Red Sistémica · Psicanálise e sistêmica

Psicanálise e terapia familiar sistêmica. Estudo comparativo em torno do caso Dora (Freud)

Um caso é um caso: ele não se confunde com a construção explicativa que se edifica sobre ele. Partindo desse princípio, Oscar Galfré retoma o mais prototípico dos casos freudianos e o submete a duas leituras, a freudiana e a sistêmica-relacional, não para fundi-las numa integração difícil, mas para trabalhar em suas bordas. Desse trabalho surgem perguntas que nem uma nem outra formula sozinha: quem pede a consulta? a quem o sintoma é endereçado? e até onde se estende a responsabilidade pelo fato de adoecer?

Autor Oscar Galfré, doutor em psicologia clínica, terapeuta familiar, professor e pesquisador da UMSA (faculdade de psicologia), hospital ÁlvarezPrimeira publicação Revista Argentina de Clínica Psicológica (AIGLE), vol. V, n° 2, agosto de 1996Tradução Complexe Systémique, com a autorização da Red Sistémica

“Considero que Dora não é um caso de histeria: é um caso.”

Oscar Galfré

O artigo que serve de base a esta conferência1 abre-se com uma citação de Tom Bottomore, que lembra a necessidade de distinguir entre o desenvolvimento de uma disciplina e o trabalho realizado ao longo das fronteiras entre diferentes disciplinas. É este último trabalho que tentei fazer, não para promover uma integração difícil, mas porque esse trabalho nas bordas pode favorecer a compreensão mútua e produzir uma troca fecunda, em vez da desqualificação recíproca.

Introdução

Para começar, parece necessário diferenciar os casos das construções explicativas que se elaboram a seu respeito. Os casos são casos. Considero que Dora não é um caso de histeria: é um caso2. Escolhi um caso freudiano por seu valor prototípico.

Mesmo aceitando a discutível incomensurabilidade dos paradigmas, esta não pode impedir que se analisem os resultados explicativos e que se os compare, explorando a possibilidade de articulá-los e de torná-los complementares.

Isso tem implicações não apenas no campo da psicologia, mas em todo o mundo humano, em particular no terreno da ética, da política e da conflitualidade humana em geral. Os problemas, eles também, são casos.

Se o caso permanece colado à construção explicativa (CE), o caso é a CE: é esse o destino deste, tornado “Dora, um caso de histeria”. É precisamente isso que tento questionar, mostrando que temos aqui um caso e duas CE (poderia haver mais):

Caso Dora:

  • CE freudiana;
  • CE sistêmica / relacional.

Se nos dermos ao trabalho de analisar o caso, podemos distinguir entre sua fenomenologia e as construções explicativas lançadas sobre ele, e daremos assim uma contribuição ao acervo profissional.

A dificuldade que se apresenta é que esse trabalho é árduo (não poderia ser de outro modo), porque a fenomenologia do caso vem colada às construções explicativas e à linguagem empregada, interpenetrada com elas, e evidentemente marcada pela subjetividade de quem a ele se dedica.

Mas o desenvolvimento profissional e científico nos compromete a fazer esse trabalho. Surge aqui, quando se comparam fenômenos intrapsíquicos e fenômenos relacionais, a questão de saber quem tem as responsabilidades maiores ou menores no fato de adoecer3. Teremos, portanto, de evitar a tentação do “muito mais fácil” (mais simples, ou simplificado), que consiste em tomar partido e prosseguir com a CE escolhida, sempre sustentada por um certo número de pressupostos não discutidos, mas discutíveis.

Nesse sentido, proponho uma “práxis do interdisciplinar” (no modo verbal, como ação), na medida em que essa prática pode nos dar ferramentas com vistas a uma compreensão melhor, mais rica e mais complexa do fenômeno, isto é, do caso.

Quando escrevi o artigo, eu não havia lido os trabalhos de R. Rorty. Constatei em seguida minhas convergências com ele, pois ele diz coisas fortes, como esta: “devemos nos perguntar se não é preciso substituir o conceito de verdade pelo conceito de conversação”.

Dificuldades fundamentais do trabalho comparativo

  • o abandono das certezas (que são tão necessárias à práxis);
  • o esforço a fazer para tolerar a ansiedade e reconstruir novas certezas;
  • tolerar a crítica e as agressões do dogmatismo;
  • tolerar a ameaça que pesa sobre a identidade e sobre o pertencimento, uma e outro sustentados e condicionados por nossa perspectiva sobre o caso.

