Family Relations · Família
Como homens condenados por violência contra a parceira contam sua infância e seus atos? Em uma prisão do sudeste da Turquia, Fatma Ayhan entrevistou 44 presos: violência sofrida muito cedo, trabalho infantil, negligência e normas de gênero tradicionais quase por toda parte. Mas apenas um quarto deles justifica abertamente a violência.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Dinâmicas familiares, trauma na infância e normas de gênero entre homens condenados por violência conjugal na Turquia, de Fatma Ayhan, publicado na Family Relations (Wiley) (2026), doi: 10.1111/fare.70214, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O trauma, por si só, não leva de modo uniforme à justificação moral da VPI.
Fatma Ayhan
Resumo
Objetivo. Este estudo explorou as características sociodemográficas de homens condenados por violência por parceiro íntimo (VPI), sua exposição à violência na infância, suas normas de gênero e os significados que atribuem ao próprio uso da violência.
Contexto. Com base no referencial ecológico para a compreensão da VPI, a violência é concebida como resultado de interações entre fatores individuais, relacionais, comunitários e sociais. O estudo examinou como as dinâmicas familiares dos participantes, as interações com a parceira e as influências da comunidade interagem com fatores individuais e sociais para moldar os comportamentos violentos. Realizado em uma província do sudeste da Turquia, onde normas patriarcais e baseadas na honra continuam influentes, o estudo oferece uma análise ancorada no contexto sobre como os homens constroem e justificam a VPI. Dados nacionais indicam que cerca de 38% das mulheres da Turquia que já foram casadas sofreram VPI física ou sexual.
Método. Quarenta e quatro homens presos, condenados por violência contra a parceira, foram selecionados por amostragem intencional. Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas e examinados por análise de conteúdo qualitativa indutiva.
Resultados. A análise identificou sete temas principais: traumas na infância, antecedentes criminais pessoais e familiares, comportamentos na infância, razões declaradas para a VPI, razões declaradas para o feminicídio, atitudes em relação à violência e normas de gênero. A frequência de participantes que contribuíram para cada tema é informada para aumentar a transparência. As normas de gênero tradicionais eram generalizadas (37/44, 84,1%), e a racionalização da violência foi observada em parte dos participantes (11/44, 25%). Os resultados evidenciam padrões de normalização, justificação e enquadramento sociocultural nas narrativas dos participantes.
Conclusão. Os resultados ressaltam a importância de estratégias de prevenção e intervenção multidimensionais que abordem a exposição precoce à violência, as normas de gênero rígidas e as justificativas socioculturais da VPI.
A violência contra as mulheres, especialmente a violência por parceiro íntimo (VPI) e a violência sexual, representa um grande problema de saúde pública e uma violação dos direitos humanos das vítimas. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 30% das mulheres no mundo sofrem, ao longo da vida, violência física e/ou sexual por parceiro íntimo ou violência sexual por outra pessoa. Esses números destacam a prevalência mundial e a importância da VPI como problema de saúde pública. A maior parte dessa violência pode ser evitada. O setor de saúde tem uma responsabilidade importante: oferecer atenção integral às mulheres submetidas à violência e/ou encaminhá-las a outros serviços de apoio de que possam precisar (OMS, 2024).
O presente estudo adotou o referencial ecológico de Heise (1998) como principal fundamento teórico. Esse referencial permite uma compreensão da VPI em vários níveis, ligando histórias individuais a influências sociais e culturais mais amplas. No contexto turco, e em particular na região Sudeste, fortes tradições patriarcais, a hierarquia de gênero e normas baseadas na honra moldam de maneira significativa as atitudes e os comportamentos dos homens em relação às mulheres (Dikmen e Münevver, 2020; Hacettepe University Institute of Population Studies, 2019; Sakalh-Uğurlu e Glick, 2003). Na Turquia, as normas de gênero patriarcais e os valores culturais baseados na honra continuam a moldar as atitudes dos homens em relação aos relacionamentos e à masculinidade (Dikmen e Münevver, 2020; Hacettepe University Institute of Population Studies, 2019). O controle dos homens sobre as mulheres costuma ser socialmente justificado como proteção da honra da família, e o afastamento dos papéis femininos tradicionais pode desencadear violência (Kocacık e Dogan, 2006; Sakalh-Uğurlu e Glick, 2003). Além disso, os homens presos na Turquia representam um grupo de risco particularmente elevado de cometer VPI, pois o encarceramento costuma estar associado a traços antissociais, à exposição a traumas e à adesão a ideologias masculinas rígidas (Sehlikoğlu et al., 2025). Estudos com homens presos em vários países mostraram que a VPI que cometem tende a ser mais grave e mais ligada à dominação, ao ciúme e ao uso de substâncias do que a de homens não encarcerados (Henning e Feder, 2004). Discutir a VPI no contexto prisional turco oferece, portanto, uma compreensão valiosa de como a desigualdade estrutural, as normas culturais e o encarceramento interagem para moldar os comportamentos violentos dos homens. Compreender essas dinâmicas é essencial para interpretar os resultados deste estudo. Segundo o referencial ecológico de Heise (1998), a VPI surge da interação entre fatores que atuam em quatro níveis: individual (por exemplo, trauma na infância, regulação emocional, temperamento), relacional (por exemplo, conflito familiar, dinâmica do casal), comunitário (por exemplo, isolamento social, estresse econômico) e social (por exemplo, normas de gênero, valores patriarcais). No contexto da Turquia, especialmente na região Sudeste, esses níveis interagem dentro de um sistema sociocultural que enfatiza a honra, a obediência e a masculinidade tradicional. Esse referencial orientou, assim, tanto as perguntas de pesquisa quanto a interpretação dos resultados, ligando as histórias pessoais de trauma dos homens às estruturas culturais mais amplas que sustentam a violência baseada em gênero.
Mais de um quarto (27%) das mulheres de 15 a 49 anos no mundo que já tiveram um relacionamento relatam ter sofrido alguma forma de violência física e/ou sexual por parte do parceiro íntimo (OMS, 2024). A violência psicológica é a forma mais difundida de violência por parceiro contra as mulheres, seguida da violência física (Santos et al., 2020). A pesquisa nacional mais recente da Turquia informou que 26%, 8%, 15% e 5% das mulheres haviam sofrido, respectivamente, violência emocional ou psicológica, física, econômica e sexual por parte do cônjuge ou parceiro íntimo nos 12 meses anteriores (Research on Domestic Violence against Women in Turkey, 2015).
