Journal of Child & Adolescent Trauma · Família
Quatro mães de um kibutz próximo a Gaza, deslocadas após o ataque de 7 de outubro de 2023, contam o que a guerra fez com sua parentalidade: sozinhas no abrigo, filhos que crescem de repente ou não largam mais os pais, momentos em que faltam as palavras. A comunidade de acolhimento, primeiro um refúgio, torna-se também fonte de tensão. Tamar Hadar defende apoiar pais e mães como pessoas sobreviventes por direito próprio.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Sem palavras diante dos meus filhos”: uma análise temática das experiências de pais e mães durante a guerra e o deslocamento, de Tamar Hadar, publicado na Journal of Child & Adolescent Trauma (Springer) (2026), doi: 10.1007/s40653-026-00974-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas; a hierarquia dos intertítulos da seção de resultados foi harmonizada; as declarações do fim do artigo (agradecimentos, financiamento, ética, consentimento, uso de IA, conflitos de interesse) foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Apoiar as crianças após a guerra e o deslocamento não pode ser separado do apoio aos pais e mães a quem se pede que sustentem, interpretem e regulem por elas a realidade traumática.
Tamar Hadar
Resumo
O ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 em Israel e o deslocamento em massa que se seguiu provocaram nas famílias crises psicológicas agudas e sem precedentes. Embora o impacto da guerra e da migração forçada sobre as crianças esteja bem documentado, sabe-se muito menos sobre como os pais, e especialmente as mães, conseguem continuar cuidando dos filhos sob uma ameaça tão extrema e contínua. Este estudo explora a experiência vivida de mães israelenses deslocadas, com foco nas dimensões emocionais, relacionais e funcionais da parentalidade durante e após o trauma. Foram realizadas entrevistas aprofundadas e semiestruturadas com quatro mães israelenses deslocadas com seus filhos após o ataque. As entrevistas foram transcritas na íntegra e submetidas a uma análise temática com abordagem indutiva, com atenção especial às narrativas emocionais, às práticas de cuidado e às percepções tanto das casas destruídas quanto dos ambientes de acolhimento. Surgiram três temas: (A) Sozinha no abrigo: o peso da parentalidade solo durante o ataque, a guerra e o deslocamento; (B) Da parentalidade regulada à parentalidade fragmentada; e (C) A faca de dois gumes da comunidade de acolhimento. Juntos, eles retratam uma tensão emocional intensa, identidades parentais desestabilizadas, amadurecimento acelerado ou dependência aumentada das crianças e uma experiência ambivalente das comunidades de acolhimento, ao mesmo tempo protetoras e desestabilizadoras. Nesse contexto, a parentalidade implica ao mesmo tempo uma proteção incessante e uma erosão emocional gradual. As mães oscilavam entre o autocontrole e o colapso, muitas vezes com apoio institucional limitado. Os resultados ressaltam a necessidade de intervenções informadas pelo trauma e ancoradas na relação, que reconheçam quem cuida das crianças como pessoas sobreviventes por direito próprio e que coloquem sua regulação emocional, seu funcionamento reflexivo e a restauração de sua coerência parental no centro da recuperação familiar.
