Journal of Child and Family Studies · Família
Duzentas e treze perguntas deixadas anonimamente numa caixa, durante acampamentos para crianças enlutadas na Austrália: “A culpa é minha?”, “Câncer é contagioso?”, “O que é o céu?”. A equipe de Caitlin Joy extrai delas cinco temas e uma constatação simples: as crianças querem entender, e as pessoas adultas ao redor delas precisam se preparar.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O que as crianças enlutadas querem saber sobre a morte e o luto, de Caitlin Joy, Lexy Staniland, Trevor G. Mazzucchelli, Shelly Skinner, Lisa Cuddeford e Lauren J. Breen, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2024), doi: 10.1007/s10826-023-02694-x, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; as fotos das perguntas manuscritas permanecem em inglês, com legenda traduzida; as perguntas das crianças, citadas no original com seus erros de ortografia, são traduzidas reproduzindo alguns erros equivalentes. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O apoio ao luto infantil pode se beneficiar de considerar não só o que as crianças precisam saber, mas também o que as crianças querem saber sobre a morte e o luto.
Caitlin Joy, Lexy Staniland, Trevor G. Mazzucchelli, Shelly Skinner, Lisa Cuddeford e Lauren J. Breen
Resumo
Embora o luto na infância seja comum, as necessidades das crianças enlutadas não são bem compreendidas. Reconhece-se que a compreensão da morte pelas crianças difere fundamentalmente da compreensão adulta; no entanto, poucas pesquisas exploraram essa questão do ponto de vista da criança. As perguntas que as crianças fazem sobre a morte permitem entender sua compreensão e suas necessidades. Crianças enlutadas de 5 a 12 anos foram convidadas a enviar perguntas sobre a morte e o luto durante um acampamento para crianças em luto. As perguntas das crianças (N = 213) recolhidas em 10 acampamentos foram examinadas por meio de análise de conteúdo convencional. Foram identificados cinco temas: Causas e processos da morte, Intervenção humana, Lidar com o luto, O sentido da vida e da morte e Depois da morte. As perguntas revelaram a curiosidade das crianças por experiências e conceitos variados, biológicos, emocionais e existenciais, e demonstraram reflexões complexas e multifacetadas sobre a morte e seu impacto posterior na vida delas. Os resultados sugerem que as crianças enlutadas podem se beneficiar de oportunidades para falar livremente do que pensam sobre a morte, o que pode facilitar uma informação adequada e apoio emocional.
Pontos-chave
Palavras-chave: crianças enlutadas, luto, morte, compreensão da criança, perguntas das crianças
O luto na infância é comum: nos países ocidentais, de 5% a 7% das crianças perdem o pai, a mãe ou um irmão ou irmã antes dos 18 anos (Australian Bureau of Statistics, 2010; Burns et al., 2020; Parsons, 2011). Quando se inclui a perda de outros familiares próximos e de amizades, mais de 50% das crianças já passaram por um luto (Harrison & Harrington, 2001; Paul & Vaswani, 2020). Uma preocupação recente é o efeito da covid-19: estima-se que, no mundo, 1,1 milhão de crianças tenham perdido o pai ou a mãe nos 14 primeiros meses da pandemia (Hillis et al., 2021). A frequência do luto na infância evidencia a necessidade de um apoio eficaz e adequado, sobretudo diante das possíveis consequências adversas da perda de uma pessoa próxima. Embora reações de luto como a tristeza sejam, compreensivelmente, comuns, o luto na infância está associado à ansiedade e à depressão, ao baixo desempenho escolar, à suicidalidade e ao desenvolvimento de transtornos afetivos, psicóticos e por uso de substâncias (Burrell et al., 2018; Elsner et al., 2022; McKay et al., 2021; Simbi et al., 2020; Syer et al., 2021; Weinstock et al., 2021). Atenuar esses impactos exige um apoio ao luto infantil que leve em conta a maneira própria como as crianças compreendem a morte e vivem o luto.
A compreensão da morte e do morrer pelas crianças costuma ser pensada a partir dos conceitos de morte de base biológica: inevitabilidade, universalidade, irreversibilidade, cessação das funções vitais e causalidade (Hoffman & Strauss, 1985; Panagiotaki et al., 2018). Em geral, as crianças demonstram uma compreensão inicial da morte por volta dos três anos, entendem alguns conceitos de morte por volta dos seis e chegam a uma compreensão mais completa por volta dos 10 anos (D’Antonio, 2011; Harris, 2018; Kentor & Kaplow, 2020; Panagiotaki et al., 2018). Essa compreensão em evolução é amplamente vista como função do desenvolvimento cognitivo e emocional (McCoyd et al., 2021, p. 5); no entanto, poucas pesquisas exploram os conceitos de morte do ponto de vista da criança (Ahmadi et al., 2019).
As perguntas que as crianças fazem sobre a morte permitem entender como elas a compreendem. Fazer perguntas e receber respostas é essencial para dar sentido à morte (Menendez et al., 2020). Segundo o relato de pais, mães e outras pessoas que cuidam delas, as crianças costumam perguntar: “Por que as pessoas morrem?”, “Eu vou morrer?” e “Você vai morrer?”, o que demonstra uma compreensão em construção da inevitabilidade e da universalidade da morte (Gutiérrez et al., 2014; Renaud et al., 2015). As perguntas que as crianças fazem sobre a morte também podem esclarecer suas necessidades diante do luto. A equipe de Martinčeková (2020) pediu a pessoas adultas que perderam alguém próximo na infância que descrevessem como poderiam ter recebido um apoio melhor para lidar com a perda. Um tema central foi a necessidade de mais informações sobre a morte e o luto, o que sugere que as crianças enlutadas desejam conversar sobre a morte e o luto. No entanto, os relatos retrospectivos do luto na infância são inevitavelmente coloridos por pensamentos e emoções da vida adulta, o que limita sua utilidade para revelar de fato as necessidades das crianças enlutadas.