Muitos atos de VPI resultam em feminicídio (Silva e Schermann, 2021). A VPI representa 7% da carga total de doença observada em mulheres de 18 a 44 anos e afeta negativamente o bem-estar emocional e social de famílias inteiras (Mikton, 2010). A OMS enfatiza que a exposição das mulheres à violência pode afetar negativamente sua saúde física, mental, sexual e reprodutiva e, em alguns contextos, aumentar o risco de contrair o HIV (OMS, 2024). Os desfechos mais nocivos relatados na literatura científica entre mulheres que sofrem VPI são transtornos psicológicos, problemas cognitivos, emocionais e comportamentais e lesões físicas (Souza e Silva, 2019). A autoestima das mulheres submetidas à VPI é afetada, e sua recuperação é prejudicada pelas perdas resultantes nas áreas de renda, emprego, moradia e melhoria da participação social (Hing et al., 2021; Moulding et al., 2021). Diabetes (Stubbs e Szoeke, 2022), depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e ideação suicida (Pico-Alfonso et al., 2006) são mais comuns nessas mulheres.
Estudos que investigam as características gerais dos homens que cometem violência contra as mulheres mostram que características individuais (impulsividade, baixo autorrespeito e insegurança), comportamentais (uso de álcool e outras drogas) e contextuais (sociedade patriarcal) associadas ao perfil do agressor podem explicar a violência doméstica (Scott e Oliveira, 2018). A pesquisa internacional sobre homens autores de VPI também destacou domínios múltiplos e em interação: impulsividade individual e baixa autoestima, padrões comportamentais como o uso de substâncias e influências contextuais como normas patriarcais e desvantagem socioeconômica (Fulu et al., 2017; Scott e Oliveira, 2018). Esses padrões estão alinhados ao modelo ecológico de Heise e justificam o exame em vários níveis, neste estudo, das histórias de trauma, dos temperamentos e das atitudes de gênero dos homens no contexto turco. Um estudo sobre as características de homens presos por crimes violentos mostrou que eram adultos jovens, casados, com baixa escolaridade e com trabalho remunerado, e que a maioria cometeu a violência sob efeito do álcool e tinha outros registros de violência intrafamiliar (Madureira et al., 2014). Constatou-se que a maioria dos homens que cometem violência física contra as mulheres na Turquia apresenta atitudes de gênero desiguais, tem baixa escolaridade, sofreu violência física na própria infância, vive em casamento arranjado, tem três filhos ou mais, usa álcool e substâncias e joga (Akkuş e Yıldırım, 2018). Um determinante importante das atitudes em relação à VPI na Turquia é a adesão a atitudes de gênero desiguais (Özpınar e Acar, 2022). Um estudo qualitativo com homens que cometem violência relatou que eles se referiam aos papéis tradicionais das mulheres e à hegemonia masculina (Sikweyiya et al., 2020). Compreender esses fatores é essencial para desenvolver estratégias de prevenção eficazes.
Embora tenham sido realizadas pesquisas na Turquia e em outros países sobre homens que cometem violência contra as parceiras, não encontrei estudos que examinassem em profundidade as experiências individuais desses homens, como traumas na infância, características de temperamento e razões para o uso da violência. Para reduzir a exposição das mulheres à violência e desenvolver intervenções culturalmente adequadas, é essencial compreender as características e a história de violência dos homens que a cometem, bem como as razões dessa violência. Ao situar esta pesquisa no referencial ecológico de Heise (1998) e nas realidades socioculturais do sudeste da Turquia, este estudo buscou oferecer uma compreensão culturalmente informada de como as experiências precoces dos homens, as normas de gênero e os valores culturais locais se cruzam para moldar o uso da violência contra as parceiras. Nessa perspectiva, o presente estudo foi realizado para determinar as características sociodemográficas dos homens que cometem VPI, as experiências de violência desses homens na infância, suas normas de gênero e suas experiências com a violência que infligiram às parceiras. Este estudo traz uma contribuição singular à literatura ao oferecer uma compreensão aprofundada e culturalmente contextualizada de como traumas precoces, normas de gênero e identidade masculina se cruzam para moldar a violência dos homens contra as parceiras na Turquia, uma população raramente explorada com a profundidade da abordagem qualitativa.
À luz desse objetivo, o estudo buscou responder às seguintes perguntas:
Este estudo adotou um delineamento qualitativo, com análise de conteúdo indutiva (Elo e Kyngäs, 2008). Os critérios COREQ (Consolidated Criteria for Reporting Qualitative Research) foram adotados para relatar a pesquisa.
A pesquisa foi realizada em um estabelecimento prisional fechado localizado em uma província do sudeste da Turquia. Essa região é conhecida por sua estrutura social conservadora e patriarcal, em que os papéis de gênero tradicionais e as normas baseadas na honra estão profundamente enraizados na vida cotidiana. Esse contexto cultural é importante para compreender como os participantes percebem e racionalizam a VPI. O grupo de estudo foi composto por presos do sexo masculino, com mais de 18 anos, em uma prisão fechada, condenados por violência contra a parceira, sem dificuldade para falar ou compreender o turco e que consentiram voluntariamente em participar, selecionados por amostragem intencional. Alguns participantes podem ter tido outros antecedentes criminais, pois na Turquia as pessoas condenadas a menos de três anos geralmente não são presas, e os crimes contra as mulheres costumam acarretar penas mais curtas (exceto nos casos de feminicídio). No entanto, não havia informações detalhadas sobre outros delitos, pois o Ministério da Justiça não autorizou o acesso a esses registros. Cinquenta presos que atendiam aos critérios de seleção estavam na prisão escolhida durante o período da pesquisa. Quatro, porém, se recusaram a responder a qualquer pergunta além das relativas às características sociodemográficas, e dois se recusaram a participar. O estudo foi, assim, concluído com 44 presos. Os dados sobre as características sociodemográficas dos participantes estão na tabela 1.