Palavras-chave: guerra, deslocamento, parentalidade, trauma, comunidade de acolhimento
O ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 em Israel e o deslocamento em massa de civis que se seguiu criaram uma ruptura sem precedentes na vida familiar, nas rotinas de cuidado e na segurança psicológica. Embora a pesquisa sobre o impacto da guerra e da migração forçada tenha destacado cada vez mais a vulnerabilidade das crianças (Bürgin et al., 2022; Hazer e Gredebäck, 2023), muito menos atenção foi dada à experiência vivida dos pais, especialmente das mães, encarregadas de cuidar dos filhos em condições de estresse extremo, incerteza e separação. O sofrimento parental foi identificado como um preditor-chave do funcionamento familiar em tempos de crise (Alfasi et al., 2025), e a parentalidade solo surgiu como um fator de risco particularmente agudo. As mães costumam funcionar ao mesmo tempo como reguladoras emocionais1 e como anteparos protetores para os filhos, mas suas próprias narrativas de sobrecarga, fragmentação de papéis e ruptura relacional continuam pouco exploradas (Feldman e Vengrober, 2011; Gillespie et al., 2022). Lacunas semelhantes foram apontadas na produção acadêmica do Oriente Médio e da Palestina, onde pais e mães em Gaza, na Cisjordânia e em zonas de conflito vizinhas carregam enormes fardos emocionais e práticos enquanto tentam proteger as crianças sob cerco, ataques de mísseis e deslocamento prolongado (Akesson e Sousa, 2020; Hamamra et al., 2025; Thabet et al., 2008). Este estudo explora como mães israelenses atravessaram a parentalidade na esteira do terror e do desenraizamento, lançando luz sobre as tensões emocionais, relacionais e funcionais impostas a quem cuidava das crianças durante e após a crise. Por meio de entrevistas qualitativas aprofundadas e de análise temática, o estudo examina como o trauma, a perda da casa e o esgarçamento dos apoios sociais reconfiguraram a identidade parental, a regulação emocional e as dinâmicas entre pais e filhos.
A guerra aumenta consideravelmente o estresse parental, levando a comportamentos como a superproteção e uma menor responsividade emocional em relação às crianças (Conway et al., 2013). Esse estresse é agravado ainda pelo deslocamento, pelas dificuldades financeiras e pela desorganização dos papéis familiares, o que dificulta que os pais ofereçam estabilidade (Bayer e Shtudiner, 2023; Wang e Pullman, 2019). A exposição à guerra também pode levar a problemas de saúde mental nos pais, como TEPT e depressão, que prejudicam sua capacidade de regular as próprias emoções e as dos filhos (Eltanamly et al., 2021). Como consequência, pode haver uma parentalidade mais dura, menos afeto e mais hostilidade nas interações entre pais e filhos (Suardi et al., 2017). Para além desses efeitos sobre o comportamento parental, pesquisas recentes enfatizam que a forma como os pais percebem a guerra tem, ela própria, relevância clínica. Em um estudo qualitativo com pais e mães em Israel durante o primeiro mês da guerra que se seguiu ao ataque de 7 de outubro, a guerra foi descrita por meio de experiências de choque, incerteza, alerta, abandono, impotência, medo por si e pelos outros e preocupação com um futuro desconhecido; essas pessoas também avaliavam o próprio funcionamento parental em condições de complexidade e incerteza agudas (Mijalevich-Soker e Taubman-Ben-Ari, 2025). Diversos estudos enfatizaram a importância das práticas parentais para atenuar ou intensificar os efeitos de um trauma em massa sobre a adaptação das crianças (Joffe et al., 2025; Gewirtz et al., 2008; Hoffman e Shrira, 2019; Möllerherm et al., 2025; Murphy et al., 2017; Pat-Horenczyk et al., 2012). Com base em um amplo leque de estudos, Murphy et al. (2017) examinaram a intrincada dinâmica das relações familiares no contexto da guerra e exploraram como o trauma de guerra afeta não só a saúde mental dos pais, mas também suas práticas parentais, que por sua vez influenciam o bem-estar psicológico e emocional das crianças. A equipe observou que pais que viveram eventos traumáticos de guerra podem apresentar mudanças significativas no comportamento e no estilo parental. Essas experiências podem resultar em mais autoritarismo, hesitação e retraimento nas interações com os filhos. Por outro lado, algumas mães, depois de passar por eventos traumáticos, podem se tornar menos rígidas e exercer menos controle, o que afeta a dinâmica das interações entre mãe e filho.
