Red Sistémica · Violência
Camila foi abusada sexualmente pelo pai dos seis aos dezesseis anos e, depois, desqualificada por toda a família como “aquela louca mimada em quem não se podia confiar”. Neste capítulo extraído de Las formas del abuso, Juan Luis Linares acompanha passo a passo uma terapia familiar que primeiro consolida a família que Camila criou e, em seguida, convoca seus pais e seus irmãos para uma assembleia de esclarecimento. Um relato clínico em que os irmãos assumem o lugar dos pais no trabalho de reparação: “essa é a lógica do ecossistema”.
Nota da redação
Capítulo 6, “Um caso ilustrativo: abuso e terapia familiar”, do livro recém-publicado na Espanha Las formas del abuso. La violencia física y psíquica en la familia y fuera de ella, de Juan Luis Linares, Ediciones Paidós Ibérica (2006). O capítulo anterior, o capítulo 5, “O que fazer diante do maltrato psicológico”, foi publicado no número especial 94/95 de Perspectivas Sistémicas (2007).
“É mais suportável sentir-se filha de pais que a maltrataram por causa de seus próprios problemas, afinal humanos, do que de monstros incompreensivelmente satânicos.”
Juan Luis Linares, Las formas del abuso
Camila, segunda filha de Carlos e Carolina, foi submetida a abusos sexuais pelo pai, sem interrupção, entre os seis e os dezesseis anos. Trata-se da modalidade mais grave de abuso sexual, tanto pela precocidade do início e pela duração quanto pela intensidade, já que incluía relações genitais completas. O dano psicológico foi, portanto, muito importante, a partir de uma triangulação complementar na qual Camila foi enganosamente promovida à condição de “pseudocônjuge”.
O maltrato psicológico foi, assim, triangulador, e incluiu uma série de componentes que distorceram a vida de Camila durante um período longo e decisivo. Desde o início, ela vivenciou com uma estranha ambivalência a lisonja e a sedução com que o pai a tratava, pois a relação privilegiada que isso implicava, em certos aspectos, não compensava a pesada ameaça que a acompanhava (“você nunca deve contar isso a ninguém, sob pena de consequências muito graves para você e para toda a família”), nem a perda de um acesso fluido à mãe, Carolina, que, sem saber conscientemente o que acontecia, pressentia em Camila mais uma rival do que uma filha. Além disso, a relação com os irmãos também foi afetada negativamente, pois eles não compreendiam a atmosfera rarefeita que cercava Camila e a interpretavam como uma manipulação por parte da menina.
Por isso, quando, aos dezesseis anos, Camila rompeu o jogo e anunciou que estava saindo de casa, a mãe e os irmãos fizeram causa comum com o pai, acusando-a de ser caprichosa e irresponsável. Anos depois, Carolina diria que, embora a filha lhe tivesse revelado o que acontecia antes de partir, ela havia pensado “que se tratava apenas de alguns toques sem importância”.
É uma circunstância extremamente grave, que ocorre com frequência quando as meninas põem fim ao abuso, geralmente na adolescência, e que as coloca em situação de alto risco. Depois de tomar plena consciência da fraude relacional a que foram submetidas, elas afundam na autodesvalorização e se sentem abandonadas por todos. Não é raro que, mergulhadas em um turbilhão caótico, se envolvam em condutas altamente autodestrutivas.
Para lembrar
O momento em que uma adolescente põe fim ao abuso é um momento de alto risco: a tomada de consciência da fraude relacional sofrida vem acompanhada de autodesvalorização, de um sentimento de abandono generalizado e, muitas vezes, de condutas autodestrutivas. Quando a família então faz causa comum com o abusador, a desqualificação da vítima se torna a versão oficial.
Camila não foi exceção. Vagou entre traficantes e outros delinquentes, com um dos quais formou um casal de maneira tão precipitada quanto precária. Dessa relação teve três filhos sucessivos, uma menina, Rosa, e dois meninos, Alberto e Martín, com os quais afundou em um processo de degradação e deterioração sociais. Mas, entre o álcool, as drogas e os maus-tratos que recebia do companheiro, Camila teve a ideia de recorrer às únicas pessoas de quem pressentia poder obter ajuda: seus pais. E a obteve. Foi uma ajuda envenenada para ela, mas eficaz para seus filhos, que encontraram nos avós boas figuras parentais, atenciosas e protetoras.
