Journal of Solution Focused Practices · Ensaio
E se olhássemos a abordagem focada nas soluções não como um método (como se faz?) mas como uma estética (o que a torna bela?)? Mark McKergow toma a palavra emprestada da pintura: os impressionistas, ridicularizados pelo Salão de Paris, não pintavam pior que Canaletto, valorizavam outra coisa. Ele propõe cinco elementos de uma estética FS: a brevidade, a autonomia do cliente, a aceitação radical, ficar na superfície e o valor dado às pequenas diferenças. Nenhum fala da pergunta do milagre nem da escala: as técnicas são apenas corolários do que se acha belo. Daí, talvez, a incompreensão teimosa das escolas clássicas, que amam a duração e a profundidade.
Tradução não oficial para o português. Este artigo é a tradução de Solution Focused Work as an Aesthetic, de Mark McKergow, publicado no Journal of Solution Focused Practices (2019), doi: 10.59874/001c.75081, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para o português e reformatado, a tabela 1 sendo apresentada em ficha, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelo autor nem pela editora, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Resumo. Este artigo olha o trabalho focado nas soluções (FS) de uma maneira nova: como uma estética (o que o torna belo?) em vez de um método (como se faz?). O termo vem do mundo da arte, onde diferentes escolas de pintura podem ser descritas como tendo estéticas diferentes. Partindo de uma definição do termo, proponho cinco elementos de uma estética FS: a brevidade, a autonomia do cliente, a aceitação radical, ficar na superfície e valorizar as pequenas diferenças. Embora não estejam presentes em cada pedaço de trabalho FS, são coisas para as quais tendemos, qualidades que me trazem (a mim ao menos) satisfação, alegria e razões para continuar a apoiar, promover e desenvolver a FS.
Palavras-chave: focado nas soluções, beleza, estética, satisfação, qualidades
Este artigo traz uma maneira diferente de olhar o Foco nas Soluções (FS): o que nós, praticantes FS, achamos “belo” no nosso trabalho? Esse olhar poderia estender-se a outras formas da tradição da terapia breve, mas quero concentrar-me aqui na FS em particular. Esse exame pode ajudar a esclarecer a resistência e a ignorância duradouras da FS por parte dos adeptos de outras escolas. Se trabalhamos segundo uma estética diferente, eles não valorizarão as mesmas coisas e ficarão confusos, irritados e perplexos diante do que fazemos (e possivelmente vice-versa, claro).
Fui imediata e apaixonadamente cativado pelo trabalho FS quando o descobri em 1993, por razões que não me eram completamente claras na época. Ao longo das últimas três décadas, persisti nesse compromisso, e vim a perceber que esses aspectos estéticos são muito importantes para mim. Pergunto-me agora se esses aspectos (raramente discutidos e frequentemente pressupostos) são partilhados, e em que medida. Este artigo procura apresentá-los explicitamente. É uma visão geral de por que, pessoalmente, amo a prática FS. E você?
Consultando o dicionário (Aesthetic, s. d.), encontramos as seguintes definições de “estético”. Adjetivo: relativo à beleza ou à apreciação da beleza (exemplo: “os quadros dão grande prazer estético”). Substantivo: conjunto de princípios subjacentes à obra de um artista ou de um movimento artístico particular (exemplo: “a estética cubista”).
O termo vem do grego aisthētikos, “percepção ligada aos sentidos”. Embora a percepção sensorial seja claramente importante, a ideia de estética significa mais do que isso. David Hume, filósofo do século XVIII e bom cozinheiro também, escreveu que a delicadeza do gosto não é apenas “a capacidade de detectar todos os ingredientes de uma composição”, mas também a nossa sensibilidade “às dores tanto quanto aos prazeres que escapam ao resto da humanidade” (Hume, 1987, p. 5). Trata-se de respostas afetivas e emocionais ponderadas, tanto quanto de distinções sensoriais.
