Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice · Família
Trinta e quatro jovens holandeses com depressão clínica, suas mães e seus pais dizem, separadamente, o que na opinião deles causou a depressão e, depois, o que acham que a pessoa jovem pensa sobre isso. No nível do grupo, as explicações se parecem: temperamento, relações sociais, escola, estresse. Dentro de cada família, elas pouco se sobrepõem, e mães e pais subestimam o que a criança compreende da própria depressão.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Um estudo qualitativo multiperspectiva sobre as crenças causais acerca da depressão na adolescência, de Wilma G. M. Wentholt, Loes H. C. Janssen, Lisanne A. E. M. van Houtum, Mirjam C. M. Wever, Marieke S. Tollenaar, Lenneke R. A. Alink e Bernet M. Elzinga, publicado na Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice (Wiley) (2024), doi: 10.1111/papt.12528, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As três tabelas são apresentadas em forma de listas (a tabela 1, achatada na fonte, foi reorganizada por grupo: jovens, mães, pais); as declarações de fim de artigo foram reunidas nas notas; a declaração de disponibilidade de dados e o material suplementar on-line (tabelas S1-S2, figuras S1-S2) não foram reproduzidos. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O objetivo não precisa ser que a pessoa jovem e sua mãe e/ou pai tenham a mesma perspectiva, e sim que cada pessoa compreenda a perspectiva das demais e que a família converse sobre isso.
Wilma G. M. Wentholt, Loes H. C. Janssen, Lisanne A. E. M. van Houtum, Mirjam C. M. Wever, Marieke S. Tollenaar, Lenneke R. A. Alink e Bernet M. Elzinga
Resumo
Objetivos. Este estudo teve como objetivo examinar: (1.1) as crenças causais sobre a depressão na adolescência em uma amostra de jovens com depressão clínica e em suas mães e seus pais; (1.2) a sobreposição das crenças causais dentro das famílias; (2.1) as crenças causais que mães e pais atribuem à perspectiva de seu filho ou sua filha (crenças causais “refletidas”); (2.2) a precisão dessas crenças refletidas em relação às crenças causais da própria pessoa jovem.
Delineamento. Estudo qualitativo com abordagem intrafamiliar.
Métodos. Jovens com depressão clínica atual (transtorno depressivo maior ou distimia; N = 34) e seus pais (N = 34 mães, N = 26 pais) foram entrevistados separadamente sobre suas crenças a respeito das causas dessa depressão. Mães e pais foram ainda entrevistados sobre como percebiam as crenças causais da criança (crenças causais refletidas).
Resultados. As crenças causais mais citadas por jovens, mães e pais foram: características da criança, fatores sociais, escola e diversas experiências estressantes. A sobreposição entre pais e filhos foi relativamente baixa, em especial nos temas de perplexidade, efeito cumulativo e eventos de vida estressantes, ao passo que foi relativamente alta nos temas de fatores sociais, escola e experiências estressantes fora da família. As crenças causais refletidas de mães e pais foram relativamente precisas, mas tenderam a subestimar a compreensão que a criança tinha das possíveis causas de sua depressão. A precisão das crenças refletidas foi especialmente baixa no tema do efeito cumulativo e alta nos fatores sociais.
Conclusões. A diversidade de crenças causais de jovens e de seus pais poderia ser aproveitada no contexto terapêutico. Pesquisas futuras poderiam examinar se conversas (mediadas) favorecem a sintonia dentro das famílias e a eficácia do tratamento.
Pontos-chave para a prática
Os anos da adolescência são marcados por muitas mudanças físicas, psicológicas, cognitivas, emocionais e sociais (por exemplo, Sawyer et al., 2012). Eles oferecem grandes oportunidades (por exemplo, o desenvolvimento emocional; Sawyer et al., 2012), mas também vulnerabilidades, como mostra o forte aumento dos transtornos depressivos nesse período (por exemplo, Kessler et al., 2005). O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) descreve diversos transtornos depressivos, cuja “característica comum é a presença de humor triste, vazio ou irritável, acompanhado de alterações somáticas e cognitivas que afetam significativamente a capacidade de funcionamento do indivíduo” (American Psychiatric Association [APA], 2013, p. 155). Na adolescência, cada jovem procura seu lugar no mundo (social) ao seu redor e busca estabelecer sua identidade e um funcionamento autônomo (McCurdy et al., 2020; Smetana, 2010). Quando um transtorno depressivo surge nessa fase do desenvolvimento, pode ter impacto a longo prazo, por meio de efeitos negativos em várias áreas da vida (por exemplo, perturbações nos domínios social, escolar e familiar; Clayborne et al., 2019) e de um grande risco de recorrência mais tarde na vida (Curry et al., 2011).
Estudos epidemiológicos mostram que diversos fatores biológicos (por exemplo, genética, estruturas neurais, neurotransmissores, sistema imunológico), cognitivos (por exemplo, esquemas e estilo cognitivos, pessimismo, estilo ruminativo, processamento de informações) e sociais (por exemplo, eventos de vida, dinâmica familiar, problemas de relacionamento, baixo apoio social) constituem um risco para a depressão (Dobson & Dozois, 2011). Os fatores que emergem de estudos qualitativos sobre as crenças de jovens a respeito das causas de sua própria depressão clínica estão amplamente alinhados com esses fatores de risco conhecidos (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Viduani et al., 2021; Wisdom & Agnor, 2007; Wisdom & Green, 2004). Jovens têm crenças diversas sobre as causas de sua própria depressão, que podem ser agrupadas, de modo geral, em três grandes categorias. A maior delas é a das “adversidades psicossociais”, como maus-tratos, rejeição ou bullying por pares, problemas familiares, pobreza e doença (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Viduani et al., 2021; Wisdom & Green, 2004). Em segundo lugar, fatores de personalidade (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Wisdom & Green, 2004) e, em terceiro, a vulnerabilidade intergeracional (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Wisdom & Agnor, 2007) são frequentemente mencionados. No âmbito da vulnerabilidade intergeracional, algumas pessoas participantes enfatizam explicações genéticas (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017), enquanto outras mencionam explicações sociais (interações familiares, formas de enfrentamento, eventos negativos) (Wisdom & Agnor, 2007). Além dessas três grandes categorias, as pressões da própria adolescência (Wisdom & Green, 2004) e um desequilíbrio hormonal (Midgley et al., 2017) são às vezes mencionados. Por fim, aparecem dois temas transversais. De um lado, parte das pessoas jovens menciona um acúmulo gradual, um efeito cumulativo dos estressores (Bear et al., 2021; Wisdom & Green, 2004); de outro, há quem tenha dificuldade de identificar qualquer causa possível (perplexidade; Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017). Jovens frequentemente mencionam várias crenças e oferecem, assim, uma explicação multidimensional (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017).
