Counselling and Psychotherapy Research · Casal
Quando uma mulher descobre que o companheiro tem comportamentos sexuais compulsivos, o que se rompe, e com quem? Na Austrália, a equipe de Fakri Seyed Aghamiri entrevistou doze parceiras e quinze terapeutas: trabalho de detetive, vergonha e isolamento, crise espiritual e dois terços das mulheres passando por automutilação ou ideação suicida.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Comportamentos sexuais compulsivos e consequências relacionais: um estudo fenomenológico dos impactos nas parceiras íntimas, de Fakri Seyed Aghamiri, Johannes M. Luetz e Karenne Hills, publicado na Counselling and Psychotherapy Research (Wiley) (2025), doi: 10.1002/capr.12850, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As três tabelas são apresentadas em forma de listas; a figura 1 permanece em inglês, com legenda traduzida; a figura 2, obra de uma participante, não é reproduzida; as declarações de fim de artigo e as duas notas de rodapé estão reunidas nas notas; as biografias e a declaração sobre a disponibilidade dos dados não foram incluídas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As mulheres afetadas expressaram que sofriam mais com as mentiras e o engano do parceiro íntimo do que com os próprios CSC.
Fakri Seyed Aghamiri, Johannes M. Luetz e Karenne Hills
Resumo
Contexto. Os estudos sobre a adicção sexual (AS) e os comportamentos sexuais compulsivos (CSC) delineiam um novo campo da pesquisa em aconselhamento, que envolve repercussões sociais, de gênero e culturais diversas para quem é afetado: indivíduos, famílias, parcerias íntimas e sociedade. Os tabus que cercam a AS e os CSC costumam apresentar o tema sob uma luz de ignorância e vergonha.
Objetivos e método. Embora a AS e os CSC em homens venham recebendo cada vez mais atenção acadêmica, pouquíssimos estudos examinaram seus efeitos relacionais complexos sobre as parceiras íntimas (FP, female partners). Este estudo preenche essa lacuna por meio de um delineamento de pesquisa fenomenológico descritivo. Em entrevistas semiestruturadas em profundidade, parceiras (n = 12) e terapeutas em atividade (n = 15) descreveram os impactos relacionais e suas experiências.
Resultados e discussão. Os resultados revelam fraturas intra e inter-relacionais que muitas vezes levam as mulheres afetadas pela AS ou pelos CSC a um trabalho de detetive, à automutilação e à ideação suicida.
Conclusão. Para diversos grupos interessados, este estudo é importante porque destaca formas pelas quais a academia, terapeutas e organizações religiosas poderiam oferecer um apoio mais especializado durante o processo de cura e recuperação.
Implicações para a prática e as políticas
O sexo e a hipersexualidade ganharam maior aceitação social nos países industrializados (Garcia et al., 2013; Kraus e Sweeney, 2019), em grande parte por sua presença onipresente na mídia e na cultura popular (de Alarcón et al., 2019; Lewczuk et al., 2022; Sigusch, 2001; Ter Bogt et al., 2010). A expansão da internet e das tecnologias digitais ampliou ainda mais as indústrias do sexo, on-line e off-line (de Alarcón et al., 2019; Seyed Aghamiri, 2020; Seyed Aghamiri et al., 2022b). Esse ambiente contribuiu para a prevalência da adicção sexual (AS) ou dos comportamentos sexuais compulsivos (CSC), áreas ligadas à acessibilidade e à aceitação cultural de materiais e recompensas sexualmente explícitos (Carnes, 2011; de Alarcón et al., 2019; Wéry e Billieux, 2017).
Davis (2009) aponta a AS e os CSC como uma questão social urgente, situada na interseção entre ciência e cultura. Os comportamentos em questão se caracterizam muitas vezes pela incapacidade de controlar impulsos sexuais intensos, o que leva a condutas repetitivas que prejudicam o funcionamento social e podem ter consequências duradouras (Carnes e Adams, 2019; Grubbs et al., 2020; Reid e Kafka, 2014; Sassover e Weinstein, 2024). Outros termos relacionados incluem transtorno obsessivo-compulsivo do comportamento sexual (TCSC; em inglês, CSBD) e comportamento sexual fora de controle (Briken et al., 2022; de Alarcón et al., 2019; Potenza et al., 2017; Sassover e Weinstein, 2020; WHO—World Health Organization, 2019). A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o TCSC em sua classificação CID-11 de 2019 (WHO—World Health Organization, 2019), ressaltando seu impacto sobre as pessoas e as relações (Seyed Aghamiri et al., 2022a, 2022b; Seyed Aghamiri e Luetz, 2021).
As pessoas envolvidas com AS ou CSC frequentemente se dedicam a atividades não parafílicas que perturbam a vida pessoal e profissional, como o uso excessivo de pornografia, a masturbação compulsiva e encontros sexuais com desconhecidos (Giordano et al., 2024; Seyed Aghamiri, 2023a, 2023b; Slavin et al., 2020a, 2020b). Entre as consequências negativas estão problemas financeiros, problemas jurídicos, isolamento social e relações íntimas desgastadas (Reid et al., 2011; Walton e Bhullar, 2020; Yamamoto, 2020), com a satisfação no relacionamento e a confiança frequentemente diminuindo, mesmo no caso do consumo de pornografia on-line (Schneider et al., 2012). Hall (2016) observa o dano particular que a AS causa às parcerias, ao entrelaçar a adicção e a integridade da relação.
Os comportamentos sexuais disfuncionais afetam significativamente a saúde mental e as dinâmicas relacionais (Vasconcelos et al., 2022). Além disso, a AS e os CSC podem provocar nas parceiras (FP) um trauma de traição (TT), caracterizado por dor emocional profunda e dano psicológico após a descoberta dos comportamentos compulsivos de um parceiro (Bergner e Bridges, 2002; Freyd, 1998, 2008; Seyed Aghamiri, 2023a, 2023b; Rachman, 2010; Steffens e Rennie, 2006; Weiss, 2019). O TT também pode reproduzir os sintomas do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), causando desespero e pensamentos intrusivos, o que pode complicar ainda mais a recuperação das parceiras afetadas (Bergner e Bridges, 2002; Seyed Aghamiri et al., 2022a, 2022b; Steffens e Means, 2009; Tirone et al., 2021).
Apesar das amplas implicações da AS e dos CSC, a pesquisa se concentra sobretudo em quem apresenta esses comportamentos, o que deixa pouco compreendida a experiência das parceiras afetadas pela AS ou pelos CSC de seus parceiros homens (Vogeler et al., 2018). Os estudos existentes abordaram alguns impactos relacionais e reações traumáticas, mas oferecem pouca compreensão da experiência vivida dessas mulheres (Williams, 2019; Zitzman e Butler, 2009). Embora a AS e os CSC afetem pessoas de qualquer gênero, a maioria das pessoas envolvidas são homens heterossexuais, que apresentariam taxas mais altas de comportamentos obsessivos (Ballester-Arnal et al., 2013; Cooper et al., 2000; Kishor et al., 2018; Kürbitz e Briken, 2021).
Este estudo teve como objetivo explorar os efeitos relacionais do TT em mulheres que se relacionam com homens que apresentam AS ou CSC. Ele investiga áreas em que terapeutas poderiam oferecer um apoio mais especializado. Por fim, identifica oportunidades de pesquisa futura em áreas associadas às dinâmicas do casal.
Embora não haja consenso na literatura sobre uma definição universalmente aceita de AS e de CSC (Seyed Aghamiri et al., 2022a, 2022b), há indícios de que esses conceitos começam a atrair crescente atenção profissional nas áreas da saúde, da terapia e do tratamento (Badii et al., 2020; Lew-Starowicz et al., 2022). Em particular, a Classificação Internacional de Doenças da OMS (CID-11)1 classificou recentemente o TCSC como um transtorno do controle de impulsos (Briken et al., 2022; Grubbs et al., 2024; Kraus et al., 2018; Lew-Starowicz et al., 2022). A pesquisa sobre AS e CSC é fundamental porque pode evidenciar abordagens que terapeutas podem adotar para oferecer um apoio individual e relacional mais especializado, inclusive durante a cura e a recuperação.
As pessoas têm um forte desejo de conexão, já que são seres sociais e relacionais (Fiske, 2018; Machia et al., 2020; Morales-Vives et al., 2021). Segundo esse ponto de vista, quando conexões íntimas saudáveis se mantêm ao longo do tempo, elas transformam o vínculo de apego (Gómez-López et al., 2019). Em contrapartida, relações que sofrem ruptura ou traição, como as decorrentes da AS ou dos CSC, causam dor psicológica e física (Campbell e Stanton, 2019; Schneider et al., 2012; Weiss, 2019). Nessa mesma linha, a AS e os CSC têm sido concebidos como uma reação desadaptativa aos estressores da vida e a estados emocionais disfóricos (Chatzittofis et al., 2022; Grubbs et al., 2024).
McCormack e Wignall (2017) afirmam que a pornografia se tornou mais corriqueira em razão da influência da internet na cultura popular. Esse fenômeno é conhecido como “a ação pornográfica da cultura dominante” (McNair, 2013, p. 3), que algumas pessoas veem como uma forma de enriquecer o relacionamento (Kohut et al., 2018). No entanto, a ideia de que assistir juntos a pornografia relacional aumentaria o nível de satisfação sexual de um casal tem pouca evidência a sustentá-la (Grubbs et al., 2019; Weiss, 2020). Já se demonstrou que o consumo de pornografia prejudica o bem-estar das parcerias, pois mina a confiança na relação e enfraquece sua integridade (Hastings e Lucero Jones, 2023; Maas et al., 2018; Schneider et al., 2012; Steffens e Means, 2009).
Maddox et al. (2011) encontraram uma correlação substancial entre o consumo compulsivo de pornografia (um tipo de AS) e a traição no relacionamento. Além disso, o segundo Australian Longitudinal Study of Health and Relationships (Richters et al., 2014) constatou que, embora o número de homens que assistiam a filmes classificados como X tivesse diminuído, o número de homens que acessavam sites de sexo on-line havia aumentado. Segundo Richters et al. (2014), isso pode indicar a maior disponibilidade de uma ampla gama de materiais sexualmente explícitos de fácil acesso, possibilitada pelo desenvolvimento da tecnologia digital. Vários estudos indicam que assistir a pornografia tem efeito prejudicial sobre a intimidade, a satisfação sexual e a satisfação no relacionamento em relações heterossexuais, tanto de namoro quanto de casamento, mesmo que mostre atos de natureza relacional. Isso vale especialmente quando quem consome a pornografia é um homem (Maddox et al., 2011; Minarcik et al., 2016; Perry e Hayward, 2017; Vieira e Griffiths, 2024).