O trabalho com o caso

Para poder operar, distingui no texto o relato do caso, as hipóteses gerais e as hipóteses sobre o caso, com a intenção de diferenciar, como já disse, o material de estudo dos princípios explicativos empregados para compreender esse material.

Em seguida, tento, numa perspectiva relacional, uma visão alternativa do caso, tomando por base o relato mencionado.

Passo depois às reflexões comparativas sobre as diferentes teorizações, e sobre suas articulações e correspondências possíveis.

Por fim, relaciono-as ao campo das possibilidades da clínica e de sua eficácia.

O relato do caso

Como ler esta seção

Os elementos que se seguem são o relato que o próprio Freud faz do caso em seu Fragmento da análise de um caso de histeria4. Eles são aqui restituídos em estilo indireto, reagrupados sob títulos temáticos que acrescentei para fazer aparecer a estrutura relacional do relato; apenas algumas fórmulas são citadas entre aspas. Para o detalhe das citações, deve-se recorrer ao artigo publicado em Clínica Psicológica e ao próprio texto freudiano.

O lugar do pai de Dora (PD) em sua família atual, e o de Dora em relação a ele

A pessoa dominante era o pai, um grande industrial. É ele, escreve Freud, que forneceu a “armação” em torno da qual se edificou a história infantil e patológica da paciente. A filha estava ligada a ele com uma ternura particular, ternura ainda acrescida pelas doenças de que o pai sofreu desde que ela era pequena.

O vínculo de Freud com o pai de Dora

Em certo momento, o pai consulta Freud, que lhe aplica uma cura antiluética coroada de sucesso; e é em razão desse feliz antecedente que, quatro anos mais tarde, ele coloca Dora sob seu tratamento psicoterapêutico.

A família de origem do pai, e o lugar que Dora nela ocupa

Freud conheceu uma irmã do pai, acometida de uma psiconeurose grave e infeliz no casamento; ela morre em consequência de um marasmo. Um irmão mais velho do pai era, por sua vez, um solteirão hipocondríaco. Dora sempre havia colocado suas simpatias do lado da família paterna e, depois de adoecer, via seu modelo na tia que acabo de mencionar.

A apreciação, muito diferente, que Freud faz da mãe de Dora

Ela contrasta com a que ele faz do pai. Freud precisa que não conheceu a mãe. A partir das comunicações do pai e da jovem, formara a ideia de uma mulher de pouca cultura, pouco inteligente, e que sofria de uma “psicose de dona de casa”.

A posição de Dora diante da mãe e do irmão

A relação entre mãe e filha era muito pouco amistosa: Dora não lhe dava a menor atenção e havia se subtraído à sua influência. O irmão, por sua vez, procurava esquivar-se das brigas familiares; quando se via obrigado a tomar partido, fazia-o do lado da mãe.

O papel do pai no pedido de consulta, e os fatos que o motivaram

Foi em consequência da ameaça de suicídio de Dora que o pai decidiu que ela devia colocar-se sob o tratamento de Freud. Ela foi à consulta movida apenas, observa este, pela palavra autoritária do pai.

A trama complexa das relações com o casal K. e as posições sucessivas de Dora a seu respeito

A Sra. K. havia cuidado do pai de Dora durante sua longa doença. O Sr. K., por sua vez, sempre se mostrara muito amável com Dora: saía para passear com ela, dava-lhe pequenos presentes, sem que ninguém tivesse visto nisso nada de repreensível. Dora ocupava-se dos dois filhos do casal K.; servia-lhes de mãe. O pai e a filha viajavam para encontrar o Sr. e a Sra. K., que passavam o verão à beira de um dos lagos alpinos.

Um dia, Dora contou à mãe, para que esta transmitisse por sua vez ao pai, que o Sr. K. ousara fazer-lhe uma proposta amorosa.

