Frontiers in Sociology · Terapia familiar

Terapia familiar focada na regulação emocional com famílias contemporâneas afetadas pelas tecnologias da informação e da comunicação

Quando um dos pais some atrás do celular e os filhos se trancam nos videogames, o que exatamente está sendo regulado? A partir de 47 sessões filmadas com cinco famílias atendidas num centro de adictologia de Paris, Nathalie Duriez descreve uma terapia familiar focada na regulação emocional, em doze etapas: a tela se torna um terceiro que alivia as tensões, e a perda ambígua que ela provoca muitas vezes desperta feridas mais antigas.

Autores Nathalie Duriez (Laboratório de Psicopatologia e Neuropsicologia, Universidade Paris 8, Saint-Denis, França; Centro de Cuidados, Acompanhamento e Prevenção em Adictologia Monceau, Groupe SOS, Paris, França)Primeira publicação Frontiers in Sociology, 22 de março de 2021Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Terapia familiar focada na regulação emocional com famílias contemporâneas afetadas pelas tecnologias da informação e da comunicação, de Nathalie Duriez, publicado na Frontiers in Sociology (Frontiers Media) (2021), doi: 10.3389/fsoc.2021.633515, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas e as trocas clínicas em forma de diálogos; a declaração de disponibilidade dos dados não foi reproduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Hoje, esse terceiro pode ser um computador, um tablet ou um smartphone.

Nathalie Duriez

Resumo

No mundo contemporâneo, as novas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) revolucionaram as relações e a organização familiares. Celulares, tablets e computadores estão enraizados no cotidiano das famílias. Por isso, as famílias enfrentam novos desafios ligados ao uso problemático da internet, que embaralha as fronteiras entre o mundo exterior e a esfera doméstica. Às vezes essas mudanças na vida em comum geram sofrimento. Como responder, na terapia, a esses novos desafios enfrentados pelas famílias contemporâneas? Levando em conta as estratégias de regulação emocional que sustentam o uso problemático da tecnologia, desenvolvemos uma terapia familiar focada na regulação emocional. No paradigma da pesquisa sobre processos de mudança (Change Process Research), que busca explicar como a psicoterapia produz mudança, examinamos essa abordagem terapêutica inovadora num processo exploratório, a fim de aprimorar nossa própria prática. Realizamos uma pesquisa qualitativa com cinco famílias em terapia familiar, em condições clínicas naturais, para identificar as intervenções da terapeuta e as configurações familiares. O tema central foi o das intervenções da terapeuta. Os resultados identificaram 12 subcategorias nessa categoria. A partir dessas subcategorias, construímos um modelo focado na regulação emocional em 12 etapas. Cada intervenção é ilustrada com trechos das sessões. São discutidas considerações clínicas, questões metodológicas que limitam o presente trabalho e recomendações para pesquisas futuras.

Palavras-chave: relações familiares, família contemporânea, uso problemático da internet, perda ambígua, terapia familiar focada na regulação emocional

Introdução

As mutações psicossociais modificaram as configurações familiares e as preocupações da terapia familiar. Surgem novas formas de “ser família”: famílias recompostas mais frequentes, homoparentalidade, adoção tardia, reprodução assistida etc. As famílias também passam por mudanças com o aumento do uso das tecnologias da informação e da comunicação (TIC). Smartphone, tablet, computador e objetos conectados passaram a fazer parte da paisagem familiar e podem estar alterando aspectos da vida em família, ainda mais no contexto da pandemia de covid-19, com o teletrabalho e o confinamento. O transumanismo defende a ideia de que o ser humano pode ser “aumentado” pela tecnologia (Leary, 1994; Drexler, 2005; Roux e Coeurnelle, 2016). “O ser humano pode ‘se tornar mais humano’ graças à tecnologia: vida mais longa, mais inteligência e criatividade” (Roux e Coeurnelle, 2020). Outras vozes denunciam os perigos dessas próteses cognitivas (Derian, 2013). Homem aumentado, “eu conectado”: as tecnologias da informação e da comunicação revolucionaram as relações humanas e a organização das famílias. Podemos falar também de famílias “aumentadas”? O celular se tornou “uma extensão de si” e passou a interferir no cotidiano das pessoas, criando uma nova dinâmica relacional. Que desafios as famílias conectadas enfrentam? Embora o uso da internet facilite nossa vida, algumas pessoas parecem apresentar um uso problemático da internet (UPI). Entre vários comportamentos on-line prejudiciais, o UPI é definido como “preocupações, impulsos ou comportamentos excessivos ou mal controlados em relação ao uso da internet, que levam a prejuízo e sofrimento” (Weinstein e Lejoyeux, 2010, p. 277). Quais são as implicações para a mudança das dinâmicas, dos valores e dos processos familiares? Em seu modelo multiteórico que descreve como as tecnologias afetam a vida de casal e de família, Hertlein (2012) sugere dois tipos de mudança nas relações: mudanças na estrutura familiar das relações e mudanças no processo familiar. Se as famílias estão mudando e a tecnologia faz parte dessa mudança, a adoção das tecnologias emergentes pode desafiar a clínica de família. Como a terapia familiar responde a essa realidade clínica emergente?

Na perspectiva estrutural-funcional, “a estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem” (Minuchin, 1974, p. 52). A estrutura familiar é determinada por fronteiras, barreiras invisíveis que regulam o contato entre os membros. Quando Minuchin (1974) definiu as fronteiras, referia-se às regras que sustentam os padrões transacionais das famílias, isto é, como funciona o sistema mais amplo (a família nuclear) e os subsistemas (pais e filhos) que o compõem. Os subsistemas são organizados hierarquicamente: o poder é distribuído de modo adequado entre as pessoas e entre os subsistemas, de modo que se espera contar mais com alguns membros do que com outros. Os pais devem afirmar sua autoridade numa estrutura hierárquica. O respeito a essas regras numa família torna possível o pertencimento. O uso da tecnologia pode modificar essas regras e embaralhar as fronteiras entre trabalho e família, com consequências negativas (Chesley, 2005). Por exemplo, quando um dos pais trabalha em casa, as regras próprias de seu sistema de trabalho podem se sobrepor às regras familiares. Quem, entre os pais, costuma dar atenção ao filho pode se irritar porque o menino de 6 anos vem atrapalhar seu trabalho. Do lado da criança, as regras dos jogos on-line podem prevalecer sobre as regras da casa. Na adolescência, recusa-se a sair do quarto para almoçar com os pais porque se está jogando on-line com amigos. Essas bolhas permitidas pela tecnologia aparecem como subsistemas com fronteiras por vezes rígidas dentro do sistema familiar, regidos por regras diferentes.

“Os dispositivos de comunicação pessoais transformam hoje o indivíduo numa célula comunicante que habita vários espaços ao mesmo tempo: o do ambiente imediato e todos os espaços possíveis virtualmente acessíveis por suas conexões tecnológicas (Guillaume, 1994)” (Caron e Caronia, 2005, p. 255). Diferentes filiações entram em rivalidade. A noção de pertencimento parece então obsoleta, já que os indivíduos se ligam menos por um pertencimento comum do que por conexões (Gaillard, 2009). Com essa possibilidade de conexões externas, a modelização da família como sistema parece ser posta em questão, na medida em que os membros da família já não estão ligados entre si por laços hierarquicamente superiores a quaisquer outros (Gaillard et al., 2011). A submissão à autoridade paterna já não tem vez; a juventude é juíza de si mesma e tem autoridade sobre si. Antigamente, os pais podiam controlar os jogos oferecidos aos filhos. Hoje, as crianças podem “baixar os próprios jogos sem o conhecimento dos pais. Isso pode inverter a estrutura da família, valorizando de modo desfavorável a juventude ou colocando-a em posição de maior poder, já que a juventude muitas vezes sabe mais de tecnologia do que os pais” (Curtis et al., 2017, p. 114). “A família, primeira célula de pertencimento, está sujeita a reconfigurações permanentes e atravessa uma crise da transmissão educativa. Assistimos assim a uma mutação generalizada das instituições e dos rituais sociais e comunitários, que nutriam o laço social dando sentido e regulando as condutas individuais” (Lascaux e Couteron, 2015, p. 165-166). As tecnologias amplificam o fenômeno de individualização das crianças, que passam menos tempo com os pais. A coesão familiar1 sofre com isso (Caron e Caronia, 2005). Escots (2011) fala de uma crise epistemológica ligada à mudança do estatuto ontológico das famílias.

Nas novas famílias, as crianças já não constroem sua identidade com base no pertencimento, sob uma injunção à heteronomia, mas respondendo a uma injunção à autonomia: “Cabe a você, e só a você, forjar sua identidade!” Daí a necessidade de uma autoestima elevada. Como os seres se estruturam num modo “individual”, o laço de pertencimento se dissolve quase totalmente num laço conectivo. Esse modo conectivo de ligação deve deixar a cada pessoa um espaço intacto de desenvolvimento pessoal. Seu espaço tornou-se vital na medida em que esses espaços se impõem como suportes da necessária visibilidade pessoal, do desdobramento suficiente do eu dos indivíduos, da apresentação de si, diria Fourez (2004). A juventude já não constrói sua identidade com base no pertencimento, mas na individualidade, que pode se apoiar em suportes digitais que podemos relacionar às “tecnologias de si” descritas por Foucault (1982). Jovens contam sua história nas redes sociais, registrando seus humores e as atividades que marcaram o dia. As ferramentas digitais permitem produzir uma narrativa de vida (Amri e Vacaflor, 2010), mas quem recebe essas mensagens, vestígios da identidade narrativa da pessoa jovem, é múltiplo e incerto. Os laços sociais mediados por computador, possibilitados pela tecnologia digital, são “flutuantes” (Perriault, 2009), e a construção identitária induzida por essa lógica sociotécnica será instável (Coutant, 2011). Novas fragilidades surgem com esses processos recentes de individualização: transtornos narcísicos, desregulação emocional, novas adições etc. (Coutant, 2011; Duriez, 2018a).