Até hoje, nenhum outro estudo examinou a fundo as consequências relacionais da AS e dos CSC sobre as parcerias íntimas após a descoberta ou revelação desses comportamentos. Como observado acima, um efeito prejudicial da AS e dos CSC, capaz de causar dano de várias maneiras à pessoa parceira, é o TT, que pode ser desencadeado pela descoberta ou revelação da AS ou dos CSC (Hunyady et al., 2008; Seyed Aghamiri et al., 2022a, 2022b; Weiss, 2021; Williams, 2019). O trauma relacional é designado pelo termo “TT” (Freyd, 1996, 1998), ligado às traições da confiança (Birrell et al., 2017). Mais precisamente, a teoria sustenta que o grau de traição aumenta com a proximidade da relação com a pessoa ou as pessoas que traem e com a necessidade aparente dessa relação (Freyd, 1994; Kahn e Freyd, 2008). Além disso, o profundo trauma psicológico vivido por uma pessoa traída em sua relação íntima se assemelha à ferida de apego que um bebê sofre quando separado da mãe (Johnson et al., 2001; Warach e Josephs, 2021). Assim como o TT, o trauma de apego está associado a dor e sofrimento existenciais quando uma pessoa vive acontecimentos interpessoais traumáticos que contrariam sua convicção íntima de que o outro é uma fonte de apoio confiável e digna de confiança (Bowlby, 1969, 1977; Hazan e Shaver, 1987). Nesse sentido, Steffens e Means (2009) indicam que:
Embora o trauma e o estresse pós-traumático sejam reconhecidos há mais de um século como ocorrências comuns na experiência humana, o reconhecimento do trauma relacional surgiu mais tarde, quando a pesquisa começou a notar a dor emocional extrema e o dano psicológico que vivemos quando somos traídos ou vitimados por alguém próximo (p. 4).
A pesquisa sugere que a traição desempenha um papel importante no desenvolvimento de sequelas pós-traumáticas (Gómez et al., 2014; Kelley et al., 2012). Segundo Gómez et al. (2014), o TT ativa o centro do medo, levando assim ao trauma complexo ou ao TEPT e aos sintomas associados. De fato, Steffens e Rennie (2006) constataram que, com exceção do critério A1 (um acontecimento que ameaça a vida), 69,6% das participantes preenchiam todos os critérios de TEPT. Esse estudo mostrou que as reações das parceiras à AS ou aos CSC do parceiro incluíam hipervigilância, evitação, flashbacks recorrentes e dissociação. O mesmo estudo observou ainda que a revelação “lança no corpo uma descarga de adrenalina que desencadeia uma reação de estresse” (Steffens e Rennie, 2006, p. 251). Como observa Fitness (2006, p. 74), o ato de traição implica a rejeição ou o “desprezo de uma pessoa por outra”, e é extremamente estressante pela possível perda da relação. Segundo Maercker e Hecker (2016), as relações interpessoais (com o sistema familiar, a cultura e a sociedade) e, acima de tudo, a relação com a pessoa parceira íntima são os lugares típicos da recuperação do TT. Carnes e Lee (2014) observaram de passagem, no entanto, que a natureza da AS e dos CSC e o processo de descobrir as ações encobertas da pessoa parceira são traumatizantes e podem levar ao isolamento social e à alienação, dificultando que quem é afetado procure outras pessoas. O trauma de traição tem um impacto diferente no cérebro do que outras formas de trauma, sobretudo quando a vítima depende de quem traiu (Courtois, 2014). Por isso, as vítimas de TT muitas vezes têm dificuldade de reconhecer a realidade do que aconteceu, em razão de sua dependência física, psicológica ou relacional, que compromete todo o seu senso de identidade e de existência (Freyd, 1994).
O medo do estigma e da condenação associados à AS e aos CSC (Carnes e Lee, 2014; Hall, 2016), somado ao TT, ao luto e às feridas de apego de quem é afetado, pode resultar em diversas repercussões relacionais. Uma delas é a ruptura espiritual e relacional, que pode gerar raiva de Deus ou de um poder superior (Carnes e Lee, 2014; Seyed Aghamiri et al., 2024c). A pesquisa mostrou que uma melhor qualidade de vida e de relacionamentos depende do bem-estar espiritual (Büssing et al., 2014; Peerawong et al., 2019) e que a espiritualidade pode influenciar a forma como as pessoas interagem com amizades, família e outras pessoas (Büssing et al., 2014). A espiritualidade abrange muitos aspectos do sentido da vida e da existência humana, como os relacionados ao ambiente, ao corpo, à mente, às emoções e à alma (Luetz e Nunn, 2023; Nunn e Luetz, 2021; Santos e Michaels, 2022). A pesquisa indica que experiências traumáticas podem provocar crises na relação espiritual (Carnes e Lee, 2014; Weiss, 2019). É importante notar que as parcerias podem passar por várias etapas e diferentes tipos de descoberta ou revelação, vivendo como consequência confusão, medo, dor, desconexão de um poder superior ou de Deus e abandono (Seyed Aghamiri et al., 2024c; Seyed Aghamiri e Luetz, 2021). Grant (1999) afirmou que uma experiência traumática altera, ou talvez destrua por completo, as concepções prévias de uma pessoa sobre a vida, o sentido e o propósito. Isso pode causar uma grave crise espiritual e religiosa (Carnes e Lee, 2014; Mahoney et al., 2012), que envolve ressentimento contra Deus ou um poder superior (Pargament et al., 2000).
Em síntese, a escassa literatura atualmente disponível sobre o tema sugere direções promissoras para novas investigações. Nenhum outro estudo revisado por pares permitiu especificamente que mulheres, após saberem da AS ou dos CSC do parceiro, comunicassem o significado genuíno de suas experiências vividas e seus pontos de vista relacionais. Discutir a AS e os CSC em conjunto com os relacionamentos e o sentimento de conexão foi descrito como um primeiro passo essencial, dada a importância do bem-estar e do funcionamento da pessoa. Isso vale especialmente se a tematização dessas questões puder ser, de forma significativa, “incorporada e normalizada, em vez de moralizada, para o bem maior tanto de quem sofre quanto da sociedade” (Seyed Aghamiri e Luetz, 2021, p. 443). Uma compreensão mais aprofundada da experiência relacional vivida e dos pontos de vista das mulheres nesse campo seria útil para especialistas, equipes de cuidado e organizações religiosas. Uma abordagem analítica qualitativa rigorosa pode ajudar a encontrar caminhos de recuperação e cura.
Esta seção apresenta as abordagens metodológicas de coleta e análise dos dados obtidos com terapeutas (grupo complementar) e com parceiras íntimas (participantes principais), a fim de explorar as implicações relacionais associadas à descoberta ou revelação de AS ou CSC em relações íntimas. Esse delineamento de pesquisa foi escolhido deliberadamente para fazer avançar um campo em rápida evolução. No desenvolvimento de métodos de pesquisa, as abordagens qualitativas analisam acontecimentos em um contexto particular, enquanto os métodos quantitativos caracterizam variáveis e testam hipóteses (Creswell, 2015; Peoples, 2020). Nessa perspectiva, o presente trabalho amplia o conjunto de pesquisas voltadas à geração de teoria ao produzir hipóteses (Chen e Luetz, 2020).
Apesar de algumas pesquisas limitadas sugerirem, como já mencionado, que a AS e os CSC têm efeitos negativos sobre as parcerias íntimas, há uma lacuna substancial na literatura acadêmica revisada por pares quanto a estudos qualitativos sistemáticos que retratem a experiência relacional vivida das parceiras afetadas pelo TT (Benfield e Birchard, 2018; Bergner e Bridges, 2002; Schneider, 2000; Schneider et al., 1998, 2012; Williams, 2019; Zitzman e Butler, 2009). Diante dos efeitos relacionais do TT, a presente técnica qualitativa foi desenvolvida e utilizada para dar voz a essa comunidade pouco estudada, ampliar o conhecimento e destilar sua essência. Um exame aprofundado das experiências reais dessa população pode evidenciar semelhanças ou diferenças contextuais ou culturais entre as mulheres afetadas (Milrad, 1999; Schneider, 2000; Steffens e Rennie, 2006; Williams, 2019; Zitzman e Butler, 2009).
Assim, uma abordagem qualitativa é a mais adequada para aprimorar a oferta de cuidados em saúde, pois permite uma compreensão aprofundada das relações entre fenômenos biopsicossociais (Boyle, 1991; Seyed Aghamiri e Luetz, 2021). Além disso, uma abordagem qualitativa ajuda a compreender melhor as mulheres afetadas e a desenvolver formas de apoiar sua recuperação sexual e seu bem-estar geral diante da AS, dos CSC e do TT, ao mesmo tempo que facilita a criação de políticas sociais adequadas (Seyed Aghamiri, 2023a, 2023b; Weiss, 2021). A fenomenologia é uma metodologia qualitativa bem adequada a esses propósitos e objetivos. Seus objetivos principais são compreender como as pessoas percebem suas experiências e examinar o uso da linguagem em contextos sociais, políticos e interpessoais. Para compreender as experiências vividas e os pontos de vista, a pesquisa costuma mergulhar a fundo nos sentimentos e pensamentos do público estudado (Peoples, 2020; Seyed Aghamiri et al., 2024a, 2024b; van Manen, 1997). Ao aplicar uma abordagem fenomenológica, tornou-se possível explorar a ampla gama de experiências compartilhadas pelas mulheres afetadas e gerar novas perspectivas e ideias sobre suas experiências vividas. Assim, o estudo concebeu e empregou deliberadamente um referencial fenomenológico, inserido em um paradigma qualitativo de investigação, para alcançar esses propósitos e objetivos.
A seguinte pergunta de pesquisa orientou a investigação: quais são as experiências vividas por mulheres após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC de seus parceiros?
Para explorar e caracterizar experiências humanas vividas, um referencial qualitativo que privilegia a compreensão fenomenológica foi a abordagem metodológica mais adequada para este estudo. Assim, abordagens fenomenológicas descritivas foram usadas para coletar e analisar os dados e responder à pergunta de pesquisa. Uma investigação fenomenológica, que faz parte do paradigma qualitativo, concentra-se no conjunto das experiências que as pessoas participantes têm a oferecer. Ela apresenta vários pontos de vista e conceitos para propor uma interpretação nova do fenômeno (Creswell, 2015; Giorgi et al., 2017; Peoples, 2020). Fundamentalmente epistemológica, a filosofia da abordagem fenomenológica de Husserl revela um conhecimento correlacionado à experiência humana (Husserl, 1970; Neubauer et al., 2019). Consequentemente, a fenomenologia descritiva deve priorizar a experiência vivida, com uma explicação abrangente e aprofundada do núcleo universal das experiências das pessoas participantes e de sua produção de sentido. Essa abordagem também reconhece as experiências vividas e o bem-estar das mulheres afetadas pela AS ou pelos CSC de seus parceiros, ao permitir que compartilhem fielmente suas experiências. Além disso, o estudo procurou elucidar as nuances e a complexidade das interações interpessoais e obter uma compreensão aprofundada das técnicas de interpretação pertinentes (Willig, 2013). Crucialmente, os métodos qualitativos eram os mais adequados, já que este estudo se concentrou na importância e na qualidade das experiências (Denzin e Lincoln, 2013).