O pai, relata Freud, não duvida de que esse acontecimento seja a causa do mal-estar de Dora, de sua irritabilidade e de suas ideias suicidas. Ela lhe pede que rompa suas relações com o Sr. K., e sobretudo com a Sra. K., que ela antes venerava. Mas ele declara não poder fazê-lo, por sete razões que enumera:

  • 1. ele toma o relato de Dora sobre a audácia imoral desse homem por uma fantasia da filha;
  • 2. uma amizade sincera o liga a essa senhora e ele não quer causar-lhe esse desgosto;
  • 3. a pobre mulher é muito infeliz com o marido;
  • 4. marido de quem, aliás, ele não tem muito boa opinião;
  • 5. ela própria sofreu muito dos nervos e só tem a ele como apoio;
  • 6. dado seu estado de saúde, ele não precisa assegurar a Freud que nada de ilícito se esconde por trás dessa relação: são dois pobres seres que se consolam um ao outro como podem, numa amistosa simpatia;
  • 7. e Freud bem sabe, acrescenta ele, que ele não encontra isso junto à própria esposa.

Dora, por sua vez, afirma-se inabalável em seu ódio aos K. Seu último ataque sobreveio depois de uma conversa em que ela dirigira novamente o mesmo pedido ao pai. Este conclui sua exposição a Freud com uma frase que decidirá tudo: “Trate agora de colocá-la no bom caminho.”

Para Dora, não havia dúvida alguma: seu pai atara com aquela mulher jovem e bela uma vulgar relação amorosa. O convívio com os K. começara antes da grave doença do pai; mas só se tornara íntimo quando, no curso desta, a jovem Sra. K. se erigira oficialmente em enfermeira, enquanto a mãe se mantinha afastada do leito do doente.

Enfim, quando Dora estava de mau humor, uma ideia se impunha a ela: a de ter sido entregue ao Sr. K. como preço da tolerância que este manifestava em relação às relações de seu pai com a Sra. K.; e por trás de sua ternura pelo pai deixava-se entrever o furor que provocava nela tal uso de sua pessoa.

As hipóteses gerais

Elas também são de Freud, e eu as resumo aqui na ordem em que o texto as propõe.

É patogênico o material psíquico, ou a moção anímica, que, em virtude da aversão suscitada por seu conteúdo, foi bloqueado fora da consciência e recalcado.

O que os familiares da pessoa doente relatam oferece quase sempre um quadro muito desfigurado do curso da doença.

Devemos prestar tanta atenção às condições puramente humanas e sociais das pessoas doentes quanto aos dados somáticos e aos sintomas patológicos.

Acima de tudo, nosso interesse se dirigirá às relações familiares das pessoas doentes – e isso não apenas em razão dos antecedentes hereditários que é preciso buscar, mas também de outros vínculos, como se verá.

O estado de doença é sem dúvida alguma obra de um desígnio: os estados patológicos são geralmente destinados a uma certa pessoa, de modo que desaparecem quando esta se afasta.

Enfim, Freud lembra ter exposto em outro lugar quão cedo se exerce a atração sexual entre pais e filhos, e ter mostrado que a fábula de Édipo deve provavelmente ser entendida como a elaboração literária do que há de típico nesses vínculos. Essa inclinação precoce da filha pelo pai e do filho pela mãe, de que se encontra verossimilmente um traço nítido em todos os seres humanos, só pode ser suposta mais intensa, desde o começo, “em crianças constitucionalmente votadas à neurose, de maturação precoce e famintas de amor”.

As hipóteses sobre o caso

Freud conclui que os pensamentos recalcados nesse caso – e que deram lugar aos sintomas – são os enamoramentos impossíveis de Dora: o pelo pai, o pelo Sr. K. e o pela Sra. K., que ela não consegue comunicar-lhe. Várias passagens do texto são muito claras a esse respeito.

A conduta de Dora, escreve ele, ultrapassava de muito a esfera que cabe a uma filha: ela sentia e agia antes como uma mulher ciumenta, como se teria esperado da mãe. Com sua exigência “ou ela ou eu”, com as cenas que fazia e a ameaça de suicídio que deixava entrever, ela ocupava manifestamente o lugar da mãe.

As numerosas doenças que o pai contraiu, prossegue ele, só podiam aumentar a ternura de Dora por ele; nessas situações, acontecia também que o pai só aceitasse dela os pequenos serviços que seu cuidado requeria. Orgulhoso de sua inteligência precoce, ele fizera dela sua confidente quando ainda era uma criança. Quando a Sra. K. apareceu, foi Dora, e não sua mãe, que se viu suplantada em mais de uma posição.

A conclusão impõe-se então a Freud: Dora sentia-se inclinada em direção ao pai numa medida maior do que sabia ou queria admitir, pois estava apaixonada por ele.