O processo de desinstitucionalização do casal e da família induz uma “subjetivação” e uma “afetivação” do laço. “A relação com o outro é muito concreta, subjetivada e ‘afetiva’, implicando uma relação baseada na estima, constantemente medida, do outro e de si” (Gaillard et al., 2011). As regulações dentro da família “já não se dão num modo institucional, dão-se essencialmente num modo emocional, de modo que há um processo de negociação tão contínuo quanto tenso” (Gaillard, 2009, p. 18). Essa mudança nos modos de regulação pode ser fonte de sofrimento para membros da família que não se adaptam a essa atitude conectiva (Duriez, 2019).

A tecnologia traz mudanças ao processo familiar, fazendo passar de relações em modo de pertencimento a relações em modo conectivo. Na perspectiva interacionista-construcionista, o estudo do processo familiar observa como os membros da família desenvolvem relações e interagem por meio da comunicação, dos comportamentos, dos gestos, dos rituais (Berger e Kellner, 1970) e das estratégias de regulação emocional (Duriez, 2017). Fora das situações sintomáticas (adição, cyberbullying, acesso de menores a conteúdos inadequados etc.), o principal problema parece ser o tempo gasto com as TIC e suas consequências sobre as relações familiares (Hugues e Hans, 2001; Bacigalupe et al., 2014). No que diz respeito às relações entre pais e filhos, na adolescência “um isolamento excessivo no mundo virtual pode significar um apego diminuído aos pais e à família. Um vínculo forte demais com uma máquina em detrimento de outras relações com as pessoas ao redor, um tempo longo demais passado em sua presença, substituem, em certa medida, certas relações indispensáveis no contexto do desenvolvimento social e emocional” (Derian, 2013, p. 356). A presença generalizada das novas tecnologias de mídia nos lares pode ter impactos relacionais sobre os casais. Hertlein (2012) examina as consequências para os casais e aponta os efeitos da tecnologia, no cotidiano familiar, sobre a intimidade, sobre os processos de início e formação das relações e sobre sua manutenção. Chesley (2005) mostra que o uso do celular ao longo do tempo está ligado a maior sofrimento psicológico e a menor satisfação familiar.

Por exemplo, numa terapia de casal, uma mulher explica que toda noite, quando o casal poderia se encontrar depois que as crianças vão dormir, o marido leva o celular ao banheiro e desaparece por 30 minutos: “ele está lá e não está lá”. Ela vive então uma perda momentânea. Embora essa experiência possa surgir no contexto de um divórcio, ela também pode existir quando todos os membros da família estão juntos em casa. As oscilações entre presença e ausência desestabilizam o entorno, que precisa aprender a lidar com o estresse de nunca saber se a pessoa está de fato presente e disponível ou trancada em sua bolha tecnológica e inacessível (Duriez, 2013). Essa experiência de perda se torna um núcleo organizador da dinâmica familiar, pois novos jogos ocultos regulam as relações: uma pessoa se ausenta psiquicamente ao se trancar com o computador, enquanto a outra sente a ausência, a falta. Essa experiência nos remete ao conceito de perda ambígua descrito por Boss (1999). No contexto de uma perda ambígua, é muito difícil integrar a ausência do outro, porque o outro está ali. A pessoa já não está presente psiquicamente, mas está fisicamente e pode também voltar psiquicamente. O processo de “desligamento progressivo”, etapa do luto por uma perda real, não é possível. As famílias conectadas precisam aprender a regular as emoções ligadas à ambiguidade da presença, à incerteza sobre a disponibilidade do outro.

Como responder, na terapia, a esses novos desafios enfrentados pelas famílias contemporâneas? Mesch (2006) propõe uma abordagem composicional que inclui um trabalho sobre o uso da internet, a autoestima, o tempo em família e os conflitos familiares, para fortalecer a coesão familiar. Bacigalupe et al. (2014) propõem uma abordagem baseada nas forças para apoiar as relações familiares. “A confluência de uma inteligência ambiente, um ambiente de tecnologia avançada capaz de responder de modo inteligente às necessidades humanas (Riva, 2005), de uma presença conectada (Licoppe, 2004) e da consciência contínua dos outros por meio de ferramentas sem fio está favorecendo uma nova maneira de as famílias se relacionarem” (Bacigalupe et al., 2014). A equipe recomenda que terapeutas se familiarizem com as novas TIC. Jordan (2014) propõe incorporar os videogames à terapia como se faz com os jogos de tabuleiro. Curtis et al. (2017) propõem acolher os videogames e destacar seus benefícios para ajudar a juventude a se manter engajada e ativa no processo. Essa equipe convida os pais a fazer o mesmo. “A pessoa responsável pelos cuidados, orientada pela pessoa terapeuta, deve facilitar uma conversa com a criança sobre os jogos de que ela gosta ou pelos quais se interessa” (Curtis et al., 2017, p. 115). Liu et al. (2015) exploram tanto a eficácia de uma terapia de grupo multifamiliar para a adição à internet quanto os mecanismos subjacentes a essa eficácia. A equipe identifica dois mecanismos: 1) a melhora da comunicação e da proximidade entre pais e adolescentes; 2) a satisfação das necessidades psicológicas de adolescentes por meio do fortalecimento de sua comunicação e de sua relação com os pais.

O trabalho com as dificuldades de comunicação está no centro das abordagens terapêuticas, seja a comunicação entre pais e filhos (Young Park et al., 2014), seja a comunicação no casal (Hertlein, 2012). Talvez ainda se leve pouco em conta, na terapia familiar com famílias conectadas, as estratégias de regulação emocional que sustentam essas falhas de comunicação. A pesquisa estuda cada vez mais a correlação entre uso problemático da internet (UPI) e regulação emocional (Zhou et al., 2011; Hormes et al., 2014; Casale et al., 2016; Spada e Marino, 2017; Evren et al., 2018; Wei et al., 2018; Amendola et al., 2019; Hernandez et al., 2019; Karaer e Devrim, 2019; Faghani et al., 2020). Sideli et al. (2017) mostram que baixa autoestima, alta agressividade-hostilidade e alta sociabilidade são fatores de risco significativos para o UPI. A internet permite fuga, distração, retirada de uma relação (Lee, 2014) ou procrastinação (Hernandez et al., 2019), em suma, “uma forma de escapismo para evitar certos aspectos da própria realidade” (Hertlein e Hawkins, 2012). Schimmenti e Caretti (2017) mostram que o UPI pode ser considerado uma experiência dissociativa. Essa equipe propõe o construto clínico de transe dissociativo videoterminal (Video-terminal Dissociative Trance, VDT) e discute sua possível utilidade para a avaliação e o tratamento de pessoas que apresentam UPI. “Como mecanismo de defesa, a dissociação permite ao indivíduo evitar temporariamente o sofrimento emocional, filtrando estímulos excessivos ou avassaladores (Bromberg, 1996)” (Schimmenti e Caretti, 2017, p. 65). Em nossa prática com famílias conectadas, esses estudos nos convidam a explorar a função do uso problemático da internet em relação à regulação emocional. Como esse uso mantém a homeostase do sistema familiar?

Material e métodos

Nossas perguntas de pesquisa são as seguintes: quais são os impactos das TIC sobre as relações familiares? Que dificuldades as famílias encontram em relação ao uso da internet? Quais são as linhas de trabalho pertinentes com famílias que vivem no ritmo digital? Como a terapeuta age?

No novo paradigma de pesquisa de resultados, voltado para identificar os processos de mudança nas pessoas atendidas e para analisar as ações de quem conduz a terapia que produzem essas mudanças (Goldfried e Wolfe, 1996), optou-se por uma abordagem de pesquisa qualitativa e exploratória. Para parte da pesquisa, “já não é possível se contentar com estudos centrados na comparação dos sintomas antes e depois do tratamento ou do não tratamento. É preciso abrir a ‘caixa-preta’ do que funcionou entre um e outro” (Thurin, 2017, p. 57). É o que Greenberg (1986) propõe com o conceito de “pesquisa sobre processos de mudança” (Change Process Research). Baseada no estudo circunstanciado de terapias conduzidas em condições “naturais”, ela tem perspectivas clínicas, práticas e teóricas. Nesta etapa de nossa pesquisa, o objetivo não é avaliar a psicoterapia, já que ela ainda não está formalizada. O objetivo é identificar, por meio do discurso, a experiência das famílias com as TIC, o que a família pede e como a terapeuta responde, a fim de construir um modelo focado na regulação emocional para essas famílias conectadas. Nossa pesquisa tampouco é uma pesquisa-ação, porque os dados das terapias concluídas preexistiam à pesquisa.