Tabela 1 — Características sociodemográficas dos participantes
Nota. Para cada participante: idade, profissão, estado civil, tipo de casamento, escolaridade, escolaridade da esposa, nível de renda, número de irmãos, consumo de álcool, tabaco e drogas.
O recrutamento foi feito em colaboração com a unidade de serviços psicossociais da prisão. As informações sobre o estudo foram comunicadas a todos os presos elegíveis pelas equipes de psicologia e de serviço social da prisão durante reuniões de grupo rotineiras. A participação era totalmente voluntária, e não se ofereceu nenhum incentivo ou privilégio. A pesquisadora não participou do recrutamento até que os possíveis participantes tivessem manifestado interesse à equipe da prisão, para minimizar a coerção. Os presos receberam uma folha de informações por escrito explicando, em linguagem clara e acessível, o objetivo, os procedimentos, os riscos e os benefícios do estudo. Os interessados se reuniram individualmente com a pesquisadora e com alguém da equipe de psicologia da prisão para examinar o termo de consentimento. O consentimento livre e esclarecido foi obtido por escrito antes da participação. Os participantes foram informados de que a recusa ou a desistência não afetaria de forma alguma seu tratamento, seus privilégios ou sua situação jurídica. A triagem de elegibilidade foi feita pela equipe psicossocial da prisão com base em registros oficiais e avaliações psicológicas. Os homens eram incluídos se (a) tinham 18 anos ou mais, (b) haviam sido condenados por crimes violentos contra uma parceira íntima (por exemplo, esposa, noiva ou companheira com quem coabitavam) e (c) podiam se comunicar em turco e consentir voluntariamente. Pessoas condenadas por outros crimes violentos que não envolviam uma parceira (por exemplo, roubo, agressão a desconhecidos) foram excluídas.
Para os fins deste estudo, a VPI foi definida, segundo a OMS (2021), como “qualquer comportamento dentro de uma relação íntima que cause dano físico, psicológico ou sexual às pessoas que fazem parte dessa relação” (p. 2). A definição incluiu tanto atos físicos (por exemplo, bater, esbofetear, estrangular) quanto atos não físicos (por exemplo, ameaças, coerção, humilhação e comportamentos de controle). A amostra final, porém, foi composta por homens condenados por violência física, conforme comprovado por documentos judiciais.
Os dados do estudo foram coletados com um formulário de entrevista semiestruturada elaborado a partir do exame da literatura anterior sobre o tema (Madureira et al., 2014; Özpınar e Acar, 2022; Scott e Oliveira, 2018; Sikweyiya et al., 2020). Para explorar os significados subjetivos e as interpretações pessoais dos participantes, a pesquisadora usou técnicas de aprofundamento durante as entrevistas. Além das perguntas principais, perguntas de seguimento como “O que você sentiu naquele momento?”, “Como você vê o efeito disso sobre você hoje?” e “Você poderia descrever essa situação com mais detalhes?” foram usadas para aprofundar a exploração das percepções e das construções de sentido dos participantes (Morgan e Guevara, 2008; Prior, 2017). A versão final do formulário foi elaborada com base na opinião de três especialistas (com doutorado em enfermagem psiquiátrica e publicações sobre violência intrafamiliar). A primeira parte do formulário continha perguntas sobre as características sociodemográficas dos participantes (como idade, anos de casamento, profissão, escolaridade, situação econômica e estado civil). O formulário de entrevista semiestruturada fazia as seguintes perguntas:
Os dados da pesquisa foram coletados pela pesquisadora, com o apoio do formulário de entrevista semiestruturada, entre 1º de fevereiro de 2024 e 4 de outubro de 2024, em uma sala adequada da prisão, em entrevistas presenciais individuais com cada participante. Cada pessoa que estava na prisão ou que chegou durante o período da pesquisa foi avaliada quanto aos critérios de inclusão pela equipe da unidade psicossocial da prisão (três profissionais de psicologia e uma pessoa especialista em serviço social). A pesquisadora era avisada quando participantes adequados ao grupo de estudo eram identificados, e estes eram então entrevistados por ela segundo um calendário de entrevistas. Durante as entrevistas, a pesquisadora foi acompanhada por uma psicóloga, tanto por razões de segurança quanto para reduzir o efeito da pesquisadora. Essa psicóloga fazia uma pós-graduação em sociologia e, para não interferir no processo de entrevista, nunca havia entrevistado nenhum dos participantes antes. A pesquisadora que conduziu as entrevistas era uma acadêmica com doutorado em enfermagem psiquiátrica, formada em pesquisa qualitativa, com artigos publicados nessa área, e atuava como professora associada em uma universidade. Do ponto de vista reflexivo, a pesquisadora não tinha história pessoal de violência, mas possuía experiência profissional em enfermagem psiquiátrica e em pesquisa qualitativa. Para garantir a transparência e minimizar vieses, foram mantidas notas reflexivas ao longo da coleta e da análise dos dados, registrando expectativas, reações emocionais e reflexões sobre as narrativas de violência dos homens (Nowell et al., 2017).
A prisão não autorizou a gravação das entrevistas. A pesquisadora fez, então, um registro escrito durante as entrevistas, a partir do qual as transcrições foram produzidas depois. Pediu-se aos participantes que dessem à pesquisadora tempo suficiente para anotar suas respostas. As entrevistas continuaram até a saturação dos dados, ou seja, até que nenhuma categoria ou padrão substancialmente novo surgisse nas entrevistas seguintes. Se um participante decidisse parar de falar antes desse ponto, a entrevista era encerrada com respeito, e suas contribuições eram mesmo assim incluídas na análise. Ao fim de cada entrevista, as transcrições eram enviadas aos participantes para que fizessem comentários e/ou correções. Depois de cada entrevista, a pesquisadora e a psicóloga que a acompanhava faziam uma breve sessão de debriefing para registrar impressões contextuais (por exemplo, o tom emocional dos participantes, sinais não verbais e o clima geral da sessão). Essas notas reflexivas foram usadas para apoiar a interpretação durante a análise. As entrevistas duraram entre 50 e 60 minutos. Após cada entrevista, os registros escritos eram transferidos palavra por palavra para um computador. Os participantes receberam códigos de identificação, de K-1 a K-44.
