Casal · Disfunções

A primeira armadilha a evitar no casal

Estar em casal, e sobretudo permanecer nele, é atravessar as etapas do ciclo de vida com o parceiro ou a parceira, atravessar as crises, desviar das armadilhas e às vezes enfrentar e superar os problemas que aparecem. A primeira dessas armadilhas: a incivilidade.

Na terapia, com a experiência, encontramos tipos de problemas que se tornam verdadeiros venenos para o casal se não forem tratados. Distinguem-se quatro grandes, às vezes reunidos sob o rótulo dos “quatro I”, já que cada um começa por essa letra: a incivilidade, a imutabilidade, a infidelidade e a imaturidade. Esta primeira parte abre a série.

O que chamamos de incivilidade

Historicamente falava-se antes em falta de educação: as duas palavras se sobrepõem em boa medida. A ideia é a seguinte: algumas pessoas parecem não ter, dentro do próprio casal, os códigos sociais elementares da vida em sociedade. Não é que os desconheçam, nem que sejam incapazes de aplicá-los na coletividade: mas, no espaço do casal, é como se soltassem as rédeas, como se tudo ali fosse permitido.

Muitas vezes são pessoas que viveram, quando crianças, a experiência de um lugar em que tudo lhes era permitido — o filho preferido a quem se passa a mão na cabeça. Constrói-se então, em sua representação de mundo, a ideia de que dentro da família se pode fazer o que se quer.

Isso se manifesta de várias maneiras: injúrias, falta de respeito, falta de pudor, desrespeito à limpeza da casa ou ao próprio corpo. E, com frequência, tudo isso é feito em nome da espontaneidade: seria algo inerente à natureza da pessoa. “Eu sou assim mesmo”, “no espaço do casal você me vê como eu sou, natural, espontânea”. Aos poucos, isso pode levar o outro a sentir repulsa por esse tipo de comportamento.

Quando a incivilidade entra no consultório

Esses elementos também se manifestam no espaço terapêutico. Uma pessoa que, sem o menor constrangimento, se levanta no meio da sessão, sai, volta, vai atender ao telefone ou responder a uma mensagem: são faltas de educação, pequenas incivilidades. É extremamente importante apontá-las e nomear que se trata de um problema de falta de educação.

Um reenquadre clássico consiste em deslocar o argumento: fazer o comportamento passar do lado da espontaneidade para o do descontrole. Uma metáfora esfincteriana às vezes basta — como se houvesse uma falha de retenção, como se a pessoa não conseguisse guardar dentro de si aquilo que, uma vez fora, vem sujar os outros.

A narrativa habitual

“Eu sou assim, é minha espontaneidade, minha natureza.” O comportamento vira identidade e, portanto, algo inegociável.

O reenquadre

Não se trata de espontaneidade, e sim de uma falha de continência. Ora, a capacidade de controle se aprende e se exercita.

A ideia por trás disso é simples: podemos pensar tudo o que quisermos, mas não podemos dizer tudo o que pensamos. Nossas palavras e nossos atos têm consequências sobre as pessoas próximas. Não posso insultar meu companheiro ou meus filhos com uma agressividade exacerbada e depois lhes explicar que eu sou assim, que sou espontâneo, natural, e que todos me conhecem.

O verdadeiro perigo: quando a narrativa coloniza a família

O perigo começa quando essa narrativa passa a colonizar todas as outras pessoas da família. Se um dos membros acaba sendo reconhecido por todos como alguém que pode dizer e fazer praticamente o que quiser, e ninguém lhe cobra nada porque “não é culpa dele” ou porque “isso faz parte da personalidade dele”, então a incivilidade se tornou a norma do sistema.

Ora, pode ser importante lembrar que, sejam quais forem os acontecimentos de vida, nada justifica nem valida o fato de ser insultuoso, mal-educado ou de exercer incivilidades sobre os próximos.

Para guardar

O respeito é um direito devido: não é algo que precise ser conquistado — diferentemente, talvez, da consideração. Ninguém pode se subtrair à obrigação moral de respeitar o outro, ainda que jamais tenha vivido, ele próprio, a experiência de ser respeitado. O passado pode explicar um comportamento; não o valida.

Um tratamento educativo e explicativo

O tratamento desse problema na terapia exige uma abordagem específica, educativa e explicativa: as pessoas podem pensar o que quiserem, mas não podem dizer o que quiserem. Trata-se de transmitir um modelo de comunicação fundado no respeito e na estima por cada um, e de aumentar a capacidade de continência.

É essencial que o terapeuta consiga nomear isso: caso contrário, deixa-se levar pela explicação que o cliente dá do próprio comportamento. Não explicitar o problema como falta de educação já é, de certo modo, endossar o estado das coisas. Dito isso — e é mais que evidente —, a intervenção precisa ser feita com tato e sutileza: anunciar que se observa um problema de incivilidade exige muita delicadeza.

Uma ressalva merece ser acrescentada: pode existir, numa família, uma forma de aceitação incondicional dos outros — mas apenas na medida em que ela não se faça em detrimento da dignidade de um de seus membros. E é muito importante que o terapeuta não aceite de imediato explicações do tipo “eu sou mediterrâneo”, “eu tenho sangue quente”, “é assim que funcionamos na minha família”, “isso faz parte da minha personalidade”.

Inaceitável ou inadmissível?

Dois termos muito úteis de distinguir quando se trabalha em torno da noção de respeito.

Inaceitável

Aquilo que não posso aceitar em função dos meus princípios, da minha construção de mundo, da minha percepção da situação. Só pode ser enunciado por si mesmo, como pessoa.

Inadmissível

Aquilo que colide com normas, com valores coletivos e sociais: um comportamento violento contra uma criança, o incesto, comportamentos pedófilos. Pode ser enunciado por alguém de fora.

Como terapeuta, poder se apoiar nessa distinção é precioso.

Apoiar-se nos momentos de exceção

Abordar a questão da falta de respeito pode ser muito fecundo na terapia, sobretudo porque é possível apoiar-se nos momentos de exceção: aqueles em que o casal ou a família experimenta que existe, sim, respeito entre eles. Toda a ideia será então ampliar essa zona de exercício do respeito.

Há ainda uma questão decisiva: mostrar que nenhuma aliança implícita está sendo criada com um dos membros em detrimento dos outros. Se alguém desrespeita e o terapeuta nada diz, se ele aceita, é como se fizesse aliança com essa pessoa — e, na hora de trabalhar com quem foi alvo desse desrespeito, tudo se tornará muito mais difícil.

A segunda grande disfunção, por sua vez, não faz barulho algum: é a imutabilidade.

Como citar este artigo

Besse, J. (2022, 15 de maio). A primeira armadilha a evitar no casal. Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/a-primeira-armadilha-a-evitar-no-casal

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