Mas, paradoxalmente, isso provocou uma degradação ainda maior da imagem familiar de Camila, que apareceu aos olhos de todos como uma irresponsável desregrada, capaz de arrastar os filhos em seus caprichos autodestrutivos, dos quais os avós os salvavam graças à sua abnegação amorosa. Carlos e Carolina suspiravam e erguiam as sobrancelhas com resignação, comunicando a todos o sentimento de que com Camila não havia nada a fazer, ainda que, infelizmente, estivessem dispostos a qualquer sacrifício para salvar as crianças.
Carlos dirigia uma empresa familiar na qual todos os seus filhos iriam trabalhar, exceto, naturalmente, Camila. Foi assim que os irmãos dela, Felipe, Rodrigo, Magdalena, Ignacio e Roberto, participaram sem querer da rede de cumplicidades que confirmavam a desqualificação e o descrédito de Camila, “aquela louca mimada em quem não se podia confiar”. Com o tempo, os filhos dela também receberiam propostas de integração futura na rede que excluía e marginalizava a mãe. Todos tinham interesse em tornar verossímil a história da irresponsabilidade de Camila. Os pais, para combater os sentimentos de culpa que as lembranças do abuso evocavam, e até para apagar a própria evidência dele; os irmãos, para justificar seu privilégio diante da marginalização da excluída. Até para Rosa, Alberto e Martín era tranquilizador acreditar na inconfiabilidade injustificável da mãe, o que lhes permitia desfrutar, junto aos avós, de vantagens materiais que ela não podia lhes dar.
As coisas estavam nesse ponto quando Camila, depois de chegar ao fundo do poço, iniciou uma lenta recuperação em sua vida. Conheceu Fernando, um homem bom que, muito apaixonado, lhe ofereceu a possibilidade de criar uma família estável, à qual Camila trouxe a única coisa que, para ela, levava à estabilidade: mais filhos. Nasceram Javier e Fernandito que, com Tamaris, nascida de um casamento anterior de Fernando, completaram um quadro tão inédito quanto exigente. Por um lado, não havia dúvida de que, pela primeira vez, Camila vislumbrava a possibilidade de ser reconhecida como uma mulher capaz e responsável, à frente de uma família respeitada. A ponto de ousar denunciar o pai a um centro de proteção à infância, alegando que existia o perigo de ele fazer com os filhos dela o que tinha feito com ela. Isso bastou para que os três mais velhos voltassem para junto da mãe, embora de má vontade e sem entender por que deviam renunciar ao conforto de que desfrutavam na casa dos avós. Por outro lado, a dimensão da tarefa evidenciava seus limites: ela simplesmente não se sentia com forças para sustentar uma família tão complexa. Fernando trabalhava em jornadas intermináveis como agente de segurança, enquanto ela tinha de se debater com a sobrecarga que os pequenos representavam e com a desqualificação permanente que os mais velhos lhe infligiam: “Você, que nos abandonou para levar a vida boa, agora tem a cara de pau de nos tirar da casa dos avós dizendo que eles são um perigo. A mentirosa perigosa é você!” E Camila mergulhou na depressão.
Foi então que começou uma terapia familiar que, em uma primeira etapa, se propôs a consolidar o novo papel de Camila como esposa e mãe na família que ela havia criado. Fernando colaborou plenamente, e Rosa, Alberto e Martín se acalmaram o suficiente para começar a conseguir escutar a mãe. Ainda não compreendiam a extensão do dano que ela havia sofrido na infância, sendo eles próprios crianças devastadas por uma história atormentada, mas, pelo menos, lhe concederam o benefício da dúvida: sim, ela os amava e, a seu modo, buscava o melhor para eles. Entenderam que não podiam voltar para a casa dos avós, mas se recusavam a viver em condições que, evidentemente, não eram adequadas. Aceitaram de bom grado ir para um abrigo proposto pelos serviços sociais e, durante os fins de semana que passavam com Camila, ela começou a experimentar, pela primeira vez na vida, a sensação de ter uma família unida pela qual valia a pena se esforçar. Rosa, de dezessete anos, e Martín, de doze, sobretudo, mostraram-se tranquilos e afetuosos com os irmãos, além de razoavelmente respeitosos com Fernando. Mas com Alberto houve mais problemas, porque a turbulência adolescente de seus quatorze anos era reforçada pelo fato de ele ser o mais mimado pelos avós, que haviam alimentado nele fantasias de uma próxima entrada na empresa familiar. A depressão de Camila havia desaparecido, mas a instabilidade da situação exigia novas perspectivas.