Como a administração prisional não permitiu a gravação em áudio, foram feitas anotações escritas detalhadas durante cada entrevista, ampliadas imediatamente depois em transcrições completas. Embora as entrevistas não tenham sido gravadas, houve esforço para registrar as expressões dos participantes com a maior precisão possível. Os dados foram examinados por análise de conteúdo qualitativa indutiva, seguindo as fases de preparação, organização e relato descritas por Elo e Kyngäs (2008). Todas as transcrições foram lidas repetidas vezes, para garantir a imersão nos dados, e codificadas pela pesquisadora. Os códigos foram agrupados em subtemas com base em semelhanças, e os temas principais foram depois desenvolvidos por abstração. Para aumentar a credibilidade, uma pessoa com experiência em psicologia clínica revisou transcrições selecionadas, códigos preliminares e o referencial temático emergente, como parte de um processo de debriefing entre pares. O papel dessa pessoa se limitou a oferecer retorno metodológico e não envolveu codificação independente, desenvolvimento de temas nem decisões interpretativas. Todas as decisões analíticas finais ficaram sob a responsabilidade da pesquisadora.
A verificação com os participantes foi feita devolvendo-lhes breves resumos escritos de cada entrevista, para verificação e esclarecimento. Os participantes foram convidados a comentar a exatidão do conteúdo resumido, e não as transcrições completas. Nenhuma correção substancial foi solicitada. A confiabilidade foi assegurada segundo os critérios propostos por Guba e Lincoln (1982). A credibilidade foi apoiada pelo envolvimento prolongado, pelo diário reflexivo, pelo debriefing entre pares e pela verificação com os participantes. A dependabilidade e a confirmabilidade foram reforçadas pela manutenção de uma trilha de auditoria que documentava as decisões de codificação e as reflexões analíticas. A transferibilidade foi contemplada com descrições detalhadas do contexto da pesquisa e das características dos participantes.
O estudo obteve aprovação ética do Comitê de Ética da Universidade de Batman (aprovação 2023/03-05). Obteve-se autorização por escrito da Direção-Geral de Prisões e Casas de Detenção, à qual pertencia a prisão onde a pesquisa foi realizada (B.M. 2024/419). Também foi obtido o consentimento por escrito dos presos participantes.
A análise de conteúdo qualitativa indutiva das entrevistas revelou sete temas principais e subtemas relacionados: traumas na infância, antecedentes criminais pessoais e familiares, comportamentos na infância, razões declaradas para a VPI, razões declaradas para o feminicídio, atitudes em relação à violência e normas de gênero. Para aumentar a transparência, a frequência de participantes que contribuíram para cada tema e subtema está resumida abaixo. Essas contagens se baseiam nos códigos de identificação dos participantes (K-1 … K-44) presentes nas transcrições. Cada tema foi sustentado por vários participantes, como mostra a tabela 2. A seguir, apresenta-se de forma sintética, mas matizada, cada tema, integrando falas representativas dos participantes para preservar a riqueza dos dados.
Tabela 2 — Temas, subtemas, número e porcentagem de participantes representados nos resultados
Nota. VPI = violência por parceiro íntimo. As porcentagens se baseiam no número total de participantes (N = 44). Os códigos de identificação correspondem às transcrições das entrevistas (K-1 … K-44). Os números e porcentagens indicam quantos participantes distintos fizeram afirmações relacionadas a cada tema ou subtema.
Os participantes relataram com frequência ter sido expostos a múltiplas formas de trauma na infância, incluindo abuso físico, exploração econômica, presenciar violência doméstica e negligência. Essas experiências foram descritas ao mesmo tempo como formadoras e como normais em seus ambientes familiares.
Muitos participantes relataram uma disciplina severa, em geral por parte do pai ou de irmãos mais velhos.
“Meu pai me batia muito. Fui muito maltratado: chutes, tapas e até algemas.” (K-22)
“Meus irmãos mais velhos me batiam até aparecerem feridas no meu corpo. Mesmo que eu fizesse algo errado, eu era só uma criança.” (K-2)
Muitos começaram a trabalhar muito cedo e eram privados do que ganhavam.
“Quando criança, eu cuidava de animais. Trabalhei como engraxate. Meus irmãos mais velhos tomavam o dinheiro que eu ganhava.” (K-2)
“Aos 12 anos fui trabalhar em Adana. Fiquei lá 4 ou 5 anos.” (K-22)
Vários participantes viram o pai bater na mãe, às vezes com desfechos trágicos: “Meu pai queria se casar com uma segunda mulher. Minha mãe se opôs. Meu pai batia na minha mãe. Ela se suicidou quando eu tinha 10 anos. Talvez meu pai a tenha matado” (K-41).
Relatos de negligência emocional e ausência de cuidado eram comuns.
“Meu pai era um alcoólatra total. Não se interessava por nós. Não trabalhava.” (K-15)
“Cresci na rua… Nunca conheci meu pai. Ele nos deixou quando se casou pela segunda vez. Juro que nunca vi amor nenhum.” (K-28)
Alguns participantes relataram autolesão ou tentativas de suicídio, o que ilustra o sofrimento psicológico associado às experiências precoces e aos conflitos relacionais. Esses casos estão integrados ao contexto mais amplo dos traumas na infância e das experiências formadoras que moldaram comportamentos posteriores.
“Eu tinha 19 anos quando tentei me matar pela primeira vez. Estava apaixonado por uma moça, mas minha família achava que eu não devia me casar com ela.” (K-1)
“Eu socava as paredes. Dava socos na minha própria cabeça.” (K-4)
Essas experiências formadoras muitas vezes normalizaram a agressividade e moldaram a forma como os participantes lidavam com os conflitos nas relações íntimas.
Muitos participantes tinham prisões anteriores por furto, agressão ou crimes ligados a drogas: “Entro e saio da prisão desde os 13 anos por furto e assalto” (K-39).
Alguns relataram que o pai ou os irmãos também haviam sido presos: “Meu pai estava sempre preso. Nunca o vi. Ele cometeu um assassinato” (K-38). A presença de antecedentes criminais pessoais ou familiares sugere o papel da modelagem e da exposição precoce a comportamentos desviantes na compreensão dos participantes sobre o que é uma conduta aceitável.
Os participantes se descreviam com frequência como crianças agressivas, desafiadoras ou delinquentes.