O processo de coleta de dados incluiu a obtenção da aprovação do comitê de ética, o recrutamento e a seleção das pessoas participantes, a coleta de informações demográficas, a garantia do anonimato, a obtenção dos termos de consentimento informado e a realização de entrevistas semiestruturadas em profundidade. O estudo recebeu aprovação ética do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos (HREC) do Alphacrucis University College (AC).
Idade, etnia, duração da relação com o parceiro, escolaridade, nível de renda, profissão, pertencimento religioso ou espiritual, além do número e da idade dos filhos, estavam entre os dados coletados de um grupo heterogêneo de participantes principais (Tabela 1). O Sexual Addiction Screening Test (SAST), criado por Carnes (1991, 2000), foi usado como instrumento de recrutamento para evitar uma seleção enviesada.
Tabela 1 — Participantes (grupo principal): dados demográficos
Todas as participantes são do gênero feminino. Para cada uma: idade, nacionalidade, situação conjugal, duração da relação (anos), escolaridade, número de filhos, religião antes dos CSC, religião depois dos CSC, modalidade da entrevista.
Esta pesquisa buscou investigar as parceiras a partir da perspectiva paradigmática da construção social. Por isso, nenhum instrumento de diagnóstico médico foi usado para definir quem preenchia os requisitos para participar do estudo. O estudo recorreu a uma amostragem não aleatória para recrutar 12 parceiras australianas com idades entre 21 e 63 anos (o grupo principal) e 15 terapeutas (C; grupo complementar). O recrutamento das participantes afetadas dependia de estarem (ou terem estado) em uma relação estável e exclusiva por pelo menos 12 meses.
Uma amostra de tamanho reduzido é ideal para a pesquisa fenomenológica (Creswell, 2015); este estudo qualitativo recrutou um número administrável de pessoas (n = 27), selecionadas especificamente para permitir o exame e a interpretação aprofundados de um fenômeno (Patton, 2002). Assim, o objetivo metodológico deste estudo foi realizar entrevistas presenciais com cada uma das participantes principais em um centro particular de aconselhamento em Brisbane, Queensland (Austrália). Um pequeno número de participantes também foi recrutado por meio de programas de 12 passos organizados pelos Sex Addicts Anonymous (SAA) e Sexaholics Anonymous (SA), cujas reuniões os parceiros frequentavam regularmente para obter do grupo apoio em relação à sua AS ou aos seus CSC. Além disso, recorreu-se à amostragem em bola de neve, adequada a estudos que examinam populações ocultas, para localizar outras participantes (Naderifar et al., 2017).
As pessoas terapeutas representavam uma ampla variedade de grupos demográficos: membros do clero com credenciais em aconselhamento e profissionais de psicologia e de medicina atuando como terapeutas, com pelo menos 10 anos de experiência profissional em todos os casos. Por meio da triangulação, a inclusão desse grupo adicional reforçou o rigor metodológico (Creswell, 2015; Fusch et al., 2018). Esse grupo complementar (Tabela 2) aumentou o rigor metodológico por meio da triangulação (Creswell, 2015; Fusch et al., 2018). Ainda assim, a ênfase foi colocada deliberadamente em dar voz às parceiras, e os pontos de vista das pessoas terapeutas serviram como verificação adicional (método de triangulação) para validar as experiências e as narrativas das participantes.
Tabela 2 — Terapeutas (grupo complementar): dados demográficos
Durante as entrevistas semiestruturadas, cada pessoa participante podia fornecer tanta ou tão pouca informação quanto desejasse.
Todas as perguntas da entrevista passaram por um pré-teste com pessoas da academia, membros do clero, terapeutas e casais que haviam vivido a AS ou os CSC, para compor o conjunto final de perguntas. A revisão subsequente garantiu que todas as perguntas fossem suficientemente específicas, claras e isentas de viés. O resultado foi uma lista final de 13 perguntas abertas no instrumento de coleta, que interrogavam as parceiras (participantes principais) sobre suas experiências depois de saberem da AS ou dos CSC do parceiro. Seguem alguns exemplos de perguntas do instrumento:
Quatro perguntas abertas também foram feitas às pessoas terapeutas (grupo complementar), com o convite para compartilharem percepções profissionais do trabalho com essa população. Segue um exemplo:
Os dados foram obtidos entre 2021 e 2023. Após a coleta, foram examinados com uma abordagem analítica que apoiou o desenvolvimento dos temas e dos códigos. Esse método envolveu várias rodadas de codificação informatizada no NVivo 12, após a codificação manual (QSR International, 2021). A análise temática dos dados foi feita do início ao fim da coleta. Para destilar o núcleo das experiências das parceiras, examinaram-se nas entrevistas os padrões e temas emergentes. Esse método exigiu um diário reflexivo e notas de campo para compreender melhor os dados. As abordagens metodológicas de Sundler et al. (2019) e os pressupostos filosóficos de Husserl (1960) foram empregados para analisar os dados deste estudo. Para compreender os dados, é preciso ler as transcrições com a mente aberta. Os grandes temas começaram a surgir depois que a transcrição foi lida em voz alta várias vezes “com a mente aberta” (Seidman, 2006, p. 117). Além disso, para identificar temas e significados, as transcrições das entrevistas foram lidas em voz alta várias vezes enquanto se ouviam as gravações de áudio. Ouvir o tom das vozes durante a leitura ajudava a decifrar os significados sutis do texto e da linguagem. Como os significados primários relevantes sugeriam uma descrição aprofundada, eles foram categorizados, organizados e codificados em vários agrupamentos. A codificação consistiu em identificar traços distintivos e anotações consideradas úteis para responder à pergunta de pesquisa (Merriam e Tisdell, 2016). Por fim, a análise dos dados consistiu em agrupar os elementos em um todo significativo. Isso foi feito examinando com cuidado as descrições das pessoas participantes em busca de expressões marcantes. Era importante não forçar o estabelecimento rápido dos significados, mas deixar que se desenvolvessem naturalmente.
Este estudo identificou impactos relacionais multifacetados em parceiras cuja confiança relacional havia sido violada pelos CSC ocultos de seus parceiros. Os resultados oferecem uma análise aprofundada das experiências relacionais vividas e do bem-estar geral das parceiras de homens com AS ou CSC após a revelação desses comportamentos.
Subtemas de “trabalho de detetive” e sentimentos de isolamento surgiram nas narrativas das parceiras sobre suas experiências vividas e os impactos relacionais depois de saberem dos CSC dos parceiros. Um dos temas mais frequentes foi a experiência da descoberta ou da revelação. Todas as parceiras (100%) reconheceram que a primeira descoberta havia sido minúscula diante da extensão real das atividades secretas de seus companheiros. Uma mulher afetada, por exemplo, disse ainda desconhecer a extensão dos CSC do parceiro. Ela deixou claro o quanto estava desesperada para saber a verdade, mas o marido se recusava a dar uma explicação completa ou precisa de seus atos. Ela passou então a bancar a detetive, afirmando:
…Eu ficava muito transtornada e ligava para ele no trabalho, checava o celular dele, entrava no computador dele e vasculhava tudo, mesmo sendo ruim com tecnologia e provavelmente sem conseguir achar nada. Eu me sentia totalmente sem controle, porque como é que eu posso saber? Eu preciso que você me diga a verdade, e você não me diz a verdade, então como é que eu vou voltar a confiar em você algum dia? (FP 05)
Outra acrescentou:
Eu descobri porque ele me contou que estava sendo chantageado por uma pessoa… Ele me revelou uma parte, só a parte relacionada à chantagem, e estava me pedindo ajuda para sair da situação em que tinha se metido. Quando ele me explicou a situação, era uma experiência cibersexual menor e isolada com uma moça. Ele disse que tinha sido uma vez, que nunca encostou nela… e que a vítima era ele. Essa foi só a primeira descoberta; ele também inventou naquele momento um monte de mentiras para me assustar, como se gente tivesse ido à nossa casa… chefes de gangues de ice [metanfetamina], e basicamente era gaslighting. Eu fiquei tão preocupada com a possibilidade de pessoas virem à nossa casa nos chantagear, e esse era o trauma, então nas primeiras semanas eu fiquei apavorada achando que alguém ia aparecer em casa ou que alguém ia me abordar na rua, e eu me sentia ameaçada e insegura. Ele também me disse naquele momento que tinha partido para o cibersexo porque eu não era safada o bastante, que ele era só um cara com muito tesão, que precisava de mais sexo do que os outros homens, e que estava tentando me proteger das taras dele porque eu não ia gostar daquele tipo de sexo (FP 03).
Estava claro que essas parceiras sofriam uma angústia contínua por não conseguirem saber a verdade com facilidade. Uma mulher, enfurecida, afirmou que, depois da primeira descoberta, “…só descobri mais informações e mais traição bancando a detetive” (FP 08). Da mesma forma, outra disse: “Comecei um trabalho de detetive e, pouco a pouco, fui descobrindo mais. Foi um inferno. Em poucos meses, quase tudo veio à tona graças às minhas descobertas de detetive” (FP 09). Todas as participantes relataram o sofrimento insuportável que viveram ao saber que seus parceiros lhes haviam escondido a verdade. Uma mulher contou que antes confiava plenamente no marido. Mas, depois da primeira descoberta, sentiu-se obrigada a agir como detetive e passou a desconfiar de tudo para descobrir as coisas por conta própria, porque ele não lhe contava a verdade sobre seus atos passados. Ela continuou: “…Eu nunca tinha feito isso no casamento inteiro, e olhei o celular dele pela primeira vez na vida. Olhei a conta de Uber dele, e havia um bordel no histórico” (FP 11). Notavelmente, todas as parceiras relataram aspectos desse “trabalho de detetive”. Em particular, uma das parceiras mais jovens refletiu sobre sua experiência nesse contexto e disse:
…Primeiro descobri que ele se masturbava enquanto eu dormia. Olhei o histórico do celular dele enquanto ele dormia e entendi. Alguns meses depois, aconteceu de novo. Algo dentro de mim me disse para apertar o botão de histórico do celular dele, e foi aí que tudo apareceu. Ele revelou um pouco. Eu sempre precisava saber o que ele estava fazendo (FP 12).
As consequências do TT afetaram as relações dessas mulheres com outras pessoas e também contribuíram para um isolamento autoimposto. Uma participante contou que sentia vergonha e não conseguia procurar ninguém. Ela disse ainda: “…a família dele só o humilhou ainda mais quando as coisas vieram à tona. Ele me culpou porque isso arruinou a fachada que ele mantinha diante deles, mas era só uma parte minúscula de toda a verdade” (FP 02). O relato de outra mulher evidenciou a mesma relutância em expressar o sofrimento e a mesma sensação de dever se recolher à solidão. Ela continuou: “com meus pais, eu tinha vergonha do que tinha acontecido comigo e com a minha vida. Fico triste por eles terem tido que me ver passar por isso. Eu tinha vergonha e constrangimento por ele poder escolher fazer aquilo” (FP 04). A maioria das mulheres afetadas disse ter se sentido isolada e sozinha pela falta de transparência e de conhecimento da sociedade sobre os CSC. Em consequência, as parceiras viveram uma ampla gama de sentimentos difíceis, como vergonha profunda, desesperança, solidão, desalento e medo do julgamento. Uma parceira nessa situação descreveu sua experiência pessoal e afirmou: “…as pessoas não entendem a AS, e isso me fez me fechar, porque eu não queria falar com ninguém” (FP 12). Saber dos CSC dos parceiros teve um custo considerável para a maioria das mulheres, que também temiam que outras pessoas as vissem como defeituosas ou culpadas. Por isso, foram empurradas ainda mais para a vergonha, o isolamento e o recolhimento. Esses sentimentos ecoaram na experiência de uma participante idosa, que declarou:
Depois de saber dos comportamentos dele, eu me desconectei de todo mundo. Eu tinha vergonha e carregava muita culpa. Eu sentia que todo mundo sabia e conseguia sentir o cheiro em nós. Eu me sentia sozinha e isolada. Eu ficava trancada em casa. Não conseguia falar com a minha comunidade da igreja por medo do estigma e do julgamento (FP 09).