Segundo a abordagem ecológica do desenvolvimento humano de Bronfenbrenner, crianças se desenvolvem em estreita interação bidirecional com vários sistemas que as rodeiam, entre os quais o sistema familiar é um dos mais próximos (Bronfenbrenner, 1977). Embora jovens busquem autonomia (McCurdy et al., 2020), seus pais são as principais figuras de cuidado e continuam importantes em sua vida cotidiana e em seu desenvolvimento a longo prazo (por exemplo, Meeus, 2016). Assim, revisões sistemáticas mostram que um envolvimento integrado dos pais no tratamento da depressão na adolescência é benéfico para os efeitos do tratamento e para a dinâmica familiar (por exemplo, redução de conflitos) (Dardas et al., 2018). Além disso, um estudo quantitativo mostra que as crenças causais de pessoas cuidadoras (cônjuges e outros familiares) influenciam a adesão ao tratamento de adultos em atendimento, com menor adesão quando a depressão é atribuída a problemas cognitivos ou de atitude (Sher et al., 2005). Isso sugere que as crenças causais dos pais também podem ter um papel no tratamento da depressão na adolescência. Até onde sabemos, não há estudos qualitativos que tenham incluído as crenças causais de mães e pais sobre a depressão clínica de seu próprio filho ou filha adolescente, nem sobre a compreensão que têm das crenças causais da criança. Não se sabe, portanto, em que medida pais compartilham crenças causais semelhantes às da criança ou têm visões muito diferentes sobre as causas de sua depressão.
Crenças causais compartilhadas e/ou uma compreensão precisa, por parte dos pais, das crenças causais da criança podem reforçar o apoio que jovens percebem de seus pais, ao passo que desacordos sobre o tema podem ser fonte de tensão e conflito. Baixos níveis de apoio e altos níveis de conflito, por sua vez, mostraram-se associados à depressão na adolescência e até preditivos dela (Restifo & Bögels, 2009). Ainda não há pesquisas que tenham examinado a sobreposição entre pais e filhos nas crenças causais nem a precisão das crenças causais que os pais atribuem à perspectiva da criança; o presente estudo se propõe a fazê-lo, tendo em vista sua possível relevância clínica.
É especialmente útil examinar qualitativamente as crenças causais sobre a depressão clínica na adolescência, de forma complementar à pesquisa quantitativa. Pessoas com experiência vivida ou atual de depressão têm uma compreensão pessoal de seu próprio transtorno, que pode alimentar tanto a terapia quanto a pesquisa. O tratamento psicológico da depressão é, em geral, eficaz, mas os tamanhos de efeito são pequenos (Cuijpers et al., 2009), e os efeitos dos diferentes tipos de tratamento psicológico individual parecem comparáveis (Cuijpers et al., 2011). No caso específico da depressão na adolescência, porém, um envolvimento integrado dos pais parece benéfico para a eficácia do tratamento (Dardas et al., 2018). Pode ser valioso incluir, na pesquisa e na prática clínica, a perspectiva da pessoa adolescente em atendimento e também a de sua mãe e/ou seu pai; crenças causais pessoais mostraram influenciar a preferência por tratamento, a adesão e os resultados (Hagmayer & Engelmann, 2014). Um estudo incluído na revisão de Hagmayer e Engelmann (2014), por exemplo, mostrou que a terapia interpessoal foi mais eficiente do que a terapia cognitivo-comportamental para pessoas que viam em um conflito interpessoal uma causa de sua depressão (Carter et al., 2011). Incluir a própria perspectiva de quem está em tratamento poderia, portanto, beneficiar a pesquisa sobre a eficácia dos tratamentos. Antes de estudar os benefícios de incorporar as crenças causais ao tratamento, é necessária pesquisa qualitativa sobre as crenças causais tanto de jovens quanto de seus pais.
Com este estudo qualitativo, buscamos oferecer novas compreensões sobre as crenças causais acerca da depressão na adolescência, a partir de uma abordagem familiar multiperspectiva, em uma amostra de jovens com depressão clínica e de suas mães e seus pais. Mais especificamente, buscamos examinar: (1.1) as crenças causais de jovens, de suas mães e de seus pais sobre a depressão da pessoa jovem; (1.2) em que medida as crenças causais de jovens, mães e pais se sobrepõem dentro das famílias; (2.1) as suposições de mães e pais sobre as crenças causais da criança (crenças causais refletidas); (2.2) e em que medida as crenças causais refletidas de mães e pais são precisas.
Este estudo faz parte do projeto holandês de duas gerações e múltiplos métodos “Relations and Emotions in Parent-Adolescent Interaction research” (RE-PAIR), da Universidade de Leiden. O objetivo geral do estudo RE-PAIR é examinar a relação bidirecional entre as interações pais-filhos e a depressão na adolescência, comparando famílias cuja criança, na adolescência, não apresenta psicopatologia com famílias cuja criança apresenta transtorno depressivo maior (TDM) atual ou distimia (doravante, “jovens com depressão”). No presente estudo, incluímos apenas as famílias de jovens com depressão.
As famílias foram recrutadas por meio de serviços de saúde mental da região de Leiden e de anúncios. As equipes de saúde mental informavam as famílias elegíveis sobre o estudo e colocavam a equipe de pesquisa em contato com as famílias interessadas. As famílias eram informadas e passavam por uma triagem por telefone (verificação rápida dos critérios de inclusão e exclusão), e então se agendava a entrevista diagnóstica com a pessoa jovem por meio do Kiddie-Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia – Present and Lifetime (K-SADS-PL; Reichart et al., 2000). Se todos os critérios de inclusão e exclusão fossem atendidos, as etapas seguintes do estudo (ver procedimento) eram agendadas. Os critérios de inclusão para jovens eram: diagnóstico principal de TDM ou distimia (verificado com o K-SADS-PL), idade entre 11 e 17 anos no momento da inclusão, morar e participar com pelo menos uma figura de cuidado principal e frequentar (ou ter concluído) o ensino médio ou o ensino superior. Jovens e seus pais precisavam ter domínio suficiente do neerlandês. Quando aplicável à situação familiar, as duas figuras de cuidado principais eram convidadas a participar. Se mais de dois adultos estivessem envolvidos na vida da pessoa jovem, a família e a equipe de pesquisa escolhiam os dois com contato mais frequente com ela. Todas as famílias em que duas figuras parentais participaram eram compostas por uma mãe e um pai. As famílias eram excluídas se a pessoa jovem estivesse iniciando tratamento antidepressivo (doses estáveis eram permitidas), se a segurança não pudesse ser garantida em razão de tendências suicidas (a ideação suicida não era critério de exclusão) ou de automutilação grave, e em caso de diagnóstico comórbido atual de deficiência intelectual, psicose, transtorno alimentar, transtorno por uso de substâncias ou transtorno do espectro autista. Esses transtornos comórbidos eram critérios de exclusão por seu impacto no funcionamento cognitivo e comportamental nas interações sociais, o que é relevante dado o foco do projeto mais amplo nas interações pais-filhos. No total, foram contatadas 70 famílias consideradas elegíveis, das quais 34 foram incluídas e participaram do presente estudo.
No total, 35 famílias de jovens com depressão (N = 35) e seus pais (N = 62) participaram do RE-PAIR entre julho de 2018 e fevereiro de 2022. Dessas 35, uma família (com n = 2 figuras parentais) foi inicialmente recrutada como família-controle saudável, mas durante a entrevista K-SADS-PL ficou evidente que a pessoa jovem tinha TDM atual. Os dados de entrevista qualitativa relevantes para o presente estudo não estavam, portanto, disponíveis para essa família. Isso resultou em uma amostra total de 34 famílias de jovens com depressão (N = 34, 79,4% do sexo feminino), suas mães (N = 34, 97,1% mães biológicas) e seus pais (N = 26, 92,3% pais biológicos). A maioria das pessoas jovens tinha diagnóstico principal de TDM (n = 27), e sete tinham diagnóstico principal de distimia. As características demográficas da amostra são apresentadas na tabela 1. Cada jovem havia buscado ajuda profissional, mas observamos grande variação no tipo de ajuda buscada (do serviço social escolar até a psicologia credenciada) e no tipo e frequência das sessões (desde lista de espera atual até sessões semanais ou quinzenais por um ano e meio) (tabela 1). Nenhuma das famílias havia recebido intervenções parentais ou tratamento de base familiar no contexto da depressão da pessoa jovem.