Depois, ele passa a pensar que o que estava sufocado era o amor pelo Sr. K., e que a jovem retomara e reforçara sua velha inclinação pelo pai a fim de nada ter de notar, em sua consciência, desse primeiro amor adolescente tornado penoso.

Mas, acrescenta ele por fim, por trás do encadeamento de pensamentos que a fazia ocupar-se da relação de seu pai com a Sra. K. escondia-se na realidade uma moção de ciúme cujo objeto era essa mulher: isto é, uma moção que só podia repousar sobre uma inclinação em direção ao mesmo sexo.

Perspectiva relacional

O texto freudiano abunda em elementos – sublinhei alguns deles – que permitem mostrar o caso a partir dessa perspectiva. A primeira coisa que chama a atenção, nesse sentido, é que o motivo de consulta não é o de Dora, mas o do pai de Dora.

Ora, por que, e para quê, o pai consulta? Podemos supor que os pais de Dora não puderam construir o vínculo de aliança conjugal e coparental necessário para satisfazer as necessidades da vida adulta, tanto sexuais quanto de educação dos filhos, o que deu lugar a coalizões intergeracionais e, em consequência, a dificuldades nos vínculos filiais. Esses desacordos conjugais abrem evidentemente também o caminho para o aparecimento de terceiros, como a Sra. K.

Não temos informação sobre o que impediu essa aliança conjugal e coparental. Talvez essa infecção específica do pai, de que fala Freud, tenha se interposto: a distância afetiva e sexual protegeu a esposa dessa doença, o que, na clínica, autorizaria uma conotação positiva. Há igualmente elementos para pensar que ambos devem ter tido dificuldades para se separar de suas famílias de origem.

Freud coloca, aliás, no texto da observação, que “a habitual atração sexual havia aproximado o pai e a filha de um lado, a mãe e o filho do outro”.

Numa perspectiva relacional, a ausência desse vínculo afetivo e sexual entre os cônjuges abre, como acabo de dizer, o espaço para a sedução das crianças a fim de cobrir essas faltas. Uma vez instaladas, essas relações se realimentam, constituindo uma coalizão contra o outro cônjuge, o qual por sua vez rejeita essa criança por estar aliada ao outro.

Assim, o genitor e a criança se veem presos num vínculo intenso, sem limites claros, com a confusão que daí resulta. A criança deixa de ocupar seu lugar natural, o de ser-criado, para ocupar um lugar de pseudocônjuge do genitor, se assim se pode nomeá-lo. Há aí uma alteração das distâncias que são funcionais ao crescimento da família e das crianças e, em suma, à exogamia.

São esses vínculos que estimulam os desejos incestuosos ou promíscuos que não se teriam desenvolvido de outro modo, e que são o produto desse “amontoamento” psicorrelacional. Há uma clara correspondência entre distância e tensão erótica. O amontoamento espacial, ocasionado por carências materiais, dá também ele origem a situações de incesto, de promiscuidade, de delinquência etc.

A partir do relato freudiano do caso, pode-se visualizar desde o começo a coalizão pai–Dora, com a sobreimplicação de Dora nesse vínculo.

Essa coalizão não se realiza entre pares. Uma coalizão entre pares, em que se supõe que cada um disponha do mesmo grau de autonomia, não sobreimplica necessariamente um nos assuntos do outro. Já uma coalizão entre um adulto e uma criança sub-juga necessariamente a criança – note-se a diferença com con-juga –, tendo a criança menos capacidade de pôr à distância assuntos que não lhe pertencem. O sintoma é a maneira de que ela dispõe para estabelecer essa distância.

Para lembrar

O sintoma não é apenas o retorno de um conteúdo recalcado: ele é o meio de que dispõe uma criança presa numa coalizão com um adulto para pôr distância entre si e assuntos que não são seus. É essa leitura que desloca a questão da responsabilidade, do psiquismo da jovem para o uso que os adultos fazem dela.

Podemos permitir-nos supor também que o próprio Freud está incluído nas coalizões do pai: contra a mãe de Dora primeiro, contra Dora em seguida. Isso dá elementos para prosseguir a construção da história da seguinte maneira.

A coalizão pai–Dora estabeleceu-se desde a mais tenra idade de Dora, até que, por razões que vamos ver, essa coalizão se desestabilize. É então que Dora se zanga com o pai e intensifica seus sintomas. E é isso que leva o pai, e não Dora, a consultar.

