolhimento em ambiente familiar podem melhorar a experiência de famílias acolhedoras e parentes que acolhem, depois de adaptadas às diferenças de contexto. No entanto, essas sugestões se concentram sobretudo em soluções de nível micro (individual), que ajudariam as pessoas acolhedoras a lidar com o sistema de acolhimento tal como ele existe hoje.

A presente pesquisa nos incentiva a ir além do nível micro para relacionar políticas, práticas e experiências das pessoas acolhedoras. Ao explorar as tensões e frustrações que essas pessoas vivem por causa das discrepâncias entre suas próprias expectativas de papel, as práticas no nível dos programas e as diretrizes políticas, fica clara a necessidade de mudança nos níveis meso (comunidade e organização) e macro (sistema). Se a intenção do acolhimento em ambiente familiar é dar às crianças e aos jovens a oportunidade de “viver com pessoas acolhedoras apoiadas para criar um lar seguro e acolhedor” (DHHS, 2019, p. 6), é fundamental enfrentar as discrepâncias que famílias acolhedoras e parentes que acolhem sentem em seu papel, por meio de mudanças sistêmicas que lhes permitam pôr em prática os princípios do apego no cuidado cotidiano das crianças e que reduzam as mensagens contraditórias que relatam. A presente pesquisa reforça a importância de ampliar o reconhecimento da expertise de famílias acolhedoras e parentes que acolhem no acolhimento em ambiente familiar como base para tornar possíveis essas mudanças sistêmicas.

Complexe Systémique: a reter

O estudo descreve com precisão uma posição de terceiro: quem acolhe sustenta o cotidiano da criança, mas a decisão, a informação e o futuro do vínculo pertencem à instituição e, muitas vezes, aos pais biológicos. Espera-se dessas pessoas um apego sólido, ao mesmo tempo que se lhes nega o lugar e a duração que o tornariam suportável, o que se parece muito com mensagens contraditórias. Para a clínica, vale reter três pontos: incluir o serviço de acolhimento no mapa do sistema, em vez de olhar só para a família acolhedora; reconhecer o luto antecipado que freia o envolvimento; e acompanhar, nos avós que acolhem, a perda do papel de avó ou avô e os conflitos com o próprio filho ou filha. O alcance é limitado: dezesseis pessoas ligadas a uma única organização, sobretudo avós, nenhuma pessoa aborígine, e nem as crianças nem os pais biológicos são ouvidos. O relato sobre os serviços é o das pessoas acolhedoras. Para ler junto com o artigo sobre as lealdades invisíveis e com o artigo sobre os maus-tratos institucionais na proteção da infância.

Notas do original

Agradecimentos. Publicação em acesso aberto viabilizada pela Federation University Australia, no âmbito do acordo entre a Wiley e a Federation University Australia, por meio do Council of Australian University Librarians.

Referências

Australian Institute of Health and Welfare. (2022). Child protection Australia 2020–21. https://www.aihw.gov.au/reports/child-protection/child-protection-australia-2020-21/

Berrick, J. D., & Skivenes, M. (2012). Dimensions of high quality foster care: Parenting Plus. Children and Youth Services Review, 34(9), 1956–1965. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2012.05.026

Blumer, H. (1969). Symbolic interactionism: Perspective and method. Prentice-Hall.

Blythe, S. L., Halcomb, E. J., Wilkes, L., & Jackson, D. (2013). Perceptions of long-term female foster-carers: I'm not a carer, I'm a mother. British Journal of Social Work, 43(6), 1056–1072. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcs047

Blythe, S. L., Wilkes, L., & Halcomb, E. J. (2014). The foster carer's experience: An integrative review. Collegian, 21(1), 21–32. https://doi.org/10.1016/j.colegn.2012.12.001

Borenstein, J. (2022). Towards a conceptual and practice framework for statutory kinship care in Victoria [Unpublished doctoral dissertation]. La Trobe University.

Charmaz, K. (2014). Constructing grounded theory ( 2nd ed.). SAGE Publications.