Por exemplo, uma parceira ilustrou esse estado de espírito ao dizer: “Eu me orgulhava de como meu casamento era ótimo. Vivia me gabando disso e de como eu tinha sorte. Tenho vergonha de ter tido tanto orgulho disso. Sinto constrangimento e vergonha” (FP 11).
Os temas identificados e as afirmações das parceiras foram confirmados pelas pessoas terapeutas, com base em suas observações e em suas interações terapêuticas com elas. As pessoas terapeutas reiteraram as afirmações das parceiras e disseram que as parceiras afetadas
Com muita frequência tendem a esconder essas coisas de amigos e da família, então podem deixar de ir aos encontros religiosos na igreja porque simplesmente não querem que a família ou os amigos as vejam feridas, ou porque o parceiro as obriga a guardar segredo (C 13).
Várias falas reproduzidas literalmente mostram como as experiências relacionais vividas pelas parceiras e suas respostas à AS ou aos CSC são comparáveis e interligadas. Por exemplo, uma mulher relatou: “muita coisa me desencadeia e… eu tendo simplesmente a me dissociar. Eu me sinto tão danificada” (FP 02). O relato de outra mulher afetada sobre sua experiência pessoal foi o seguinte: “por causa do trauma, eu simplesmente ficava anestesiada… eu estava tão estressada. As lembranças e o trauma associado ficam pousados no seu ombro e saltam de vez em quando, só para lembrar você de que ainda não foram embora” (FP 07). Outra mulher contou que lutava contra a dúvida sobre si mesma:
Eu lutava contra a sensação de que talvez eu merecesse aquilo… Eu queria não ter precisado dizer não tantas vezes, num tom específico, para ele entender. Mesmo agora, estou aqui sentada e duvido de mim, duvido das minhas lembranças, duvido de tudo o que aconteceu, porque ele é muito persuasivo, e só quando estou longe dele é que reconheço coisas que talvez não sejam normais ou não estejam certas. Na hora, é muito fácil acreditar em tudo, e você é que está louca e errada, por mais que as pessoas ao seu redor deem razão a você. Quando você volta para aquele buraco com aquela pessoa, aquilo consome você, eu acho… Toda a minha realidade é diferente hoje, às vezes eu não sei o que é a realidade, e isso foi uma mudança enorme (FP 02).
Sentimentos semelhantes foram expressos por outra mulher:
Durante todo o nosso casamento, eu sempre me senti inferior sexualmente. Ele sempre me disse que queria mais sexo, então eu sempre achei que nunca era boa o bastante sexualmente. Lembro que uma vez ele estava sentado ali tentando me perguntar quais eram as minhas fantasias, mas eu não tinha nenhuma, então eu sentia que era sempre a ingênua, a inocente, enquanto ele era o amante viril que sabia tudo… [com o tempo] ele mudou muito, foi se retraindo e passando muito tempo sozinho, sempre com raiva, odiando o trabalho, odiando a vida, nada nunca estava bom o bastante, ou então oscilava entre essas coisas negativas e ser realmente encantador e engraçado, porque esse é o modus operandi dele e é assim que ele se safa das coisas. A vida inteira dele era fazer piada, tornar tudo engraçado, divertido, e as pessoas acham que ele é a pessoa mais engraçada do mundo: é uma defesa. Ele oscilava entre as duas coisas. Em certo momento, lembro de ter pensado: “Será que ele está tendo um caso?”, mas eu achava que ele não teria como, porque não tinha tempo, e eu sempre sabia onde ele estava, ou era o que eu pensava. Eu nem lembrava que, em certo momento, começou a sumir dinheiro de uma conta, e eu o questionei sobre isso, o que foi ruim, porque ele ficou muito, muito bravo comigo, partiu para uma enxurrada de acusações e disse que a minha família o odiava (FP 03).
A relação íntima entre as parceiras e seus parceiros também foi prejudicada pelos enganos contínuos, o que resultou em comprometimento e fratura relacionais significativos. Uma mulher afetada compartilhou sua experiência da seguinte forma:
Meu parceiro nunca me fez sentir amada nem desejada, nem que eu importava para ele. Tudo girava em torno da descarga sexual… Eu sentia que, para ser as mulheres que ele assistia on-line, eu tinha que representar um papel especial para dar a ele a satisfação de que precisava, e isso me destruiu ainda mais, porque eu não gostava de alguns desses papéis que eu fazia. Ele não me perguntou se eu me sentia à vontade com aquilo, não me perguntou se alguns talvez fossem dolorosos ou impossíveis de fazer. Como eu disse, eu não me sentia à vontade. Isso me destruiu. Eu me sentia uma coisa usada ali, usada para ele conseguir a descarga (FP 01).
Outra disse:
Eu era apresentada como aquela que era o problema [um problema que só desapareceria] se eu tivesse a mente mais aberta, se estivesse num nível superior, se fosse uma “pessoa evoluída” que entende que múltiplos parceiros sexuais são uma coisa normal, blá-blá-blá (FP 02).
Depois da primeira descoberta, todas as parceiras relataram que a reação do parceiro havia sido de negação e de engano. Além disso, parecia que os homens que tinham esses comportamentos compulsivos às vezes os consideravam tão desrespeitosos e inadequados que eles próprios ficavam inseguros, temerosos ou envergonhados, preferindo assim continuar enganando em vez de parar e revelar a verdade com honestidade. Depois da confirmação pelo parceiro, no momento da revelação, uma mulher ressaltou: “ele tinha… compartimentalizado2 por tanto tempo que nem compreendia tudo o que tinha feito” (FP 09). Ele aparentemente havia jurado a si mesmo “levar todos aqueles segredos sombrios para o túmulo” (FP 09). Depois da primeira descoberta, uma das parceiras compartilhou sua experiência pessoal e disse: “ele só me deu uma certa quantidade de verdade até eu começar a desconfiar de verdade e a mexer no celular dele, e foi aí que percebi a extensão. Eu o questionava sobre isso. Muita coisa eram meias-verdades” (FP 02). Da mesma forma, outras disseram: “Eu me senti rejeitada” (FP 08), ou pensaram: “Eu estava ficando louca” (FP 09). Uma participante em lágrimas contou: “Foi uma bomba enorme para tentar absorver. Estou triste” (FP 11). Além disso, uma mulher, chorando, afirmou que tinha acreditado que não havia mais comportamentos ocultos depois da primeira revelação, mas isso foi antes de descobrir o engano:
Eu saí à caça, e cada pedaço de papel que eu encontrava era analisado, para o caso de ter uma senha ou um link para alguma coisa. Nesse processo, descobri que ele tinha outro nome inteiro, um e-mail e outras coisas criadas com um nome falso. Então houve um período… eu diria quase três meses, em que eu não parava de descobrir coisas sobre ele, e a gente acha que aquilo nunca vai acabar. Aquele período foi horrível, só descobrindo coisas… Ele ainda não admite que tem algum problema. Ele continua sendo o cara com muito tesão que perdeu um pouco o controle. Mas, a essa altura, eu tenho provas de 47 mulheres e tenho recibos de hotel. Entrei no Google Maps e consegui rastrear cada trajeto de carro dele… Tenho planilhas do que ele fez, então ficou cada vez mais difícil para ele fingir que estava tudo bem. (FP 03)
Para as mulheres afetadas, as consequências de saber da AS ou dos CSC do parceiro ultrapassavam suas relações pessoais e influenciavam também suas relações espirituais com Deus ou um poder superior. Segundo os resultados deste estudo, as rupturas relacionais causadas nas mulheres afetadas pelo TT ligado à AS ou aos CSC também tiveram um impacto negativo significativo nas dimensões espirituais da relação. Mesmo aquelas que se identificavam como ateias (FP 09), agnósticas (FP 02) ou que diziam “não acreditar em Deus” (FP 02) reconheceram ter sentido inicialmente raiva de Deus e ter duvidado de sua justiça (FP 03). Uma mulher revelou sentimentos de insegurança:
Foi uma erosão lenta do meu senso de identidade e do meu valor, e isso apareceu de muitas formas espirituais, e eu simplesmente me sinto desconectada e sem saber quem eu sou e se eu valho alguma coisa (FP 02).
Crises espirituais e relacionais complexas e potencialmente danosas parecem ocorrer de muitas maneiras. Por exemplo, mesmo parceiras íntimas que se identificavam como agnósticas ou ateias relataram sentimentos de fúria contra Deus ou um poder superior. Pareciam estar com raiva de Deus e se sentiam injustiçadas. As mulheres que viveram o TT também expressavam com frequência um luto que agravava suas crises espirituais. Apesar de virem de contextos demográficos relativamente diversos, as mulheres tinham muito em comum em suas experiências relacionais e espirituais. Sua fé muitas vezes estava despedaçada, em Deus ou em um poder superior, no parceiro, em si mesmas e nas outras pessoas, e elas sentiam que sua espiritualidade ou sua fé as havia traído e enganado, porque Deus tinha permitido que a ofensa acontecesse. Expressavam noções de injustiça e de “estar com raiva de Deus” (FP 08). Não conseguiam entender por que mulheres que tinham sido pilares de sua igreja ou de sua comunidade de fé sofreriam dessa forma. Várias mulheres afirmaram acreditar que Deus “não vai me ajudar” (FP 02) e que, portanto, “Ele deve me odiar” (FP 03), ou se perguntavam “por que a minha lealdade a Ele não é correspondida” (FP 13), o que levou algumas a “se afastar de Deus” (FP 04). Muitas mulheres religiosas também comentaram que suas comunidades de fé não lhes haviam oferecido assistência adequada ou não haviam ajudado em nada. Em consequência, viveram um sentimento maior de alienação e de desconexão espirituais. Por exemplo, uma mulher cristã revelou:
Eu não conseguia falar com a minha comunidade da igreja por causa do estigma e do julgamento… Eu estava instável física e emocionalmente, e as pessoas que deveriam cuidar de mim não fizeram um bom trabalho para me manter em segurança… Eu teria me curado mais rápido se tivesse a minha comunidade de fé ao meu redor (FP 09).