“A gente ia roubar e nunca voltava para casa. Eu vivia solto e era uma criança ignorante.” (K-12)
“Fugi de casa por volta dos 14 anos. Vivia brigando. Batia em todo mundo.” (K-25)
Esses padrões de agressividade e desafio precoces podem ter contribuído para o uso posterior da violência, refletindo comportamentos aprendidos e mecanismos de enfrentamento moldados pela criação que tiveram.
Todos os participantes haviam cometido VPI física, e a maioria justificava seu comportamento com explicações situacionais ou relacionais. Os subtemas incluíram os papéis das mulheres, o ciúme, a raiva, o uso de substâncias, a influência da família, o segundo casamento e as dificuldades financeiras.
“Se eu não tivesse batido nela… Íamos a um casamento. Minha mulher tinha passado mal a minha calça. Aí houve uma briga e muito barulho.” (K-23).
“Você tem de ficar em casa pela minha honra, eu disse a ela, e quebrei o braço dela.” (K-1).
“Minha mulher usava roupas reveladoras… Eu disse para ela cobrir o cabelo, mas ela não cobriu.” (K-22).
“Ela estava sempre me comparando com os outros… dizendo que os outros compravam carro para as mulheres deles, mas eu nunca. Então eu a esfaqueei.” (K-16).
“Nossas brigas eram por causa das drogas. Eu xingava minha mulher e batia nela sob efeito das drogas.” (K-19).
“Minha mulher expulsava minha mãe de casa… Eu venero minha mãe. Não podia virar as costas para ela.” (K-11).
“Não conseguíamos pagar o aluguel. Minha mulher gritou comigo e mandou eu trazer dinheiro. Vai roubar, ela disse.” (K-34).
Um participante mencionou conflitos ligados ao casamento com uma segunda mulher e às tensões resultantes com a primeira esposa: “Casei com uma segunda mulher… e ir visitá-la causava conflitos com a minha primeira mulher” (K-14). Isso ilustra como expectativas estruturais e familiares podem contribuir para gatilhos situacionais da VPI.
Cinco participantes descreveram ter matado a parceira, geralmente citando uma infidelidade ou um insulto percebidos como gatilhos imediatos.
“Eu amava minha mulher, mas ela me traiu. Peguei ela com outro… Atirei nela e no amante.” (K-28)
“Aconteceu num momento de raiva. Minha mulher me insultou. Peguei minha arma registrada e atirei nela.” (K-6)
Essas narrativas refletem a percepção dos próprios participantes de ameaças à honra e ao controle em suas relações. Em consonância com a literatura nacional e internacional sobre feminicídio, os homicídios entre parceiros íntimos estão frequentemente ligados a infidelidades ou insultos percebidos, o que demonstra o enquadramento cultural e relacional da violência (por exemplo, Özpınar e Acar, 2022; OMS, 2021).
Esse tema capta como os participantes racionalizavam, normalizavam ou justificavam moralmente o uso da violência. Em vez de descrever incidentes específicos, essas falas refletiam crenças gerais de que a violência era parte necessária da vida familiar, um instrumento disciplinar ou uma expressão da masculinidade.
“O homem tem de controlar a casa dele. Se a mulher sai da linha, ele tem de colocá-la nos eixos.” (K-12)
“A gente cresceu vendo nossos pais baterem nas nossas mães. Para nós, era normal. Não parecia errado.” (K-8)
“Às vezes as palavras não funcionam. É preciso usar as mãos para que elas entendam.” (K-23)
Dos 44 participantes, 11 (25%) racionalizavam ou normalizavam explicitamente a violência como parte da vida familiar ou da masculinidade, o que indica que, embora as normas de gênero tradicionais fossem generalizadas (37/44, 84%), a racionalização da violência estava presente apenas em parte dos homens. Essas falas mostram como as normas culturais e familiares legitimam o uso da violência, revelando crenças internalizadas sobre masculinidade e autoridade, sem implicar que todos os homens que aderem a normas tradicionais justifiquem a violência.
As expectativas de gênero tradicionais eram generalizadas em quase todas as entrevistas. Os participantes descreviam a obediência das mulheres e sua responsabilidade doméstica como fatos sociais inquestionáveis.
“Minha mulher tem de cuidar dos filhos, cozinhar e fazer o serviço de casa. Se não fizer, para que ela serve?” (K-8)
“A mulher tem de respeitar o marido. Senão, não é uma esposa de verdade.” (K-10)
Embora algumas falas refletissem visões mais igualitárias, como “O homem e a mulher devem ser iguais em casa… Até o nosso Profeta ajudava a esposa” (K-36), eram exceções e não alteram o predomínio das normas tradicionais na amostra.
A violência contra as mulheres é um dos resultados mais destrutivos da desigualdade de gênero na sociedade e afeta milhões de mulheres no mundo física, psicológica e economicamente. A presente pesquisa sobre homens que cometem violência contra suas parceiras examinou as raízes sociodemográficas do comportamento violento, as atitudes em relação à violência e as experiências de violência extrema, como o assassinato da esposa, por meio de diversos temas, dos traumas na infância às normas de gênero. Essas características de fundo, em particular a baixa escolaridade, as dificuldades econômicas e a exposição a normas patriarcais tradicionais, provavelmente moldaram a maneira como os participantes percebiam, justificavam e narravam suas experiências de violência. Os resultados também podem ser interpretados à luz do referencial ecológico, no qual o trauma e o temperamento, no nível individual, interagem com forças relacionais, comunitárias e sociais. O trauma precoce pode prejudicar a regulação emocional e aumentar a impulsividade, mecanismos que elevam o risco de usar a violência nas relações íntimas. No entanto, em sociedades patriarcais como a Turquia, essas vulnerabilidades pessoais são reforçadas por expectativas culturais que normalizam a autoridade e o controle masculinos, ampliando o risco de VPI e feminicídio. Por isso, as intervenções precisam abordar simultaneamente a recuperação do trauma, a regulação emocional e as normas de gênero socioculturais. Além disso, futuras pesquisas comparativas entre países poderiam explorar como determinantes culturais e sociais mais amplos, como os índices de desigualdade de gênero e as normas nacionais, interagem com fatores de risco individuais para influenciar a prevalência da VPI. Também é importante observar que as explicações dos homens para a violência se baseiam em percepções autorrelatadas, que podem envolver justificação ou racionalização, e não uma causalidade objetiva. Essas narrativas, porém, continuam valiosas para compreender como os autores constroem sentido em torno de seu comportamento.