Tabela 1 — Características demográficas das pessoas participantes
Valores: M (DP) ou % (n); amplitude entre colchetes.
Jovens (N = 34)
Mães (N = 34)
Pais (N = 26)
Nota: PHQ-9, LES, K-SADS, CTQ-SF e MINI são descritos no material suplementar do artigo. Os transtornos de ansiedade comórbidos incluem o TEPT. Os transtornos comórbidos excluem transtornos “prováveis” e transtornos em remissão (parcial). O escore total do CTQ-SF exclui os itens de minimização. Abreviações: TDAH, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade; TDM, transtorno depressivo maior; TOC, transtorno obsessivo-compulsivo.
A participação no estudo RE-PAIR consistia em quatro partes: questionários on-line, um dia de pesquisa no laboratório, 14 dias consecutivos de Avaliação Ecológica Momentânea e uma sessão de ressonância magnética funcional. Todas as despesas de deslocamento foram reembolsadas. Jovens receberam uma compensação financeira de 15 a 35 euros, e pais e mães de 73 a 103 euros, conforme as partes do estudo de que participaram. No presente estudo, usamos apenas os dados da entrevista qualitativa realizada no dia de pesquisa e dos questionários on-line. Os dados das demais partes do estudo são apresentados em outros trabalhos (Janssen et al., 2020, 2021, 2023, 2024; van Houtum, van Schie et al., 2023; van Houtum, Wever, et al., 2023; van Houtum et al., 2021, 2022; Veenman et al., 2024; Wever, van Houtum, Janssen, Spruit, et al., 2022; Wever, van Houtum, Janssen, Wentholt, et al., 2022; Wever et al., 2021, 2023, 2024).
Entrevistas qualitativas semiestruturadas foram conduzidas e gravadas em áudio por integrantes da equipe com formação específica (em doutorado) e por integrantes da equipe de assistência de pesquisa (em graduação em psicologia clínica e em psicologia da criança e do adolescente), ao final do dia de pesquisa, em um espaço reservado e silencioso, com cada membro da família separadamente. A entrevista abordava vários temas, entre eles as crenças causais sobre a depressão da pessoa jovem. Para acessar essas crenças, começávamos com uma pergunta aberta: “Na sua opinião, quais são as possíveis causas dos seus sintomas depressivos (ou dos sintomas do seu filho ou da sua filha)?” (doravante, “crenças causais espontâneas”). Em seguida, entregávamos às pessoas participantes um panorama dos fatores de risco da depressão na adolescência estabelecidos cientificamente, baseado no trabalho de Hansson et al. (2010) (apresentado na tabela S1), e perguntávamos: “Estudos científicos anteriores identificaram várias causas possíveis. Olhando para este panorama, você vê algum fator que possa ter tido um papel causal nos seus sintomas depressivos (ou nos do seu filho ou da sua filha)?” (doravante, “crenças causais estimuladas”). Por fim, perguntávamos a mães e pais: “O que você acha que seu filho ou sua filha vê como possíveis causas?” (doravante, “crenças causais refletidas”). As gravações de áudio das entrevistas completas foram transcritas com o software Amberscript (Amberscript, 2022), anonimizadas e verificadas e corrigidas manualmente, de forma independente, pela equipe de assistência de pesquisa.
O estudo RE-PAIR foi aprovado em maio de 2018 pelo Comitê de Ética Médica do Centro Médico da Universidade de Leiden (NL62502.058.17) e conduzido de acordo com a Declaração de Helsinque e com a lei holandesa sobre pesquisa médica envolvendo seres humanos (WMO). As pessoas participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, e, quando a criança tinha menos de 16 anos, mãe e pai com guarda legal assinaram um consentimento adicional.
Usamos o software ATLAS.ti (ATLAS.ti Scientific Software Development GmbH, 2022) e seguimos o método da teoria fundamentada para a análise temática de dados qualitativos (codificação aberta, axial e seletiva), com uma abordagem iterativa (Boeije, 2010). Três pessoas da graduação codificaram três entrevistas, elaboraram uma árvore de codificação inicial (codificação aberta e axial) e discutiram os temas com as pessoas responsáveis pela codificação (WW e BE). Quatro entrevistas foram codificadas com essa árvore para obter mais informações sobre temas relevantes. Os temas foram discutidos com as pessoas responsáveis pela codificação, e a árvore foi revisada. Em seguida, seis pessoas da graduação foram apresentadas a essa árvore de codificação e codificaram duas vezes todas as 94 entrevistas, em duas rodadas de codificação iterativa nas quais ninguém codificava mais de uma entrevista da mesma família. Dúvidas e ponderações eram registradas e discutidas com as pessoas responsáveis pela codificação. As informações da codificação feita pela graduação e das reuniões de intervisão foram usadas para revisar a árvore. Por fim, uma pessoa da graduação foi apresentada ao sistema, codificou três entrevistas de treino, e a codificação de nove entrevistas (com dupla codificação por WW) foi discutida em profundidade com a pessoa que assina o artigo em primeiro lugar (WW). Essa pessoa da graduação codificou as 85 entrevistas restantes (94 entrevistas no total, menos as nove com dupla codificação), registrou dúvidas e buscou consenso com as pessoas responsáveis pela codificação. A árvore de codificação final e as regras de codificação adicionais estão na seção de resultados suplementares.
Para cada díade mãe-criança e pai-criança, calculamos dois escores: um escore de sobreposição intrafamiliar das crenças causais e um escore de precisão das crenças causais refletidas de mães e pais em relação às crenças causais da própria criança. Os escores de sobreposição intrafamiliar basearam-se na parte espontânea da entrevista, para captar as crenças idiossincráticas das pessoas participantes. Mães e pais foram perguntados sobre suas crenças causais refletidas depois de terem visto o panorama apresentado no contexto de suas próprias crenças causais. Por isso, os escores de precisão basearam-se nas crenças causais refletidas de mães e pais em relação ao conjunto (partes espontânea e estimulada da entrevista) das crenças causais da própria criança.
Os escores de sobreposição intrafamiliar e de precisão parental foram calculados separadamente, mas de maneira semelhante. Cada tema principal mencionado apenas pela pessoa jovem ou pela figura parental da díade recebia zero ponto, e cada tema principal mencionado tanto pela pessoa jovem quanto pela figura parental da díade recebia um ponto. Temas principais não mencionados nem pela pessoa jovem nem pela figura parental não entravam nos escores de sobreposição e precisão. A soma desses escores por tema principal era dividida pelo número total de temas principais mencionados (pela pessoa jovem e/ou pela figura parental). O escore de sobreposição intrafamiliar variava de nenhuma sobreposição nas crenças causais (escore médio de zero) a sobreposição completa em cada tema mencionado (escore médio de um). O escore de precisão intrafamiliar variava de crenças causais refletidas parentais completamente imprecisas (escore médio de zero) a crenças causais refletidas parentais completamente precisas (escore médio de um). Além disso, para cada tema principal, representamos a sobreposição e a precisão intrafamiliares em diagramas de Venn proporcionais à área, por meio de um aplicativo on-line (https://eulerr.co/) baseado no pacote R eulerr (versão 6.1.1) (Larsson, 2021).