Uma porta de entrada para este tema é o mundo da arte, e em particular a pintura. Durante séculos, os artistas esforçaram-se por produzir representações de (digamos) paisagens detalhadas, nítidas e figurativas. Vejam os célebres quadros de Veneza de Canaletto, ou o pintor britânico Thomas Gainsborough. Nesses casos, os artistas faziam abundantes esboços preparatórios e depois elaboravam no ateliê uma obra final muito detalhada, construindo a composição para ser agradável (esteticamente) e não como o instantâneo de um momento particular. Ainda hoje, o resultado é sensacional.
Na segunda metade do século XIX, porém, pintores começaram a explorar com mais vigor o que acontecia quando saíam do ateliê para trabalhar “en plein air”, ao ar livre, no local. Pintores como John Constable e J. M. W. Turner haviam começado a explorar isso no início do século XIX, mas Claude Monet, Pierre-Auguste Renoir, Alfred Sisley e outros levaram-no a novos extremos no início dos anos 1860. O seu trabalho concentrava-se na luz e na imediatez do momento, e era rotineiramente recusado pelo Salão de Paris, a exposição oficial de referência, que favorecia os pintores de estilo clássico. O imperador Napoleão III viu as obras recusadas e decretou que o público deveria poder julgar por si mesmo. Organizou-se assim um “Salão dos Recusados”. Embora muitos tenham vindo para rir, essa exposição foi um ponto de encontro decisivo para os adeptos da nova estética “impressionista”, que tomou o nome de Impressão, nascer do sol, de Monet. Como tantas vezes na história, o nome veio de um insulto do crítico Louis Leroy, que no seu artigo “A exposição dos impressionistas” qualificou a obra de Monet de esboço, na melhor das hipóteses, nada parecido com uma obra acabada. (Para mais detalhes sobre o desenvolvimento do impressionismo, remete-se o leitor ao excelente site do Metropolitan Museum de Nova York; Samu, 2004.)
A estética impressionista tem muito mais a ver com captar a “impressão” de um momento; a pincelada é maior e mais ousada, o efeito mais espontâneo. Se olhamos um quadro impressionista com uma estética clássica, vemos o que Leroy e outros viram: borrões inacabados, incompletos, sem consequência duradoura. Se olhamos Caravaggio e Gainsborough com uma estética impressionista, vemos uma “perfeição” estilizada, sobretrabalhada, que diz pouco da resposta do artista (ou do espectador). (É interessante que o impressionismo tenha surgido mais ou menos na mesma época que a fotografia, e possa ser visto como uma alternativa consciente a ela.)
Essas duas estéticas são, claro, interessantes e valiosas. O que procuro apontar aqui é a maneira como um paradigma alternativo, uma nova maneira de olhar as coisas, pode ser visto pela lente estética: o que torna algo belo? O que é valorizado, prezado, admirado, notado, aplaudido? Tem a ver com o que faz você dizer “Sim!” e o que faz você dizer “Argh!”. Neste artigo, procurarei explorar o que me faz gritar “Sim!” no trabalho FS, e assim lançar um pouco mais de luz sobre o que significa trabalhar numa estética FS.
O que se segue é a minha lista das coisas que amo e valorizo na prática FS. A lista não é completa, claro, e é pessoal. Espero que muitos praticantes FS encontrem reconhecimento e ressonância em pelo menos alguns desses itens.
A FS chamou-se originalmente terapia breve focada nas soluções (TBFS) por uma razão: é breve! A versão original da terapia breve interacional nasceu no Brief Therapy Center do Mental Research Institute de Palo Alto, conduzido por John Weakland, Paul Watzlawick e Dick Fisch. Essa versão da prática, chamada modelo MRI ou terapia breve de resolução de problemas, ainda existe e baseia-se num quadro de dez sessões (Segal, 1991). Na época (nos anos 1970), isso era de uma brevidade surpreendente, comparado aos anos de tratamento semanal considerados normais pelos praticantes da tradição psicodinâmica.