Estudos anteriores identificaram fortes ligações entre a prática de VPI e os antecedentes sociodemográficos e psicossociais dos homens. A baixa escolaridade e as dificuldades econômicas têm sido associadas de forma consistente a taxas mais altas de VPI, em parte por causa do estresse, da falta de habilidades de comunicação e da adesão a normas de gênero patriarcais (Capaldi et al., 2012; Fulu et al., 2017). Ideologias de gênero que equiparam a masculinidade ao controle e à dominação normalizam ainda mais o comportamento violento (Jewkes et al., 2015). Além disso, um amplo conjunto de evidências indica que a exposição à violência na infância, como testemunha ou como vítima, está entre os preditores mais fortes da prática futura de VPI (Widom e Wilson, 2015). Esses resultados estão alinhados aos temas deste estudo sobre a transmissão intergeracional da violência, mostrando que o trauma precoce, as normas de gênero rígidas e a desigualdade social convergem para sustentar o comportamento violento dos homens na vida adulta. Diferentemente da maioria dos estudos anteriores, centrados sobretudo na perspectiva das vítimas ou baseados em delineamentos quantitativos, esta pesquisa oferece uma rara compreensão qualitativa das experiências vividas e dos processos de construção de sentido de homens presos que cometeram VPI na Turquia. Ao situar as narrativas dos homens em seus contextos socioculturais e de desenvolvimento, o estudo amplia o conhecimento existente sobre a transmissão intergeracional e cultural da violência.
A grande maioria dos entrevistados neste estudo eram homens com baixa escolaridade e baixo nível econômico. As mulheres expostas à violência tinham baixa escolaridade e estavam desempregadas. Pesquisas anteriores semelhantes sobre as características de homens presos por violência contra as mulheres também constataram baixa escolaridade entre esses homens e que eles trabalhavam em empregos de baixa renda. A baixa escolaridade e as dificuldades financeiras entre os homens podem ser fatores que contribuem para a prática da violência. O fato de mulheres com mais escolaridade serem menos tolerantes à agressão também é coerente com a constatação de que mulheres com baixa escolaridade estão mais expostas à violência (Magrin e Oliveira, 2023). Uma das explicações apontadas para as taxas mais altas de violência contra a esposa entre homens com baixa escolaridade pode ser que esses homens não aprenderam modelos de comportamento não violentos. De fato, estudos recomendam que se ensinem e se mostrem aos homens modelos de relacionamento não violentos, que beneficiem tanto a eles quanto às mulheres (Magrin e Oliveira, 2023).
A maioria de nossos entrevistados havia sido exposta à violência e/ou a havia presenciado na família e em seus ambientes sociais. Da mesma forma, estudos anteriores enfatizaram que ter sido ou não exposto à violência na infância é um dos preditores mais fortes de um homem bater na esposa. Estudos também relataram que homens que praticam repetidamente violência contra mulheres e crianças também têm histórico de violência intrafamiliar e foram expostos à violência e/ou a presenciaram na família (Fulu et al., 2017; Goodman et al., 2020; Jeremiah et al., 2017; Zietz et al., 2020). Meninos que presenciam a violência do pai têm três vezes mais probabilidade de bater na própria esposa quando se casam (Campbell, 1993). O fato de presenciar violência intrafamiliar aumentar os níveis de raiva (Ayhan, 2024) e a aceitação e a prática de violência (Ayhan e Özkan, 2016) revela a importância da aprendizagem social e do trauma no contexto da violência. Pode ser útil, portanto, implementar programas de prevenção da violência e de desenvolvimento de habilidades de comunicação saudável para crianças e pais, a fim de romper esse ciclo. Alguns participantes desta pesquisa tinham histórico de autolesão. Esses resultados indicam a presença de fatores de risco comuns subjacentes às tendências violentas e aos comportamentos de autolesão.
Vários entrevistados também haviam sofrido negligência na própria infância. Estudos sobre o tema mostram de forma consistente que experiências adversas na infância, inclusive a negligência, podem afetar a tendência a recorrer à violência na vida adulta (Fulu et al., 2017; Goodman et al., 2020; Jeremiah et al., 2017; Zietz et al., 2020). Pesquisas sobre os motivos da violência contra as mulheres na vida adulta entre homens negligenciados na infância mostraram que diversos fatores psicológicos e sociais estão em sua base. Entre eles estão traumas vividos em idade precoce, transtornos de personalidade antissocial e estratégias de enfrentamento inadequadas (Gauthier et al., 2024; White e Widom, 2003). Em síntese, os efeitos da negligência na infância são complexos e multidimensionais. As medidas que visam reduzir esses efeitos são, portanto, importantes para diminuir o risco de VPI.
Alguns participantes deste estudo e seus parentes tinham antecedentes criminais, e alguns familiares os incentivavam a cometer crimes. Estudos sobre o tema constataram que homens que praticam violência contra os pais também têm registros de outras violências intrafamiliares (Madureira et al., 2014) e trajetórias criminais (Walby e Myhill, 2001). Por outro lado, resultados que apontam traumas na infância e dissonância cognitiva nas relações familiares em pessoas envolvidas com o crime revelam o papel importante da infância e da família no ciclo do crime (Ayhan et al., 2024). A família pode afetar as perspectivas e as disposições das pessoas em relação ao comportamento criminoso, e a estrutura familiar pode ter papel decisivo no desenvolvimento de atitudes ligadas ao crime. É importante, portanto, instituir políticas preventivas.
As falas de alguns entrevistados nesta pesquisa também sugerem que apresentavam, na infância, comportamentos antissociais e de desajuste social. Um estudo anterior sobre delinquência juvenil mostrou que o temperamento e a psicopatia tinham capacidade preditiva semelhante, mas que nenhum dos dois era mais significativo do que um histórico anterior de crime e violência para prever a criminalidade futura (DeLisi et al., 2018). São necessárias novas pesquisas para compreender melhor o efeito dos comportamentos da infância sobre as tendências à violência em homens que cometem violência contra as mulheres.