Com base na análise temática, identificamos 12 temas amplos, com um total de 39 subtemas (tabela S2). Uma breve descrição e as frequências de todos os temas e subtemas encontram-se na tabela S2 e nos resultados suplementares. A tabela S1 apresenta os temas relativos à parte estimulada da entrevista. As estatísticas descritivas da duração das entrevistas, do número de temas e subtemas (refletidos ou não) e dos escores de sobreposição e precisão intrafamiliares são apresentadas na tabela 2. Atribuímos a cada família um segundo número, aleatório, para garantir o anonimato nos trechos citados.
Tabela 2 — Estatísticas descritivas das entrevistas qualitativas
Valores: M (DP) [amplitude], para jovens (N = 34), mães (N = 34) e pais (N = 26).
Nota: os temas com apenas um subtema (“Perplexidade”, “Efeito cumulativo”, “Falta de compreensão/apoio percebida”) foram incluídos tanto no número de temas principais quanto no de subtemas. Espontâneo = crenças causais da parte espontânea da entrevista; total = conjunto das crenças causais das partes espontânea e estimulada da entrevista; crenças causais refletidas = suposições de mães e pais sobre as crenças causais da criança. Os escores de sobreposição baseiam-se na parte espontânea da entrevista; os de precisão, na entrevista completa das pessoas jovens (espontânea e estimulada). a Dados faltantes de crenças causais refletidas para n = 3 mães e n = 3 pais. Nesta parte, n = 31 mães e n = 23 pais, de n = 33 famílias.
Dado o grande número de temas, vamos nos concentrar nas cinco principais crenças causais dos diferentes membros da família (tabela 3), que incluem os temas “Social”, “Características da criança”, “Estresse no contexto familiar”, “Evento de vida estressante”, “Escola”, “Intergeracional”, “Escola” e “Puberdade”. As cinco principais crenças causais espontâneas de jovens, mães e pais foram relativamente semelhantes quanto aos temas “Social”, “Características da criança” e experiências estressantes (tabela 3). “Social” (tema principal de jovens) e “Características da criança” (tema principal de mães e pais) foram, no geral, os temas de crenças causais mais citados (resultados suplementares) por jovens e por pais. O tema “Social” reunia falas sobre experiências interpessoais negativas de intensidade variável, desde experiências sociais do cotidiano, como “minhas amizades parecem meio, hum, desequilibradas […] Como se eu entendesse o que se passa na cabeça das pessoas de quem sou amiga, mas elas não me entendessem” (nº 100, menina), até experiências graves, como “bom, hum, basicamente sofri bullying da pessoa que me treinava durante um ano inteiro. Ela sabia inverter as coisas, fazer parecer que a culpa era minha” (nº 156, menina). O tema “Características da criança” reunia falas sobre características ligadas à criança (e à sua personalidade) e presentes em todos os contextos, desde falas específicas como “ele sempre foi sensível, o que talvez o deixe mais suscetível a passar por momentos difíceis […] Ele se preocupa com coisas que não são da idade dele” (nº 184, mãe de um menino) até falas mais gerais como “é simplesmente algo do temperamento dela” (nº 29, pai de uma menina).
Tabela 3 — As cinco principais crenças causais por tipo de membro da família
Temas classificados do 1º ao 5º lugar, com a porcentagem de pessoas que os citam.
Nota: espontâneas = crenças causais da parte espontânea da entrevista; total = conjunto das crenças causais das partes espontânea e estimulada da entrevista; refletidas = suposições de mães e pais sobre as crenças causais da criança. a Dados faltantes de crenças causais refletidas para n = 3 mães e n = 3 pais. Nesta parte, n = 31 mães e n = 23 pais, de n = 33 famílias.
Uma terceira crença causal importante para jovens, mães e pais foram as experiências de vida estressantes. O tema “Estresse no contexto familiar” (entre os cinco principais de jovens, mães e pais) reunia falas sobre experiências estressantes (muitas vezes crônicas) no contexto familiar, por exemplo, “principalmente por causa do divórcio dos meus pais e da situação difícil com meu pai” (nº 177, menina) e “ela cresceu em uma família com muitas brigas, hum, acho que dá para chamar de violência doméstica psicológica. E, hum, bom, em certo momento acontecia todo dia e ela botou a boca no trombone, não aguentava mais” (nº 45, mãe de uma menina). As pessoas participantes mencionaram também “Eventos de vida estressantes” agudos e específicos (entre os cinco principais de jovens), como: “ela viu o pai ser algemado e levado pela polícia” (nº 83, mãe de uma menina) e “eu vi minha avó morrer na casa dela, ela teve um ataque cardíaco. Eu estava lá do começo ao fim, ela caiu no chão e minha mãe entrou em pânico” (nº 20, menina).
O tema “Escola” também foi citado com frequência por jovens (entre os cinco principais), mães (entre os cinco principais) e pais (sexto lugar). Esse tema incluía falas sobre a pressão por desempenho escolar e outros estressores no ambiente escolar, por exemplo, “eu já não estava indo muito bem na escola e não estava me sentindo bem. E aí todos os professores e minha mãe ficaram no meu pé. Ficou demais e eu simplesmente não ligava mais para nada” (nº 72, menina).
O tema “Intergeracional” foi citado com frequência por mães e pais (segundo lugar) e incluía falas explícitas sobre reconhecer certas características (desde falas vagas até depressão clínica específica) em membros da família e/ou atribuí-las à herança genética. Jovens raramente mencionavam o tema “Intergeracional” sem estímulo, ao passo que quase metade das pessoas jovens o mencionou depois de ver o panorama: “acho que também é uma coisa genética, e as pessoas seguem o exemplo que recebem” (nº 95, pai de uma menina).
O tema “Uso de mídias” estava entre as cinco principais crenças causais espontâneas dos pais, mas não entre as das mães e das pessoas jovens. Esse tema incluía falas sobre os efeitos negativos do uso de mídias, como: “se você passa muito tempo no Instagram vendo as coisas legais dos outros, isso pode mesmo turvar a visão dela” (nº 58, pai de uma menina). O tema “Puberdade”, por outro lado, estava entre as cinco principais crenças causais espontâneas das mães, mas não entre as dos pais e das pessoas jovens. Esse tema incluía falas sobre a puberdade e a turbulência que a acompanha, por exemplo, “antes de tudo, acho que a idade dela e as oscilações hormonais e coisas assim” (nº 54, mãe de uma menina).
Para apresentar visualmente a distribuição dos escores de sobreposição (figura 1a), classificamos mães e pais conforme suas crenças causais não tivessem nenhuma sobreposição, tivessem sobreposição moderada (escore de 0,01 a 0,49) ou alta (escore de 0,50 ou mais) com as da própria criança. Os pais tiveram, em média, um escore de sobreposição menor que o das mães (tabela 2), com mais frequência nenhuma sobreposição e com menos frequência sobreposição moderada com a criança (figura 1a).