As crianças dependem em grande parte das pessoas adultas que cuidam delas para receber apoio no luto e informações sobre a morte (Menendez et al., 2020; Scott et al., 2019), e os dados indicam que as crianças que recebem esse apoio e essas informações lidam melhor com a perda do que aquelas que são mantidas afastadas das conversas sobre a morte e o luto (Martinčeková et al., 2020). No entanto, a população adulta muitas vezes reluta em falar da morte e do morrer com as crianças (Fearnley, 2010; Hunter & Smith, 2008) e tende a subestimar a capacidade das crianças de compreender os conceitos de morte (Gaab et al., 2013). Ao compreender as perguntas que as crianças enlutadas têm sobre a morte e o luto, e ao colocar no centro suas necessidades e experiências próprias, quem cuida delas pode ter mais recursos para apoiá-las de forma eficaz e adequada.
Este estudo buscou compreender melhor as necessidades das crianças enlutadas examinando as perguntas feitas por crianças que participavam de um serviço de apoio ao luto. Embora pesquisas anteriores tenham investigado o tema de forma retrospectiva, poucos estudos procuraram ouvir diretamente as crianças enlutadas, o que significa que suas necessidades talvez não sejam plenamente compreendidas nem atendidas. Para preencher essa lacuna, a equipe de pesquisa convidou crianças enlutadas a fazer perguntas sobre a morte e o luto e usou os dados obtidos para responder à sua pergunta de pesquisa: o que as crianças enlutadas querem saber sobre a morte e o morrer?
O Lionheart Camp for Kids (LCK) é um acampamento diurno gratuito que oferece apoio no luto a crianças e adolescentes de 5 a 17 anos e a suas famílias (Griffiths et al., 2022). Sediado na Austrália Ocidental, o LCK acontece várias vezes por ano, em dois dias consecutivos, durante os quais profissionais com formação e pessoas voluntárias oferecem psicoeducação sobre o luto às crianças e a quem cuida delas, por meio de uma série de atividades adequadas ao desenvolvimento. As famílias podem conhecer o serviço por diversos canais, como hospitais, escolas, redes sociais e o site do LCK (https://lionheartcampforkids.com.au/). Como o serviço foi concebido para apoiar crianças enlutadas e suas famílias, só podem participar crianças que perderam alguém próximo; não há, porém, nenhum critério de admissão relacionado aos sintomas de luto. As crianças devem estar acompanhadas por uma pessoa adulta responsável durante todo o acampamento, e espera-se que essa pessoa participe ativamente das atividades.
No primeiro dia, a equipe de facilitação normaliza as experiências das famílias ao convidar cada criança a falar da pessoa da família que morreu, antes de passar por uma série de atividades estruturadas (por exemplo, a criação de “pedras de memória”), intercaladas com pausas e brincadeiras livres. Ainda no primeiro dia, as crianças conhecem uma caixa de perguntas colocada em local central e são convidadas a depositar nela, anonimamente, perguntas sobre a morte e o luto, que são respondidas no dia seguinte por uma pessoa médica convidada. A equipe de facilitação assegura às crianças que todas as perguntas são válidas e serão respondidas. As crianças são incentivadas a usar a caixa sempre que tiverem uma pergunta. Quando a criança tem dificuldade para escrever, um membro da equipe de facilitação anota a pergunta palavra por palavra, esclarecendo o sentido de uma palavra só quando necessário. No segundo dia, as crianças aprendem diferentes estratégias de enfrentamento (por exemplo, técnicas de aterramento e de respiração), as pessoas adultas recebem psicoeducação sobre o desenvolvimento infantil e o luto, e são propostas atividades conjuntas entre crianças e pessoas adultas para favorecer a elaboração e a construção de sentido.
O Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Curtin concedeu a aprovação ética (número de aprovação HRE2020-0560). Não houve processo formal de assentimento das crianças; as famílias, porém, deram consentimento livre e esclarecido por escrito para que fotos, vídeos ou dados de atividades coletados durante o acampamento fossem usados na divulgação do programa ou em pesquisas de avaliação. As perguntas das crianças recolhidas em 10 acampamentos realizados entre julho de 2017 e abril de 2021 foram reunidas e constituem os dados deste estudo.
Participaram cerca de 220 crianças enlutadas que frequentaram um dos 10 acampamentos do LCK incluídos no estudo. As crianças tinham entre 5 e 12 anos, com média de idade que variou de 7,4 anos em 2017 a 8,7 anos em 2021. A divisão entre meninos e meninas foi aproximadamente igual. A maioria das crianças tinha desenvolvimento típico; em vários casos, a pessoa responsável indicou TDAH, autismo ou transtorno do processamento sensorial. A maioria das crianças morava em Perth, na Austrália, e um dos acampamentos foi destinado à população da região Sudoeste da Austrália Ocidental. Todas as crianças tinham vivido a morte do pai ou da mãe, de um irmão ou irmã ou de outro familiar (por exemplo, um tio, uma avó). O tempo desde a morte variou de quatro meses a cinco anos, e a maioria das perdas ocorreu nos 12 meses anteriores ao acampamento. As causas de morte incluíam câncer, acidente de trânsito, infarto, suicídio, acidente de trabalho, uso de substâncias e doenças da infância. Para preservar o anonimato das crianças, nenhum dado demográfico foi coletado junto com as perguntas enviadas.