Por isso o terapeuta propôs a Camila abrir outro capítulo: “Você é uma mulher formidável, que tirou forças da própria fraqueza até conseguir o que ninguém teria imaginado alguns anos atrás: criar uma bela família e organizar bem o presente. O problema é que o passado é tão atroz que se infiltra pelas frestas, ameaçando a todo momento arruinar o que foi construído. O que proponho é que, agora, coloquemos o passado no centro e nos concentremos na sua família de origem, principalmente seus pais e seus irmãos, para que você possa obter a reparação que merece e de que precisa. É também uma condição necessária para que sua relação com seus filhos, e muito especialmente com Alberto, se esclareça e se estabilize definitivamente. Mas, para isso, você precisa me trazer seus pais.”
E ela os trouxe. Não lhe custou muito, porque Carlos temia o escândalo e até eventuais consequências judiciais, e Carolina seguia o marido incondicionalmente. Camila compareceu, portanto, à sessão com os dois, e também com Rosa, que ela havia escolhido, na qualidade de filha mais velha, para acompanhá-la e ser testemunha de tudo o que seria dito. E o pai foi o protagonista de uma atuação memorável, no decorrer da qual reconheceu todas as suas faltas: “Não só a submeti a abusos terríveis como, o que é pior, permiti depois que fosse ela a aparecer como culpada pelos fracassos de sua vida. Não posso pedir perdão, porque não o mereço.” A mãe afirmava não ter percebido nada, e o marido, como um cavalheiro, confirmava sua inocência: “O único culpado sou eu.” Carolina, no entanto, mantinha um tom crítico com a filha: “Eu não sabia de nada, e o fato de você ter sofrido com o que seu pai fez não justifica que você não tenha me contado nada, logo a mim. Você não se comportou bem, nem comigo nem com seus filhos.”
Mas, a essa altura, nem Camila nem o terapeuta iam permitir que novas mistificações fossem perpetradas. As acusações foram, portanto, categoricamente rejeitadas, e estabeleceu-se a necessidade de uma assembleia familiar que esclarecesse definitivamente as coisas e restaurasse o prestígio de Camila. Era ela quem devia escolher as pessoas que participariam, e foi o que fez: seus irmãos com os respectivos cônjuges, duas tias maternas como representantes da família ampliada, e Rosa, em representação de seus filhos.
A sessão se realizou na presença de quinze pessoas, e o pai reiterou sua autoacusação. Com voz firme e gesto digno, declarou explicitamente que havia cometido os piores abusos sexuais contra a filha e que depois havia permitido que a acusassem de irresponsabilidade, sem jamais esclarecer até aquele dia que ela tinha razões de peso para estar perdida na vida. A mãe, que insistia em que não sabia de nada (“… bem, no máximo eu imaginava que pudesse ter havido alguns toques sem importância…”), mostrou-se contrita, chorando sem reservas e recriminando o marido por ter sido capaz de fazer uma coisa dessas com a filha. As cunhadas foram muito duras com Carlos, insistindo em que Camila era agora outra pessoa aos olhos delas. Mas os que desempenharam um papel decisivo, e cuja importância não pararia de crescer a partir daquele momento, foram os irmãos.
Felipe, o mais velho, era um caso à parte, porque tinha uma longa história de consumo de drogas e era um homem extremamente reservado, que não disse uma palavra durante toda a sessão. Mas Rodrigo, o terceiro, conduziu um admirável processo reparador. Quando tomou a palavra, começou reconhecendo sua parcela de responsabilidade na marginalização a que todos haviam submetido Camila: “Deveríamos ter percebido, mas não quisemos ver. Pressentíamos algo, mas fechamos os olhos por comodidade, porque se vivia melhor na ignorância. Era mais fácil acusar uma irmã de irresponsabilidade, enquanto ela se debatia na tempestade de sua vida e nos trazia filhos para casa para que cuidássemos deles, do que aceitar que o que estava podre eram os alicerces da família, que o culpado de tudo era nosso pai e que o crime tinha se prolongado por anos sob o olhar de nossa mãe e… de todos nós. Nada será igual a partir de hoje. Devemos a Camila algo muito grande, muito importante…”
Magdalena chorou muito, mas, diferentemente das lágrimas da mãe, as dela expressavam uma emoção sincera e um nítido arrependimento, pois era ela quem, entre os irmãos, mais havia criticado Camila. Ignacio e Roberto, de vinte e dois e vinte anos, eram muito mais jovens que os mais velhos e nem sequer se lembravam do momento em que Camila saíra de casa. Para eles, a irmã sempre tinha sido uma estranha distante e imprevisível, que chegara a inventar um risco de abuso sexual da parte deles contra Rosa como motivo urgente para recuperar os filhos. Estavam comovidos, mas precisavam de mais tempo para elaborar a nova situação.