Representamos a sobreposição intrafamiliar dos temas de crenças causais em diagramas de Venn (os cinco principais temas na figura 2; todos os temas na figura S1). O exame desses diagramas de Venn revelou padrões de sobreposição, que organizamos nesta seção da menor para a maior sobreposição. Os temas transversais “Perplexidade” e “Efeito cumulativo” foram os de menor sobreposição entre pais e filhos (figura S1). “Perplexidade” indica que a pessoa participante não compreendia a causa da depressão, e “Efeito cumulativo” indica que ela mencionou explicitamente o acúmulo de vários fatores como causa da depressão. Eram temas importantes para jovens, mas menos citados por seus pais. Uma menina, por exemplo, disse “foi um acúmulo de coisas pequenas […] elas foram aumentando, aumentando, e isso gerou muito estresse e aquilo [os sintomas depressivos] piorou” (nº 156), enquanto nem a mãe nem o pai mencionaram explicitamente esse “Efeito cumulativo”. As famílias em que a mãe e/ou o pai não tinham nenhuma sobreposição com a criança (n = 3) sempre envolviam jovens que mencionavam apenas uma sensação de “Perplexidade”, “eu realmente não sei” (nº 1, menina), enquanto mãe e/ou pai mencionavam várias crenças causais, mas não a “Perplexidade”. A sobreposição entre pais e filhos também foi relativamente baixa em “Evento de vida estressante”, sobretudo quando jovens mencionavam eventos fora do contexto familiar, como: “eu e minha namorada terminamos e, hum, teve um assalto no trabalho” (nº 53, citado por um menino, mas não pela mãe). Já os casos de sobreposição entre pais e filhos envolviam com mais frequência eventos dentro do contexto familiar, como a morte de um avô ou de uma avó.

Notamos uma sobreposição entre pais e filhos relativamente alta em “Social”, “Escola” e “Estresse fora do contexto familiar”, e uma sobreposição mãe-criança relativamente alta (mas pai-criança baixa) em “Características da criança” e “Estresse no contexto familiar” (figura 2; figura S1). Os membros da família frequentemente coincidiam ao citar como crenças causais “[eu/ela] não tinha nenhuma amizade de verdade” (nº 131, citado por uma menina e pela mãe, mas não pelo pai) e “o isolamento social [devido à pandemia de covid-19]” (nº 120, citado por uma menina, pela mãe e pelo pai).
Os dados sobre as crenças causais refletidas faltavam para algumas figuras parentais (n = 3 mães, n = 3 pais), o que resultou em uma amostra de 31 mães e 23 pais de 33 famílias. Dado o grande número de temas, vamos nos concentrar nas cinco principais crenças causais refletidas dos membros da família (tabela 3), que incluem os temas “Social”, “Características da criança”, “Estresse no contexto familiar”, “Evento de vida estressante”, “Escola”, “Escola” e “Perplexidade”. As cinco principais crenças causais refletidas (tabela 3) foram quase idênticas entre mães e pais, e esses temas também apareceram entre os cinco principais (no total) das pessoas jovens. O principal tema das crenças causais refletidas foi “Características da criança”; mães e pais disseram, por exemplo: “Talvez a autoestima dela, acho que ela sabe ou sente que dá muita importância ao que os outros dizem sobre ela” (nº 102, pai de uma menina) ou “ela acha mesmo que falta uma substância química no cérebro dela” (nº 191, mãe de uma menina). “Social” e “Estresse no contexto familiar” foram o segundo e o terceiro temas mais importantes das crenças causais refletidas. Por exemplo, um pai de uma menina disse “acho que ela vai falar da rejeição pelos outros, de ter poucas amizades” (nº 89), e uma mãe de uma menina disse “e, hum, acho que [criança] vai dizer que sente muita falta da família [que mora no exterior]” (nº 102). Em quarto lugar, mães e pais mencionaram “Eventos de vida estressantes” como crença causal refletida. Por exemplo, mãe e pai de uma menina disseram “ela vai mencionar […] situações parecidas com agressões” (nº 120), e mãe e pai de um menino disseram “ele vai mencionar o que aconteceu com uma pessoa do grupo de amizades dele [suicídio]” (nº 138). Em quinto lugar, mães e pais mencionaram “Escola” como crença causal refletida. Um pai, por exemplo, disse “hum, é, talvez problemas na escola” (nº 102, menina). Por fim, “Perplexidade” apareceu entre os cinco principais temas das crenças causais refletidas. Uma mãe, por exemplo, disse “[criança] disse há pouco tempo que não há motivo para ela estar deprimida, então ela não sabe por quê” (nº 112, menina). Esse tema não apareceu entre os cinco principais (no total) das pessoas jovens, mas ainda assim foi citado com frequência por elas (26,5%; tabela S2).
Os escores de precisão por categoria são apresentados visualmente na figura 1b. Mães e pais mencionaram os temas principais refletidos com menos frequência e tiveram, em média, menos temas refletidos do que a frequência com que esses temas foram mencionados pelas pessoas jovens como suas próprias crenças causais (no total) (tabela 2). Os pais tiveram, em média, um escore de precisão menor que o das mães (tabela 2), foram um pouco mais frequentemente totalmente imprecisos e menos frequentemente muito precisos (figura 1b). Representamos a precisão intrafamiliar dos temas de crenças causais refletidas em diagramas de Venn (figura S2). O exame desses diagramas revelou padrões de precisão, que organizamos nesta seção da menor para a maior precisão. As famílias em que a mãe e/ou o pai tiveram crenças causais refletidas totalmente imprecisas eram famílias em que essas figuras parentais disseram que a criança teria dificuldade em mencionar crenças causais (“Perplexidade”; duas famílias), não disseram nada sobre as crenças causais da criança, mas discorreram sobre a própria perspectiva (uma família), ou mencionaram temas completamente diferentes dos citados pela criança (três famílias). Além disso, nenhuma mãe e nenhum pai supôs corretamente que a criança mencionaria um “Efeito cumulativo” como crença causal, embora esse tema tenha sido explicitamente mencionado por quase um quarto das pessoas jovens. Uma menina, por exemplo, disse “bom, hum, é porque minha situação em casa mudou […] a partir daí foi ladeira abaixo […] É um acúmulo do passado, do ensino fundamental, de pessoas próximas que me decepcionaram e me abandonaram, essas coisas, e da mudança na minha situação em casa. Uma combinação dessas coisas” (nº 89), enquanto nem a mãe nem o pai mencionaram explicitamente esse efeito cumulativo quando perguntados sobre as crenças causais da filha. A precisão das crenças causais refletidas também foi baixa em “Intergeracional”. É preciso lembrar, porém, que apenas duas pessoas jovens mencionaram esse tema espontaneamente, e a maioria só o mencionou depois de ver o panorama.
Vários temas mostraram precisão moderada das crenças causais refletidas. Os temas “Perplexidade” e “Características da criança” foram mencionados por aproximadamente o mesmo número de jovens (como crenças causais) e de figuras parentais (como crenças causais refletidas). No entanto, no nível intrafamiliar, mães e pais foram mais ou menos tão frequentemente imprecisos quanto precisos ao refletir esses temas, exceto no reflexo das mães sobre “Características da criança” (precisas com mais frequência do que imprecisas). Os temas “Estresse no contexto familiar”, “Escola” e “Evento de vida estressante” foram subestimados por mães e pais: um número bem menor de figuras parentais mencionou esses temas como crenças causais refletidas do que de jovens que os mencionaram como crenças causais. No entanto, as figuras parentais que mencionaram esses temas acertaram com relativa frequência que a criança os havia mencionado. Os pais foram notavelmente precisos ao apontar “Estresse fora do contexto familiar” como crença causal refletida.