  • A coalizão pai–Dora se desestabiliza quando a Sra. K. aparece como substituta de Dora.
  • A coalizão pai–Sra. K. substitui a coalizão pai–Dora.
  • Torna-se necessário dar algo a Dora em troca, para restabelecer o equilíbrio.
  • Esse algo é, em primeiro lugar, o Sr. K.
  • Isso fracassa, em razão da recusa de Dora.
  • Os sintomas de Dora surgem.
  • O pai recorre a Freud – “Trate agora de colocá-la no bom caminho” – para restabelecer o equilíbrio que lhe permitirá prosseguir sem embaraço sua relação com a Sra. K., neutralizando o protesto de Dora.

Essa construção difere da leitura psicanalítica, que atribui a sintomatologia de Dora aos enamoramentos ocorridos no interior de seu psiquismo.

Enquanto funcionava a coalizão pai–Dora contra a mãe – compensada pela coalizão desta com o filho –, o sistema familiar era estável. Quando a Sra. K. aparece, o pai trai Dora, a qual certamente se identifica aí com sua mãe, traída antes dela. Ambas são vítimas do mesmo homem, de onde pode surgir uma nova coalizão: mãe de Dora–Dora.

Dora desestabiliza fortemente o sistema (e o pai), pois, além de fazer obstáculo à relação de seu pai com a Sra. K. – o que é claramente expresso no texto como um pedido explícito de Dora –, essas condutas devem ter forçado aproximações não desejadas entre os dois genitores, para se ocuparem da filha problemática.

O que acontece com Dora nesse desenvolvimento? Ela aparece como uma criança submetida – sobreimplicada – às tensões próprias aos conflitos de seus pais e de outros adultos.

Dora encontra-se privada do mundo das pessoas de sua idade, do qual quase nada aparece no relato. O pouco que dele é mencionado é o “jovem engenheiro que Dora havia conhecido…”, que parece em seguida transformar-se numa relação significativa no quadro do crescimento e da cura de Dora, segundo a informação de que se dispõe dentro dos limites dessa observação.

Nesse contexto, é então compreensível que as fantasias e os desejos – heterossexuais e homossexuais – que se desenvolvem comumente na adolescência com os pares, Dora os tenha com pessoas que, sem serem seus pares, funcionam nessa história como tais. Assim aparecem os enamoramentos pelo pai, pelo Sr. K. e pela Sra. K.

Os enamoramentos de Dora certamente existiram, mas são o correlato intrapsíquico da dinâmica relacional na qual ela está imersa.

Emprego a palavra correlato em seu duplo sentido: equivalente, e relato alternativo próprio a cada uma das disciplinas.

Por que a análise com Freud cura Dora?

Porque ela lhe permite perceber desde fora uma situação na qual, poder-se-ia dizer, ela apenas era. E é isso que lhe permite sair dela.

A relação com Freud cura Dora porque, se ela de fato se inicia respondendo à necessidade paterna de poder prosseguir sem embaraço sua relação com a Sra. K.5, Freud oferece a Dora uma relação que é, de fato, uma articulação entre as necessidades do pai e as de Dora: ao mesmo tempo que satisfaz o motivo de consulta do pai, ela nutre Dora de elementos que lhe permitem sair da triangulação, crescer e tornar-se autônoma. O crescimento e a individuação de Dora estavam entravados. Na relação com seus pais, ela perde suas possibilidades pessoais. Na relação com Freud, ao contrário, ela recupera sua individualidade. Ele e Dora se ocupam de Dora – o contrário do que lhe acontece com seus pais.

Algumas conclusões

Tentei dar uma contribuição analisando e comparando diferentes modelos teóricos, assim como diferentes abordagens clínicas, individual ou familiar, propondo uma maneira de articulá-los. É preciso sublinhar a necessidade de prestar atenção à importância das diferenciações ocasionadas pela passagem do tempo no processo evolutivo familiar, que dão lugar a conflitos e a mudanças.

Em resumo, as diferentes abordagens desenvolvidas remetem a “duas” pacientes. O que é Dora: uma jovem habitada por enamoramentos incestuosos ou homossexuais, recalcados e inconscientes, que promovem sua participação repetida em situações penosas? Ou então uma jovem incluída em várias triangulações que se superpõem6, ponto fraco de um sistema complexo e disfuncional? Podemos articular essas duas visões? Como já adiantei, uma maneira de consegui-lo é sustentar que certas manifestações da subjetividade são o correlato intrapsíquico de certas estruturas relacionais.