Uma mulher manifestou insatisfação com o pastor, que lhe pediu para “ler a Bíblia e perdoar” (FP 09). Outra mulher cristã se perguntava:
isso faz de mim uma má cristã, porque estou com dificuldade de perdoá-lo? Porque toda vez que olho para ele ou toda vez que ele quer sexo, isso me lembra de novo, e eu me lembro de novo de que não o perdoei (C 08).
A grande maioria das pessoas terapeutas (inclusive membros do clero, C 11, C 14 e C 15) relatou ter observado sinais de ressentimento em relação a Deus ou de afastamento de Deus. Essas perspectivas corroboraram as informações fornecidas pelas parceiras. Segundo essas pessoas terapeutas, “muitas mulheres se sentem traídas espiritualmente, sentem que Deus as decepcionou” (C 04) e, “tendo descoberto que foram enganadas em uma área, podem se perguntar espiritualmente se não foram enganadas em outras áreas” (C 06). Uma pessoa da área médica que atuava como terapeuta afirmou ainda:
Os impactos espirituais seriam semelhantes ao TEPT. Seria traumatizante, e às vezes pode haver uma resolução física e emocional, mas o espírito delas continua em choque. Então ficam efeitos residuais de separação, rejeição, retraimento [e] desconexão de Deus, assim como das outras pessoas (C 07).
Outra consequência relacional grave da AS e dos CSC foi o aspecto intrarrelacional, isto é, a maneira como as mulheres afetadas se relacionavam consigo mesmas e se sentiam levadas a comportamentos de automutilação ou à ideação suicida. Uma porcentagem significativa das mulheres (66%) havia tido comportamentos de automutilação, ou havia considerado ou tentado o suicídio. Surpreendentemente, as mulheres que se automutilavam, desejavam morrer ou pensavam em suicídio estavam também entre as que insistiam que os parceiros não as tinham traído de forma alguma, nem física, nem sexualmente, nem assistindo a pornografia e se masturbando compulsivamente e em segredo. Por exemplo, uma parceira disse: “Tomei uma overdose de remédios e fui parar no hospital” (FP 11). Outra disse ter descoberto que o parceiro assistia a pornografia e se masturbava em segredo, de modo muito parecido com o pai dela. Ela afirmou: “Achei a covid e o isolamento muito difíceis, e às vezes eu me machucava depois da minha descoberta, no começo de 2020. Eu me socava, principalmente, em parte por causa daquela desconexão do meu corpo, e eu também estava com raiva do meu pai e do meu parceiro” (FP 05). Da mesma forma, outra mulher afirmou:
Em 2017, eu tive aquele momento em que eu estava farta da vida e não queria mais viver; eu definitivamente tive pensamentos suicidas. Eu sentia que ninguém podia me ajudar nem me entender, então me isolei do mundo. Mas, fazendo isso, fiquei com coisas não elaboradas, então decidi que demais é demais, que eu não aguentava mais, e pensei em suicídio algumas vezes. Isso foi provavelmente quatro anos depois da primeira descoberta (FP 13).
Outra ramificação relacional expressa pelas parceiras afetadas foi a tendência compulsiva de se comparar com outras mulheres e de se auto-objetificar (avaliar a si mesma com base na aparência). Por exemplo, uma delas disse:
Acho que eu olhava para outras mulheres atraentes muito mais do que ele. Isso era muito difícil, e eu ficava muito obcecada com o que elas estavam vestindo e com se o que eu estava vestindo era atraente… Eu ficava obcecada com a aparência das outras mulheres em comparação comigo (FP 05).
Outra parceira reconheceu uma tendência a se auto-objetificar ou a se comparar compulsivamente com outras mulheres:
Eu me via com tanto nojo: “Se ao menos eu fosse essa garota, se ao menos eu fosse assim.” Percebi que a única coisa que me faltava era ser uma pessoa completamente diferente. É o fato de não poder ser outra pessoa que faz você se sentir tão sem esperança. Até hoje, odeio ver as outras mulheres como concorrentes. Eu odiava o jeito como eu via as outras mulheres. Odeio olhar para elas e ir direto para os seios, ou fazer comparações: “Ah, ela tem pernas bonitas, pernas mais bonitas que as minhas. Ela tem seios maiores; se ao menos eu tivesse isso.” Aos poucos, passei até a ver minhas irmãs de outro jeito, como se elas merecessem mais relações amorosas porque eram mais atraentes (FP 02).
Em resumo, as parceiras relataram uma infinidade de impactos relacionais que atingiram seu senso de identidade relacional e de segurança. Entre as questões levantadas estavam as narrativas de “trabalho de detetive” para descobrir a verdade, o engano contínuo dos parceiros, o isolamento autoimposto, o constrangimento social e o estigma, relações íntimas fraturadas consigo mesmas, com o parceiro, com Deus ou com outras pessoas e, por fim, revelações de automutilação, de pensamentos ou tentativas de suicídio e de comparações compulsivas com outras mulheres, além da auto-objetificação, entre outras.
Em consonância com pesquisas anteriores (Courtois, 2014; Minwalla, 2014; Zitzman e Butler, 2009), o presente estudo constatou que 100% das mulheres afetadas relataram ter vivido TT, ferida de apego ligada ao TT ou diferentes formas de trauma relacional (Campbell e Stanton, 2019; Steffens e Means, 2009). Pesquisas de Atwood e Schwartz (2002), Laaser et al. (2017) e Schneider et al. (2012) também constataram que os impactos negativos sobre as parcerias costumam ser os mesmos, independentemente do tipo de CSC e de as atividades secretas acontecerem on-line ou off-line; essas constatações são igualmente confirmadas por este estudo. Segundo Laaser et al. (2017), 60,89% das pessoas parceiras estudadas apresentavam sinais de TEPT e consideravam suas experiências extremamente traumáticas, independentemente do tipo de traição relacional.
Segundo os resultados do presente estudo, os CSC têm um efeito prejudicial comparável sobre as relações íntimas (isto é, diminuição da confiança relacional e trabalho de detetive) e resultam em danos relacionais duradouros (isto é, isolamento, vergonha percebida e vergonha social) nas parceiras afetadas, já que todas viveram engano, desonestidade e traição da confiança relacional. Considerando a diversidade demográfica dessas mulheres, foi surpreendente descobrir que todas tinham reações traumáticas semelhantes. Em consonância com os resultados de Schneider et al. (2012), não parecia importar se os parceiros haviam praticado apenas CSC virtuais ou interações na vida real; a essência da traição (negação, engano e duplicidade) e seus efeitos continuavam evidentes. O resultado mais importante foi que todas as mulheres descreveram diversas consequências negativas ligadas ao TT. A descoberta, por essas mulheres, das mentiras ocultas e persistentes provocou a primeira fratura na relação íntima, obrigando-as a começar a investigar e a bancar as detetives (Gottman, 2011; Gottman et al., 2013).
As experiências desconcertantes de terem sido enganadas, manipuladas, coagidas e iludidas pelos parceiros, que buscavam preservar seus comportamentos secretos, fizeram as mulheres afetadas se sentirem obrigadas a um trabalho de detetive para restabelecer a segurança relacional e se preparar para prováveis repetições futuras. Esse resultado está de acordo com outros estudos, de Carnes (2018), Carnes e O'Connor (2016) e Johnson et al. (2001), que chegaram a constatações semelhantes. Segundo esses trabalhos, tais comportamentos decorrem do trauma de apego ou do dano provocado pela traição ou pela infidelidade nas relações, e são movidos por uma necessidade de proteção.
O constrangimento social, a vergonha e o isolamento vividos pelas parceiras deste estudo corroboram os resultados de outros estudos (Carnes, 2018; Manning e Watson, 2008; Porges, 2018; Skinner, 2020). Segundo Manning e Watson (2008), “68% das mulheres viveram algum tipo de isolamento após a revelação ou a descoberta de comportamentos sexuais problemáticos em seu casamento” (p. 242). No entanto, os resultados do presente estudo mostraram que, por causa dos CSC dos parceiros, 100% das parceiras tiveram sentimentos de humilhação, constrangimento ou solidão. As diferenças aparentes nas taxas de ocorrência chamam a atenção para a necessidade de mais pesquisas nessa área, que, como observa Futrell (2021), recebeu pouquíssima atenção acadêmica.
O exame cuidadoso dos dados coletados revelou que, imediatamente após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC do parceiro, todas as mulheres do presente estudo, 100% delas, se sentiram sozinhas e com medo do estigma social. Este estudo confirma as constatações de Vanzant (2015) de que, quando as pessoas acham que o amor está ausente, o medo, uma resposta natural, toma conta. Vanzant acrescenta que a falta de amor comunica uma sensação de perigo na vida, o que leva a mente a criar imagens de isolamento e solidão. As participantes do presente estudo aparentemente deixaram de pedir ajuda por medo de serem julgadas e envergonhadas pelos outros. Em vez disso, sentiram-se obrigadas a permanecer no isolamento e no silêncio. Isso também está de acordo com o que Skinner (2020, p. 124) relatou sobre as parcerias de pessoas ditas “dependentes de sexo”:
A vergonha é um de seus maiores medos; elas temem que os outros as julguem por não terem agido antes e se perguntam como serão vistas se revelarem o que está acontecendo em seus casamentos. A vergonha e o constrangimento muitas vezes impedem essas pessoas de buscar o apoio de que precisam.
Os resultados do presente estudo indicam que, tivessem decidido permanecer na relação ou terminá-la, as mulheres traídas se sentiam perdidas e impotentes para entender por que se sentiam presas e incapazes de seguir em frente com a vida. Isso confirma a pesquisa de Gottman (2011), segundo a qual não está claro por que as pessoas que vivem um TT escolhem não terminar a relação ou não seguir adiante. Apesar da crença difundida de que o trauma acaba quando a relação acaba, pesquisas anteriores indicam que terminar a relação não faz a dor desaparecer (Gottman, 2011; Hall, 2016). Os resultados do presente estudo, que mostraram que as mulheres que haviam deixado suas relações de compromisso continuavam se sentindo presas, tristes e inseguras, estão de acordo com isso. A AS e os CSC não representam apenas incerteza, dor e vergonha: também podem atrair críticas e preocupação de observadores mal informados e críticos, o que pode agravar os problemas relacionais. Segundo Hall (2016), as mulheres afetadas pelo pensamento retrospectivo podem sentir mais culpa, inadequação e dúvida sobre si mesmas. Isso ocorre sobretudo porque não conseguiram perceber antes os comportamentos do parceiro.
O propósito deste estudo, de examinar todas as relações para além da relação íntima imediata, parece se afastar das pesquisas anteriores. Algumas participantes da presente investigação ressaltaram que estar separadas não significava poder seguir com a vida nem estar livres do sofrimento. Em vez disso, muitas expressaram a sensação de estar emocionalmente presas e de enfrentar dificuldades e preocupações adicionais. A separação também pode ser difícil por outros fatores, como ter filhos e depender financeira ou religiosamente. Esses resultados estão de acordo com a pesquisa de Black e Tripodi (2012), que constatou que terminar uma relação gerava dificuldades e experiências desagradáveis adicionais para as parcerias íntimas.