Em definitivo, a sessão de esclarecimento foi um verdadeiro sucesso, e o terapeuta o sublinhou, insistindo em que o processo de reparação estava apenas começando. Observou que a reação de todos era um indicador da qualidade humana da família. “Você, Carlos, fez um mal enorme a Camila, mas ela é hoje uma mulher forte, bonita e capaz, que assume definitivamente o controle da própria vida. Nessa força que é dela, nessa capacidade de resistir e de se reerguer, certamente há também algo de bom que vem de você. Em todo caso, eu gostaria de poder contar com todos vocês para prosseguir e concluir esta terapia, para que ela desemboque em uma situação justa e reparadora para Camila e para seus filhos.”
A intenção do terapeuta era continuar trabalhando com os pais, com a ideia de suscitar um processo de reconciliação… apenas na medida em que Camila o quisesse. Essa escolha se apoia na evidência de que uma pessoa abusada ou maltratada pelos pais continua sendo filha deles, de modo que, em certa medida, sempre carregará dentro de si aqueles que a maltrataram. Tudo o que puder ser ganho no sentido da compreensão e, se possível, do perdão e da reconciliação a ajudará a aliviar seu fardo. Em outras palavras, é mais suportável sentir-se filha de pais que a maltrataram por causa de seus próprios problemas, afinal humanos, do que de monstros incompreensivelmente satânicos.
A terapia prosseguiu, portanto, e, no decorrer das sessões seguintes, foi possível trabalhar com pais que mostraram sombras e luzes, e cuja colaboração permitiu reconstruir suas histórias. Carlos havia perdido o pai quando criança, e a mãe se casara de novo com um homem que nunca a fez feliz. Os dois levaram a vida cada um por seu lado; Carlos se lembrava de ter surpreendido a mãe na cama com um amante, enquanto as infidelidades do padrasto eram igualmente notórias. Em um contexto de abandono, forjou uma personalidade muito independente e combativa, abandonando cedo os estudos para trabalhar com afinco. Por sua vez, Carolina era órfã de pai e mãe, e sua infância transcorreu em um internato, vigiada de longe pelas duas irmãs mais velhas, de quem dependia até nos menores detalhes. Quando, aos dezessete anos, Carlos e Carolina se conheceram, caíram literalmente nos braços um do outro, formando desde então um casal indissolúvel, de extrema complementaridade. Ele segurava o leme, e ela punha flores nos vasos.
Aos dezoito anos, estavam casados e tinham o primeiro filho, quando mal haviam tido tempo ou ocasião de brincar como crianças ou de se divertir como adolescentes. E aos dezenove tiveram Camila. Nesse contexto de prematuridade relacional, com Carlos bancando cada vez mais forte o super-homem e Carolina destinada ao papel de frágil bonequinha dependente, ocorreu a perda dos papéis. Felipe foi maltratado fisicamente, porque era um moleque chorão que não respeitava a necessidade de descanso do pai, e Camila foi abusada sexualmente porque este, todo-poderoso, merecia “o descanso do guerreiro”, e Carolina estava exausta demais depois do segundo parto.