Mães e pais foram especialmente precisos em suas crenças causais refletidas nos temas “Social” e “Uso de mídias”. O tema “Uso de mídias” foi uma crença causal importante para os pais em sua própria perspectiva, mas nenhuma mãe e nenhum pai o apontou como crença causal refletida quando perguntados sobre a perspectiva da criança, e, de fato, nenhuma pessoa jovem mencionou esse tema. “Social” foi um tema importante para jovens (n = 18) e, para a maioria delas (n = 13), a mãe e/ou o pai mencionaram corretamente esse tema como crença causal refletida.
Três observações relevantes para o contexto clínico devem ser mencionadas. Primeiro, o panorama dos fatores de risco conhecidos ajudou as pessoas jovens a formular suas crenças causais. Isso se reflete no forte aumento de “Intergeracional” da parte espontânea para a parte estimulada da entrevista (tabela S2). Além disso, três jovens mencionaram apenas uma sensação de “Perplexidade” na parte espontânea da entrevista, sem crenças causais específicas. Essas três pessoas jovens mencionaram uma crença causal (no caso, “Intergeracional”) ou mais quando lhes foi apresentado o panorama. Segundo, as pessoas participantes mencionaram alguns temas especificamente como fatores de manutenção ou de agravamento, e não como causas diretas da depressão. Foi o caso dos temas “Características da criança”, “Estresse fora do contexto familiar”, “Evento de vida estressante” e “Escola”. Por exemplo: “Não consigo citar causas, só coisas que influenciam. Tipo falta de sono, estresse […] e brigas e coisas estranhas que acontecem, isso piora. E ir mal em alguma coisa ou coisas que dão errado, isso pode desencadear. Começo a me sentir mal comigo mesmo e fico deprimido” (nº 25, menino) e “ela ficou terrivelmente atrasada na escola, a pressão aumentou […] Acho que isso, hum, causou uma espécie de desconexão. Não acho que seja a causa em si, mas realmente não ajudou” (nº 191, pai de uma menina). Terceiro, observamos que as famílias com escores de precisão especialmente altos (n = 7 no total, das quais n = 4 monoparentais) eram muitas vezes famílias cuja criança estava em tratamento no momento (n = 5, das quais n = 4 monoparentais). Mães e pais dessas famílias indicaram com relativa precisão “Estresse no contexto familiar” e “Evento de vida estressante”.
Este estudo teve como objetivo examinar qualitativamente, a partir de uma perspectiva intrafamiliar, as crenças causais sobre a depressão na adolescência de jovens com depressão clínica e de suas mães e seus pais. O primeiro resultado-chave é que os principais temas, personalidade e diversas experiências sociais e estressantes, foram semelhantes entre jovens e seus pais e coerentes com estudos qualitativos anteriores com jovens (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Viduani et al., 2021; Wisdom & Green, 2004). Um segundo resultado, mais notável, é que, olhando para as crenças causais dentro das famílias, a sobreposição entre as crenças da pessoa jovem e as de sua própria mãe e/ou pai foi relativamente baixa. Assim, dentro de uma mesma família, a pessoa jovem podia ver a depressão como resultado de traços de personalidade e de eventos estressantes, enquanto a mãe podia vê-la como resultado da puberdade e de fatores escolares. Em terceiro lugar, mães e pais foram moderadamente precisos ao formular as crenças causais da própria criança, mas tenderam a subestimá-las, no sentido de que a pessoa jovem mencionava mais temas (por exemplo, escola, experiências sociais, intergeracional e traços de personalidade) do que a mãe ou o pai esperava (por exemplo, escola e experiências sociais). Encontramos grande variedade de crenças causais sobre a depressão na adolescência, desde experiências estressantes até a turbulência da puberdade. Essa variedade está alinhada com trabalhos qualitativos anteriores (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Viduani et al., 2021; Wisdom & Green, 2004) e com o grande número de fatores de risco que emergem da pesquisa epidemiológica (por exemplo, Dobson & Dozois, 2011). As três grandes categorias (adversidades psicossociais, fatores de personalidade, vulnerabilidade intergeracional) de estudos qualitativos anteriores sobre a perspectiva de jovens se estendem, assim, à perspectiva de seus pais, tanto no que se refere às próprias crenças de mães e pais sobre a(s) causa(s) da depressão da criança quanto às crenças que eles achavam que a criança tinha.
As adversidades psicossociais foram uma crença causal central das pessoas participantes, no presente estudo e em trabalhos anteriores (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Viduani et al., 2021; Wisdom & Green, 2004). Os temas do estresse dentro e fora do contexto familiar, dos eventos de vida estressantes e dos fatores sociais poderiam ser agrupados em uma categoria ampla e genérica de adversidades psicossociais. Quase todas as pessoas jovens mencionaram uma ou várias dessas adversidades, e um quarto delas relatou uma sensação de sobrecarga diante do acúmulo de experiências de vida (negativas). O presente estudo acrescenta dois temas importantes a essa lista de estressores: a escola e as restrições devidas à pandemia de covid-19. Pode-se discutir se o termo adversidade se aplica à escola, mas claramente ela é um estressor para jovens, o que é reconhecido por seus pais no presente estudo. A escola foi vivida como problemática por muitas pessoas participantes, seja em termos gerais, seja especificamente em termos de desempenho (sob pressão). Na Holanda, jovens vivenciam uma pressão e um estresse escolares crescentes ao longo do tempo (De Looze et al., 2020). A generalização para outros países deve ser feita com cautela, pois um estudo internacional um pouco mais antigo indica que a percepção da pressão escolar praticamente não mudou entre 1994 e 2010 (Klinger et al., 2015). Independentemente do aumento ao longo do tempo, a pesquisa meta-analítica mostra que a pressão escolar está associada a maior depressão (sintomas e níveis clínicos), com alguma evidência de um efeito direcional, os sintomas depressivos seguindo a pressão acadêmica (revisão de Steare et al., 2023). Por outro lado, problemas de concentração e o impacto dos sintomas no funcionamento, entre outros no âmbito escolar, são considerados no diagnóstico de uma depressão clínica (APA, 2013). O estresse escolar e os sintomas depressivos provavelmente se influenciam, portanto, de forma bidirecional, e esse estresse é um fator importante a considerar na pesquisa e no tratamento da depressão na adolescência.
As restrições devidas à pandemia de covid-19 foram codificadas como estressor fora da família e podem ser consideradas uma adversidade psicossocial. A partir do primeiro lockdown na Holanda (março de 2020), 22 famílias participaram, e as restrições devidas à covid-19 foram mencionadas como crença causal por 27,3% das pessoas jovens, 31,8% das mães e 22,2% dos pais dessas famílias (tabela S2). O tema, portanto, não apareceu entre as cinco principais crenças causais e foi muitas vezes mencionado como fator de agravamento, e não como causa direta. A pesquisa meta-analítica mostra um aumento moderado e estável dos sintomas depressivos do período anterior ao período da pandemia de covid-19 (Ludwig-Walz et al., 2022; Madigan et al., 2023), mas baixa certeza das evidências quanto às taxas de depressão clinicamente relevante (Ludwig-Walz et al., 2022). As compreensões de nosso trabalho qualitativo, combinadas às meta-análises existentes, sugerem que as restrições da pandemia não são (percebidas como) uma causa principal de depressão clínica na adolescência. Por outro lado, os efeitos dessas restrições não podem ser ignorados, pois há evidência clara de seus efeitos (percebidos) de agravamento dos sintomas depressivos.