Quando Steve de Shazer e Insoo Kim Berg passaram de frequentar o MRI a criar o seu próprio centro em Milwaukee, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, queriam construir sobre esse trabalho e desenvolveram a ideia de que a terapia breve devia ser “tão breve quanto possível, e nem uma sessão a mais” (de Shazer, no seu prefácio a Dolan, 1991). É um passo além, mesmo em relação a uma base de dez sessões: cada sessão poderia ser a última, e é conduzida com essa possibilidade em mente. A escolha de continuar cabe ao menos em parte ao cliente; voltaremos a esse aspecto da partilha de poder.
A própria ideia de que uma terapia possa ser eficaz em uma ou duas sessões ainda é considerada extravagante por alguns. Os praticantes da tradição psicanalítica desenvolveram, aliás, o conceito de “fuga para a saúde”, em que a afirmação do cliente de estar subitamente e completamente curado é vista como uma reação defensiva ao tratamento, e portanto como sinal de necessidade de ainda mais terapia. Pode-se ver nisso uma espécie de armadilha à Catch-22: se o cliente diz que está melhor, precisa de mais tratamento. E se diz que não está melhor, claro, precisa de mais tratamento!
Por que a brevidade é um fim importante em si? Claro, a eficácia, os resultados do tratamento, importa. Há achados influentes (Wampold, 2001) que afirmam que todas as formas de terapia, ao menos as baseadas nos cinco “fatores comuns”, são tão eficazes umas quanto as outras. Wampold não olha para a eficiência, o tempo que leva para chegar a um resultado eficaz, nem leva em conta a perturbação que participar do tratamento representa para o cliente. Se todas as terapias são igualmente eficazes, não é melhor escolher a que leva menos tempo? Isso ajuda o cliente a retomar a sua vida mais cedo, e libera o praticante para ajudar novos clientes.
As vantagens disso são particularmente claras quando os recursos são limitados, como no National Health Service (NHS) britânico. A eficiência de um serviço é diretamente proporcional tanto ao número de praticantes quanto à sua duração média de tratamento, supondo que cada praticante faça o mesmo número de sessões por semana. Segundo o relatório We Still Need To Talk de 2013 (MIND, 2013), mais de uma pessoa em dez havia esperado mais de um ano para ver um terapeuta, e cerca de 50% haviam esperado mais de três meses. A brevidade, por meio de tratamentos eficazes, é claramente valiosa para um serviço público. Continua sendo um mistério por que a opinião corrente de que mais longo é melhor mantém tanto domínio.
Outro benefício da brevidade é que um tratamento curto devolve o cliente mais cedo à sua própria vida. Há uma distinção nítida entre os praticantes que veem o ato de atender um cliente como valioso em si e os que procuram sair da vida do cliente assim que podem. O objetivo da FS é, como dizia Steve de Shazer (citado pelos seus colaboradores de longa data do BRIEF, 2019), ecoando um velho aforismo por vezes atribuído a Edna St. Vincent Millay, devolver o cliente a uma vida de “uma maldita coisa depois da outra”. É a vida cotidiana tal como a conhecemos: não um deslizar sem falhas nem esforço, mas uma sequência de altos e baixos, que o cliente administra sem ajuda profissional. Em contrapartida, os que procuram tratamento em geral o fazem porque a sua vida se tornou “a mesma maldita coisa de novo e de novo”: algo não para de acontecer que eles não querem, ou não acontece quando o procuram. O primeiro caso não é visto, na estética FS, como motivo de tratamento; o segundo, sim. O mesmo vale para a terapia breve de resolução de problemas do MRI: quando a mesma maldita coisa já não acontece, isso basta por enquanto.
A brevidade não é uma simples questão de pequeno número de sessões ou de tempo limitado. Trata-se de o trabalho ser tão breve quanto possível, sujeito a uma conclusão satisfatória ou a um encaminhamento. Isso não quer dizer que cada pessoa tenha um único problema na vida. Como coach FS de dirigentes, sou por vezes contratado para uma série de sessões (dez, por exemplo). Não considero isso fora da estética breve, pois não usamos as dez sessões para tratar de uma única questão. Cada conversa é em geral sobre uma questão nova, algo fresco na mente do cliente, ou reflete uma situação em desenvolvimento de que já falamos. E o cliente pode decidir que já teve o bastante de um tema, ou mesmo de mim, o que nos leva ao aspecto seguinte de uma estética FS: o valor dado à autonomia do cliente.