Nossa pesquisa sobre processos de mudança (Duriez, 2007) e nossa prática clínica nos permitiram observar que, em certos contextos, as estratégias de regulação emocional de alguns membros da família, mesmo adaptadas à própria pessoa, podem ser fonte de sofrimento para outros membros, a ponto de questionarem as próprias estratégias. Durante a terapia, investigamos as estratégias de regulação emocional e como as outras pessoas reagem a elas. Se houver um problema, nossa intenção terapêutica é levar os membros da família a uma maior aceitação do estilo de regulação emocional de cada um, sem sentimento de incompreensão nem de ameaça diante das diferenças de estratégias de regulação emocional (Duriez, 2017). O processo de levantamento de hipóteses se destaca no enquadre terapêutico, no contexto do encontro intersubjetivo entre a família e a terapeuta, que também vive suas próprias estratégias de regulação emocional. Aplicamos o princípio da circularidade entre a terapeuta e a família, que pode ser definido como “a capacidade do terapeuta de conduzir sua investigação com base no feedback da família em resposta às informações que ele solicita sobre as relações e, portanto, sobre diferença e mudança” (Selvini et al., 1980, p. 6).

Contexto

O contexto de nossa prática foi um Centro de Cuidados, Acompanhamento e Prevenção em Adictologia (CSAPA, na sigla francesa) em Paris, que oferece atendimento gratuito às pessoas que vivem na região de Île-de-France. Não é preciso encaminhamento profissional: as pessoas podem procurar o centro diretamente. O CSAPA é administrado pelo Groupe SOS e funciona como espaço de formação em terapia familiar.

Famílias

Nos arquivos das sessões de terapia conduzidas pela autora, cinco famílias foram selecionadas por mencionarem um uso problemático das TIC. Foram incluídas 47 sessões de terapia familiar gravadas em vídeo. Para proteger a identidade das famílias e garantir a confidencialidade, foram atribuídos pseudônimos. As cinco famílias são apresentadas na tabela 1.

Tabela 1 — População

Para cada família: configuração familiar; número de sessões; problema apresentado.

  • Família I, família recomposta. Sr. Philippe I, 54 anos; Sra. Armelle I, 53 anos; Carmen, 16 anos; Axel, 14 anos; filho do Sr. I de um casamento anterior: Diego, 25 anos. Sessões: 22. Problema apresentado: 1) o uso do smartphone por Carmen; 2) o uso de videogames por Axel; 3) as infidelidades on-line da Sra. I.
  • Família R, família recomposta. Sr. Jérémie R, 40 anos; Sra. Valérie R, 45 anos; Lucas, 13 anos; filhos da Sra. R de um casamento anterior: Baptiste, 21 anos, e Simon, 18 anos. Sessões: 2. Problema apresentado: o uso de videogames pelo pai e pelos meninos.
  • Família S. Sr. Olivier S, 55 anos; Sra. Carla S, 48 anos; Opale, 16 anos; Logan, 12 anos. Sessões: 15. Problema apresentado: 1) o uso do smartphone por Opale; 2) o uso de videogames por Logan.
  • Família T. Sr. Antoine T, 32 anos; Sra. Amandine T, 25 anos; Soukaina, 3 anos. Sessões: 2. Problema apresentado: os jogos de azar on-line do Sr. T.
  • Família V, família divorciada. Sra. Catherine V, 56 anos; Gauthier, 26 anos; Florent, 21 anos. Sessões: 8. Problema apresentado: o uso de videogames por Gauthier e Florent.

Posição de pesquisa

A pesquisa foi conduzida pela terapeuta das famílias, que assina este artigo. O duplo papel de pesquisadora e clínica traz vantagens, pois facilita tanto o desenvolvimento de pesquisas clinicamente relevantes quanto a difusão de tratamentos baseados em evidências nos serviços clínicos de rotina (Yanos e Ziedonis, 2006). Também traz desafios, com conflitos éticos entre o mandato clínico e as exigências metodológicas. Para lidar com essa questão, terapia e pesquisa não ocorreram ao mesmo tempo. Durante a terapia, a análise das sessões foi feita por diferentes grupos de profissionais de psicologia em formação em terapia familiar, orientados pelo mandato clínico. A presença de um dispositivo de gravação e de um vídeo das interações fazia parte integrante do enquadre da terapia familiar. Concluídas as terapias, a pesquisa foi realizada, orientada pelo mandato científico.

Análise dos dados

A pesquisa sobre processos de mudança (Greenberg, 1986; Watson e McMullen, 2016) inclui metodologias qualitativas que buscam encontrar sentido nos dados das interações complexas do trabalho psicoterapêutico e conceitualizá-los, contribuindo em seguida para o desenvolvimento teórico. Escolhemos uma análise de conteúdo convencional (Hsie e Shannon, 2015), em geral usada num delineamento de estudo que visa descrever um fenômeno, aqui as intervenções da terapeuta que respondem aos desafios enfrentados por famílias que agora usam as novas tecnologias de forma cada vez mais intensa.

Os dados foram obtidos de terapias familiares concluídas. Mas uma primeira análise dos dados começou durante a terapia. Trabalhamos com as famílias numa preocupação constante de questionar nossa prática, segundo uma postura de prática baseada em evidências (Evidence-Based Practice, EBP), que oferece oportunidades de aproximar a pesquisa clínica e a prática, ampliando a base de conhecimento e melhorando o cuidado. Assistimos e revimos as sessões com diferentes grupos de profissionais de psicologia em formação em terapia familiar e também com turmas de mestrado, para permitir o surgimento de novas compreensões e obter uma visão geral do processo terapêutico. A partir desse trabalho e das anotações clínicas feitas após cada sessão, identificamos os momentos relevantes relacionados a um uso problemático da tecnologia. Assistimos às sessões significativas das cinco famílias e transcrevemos os trechos relevantes. Duas pessoas do mestrado ajudaram a transcrever as sessões das famílias I e S. Começamos a codificação aberta inicial em cópias impressas das transcrições, anotando as categorias nas margens. Os procedimentos analíticos da análise de conteúdo se aproximam da prática da supervisão “linha a linha”, que permite às pessoas terapeutas refletir sobre os significados do material clínico. Em seguida, iniciamos a codificação axial para relacionar as categorias às suas subcategorias.

Procuramos garantir a credibilidade de nossos achados qualitativos de várias maneiras, entre elas a triangulação com colegas do grupo de formação em terapia familiar, com pessoas presentes em oficinas (Duriez, 2018a, 2019) e com turmas de mestrado, recorrendo a mais de uma fonte para analisar os dados (Merriam, 1998).

Resultados

Foram gerados dois temas centrais: a experiência da família com a tecnologia e as técnicas terapêuticas. As técnicas terapêuticas se referem aos meios exatos usados em terapia para alcançar diferentes intenções terapêuticas. A experiência da família se expressa por meio das intervenções exploratórias da terapeuta. Por isso, consideramos um único tema central, as intervenções da terapeuta, que inclui tanto as investigações da terapeuta para identificar a experiência da família quanto as técnicas terapêuticas. Os resultados identificaram 12 subcategorias na categoria intervenções da terapeuta. A tabela 2 apresenta essas 12 intervenções. Apresentamos as subcategorias na ordem cronológica observada durante a terapia. Para cada categoria, distinguimos as intervenções segundo as distinções feitas por Tomm (1988) de acordo com os pressupostos de quem conduz a terapia (lineares ou circulares) e suas intenções (orientar ou influenciar).

Tabela 2 — Resultados

Para cada intervenção da terapeuta (tipo de intervenção entre parênteses): as subcategorias.