Carlos teve seu momento mais honesto quando, falando de todos esses assuntos, manifestou, entre lágrimas, um arrependimento sincero: “Nunca mais consegui confiar em mim mesmo. Sempre mantive distância da minha outra filha, Magdalena, e, claro, da minha neta Rosa, por medo de perder o controle de novo com elas. Mas, no fundo, sempre soube que não aconteceria nada, porque o que me aconteceu com Camila foi uma espécie de doença, uma obsessão mórbida muito difícil de repetir. Sei agora que arruinei a vida dela e também a de toda a minha família…” Quanto a Carolina, insistia em dizer que nem sequer havia imaginado que pudesse acontecer algo semelhante, e mostrava-se muito zangada com o marido. Durante alguns dias, ela o deixou, indo morar em uma casa que possuíam à beira-mar, a duzentos quilômetros da residência familiar, e teve vários contatos com Camila, que foram bem recebidos por esta e pareceram marcar uma nova relação.
No entanto, essa mudança tão espetacular dos pais não se manteve por muito tempo. Logo Carlos começou a emitir mensagens segundo as quais a vida e a empresa familiar deviam continuar, o que provocou nos filhos uma reação de intensa rejeição. Seu caráter autoritário não lhe permitia manter o perfil humilde que havia mostrado durante a confissão. Entrincheirava-se de novo no papel do grande homem, pecador mas arrependido, ao lado do qual corria a se posicionar a esposa, dependente demais para ousar enfrentar uma vida sem ele.
As sessões de terapia com os irmãos, Camila incluída com todas as honras, e Ignacio e Roberto agora integrados, criaram um clima de apoio entusiasmado a ela e de crítica intensa aos pais. Rodrigo se fez líder de uma verdadeira revolução familiar: “Como é possível que esse senhor ainda pretenda agir como se nada tivesse acontecido? Ele acha que, por ter reconhecido o que fez, aliás quando já não tinha outra escolha, está tudo resolvido? E a mamãe? Como entender que, depois de sair de casa, ela tenha voltado a morar com ele, dizendo que não o perdoa mas que não pode deixá-lo sozinho? Precisamos fazer alguma coisa para que não reste a Camila a menor dúvida de que seus sofrimentos pertencem ao passado.”
E fizeram alguma coisa, de fato! Reunidos em conselho, os irmãos decidiram retirar dos pais toda responsabilidade na empresa familiar, concedendo-lhes uma renda vitalícia digna que lhes permitisse viver longe, na casa à beira-mar. E todos se colocaram ao lado de Camila, oferecendo-lhe um lugar na empresa e manifestando sua solidariedade de diversas maneiras. Felipe mudou de maneira espetacular, falando livremente dos maus-tratos que ele próprio havia sofrido e colocando-se, ao lado de Camila, no grupo das vítimas. Rodrigo, na qualidade de novo líder, organizou habilmente a empresa, ajudando cada um a encontrar nela o seu lugar. Magdalena se propôs a ajudar Camila assumindo, por algum tempo, aqueles de seus filhos que precisassem. Ignacio se juntou aos mais velhos com o entusiasmo do convertido, e Roberto foi o único a decidir continuar mantendo relações com os pais, ao mesmo tempo que também se aproximava dos irmãos, e especialmente de Camila. Concretamente, e embora fosse um homem muito jovem, organizou em sua casa várias refeições para as quais convidou todos os irmãos, além de Camila e sua família. Pôde ainda resolver com ela o mal-entendido das acusações de abuso contra Rosa que, embora infundadas, haviam servido para que Camila recuperasse os filhos. Roberto a compreendeu e a perdoou, ainda que o caso lhe tenha custado alguns dissabores judiciais.
Por fim, Camila acabou de assumir o controle de sua vida: fez cursos de formação profissional e se tornou trabalhadora familiar, alternando essa ocupação com algumas colaborações na empresa familiar. No fim da terapia, Rosa, então com dezenove anos, foi morar de forma independente, primeiro com amigas, depois com um namorado. Era uma jovem que, no fragor das batalhas que a haviam cercado desde muito pequena, amadurecera precocemente, e que agora se mostrava bastante estável. Havia compreendido a mãe e também contribuído para a estabilização da família. Martín não apresentava problemas e morava com a mãe, bem adaptado. Quanto a Alberto, foi ele quem mais resistiu a aceitar a nova situação, combinando sua identificação com o avô com uma atitude de desafio própria da sua condição de adolescente. No entanto, sua tia Magdalena cuidou dele durante um período, até que sua conflitividade diminuísse e ele pudesse se adaptar à mãe e à nova família.