Diante da escassa literatura sobre as perguntas das crianças a respeito da morte e do luto, usou-se uma análise de conteúdo convencional (Hsieh & Shannon, 2005). Essa abordagem é adequada para descrever um fenômeno (no caso, as perguntas das crianças sobre a morte e o luto) e permite codificar os dados de forma indutiva, com categorias formadas a partir dos próprios dados, e não de estruturas de codificação ou teorias predeterminadas (Hsieh & Shannon, 2005). Seguiram-se as etapas descritas por Hsieh e Shannon (2005). Primeiro, os dados foram lidos para familiarização e imersão e depois condensados em unidades de sentido. Em seguida, os códigos foram derivados de forma iterativa, identificando palavras que expressavam conceitos distintos. Esses códigos foram então organizados em categorias. As relações entre categorias serviram para agrupar os códigos em temas. A tabela 1 traz um exemplo do processo de codificação.
Tabela 1 — Exemplo do processo de codificação
A confiabilidade do estudo foi sustentada por vários critérios de qualidade. Primeiro, a pesquisa foi conduzida por uma equipe multidisciplinar das áreas de psicologia, serviço social e medicina, cujos membros traziam experiência em desenvolvimento infantil, parentalidade, luto e perda, e pesquisa qualitativa. Segundo, a consistência da análise e dos resultados foi sustentada pela codificação cega de todos os dados por uma segunda pessoa, com concordância satisfatória, κ de Cohen = 0,78 (Kyngäs et al., 2020). A apresentação das perguntas em seu estado original, inclusive com erros de ortografia e de gramática, favoreceu a confirmabilidade, e a credibilidade foi garantida por uma trilha de auditoria detalhada que documentou os procedimentos e as decisões da análise.
Ao todo, as crianças enviaram 213 perguntas nos 10 acampamentos. Vinte e três perguntas sem relação com o estudo (por exemplo, perguntas sobre a equipe do acampamento) foram excluídas. Das 190 perguntas restantes, foram definidos cinco temas: Causas e processos da morte, Intervenção humana, Lidar com o luto, O sentido da vida e da morte, e Depois da morte (tabela 2).
Tabela 2 — Frequência dos temas e das categorias
Causas e processos da morte foi a categoria mais presente nos dados e reuniu as curiosidades e preocupações das crianças sobre por que e como as pessoas morrem. As crianças perguntavam “De que tipo de doensas as pesoas podem morrer?” (figura 1) e “Os médicos já descobriram como os bebês morre?”, mostrando o desejo de entender o que causa a morte. Sobre os processos da morte, as crianças perguntavam “Como o corpo morre de verdade?” e “Por que as pessoas morrem tão rápido?”. As crianças também perguntavam sobre a morte de animais, “Como os animais podem morrer?”, o que sugere que querem entender os processos da morte em outros seres vivos.

As crianças perguntavam se certas doenças eram contagiosas, “Câncer é contagioso?”, ou hereditárias, “Se meu pai morreu de câncer, quer dizer que eu também vou morrer disso?”, e se as causas de morte podiam vir dos animais, “Os humanos podem pegar doenças dos animais?”. Essas perguntas sugerem que as crianças querem entender melhor as diferentes formas de morrer. Elas também procuravam compreender a experiência da morte e do morrer, “Como é a sensação de morrer?” e “Dói quando a gente morre?”. Essas perguntas mostram que as crianças pensam em como outras pessoas poderiam morrer. Isso se confirmava em perguntas como “Quando eu vou morrer?” e “Como eu vou saber que estou morrendo?”, que sugerem que as crianças pensam na própria morte e querem entender melhor como e quando ela poderia acontecer.
As perguntas das crianças pareciam se apoiar em seus conhecimentos e experiências prévios. Por exemplo, uma pergunta dizia: “O coração das pessoas desliga?”, o que mostra certa compreensão da função do coração para manter o corpo vivo. Outra pergunta dizia: “Se alguém está com aparelhos e todos os órgãos ainda funcionam?”, o que pode refletir a tentativa de entender a morte de uma pessoa conhecida. O suicídio e o uso de substâncias também apareciam em algumas perguntas, refletindo provavelmente a causa da morte da pessoa querida. Sobre o suicídio, as crianças perguntavam: “Por que as pessoas se matam?” e “O que é depressão? Por que as pessoas se matam por causa dela?”. Sobre o uso de substâncias, as perguntas eram: “Por que as pessoas ficam viciadas? Por que escolhem fazer o vício delas?”, “Como a gente se embebeda?” e “Por que alguém ia querer usar drogas?”. Essas perguntas mostram que as crianças reconhecem os fatores que podem contribuir para o suicídio e o uso de substâncias e querem entendê-los.
Intervenção humana reúne perguntas relacionadas à prevenção da morte e à ajuda a pessoas que estão morrendo. As crianças perguntavam sobre tecnologias específicas, como o marca-passo, “Como funciona um marca-paso? Um marca-paso pode fazer um coração bater rápido se ele devagarar?” (figura 2), e sobre tratamentos, “Existe um remédio que pode parar o câncer?”, “Como dá para curar câncer no coração?” e “Se você tem câncer no cérebro, quantos remédios você vai tomar?”. Também aparecia o desejo de entender os contextos da morte: “Todo mundo que vai para o hospital morre?”. As perguntas sugerem que as crianças querem saber como a morte pode ser evitada ou adiada.