No mundo cotidiano normal, as pessoas tomam decisões sobre a própria vida: o que fazer, com quem estar, aonde ir. Essas decisões nunca são o único fator que determina o que acontece. Há sempre outros contextos e outras forças em jogo. Uma das minhas citações favoritas é do biólogo Steven Rose (1997) que, parafraseando Karl Marx, observou que “criamos o nosso próprio futuro, mas não em circunstâncias que escolhemos” (Rose, 1997, p. 309). Vale a pena considerar, então, que no trabalho terapêutico tem sido normal que os praticantes tomem decisões pelos seus clientes, e por vezes contra eles.
Isso vem de uma velha versão da relação médico-paciente, em que, nas décadas passadas, a palavra do médico fazia lei, cabendo ao paciente o papel de beneficiário grato e dócil da competência do médico. Claro, na véspera de uma cirurgia cerebral, queremos alguém competente no comando, e ouvimos seriamente os seus conselhos. O risco é que essa relação se torne desequilibrada, unilateral e potencialmente abusiva. Se o médico se torna uma figura de autoridade incontestável, e talvez até alguém pago para fazer a relação durar, os riscos de tratamentos longos demais e de clientes desempoderados são claros.
A posição FS tem sido, em linhas gerais, que é o cliente quem toma boa parte das decisões. Quais são as suas esperanças para a terapia? O que ele vai fazer a respeito? Quando as coisas estão boas o bastante para parar de vir? Na vida cotidiana, essas perguntas cabem claramente a nós enquanto indivíduos. No mundo da terapia, porém, isso pode ser visto como uma revolução que rompe o paradigma. Enquanto a relação médico-paciente convencional pode ser caracterizada como pai-filho (na tradição da análise transacional, ver por exemplo Berne, 1958), a relação praticante-cliente FS é muito mais adulto-adulto. Ambos têm responsabilidades, um papel a desempenhar, prioridades, e isso deve manter-se tão equilibrado quanto possível. Nos anos 1990, participei de um workshop com Bill O’Hanlon em que ele nos instava a encontrar o adulto saudável em cada um, em réplica pontiaguda à tendência na moda, e não FS, de ver os nossos clientes como crianças feridas ou coisa parecida.
Claro, a autonomia do cliente não é automática nem prevalece em todas as circunstâncias. Se o cliente parece pôr-se em perigo, ou pôr outros em perigo, o praticante tem claramente escolhas a fazer. Deve informar outras pessoas? Acionar procedimentos de proteção? São questões de julgamento profissional, que não se devem subestimar. Há outras situações em que restrições externas, decisões judiciais, medidas de liberdade condicional ou outras questões de direito, limitam a liberdade de ação do cliente. Pode-se levá-las em conta de várias maneiras, com a autonomia do cliente delimitada em vez de suprimida. Em todas essas situações, os limites da autonomia do cliente são vistos como temas de discussão, e idealmente de acordo com o cliente, sobre os próximos passos a dar.
Há aqui uma interface com a brevidade discutida acima. A autonomia do cliente inclui a sua escolha de decidir quando o tratamento terminou, ou que deseja ver outra pessoa. A FS encontrou um lar saudável no mundo do coaching nas últimas duas décadas. Uma razão pode ser que a terapia FS se parece mais com o coaching do que muitas outras formas de prática, de modo que o ajuste é claro e natural desde o início. Os clientes do coaching não são em geral vistos como pessoas vulneráveis a proteger, mas como indivíduos informados que decidem por si mesmos procurar apoio. A International Coach Federation (2019) define o coaching como “uma parceria com os clientes num processo estimulante e criativo que os inspira a maximizar o seu potencial pessoal e profissional”. A ênfase na parceria com os clientes parece-me combinar claramente com a estética da FS.