O presente estudo replica a segunda grande categoria, a dos fatores de personalidade, encontrada anteriormente (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Wisdom & Green, 2004), com uma variedade de subtemas. A terceira grande categoria, a da vulnerabilidade intergeracional (Bear et al., 2021; Midgley et al., 2017; Wisdom & Agnor, 2007), foi parcialmente replicada. Essa categoria foi um tema importante para mães e pais no presente estudo, mas apenas duas pessoas jovens a mencionaram espontaneamente. Esse número aumentou substancialmente depois que o panorama dos fatores de risco conhecidos foi apresentado. A maioria das pessoas participantes mencionou fatores familiares e hereditariedade genética simultaneamente, sustentando assim, em parte, uma explicação biológica. Duas conclusões interessantes podem ser tiradas. No presente estudo, mães e pais, mas não as pessoas jovens, veem a vulnerabilidade intergeracional como uma crença causal idiossincrática importante sobre a depressão da criança. Além disso, usar um panorama como estímulo parece valioso em entrevistas com jovens. Isso está de acordo com um estudo sobre diabetes pediátrico, em que uma lista de estímulos ajudou jovens a fazer perguntas e a participar mais das consultas médicas (Pembroke et al., 2022). Jovens (assim como adultos) podem ter dificuldade em formular sua contribuição sobre certos temas. Alguns sintomas de uma depressão clínica podem ter tornado isso ainda mais difícil na presente amostra (por exemplo, falta de motivação e de concentração, baixa autoestima). Recomendamos o uso de um panorama para estimular jovens (e pais) durante uma entrevista.
Por fim, o presente estudo acrescenta o tema do uso de mídias à lista de crenças causais, a partir de uma perspectiva familiar. Essa foi uma crença causal importante para os pais, mas não para as pessoas jovens nem para as mães, no presente estudo. Trabalhos qualitativos anteriores sobre as crenças causais de jovens são, assim, replicados, no sentido de que as pessoas jovens não mencionaram o tema. As mídias (sociais) estão cada vez mais presentes na sociedade atual, e o uso de mídias na adolescência está associado, transversalmente, a sintomas depressivos de jovens (meta-análise de Ivie et al., 2020), mas os efeitos direcionais permanecem incertos. Além disso, o uso de mídias na adolescência mostrou-se associado a mais conflitos entre pais e filhos (por exemplo, Yang & Zhang, 2021). O uso de mídias foi um tema importante para os pais, mas não para as pessoas jovens e as mães no presente estudo, o que indica visões diferentes sobre o assunto. Embora as crenças causais (refletidas) de jovens, mães e pais fossem em geral semelhantes no nível do grupo, havia discrepâncias substanciais dentro das famílias. A sobreposição das crenças causais entre jovens e seus pais foi relativamente baixa. Além disso, mães e pais foram moderadamente precisos ao formular as crenças causais da própria criança, mas tenderam a subestimá-las, no sentido de que a pessoa jovem mencionava mais temas do que a mãe e/ou o pai esperavam. A sobreposição e a precisão foram especialmente baixas nos temas transversais; a sobreposição entre pais e filhos foi relativamente alta nos fatores sociais e escolares, ao passo que a precisão parental foi relativamente alta apenas nos fatores sociais. Assim, jovens e seus pais compartilhavam em grande parte crenças causais sobre estressores ou experiências de natureza crônica fora do contexto familiar, que afetavam o dia a dia das pessoas jovens. Esses fatores talvez fossem mais evidentes, já que mães e pais tinham conhecimento das experiências sociais e escolares da criança e do impacto emocional dessas experiências. No caso das experiências sociais, mães e pais conheciam até com precisão a compreensão que a criança tinha do tema. Parece que esse assunto é especialmente conversado dentro das famílias e/ou percebido por mães e pais.
Duas observações adicionais dignas de nota foram feitas. Primeiro, algumas pessoas participantes descreveram espontaneamente temas (por exemplo, as restrições devidas à covid-19) e sintomas da depressão (por exemplo, visões negativas de si, insônia, funcionamento escolar desregulado) como fatores que mantêm ou agravam a depressão, e não como causas que a precedem. Essa perspectiva se ajusta à abordagem de modelagem em rede, que se interessa pela maneira como os sintomas se influenciam mutuamente, e não pelo exame das causas que precedem a depressão (Fried et al., 2017; van Borkulo et al., 2015). Segundo, as famílias com mães e/ou pais de crenças causais refletidas especialmente precisas (escore de precisão ≥ 0,50) envolviam muitas vezes jovens que estavam, no momento, em tratamento psicológico com profissional com credenciamento. Mães e pais dessas famílias indicaram com relativa precisão o estresse no contexto familiar ou os eventos de vida estressantes. Isso não foi observado nos escores de sobreposição. O presente estudo tem delineamento transversal, e não se sabe se a alta precisão precedeu ou sucedeu o início do tratamento. Por um lado, a terapia pode favorecer a compreensão, por mães e pais, da perspectiva da criança sobre essas experiências estressantes. Por outro, mães e pais talvez estivessem mais atentos ao impacto dessas experiências estressantes tal como percebido pela criança e tenham favorecido o início da terapia.
O principal ponto forte deste estudo é seu foco pioneiro em relatar qualitativamente as crenças causais sobre a depressão na adolescência a partir da perspectiva de jovens com depressão clínica e também de suas mães e seus pais. É também o primeiro estudo qualitativo sobre as crenças causais refletidas de mães e pais, sobre a sobreposição intrafamiliar das crenças causais e sobre a precisão das crenças causais refletidas, acrescentando assim, de forma substancial, novas compreensões à pesquisa anterior.
Os resultados devem ser interpretados à luz de duas características importantes da amostra. Todas as pessoas jovens incluídas haviam buscado tratamento, e aproximadamente metade delas havia recebido ao menos algum tratamento, no passado ou no presente. As crenças causais podem ter sido influenciadas pelo tratamento (ou pelo processo de solicitá-lo). Segundo, pessoas jovens com determinadas comorbidades atuais eram excluídas do estudo (ver Métodos). Os resultados, portanto, não podem ser simplesmente generalizados para famílias de jovens com depressão antes da busca de ajuda e/ou com as comorbidades atuais listadas acima. Por fim, é preciso ter em mente o caráter descritivo da metodologia usada para a sobreposição e a precisão intrafamiliares: nenhuma conclusão pode ser tirada sobre as causas nem sobre as consequências desses níveis de sobreposição e precisão.
Os resultados do presente estudo podem ser traduzidos em três implicações clínicas principais. Primeiro, é valioso perguntar (separadamente) sobre as perspectivas quanto às crenças causais da pessoa jovem e também da mãe e do pai. Alguns temas principais comparáveis aparecem no nível do grupo, mas o presente estudo destaca sobretudo a variedade de experiências de jovens com depressão clínica e de seus pais. Além disso, houve variação considerável entre as famílias no nível de sobreposição entre pais e filhos e na precisão das crenças causais refletidas. Na prática, é valioso perguntar à pessoa jovem e também à mãe e ao pai sobre suas crenças causais (e sobre as que atribuem ao outro), para obter uma visão mais completa dos fatores em jogo e da sintonia dentro das famílias. O objetivo não precisa ser que a pessoa jovem e sua mãe e/ou pai tenham a mesma perspectiva, e sim que cada pessoa compreenda a perspectiva das demais e que a família converse sobre isso. Pesquisas futuras poderiam examinar os efeitos de conversar sobre crenças causais na terapia. Perguntar ativamente sobre as crenças causais da pessoa jovem e incorporá-las ao tratamento (por exemplo, por meio da tomada de decisão compartilhada) pode responder às suas preocupações pessoais e beneficiar a satisfação com o tratamento e sua eficácia. Além disso, pesquisas futuras poderiam testar se intervenções (familiares) podem promover a sintonia das crenças causais (refletidas) de jovens e de seus pais, se as pessoas jovens vivenciam essa sintonia como apoio e se uma maior sintonia beneficiaria o bem-estar de jovens e/ou de mães e pais.