  • Exploração do problema (perguntas lineares). Atividade que consome tempo; redução do tempo em família; impacto na qualidade do tempo em família; impacto nos estudos e nas tarefas escolares; impacto na intimidade do casal; impacto no orçamento familiar; permeabilidade da fronteira entre trabalho e família.
  • Exploração das queixas (perguntas circulares). Sentimento de abandono; falta de apoio; medo.
  • Exploração do ponto de vista da pessoa designada como paciente (perguntas lineares). Prazer; relaxamento; voltar-se para si; conexão com amigos; construção de uma bolha protetora; indisponibilidade psíquica dos pais; ambiente familiar conflituoso.
  • O ciclo interacional negativo (intervenção estratégica). Estratégia de evitação amplificada pela estratégia de confronto da outra pessoa; baixa autoestima amplificada pela raiva e pelas desqualificações da outra pessoa.
  • A experiência da perda ambígua (perguntas reflexivas). Perda dos rituais; relação moldada pela perda; indisponibilidade emocional; fronteira rígida; bolha; ameaça de ruptura; evocação da morte.
  • Relacionar passado e presente (perguntas reflexivas). Não elaboração de uma perda anterior; sentimento de repetição; coerência com o passado; paradoxo entre o programa oficial e a construção do mundo.
  • Reenquadrar o uso da tecnologia como estratégia de regulação emocional (perguntas reflexivas). Tempo para relaxar; enfrentamento evitativo; desengajamento comportamental; retirada da relação de casal; fuga do mundo real; distração; procrastinação; regulação do neuroticismo; compartilhamento de emoções; busca de apoio social.
  • Construir o ciclo das estratégias de regulação emocional (intervenções estratégicas). Tempo para relaxar => redução do tempo em família; distração => impacto nas tarefas escolares; enfrentamento evitativo => falta de apoio => impacto na resolução de problemas; desengajamento comportamental => comunicação intrafamiliar insatisfatória; retirada da relação de casal => impacto na intimidade do casal; fuga do mundo real => não elaboração de sofrimentos passados; procrastinação => medo pelo futuro dos filhos; regulação do neuroticismo => redução do tempo em família; compartilhamento de emoções (com pares) => sentimento de abandono (para a mãe); busca de apoio social (fora de casa) => redução do tempo em família.
  • Reabrir feridas traumáticas antigas (intervenções estratégicas). Infância marcada pela perda (maus-tratos, separação dos pais etc.); migração; morte.
  • Construir um sentimento de segurança interna ou de autonomia (intervenções estratégicas). Melhor conhecimento mútuo; exploração do “esquema de estar-com”; respeito às diferenças intrapessoais; ajuste às diferenças intrapessoais; compartilhamento de emoções; nova compreensão das feridas antigas.
  • Implementação de novos comportamentos (intervenções estratégicas). Aprender a descomprimir de outra maneira; construir novos rituais familiares; construir novas narrativas; nova maneira de se comunicar; compartilhamento de emoções; usar a tecnologia a serviço da coesão familiar.
  • Mudanças (perguntas reflexivas). Aceitação das emoções; recusa da herança dos traumas dos antepassados; tomada de consciência; agência; descoberta de novas estratégias de regulação emocional; emergência de um eu mais sólido.
  • ✓ Perguntas lineares: a intenção desse tipo de pergunta é ampliar a compreensão da pessoa terapeuta. As perguntas se baseiam em pressupostos lineares sobre a natureza dos fenômenos.
  • ✓ Perguntas circulares: a intenção também é exploratória, mas as perguntas se baseiam em pressupostos circulares sobre a natureza dos fenômenos.
  • ✓ Intervenções estratégicas: a pessoa terapeuta reenquadra o que foi dito numa perspectiva circular, para levar a família a compreender a possível conexão entre os comportamentos observados. Espera-se que os membros da família assumam a responsabilidade pelos efeitos de suas ações sobre os outros. A intenção dessas perguntas é predominantemente corretiva.
  • ✓ Perguntas reflexivas: a pessoa terapeuta convida os membros da família a refletir sobre as implicações de suas percepções e ações atuais e a considerar novas opções. Ela desencadeia uma atividade reflexiva nos sistemas de crenças preexistentes da família. A intenção dessas perguntas é predominantemente facilitadora.

Para cada subcategoria, trazemos algumas falas literais ou trocas ilustrativas. Selecionamos certos momentos da terapia segundo vários critérios: repetição do tema evocado, emoção expressa, qualidade da reflexividade e retorno da família sobre momentos significativos. Essas trocas foram traduzidas do francês pela autora para a versão em inglês do artigo, preservando a formulação original quando o sentido era claro.

Explorar o problema, as dinâmicas interacionais da família e a estrutura familiar

Na primeira sessão, a terapeuta pede a cada membro da família uma descrição do problema e acompanha as sequências de comportamentos usadas para explicá-lo. Identifica-se o lugar das telas na vida familiar e seu impacto sobre o tempo em família, os estudos, as tarefas escolares e a intimidade do casal. Investiga-se como as TIC influenciam a maneira como a família estabelece regras, papéis e fronteiras. Com essas informações, a terapeuta pode mapear a estrutura subjacente da família. Ela também avalia a qualidade da fronteira com o mundo exterior e sua permeabilidade.

A família S é uma família conectada. O Sr. S, o pai, passa muito tempo no computador. Opale, a filha de 16 anos, passa muito tempo no smartphone. Logan, o filho de 12 anos, passa muito tempo jogando videogame. O pai e os filhos estão trancados numa bolha tecnológica e a mãe sofre com essa falta de trocas. Ela se sente abandonada ou negligenciada. O pedido inicial de terapia diz respeito ao uso excessivo do celular por Opale. Opale explica: “Na verdade, quando estou com meus amigos, meu celular não existe. É só que, quando chego em casa, começo a usar para conversar com meus amigos.” A mãe se queixa da falta de comunicação com a filha. Opale descreve o ritual da noite, quando volta da escola: “Eu digo ‘oi’ para ela, vou dar um beijo nela, vou para a cozinha, como e me tranco no quarto, e ela não me vê de novo até o jantar, e na verdade isso a irrita, porque ela diz ‘você finge que eu não estou aqui!’” A comunicação com os pais se torna fonte de estresse. Se a fronteira que separa a família inteira dos outros sistemas é difusa em casa, porque Opale mantém um contato virtual com os amigos, essa fronteira se torna rígida quando Opale está fora com seu grupo de amigos, pois em geral ela corta o contato com os pais nesses momentos.

O Sr. S trabalha muito e, quando está em casa, também trabalha: “A gente não tem muito tempo juntos, eu e minha mulher, eu primeiro porque sou devorado pelo trabalho, tudo o que é administrativo, contabilidade etc.” A fuga no trabalho limita a intimidade do casal. De vez em quando, no sábado à noite, o casal planeja ver um filme juntos com o projetor. As crianças estão no quarto, jogando videogame ou vendo uma série. O Sr. e a Sra. S ficam cada um diante do seu computador, esperando que o outro termine o que está fazendo para começar o DVD. Mas não dizem isso um ao outro, acabam absorvidos respondendo e-mails, lendo notícias, checando as redes sociais, e então percebem que é tarde demais para começar um filme. É assim com todas as atividades em comum. O Sr. S está conectado o tempo todo. A Sra. S espera por ele, acaba entrando on-line também, e eles não fazem mais nada juntos. O pai está desengajado dos filhos. A mãe está emaranhada com os filhos. Ela sobrefunciona na área da parentalidade e das tarefas domésticas.

Explorar as queixas

Primeiro, a terapeuta pergunta à pessoa que fez o pedido de terapia sobre seus próprios sentimentos. Em geral, é a mãe quem pede a terapia e expressa seu sofrimento. Costuma se queixar da má qualidade da comunicação e da falta de apoio percebida nas tarefas educativas ou domésticas. Expressa o sentimento de não ser respeitada e de ser negligenciada, e um medo em relação ao futuro.

Sra. R: Tenho uma expectativa, porque estou vivendo um problema de comunicação com as pessoas à minha volta.

Sra. V: Fui eu que tomei a iniciativa do pedido. O motivo, no começo, eu achava que meus filhos estavam viciados demais em videogame, em internet e tal, e foi por isso que viemos. (…) Porque eu sentia que a casa era um pouco como um hotel, que a gente não se comunicava, não falava de coisas verdadeiras, e cada um estava um pouco na sua bolha, inclusive eu, porque eu estava muito ocupada com o trabalho. Me deixava infeliz ver que não tínhamos trocas profundas com meus filhos.

A Sra. S expressa raiva porque não se sente apoiada pelo marido no exercício da parentalidade. Ela precisa se superadaptar. Essa superadaptação pode chegar ao esgotamento. A Sra. S se preocupa com o tempo que o filho passa jogando, em detrimento das obrigações escolares. Ela o vigia todos os dias para limitar o tempo de jogo e lamenta não ser apoiada pelo marido: “É só quando tem um problema grande, alguma coisa que incomoda ele diretamente, que ele desaba, que ele explode. Mas, no dia a dia, sou eu que estou atrás das crianças. Se eu não estivesse aqui, acabou! Elas ficariam largadas à própria sorte!”

O Sr. T joga pôquer on-line quando não está se sentindo bem. A Sra. T se preocupa com o futuro:

Sra. T: O medo vem porque eu tenho que criar uma família com o Antoine, não consigo aceitar saber que, se um dia ele desabar, ele pode torrar o dinheiro da educação dos nossos filhos. A dor, a tristeza, a decepção vão ser intensas. Meus filhos são tudo para mim. Pensar que eu não vou conseguir pagar a escola porque meu marido fez besteira… isso nem é uma opção!

Às vezes o problema já não é o uso da internet, mas a resposta parental ao problema. O Sr. I também tinha momentos de raiva com os filhos, Carmen e Axel, que jogam on-line ou conversam com amigos em vez de fazer a lição de casa, raiva que a Sra. I criticava nele. Um dia, ele disse: “Não quero mais ter esse tipo de relação conflituosa com meus filhos, não quero mais cuidar da educação deles!” A Sra. I se sentiu abandonada nessa tarefa: “Sou a única a fazer o papel da ‘malvada’, pelo menos para colocar limites.” A raiva do Sr. I quando há problemas com as crianças não desapareceu: “Quando o Victor fica com raiva de alguma coisa, ele diz para mim, mas não para eles. Eu digo para ele: ‘Vai falar com a pessoa certa!’”

Ouvir o ponto de vista da pessoa designada como paciente

Segundo a técnica da circularização (Tomm, 1987), a terapeuta pergunta às pessoas designadas como portadoras do problema sobre seus sentimentos. O uso da tecnologia pode remeter a diferentes significados psicopatológicos conforme as motivações psicológicas subjacentes: prazer, relaxamento, voltar-se para si, conexão com amigos, construção de uma bolha protetora, maneira de lidar com a falta de disponibilidade emocional dos pais ou com um ambiente familiar conflituoso.