Se consideramos que o cliente toma as suas próprias decisões, devemos também pensar com muito cuidado antes de tentar discutir com ele. Essa competência de não discutir é por vezes chamada “aceitação radical” (de Shazer, 1997). Ele sustentava no mesmo artigo que a resposta do cliente “precisa ser aceita plena e literalmente”, o que é uma arte mais do que uma ciência e “difícil para muitas pessoas. Exige muita autodisciplina e uma boa dose de escuta atenta. Não é fácil renunciar a julgar quão alto deveria ser o número [da escala], ou quão pouco razoável e irrealista pode ser a resposta inicial ao milagre” (de Shazer, 1997, p. 378).
Uma palavra-chave aqui é a resposta “inicial” a uma pergunta. Uma das preocupações que encontro em quem aprende FS é que os seus clientes possam procurar algo impossível no milagre: o amputado que quer recuperar o membro, a criança enlutada que quer o retorno do pai ou da mãe. E sim, isso pode ser perturbador, de certo modo. É também um desejo muito evidente e sincero, que pode portanto ser aceito com bastante facilidade. Quem não quereria essas coisas? O ponto essencial é que aceitar não significa concordar cegamente e passar adiante. Pode parecer um aceno suave de cabeça, uma expiração, uma espera; esperar é muitas vezes uma boa estratégia, para deixar o cliente prosseguir o seu pensamento. Pode parecer um “Sim, claro…” dito baixinho, seguido de uma pausa para ver o que vem. O que vem em seguida, por vezes após um silêncio muito considerável, pode ser algo como “eu veria mais os meus amigos” ou “eu iria à escola mais contente”. Isso é mais manejável, e pode ser retomado e desenvolvido na conversa.
Acontece que em qualquer resposta real de um cliente a uma pergunta há múltiplos elementos, e é impossível responder a todos igualmente, ou sequer responder. Num exemplo de que gosto particularmente, o psiquiatra sueco e veterano praticante FS Harry Korman (comunicação pessoal, 2009) mencionou, num workshop há alguns anos, a mulher que lhe disse: “Quero ser uma mãe melhor, mas sou uma pessoa tão inútil, tão inútil.”
Há claramente duas partes nesse enunciado. Um praticante centrado no problema talvez quisesse perguntar sobre a inutilidade. Um praticante FS verá claramente a primeira parte, ser uma mãe melhor, como mais evidentemente ligada ao que ela quer. Harry Korman (2009), praticante FS muito experiente que é, encontrou um modo de aceitar as duas e ainda assim promover o elemento focado nas soluções: “Então você acha que é uma pessoa inútil… mas quer ser uma mãe melhor?” (inflexão ascendente no fim, tornando-o uma pergunta e um convite a prosseguir esse fio).
A aceitação radical resume-se a não discutir com o cliente, mesmo quando fazê-lo seria perfeitamente normal e aceitável. No seu livro Preventing Suicide: The Solution-Focused Approach (Henden, 2008), John Henden descreve dez maneiras de aceitar um aparente desejo de suicídio, até e inclusive: “Se você decidisse levar adiante a opção do último recurso: (a) que método usaria? (comprimidos, corda, lâminas de barbear, mangueira de aspirador, armas de fogo etc.) (b) Quão preparado você está, caso decida?” (Henden, p. 129).
No contexto de uma conversa comum, isso soa terrível: poderia parecer que estamos incentivando a pessoa. Mas uma conversa FS não é comum. Houve conversa antes, que começou a explorar a situação do cliente e a construir confiança e conexão nos primeiros dez minutos da sessão. E o próprio Henden diz que, se faz essa pergunta, é para ter uma ideia melhor da seriedade da pessoa: muitas recuam a toda velocidade quando ela é feita. Com as que não recuam, o praticante pode ao menos estar mais consciente do que se passa, continuando a levar o cliente a sério e a aceitar radicalmente o que ele diz.