Segundo, muitas das crenças causais diziam respeito a experiências estressantes (ainda que de formas variadas), e quase um quarto das pessoas jovens relatou espontaneamente uma sensação de sobrecarga diante do acúmulo de experiências de vida (negativas). Jovens podem se beneficiar muito de apoio para elaborar experiências de vida (negativas) em um contexto terapêutico e para fortalecer suas habilidades de regulação emocional. Além disso, talvez haja uma oportunidade valiosa de promover a compreensão, por mães e pais, das experiências de estresse da criança e de envolvê-los no apoio à pessoa jovem no dia a dia. Quase todas as figuras parentais (com exceção de uma família) mencionaram vários temas como crenças causais refletidas e talvez já saibam (implicitamente) que o efeito de acúmulo dessas experiências é difícil para a criança; pesquisas futuras poderiam examinar se jovens se beneficiariam de falar explicitamente sobre esse tema em um contexto terapêutico e/ou familiar.
Terceiro, o uso de um panorama dos fatores de risco conhecidos (tabela S1) pode ajudar jovens (e pais) a formular suas crenças causais. Para começar, convém fazer uma pergunta aberta sobre o tema, para não influenciar as crenças e a contribuição idiossincráticas da pessoa jovem. Num segundo momento, é útil apresentar o panorama. Jovens podem ter dificuldade, de início, para formular seus pensamentos e conseguir fazê-lo melhor diante de um panorama. Além disso, o presente estudo mostra que parte das pessoas jovens e das figuras parentais distingue espontaneamente fatores causais de fatores de manutenção ou de agravamento. Perguntar sobre fatores causais e de manutenção de forma estruturada pode trazer compreensões adicionais tanto aos membros da família quanto às equipes clínicas.
Em conclusão, este estudo qualitativo intrafamiliar sobre as crenças causais acerca da depressão na adolescência destaca três mensagens-chave. Primeiro, há grande variedade nas crenças causais de jovens com depressão clínica e de seus pais. Alguns temas principais comparáveis aparecem no nível do grupo, mas há variações substanciais de uma família para outra e de uma pessoa para outra dentro da mesma família. Na pesquisa científica, é importante, portanto, distinguir esses níveis. Conversas (mediadas) dentro das famílias sobre a perspectiva de cada membro podem ajudar a família a se compreender e se apoiar melhor. Segundo, muitos dos temas diziam respeito a alguma forma de experiência estressante. Temas específicos dentro dessas experiências estressantes estão alinhados com pesquisas anteriores, embora o presente estudo acrescente o tema do estresse especificamente no ambiente escolar. Terceiro, mães e pais da presente amostra tenderam a subestimar as crenças causais da criança: as pessoas jovens mencionaram temas com mais frequência do que a própria mãe e/ou pai esperavam. Isso ocorreu sobretudo nas experiências estressantes, no intergeracional e no efeito cumulativo. Estudos futuros poderiam investigar se incorporar as crenças causais ao tratamento da depressão na adolescência beneficiaria os resultados do tratamento e se intervenções (parentais) podem aumentar a sintonia das crenças causais refletidas de mães e pais e o nível de apoio percebido pela pessoa jovem.
Complexe Systémique: a reter
O que o estudo torna visível é menos o conteúdo das explicações do que sua distribuição na família. No nível do grupo, jovens, mães e pais contam mais ou menos a mesma história: temperamento, relações sociais, escola, estresse. Dentro de cada família, os relatos pouco se sobrepõem, e mães e pais subestimam sobretudo o que a criança percebe do acúmulo de dificuldades, ou sua perplexidade por não saber. Os pais destacam as telas, que as pessoas jovens nunca citam. Para a clínica sistêmica, o interesse é duplo. Perguntar separadamente a cada membro sobre suas hipóteses causais e, depois, sobre as que atribui aos demais abre um espaço de metacomunicação em que o objetivo não é o acordo, e sim a compreensão mútua. E a distinção espontânea entre causas e fatores de manutenção se aproxima de uma leitura circular, e não linear, do sintoma. Os limites são claros: delineamento transversal, famílias holandesas que já buscavam atendimento, escores de sobreposição puramente descritivos. Para ler junto com o estudo norueguês sobre as crenças familiares acerca da doença e com a metanálise sobre o envolvimento da família na psicoterapia da depressão em crianças e adolescentes.
Notas do original
Contribuições. Wilma G. M. Wentholt: conceituação, investigação, redação do rascunho original, metodologia, análise formal, visualização, administração do projeto. Loes H. C. Janssen: conceituação, revisão e edição, investigação. Lisanne A. E. M. van Houtum: conceituação, investigação, revisão e edição. Mirjam C. M. Wever: conceituação, investigação, revisão e edição. Marieke S. Tollenaar: conceituação, revisão e edição. Lenneke R. A. Alink: revisão e edição. Bernet M. Elzinga: conceituação, revisão e edição, captação de recursos, metodologia, supervisão.
Agradecimentos. A equipe agradece muito a todas as famílias participantes, às equipes clínicas parceiras e às pessoas estudantes que colaboraram, e em especial a Annelot van Geffen, Willemijn Cobben, Veerle Bastiaansen e Elif Uyanik pela ajuda na (coordenação da) codificação das entrevistas. O estudo é apoiado por uma bolsa de pesquisa pessoal concedida a Bernet Elzinga pela Organização Holandesa para a Pesquisa Científica (NWO-VICI; Unravelling the Impact of Emotional Maltreatment on the Developing Brain, 453-15-006).
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não ter conflitos de interesse, reais ou potenciais.
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Tradução não oficial em português de Um estudo qualitativo multiperspectiva sobre as crenças causais acerca da depressão na adolescência, de Wilma G. M. Wentholt, Loes H. C. Janssen, Lisanne A. E. M. van Houtum, Mirjam C. M. Wever, Marieke S. Tollenaar, Lenneke R. A. Alink e Bernet M. Elzinga, Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, vol. 97, no 3, p. 477-497 (2024), doi: 10.1111/papt.12528, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “A qualitative, multi‐perspective study on causal beliefs about adolescent depression”, publicado em Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Wentholt, W. G. M., Janssen, L. H. C., van Houtum, L. A. E. M., Wever, M. C. M., Tollenaar, M. S., Alink, L. R. A., et Elzinga, B. M. (2024). Um estudo qualitativo multiperspectiva sobre as crenças causais acerca da depressão na adolescência (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/um-estudo-qualitativo-multiperspectiva-sobre-as-crencas-causais-acerca-da-depressao (Obra original publicada em 2024 em Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 97(3), 477-497 (2024); republicada em 2024 por Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, https://bpspsychub.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/papt.12528)
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