Além da comunicação familiar, vários traços de personalidade tendem a afetar o uso da tecnologia. Quando uma pessoa apresenta baixa autoestima, neuroticismo ou busca de sensações, o uso problemático da tecnologia pode ser intensificado pelos padrões transacionais da família.

Sr. T: É uma válvula de escape num momento t. É como se eu fizesse meu próprio parêntese. Tive uma infância meio estranha. Sempre tive um lado solitário e preciso dos “meus momentos”. Eu ficava triste, sempre me colocava nessa bolha. É um hábito que eu peguei. É quase intrínseco à minha personalidade.

Gauthier explica que, com o irmão, eles se trancavam nos videogames para fugir dos conflitos com a mãe. Se se comunicavam com a mãe, o clima era sistematicamente conflituoso. Ele disse à mãe:

Gauthier: Poder contar com você não era possível, porque era ou “se vira”, ou “sim”, e isso nunca acontecia. Isso não ajuda a comunicação. A gente entrou num sistema em que cada um estava na sua bolha e não queria sair dela. Para o Florent e para mim, como somos personalidades solitárias, era confortável, mais confortável do que ficar exposto ao ambiente conflituoso. A gente levantou muros em volta e não havia vida familiar. A mamãe sofreu mais com isso do que nós, porque somos de natureza solitária, então a gente conseguia sobreviver. A gente aguentou. (…) Em termos de vida familiar, esse funcionamento é deletério!

A Sra. V admite ter tido um papel nesse funcionamento familiar: “Acho que isso servia para nós três, porque eu também tenho esse lado, de ficar na minha bolha.”

Identificar com a família o ciclo interacional negativo

A terapeuta propõe uma visão circular da situação, com a intenção de levar cada membro da família a assumir sua parte de responsabilidade no que está acontecendo. Por um lado, o uso patológico das TIC oferece um refúgio contra o estresse do cotidiano para a pessoa dependente, mas também impede que os outros membros da família enfrentem juntos os problemas. A terapeuta explica como os dois comportamentos, por exemplo a fuga no trabalho do marido e a comunicação agressiva da esposa, provavelmente se perpetuam um ao outro, ou são pelo menos uma pequena parte de um ciclo maior de comportamentos. A terapeuta identifica os circuitos de retroalimentação positiva responsáveis pela manutenção do problema e da insegurança emocional. Um ciclo negativo é definido como um padrão interacional previsível que se repete e organiza a família em torno da insegurança, e não da vulnerabilidade. Os ciclos negativos desgastam e destroem o funcionamento familiar. Um dos pais funciona com uma estratégia de evitação que se choca com o outro, cuja estratégia é o confronto; em consequência, o cotidiano recai sobre uma única pessoa. O Sr. S, preso em sua adição ao trabalho, não é receptivo às necessidades emocionais da mulher e dos filhos. A raiva da Sra. S a impede de ser receptiva às necessidades dos filhos. Ninguém responde às necessidades de apego do outro. A Sra. I continua a fantasiar uma família unida:

Sra. I: Quando estou no trabalho, fico fantasiando minha família. Penso que, quando chegar em casa, vou fazer o jantar, a gente vai jantar junto, vai ser divertido. Chego em casa e de repente sinto que tudo é inflamável. É verdade, é a adolescência. Em 5 minutos é o apocalipse, todo mundo gritando com todo mundo, eu fico com o garfo no ar, acho isso exaustivo. A gente não consegue mais conversar!

O reenquadramento sistêmico favorece a empatia entre os membros da família, facilita a responsividade e ajuda a família a desescalar. As defesas caem, a raiva e a desqualificação dão lugar a emoções mais difíceis de expressar: medo, mágoa e tristeza. O sentimento de perda induzido pelas bolhas tecnológicas se expressa. A Sra. R expressa o sentimento de ter perdido o filho para os videogames.

Sra. R: Quando o Baptiste começou a jogar videogame, eu pensei: “Pronto! Perdi meu filho!” A relação que a gente tinha morreu. Porque a gente tinha uma relação bem fusional, e então eu vivi a nossa relação… sim, como uma separação, um luto, uma pequena morte, uma perda, na verdade… uma perda de verdade!

Explorar a experiência da perda ambígua

A terapeuta retoma essa experiência de perda. Sua intenção é ajudar a pessoa a identificar suas emoções e as consequências desses sentimentos sobre seu comportamento com os outros. A terapeuta explora como a relação de algumas pessoas com as telas induz um sentimento de perda ambígua nos outros membros da família, que sofrem com essa indisponibilidade emocional. As relações são moldadas pela perda. A Sra. T diz sobre o marido: “É como se ele não estivesse lá! Estou grávida de 8 meses, posso dar à luz a qualquer momento, mas ele não me ajuda a dar banho na nossa filha.” O marido, absorvido pelos jogos de azar on-line, já não está presente para ela, embora ela atravesse um momento em que precisa de apoio. Ela acha que será difícil criar filhos com um homem tão ausente.

Sra. T: Se ficar demais, eu vou embora! Tenho que pensar em mim. Tenho 25 anos, não tenho 40. Se em algum momento eu achar que é demais e que não consigo viver assim, eu vou embora. Me deixa triste ter ao meu lado alguém que tem esses defeitos. Todo mundo tem defeitos, mas esse é o que me impede de dar um passo à frente com o Antoine e que me impede de me projetar com o Antoine ad vitam aeternam.

Terapeuta: E qual seria esse limite?

Sra. T: É a confiança, e poder dizer a mim mesma que tudo isso ficou para trás: essas viradas que você pode ter com o jogo. Não acho que essa bolha seja útil para o seu futuro. Acho que, aconteça o que acontecer, essa bolha não vai te servir para a vida! E seja comigo, seja com outra pessoa!

Relacionar o sentimento de perda ambígua a perdas anteriores

Segundo Stern, “não se pode mudar sem mudar o passado funcional, isto é, o passado que é ativado” na interação e que vai influenciar a percepção do que acontece no presente (Stern, 2003, p. 256). A falta de disponibilidade emocional da pessoa dependente pode reativar uma experiência anterior de perda. A morte de um ente querido ou uma separação dolorosa é mencionada de passagem em algum momento da terapia. Durante a terapia, a Sra. V nunca tinha falado da morte da irmã. Na décima oitava sessão, ela fala da relação tensa com os pais e da oposição deles a seu casamento com o primeiro marido. Ela conota negativamente o casamento, referindo-se de modo bastante inesperado à morte da irmã, ocorrida naquela época. Esse drama não pôde ser dito. A terapeuta começa a construir uma hipótese em torno da não elaboração desse acontecimento.

Sra. V: Foi um casamento fracassado, porque aconteceu logo antes de minha irmã morrer. Não mudamos nada do casamento, mantivemos a cerimônia, mantivemos a data do casamento quando minha irmã tinha acabado de ser enterrada. Foi horrível! É uma grande tristeza, de algum modo! Ela tinha 25 anos.

A evocação desse acontecimento pode ser estressante e emocionalmente desafiadora para a terapeuta. Às vezes é melhor esperar para abordar esse material. A terapeuta espera até que a família esteja pronta para esse trabalho, porque, à primeira vista, o trabalho sobre o passado e o transgeracional parece não ter relação com os problemas ligados às TIC. A terapeuta supõe que a exacerbação de um sentimento de perda ambígua, ligado ao uso das TIC, deve estar relacionada a uma perda anterior. O sentimento de perda ambígua cria certa continuidade com o passado.

Reenquadrar o uso da tecnologia como estratégia de regulação emocional

A terapeuta explora a relação com as telas em termos de regulação emocional, segundo o modelo processual de Gross (2014). É uma fuga do mundo real? Procrastinação? Retirada da relação de casal? Que emoções são reguladas pelo uso da tecnologia?

A Sra. I explica que sua relação virtual lhe permitiu sobreviver, porque ela sofria no casal. Vivia com dificuldade a falta de proximidade com o marido.

Sra. I: Essas histórias com homens são mais virtuais do que reais. Isso não muda nada no sofrimento do Philippe. Não estou tentando diminuir o fato de que eu o traí, seja por mensagem, seja por fantasia. Para mim, essas histórias eram uma questão de sobrevivência, sob muitos ângulos. Acho que o Philippe e eu não existiríamos mais como casal se eu não tivesse tido essa válvula de escape, e acho que havia um desejo inconsciente real de que o Philippe as visse; eu não apaguei as mensagens porque precisava que o nosso casal, do jeito que existia, explodisse de algum modo, desaparecesse… e eu queria aniquilar aquele casal do jeito que existia e construir outra coisa, de preferência com o Philippe. Mas eu não queria mais aquele casal antigo! A única coisa que me dói é que o Philippe está sofrendo! Porque eu sei que dói. E, ao mesmo tempo, acho que eu estava disposta a qualquer coisa para não ter mais aquele funcionamento de casal. E tivemos longas conversas com o Philippe, e acho que foi a primeira vez na nossa vida juntos que eu senti que o Philippe e eu estávamos nos comunicando, que ele realmente me ouvia e que alguma coisa estava acontecendo! Eu não queria mais esse casal! Eu não conseguia mais viver nesse casal! Então acho que foi o meu jeito de despedaçar tudo! Eu não conseguia deixá-lo; não conseguia fazer nossa relação mudar para ficar harmoniosa. Eu estava terrivelmente infeliz e sofria havia vários anos, a ponto de adoecer com depressões, a ponto de me dissociar.