Prevenir novas mortes era uma preocupação para crianças que perguntavam: “Como eu posso proteger minha família para outras pessoas não morrerem?” e “Como eu posso aguentar sem remédio?”. Essas considerações podem refletir uma internalização, pela criança, da responsabilidade pela própria morte e pela morte de outras pessoas. De fato, as perguntas expressavam o desejo das crianças de ajudar quem está morrendo: “Quem pode você a gente salvar as pessoas vivas ou saber ligar para o 000 [o número de emergência na Austrália]?” e “Como faz para trabalhar com medicina ou enfermagem?”. As crianças demonstravam níveis variados de compreensão das intervenções médicas: algumas perguntas expressavam o desejo de entender a finalidade dessas intervenções, “Por que a gente ajuda as pessoas quando elas estão morrendo?”, enquanto outras mostravam preocupação com o motivo de a ajuda nem sempre ser oferecida, “Por que nem sempre tentam reanimar as pessoas?”. As crianças queriam entender melhor como as pessoas que estão morrendo recebem cuidados médicos: “Como os médicos ajudam as pessoas?”, “Por que os médicos dão para as pessoas comprimidos que podem causar problemas?” e “Quando as pessoas estão perto de morrer, elas recebem uma injeção ou um remédio?”. Essas perguntas sugerem que o conhecimento das intervenções médicas é importante para a compreensão da morte pelas crianças.
Entrar no luto reflete os esforços das crianças para dar sentido à morte e às experiências sociais e emocionais que vêm depois dela. Perguntas como “Por que ele me dexou?” (figura 3) e “A culpa é minha?” sugerem que as crianças procuram entender a morte em relação a si mesmas e podem perceber a morte de uma pessoa querida como responsabilidade sua. Isso aparecia nesta pergunta: “Eu estar com resfriado quando meu pai tinha câncer e a imunidade dele estava baixa fez ele morrer?”. Embora essa pergunta sugira um pensamento egocêntrico (Hunter & Smith, 2008), ela também pode refletir o desejo de entender a morte de um modo que pareça controlável. Do mesmo modo, outra pergunta dizia: “As pessoas falam que é culpa minha o papai ter se matado, o que eu faço para ninguém mais se matar por causa de mim?”. Fica claro que conversar com as crianças sobre a morte e seus motivos é fundamental para evitar o sofrimento desnecessário causado pela internalização da responsabilidade. Isso, aliás, se refletia nas perguntas “Eu não acho justo não contarem a verdade para as crianças?” e “Por que os médicos não me falaram que o papai ia morrer?”.

As crianças faziam muitas perguntas sobre o que viviam depois da morte da pessoa querida, buscando entender reações emocionais e físicas confusas. Elas procuravam entender suas emoções, com perguntas como “Por que às vezes eu sinto alegria e tristeza ao mesmo tempo?” e “Por que eu estou mais triste que meu irmão? Ele amava a mamãe menos que eu?”. As crianças também procuravam entender reações físicas, como mudanças no sono, “Por que eu durmo o tempo todo?” e “Por que eu não consigo dormir de noite?”, e sensações corporais, “O corpo sente dor o tempo todo. Dor no peito etc. O que é isso?” e “Por que as pessoas choram?”. Essas perguntas podem refletir uma compreensão ainda limitada de como as emoções se manifestam no corpo. As perguntas também expressavam o desejo de entender a finalidade das emoções, “Por que a gente tem que passar pelo luto?”, e como lidar com elas, “Como eu posso lidar com alguém morrendo?”, “Como faz para não sentir falta da pessoa?” e “Como você pode lidar com seus sentimentos grandes”. A dificuldade das crianças para lidar com o luto aparecia em perguntas como: “Como eu me machuco sem as pessoas saberem em vez de superaquecer e me queimar?”. As habilidades de regulação emocional são, evidentemente, um aspecto importante do apoio ao luto das crianças.
Perguntas relacionadas ao mundo social das crianças eram evidentes. Algumas crianças expressavam preocupação com sua segurança, “O que vai acontecer comigo se a minha mãe morrer também?”, e outras buscavam ajuda para obter apoio, “Alguém pode ajudar minha professora, ela não entende?”. Essas perguntas mostram um pensamento voltado para o futuro e uma reflexão sobre como a vida da criança foi e pode ser afetada pelo luto. As comparações sociais também pareciam importantes para a compreensão que as crianças tinham do próprio luto, na tentativa de entender as mudanças em seu mundo social, “Por que as crianças fazem bullying comigo na escola agora?”, e sua relação com as outras pessoas, “Por que às vezes a gente sente inveja das outras pessoas que não tiveram ninguém da família que morreu?” e “Como eu faço para parecer normal para as outras pessoas?”. As crianças estão claramente atentas a como são percebidas, o que pode representar uma fonte adicional de estresse, somada à dor da perda.
O sentido da morte reúne as perguntas das crianças sobre o propósito da vida e sobre por que as pessoas morrem. Perguntas como “Qual é o sentido da vida?” (figura 4) e “Para que viver se a gente só tem que morrer?” mostram as reflexões existenciais das crianças.

Essas reflexões também apareciam em perguntas complexas como “Se as crianças não têm pai, por que Deus deixaria a mãe delas morrer?”, “Por que as pessoas têm que morrer com 50 anos ou menos?” e “Como a minha vó e o meu vô viveram tantos anos? Mas a mamãe morreu jovem?”. Essas perguntas refletem compreensões prévias da vida e da morte que o luto colocou em questão.