Primeira paciente

Uma jovem habitada por enamoramentos incestuosos e homossexuais recalcados, inconscientes, que a conduzem a participar de maneira repetida em situações penosas.

Segunda paciente

Uma jovem presa em várias triangulações que se superpõem, ponto fraco de um sistema familiar complexo e disfuncional.

É legítimo perguntarmo-nos também: a quem cabe a responsabilidade pelo fato de adoecer? e até onde, até quem, pode-se estender a responsabilidade da cura? Ou, mais claramente: o que é a doença? Certas condutas de Dora – desmaios, ameaças de suicídio? Ou o fato de utilizar uma filha a serviço das confusões sexuais de seu pai?

Convém igualmente perguntar-se, à maneira de Foucault, se essa frase do pai de Dora a Freud, “Trate agora de colocá-la no bom caminho”, não é digna de um “papai-Estado” que procura “internar” (no consultório de Freud) uma “filha-louca” que perturba a ordem com suas “loucuras” (desmaios, ameaças de suicídio etc.), e que se tornou um obstáculo a uma ordem estabelecida – a do pai – ao mesmo tempo que é o produto de uma desordem. É por isso que o pai pede a consulta: para dar o aspecto de uma “cura” àquilo que se parece antes com um desígnio de dominação.

Podemos também nos fazer perguntas como estas: houve cura de Dora? Dora mudou realmente? De que amplitude e de que qualidade foram a cura ou a mudança? E outras, mais específicas: por que Dora ficou mais satisfeita com a análise do que o próprio Freud? Por que ele curou Dora quando declara ter cometido erros e omissões? Por que Dora se curou quando havia abandonado o tratamento psicanalítico?

Creio já ter dado acima algumas respostas a essas perguntas. Podem ser resumidas sublinhando que Freud ofereceu a Dora, jovem faminta de amor, aquilo de que ela precisava: alguém que se ocupasse dela e lhe oferecesse um contexto adulto e continente, para escutar e compreender suas dores e seus pedidos. Utilizo aqui novamente essa expressão freudiana, faminta de amor, aplicada a Dora, mas desta vez como articulação entre as duas teorias: ressignificando a “fome de amor” de Dora como correlato subjetivo das privações afetivas sofridas por parte de seus pais imaturos.

Digressão: reler Édipo relacionalmente

A esse respeito, permito-me uma digressão. Se quisermos ir mais longe no projeto de reler relacionalmente a teoria psicanalítica freudiana, deixemos por um momento Dora e ocupemo-nos de Édipo. Tomemos por exemplo a última das hipóteses gerais de Freud citadas neste trabalho, a que remete ao complexo de Édipo, que Laplanche e Pontalis (1971)7 resumem assim: “Conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança experimenta em relação aos pais. Sob sua forma dita positiva, o complexo apresenta-se como na história de Édipo rei: desejo da morte do rival, que é a personagem do mesmo sexo, e desejo sexual pela personagem do sexo oposto.”

Podemos rever essas formulações de maneira relacional, perguntando-nos se essa atribuição de desejos, de enamoramentos e de ciúmes basta para explicar as condutas que dela derivam – dar a morte a Laio e desposar Jocasta –, na medida em que nem um nem outra eram8, para Édipo, pai e mãe, uma vez que, desde a mais tenra idade, ele havia sido abandonado por eles – ao menos pelo pai – e que os reencontra, muitos anos mais tarde, como pessoas estranhas à sua família, composta por Pólibo e os seus. É isso, parece-me, que conta a história mitológica de Édipo. Este não mata o pai, mas um desconhecido que cruza seu caminho e com o qual disputa o direito de passagem; e ele não desposa a mãe, mas uma estrangeira, uma rainha que o escolhe por um triunfo que salva a cidade.

Quando muito, podemos ver essas ações de Édipo como uma retribuição bíblica inconsciente para com os pais que, quando ele era um bebê, o abandonam numa floresta para que as feras lhe deem a morte, porque um informante – o Oráculo – prediz que ele matará o pai. Isso se parece com uma profecia autorrealizadora. Deveríamos, portanto, explorar a relação do complexo de Édipo assim construído com as situações complexas que se produzem quando os pais não assumem suas responsabilidades biológicas, familiares, sociais e éticas, como é o caso dos pais de Dora. No interior mesmo do campo psicanalítico, autores como Winnicott e Kohut recolhem essas preocupações.