Diversos trabalhos (por exemplo, Joffe et al., 2025; Khamis, 2016; Mladenović et al., 2021) demonstraram que o sofrimento psicológico parental atua como mediador na relação entre o trauma de guerra e os transtornos emocionais e comportamentais das crianças, mostrando que o sofrimento psicológico dos pais pode prever a probabilidade de transtornos nos filhos. Em uma pesquisa sobre o impacto de longo prazo de um evento traumático como os atentados de 11 de setembro (Chemtob et al., 2010), a equipe não apenas destacou seu efeito sobre os pais, mas também ressaltou as graves consequências psicológicas para os filhos. O estudo enfatizou a necessidade de enfrentar a transmissão intergeracional dos efeitos do trauma, observando em especial que as crianças correm maior risco de sofrimento psicológico quando expostas à combinação de depressão e TEPT maternos. Ao mesmo tempo, a parentalidade deve ser compreendida não só como um lugar de impacto, mas também como um possível mediador dos desfechos infantis. O sofrimento parental ligado à guerra pode comprometer o afeto, a disponibilidade emocional, as rotinas e a disciplina, transmitindo ou intensificando assim o sofrimento das crianças. Por outro lado, um cuidado sensível, previsível e emocionalmente regulado pode amortecer a exposição das crianças ao perigo e sustentar sua resiliência (Gewirtz et al., 2008; Murphy et al., 2017; Pat-Horenczyk et al., 2012).
O impacto do trauma no desenvolvimento na primeira infância não pode ser compreendido apenas em relação ao evento desencadeante. Quer a ameaça venha da guerra, do deslocamento forçado, da violência interpessoal, da negligência ou de um cuidado assustador, o trauma precoce pode comprometer os sistemas de apego2 e relacionais pelos quais a criança normalmente desenvolve um senso de segurança, confiança e regulação emocional. O trauma na primeira infância ataca simultaneamente o sistema de apego e o cérebro em desenvolvimento (Schore, 2009). Experiências repetidas de medo, inconsistência ou cuidado assustador perturbam a expectativa da criança de que a figura de cuidado seja segura e emocionalmente disponível, aumentando a probabilidade de apego inseguro ou desorganizado e enfraquecendo a capacidade de usar os adultos como base segura para explorar e se regular. Paralelamente, o estresse crônico remodela os circuitos neurais envolvidos na detecção de ameaças e na regulação emocional (por exemplo, amígdala, hipocampo, córtex pré-frontal), levando a padrões de hiperexcitação ou dissociação que interferem na atenção, na aprendizagem e na integração da experiência. Juntas, essas perturbações relacionais e neurobiológicas comprometem o senso de self nascente das crianças, sua capacidade de regular os afetos e suas trajetórias de desenvolvimento nos domínios emocional, social e cognitivo (Díaz et al., 2024; Lanius et al., 2018; Perl et al., 2023; Ressler et al., 2022; Schore, 2009).
O trauma, especialmente a violência interpessoal crônica e o cuidado assustador ou inconsistente, ataca o apego ao destruir a expectativa da criança pequena de que a figura de cuidado seja protetora, emocionalmente disponível e responsiva de forma confiável, desestabilizando assim os primeiros vínculos de apego (Lieberman e Van Horn, 2005; Lieberman e Horn, 2008). Com o tempo, essas experiências são internalizadas como medo e confusão dentro do sistema de apego, aumentando a probabilidade de padrões de apego inseguros ou desorganizados e limitando a capacidade da criança de usar as figuras de cuidado como base segura para a exploração e a regulação dos afetos (Lieberman e Van Horn, 2005; Lieberman e Horn, 2008).
Trabalhos regionais com famílias israelenses e palestinas mostram ainda como a violência política e a insegurança crônica penetram os sistemas familiares. Estudos longitudinais com jovens em Israel e na Palestina mostram que a exposição à violência étnica e política aumenta a depressão parental e a agressividade entre os pais, o que, por sua vez, intensifica os castigos físicos severos e prediz a agressividade posterior dos jovens (Dubow et al., 2025). Em Gaza, pais e filhos relatam com frequência níveis elevados de exposição ao trauma, sintomas de TEPT e ansiedade (Thabet et al., 2008), e trabalhos qualitativos retratam mães e pais como “guardiões da noite”, que vigiam o perigo e acalmam crianças angustiadas enquanto lidam com a própria privação de sono e com o próprio medo (Hamamra et al., 2025). Em famílias sírias e palestinas refugiadas e recentemente deslocadas, estudos descrevem igualmente nos pais um sofrimento psicológico intenso, luto e perda de eficácia parental, ao lado de um forte compromisso moral de proteger, confortar e guiar as crianças através da guerra e do deslocamento (Akesson e Sousa, 2020).