O desejo de entender quem morre e quem vive aparecia em perguntas como “Por que algumas pessoas doentes melhoram e outras não?” e “Por que os médicos curam algumas pessoas e outras não?”, assim como o desejo de entender o sentido da morte: “Por que as pessoas morem?”, “Por que os bebê morrem?” e “Por que as pessoas tem doensas?”. As perguntas das crianças refletem pensamentos complexos, que sugerem que sua compreensão da morte e do morrer é multifacetada e potencialmente filosófica.
A última categoria, Depois da morte, reúne perguntas sobre o que acontece com uma pessoa depois que ela morre. Muitas perguntas tratavam da continuidade da existência após a morte e de como a pessoa que morreu continua a viver: “O que a gente faz quando morre?”, “Para onde a gente vai quando morre?”, “Dá para ver as pessoas depois de morrer?” e “Meu tio vai ver meu cachorro na vida após a morte?”. O céu aparecia com destaque como destino após a morte, e as crianças perguntavam: “O que é o céu?”, “O céu existe de verdade?”, “A gente vai para o céu depois que morre?”, “Dá para continuar amando as pessoas lá do céu?” e “Como é a sensação de estar no céu?” (figura 5). Isso provavelmente reflete uma narrativa cultural dominante em torno da morte.

As crianças também perguntavam sobre reencarnação, “Meu tio vai nascer de novo como gente ou como animal?”, e sobre futuras interações com a pessoa que morreu, “Se o papai voltar…” e “Eu ainda posso falar com a minha pessoa importante?”. Essas perguntas mostram a incapacidade, própria do desenvolvimento, de compreender a permanência da morte e refletem o desejo de manter o contato e a conexão com a pessoa querida que se foi.
Esta pesquisa buscou compreender o que as crianças enlutadas querem saber sobre a morte e o luto. Por meio de uma análise de conteúdo convencional, perguntas sobre a morte e o luto foram reunidas e analisadas, o que permite conhecer os pensamentos e sentimentos das crianças enlutadas. As perguntas revelaram a curiosidade das crianças por experiências e conceitos variados, biológicos, emocionais e existenciais, e reflexões complexas e multifacetadas sobre a morte da pessoa querida e seu impacto posterior na vida delas.
De modo geral, as perguntas das crianças pareciam ter uma função confirmatória, relacionando-se a conceitos de morte que sabidamente se desenvolvem na infância, como a universalidade, a irreversibilidade e a inevitabilidade (Hunter & Smith, 2008). Essas perguntas sugerem que as crianças constroem ativamente sua compreensão da morte por meio dos processos de aprendizagem propostos por Piaget e Vygotsky. As perguntas das crianças são tentativas de descoberta: a morte da pessoa querida causa um desequilíbrio no modelo mental da criança, que busca corrigi-lo pela descoberta de novas informações (Piaget, 1954, pp. 350–379). Além disso, as crianças contam com outras pessoas (neste caso, uma pessoa médica) para obter as respostas, desenvolvendo assim seu modelo mental num contexto social (Vygotsky, 1978, p. 24). As perguntas se formam a partir do conhecimento existente, mas buscam explicar incoerências ou lacunas recém-descobertas por causa do luto, dirigindo-se a outras pessoas de seu mundo social.
As perguntas das crianças mostraram graus variados de compreensão e conhecimento, o que provavelmente reflete diferenças de cognição ligadas à idade. Isso sustenta abordagens de apoio ao luto adaptadas à idade, embora as diferenças individuais devam ser consideradas. Embora o caráter anônimo da coleta tenha impedido a equipe de pesquisa de considerar o papel da idade nas perguntas, as perguntas que as crianças fazem sobre a morte refletem conhecimentos situados em sua zona de desenvolvimento proximal (Vygotsky, 1978, p. 84). Independentemente da idade, a aprendizagem passa por três etapas: (1) o que não pode ser compreendido ou realizado, mesmo com orientação, (2) o que pode ser compreendido ou realizado com orientação (a zona de desenvolvimento proximal) e (3) o que pode ser compreendido e realizado de forma autônoma. Esse modelo fundamenta o andaime (scaffolding), abordagem educativa que reconhece que é preciso muita orientação e apoio no início da aprendizagem de uma habilidade ou de um conceito, orientação que diminui à medida que se avança rumo ao domínio. Portanto, as respostas dadas às perguntas das crianças sobre a morte e o luto devem estar dentro do seu alcance de compreensão, que depende não só da idade biológica, mas também das experiências de vida. A criança que já teve contato com a morte provavelmente terá perguntas diferentes das de uma criança que a enfrenta pela primeira vez, mesmo que tenham a mesma idade biológica. Da mesma forma, a criança que não perdeu ninguém provavelmente fará perguntas diferentes das de uma criança enlutada. Assim, as perguntas das crianças são moldadas por sua experiência e refletem sua zona de desenvolvimento proximal, indicando a quem recebe a pergunta o que está ou não ao alcance da compreensão da criança.
Predominaram as perguntas sobre conceitos biológicos, com foco nas causas, nos processos e nos estados da morte e do morrer. Isso é coerente com a literatura, que mostra que a compreensão e as concepções de morte das crianças são em grande parte biológicas (Harris, 2018; Vázquez-Sánchez et al., 2019; Yang & Park, 2017), e apoia a recomendação de integrar a educação sobre a morte aos currículos formais em todos os níveis de ensino (McAfee et al., 2022). As crianças provavelmente se beneficiariam de uma educação sobre a morte que incluísse informações completas sobre as causas e os processos da morte e do morrer, com conceitos cada vez mais complexos introduzidos ao longo da escolaridade (McAfee et al., 2022).