Os entrevistados apresentaram explicações para a violência contra as parceiras, entre elas os papéis que esperavam delas, o ciúme, o uso de álcool e substâncias, a própria mãe, a sogra, a segunda esposa e as dificuldades financeiras. Da mesma forma, estudos anteriores com homens violentos com as esposas descreveram como fatores importantes o uso de álcool e drogas (Madureira et al., 2014), a raiva sentida diante da infidelidade e das tentativas das mulheres de pôr fim ao casamento e a possessividade sexual masculina (Fleming et al., 2015; Wilson e Daly, 1996). Esses resultados mostram que não só as características individuais, mas também as normas culturais, incluindo os papéis de gênero e o senso de posse dos homens, são fatores atuantes na base da VPI.
A infidelidade e a incapacidade de lidar com a falta de respeito percebida foram apontadas pelos participantes deste estudo como explicações para o feminicídio. Estudos anteriores citaram diversos fatores como razões para o assassinato de esposas, entre eles o ciúme sexual e a suspeita de infidelidade, a desigualdade social e de gênero, os processos de separação e divórcio, o uso de álcool e substâncias, a violência intrafamiliar preexistente e problemas psicológicos (Adinkrah, 2008; Chimbos, 1998). Compreender esses fatores é muito importante para prevenir os assassinatos de esposas e desenvolver estratégias adequadas.
O exame das atitudes dos participantes em relação à violência mostrou que alguns a racionalizavam e que outros haviam presenciado uma violência racionalizada. É importante compreender como os homens que recorrem à violência a racionalizam, para reduzir a exposição à violência e desenvolver intervenções culturalmente adequadas. Os dados sobre a racionalização da violência revelaram que uma série de fatores sociais, culturais e religiosos patriarcais se combinam para construir a masculinidade tradicional. Eles também mostram que o uso da violência pelos homens é uma tática destinada a controlar as mulheres e a afirmar autoridade e poder sobre elas (Sikweyiya et al., 2020). Isso mostra como as atitudes em relação à violência são moldadas pelas experiências passadas das pessoas e por seus contextos sociais e enfatiza que as intervenções de prevenção da violência precisam se concentrar na mudança dessas atitudes.
Os participantes desta pesquisa também descreveram papéis de gênero desiguais, como os papéis das mulheres em casa e em relação ao marido, e seus papéis sociais de gênero. Pesquisas semelhantes encontraram, entre homens que recorrem à violência, atitudes patriarcais, de desigualdade de gênero e uma tendência à desigualdade no casamento (Özpınar e Acar, 2022; Sikweyiya et al., 2020; Walby e Myhill, 2001). Também se relatou que homens que praticam violência contra as parceiras a consideram um meio de impor disciplina às esposas (Sikweyiya et al., 2020). As sociedades patriarcais podem normalizar indiretamente a violência contra as mulheres ao enfatizar valores como poder, controle e obediência na criação dos meninos. Valorizar o uso da violência em detrimento da expressão emocional na criação dos meninos aumenta o risco de que eles internalizem a violência (Andrus, 2020). Esses resultados também devem ser interpretados no contexto sociocultural e histórico-cultural da Turquia. Nas regiões do Sudeste onde este estudo foi realizado, os sistemas familiares patriarcais, os códigos de honra masculina e as expectativas morais de base religiosa moldam as relações de gênero cotidianas e normalizam estruturas de poder desiguais entre homens e mulheres (Dikmen e Münevver, 2020; Sakalh-Uğurlu e Glick, 2003). Oferecer esse enquadramento cultural ajuda o público leitor internacional a compreender o sentido das normas de gênero identificadas neste estudo. Seria útil oferecer aos homens formações de conscientização que os ajudem a repensar os papéis de gênero desiguais e a modificar suas atitudes e comportamentos em relação a eles. Os homens que praticam violência contra as mulheres geralmente têm baixa escolaridade e são difíceis de alcançar na comunidade, e o tempo que passam na prisão pode representar uma oportunidade útil para oferecer esse tipo de formação.
Este estudo tem várias limitações. Primeiro, como foi realizado em uma prisão fechada, os participantes podem ter sido condenados por outros crimes além da VPI (exceto os que mataram a esposa). No entanto, os dados detalhados sobre esses delitos não estavam disponíveis para a pesquisadora, pois o acesso aos antecedentes criminais foi restringido pelo Ministério da Justiça. Os resultados não podem, portanto, ser interpretados apenas como características dos homens que cometem VPI. Embora a pesquisa tenha envolvido um grupo de estudo grande, sua natureza qualitativa impede generalizá-la a todos os homens que cometem VPI. Segundo, não pude entrevistar as esposas dos homens que cometeram violência, de modo que as explicações relatadas para a violência não puderam ser comparadas entre as perspectivas das vítimas e dos autores. Estudos futuros com entrevistas separadas com os dois membros do casal podem permitir uma análise mais detalhada da diferença entre os sexos quanto aos motivos da violência, segundo o mesmo padrão. Outras pesquisas centradas especificamente em homens que praticam violência contra as parceiras sem envolvimento em outras formas de comportamento criminoso poderiam oferecer uma compreensão mais clara dos fatores subjacentes à VPI. Além disso, estudos comparativos transculturais ajudariam a esclarecer como a desigualdade de gênero e as normas sociais contribuem para as variações do risco de VPI em diferentes contextos nacionais e culturais. Esses resultados devem ser interpretados no contexto cultural mais amplo da Turquia, patriarcal e baseado na honra, em que normas de gênero rígidas continuam a moldar a percepção dos homens sobre poder, controle e honra familiar. Os resultados estão alinhados ao referencial ecológico de Heise (1998), ilustrando como a violência emerge de fatores que interagem nos níveis individual, relacional, comunitário e social. Essa lente teórica ajuda a explicar como o trauma precoce dos homens, os valores patriarcais e os ambientes sociais moldam em conjunto seus comportamentos violentos.