Além das dificuldades nas relações amorosas, os resultados do presente estudo indicam que a vergonha, o remorso ou uma falta geral de confiança podem prejudicar outras relações, com amizades, família, colegas de trabalho e comunidades de fé. Esses resultados estão de acordo com os de Carnes (2011), que constatou que muitos tipos diferentes de relações sociais, inclusive com amizades, família e filhos, são gravemente perturbados ou até rompidos quando os CSC de um parceiro vêm à tona. Da mesma forma, Cohn (2014, p. 77) relatou que os vínculos entre a pessoa dependente de sexo e os outros se rompem, em grande parte, por causa da “vergonha e do remorso… tanto de quem sofre quanto dos outros”. Os resultados do presente estudo sustentam essas pesquisas anteriores (Black e Tripodi, 2012; Carnes, 2011) e demonstram que, para as parceiras afetadas, a separação pode causar um novo trauma e desafios novos e inesperados. Os presentes resultados, porém, são também singulares por mostrar que o TT e as perguntas não resolvidas sobre o “porquê”, o “como” e o “quê” específico dos comportamentos compulsivos persistem após a separação, contribuindo para as reações traumáticas graves e contínuas e para o luto que as parceiras vivem.
Uma parcela significativa das parceiras (83%) afirmou desconhecer a verdadeira identidade e as reais capacidades dos parceiros, e ficar perplexa com elas, depois de descobrir a extensão de suas traições e enganos. Os resultados do presente estudo foram especialmente significativos porque as mulheres descobriram facetas novas e surpreendentes da identidade dos parceiros. O que elas percebiam como comportamento incomum e o caráter novo, inimaginável, de um homem que não conheciam foram fatores importantes do choque e da incredulidade. De forma semelhante ao que Weiss (2020) relatou, todas as parceiras do presente estudo afirmaram que as mentiras e o engano lhes causaram um sofrimento considerável. O engano ligado aos CSC, e em particular sua duração, tem o poder de derrubar toda a confiança relacional e de desmascarar um parceiro que, de repente e de forma inequívoca, se transformou num completo estranho (Seyed Aghamiri, 2023a, 2023b). Notavelmente, nenhum estudo revisado por pares abordou até hoje a confusão surpreendente, e mesmo o choque, das parceiras diante de seu aparente desconhecimento das identidades ocultas dos parceiros, nem as ligações correspondentes com o trauma vivido. Ainda assim, esse tipo de vida dupla ou de duplicidade pode ser um traço frequente da AS e dos CSC, o que torna desconcertante e angustiante, para as parceiras íntimas afetadas, compreendê-los ou aceitá-los quando são revelados.
Em consonância com pesquisas anteriores (Atwood e Schwartz, 2002; Carnes, 2011; Kibby e Costello, 2001; Zitzman e Butler, 2009), os resultados do presente estudo mostram que o engano associado aos CSC contribui para a erosão da confiança relacional, porque as pessoas podem apresentar uma persona exagerada ou falsa quando se envolvem em “comportamentos de atuação” sexual. Uma das maneiras pelas quais os CSC, e a natureza enganosa a eles associada, se beneficiaram da internet é a capacidade de criar novas identidades ou acentuar traços de identidades existentes (Carnes, 2011; Kibby e Costello, 2001). Da mesma forma, Carnes (2011) afirma que as pessoas podem usar a tecnologia digital para levar outras, por meio do engano, a iniciar encontros sexuais ou a considerar uma relação eletrônica, ao mesmo tempo que ocultam sua identidade ou apresentam uma identidade falsa. Assim, constatou-se que o engano associado à AS e aos CSC tem um impacto substancial na perda da confiança relacional e na mudança da percepção geral que as parceiras afetadas têm de seus homens (Zitzman e Butler, 2009).
Em consonância com outras pesquisas, este estudo também constatou que o TT ligado à AS ou aos CSC contribui, nas parcerias, para processos de luto complexos, em razão das diversas perdas associadas (Black, 2019; Skinner, 2015; Weiss, 2020, 2021). Embora as mulheres afetadas deste estudo tenham vivido seu próprio sofrimento e suas próprias perdas, todas tinham várias coisas em comum, expressando o luto pela perda:
As comunidades de fé e o público em geral parecem continuar a ter opiniões fortes, divergentes e contraditórias sobre quem é responsável pelos CSC dos homens (Barna Group, 2016; Edger, 2010; Laaser e Adams, 2019). Várias mulheres afetadas deste estudo reconheceram ter ouvido opiniões estreitas e equivocadas de membros de comunidades de fé (Seyed Aghamiri e Luetz, 2021; Weiss, 2019). Crucialmente, as participantes do estudo indicaram repetidas vezes que eram rotineiramente acusadas de contribuir para a AS ou os CSC dos parceiros, ou até de agravá-los, por negligenciarem as responsabilidades esperadas de seu papel de gênero (isto é, satisfazer sexualmente o parceiro). Essas acusações podem estar ligadas a roteiros culturais, sexuais e religiosos persistentes e a normas de gênero hierárquicas que sustentam tais atitudes acusatórias (Laaser e Adams, 2019; Hackett et al., 2016; Hastings e Lucero Jones, 2023; Laaser e Adams, 2019; Neves, 2021).
Com base nos resultados do presente estudo, as parceiras afetadas pelo TT tinham múltiplas relações rompidas, inclusive a relação consigo mesmas, o que provavelmente ampliou seus sentimentos de desolação e solidão e levou a uma propensão maior à automutilação ou à preocupação com a ideação suicida. A taxa surpreendentemente alta de automutilação e de pensamentos ou tentativas de suicídio entre as parceiras pode estar relacionada a sentimentos de inadequação e de “não ser suficiente”, a relações rompidas fora da relação íntima, à autoculpabilização ou à culpa atribuída pelos outros, ao tabu que cerca a AS e os CSC, ao constrangimento social, à perda da confiança relacional, ao choque diante da traição de um parceiro de confiança, à impossibilidade de escapar da dor imposta, à vergonha e ao isolamento, à perda de controle e à incapacidade de detectar antes os enganos dos parceiros, elementos que podem estar ligados a uma fixação intensificada nesses pensamentos e condutas.
Notavelmente, as parceiras de homens que têm CSC receberam pouca atenção na literatura sobre temas como a suicidalidade e os comportamentos de automutilação. Os resultados deste estudo sugerem que algumas mulheres se automutilam para desviar a atenção, aliviar o sofrimento ou se vingar de si mesmas por se sentirem traídas ou culpadas. Apesar da gravidade do tema, nenhuma pesquisa aprofundada revisada por pares foi publicada especificamente sobre os comportamentos de automutilação das parceiras após saberem da AS ou dos CSC do parceiro. Do mesmo modo, Caron et al. (2017) constataram a escassez de estudos sobre a relação entre o apego amoroso e a automutilação; no entanto, os estudos sobre automutilação em geral indicam que as mulheres são mais afetadas que os homens (Motz, 2020). Como forma de retaliação ou como mecanismo de enfrentamento, as pessoas parceiras afetadas se ferem de diversas maneiras (bebedeiras, uso de drogas, comer em excesso ou de menos, compras compulsivas ou atuações sexuais), em geral na fase traumática inicial da descoberta (Hall, 2016).
Os resultados do estudo também indicam que a auto-objetificação compulsiva e as comparações com outras mulheres eram comuns entre as parceiras. Suas relações com outras pessoas do mesmo sexo às vezes se tornavam pouco saudáveis ou até baseadas no medo. As experiências relatadas sugeriam que essas repercussões eram desagradáveis, ligadas ao trauma e difíceis de superar. Além disso, este estudo sustenta as pesquisas de Schneider (2003), Schneider et al. (2012) e Skinner (2017), que constataram que as pessoas traídas muitas vezes se comparam com outras pessoas ou imagens, o que só aprofunda seus sentimentos de desânimo ou desesperança. Segundo Skinner (2017), esse comportamento é uma resposta ao trauma, quando as mulheres se voltam para dentro e se responsabilizam pelos atos dos parceiros: 74% das pessoas traídas faziam esse tipo de comparação e se viam de forma menos positiva. No entanto, os resultados do presente estudo foram singulares porque todas as parceiras (100%) relataram efeitos relacionais adversos após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC do parceiro.
Em resumo, os resultados estão de acordo com as pesquisas anteriores e as ultrapassam. Ainda assim, vários resultados apontam lacunas persistentes no conhecimento sobre as consequências relacionais nas mulheres afetadas, como lidar com o choque e o luto vividos diante da tomada de consciência da vida dupla ou da identidade oculta do parceiro, a alta prevalência de automutilação e de pensamentos ou tentativas de suicídio, a comparação compulsiva com outras mulheres e as questões de auto-objetificação, para citar apenas algumas.
O presente estudo constatou que a descoberta ou revelação de AS ou CSC num parceiro íntimo frequentemente provoca nas parceiras emoções associadas ao TT, como melancolia, ansiedade, choque, baixa autoestima, vergonha social, isolamento, dúvida sobre si e outras reações traumáticas. Além disso, as outras relações dessas mulheres eram frequentemente afetadas de forma negativa, para além da relação íntima. Todas as participantes expressaram fraturas intra e interpessoais, instabilidade emocional, desesperança, desolação e choque. Muitas das mulheres afetadas oscilavam entre permanecer na relação, correndo o risco de mais incerteza e de desfechos potencialmente desfavoráveis, e terminar a relação íntima.
Dependendo do valor que atribuem ao perdão ou de sua adesão à ideia de uma aliança relacional e de seus objetivos, algumas mulheres podem escolher permanecer na relação. Ter filhos apareceu como um motivo para ficar, muitas vezes com um contentamento comprometido. Enquanto lutam para aceitar a relação como ela é, a verdade exposta as obriga a abrir mão das ideias que faziam dela. As revelações e o parceiro são fontes de gatilhos e de lembretes de um passado duvidoso e de um presente perturbador. As que permaneceram na relação pareciam forçadas a abrir mão de seu orgulho, de sua dignidade e de seu amor-próprio para viver no terror constante do que o parceiro era capaz de fazer e da probabilidade de ele voltar no futuro aos mesmos comportamentos compulsivos.
Notavelmente, as mulheres afetadas expressaram que sofriam mais com as mentiras e o engano do parceiro íntimo do que com os próprios CSC; sentiam que sua confiança tinha sido traída em várias frentes ao saberem que a relação havia sido marcada por mentiras e enganos persistentes, muitas vezes sustentados por muitos anos. Uma sensação de desesperança, de solidão e de desvantagem perante a sociedade acompanhava o luto e a perplexidade vividos pela maioria das mulheres afetadas, que não receberam o apoio ou a assistência adequados. Suas narrativas compartilhadas sobre a aparente banalização, normalização ou falta de análise crítica da pornografia e das práticas sexuais explícitas na sociedade, assim como sobre as consequências mais profundas dessas construções sociais frequentemente negligenciadas, transmitiam com força experiências emocionais e traumáticas complexas.