As perguntas das crianças mostraram sua necessidade de dar sentido à morte. Para parte das crianças, essa aprendizagem se baseava num pensamento egocêntrico, como se vê em perguntas como “Por que ele me dexou?” e “A culpa é minha?”. A percepção de responsabilidade pessoal é comum entre crianças enlutadas (Kentor & Kaplow, 2020), e esse resultado mostra a importância de conversar sobre a morte com as crianças. Embora o pensamento egocêntrico tenda a se dissipar com a idade, ele pode levar a pensamentos de abandono ou de responsabilidade, que podem perpetuar o sofrimento e alimentar a culpa (Cohen et al., 1977; Raveis et al., 1999). Desfazer esses pensamentos é importante; porém, as crianças percebem a tendência do mundo adulto a censurar informações ligadas à morte (Paul, 2019) e, por isso, podem relutar em fazer perguntas. Graças ao caráter anônimo da coleta deste estudo, as crianças talvez tenham feito perguntas que, de outro modo, teriam guardado para si. Assim, estes resultados apoiam conversas abertas sobre a morte com as crianças enlutadas.
Concepções metafísicas da morte, como as que envolvem a vida após a morte, eram comuns nas perguntas das crianças, que buscavam entender o que acontece depois que alguém morre. Em consonância com outras pesquisas (Vázquez-Sánchez et al., 2019), o céu foi uma concepção frequente da vida após a morte. Isso provavelmente reflete narrativas culturais ocidentais dominantes na Austrália, onde o céu é muitas vezes mencionado nas conversas com crianças sobre a morte (Arruda-Colli et al., 2017; Renaud et al., 2015). Embora a filiação religiosa das famílias participantes não tenha sido registrada, os dados do censo australiano mostram que o cristianismo é a religião mais declarada (52,1% das pessoas recenseadas em 2016 e 43,9% em 2021; Australian Bureau of Statistics, 2022). Isso oferece uma explicação possível para a frequência de concepções cristãs da morte, como o céu. As diferenças culturais e religiosas entre as crianças da amostra não puderam ser consideradas, mas constituem caminhos importantes para novas investigações. A cultura e a religião têm implicações importantes para a forma como as pessoas adultas compreendem e vivem o luto (por exemplo, Rosenblatt, 2008, pp. 207–222), o que também pode valer para as crianças.
Em consonância com a literatura (ver Dalton et al., 2019, para uma revisão), as perguntas das crianças mostraram o desejo de saber que a pessoa querida estava morrendo. As crianças desejam ser informadas sobre a morte possível ou inevitável de uma pessoa querida, e afastá-las dessa informação pode ser prejudicial, gerando tensão, sofrimento e ansiedade (Dalton et al., 2019). As crianças provavelmente se beneficiariam de conversas sobre a morte inevitável de uma pessoa querida, que permitem uma preparação psicológica; porém, elas percebem a relutância do mundo adulto em falar com elas sobre a morte, e isso funciona como uma barreira a essas conversas (Paul, 2019). Oferecer a quem cuida das crianças ferramentas e estratégias para conversar de forma eficaz sobre a morte é fundamental para preparar as crianças para a morte de uma pessoa querida e apoiá-las depois da perda. Pesquisas com pessoas adultas que cuidam de alguém próximo à morte mostram que muitas não estão preparadas (Breen et al., 2018). Assim, preparar as crianças para o luto provavelmente significa preparar também as pessoas adultas ao redor delas.
As necessidades das crianças após a perda ficaram evidentes nas perguntas sobre como lidar com experiências emocionais difíceis e manejá-las, o que mostra sua necessidade de apoio emocional, incluindo corregulação, validação e acolhimento. As habilidades de regulação emocional são uma necessidade reconhecida das crianças enlutadas (Ahmadi et al., 2019; Scott et al., 2019; Youngblut & Brooten, 2021), mas quem cuida delas muitas vezes tem dificuldade para encontrar a melhor abordagem. Dada a importância do ambiente de cuidado para a elaboração do luto pela criança (Alvis et al., 2022), é fundamental oferecer a quem cuida apoio e conhecimento suficientes para criar ambientes seguros e acolhedores. Intervenções como o Lionheart Camp for Kids (Griffiths et al., 2022) oferecem um ambiente estruturado e ativo para proporcionar esses apoios às crianças e às pessoas adultas responsáveis por elas. Como as crianças costumam ter contato com a morte pela mídia (por exemplo, livros, televisão, filmes) ou por perdas não humanas (por exemplo, a morte de um inseto) antes de perder uma pessoa próxima (Renaud et al., 2015; Zedníková & Pechová, 2015), quem cuida delas tem a oportunidade de aproveitar as primeiras perguntas das crianças para lhes dar uma compreensão abrangente e um conjunto de habilidades de enfrentamento.
Embora este estudo traga contribuições importantes sobre os tipos de perguntas que as crianças enlutadas fazem sobre a morte e o luto, vários fatores não puderam ser considerados. Por causa do caráter anônimo da coleta, a equipe de pesquisa não pôde comparar as perguntas segundo dados demográficos como idade, sexo, raça, religião ou cultura, que provavelmente são cruciais para compreender aquilo de que as crianças enlutadas precisam. Da mesma forma, não foi possível comparar as perguntas segundo a relação da criança com a pessoa falecida (por exemplo, pai ou mãe em comparação com irmão ou irmã), as circunstâncias da morte (por exemplo, doença terminal em comparação com suicídio) e o tempo desde a perda (por exemplo, um mês em comparação com um ano). Essas informações poderiam esclarecer as necessidades das crianças em diferentes momentos do luto, conforme quem morreu e como. As pesquisas futuras sobre as perguntas de crianças enlutadas deveriam considerar esses aspectos, para fortalecer nossa compreensão do que as crianças querem saber sobre a morte e o luto e aprimorar os apoios ao luto pensados para elas.