Para o Sr. T, o pôquer on-line lhe permite conviver com o neuroticismo.

Sr. T: É quase intrínseco à minha personalidade.

Terapeuta: Qual é a sua sensibilidade?

Sr. T: (…) Sou sensível. Não sou alguém que vai chorar vendo um filme, mas posso ser rapidamente magoado pelo comportamento das pessoas comigo. É “sensível”… “suscetível”, na verdade. O que as pessoas me dizem me traz de volta lembranças ruins da infância. Entrar numa bolha faz com que isso não te afete.

Terapeuta: O estoque de lembranças ruins fica num canto?

Sr. T: Sim! Exatamente!

Terapeuta: Uma forma de anestesia de uma parte que você não quer ver?

Sr. T: Sim! É por isso que, numa época, eu exagerava bastante nos remédios. É também uma forma de me anestesiar, porque quando eu ia dormir sentia muita coisa etc., e isso me mantinha acordado.

Construir com a família o ciclo das estratégias de regulação emocional

A terapeuta propõe uma visão circular da situação, com a intenção de ajudar os membros da família a compreender melhor suas diferenças na gestão das emoções. O Sr. T busca sensações no jogo para anestesiar emoções negativas. A Sra. T perde a confiança e pensa em deixá-lo. O Sr. T é atingido em sua vulnerabilidade à perda. Ele joga para não pensar mais que ela pode ir embora. Observa-se uma escalada do sofrimento do casal. A terapeuta destaca a circularidade das estratégias de regulação emocional e o impasse em que o casal ou a família está preso. Nessa etapa, a família começa a compreender a urgência de mudar os padrões emocionais ligados à perda, para que os padrões antigos não se repitam. A terapeuta sugere estratégias alternativas. Por exemplo, no caso da família V, ela ajuda a Sra. V a aceitar que os filhos não compartilhem emoções negativas.

Gauthier: Temos maneiras muito diferentes de lidar com as coisas. Eu lido muito mal com a expressão excessiva de emoções. Meu jeito de lidar com as emoções é o racionalismo. Racionalizo tudo. Eu me contenho racionalizando. E, com isso, nunca estou do lado da amplificação.

Sra. V: Quando eu era jovem, havia na minha família uma proibição enorme de expressar emoções, e eu era muito infeliz com isso. Saí à francesa. É como se, com os meus meninos, eu tivesse sido recolocada na atmosfera da minha família de infância. Todo o trabalho que eu tinha feito para me libertar daquela capa de chumbo, em que era proibido dizer qualquer coisa e era preciso fingir, parece inútil hoje. Estou presa de novo. Se eu não posso ter conversas íntimas e intensas com meus filhos, vou me colocar à distância para não me machucar.

Terapeuta: A intensidade emocional é vivida como um perigo pelos seus filhos. Quanto mais longe a senhora vai na expressão das suas emoções, mais eles fogem, e um abismo se instala entre vocês. Não é uma questão de amor, é só que vocês são diferentes, com uma maneira diferente de regular as emoções, e ainda não conseguiram se acomodar a essa diferença.

Reabrir feridas traumáticas antigas

Quando a família está pronta, o passado pode ser colocado em perspectiva. A terapeuta explora os processos transgeracionais com o genograma (McGoldrick et al., 2020), o jogo da glória (Colpin e Rey, 2019) ou um conto sistêmico (Duriez, 2020). Nosso pressuposto é que o surgimento de sintomas ligados ao uso patológico da internet e de dinâmicas familiares fontes de sofrimento resulta do entrelaçamento entre dinâmicas transgeracionais e mudanças sociais. O sentimento de perda ambígua reativou feridas psíquicas já existentes na história dos pais, o que intensificou a reatividade emocional entre a pessoa com uma ferida traumática antiga e a pessoa trancada numa bolha tecnológica. Esses pais são vulneráveis à perda. Nas cinco famílias, encontramos feridas não cicatrizadas originadas em traumas da infância: separação conflituosa dos pais e negligência (Sr. T), abuso emocional (Sra. R e Sra. V), violência na família de origem (Sra. I), abandono (Sr. I e Sra. V), migração (Sra. S), morte (Sra. V). Por exemplo, a terapeuta escreve um conto sistêmico com a família I e evoca a adolescência do Sr. I, quando ele foi relegado a um quartinho de empregada. A Sra. V também evoca uma adolescência difícil:

Sra. V: Eu dividia o quarto com minha irmã. Ela espalhava todas as coisas dela e não havia lugar para duas no quarto. Durante um ano, aos 12 anos, dormi numa cama de armar na sala. Meu pai não queria fazer a obra para criar outro quarto. Meus pais alugaram para mim um quartinho de empregada, fiquei lá um ano e depois fui embora.

A família começa a estabelecer ligações entre experiências passadas de raiva na família de origem e a agressividade atual. Reviver memórias traumáticas num ambiente terapêutico seguro é a chave para mudar os aspectos desadaptativos da memória. Esses momentos de alta ativação parecem ficar gravados na memória emocional com uma força especial. Eles produzem respostas emocionais que as crianças não conseguem compreender. Nem os próprios pais as compreendem. Isso deixa na pessoa repertórios emocionais aprendidos muito potentes, difíceis de compreender porque ficam armazenados na memória emocional de modo não simbolizado. Durante a terapia, a raiva ou uma reação emocional intensa pode precisar ser suscitada em certa medida para ser reprocessada na segurança da situação terapêutica.

Construir um sentimento de segurança interna ou de autonomia

As intervenções da terapeuta visam ajudar os membros da família a aceitar suas diferenças, seja em relação ao uso da tecnologia, aos seus valores ou às suas estratégias de regulação emocional. A terapeuta questiona e desconstrói o “esquema de estar-com2” (Stern, 1985) ativado para interpretar o que a outra pessoa diz. Com isso, os membros da família sentem mais segurança emocional e podem responder de modo mais adequado às necessidades emocionais de cada um. A fala circula mais livremente, com respeito pela outra pessoa. O ajuste empático do pai ou da mãe às necessidades, aos humores e aos medos da criança ajuda a criança a internalizar um sentimento de segurança vindo do adulto, o que ajuda a estabelecer nela as bases de uma segurança interna.

A Sra. V está preocupada com os filhos. Preocupa-se porque Gauthier não tem parceira ou parceiro, preocupa-se porque Florent não parece ter planos concretos para o futuro profissional, nem mesmo para as férias. Os dois querem se proteger da preocupação da mãe, que percebem como falta de compreensão ou de confiança. Reagem com frieza à preocupação dela. A terapeuta tenta desconstruir esse “esquema de estar-com”.

Terapeuta: Segundo a lógica da sua mãe, férias têm que ser planejadas, tem que haver um programa.

Sra. V: Um programa ou uma vontade! Não o ouço dizer “Mãe, eu quero…”. Não ouço nenhum projeto concreto seu, tenho uma sensação de algo flutuante, como se você estivesse sem gravidade. Eu te devolvi isso e você disse: “Mas confia em mim!”

Florent: Eu tive a sensação de que você não confiava no que eu ia fazer, e acho isso chato. Eu só não estava com vontade de falar disso naquele momento, e ainda não estava bem organizado.

A Sra. V faz perguntas aos filhos e eles não entendem direito as perguntas dela. As entrevistas ajudam a Sra. V a aceitar a escolha de vida de Gauthier e a respeitar o caminho de Florent para montar seus projetos do seu próprio jeito.

Implementação de novos comportamentos

Nesse ambiente mais seguro, os membros da família podem experimentar novas maneiras de se comunicar. Juntos, constroem novas narrativas de suas experiências. A Sra. V e os filhos constroem uma narrativa comum sobre o lugar dos videogames na família. Concordam que o recolhimento nos videogames foi uma consequência do clima conflituoso que existia naquela época.

Gauthier: Os videogames estavam muito longe do que se poderia chamar de adição, era mais uma paixão, e isso se confirmou depois. O Florent, como eu, continua jogando bastante, é uma parte importante do nosso lazer, e, na minha concepção de adição, isso não tem as características dela, nem antes nem agora. Quando a mamãe começou a ver as coisas por esse ângulo, me pareceu absurdo!

Terapeuta: A senhora faz uma ligação entre jogar videogame e os problemas de comunicação?

Sra. V: Sim, faço.

Gauthier: Uma ligação de quê? Uma ligação causal? Uma ligação de consequência? Uma ligação de correlação?

Sra. V: Não tenho a mesma visão. Comparado com alguns jovens, você não está numa adição total, passando noites e dias jogando, isso é certo, você consegue ter sua vida social, ver os amigos, trabalhar etc. Mas, mesmo assim, numa época, isso ocupava muito espaço de um tempo que poderíamos ter passado juntos e não conseguíamos. Só estou dizendo que também foi consequência de um modo de comunicação, de convivência, de uma forma de comunicar, ou também de conflitos, talvez de coisas que não tínhamos dito um ao outro ou que não estavam resolvidas, que fizeram vocês se refugiarem basicamente nos amigos e nos videogames. Não havia trocas, não havia tempo compartilhado além disso.

Gauthier: Concordo que foi uma consequência de um clima, de um modo de vida, mais do que uma causa.