As participantes que permaneceram na relação após a descoberta ou revelação relataram a sensação de não viver uma verdadeira intimidade relacional, por causa dos comportamentos ocultos anteriores do companheiro e do engano prolongado. Em contrapartida, as que decidiram se separar ainda lidavam com perda e luto, uma infinidade de perguntas sem resposta e percepções da traição em várias camadas. As mulheres afetadas que terminaram a relação íntima também tiveram de enfrentar uma série de outros desafios da vida que nunca tinham previsto como mulheres solteiras.
Após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC, as experiências dessas mulheres revelaram uma divisão nítida entre a “vida antes” e a “vida depois”. A vida depois da descoberta ou revelação trouxe-lhes uma clara perda de identidade, múltiplos vínculos intra e interpessoais danificados e uma mudança súbita da realidade que se somou ao trauma e ao choque. A humilhação de saber da traição era agravada pela vergonha de se perguntar o que mais poderia ter acontecido sem que soubessem, ou o que havia de errado com elas por não terem percebido antes esses comportamentos, o que exacerbava a culpa e o constrangimento aparentes.
As traições eram ao mesmo tempo chocantes e desconcertantes, levando-as a perguntar “por que”, “o que”, “como” e “quando” esses atos tinham ocorrido. Por isso, todas as mulheres sentiram que precisavam investigar e agir como detetives para descobrir toda a verdade, porque as revelações dos parceiros raramente ofereciam uma história coerente e confiável. Buscar a verdade parecia uma tentativa frenética de controlar, limitar ou diminuir a dor ou o sofrimento. Mas cada nova informação que surgia resultava em mais choque e retraumatização. É significativo que, segundo os relatos das mulheres, nenhum dos parceiros deste estudo fez uma revelação inicial voluntária; todas as mulheres traídas descobriram por conta própria elementos da AS ou dos CSC do parceiro. Por isso, todas relataram ter passado por formas de luto e sofrimento ligadas ao TT. Segundo Viktor Frankl (1985), “o sofrimento, em si mesmo, não tem sentido; damos sentido ao nosso sofrimento pela forma como respondemos a ele… Forças fora do seu controle podem tirar tudo o que você possui” (p. x). As mulheres do presente estudo descreveram suas experiências relacionais vividas como um “inferno pessoal” (P 01) e disseram que se “sentiram perdidas… uma casca… destruídas” (P 02), que se sentiram “sem controle” (P 03), que acharam aquele um período “devastador” (P 05) e “traumático” (P 04), no qual estavam “sofrendo… [e] mergulharam no caos” (P 06). Isso correspondeu a uma “experiência incrivelmente traumática… horrível” (P 07), em que se “sentiram mortas” (P 08), “chocadas… despedaçadas” (P 09), “quiseram morrer” (P 11) e se sentiram “sujas” (P 11), “com raiva” (P 12) e “suicidas” (P 13).
Dadas as características demográficas variadas e os diferentes CSC em que os homens haviam se envolvido, foi revelador descobrir que todas as mulheres apresentavam reações traumáticas muito semelhantes. A natureza da traição (negação, engano e duplicidade) e suas repercussões (devastação) pareciam semelhantes, quer o parceiro tivesse apenas praticado CSC on-line, quer tivesse avançado para encontros físicos reais. Acima de tudo, as mulheres descreveram a dor e o luto que viveram como intoleráveis. O sofrimento “preenche completamente a alma humana e a mente consciente, não importa se o sofrimento é grande ou pequeno: ele se comporta como um gás que, bombeado para dentro de uma câmara, a preenche, seja ela grande ou pequena” (Frankl, 2014, p. 42). As narrativas expressas pelas mulheres afetadas sugerem que a AS e os CSC são alimentados pela desonestidade e constituem um fator importante de trauma, dor, luto e múltiplas relações desgastadas.
A perda de um vínculo íntimo entre as mulheres afetadas e sua figura de apego (o parceiro) revelou-se um fator importante na diminuição de seu senso de segurança e de realidade. Por não conseguirem tomar uma decisão definitiva, todas as parceiras expressaram a sensação de estar presas, como num pêndulo que oscila em direções opostas. Elas desejavam e temiam o apego ao mesmo tempo. Ao saberem a verdade sobre o comportamento do parceiro, todas as mulheres afetadas sofreram perdas significativas e múltiplas: a percepção de si como amante e parceira, as qualidades e os traços do companheiro que acreditavam conhecer, seu passado, suas lembranças e sua realidade, o futuro que imaginavam, sua fé e sua confiança em si mesmas e nos outros, sua liberdade sexual e sua relação consigo mesmas e com os outros. Crucialmente, enquanto se debatiam com a escolha entre permanecer com o parceiro ou se separar, tinham de atravessar uma infinidade de perdas, sentindo-se ansiosas, inseguras e sobrecarregadas pela dimensão de sua realidade. Esse resultado é significativo porque lança luz sobre a complexidade e a profundidade dos processos de luto e de dor provocados pela AS e pelos CSC.
É significativo que este estudo seja singular por ter revelado uma alta prevalência de automutilação, desejo de morte e pensamentos suicidas entre as parceiras. Pelo menos oito fatores contribuíram para a ocorrência de automutilação e de pensamentos suicidas: (1) sentir culpa por não ter visto ou interrompido antes as transgressões; (2) sentir-se indigna e uma “tola”; (3) querer escapar da dor insuportável da traição; (4) usar a automutilação como forma de recuperar o controle e a capacidade de agir diante do desamparo frente ao que tinha acontecido; (5) como meio de chamar a atenção; (6) como mecanismo de expressar vingança e retaliação; (7) uma reação traumática; e (8) acreditar que a vida não tem propósito e sentir-se abandonada, sozinha e sem esperança. Além disso, a alta taxa de automutilação e de preocupação com a ideação suicida entre as participantes deste estudo ressalta a necessidade de mais pesquisas para examinar plenamente esse tema pouco explorado.
Após o TT, as mulheres afetadas apresentavam tendências inconscientes à auto-objetificação ou à comparação compulsiva com outras mulheres, o que parecia ser um mecanismo de enfrentamento e uma reação traumática. Para algumas, isso parecia funcionar como uma estratégia desadaptativa que apontava seus supostos defeitos e explicava por que os parceiros tinham precisado buscar prazer em outro lugar. Essa obsessão desconfortável e inconsciente, ligada ao TT, implicava que as mulheres afetadas eram muitas vezes desencadeadas por outras mulheres. Da mesma forma, demonstrava um esforço para racionalizar as ações irracionais dos parceiros e uma tentativa de dar respostas convincentes às próprias perguntas incessantes.
Todas as mulheres afetadas perderam a confiança na própria competência e no próprio valor. Pareciam achar isso extremamente angustiante, o que complicava ainda mais suas perspectivas sobre a realidade e sua percepção da própria eficácia para tomar decisões. Uma intensa decepção consigo mesmas e uma falta de autoperdão transpareciam nas narrativas compartilhadas, já que o engano contínuo passara despercebido por longos períodos. A incapacidade de confiar em si mesmas e a tendência à autoculpabilização afetavam todas as outras relações, o que ressaltava ainda mais a necessidade de cuidarem do próprio processo de cura e de luto. Todas as mulheres afetadas expressaram decepção e raiva de si mesmas por não terem sabido antes dos CSC. No entanto, a AS e os CSC parecem difíceis de identificar a menos que as parcerias tenham informação e recursos para reconhecer seus sinais, já que se ocultam com facilidade. A AS e os CSC se distinguem de outras formas de adicção, como o alcoolismo, que pode ser reconhecido pelo odor; a dependência de substâncias, que pode ser identificada por comportamentos característicos; e o jogo, que pode ser descoberto pela falta de dinheiro. Além disso, a AS e os CSC parecem ser uma forma de adicção singular, fácil de ocultar e indetectável em sua apresentação, isto é, até que outras pessoas percebam os sinais. Dito de outro modo, talvez porque pessoas honestas não procuram nem suspeitam ativamente de desonestidade, a AS e os CSC (entrelaçados com ocultação e engano) são difíceis de identificar. Segundo os relatos de todas as mulheres afetadas, elas desconheciam esses comportamentos e compulsões até estarem diretamente envolvidas e terem de vivê-los, como se estivessem presas numa teia de aranha invisível.
A maioria das mulheres relatou danos graves e aparentemente irreversíveis à sua identidade espiritual após saberem da AS ou dos CSC do parceiro. A pergunta “por quê” consumiu todas as participantes afetadas, que relataram sentir-se espiritualmente desligadas de suas práticas espirituais e de suas relações com o Divino ou em direção a ele. Todas as mulheres afetadas (100%) relataram os mesmos efeitos prejudiciais em suas relações espirituais ou religiosas, qualquer que fosse sua orientação espiritual ou religiosa. Além disso, a maioria das parceiras afetadas acreditava que Deus ou suas comunidades espirituais as haviam abandonado e, em geral, não lhes davam apoio.
É importante notar que, depois de saber a verdade, as mulheres afetadas também tiveram de suportar a dor persistente de aceitar o caráter oculto, desconcertante e irreconhecível do parceiro. Sentiram-se forçadas a construir uma nova realidade a partir de suas experiências depois de saberem a verdade sobre o parceiro e a relação, o que significava que o mundo que antes conheciam como previsível e seguro tinha desaparecido. Ainda assim, tentar reconstruir uma nova identidade para o parceiro, de repente desconhecido, e dar sentido aos acontecimentos as deixava ainda mais desorientadas e perplexas. Esse resultado aponta uma grande lacuna na literatura que ainda precisa ser preenchida.
No início, todas as mulheres afetadas pelo TT tiveram a sensação de estar presas num pêndulo emocional que oscilava entre o pavor e o desejo de se sentir ligadas ao parceiro, o que as impedia de tomar decisões firmes sobre a relação. Além disso, várias mulheres expressaram que ainda carregavam fardos pesados e se sentiam despedaçadas em consequência de relações danificadas ou perdidas. Suas descrições eloquentes e aprofundadas elucidaram o núcleo e o significado da experiência, sugerindo que a dor de algumas dessas mulheres talvez nunca cicatrize por completo. Por fim, as narrativas compartilhadas pelas mulheres afetadas revelaram que o pesar que viviam era uma forma singular de luto: diferentemente do luto tradicional decorrente da perda de um ente querido, as mulheres afetadas sofrem em silêncio, sem o apoio de outras pessoas que se compadeçam e demonstrem empatia sem julgar. Vários testemunhos recorrentes das mulheres afetadas ecoavam os seguintes sentimentos:
Não serei a pessoa que eu era. Não voltarei ao normal. Não vou seguir em frente e esquecer este tempo. E, se eu conseguisse fazer tudo isso, não seria de certo modo trágico? Porque, ah, como houve dor e miséria neste caminho, assim como há nos caminhos de todas as pessoas, entre nós, que enfrentam mudanças que não escolheram. (Berger, 2012, p. 9)
A essência das experiências relacionais vividas pelas parceiras após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC dos parceiros foi a perda de uma parte significativa de si mesmas, incluindo sua identidade e outras relações, que talvez possam ou não recuperar no futuro. A unanimidade das narrativas ecoava o desejo dessas mulheres de que a sociedade pare de banalizar os CSC e passe a tratá-los como um verdadeiro e grave destruidor de relacionamentos, com efeitos sociais de longo alcance. A AS parece ser uma espécie de doença terrível que atinge a pessoa parceira desavisada com mais força do que quem pratica os CSC (Seyed Aghamiri e Luetz, 2023).