O método de coleta permitiu que as crianças fizessem perguntas anonimamente e no seu próprio tempo, uma abordagem naturalista que pode ter captado perguntas que se perderiam em contextos com tempo limitado e sem anonimato, como uma entrevista ou um grupo focal. Apesar dos possíveis benefícios dessa abordagem, há várias desvantagens a assinalar. Primeiro, as crianças com habilidades limitadas de escrita ou de expressão verbal podem estar mal representadas nos dados. Embora as crianças com dificuldade para escrever recebessem ajuda de um membro da equipe de facilitação, esse procedimento pode ter prejudicado o benefício metodológico do anonimato. Segundo, os bilhetes manuscritos estavam descontextualizados, de modo que as ambiguidades não puderam ser resolvidas. Por fim, todos os bilhetes foram interpretados por um olhar adulto. Os sentidos atribuídos pelas crianças podem ter sido interpretados de forma inexata ou incompleta, em razão de diferenças cognitivas e de experiência.
A falta de informações de identificação também impediu determinar com certeza quantas perguntas cada criança fez. É possível que um pequeno subgrupo de crianças tenha feito muitas perguntas, e que as perguntas não representem a amostra mais ampla. Da mesma forma, embora a faixa etária do acampamento fosse de 5 a 12 anos, não é possível saber se toda essa faixa está representada nos dados, o que limita as conclusões sobre a pertinência das perguntas para uma idade específica. Em pesquisas futuras, a coleta poderia incluir um espaço para a criança registrar a idade ao lado da pergunta. Isso preservaria o anonimato e acrescentaria detalhes para contextualizar as perguntas. A possibilidade de generalização é ainda limitada pela amostra. A amostra foi composta de crianças que participavam de um único programa de apoio ao luto na Austrália Ocidental; uma compreensão mais completa das perguntas que as crianças têm sobre a morte e o luto exige recrutamento em vários locais e coleta de dados com amostras diversificadas de crianças.
Embora o objetivo deste estudo fosse categorizar as perguntas que as crianças enlutadas fazem sobre a morte e o luto, a natureza dos dados só permite uma compreensão conceitual dessas perguntas. Na ausência de dados sobre as experiências vividas pelas crianças e sobre o contexto de suas perguntas, esta pesquisa não pode oferecer um quadro matizado do que as crianças querem saber sobre a morte e o luto. Por exemplo, não é possível determinar se as crianças fizeram apenas perguntas ligadas à morte da própria pessoa querida ou se suas perguntas iam além da experiência direta e refletiam coisas ouvidas no acampamento. Como as crianças ouvem falar das experiências de luto umas das outras durante o acampamento, suas perguntas podem expressar não só a própria experiência, mas também a de outras crianças. Pesquisas futuras poderiam registrar as perguntas das crianças ao longo do tempo para examinar como elas mudam.
Por fim, embora as perguntas das crianças reflitam o conhecimento atual sobre os conceitos de morte na infância, é possível que o foco em aspectos médicos e biológicos tenha surgido porque as crianças sabiam que suas perguntas seriam respondidas por uma pessoa médica. Se as perguntas fossem respondidas por outra pessoa especialista (por exemplo, da psicologia, do ensino ou com experiência vivida de luto), talvez outras perguntas tivessem sido feitas. Pesquisas futuras poderiam investigar o efeito de diferentes tipos de especialidade sobre as perguntas das crianças, o que ajudaria a orientar uma preparação mais específica de quem cuida de crianças enlutadas.
As perguntas que as crianças enlutadas fazem sobre a morte e o luto podem ser vistas como janelas para sua elaboração cognitivo-emocional. Assim, podem indicar a compreensão atual da criança e servir para orientar um apoio ao luto apropriado e adequado. Por exemplo, perguntas como “Como eu posso proteger minha família e outras pessoas de morrer?” e “A culpa é minha?” indicam que a criança pode estar internalizando a responsabilidade pela morte da pessoa querida. Esse tipo de pergunta exige uma resposta que tranquilize a criança, dizendo que ela não tem culpa pela morte e que não pode impedir a morte de outras pessoas, sem provocar um medo excessivo da morte. As informações dadas às crianças sobre a morte e o luto devem considerar não apenas o que se julga adequado à idade, mas também o que é pertinente ao nível de compreensão de cada criança.
Neste estudo, as perguntas das crianças indicaram uma necessidade geral de educação psicossocial preventiva. Como muitas perguntas buscavam dar sentido a experiências fisiológicas, emocionais e sociais, as crianças enlutadas podem se beneficiar de explicações sobre o que esperar. Por exemplo, as crianças perguntavam sobre dores no corpo e dificuldades de sono, o que sugere a necessidade de ensinar como o luto (e outras emoções) pode se manifestar no corpo e como lidar com essas experiências fisiológicas. Do mesmo modo, perguntas como “Como faz para não sentir falta da pessoa?” e “Por que eu estou mais triste que meu irmão?” sugerem a necessidade de uma educação sobre as emoções, incluindo sua finalidade e como lidar com elas. Esse tipo de educação poderia normalizar as experiências de luto e preparar as crianças para emoções que, de outro modo, poderiam lhes parecer confusas e angustiantes.