Exercer a parentalidade em condições de deslocamento forçado impõe um conjunto complexo de desafios emocionais, relacionais e ambientais. Um número crescente de pesquisas destaca o potencial de intervenções centradas em quem cuida das crianças para apoiar famílias em situação de deslocamento; os resultados sugerem, porém, que esses programas muitas vezes alcançam apenas um sucesso parcial: embora algumas intervenções tenham mostrado melhoras no bem-estar materno e redução do sofrimento de quem cuida (Dybdahl, 2001; Morris et al., 2012; Ponguta et al., 2020), seu impacto sobre dinâmicas relacionais mais amplas, como a responsividade parental, as práticas disciplinares e o ajustamento emocional e comportamental das crianças, continua inconsistente (Stark et al., 2018).
Essa variabilidade aponta para a necessidade de programas de parentalidade que vão além das estratégias comportamentais e abordem processos emocionais mais profundos, entre eles a regulação emocional dos pais e o manejo do estresse (Gillespie et al., 2022). Mais importante, um apoio eficaz também precisa levar em conta as necessidades básicas das famílias, como segurança, alimentação e acesso a cuidados médicos, especialmente em contextos de crise aguda ou prolongada, uma necessidade muitas vezes negligenciada em países de alta renda.
A presente pesquisa se concentra na influência da guerra e do deslocamento sobre a parentalidade e busca explorar os efeitos emocionais, psicológicos e relacionais, em camadas, do trauma e do deslocamento sobre os pais, especialmente as mães. Por uma lente qualitativa, o estudo procurou revelar como a convulsão provocada pela guerra remodelou as capacidades de cuidado, a disponibilidade emocional e as relações entre pais e filhos após o ataque de 7 de outubro. Em vez de avaliar os resultados de intervenções específicas, o objetivo era dar voz à experiência vivida dos pais, destacando as interseções entre o sofrimento pessoal, a desorganização das rotinas e o esforço contínuo para manter um senso de vínculo e de segurança para os filhos em meio à incerteza.
Em 7 de outubro de 2023, o Hamas lançou um ataque terrorista brutal contra comunidades israelenses próximas à fronteira de Gaza, que deixou mais de 1.200 mortos e resultou no sequestro de mais de 250 pessoas (Palgi et al., 2024). Desde o ataque, estudos relatam um aumento acentuado do sofrimento psicológico na população israelense, com taxas mais altas de TEPT, ansiedade, depressão e ideação suicida (Levi-Belz et al., 2024).
Há uma literatura abundante sobre o efeito devastador da guerra sobre o estado social, emocional e cognitivo das crianças (Beehler et al., 2012; Betancourt et al., 2012; Hazer e Gredebäck, 2023). No entanto, o impacto das experiências ligadas à guerra sobre a parentalidade e, consequentemente, o papel das práticas parentais como mediadoras da influência global da guerra sobre o bem-estar das crianças foram significativamente menos discutidos na literatura. Essa lacuna é especialmente marcante quando comparada ao rápido crescimento de trabalhos regionais que documentam como pais e mães em Israel, na Palestina e na Síria tentam manter a família unida sob bombardeios e no deslocamento (Akesson e Sousa, 2020; Dubow et al., 2025; El-Khani et al., 2017; Hamamra et al., 2025; Thabet et al., 2008).
O presente estudo busca preencher essa lacuna explorando o ponto de vista de pais e mães que viveram eventos de guerra extremos e um deslocamento de seis meses. Examinar a experiência direta dos pais pode esclarecer as necessidades dessas famílias e orientar o desenvolvimento de intervenções centradas nos pais em contextos de guerra e deslocamento. As perguntas de pesquisa foram:
Este estudo se situa em um quadro epistemológico interpretativista e construtivista (Crotty, 1998). Nessa perspectiva, os relatos das participantes são compreendidos como narrativas situadas, por meio das quais se articulam significados vividos, corporificados, relacionais e afetivos. O estudo se ocupa de compreender como as participantes [dão sentido a] suas experiências no contexto do trauma e do deslocamento. Assim, os temas são vistos como construções interpretativas geradas pelas narrativas das participantes, pelo contexto da entrevista e pelo engajamento reflexivo da equipe de pesquisa com os dados (Crotty, 1998).