Este estudo contribui para a literatura ao abordar lacunas de conhecimento relevantes para grupos religiosos, prestadores de cuidados de saúde e indivíduos, a respeito das experiências relacionais das parceiras afetadas pela AS ou pelos CSC dos parceiros. É uma das poucas investigações centradas em mulheres australianas e evidencia as dificuldades emocionais que elas enfrentam, como sentimentos de isolamento e constrangimento social. A pesquisa ressalta a necessidade de apoio em grupo entre essas mulheres e revela riscos aumentados de automutilação e de pensamentos suicidas após a revelação. Os resultados destacam benefícios potenciais para as mulheres afetadas e favorecem uma conscientização social mais ampla, incentivando os homens envolvidos nesses comportamentos a compreender o impacto deles nas relações. O estudo defende o desenvolvimento de intervenções de rastreamento e de aconselhamento que priorizem a segurança e a saúde das mulheres, o que poderia aprimorar tanto a compreensão teórica quanto a aplicação prática nessa área. Por exemplo, Griffin-Shelley (2018) cita o choque de realidade, a redução da vergonha e a responsabilização entre as vantagens da psicoterapia e da terapia de grupo. Além disso, ter acesso a apoio social e estar num ambiente de grupo pode promover a intimidade e a maturidade e reduzir a sensação de solidão (Dahlen et al., 2008; Tirone et al., 2021). Ademais, a TCC e a atenção plena (mindfulness) mostraram-se úteis para tratar a AS e os CSC, tanto em grupo quanto individualmente (Birchard, 2018; Chandiramani, 2018; Van Gordon et al., 2016). Ainda assim, continua havendo escassez de pesquisas sobre as parceiras afetadas e suas demandas específicas de terapia e de cura.
Estratégias eficazes para apoiar as mulheres afetadas pela AS ou pelos CSC envolvem respeitar sua dignidade, abster-se de criticar suas escolhas e oferecer apoio contínuo. Reconhecer que as relações íntimas ou as parcerias não causam a AS ou os CSC pode fortalecer as pessoas afetadas e melhorar as perspectivas de intervenções direcionadas. Os resultados do estudo também convidam as igrejas e as comunidades de fé a reavaliar suas práticas para evitar retraumatizar as mulheres. As organizações religiosas deveriam criar espaços seguros e livres de julgamento, que validem as experiências das mulheres e ofereçam assistência adequada ou encaminhamento a especialistas em saúde. A Tabela 3 apresenta algumas oportunidades para que terapeutas usem esses resultados para desenvolver intervenções mais eficazes.
Tabela 3 — Oportunidades para terapeutas desenvolverem intervenções eficazes
Oportunidades e benefícios potenciais para a profissão de aconselhamento e para as pessoas atendidas.
De modo geral, esta pesquisa tem potencial não apenas para aprofundar a compreensão dentro da profissão de aconselhamento, mas também para melhorar os resultados para as pessoas atendidas, oferecendo apoio direcionado e intervenções sob medida que deem conta da complexidade da AS, dos CSC e do TT nas relações.
Esta pesquisa tem algumas limitações e aponta oportunidades para pesquisas futuras. O tamanho relativamente pequeno da amostra, de 27 pessoas (embora considerado grande para a pesquisa fenomenológica), impõe algumas limitações à generalização. A amostragem não aleatória e em bola de neve pode introduzir vieses e afetar a diversidade da amostra. O foco em parceiras australianas implica limitações de alcance e restringe a aplicabilidade do estudo a outros contextos. Mais especificamente, o estudo incluiu apenas mulheres australianas que viviam na região metropolitana de Brisbane. Além disso, a dependência de dados autorrelatados em entrevistas pode gerar viés de memória. A triangulação pelas percepções das pessoas terapeutas pode refletir vieses profissionais, em vez de validar objetivamente as experiências das mulheres. Por fim, a abordagem fenomenológica pode deixar de lado fatores sistêmicos mais amplos que influenciam o impacto da AS e dos CSC nas relações íntimas, como a onipresença de materiais pornográficos e a facilidade com que adultos e menores podem acessá-los. Outra limitação é que a pesquisa só solicitou dados a pessoas em relações heterossexuais. Além disso, a perspectiva de homens afetados pelos CSC de suas parceiras não foi levada em conta. Por fim, os grupos do estudo não incluíram pessoas indígenas australianas, o que abre a possibilidade de estender esta pesquisa a outras populações, inclusive para investigar outras visões de mundo e outras formas de espiritualidade. Por isso, várias perspectivas continuam pouco exploradas e são vistas como terreno fértil para estudos futuros. Pessoas da academia, terapeutas, profissionais de supervisão e comunidades religiosas são apenas alguns dos grupos interessados que esta pesquisa pode ajudar, oferecendo informações mais específicas, percepções singulares para o aconselhamento e apoio direcionado durante a cura e a recuperação.
No fim das contas, o TT produziu fundamentalmente uma ruptura crítica na confiança inter e intrapessoal, que afetou profundamente as relações, as interações e os vínculos. A Figura 1 representa as dimensões relacionais das experiências vividas pelas mulheres após a descoberta ou revelação da AS ou dos CSC dos parceiros. Em última análise, o TT afetou negativamente todas as participantes da pesquisa, despedaçando suas relações, gerando dúvidas e minando sua autoeficácia. Todas as mulheres afetadas passaram a fazer perguntas como: “Quem é esse estranho que eu considerava meu parceiro?”, “Quem somos nós juntos?”, “Quem sou eu, e como carrego este segredo?”, “Nossa relação foi toda uma mentira?”, “O que os outros pensariam de mim, de nós?”, “Há algo de verdadeiro nas minhas outras relações?”, “A quem contar isso, e como?” e “Em quem posso confiar, e como?”. Essas e outras perguntas semelhantes revelam até que ponto o TT ligado à AS ou aos CSC pode enfraquecer, corroer ou danificar a confiança relacional em si mesma, nos outros, em Deus ou em um poder superior e nas relações íntimas.

A participante 9 forneceu a fotografia apresentada como Figura 2. Ela autorizou a publicação da imagem para mostrar que, mesmo depois de anos de terapia relacional intensiva, ainda se sente devastada e tem um grande buraco no coração. A representação de “ruptura” e de “cura” na imagem reflete sua experiência pessoal e sua percepção da cura e da recuperação depois da confissão completa do marido, de seu reconhecimento dos fatos e de um período longo e contínuo de reconciliação na relação.
[Figura 2 (Ilustração “Ruptura e cura”, de FP 09) — obra de uma pessoa participante, não reproduzida aqui.]
Complexe Systémique: a reter
O estudo desloca o olhar: o que fere primeiro não é o comportamento sexual, mas a mentira que o cerca e a descoberta a conta-gotas. O “trabalho de detetive” pode então ser lido como uma tentativa de restaurar a segurança do apego, e não como um ciúme a corrigir, e a vergonha se espalha por todo o sistema: família, amizades, igreja. Para a clínica, vale reter que não se deve atribuir à parceira a causa dos comportamentos, que é preciso nomear o luto das certezas, rastrear sistematicamente automutilação e ideação suicida e desconfiar de exigências precoces de perdão. A leitura pede, porém, prudência: doze mulheres recrutadas por um centro de aconselhamento e por grupos de doze passos, porcentagens de 100% num grupo tão pequeno, terapeutas em parte pastores na triangulação e um enquadramento de “adicção sexual” que continua em debate. Homens, casais do mesmo sexo e pessoas indígenas estão ausentes. Para ler junto com o artigo sobre a decisão de permanecer juntos após a infidelidade e com o artigo sobre o tratamento da sexualidade traumatizada.
Notas do original
1 https://icd.who.int/browse/2024-01/mms/en#1630268048.
2 A compartimentalização é um mecanismo de defesa psicológico que o cérebro usa para manter afastadas informações indesejadas (Clifford et al., 2019).
Agradecimentos. A equipe de pesquisa agradece a todas as pessoas participantes por terem compartilhado generosamente sua experiência e seus pontos de vista. Um agradecimento especial à participante 09, que tirou e compartilhou a fotografia apresentada como figura 2.
Financiamento. O Alphacrucis University College financiou a transcrição das entrevistas. A taxa de publicação em acesso aberto deste artigo foi custeada pela Universidade da Sunshine Coast por meio do Council of Australian University Librarians (CAUL).
Conflito de interesses. A equipe de pesquisa declara não ter conflitos de interesses relevantes para o conteúdo deste artigo.
Aprovação ética. O estudo foi conduzido segundo as diretrizes do National Statement on Ethical Conduct in Human Research (2007), elaborado conjuntamente pelo National Health and Medical Research Council (NHMRC), pelo Australian Research Council (ARC) e pela Universities Australia, e publicado pelo governo australiano (2007) https://www.nhmrc.gov.au/about-us/publications/national-statement-ethical-conduct-human-research-2007-updated-2018 (acesso em 19 de maio de 2023). O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa com seres humanos da Alphacrucis (HREC n.º EC00466) em 31 de agosto de 2020 (grupo 1: parceiras) e em 1º de junho de 2021 (grupo 2: terapeutas).
Consentimento informado. O consentimento informado foi obtido de cada uma das pessoas participantes do estudo. Como o National Statement on Ethical Conduct in Human Research 2007 (atualizado em 2018) foi revogado e substituído em 1º de janeiro de 2024, o estudo passou a aplicar as orientações éticas do National Statement de 2023. https://www.nhmrc.gov.au/about-us/publications/national-statement-ethical-conduct-human-research-2023 (último acesso em 19 de outubro de 2024).
Consentimento para a publicação da imagem. A equipe de pesquisa afirma que a participante (FP 09) deu seu consentimento informado para a publicação da figura 2.
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Tradução não oficial em português de Comportamentos sexuais compulsivos e consequências relacionais: um estudo fenomenológico dos impactos nas parceiras íntimas, de Fakri Seyed Aghamiri, Johannes M. Luetz e Karenne Hills, Counselling and Psychotherapy Research, vol. 25, no 1, article e12850 (2025), doi: 10.1002/capr.12850, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Compulsive sexual behaviours and relational consequences: A phenomenological study on intimate female partner impacts”, publicado em Counselling and Psychotherapy Research (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Seyed Aghamiri, F., Luetz, J. M., et Hills, K. (2025). Comportamentos sexuais compulsivos e consequências relacionais: um estudo fenomenológico dos impactos nas parceiras íntimas (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/comportamentos-sexuais-compulsivos-e-consequencias-relacionais (Obra original publicada em 2025 em Counselling and Psychotherapy Research, 25(1), e12850 (2025); republicada em 2025 por Counselling and Psychotherapy Research, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/capr.12850)
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