O caso de Camila ilustra bem como uma história de maltrato pode se infiltrar no tecido relacional de uma família ao longo de várias gerações. Os pais já haviam sofrido as consequências de modos de educação inadequados, que os obrigaram a enfrentar a vida em circunstâncias desfavoráveis. Compreende-se assim melhor seu fracasso com os filhos, e sobretudo com Felipe e Camila, que continuaram a submeter a situações manifestamente disfuncionais. A cadeia do maltrato, por meio da patologia aditiva de Felipe e da conduta inadaptada e da depressão de Camila, ameaçava se transmitir aos filhos deles, entrelaçando-os em jogos perversos com as outras duas gerações. Por sorte, a cadeia do maltrato pôde ser interrompida por uma intervenção terapêutica, que foi também preventiva de males posteriores e reabilitadora das sequelas do passado. E a terapia liberou recursos que, com relativa autonomia em relação às intenções iniciais do terapeuta, conduziram o processo por caminhos insuspeitados. O grupo dos irmãos assumiu o papel principal, suprindo com sua capacidade reparadora os limites dos pais. Essa é a lógica do ecossistema.
A intenção inicial do terapeuta
Continuar trabalhando com os pais para suscitar, se Camila assim desejar, um processo de compreensão, perdão e reconciliação.
O que a terapia liberou
Diante de pais que se entrincheiram, os irmãos assumem o papel principal e suprem, com sua capacidade reparadora, os limites dos pais.
Quem é Juan Luis Linares
O Dr. Linares é psiquiatra e psicólogo, professor titular de psiquiatria da Universidade Autônoma de Barcelona e diretor da Unidade de Psicoterapia e da Escola de Terapia Familiar do Hospital de la Santa Creu i Sant Pau. É consultor editorial de Perspectivas Sistémicas. Pela Paidós, publicou também Identidad y narrativa, Tras la honorable fachada (com C. Campo), Del abuso y otros desmanes e Ser y hacer en terapia sistémica (com M. R. Ceberio).
Bibliografia geral do livro Las formas del abuso. La violencia física y psíquica en la familia y fuera de ella
Arsuaga, Juan Luis y Martínez, Ignacio. La especie elegida. La larga marcha de la evolución humana. Temas de Hoy, Madrid, 1998.
Barudy, Jorge. El dolor invisible de la infancia. Una lectura ecosistémica del maltrato infantil. Paidós, Barcelona, 1997.
Campo, Carmen y Linares, Juan Luis. Sobrevivir a la pareja. Problemas y soluciones. Planeta, Barcelona, 2002.
Cárdenas, Eduardo. Violencia en la pareja. Intervenciones para la paz desde la paz. Granica, Buenos Aires, 1999.
Cárdenas, Isabel y Ortiz, Dora. Entre el amor y el odio. Ed. Síntesis, Madrid, 2005.
Cirillo, Stefano y Di Blasio, P. La famiglia maltrattante. Diagnosi e terapia (1989). Ed. española: Niños maltratados. Diagnóstico y terapia familiar. Paidós, Barcelona, 1999.
Eisler, Riane. The Chalice and the Blade. Our History, Our Future (1987). Ed. española: El cáliz y la espada. La alternativa femenina. Martínez de Murguía, Madrid, 1990.
Hirigoyen, Marie-France. Le harcèlement moral (1998). Ed. española: El acoso moral. El maltrato psicológico en la vida cotidiana. Paidós, Barcelona, 1999.
Linares, Juan L. Del abuso y otros desmanes. El maltrato familiar entre la terapia y el control. Paidós, Barcelona, 2002.
Madanes, Cloé. Sex, Love and Violence. Strategies for Transformation (1990). Ed. española: Sexo, amor y violencia. Paidós, Barcelona, 1993.
Este artigo é a tradução para o português de “Un caso ilustrativo: Abuso y Terapia Familiar”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Las formas del abuso. La violencia física y psíquica en la familia y fuera de ella, Paidós Ibérica, 2006 (chapitre 6)). Traduzido e republicado com a autorização da revista.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Linares, J. L. (2022). Um caso ilustrativo: abuso e terapia familiar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/um-caso-ilustrativo-abuso-e-terapia-familiar (Obra original publicada em 2006 em Las formas del abuso. La violencia física y psíquica en la familia y fuera de ella, Paidós Ibérica, 2006 (chapitre 6); republicada em 2022 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2022/08/08/un-caso-ilustrativo-abuso-y-terapia-familiar/)
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