De Shazer partilhava esse olhar com o seu mentor e amigo de longa data John Weakland. Numa entrevista conjunta de 1994 (Hoyt, 2001), de Shazer fala de levar o cliente a sério, diga ele o que disser sobre a sua situação: “Um cliente diz que tem um problema, então ele tem um problema e é melhor você levar isso a sério. Também é melhor levar a sério se ele diz que não tem problema… alguém o mandou porque ele bebe demais. Ele diz que não bebe demais e que não é um problema. Deixe pra lá. Leve a sério” (p. 21).
Claro, há outras maneiras de fazer avançar esse tipo de conversa sem discutir com o cliente, como perguntar como foi que quem o encaminhou o mandou. E à medida que a conversa se desenvolve, a visão que o cliente tem do que quer pode muito bem desenvolver-se e mudar. Mas se não o levamos a sério desde o início, segue-se imediatamente uma discussão, que permite ao praticante rotular o cliente de “resistente” ou “em negação”, o que contribui pouco para o progresso e muito para o impasse. “Ler nas entrelinhas” é uma distração; ouvir com muita atenção as linhas e formular respostas apropriadas, eis o jogo. Aceitar radicalmente, não discutir com os nossos clientes e não ler nas entrelinhas conduz a outro elemento-chave da estética FS: ficar na superfície.
Nos métodos mais tradicionais de terapia, aconselhamento e práticas afins, é perfeitamente normal ver o comportamento do cliente como a manifestação exterior de algum mecanismo causal interno oculto. Esses mecanismos ocultos assumem diversas formas, do emocional ao neurocientífico, passando pela experiência antiga. A tarefa do terapeuta é ir fundo para descobrir essas causas e ajudar o cliente a lidar com elas. O praticante pode até pretender ser o primeiro a notar essas causas e a sua importância, que o cliente deve então tratar para satisfazer o seu praticante.
No trabalho FS, como já escrevi (McKergow & Korman, 2009), contornamos essas questões potenciais olhando para o “entre”: a interação do cliente com os seus ambientes, incluindo as outras pessoas. Os recém-chegados por vezes não notam de início que as perguntas FS são sempre enquadradas com uma pessoa (muitas vezes o cliente, mas por vezes outros do seu mundo) e as suas interações, e não com motores “internos”. “Quais seriam os primeiros pequenos sinais que você notaria de que as coisas estão ficando um pouco melhores?” é um exemplo típico. A pergunta dirige-se a uma pessoa, a respeito das suas interações. Não a convida à introspecção, a especular sobre os seus sentimentos ou outras questões causais. Procuramos antes orientar a atenção dos nossos clientes para fora, para o mundo e para o que está melhor no passado, no presente e no futuro (Jackson & McKergow, 2002, 2007).
Essa ênfase remonta à visão interacional do Mental Research Institute de Palo Alto (Watzlawick & Weakland, 1977), onde Steve de Shazer e Insoo Kim Berg se conheceram e se entusiasmaram primeiro pela tradição da terapia breve. O método MRI de terapia breve de resolução de problemas procura sair da caixa mental buscando informação específica, concreta, descritiva: quem faz o quê a quem, e quando? O propósito dessas perguntas era identificar os padrões de comportamento que mantinham o problema no lugar, e depois levar o cliente a rompê-los ou perturbá-los. Na FS, que se seguiu na mesma tradição, as mesmas técnicas de questionamento serviram para procurar exceções específicas ao problema, a fim de amplificar esses padrões, e depois para descrever os dias após o milagre, quando o problema desapareceu misteriosamente durante a noite. Essas descrições tornaram-se ainda mais importantes à medida que o trabalho FS se desenvolveu nos últimos anos (Iveson & McKergow, 2016).