A leitura que a autora faz do material é moldada por sua posição de musicoterapeuta israelense, branca, formada no Ocidente, e por sua própria proximidade com os eventos de 7 de outubro de 2023 e seus desdobramentos. A autora não abordou as entrevistas como observadora neutra, de fora da realidade traumática descrita pelas participantes, mas como pesquisadora e clínica cujo conhecimento profissional, nacional, emocional e corporificado inevitavelmente informou o processo analítico. Nos meses seguintes ao ataque, a autora trabalhou como musicoterapeuta com famílias deslocadas em Israel, uma experiência que aprofundou sua sensibilidade às formas pelas quais o trauma pode ser guardado não só nas palavras, mas também no silêncio, nos estados corporais, nos padrões relacionais rompidos e em uma presença musical alterada.
Essa proximidade foi ao mesmo tempo um recurso e uma limitação. Permitiu uma compreensão sintonizada dos contextos sociopolíticos, familiares e terapêuticos em que as experiências das participantes se desenrolavam, mas exigiu também uma atenção reflexiva contínua aos pressupostos, às identificações e às ressonâncias emocionais trazidos para a análise. A partir dessa postura epistemológica, os resultados não são apresentados como verdades objetivas descobertas nos dados, mas como interpretações situadas, geradas pelas narrativas das participantes, pelo encontro de pesquisa e pelo engajamento reflexivo da própria autora com o material. Isso não diminui a realidade dos eventos traumáticos nem de suas consequências; antes, reconhece que os significados do trauma e do deslocamento são compreendidos por meio de lentes relacionais, culturais, históricas e corporificadas.
O estudo envolveu quatro famílias deslocadas de seu kibutz, próximo à fronteira de Gaza, após o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023. As famílias foram realocadas temporariamente para uma aldeia no norte de Israel, no âmbito de um programa nacional de reabilitação de emergência.
Uma clínica foi criada especialmente para os membros do kibutz deslocado e ofereceu apoio terapêutico às famílias durante o período de deslocamento. A maioria das famílias da comunidade fez terapia, embora a duração do tratamento variasse: algumas receberam apenas um pequeno número de sessões, enquanto outras participaram de intervenções terapêuticas mais longas. As sessões ofereciam um contexto acolhedor e continente, no qual as famílias podiam começar a se aproximar de suas experiências recentes e elaborá-las. Embora o presente estudo não tivesse o objetivo de avaliar a intervenção em si, o engajamento recente das mães em terapia era metodologicamente relevante: foi entendido como uma forma de sustentação emocional capaz de apoiar sua capacidade de revisitar, articular e refletir sobre experiências parentais muito angustiantes sem ser tomadas por elas.
Todas as famílias foram recrutadas por meio da clínica temporária criada para apoiar as famílias deslocadas vindas da região de fronteira. A clínica contava com dez terapeutas em regime de voluntariado e atendeu cerca de 40 famílias, algumas das quais receberam várias formas de apoio, incluindo terapia individual para as crianças, apoio parental e intervenções familiares. Algumas semanas após o término da terapia, as famílias foram procuradas por quem as havia atendido e convidadas a participar do estudo. Quem atendia as famílias recebeu um formulário de informação explicando que o estudo, conduzido pela Dra. Tamar Hadar, da Universidade de Haifa, buscava explorar como o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023 e seus desdobramentos afetaram a experiência parental de famílias que foram deslocadas e cujos filhos pequenos (de 3 a 9 anos) receberam apoio terapêutico. Para serem elegíveis, as pessoas participantes deviam ter encerrado a terapia pelo menos dois meses antes de participar.
Para minimizar vieses nos encaminhamentos, a orientação dada a quem atendia as famílias foi considerar todas as que preenchiam esses critérios de elegibilidade e pareciam emocionalmente estáveis o suficiente para participar, em vez de procurar seletivamente determinados pais. Pediu-se também que avaliassem a prontidão emocional e evitassem encaminhar pessoas que tivessem apresentado sintomas pós-traumáticos significativos durante a terapia, que ainda estivessem em tratamento ou que já tivessem tido contato terapêutico com a pesquisadora. Como a terapia já havia terminado, e quem atendia as famílias enfatizava explicitamente que a participação era totalmente voluntária e sem relação com os serviços passados ou futuros, o risco de coerção ou de sentimento de obrigação era reduzido. Os pais podiam escolher entre entrar em contato diretamente com a pesquisadora ou autorizar a pessoa terapeuta a repassar seus dados de contato, o que separava ainda mais os papéis clínico e de pesquisa.