Esta pesquisa revela que os homens que cometem violência contra as parceiras também têm uma história de violência profundamente enraizada na própria vida. O trauma, a violência e a negligência vividos pelos participantes na própria infância ocupam um lugar importante para esclarecer a transmissão da violência de uma geração a outra. Entre as razões pelas quais os homens cometem violência contra as parceiras estão a percepção desigual dos papéis sociais de gênero, o fato de a esposa não adotar os papéis esperados dela, o ciúme, a raiva, o abuso de álcool e substâncias, a influência de familiares, os problemas financeiros, a infidelidade e a falta de respeito. A infidelidade e a incapacidade de lidar com insultos surgiram como causas básicas dos assassinatos de esposas. Esses resultados mostram como as tendências violentas entre os homens são estimuladas pelas desigualdades de gênero na sociedade, pela violência intrafamiliar e pelos traumas intergeracionais. Isso, por sua vez, destaca a importância de elevar os níveis de escolaridade, desenvolver políticas que apoiem a igualdade de gênero e abordar os traumas vividos na infância, se se quiser prevenir a violência.
Este estudo oferece compreensões importantes, capazes de orientar tanto a prática clínica quanto as políticas sociais. As equipes clínicas, especialmente de saúde mental e de serviço social, podem se beneficiar de compreender a interação entre as experiências adversas precoces dos homens, as normas de gênero patriarcais e os comportamentos violentos. Rastrear, entre os pacientes do sexo masculino, histórico de trauma na infância e estratégias de enfrentamento desadaptativas pode ajudar a identificar precocemente pessoas em risco de cometer VPI. Integrar abordagens informadas pelo trauma e transformadoras das relações de gênero nos programas de reabilitação para pessoas condenadas pode melhorar os resultados do tratamento e reduzir a reincidência. No plano social, os resultados evidenciam a necessidade urgente de intervenções comunitárias que enfrentem os papéis de gênero rígidos e normalizem dinâmicas relacionais baseadas na igualdade. Campanhas de educação pública, currículos escolares de igualdade de gênero e programas de diálogo comunitário que envolvam os homens na redefinição da masculinidade mostraram reduzir as atitudes favoráveis à violência. Implementar essas estratégias em regiões patriarcais como o sudeste da Turquia poderia ajudar a prevenir a transmissão intergeracional da violência. Do ponto de vista reflexivo, observei que alguns participantes eram inicialmente reservados, mas se tornavam mais expressivos à medida que a relação de confiança se construía. Embora eu não tivesse vivido experiências semelhantes, manter a empatia e uma escuta sem julgamentos incentivou os participantes a descrever não só seus atos, mas também suas emoções e racionalizações. Os resultados indicam que, embora o trauma intergeracional fosse frequente entre os participantes (exposição a abuso físico na infância, negligência e violência familiar), apenas uma parte racionalizava ou justificava explicitamente o próprio comportamento violento (11/44; 25%). Isso sugere que o trauma, por si só, não leva de modo uniforme à justificação moral da VPI; ele interage com normas patriarcais internalizadas para moldar a maneira como alguns homens interpretam e racionalizam seus atos. A coexistência de remorso e justificação observada nas entrevistas pode, portanto, refletir essa interação matizada entre experiências adversas precoces e expectativas de gênero reforçadas pela cultura (Jewkes et al., 2015; Shakoor et al., 2022). Muitas vezes me impressionou a coexistência de remorso e justificação nos relatos dos participantes, que revelava o quanto o trauma intergeracional e as normas patriarcais se entrelaçam na maneira como os homens se percebem. Do ponto de vista da pesquisa, estudos futuros deveriam empregar delineamentos longitudinais e de métodos mistos para explorar os mecanismos causais que ligam o trauma na infância, a socialização e a prática de VPI na vida adulta. Estudos comparativos que envolvam tanto quem comete quanto quem sofre a violência, assim como pesquisas transculturais, aprofundariam ainda mais a compreensão dos caminhos complexos que sustentam a VPI. Além disso, avaliar a eficácia de intervenções psicossociais em prisões voltadas à mudança das normas de gênero e às habilidades de regulação emocional ofereceria orientações baseadas em evidências para as instâncias de formulação de políticas e as equipes de campo.
Em consonância com a literatura recente, as intervenções futuras poderiam se concentrar em fatores estruturais e relacionais destacados no referencial ecológico de Heise (1998), como o apoio familiar, os programas de parentalidade e a estabilidade econômica, que mostraram reduzir fatores de risco associados à VPI (Grych et al., 2015; Jewkes et al., 2020). Esses programas atuam sobre influências relacionais e comunitárias, complementando as estratégias centradas no indivíduo, e ajudam a criar ambientes que previnem a transmissão intergeracional da violência.
Complexe Systémique: a reter
Dar voz a homens condenados por violência conjugal é raro, e é esse o interesse deste estudo realizado em uma prisão do sudeste da Turquia. O modelo ecológico de Heise, que articula história individual, relações, comunidade e normas sociais, fala diretamente a uma leitura sistêmica: a violência aparece como algo transmitido e sustentado, e não como um traço isolado. O resultado mais útil é também o mais matizado: os traumas na infância são muito frequentes, mas apenas um quarto dos homens justifica explicitamente sua violência. O trauma, portanto, esclarece sem desculpar. Ainda assim, é preciso ler essas “razões” com cautela: são relatos de autores, anotados à mão sem gravação, codificados por uma única pesquisadora, sem a perspectiva das vítimas, e alguns números variam entre o texto e a tabela 2. Na clínica, o risco é confundir a compreensão de uma história com a atenuação da responsabilidade. Para ler junto com a entrevista com Allan Wade sobre dignidade e violência e com o artigo sobre a terapia de casal focada na violência.
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Tradução não oficial em português de Dinâmicas familiares, trauma na infância e normas de gênero entre homens condenados por violência conjugal na Turquia, de Fatma Ayhan, Family Relations, vol. 75, no 4 (2026), doi: 10.1111/fare.70214, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family dynamics, childhood trauma, and gender norms among men convicted of partner violence in Türkiye”, publicado em Family Relations (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Ayhan, F. (2026). Dinâmicas familiares, trauma na infância e normas de gênero entre homens condenados por violência conjugal na Turquia (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/dinamicas-familiares-trauma-na-infancia-e-normas-de-genero-entre-homens-condenados (Obra original publicada em 2026 em Family Relations, 75(4), 2608-2629 (2026); republicada em 2026 por Family Relations, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/fare.70214)
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