Além disso, ajudar as crianças a lidar com as relações sociais e com o contexto escolar depois da perda pode responder a perguntas como “Por que as crianças fazem bullying comigo na escola agora?” e “Alguém pode ajudar minha professora, ela não entende?”. As crianças talvez não esperem ser tratadas de modo diferente depois de uma perda; informá-las sobre como as outras pessoas podem agir poderia ajudar, preparando-as para interações difíceis e oferecendo meios de lidar com essas experiências. Para conseguir responder às perguntas das crianças, as pessoas adultas precisam entender que evitar os temas da morte e do luto não ajuda, já que as crianças são naturalmente curiosas. Quem cuida de crianças precisa de um letramento sobre a morte (Noonan et al., 2016) e de um letramento sobre o luto (Breen et al., 2022) adequados, para se sentir mais à vontade ao falar desses assuntos com elas.
Integrar a educação sobre a morte aos currículos escolares pode ser uma forma eficaz de apoiar preventivamente as crianças para lidar com o luto. Isso oferece uma orientação preparatória, que dá às crianças conhecimentos, vocabulário e estratégias de enfrentamento a que podem recorrer quando enfrentam uma perda (McGuire et al., 2013). Embora essa não seja hoje uma prática comum nas escolas australianas (Kennedy et al., 2017), os currículos de educação sobre a morte de outros países costumam incluir informações que facilitam reconhecer e compreender o luto, vocabulário para identificar e explicar o luto e estratégias para lidar com o luto e com experiências relacionadas (Dawson et al., 2023; Friesen et al., 2020). Combinada à formação continuada de profissionais da educação, a educação sobre a morte pode preparar crianças e pessoas adultas para lidar melhor com o luto. Por exemplo, diante da pergunta “Por que eu estou mais triste que meu irmão?”, quem educa pode explicar que cada pessoa vive o luto de um jeito, fazendo referência a conceitos discutidos nas aulas de educação sobre a morte. Com uma integração ampla da educação sobre a morte, questões sociais também poderiam ser abordadas, reduzindo a probabilidade de bullying e isolamento (Stylianou & Zembylas, 2018).
Este estudo contribui para um corpo crescente de pesquisas sobre as experiências e perspectivas das crianças enlutadas. Por meio de um método de coleta anônimo, a equipe de pesquisa pôde reunir e analisar as perguntas das crianças sobre a morte e o luto e constatou sua curiosidade pelos aspectos práticos, sociais e relacionais, emocionais e vivenciais da morte e do luto. Embora as perguntas tenham sido agrupadas em cinco temas, dois achados centrais os sustentam. Primeiro, a compreensão da morte pela criança começa pela biologia, que oferece um ponto de ancoragem a partir do qual outros conceitos de morte e luto podem ser construídos. Segundo, as crianças precisam de educação psicossocial que as prepare para o luto e lhes dê ferramentas e conhecimentos para compreender e manejar as experiências fisiológicas, emocionais e sociais do luto. Esses resultados oferecem uma visão valiosa dos pensamentos e curiosidades das crianças enlutadas sobre a morte e o luto e mostram a importância de que as pessoas adultas ao redor delas estejam suficientemente preparadas para acolher essas perguntas e respondê-las. O apoio ao luto infantil pode se beneficiar de considerar não só o que as crianças precisam saber, mas também o que as crianças querem saber sobre a morte e o luto.
Complexe Systémique: a reter
A caixa de perguntas é um dispositivo muito simples, e essa é sua força: o anonimato deixa passar o que as crianças calam diante de adultos percebidos como frágeis ou evasivos. Lido de forma sistêmica, o estudo mostra menos um “nível de compreensão” individual do que um circuito de comunicação familiar: a culpa (“A culpa é minha?”), o medo pelo pai ou pela mãe que ficou e a vergonha na escola prosperam onde o entorno protege a criança pelo silêncio. Para a clínica, vale reter a ideia de tratar cada pergunta como uma mensagem sobre a relação, de preparar as pessoas adultas tanto quanto as crianças e de responder no nível da experiência própria da criança, e não apenas da sua idade. Os limites são claros: nenhuma idade ou contexto associado às perguntas, respostas esperadas de uma pessoa médica, o que provavelmente orientou para o biológico, um único programa australiano e uma leitura inteiramente adulta de palavras de crianças. Para ler junto com o artigo sobre o trabalho narrativo em grupo com famílias enlutadas e com o artigo sobre a voz das crianças numa atmosfera de segredo.
Notas do original
Financiamento. O acesso aberto foi viabilizado e organizado pelo CAUL e suas instituições-membro.
Conflitos de interesse. O Lionheart Camp for Kids não teve nenhum papel no desenho do estudo nem na análise e interpretação dos dados.
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Tradução não oficial em português de O que as crianças enlutadas querem saber sobre a morte e o luto, de Caitlin Joy, Lexy Staniland, Trevor G. Mazzucchelli, Shelly Skinner, Lisa Cuddeford e Lauren J. Breen, Journal of Child and Family Studies, vol. 33, no 1 (2024), doi: 10.1007/s10826-023-02694-x, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “What Bereaved Children Want to Know About Death and Grief”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Joy, C., Staniland, L., Mazzucchelli, T. G., Skinner, S., Cuddeford, L., et Breen, L. J. (2024). O que as crianças enlutadas querem saber sobre a morte e o luto (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-que-as-criancas-enlutadas-querem-saber-sobre-a-morte-e-o-luto (Obra original publicada em 2023 em Journal of Child and Family Studies, 33(1), 327-337 (2024); republicada em 2024 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-023-02694-x)
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