Tanto a equipe do MRI quanto os praticantes FS que vieram depois esforçavam-se por tirar a saúde mental da cabeça dos clientes e colocá-la nas suas interações com os outros. Há muito tempo uma confusão conceitual é mantida por quem quer que a doença mental imite a doença física. Nesta última, algo está errado no corpo do paciente, que é preciso diagnosticar e curar. É fácil pensar a doença mental do mesmo modo: algo, talvez a depressão ou a esquizofrenia, esconde-se no corpo ou no cérebro do cliente, e é preciso portanto um diagnóstico acompanhado de reflexão interior ou de medicamentos para curá-la. Não sou de modo algum contra os medicamentos, mas não sou favorável a que se ponham as pessoas sob medicação quando algumas sessões de conversa podem ajudá-las.
Note-se que ficar na superfície, como a aceitação radical, não significa que um enunciado do cliente seja o fim da história. Coisas diferentes emergirão à medida que a conversa terapêutica prossegue, e a tarefa do praticante FS é justamente formular perguntas que ajudem esse processo. Mas não penso que se trate de coisas que sobem à superfície, como se estivessem lá o tempo todo, escondidas nas profundezas, esperando o momento certo para aparecer. O sentido e a consciência deslocam-se durante a conversa, coisas novas ou negligenciadas tornam-se mais ou menos relevantes, e ideias frescas emergem da interação.
É interessante notar como a autonomia do cliente e a aceitação radical convivem felizes com o ficar na superfície. São todas partes importantes que, juntas, compõem uma visão espetacularmente nova do que significa ser humano.
Esta última parte, por enquanto, da estética FS é ligeiramente diferente das outras: o valor que damos às pequenas diferenças, às descrições detalhadas e aos sinais minúsculos por oposição aos sinais enormes. É normal e lógico supor que grandes mudanças na vida e nas circunstâncias do cliente exigirão grandes planos, grandes esforços, compromisso total e transformação completa. É em parte por isso que se supõe que os tratamentos longos devam ser sempre superiores aos curtos, apesar das evidências em contrário. Os pequenos sinais de progresso são vistos como muito valiosos, precursores potenciais de mais mudança, e sinais de que o cliente está a caminho de uma vida boa o bastante, em que se sente capaz de enfrentar as coisas por conta própria.
Desde o meu primeiríssimo workshop de formação em FS (com Jane Lethem, da então Brief Therapy Practice, em 1994), a ideia esteve presente de que pequenas mudanças numa área da vida do cliente podem expandir-se, por processos naturais mas também por um efeito de onda, para outras áreas da vida. O cliente nota mudanças e torna-se mais consciente de como contribui para elas, o que depois se propaga a outros domínios. Não é difícil ver como relações ligeiramente melhores em casa podem transbordar em mais confiança no trabalho, mais abertura nas relações com os filhos e os pais, menos estresse, mais tempo para aproveitar a vida, e assim por diante.
Esse tipo de conectividade combina bem tanto com a filosofia budista, pela qual Steve de Shazer se interessava (ver por exemplo de Shazer, 1994, p. 9), quanto com a ciência da complexidade (ver por exemplo Waldrop, 1993), surgida no início dos anos 1990. (Descobri a FS e a complexidade ao mesmo tempo, e fiz algumas conexões por conta própria.) A complexidade mostra como resultados novos e imprevisíveis podem emergir de pequenas diferenças, de forma não planejada e inesperada. A teoria do caos dos anos 1980 oferece uma versão mais sofisticada do efeito borboleta: como a mais ínfima mudança num sistema meteorológico, como o bater de asas de uma borboleta no Brasil, pode levar a um tornado no Kansas ou a uma tempestade nas Filipinas. Nem sempre leva a esses resultados, mas pequenas mudanças amplificadas podem ter mais impacto do que grandes planos que emperram e não levam a lugar nenhum.
O questionamento FS levou cada vez mais a discussões de pequenos, ou mesmo minúsculos, detalhes e diferenças que fazem parte do melhor para o cliente. Perguntas de acompanhamento como “qual é o primeiro sinal que outra pessoa notaria?” e “o que mais?” ajudam-nos a construir cada vez mais detalhe. Do mesmo modo, nas sessões seguintes, perguntamos “o que está melhor?” e convidamos os nossos clientes a desenvolver o que emergiu, seja o que for. Claro, muitos começam dizendo “nada está melhor…”, o que um praticante hábil pode aceitar radicalmente e sobre o que pode construir.