Recorreu-se a seis terapeutas. Identificar famílias elegíveis foi difícil, pois muitas apresentavam sintomas graves de estresse pós-traumático e, por isso, não foram consideradas aptas a participar de uma entrevista. Três terapeutas informaram não ter nenhuma família elegível, seja porque as famílias ainda estavam em terapia, seja porque as crianças apresentavam sintomas de uma gravidade que impedia a participação. A pesquisadora entrou em contato com as três pessoas terapeutas restantes, que atuavam na clínica temporária. A primeira, musicoterapeuta, procurou duas famílias que pareciam elegíveis para o estudo; uma aceitou participar. A segunda, arteterapeuta, procurou uma família considerada apta a ser incluída, e a família aceitou o convite. A terceira, terapeuta de dança e movimento, procurou duas famílias elegíveis, e ambas aceitaram participar. Ao final, quatro famílias preencheram os critérios de inclusão, foram consideradas emocionalmente prontas e consentiram em participar do estudo (ver tabela 1).
Tabela 1 — Características das participantes
Os nomes são pseudônimos.
Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com cada uma das quatro mães israelenses participantes ao final de uma intervenção breve de musicoterapia após seu deslocamento durante o ataque de 7 de outubro de 2023. O estudo consiste em uma única entrevista semiestruturada, durante a qual pais e mães eram convidados a refletir sobre sua parentalidade durante a guerra e sobre a orientação parental recebida.
As entrevistas foram realizadas em hebraico, duraram de 60 a 90 minutos e foram todas feitas pelo Zoom. Esse formato deu às participantes a liberdade de falar em sua língua materna sobre a experiência vivida da parentalidade em condições de trauma e de deslocamento forçado. Adotou-se um estilo de entrevista aberto e não intervencionista para favorecer uma compreensão rica e aprofundada das experiências das participantes e de sua percepção do impacto da terapia sobre elas mesmas, sobre os filhos e sobre a parentalidade. Os temas abordados nas entrevistas incluíram, entre outros: a experiência da família em 7 de outubro; a transição para a nova moradia temporária; a vida no deslocamento; reflexões sobre a parentalidade; a percepção das experiências dos filhos; as diferenças entre as crianças e seus papéis na família; e o impacto do deslocamento sobre a estrutura e o bem-estar da família. A autora seguiu a abordagem em seis fases de Braun e Clarke (2022): familiarização, codificação, desenvolvimento dos temas, revisão dos temas, nomeação dos temas e redação do relatório. Esse método indutivo privilegia um contato próximo com os dados para identificar padrões ou temas recorrentes sem impor um quadro teórico prévio.
O processo se desenvolveu nas seguintes etapas:
O estudo recebeu aprovação ética do comitê de ética institucional (Institutional Review Board) de Ciências da Saúde e do Bem-Estar Social da Universidade de Haifa (n.º 345/24), o que assegura o respeito às normas éticas estabelecidas para pesquisas com seres humanos. Obteve-se o consentimento livre e esclarecido de cada pai ou mãe participante. As participantes foram informadas de seu direito de se retirar em qualquer etapa, sem consequências. Dada a natureza sensível do trauma ligado à guerra e ao deslocamento, tomou-se um cuidado especial para proteger o bem-estar das participantes, inclusive com a oferta de conversas de debriefing opcionais e a garantia de que todas as entrevistas e sessões ocorressem em ambientes seguros e acolhedores. As informações identificadoras foram anonimizadas nas transcrições e nas publicações para resguardar a confidencialidade.