Emoções antes reprimidas são expressas. Gauthier consegue expressar sua tristeza em relação ao antigo funcionamento familiar, que ele descreve como “deletério”.

Gauthier: Era realmente um modo de vida que tinha se instalado e um clima que se perpetuava, era um círculo vicioso que continuava girando e que fazia mal a todo mundo. A melhor maneira de quebrá-lo era ir embora.

Juntos, eles constroem novos rituais familiares. No contexto do confinamento, estão em lugares geográficos diferentes. As consultas acontecem por videoconferência todos os meses. Ao mesmo tempo, Gauthier começa a marcar encontros semanais por videoconferência com a mãe e o irmão. A tecnologia agora favorece a coesão familiar.

Rumo à aceitação das emoções e à afirmação de um eu mais sólido

A intenção da terapeuta é ajudar cada pessoa a usar a regulação emocional de modo flexível, coerente com seus objetivos e atento às necessidades dos outros. Esperamos que os membros da família ganhem inteligência emocional, aprendam a examinar o contexto antes de decidir se e como devem regular a emoção, e levem em conta e maximizem o bem-estar intraindividual e interindividual a longo prazo. Nas terapias bem avançadas, algumas pessoas puderam refletir sobre o que lhes foi transmitido pelos pais ou pelas gerações anteriores. Sabem que podem recusar essa herança. Compreendem melhor como os “esquemas de estar-com-o-outro” se formaram na infância e estão prontas para construir novos. Essa tomada de consciência aumenta a agência sobre a própria vida e vai na direção da emergência de um eu mais sólido. Na última sessão, a Sra. V resumiu assim sua mudança:

Sra. V: Agora consigo tomar distância da situação, olhar o que está acontecendo com outros olhos, um pouco desligada da cena. Então consigo sair de algo epidérmico, emocional, para ver de verdade o que está acontecendo com eles. Os sentimentos que eu tinha em relação às feridas me permitiram tomar mais distância delas: não é muito fácil, mas é menos doloroso. A partir do momento em que consigo entender melhor o que acontece com a outra pessoa, vê-la como parte de um mundo diferente, em relações diferentes, tudo fica bem mais fácil. Entender o outro é importante.

A Sra. I se afirma pela escrita. A Sra. R pratica caminhadas. O Sr. T entende seu comportamento de jogo como uma estratégia de regulação emocional e usa estratégias alternativas, com o apoio da esposa. A Sra. S aceita que o marido não vai mudar, faz meditação para aceitar sua tristeza em relação ao casal e suas preocupações com os filhos: “Faço meditação, tomo distância, deixo para lá, no sentido de que sei que não posso mudá-lo.” Ela faz a terapeuta ouvir um podcast sobre aceitação das emoções.

Discussão

O presente estudo relata uma pesquisa sobre processos de mudança centrada nas intervenções da terapeuta com cinco famílias conectadas. Pode-se dizer que essas famílias são saudáveis: não há sintomas graves nelas. O uso da internet é problemático, mas a vida não parou. Jovens vão ao ensino médio. Jovens na idade adulta e pais vão trabalhar. Essas cinco famílias são famílias contemporâneas desafiadas pelos efeitos das novas tecnologias sobre sua organização. Situações mais graves, por exemplo com um adolescente trancado no quarto dia e noite, provavelmente exigiriam uma abordagem diferente, mais centrada no sujeito e em sua vulnerabilidade psíquica. As intervenções da terapeuta destacam dinâmicas familiares coerentes com pesquisas anteriores, que mostraram forte correlação entre o UPI e os problemas de relação interpessoal. A abordagem familiar parece então indicada, o que está de acordo com as recomendações de Young Park et al. (2014) para a adolescência.

Embora 12 fases sejam apresentadas para essas intervenções, há no processo terapêutico uma fluidez que respeita as prioridades e as dinâmicas da família como ponto de entrada. As intervenções seguem o foco da família, não necessariamente numa progressão linear prescrita, mas de modo sistêmico. A terapeuta familiar examina as interações familiares que mantêm os comportamentos problemáticos: padrões transacionais (Minuchin, 1974, e cibernética de primeira ordem), “programa oficial” e mapa de mundo (Elkaïm, 1986, e cibernética de segunda ordem) e padrões de regulação emocional (Duriez, 2017, e cibernética de terceira ordem). Comportamento, cognição e afeto atuam juntos para criar interações específicas que contribuem para a transmissão intergeracional. Essa consideração da emoção não é nova (Bowen, 1978; Johnson, 2004; Greenberg, 2015), mas, com a pesquisa em neurociências e epigenética, conhecemos hoje melhor a complexidade das estratégias de regulação emocional, o que é essencial para uma boa percepção da circularidade nas relações interpessoais. Nosso trabalho se concentrou, portanto, nas estratégias de regulação emocional, intencionais ou automáticas, para identificar melhor os mecanismos de homeostase. Bowen (1978) nos ensinou que, quanto mais baixo o nível de diferenciação, mais difícil será regular as emoções negativas. Nas famílias estudadas, observamos um baixo nível de diferenciação. De fato, podemos considerar a fuga para uma bolha tecnológica como um processo de triangulação que regula o estresse, a ansiedade ou a tensão. Bowen constatou que a tensão numa relação a dois é aliviada pelo foco numa terceira pessoa. Hoje, esse terceiro pode ser um computador, um tablet ou um smartphone. Nossa prática clínica é influenciada pelo modelo de Bowen para ajudar a pessoa a reconhecer sua relação com o objeto tecnológico como um processo de triangulação que evita a comunicação sobre um problema.

Corroborando achados anteriores (Lee, 2014), o subfuncionamento, a falta de envolvimento e a irresponsabilidade do pai nas áreas da parentalidade e das tarefas domésticas apareceram em quatro das cinco famílias. Na quinta, os pais estão separados. A parte do casal em sobrefuncionamento era geralmente a mulher. Não podemos relacionar esse subfuncionamento ao UPI. No caso da família I, é a mulher que tem UPI, mas esse uso não a impede de cumprir suas responsabilidades parentais; às vezes ela podia até parecer invasiva demais aos olhos dos filhos. Ela constrói uma relação emocional íntima on-line com outro homem para fugir de um sentimento de abandono, esquecer a falta de conexão com o marido e o problema de intimidade do casal. Os homens fogem das responsabilidades familiares e se apoiam nas mulheres. As mulheres precisam lidar com uma carga mental maior e com sentimentos de solidão. Encontramos o padrão: “A pessoa em sobrefuncionamento no casal estava muitas vezes centrada no outro, em contraste com o foco excessivo em si da pessoa em subfuncionamento” (Lee, 2014, p. 381). Nesse quadro em que a mulher dá e o homem recebe, a terapia familiar contextual pode ajudar a considerar o equilíbrio da justiça nas relações familiares. Mas é realmente difícil com homens excessivamente centrados em si. Como Lee, observamos recusas e ausência de reconhecimento por parte dos homens (Sr. I e Sr. S). “A vergonha e um sentimento de desvalia também restringiam a autorrevelação” (Lee, 2014, p. 379). Não foi o caso do casal T, talvez por causa da juventude do casal. Quando a Sra. S tenta se expressar, o marido, incapaz de se conectar à emoção dela, à empatia, acaba saindo da sessão. Parece biologicamente impossível para ele levar em conta as necessidades da esposa. Uma exploração da literatura sobre inteligência emocional dinâmica centrada em si e no outro (Pekaar et al., 2020) poderia permitir aprimorar as intervenções.

De acordo com a literatura (Mesch, 2006), nossos achados mostram que o principal problema enfrentado pelas famílias é o tempo passado na internet em detrimento do tempo em família. “O tempo em família é um componente importante da coesão familiar. Ele facilita o desenvolvimento de uma identidade coletiva e de experiências compartilhadas” (Mesch, 2006, p. 125). Uma coesão familiar fraca, a falta de comunicação e a perda dos rituais reduzem a percepção de pertencimento familiar e aumentam a individualidade. Isso gera sofrimento (Crosnoe e Elder, 2004; Cavanagh, 2008; King et al., 2016). Esse sofrimento pode ser amplificado pela presença de feridas antigas. Podemos então considerar esses padrões relacionais, com uma reorganização do tempo em família, um novo desafio para as famílias contemporâneas? Trata-se de um desafio específico das famílias conectadas? Podemos supor que, se não houvesse essa possibilidade de fugir das emoções negativas pela tecnologia, haveria fuga por outros meios (trabalhar, tocar música, ler, praticar esportes, jardinagem, pequenos consertos, tarefas domésticas etc.). Há 50 anos, jovens já se trancavam no quarto para ouvir música ou ler e escapar da relação com os pais. Homens saíam para ver amigos quando não queriam passar a noite com a esposa. O que é novo é que a tecnologia está ao alcance da mão, dentro de casa, e oferece atividades muito atraentes e aditivas.