A transferência, e a da família

Voltemos a Dora. Vemos que, mais adiante na observação, Freud manifesta uma dificuldade com ela quando escreve ter sido surpreendido pela transferência e que ela se vingou dele como se teria vingado do Sr. K., abandonando-o.

Poderíamos reformular essa transferência como um comportamento de Dora em relação a um Freud a quem ela não perdoa por ocupar, estruturalmente, um lugar do qual este não consegue – ou não tem tempo de – sair: o lugar da pessoa que, com uma verdadeira semelhança com o Sr. K., havia recebido do pai a missão de impedir as interferências de Dora em sua relação com a Sra. K.

Isso nos alerta para o fato de que devemos estar atentos, na clínica, não apenas à transferência de quem está em atendimento – e antes de mais nada: quem atendemos? – mas também àquela que sua família opera sobre nós. Ou, na linguagem da terapia familiar: quem efetua a designação do “paciente”, e quem, no grupo familiar, nos atribui – e nos condiciona – o lugar e a tarefa de terapeutas?

E depois? Mudança e manutenção da mudança

Enfim, o que se sabe da Dora posterior à sua análise com Freud? Apesar das fortes indicações em favor de sua cura, ela se apresenta vinte anos mais tarde a Felix Deutsch como uma mulher fracassada, com sintomas orgânicos e psíquicos sérios, graves perturbações sexuais e conjugais, uma má relação com o filho etc.

Isso não surpreende, pois temos a experiência, direta ou indireta, de casos em que a pessoa atendida, ou as pessoas atendidas, embora tenham conduzido um tratamento bem-sucedido (quanto ao alcance dos objetivos estabelecidos inicialmente) e iniciado processos de crescimento e de diferenciação, voltam ao atendimento, ao cabo de um tempo mais ou menos longo, com problemas semelhantes. Isso indica que devemos diferenciar mudança e manutenção da mudança. Isso nos diz também que, se uma família como a de Dora se apresentasse hoje a uma terapia familiar necessariamente breve, esta deveria verossimilmente ser completada em seguida por uma terapia individual de Dora mais prolongada.

Em resumo, o que a psicanálise freudiana e as abordagens sistêmicas-relacionais têm, entre outras coisas, em comum? De maneira esquemática, pode-se dizer que ambas propõem um novo contexto para os sintomas: para a primeira, é o psiquismo inconsciente; para as segundas, a dinâmica familiar e relacional. Tanto um quanto o outro desses novos contextos têm a enorme virtude de permitir a quem conduz a terapia incluir-se e operar, e de construir um sentido para o aparente não senso dos sintomas. Dito de outro modo: nada menos do que criar a condição de possibilidade para que quem precisa e a pede possa receber uma ajuda externa.

Comentário final: como eu trataria Dora hoje?

Pareceu-me importante acrescentar a este trabalho uma reflexão respondendo a uma pergunta formulada durante a apresentação: como eu trataria Dora hoje, ou como eu abordaria hoje uma “Dora” que viesse consultar? De minha parte, pareceu-me pertinente derivar dela uma outra: em que todas essas reflexões conduzidas em torno de Dora enriquecem a clínica?

Tentarei responder a essas perguntas em seu conjunto, pensando no atendimento de uma paciente semelhante àquela de que se tratou, que chamarei de “Dora”, e que imagino apresentando-se com sua família em consulta com problemáticas comparáveis, mas adaptadas às formas novas de nossa época.

Se isso acontecesse, eu prestaria de imediato uma atenção particular a quem pede a consulta, e isso influenciaria a abordagem a propor. Se fosse a própria “Dora” que consultasse, eu iniciaria uma terapia individual, completada por algumas entrevistas familiares complementares, para explorar a importância da dinâmica familiar nos sofrimentos da filha. Essas entrevistas seriam mais ou menos numerosas conforme essa importância.

Nas sessões individuais, eu procuraria promover em “Dora”, por meio de diferentes intervenções oriundas de minha experiência clínica e das diversas conceituações teóricas que manejo, mudanças em seu self e em seus comportamentos, a fim de que ela possa afastar-se das triangulações que a afetam e que não a deixam crescer. Eu estimularia a vida extrafamiliar de “Dora”.