Child Welfare Information Gateway. (n.d.). Foster care statistics 2019. U.S. Department of Health and Human Services, Administration for Children and Families, Children's Bureau. https://www.childwelfare.gov/topics/systemwide/statistics/foster-care/

Chinnery, S. (2016). Social work's fingerprint on the evolution of attachment theory: Some essential knowledge for care practice. Aotearoa New Zealand Social Work, 28(3), 79–90. https://doi.org/10.11157/anzswj-vol28iss3id216

Collings, S., & Wright, A. C. (2022). “You are mum and then they are mum”: Negotiating roles, relationships, and contact in out-of-home care. Family Relations, 71(3), 1211–1225. https://doi.org/10.1111/fare.12649

D'Amato, S., & Brownlee, K. (2022). Qualitative studies of foster carer experiences in providing Out of Home Care for children: A scoping review and narrative synthesis. The British Journal of Social Work, 52(6), 3078–3094. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcab223

De Wilde, L., Devlieghere, J., Vandenbroeck, M., & Vanobbergen, B. (2019). Foster parents between voluntarism and professionalisation: Unpacking the backpack. Children and Youth Services Review, 98, 290–296. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2019.01.020

Department of Health and Human Services. (2019). Strong carers, stronger children: Supporting kinship, foster and permanent carers to achieve the best outcomes for children and young people in care. Victorian Government.

Farmer, E. M. Z., & Lippold, M. A. (2016). The need to do it all: Exploring the ways in which treatment foster parents enact their complex role. Children and Youth Services Review, 64, 91–99. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2016.03.005

Fergeus, J., Humphreys, C., Harvey, C., & Herrman, H. (2017). Assisting carers to respond to the mental health needs of children. Children Australia, 42(1), 30–37. https://doi.org/10.1017/cha.2017.1

Garcia Quiroga, M., & Hamilton-Giachritsis, C. (2014). “In the name of the children”: Public policies for children in out-of-home care in Chile. Historical review, present situation and future challenges. Children and Youth Services Review, 44, 422–430. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2014.07.009

Harlow, E. (2021). Attachment theory: Developments, debates and recent applications in social work, social care and education. Journal of Social Work Practice, 35(1), 79–91. https://doi.org/10.1080/02650533.2019.1700493

Hart, S. N., Lee, Y., & Wernham, M. (2011). A new age for child protection—General comment 13: Why it is important, how it was constructed, and what it intends? Child Abuse & Neglect, 35(12), 970–978. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2011.09.007

Hollett, M., Hassett, A., & Lumsden, V. (2022). Foster caring as ‘professional parenting’: A grounded theory of the relationships between parent and professional in long-term foster care. Adoption & Fostering, 46(4), 413–436. https://doi.org/10.1177/03085759221139490

Kirton, D. (2022). Exploring the anti-professional turn in English foster care: Implications for policy, practice and research. The British Journal of Social Work, 52(7), 4021–4039. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcac039

Kolenick, P. (2021). Communicative space and the emancipatory interests of action research. Action Research, 19(2), 129–145. https://doi.org/10.1177/1476750317699461

Konijn, C., Admiraal, S., Baart, J., van Rooij, F., Stams, G. J., Colonnesi, C., Lindauer, R., & Assink, M. (2019). Foster care placement instability: A meta-analytic review. Children and Youth Services Review, 96, 483–499. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2018.12.002

Leathers, S. J., Spielfogel, J. E., Geiger, J., Barnett, J., & Vande Voort, B. L. (2019). Placement disruption in foster care: Children's behavior, foster parent support, and parenting experiences. Child Abuse & Neglect, 91, 147–159. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2019.03.012

Lempert, L. B. (2007). Asking questions of the data: Memo writing in the grounded theory tradition. In A. Bryant & K. Charmaz (Eds.), The SAGE handbook of grounded theory (pp. 245–264). SAGE.