O acompanhamento terapêutico deve, portanto, permitir encontrar o sentido desse uso problemático, em vez de erradicá-lo sem levar em conta sua função em termos de regulação emocional. Essa estratégia de regulação emocional pode ser procrastinação para o Sr. S, que assiste a séries em vez de trabalhar, fuga para Baptiste, Simon e Lucas R, para Logan S, para Gauthier e Florent V, para a Sra. I e o filho dela, Axel, e anestesia para o Sr. T. Como Bowen (1978), supomos que o passado influencia o presente, já que os padrões relacionais passados continuam a influenciar o sistema familiar atual. Se a família se enrijeceu numa organização em que predominam as estratégias de evitação, pode ser essa uma maneira de lidar com o luto ou com a separação das gerações anteriores? Esse redirecionamento para os processos transgeracionais ajuda o sistema a se tornar mais flexível, a parar de culpar e a assumir seu próprio papel nesse funcionamento rígido. Quando terapeuta e membros da família veem como os padrões se repetem ao longo das gerações, torna-se possível identificar as reações automáticas entre membros da família. A capacidade de agir com mais consciência do processo relacional pode levar a certa redução do uso problemático da internet.

Nossa abordagem se aproxima da de D’Amore, que também trabalhou sobre o impacto das perdas nas famílias contemporâneas: “A família que sofre com rupturas pode se fechar sobre si mesma e se organizar como um sistema relacional enlutado, em que a perda constituiria o núcleo organizador de sua identidade e de suas experiências” (D’Amore, 2010, p. 17). Supomos que essas famílias, em que a dependência de objetos tecnológicos é tal que faz algumas pessoas viverem um sentimento de perda ambígua, são famílias que se auto-organizam em torno da perda: algumas pessoas se comportam de modo a fazer outras sentirem esse sentimento, enquanto outras vivem esse sentimento de perda ambígua. Desse modo, a identidade familiar se mantém geração após geração.

O estudo tem várias limitações. É preciso grande cautela ao generalizar os resultados. Sugerem-se novas pesquisas com amostras maiores e mais homogêneas (por exemplo, recrutando famílias com o mesmo problema) e estudos que testem a validade ecológica das intervenções listadas aqui. Esta pesquisa não investiga a eficácia do modelo apresentado. Trata-se apenas de uma pesquisa exploratória, conduzida em condições clínicas naturais. Por isso a população é heterogênea, tal como existe na fila ativa do centro. A duração do atendimento não é a mesma. A família T parou depois de duas sessões porque encontrou uma dinâmica positiva. A Sra. T se expressou e se sentiu ouvida. O nascimento do bebê levou o casal a uma nova dinâmica. A confiança voltou. A família R não voltou depois que Simon se mudou para outra região para estudar. O acompanhamento individual de Baptiste num centro parceiro continuou. As outras três terapias são mais longas.

Pode ser interessante realizar pesquisas separadas, com populações maiores e uma equipe terapêutica própria para cada problema, sobre cada um dos problemas apresentados: adição a videogames na adolescência, adição ao trabalho na idade adulta, infidelidade on-line e adição ao pôquer. Isso permitiria avaliar se é pertinente especificar o processo de terapia familiar para cada uso problemático da internet e construir um acompanhamento terapêutico inovador para cada uma dessas situações clínicas.

Em terceiro lugar, este estudo se concentrou apenas nas intervenções da terapeuta, sem levar em consideração os comportamentos da família. Os dados sobre as dinâmicas familiares foram coletados num contexto terapêutico. No entanto, o objetivo da terapeuta não é o mesmo da pesquisadora. Uma avaliação das dinâmicas familiares com instrumentos padronizados, como a avaliação da coesão com a FACES IV, teria sido mais rigorosa.

A terapeuta-pesquisadora trabalha com sua própria subjetividade. O eu da pessoa terapeuta é um fator importante do processo terapêutico. Não exploramos essa subjetividade aqui. A escolha de trabalhar com as estratégias de regulação emocional e a relação que a própria terapeuta tem com os objetos conectados merecem ser exploradas. Sugerimos pesquisas futuras centradas na interação entre terapeutas e pessoas atendidas nesse contexto. Já examinamos antes como a pessoa terapeuta regula as próprias emoções diante do problema trazido pela família no encontro terapêutico. Desse modo, ela oferece à família um modelo alternativo de regulação emocional, que introduz uma diferença no sistema. As estratégias de regulação emocional da pessoa terapeuta são um componente central do processo terapêutico (Duriez, 2018b).

Em vez de categorizar as intervenções da terapeuta com a teoria fundamentada, poderia ter sido interessante construir cinco estudos de caso intensivos distintos (Duriez, 2009), para abordar a complexidade dos casos clínicos e identificar o processo terapêutico em toda a sua singularidade para cada família. Seria preciso acompanhar a evolução das construções dos membros de cada família ao longo de todo o tratamento, medindo em diferentes momentos os problemas das pessoas atendidas, por exemplo com a Generalized Problematic Internet Use Scale 2 (GPIUS2; Caplan, 2010) e a Difficulties in Emotion Regulation Scale (DERS; Gratz e Roemer, 2004). Entrevistas pós-tratamento com membros das famílias poderiam trazer outra perspectiva.

Conclusão

Esses achados levaram a propostas de um acompanhamento terapêutico inovador em terapia familiar, a terapia familiar focada na regulação emocional com famílias conectadas. O trabalho terapêutico tem duas direções: 1) o uso problemático da internet como estratégia de autorregulação desadaptativa e suas consequências para a pessoa dependente e para seu entorno, segundo a abordagem contextual; 2) a elaboração de uma perda anterior pela pessoa em sofrimento, para que ela ganhe um eu mais sólido, recupere a autonomia e saia da codependência. Esperamos que este estudo enriqueça a prática da terapia familiar com famílias conectadas.

Complexe Systémique: a reter

O artigo tem o mérito de deslocar a questão: a tela não é, antes de tudo, uma adição a erradicar, mas uma estratégia de regulação emocional inserida num sistema. Relido com Bowen, o computador ou o smartphone se torna um terceiro de triangulação que alivia a tensão de uma relação a dois; relido com Pauline Boss, a ausência psíquica de alguém fisicamente presente se torna uma perda ambígua, que muitas vezes reativa perdas antigas não elaboradas. Para a clínica, a sequência proposta é útil: explorar o problema e as queixas, ouvir o ponto de vista da pessoa designada, construir com a família o ciclo circular das estratégias de regulação e, depois, abrir o transgeracional quando a família estiver pronta. O exemplo da família V, em que a videoconferência acaba servindo à coesão, lembra que a tecnologia não é o problema em si. Os limites são claros: cinco famílias heterogêneas, uma terapeuta que é também a pesquisadora, nenhuma medida padronizada e uma leitura do subfuncionamento paterno que mereceria ser discutida em vez de tomada como dada. Para ler junto com o artigo sobre as relações entre pais e filhos e as tecnologias digitais e com o artigo sobre perda ambígua e rituais.

Notas do original

1 A coesão familiar é definida como “o vínculo emocional que os membros da família têm uns com os outros” (Olson et al., 1983, p. 60).

2 O esquema de estar-com é conceitualizado por Stern a partir da suposta perspectiva subjetiva do bebê em interação com a pessoa que cuida dele.

Financiamento. Este estudo foi realizado no âmbito da minha atividade na direção do programa do DFSSU Clínica Familiar e Práticas Sistêmicas, na Direção de Formação da Universidade Paris 8, que custeou a publicação deste manuscrito em acesso aberto (subsídio nº CDE-2021-001014).

Ética. A pesquisa apresentada neste manuscrito foi realizada com os registros de cinco famílias cuja terapia estava concluída. Trata-se de uma pesquisa retrospectiva não intervencionista. O consentimento informado por escrito para o uso desses dados em pesquisa, em particular das gravações em vídeo, foi obtido de todos os membros das famílias. As famílias foram informadas de que os dados poderiam ser usados para análise da prática e para pesquisa sobre processos de mudança, e de que podiam pedir que as gravações fossem apagadas caso mudassem de ideia. O anonimato lhes foi garantido, e nomes fictícios são usados neste texto como proteção. De acordo com a legislação local e as exigências institucionais, o estudo com seres humanos não exigia revisão nem aprovação ética.

Contribuições. ND assumiu a direção científica do estudo: formulação da pergunta de pesquisa, elaboração do protocolo, análises dos dados e redação do manuscrito.

Conflitos de interesse. A pessoa que assina o artigo declara que a pesquisa foi realizada na ausência de qualquer relação comercial ou financeira que possa ser interpretada como potencial conflito de interesse.

Agradecimentos. Agradeço à Sra. Anne-Sophie Bruley, à Sra. Victoire Kalamarides, à Sra. Emmanuelle O’Grady e ao Sr. Thomas Villemonteix pelos comentários e conselhos cuidadosos durante a preparação da versão em inglês deste manuscrito.

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Tradução não oficial em português de Terapia familiar focada na regulação emocional com famílias contemporâneas afetadas pelas tecnologias da informação e da comunicação, de Nathalie Duriez, Frontiers in Sociology, vol. 6 (2021), doi: 10.3389/fsoc.2021.633515, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Emotion Regulation Focused Family Therapy With Contemporary Families Affected by Information and Communication Technologies”, publicado em Frontiers in Sociology (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Duriez, N. (2021). Terapia familiar focada na regulação emocional com famílias contemporâneas afetadas pelas tecnologias da informação e da comunicação (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/terapia-familiar-focada-na-regulacao-emocional-com-familias-contemporaneas (Obra original publicada em 2021 em Frontiers in Sociology, 6, 633515 (2021); republicada em 2021 por Frontiers in Sociology, https://www.frontiersin.org/journals/sociology/articles/10.3389/fsoc.2021.633515/full)

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