Nas sessões com os membros da família de “Dora” – certamente algumas em sua presença, outras não –, eu iniciaria diferentes intervenções tendentes a recolocar os adultos no encargo de suas próprias problemáticas, evitando assim a utilização da filha para obturar ou evitar os conflitos subjacentes. Se a abertura desses conflitos viesse a desestabilizar o casal parental e este pedisse mais atenção, eu lhes ofereceria outras entrevistas ou lhes indicaria uma terapia de casal, encaminhando-os a alguém da área em quem confio, com quem eu pudesse manter uma troca suscetível de enriquecer as duas terapias.

Se fosse o pai que consultasse, eu proporia algumas entrevistas familiares exploratórias para compreender o problema; elas teriam certamente um formato flexível, com entrevistas familiares completas – “Dora” presente –, outras com o casal, outras individuais com cada genitor, com o objetivo de fazer uma ideia do lugar onde é necessário – e possível – focalizar a ação terapêutica. A questão se orientaria certamente para a realização de entrevistas de casal com os pais e o encaminhamento de “Dora” a uma terapia individual conduzida por outra pessoa terapeuta, nas mesmas condições indicadas acima.

Qualquer que seja o formato de cada uma das alternativas mencionadas, eu prestaria atenção tanto à dinâmica familiar quanto às características da subjetividade de cada membro, e às interações entre essas duas ordens de manifestações, procurando promover uma sadia individuação relacionada, tal como a propõe H. Stierlin (1997)9, mestre vindo do campo psicanalítico que aborda o movimento sistêmico e que coloca a necessidade de articular a individuação e o pertencimento.

Notas do original

1. Versão escrita da apresentação relativa ao artigo de mesmo nome publicado pelo autor na Revista Argentina de Clínica Psicológica (AIGLE), vol. V, n° 2, agosto de 1996. Meus agradecimentos pelo convite à APRA (Asociación de psicoterapia de la República Argentina) e a Claudio Des Champs (membro do comitê diretor da APRA).

2. S. Freud (1901), Fragmento de análisis de un caso de histeria (Dora), Obras Completas, VII, Amorrortu editores, Buenos Aires, 1985.

3. O que liga a saúde mental à ética.

4. No original, a parte em negrito itálico é constituída de citações do texto freudiano, com pequenas modificações destinadas a encadeá-las ou a torná-las mais familiares. Os grifos e os títulos temáticos emoldurados são acréscimos do Dr. Galfré. Para mais precisão, ver o artigo em Clínica Psicológica.

5. O que ele teria obtido, ao menos temporariamente, se Dora tivesse estabelecido um vínculo amoroso com o Sr. K., caso em que a consulta com Freud provavelmente não teria sido necessária.

6. Ver o diagrama do contexto relacional de Dora.

7. J. Laplanche e J.-B. Pontalis, Diccionario de Psicoanálisis, Labor, 1971.

8. Biologicamente, eles evidentemente o eram, mas refiro-me ao aspecto funcional, sob o qual não o eram absolutamente: eles o haviam gerado, mas não haviam assumido a criação como ato de dar a vida; tinham antes tentado dar a morte àquele que haviam rejeitado como filho.

9. H. Stierlin, El individuo en el sistema, Herder, Barcelona, 1997, p. 95.

Quem é Oscar Galfré

O Dr. Galfré é doutor em psicologia clínica, terapeuta familiar, professor e pesquisador da UMSA (Universidad del Museo Social Argentino), faculdade de psicologia, em ligação com o hospital Álvarez.

Este artigo é a tradução para o português de “Psicoanálisis y Terapia Familiar Sistémica. Estudio comparativo en torno del Caso Dora (Freud)”, publicado pela Red Sistémica (primeira publicação: Revista Argentina de Clínica Psicológica (AIGLE), vol. V, n° 2, août 1996). Traduzido e republicado com a autorização da revista.

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Como citar este artigo

Galfré, O. (2023). Psicanálise e terapia familiar sistêmica. Estudo comparativo em torno do caso Dora (Freud) (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/articles/psicanalise-e-terapia-familiar-sistemica-estudo-comparativo-em-torno-do-caso-dora-freud (Obra original publicada em 1996 em Revista Argentina de Clínica Psicológica (AIGLE), vol. V, n° 2, août 1996; republicada em 2023 por Red Sistémica, https://redsistemica.ar/2023/01/27/psicoanalisis-y-terapia-familiar-sistemica-estudio-comparativo-en-torno-del-caso-dora-freud/)

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