McPherson, L., Gatwiri, K., Day, K., Parmenter, N., Mitchell, J., & Macnamara, N. (2022). “The most challenging aspect of this journey has been dealing with child protection”: Kinship carers' experiences in Australia. Children and Youth Services Review, 139, Article 106550. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2022.106550

Musgrove, N., & Michell, D. (2018). The slow evolution of foster care in Australia: Just like a family? Palgrave McMillan.

Permanent Care and Adoptive Families. (2021). Permanence and stability: The missing ingredients for Victoria's most vulnerable children. https://www.pcafamilies.org.au/advocacy/submissions-policy-resources#permanence-and-stability-the-missing-ingredients-for-victoria-s-most-vulnerable-children-2021

Pinto, V. S., & Luke, N. (2022). The role of foster carers in England and Portugal: Is it solely a parenting role? Children & Society, 36(2), 249–265. https://doi.org/10.1111/chso.12536

Riggs, D. W., Delfabbro, P., & Augoustinos, M. (2009). Negotiating foster-families: Identification and desire. The British Journal of Social Work, 39(5), 789–806. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcm156

Rose, L., Taylor, E. P., Di Folco, S., Dupin, M., Mithen, H., & Wen, Z. (2022). Family dynamics in kinship care. Child & Family Social Work, 27(4), 635–645. https://doi.org/10.1111/cfs.12912

Saldaña, J. (2013). The coding manual for qualitative researchers ( 2nd ed.). SAGE.

Schofield, G., Beek, M., Ward, E., & Biggart, L. (2013). Professional foster carer and committed parent: Role conflict and role enrichment at the interface between work and family in long-term foster care. Child and Family Social Work, 18(1), 46–56. https://doi.org/10.1111/cfs.12034

Smith, M., Cameron, C., & Reimer, D. (2017). From attachment to recognition for children in care. The British Journal of Social Work, 47(6), 1606–1623. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcx096

Smyth, C., & McHugh, M. (2006). Exploring the dimensions of professionalising fostering: Carers' perceptions of their fostering role. Children Australia, 31(1), 12–20. https://doi.org/10.1017/S1035077200010944

Sprecher, E., Tuitt, I., Hill, D., Midgley, N., & Sleed, M. (2021). No typical care story: How do care-experienced young people and foster carers understand fostering relationships? Adoption & Fostering, 45(3), 248–264. https://doi.org/10.1177/03085759211037156

United Nations Committee on the Rights of the Child. (2011). General comment 13: The right of the child to freedom from all forms of violence (CRC/C/GC/13). https://digitallibrary.un.org/record/711722?ln=en

Vulnerable Children Reform Unit. (n.d.). Children and Youth Area Partnerships overview. Department of Health and Human Services, Victorian Government.

Wheeler, P. (2022). Multiple modes of being: Exploring the complex role of a foster carer. [Unpublished doctoral dissertation]. University of Essex.

Zuchowski, I., Gair, S., Henderson, D., & Thorpe, R. (2019). Convenient yet neglected: The role of grandparent kinship carers. The British Journal of Social Work, 49(3), 615–632. https://doi.org/10.1093/bjsw/bcy085

Tradução não oficial em português de Ser mãe ou pai, mas não: uma teoria fundamentada do acolhimento em ambiente familiar, de Kimberlea Cooper, Christina Sadowski e Rob Townsend, Family Relations, vol. 73, no 3 (2024), doi: 10.1111/fare.12969, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Being a parent, but not: A grounded theory of home-based care”, publicado em Family Relations (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Cooper, K., Sadowski, C., et Townsend, R. (2024). Ser mãe ou pai, mas não: uma teoria fundamentada do acolhimento em ambiente familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/ser-mae-ou-pai-mas-nao-uma-teoria-fundamentada-do-acolhimento-em-ambiente-familiar (Obra original publicada em 2023 em Family Relations, 73(3), 1880-1898 (2024); republicada em 2024 por Family Relations, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/fare.12969)

Carrinho

Seu carrinho está vazio.