Por vezes, trabalhando com pessoas de outras tradições, notei que, embora discutam de bom grado o melhor em grandes quadros, em substantivos abstratos, em palavras de cinco mil dólares, podem ficar muito nervosas quando começo a perguntar sobre detalhes minúsculos. Um facilitador muito experiente queixou-se de que eu assim forçava as pessoas a agir. Bem, desde que seja por isso que me pagam, não peço desculpas! É certamente interessante, e pouco discutido, que falar de detalhes minúsculos pareça levar com suavidade e rapidez a novas possibilidades de ação. O meu capítulo saído da Conferência Mundial FS (McKergow, 2019) começará a abordar essa questão.
Se olhamos para esses cinco aspectos de uma estética FS, vemos um contraste muito eloquente com a norma psicoterapêutica clássica.
Tabela 1. Estética clássica e estética FS comparadas
Os tratamentos longos são necessários → a brevidade, tão breve quanto possível, é desejável. O poder está do lado do praticante → a autonomia do cliente deve ser respeitada sempre que possível. Ler nas entrelinhas → aceitação radical. Ir fundo → ficar na superfície. Valorizar as transformações grandes e espetaculares → valorizar as pequenas diferenças.
Note-se que nenhum desses elementos diz respeito às perguntas do milagre, aos contratos, às escalas, aos elogios e assim por diante enquanto tais. Essas técnicas parecem-me antes corolários da estética, maneiras naturais de trabalhar que decorrem desses fundamentos.
Talvez haja aqui uma pista sobre a razão pela qual a FS é tratada tão sumariamente por quem está habituado a uma maneira de trabalhar mais clássica ou tradicional. Assim como Monet e Matisse fizeram rir o público parisiense, a FS passa por uma espécie de piada para quem tem o hábito de valorizar a duração e a profundidade. Talvez seja mesmo essa passagem total a um novo paradigma que me interessou em 1993 e me manteve nisso todos esses anos. Que uma nova maneira de fazer seja mais elegante já é precioso. Que seja também mais eficiente é realmente extraordinário. Se a FS traz um tratamento breve, respeitoso, humano, e progressos no trabalho, na escola, no hospital e no consultório do terapeuta, isso bem vale quase trinta anos da minha vida.
Complexe Systémique: para lembrar
O deslocamento é elegante: já não perguntar “como se faz?”, mas “o que achamos belo?”. Os cinco elementos de McKergow (brevidade, autonomia, aceitação radical, superfície, pequenas diferenças) são uma maneira de dizer que as técnicas não são a abordagem, e que as querelas de escolas são antes de tudo querelas de gosto. A tabela final, estética clássica contra estética FS, lê-se também como um mapa dos mal-entendidos entre sistêmicos e solucionistas. Ler junto com Iveson sobre as pegadas do terapeuta, Henden sobre o trauma severo, cuja pergunta mais perturbadora McKergow cita, e Drury, para quem a FS é um modo de vida.
Referências
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Tradução não oficial para o português de Solution Focused Work as an Aesthetic, de Mark McKergow, publicado no Journal of Solution Focused Practices, vol. 3, n.º 1 (2019), artigo 8, p. 35-46, doi: 10.59874/001c.75081, sob licença CC BY 4.0. Tradução e diagramação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença, a tabela sendo apresentada em ficha. Nem o autor nem a editora respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Solution Focused Work as an Aesthetic”, publicado em Journal of Solution Focused Practices (2019) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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McKergow, M. (2019). O trabalho focado nas soluções como estética (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-trabalho-focado-nas-solucoes-como-estetica (Obra original publicada em 2019 em Journal of Solution Focused Practices, vol. 3, n° 1 (2019), article 8, p. 35-46; republicada em 2019 por Journal of Solution Focused Practices, https://journalsfp.org/article/75081)
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