A análise das entrevistas de quatro mães que viveram o deslocamento após um ataque terrorista extremo revelou três temas centrais e vários subtemas relacionados (ver tabela 2). Juntos, esses temas lançam luz sobre a experiência vivida das mães na parentalidade durante o ataque, a guerra e o deslocamento, bem como sobre a forma como essas circunstâncias afetaram seus papéis parentais, sua disponibilidade emocional e seu senso de estabilidade. O primeiro tema, “Sozinha no abrigo”: o peso da parentalidade solo durante o ataque, a guerra e o deslocamento, retrata o fardo de cuidar das crianças em meio a um perigo agudo e a uma incerteza prolongada. Ele inclui dois subtemas: “Meu filho cresceu da noite para o dia”: a mudança dos papéis entre pais e filhos, que reflete as maneiras pelas quais as crianças pareceram amadurecer rapidamente ou assumir papéis diferentes após o ataque; e Dependência aumentada e ausência de separação, que descreve a necessidade intensificada de proximidade e de segurança por parte das crianças.
Tabela 2 — Temas e subtemas
O segundo tema, Da parentalidade regulada à parentalidade fragmentada, trata da desorganização da capacidade das mães de permanecer emocionalmente disponíveis e reguladas sob condições de estresse contínuo. Ele compreende três subtemas: Transbordamento emocional e sobrecarga parental: “A gente se sente um fracasso como mãe!”; Presença fragmentada: cuidar estando ausente; e Impotência parental: “Eu fiquei sem palavras”.
O terceiro tema, A faca de dois gumes da comunidade de acolhimento: um fator de estabilização em um contexto desastroso, explora a comunidade que recebeu as famílias ao mesmo tempo como fonte vital de apoio e como espaço marcado por instabilidade e tensão. Ele inclui dois subtemas: Os desafios do deslocamento: superlotação, estresse e incerteza; e Um refúgio que não conseguiu sustentar: segurança ambivalente na comunidade de acolhimento. Cada tema e seus subtemas são desenvolvidos a seguir.
Para três participantes, o trauma de 7 de outubro e o longo período de deslocamento foram agravados por períodos de parentalidade solo3. Essas mães atravessaram a crise carregando a responsabilidade principal pelos filhos sem a presença física de um parceiro, uma experiência que intensificou sua carga emocional e logística. Suas narrativas revelam não só uma vulnerabilidade aguda, mas também a ativação de poderosos impulsos de cuidado sob pressão extrema. Essas histórias mostram como a ausência do parceiro se refratava em momentos de medo existencial, exaustão e solidão diante das decisões.
Rony, mãe de três crianças com menos de 10 anos na época do ataque de 7 de outubro, descreveu de forma vívida o terror de estar sozinha com os filhos sob fogo, evocando uma oração que não costumava fazer, um momento de espiritualidade involuntária em uma situação que escapava à compreensão:
Você ouve tiros, o terror puro, terror de verdade… Eu estava sozinha no abrigo com três crianças, e meu filho estava completamente histérico… As meninas choravam, e eu estava com medo. Eu nunca tinha me sentido assim antes. Eu me peguei dizendo “Shemá Israel”… uma coisa que simplesmente saiu de mim… Se meu marido estivesse com a gente, tenho certeza de que teríamos vivido aquilo de um jeito completamente diferente. (Rony)
Sua reflexão contrapõe uma autopercepção de calma e competência à admissão do medo e da impotência, expondo a ruptura psicológica provocada pelo evento. A ausência do parceiro é imaginada não só como uma lacuna logística, mas como uma âncora emocional que faltava, uma presença contrafactual que poderia ter amortecido a intensidade de seu medo.
Yafa, mãe de três crianças com menos de 11 anos na época do ataque de 7 de outubro, que ficou sem o parceiro durante a maior parte do período de deslocamento, descreveu a parentalidade solo como um peso ao mesmo tempo estrutural e emocional. A passagem de profissional em tempo integral a única responsável pelo cuidado das crianças reconfigurou sua identidade e a colocou diariamente diante do desespero:
De repente, eu tinha que dar conta de tudo sozinha. Tinha que tomar todas as decisões. Lembro de abrir os olhos de manhã e me sentir sem esperança. Sem falar que eu mal dormia à noite. Mas toda manhã era tipo, droga, tenho que aguentar mais um dia… A ausência, ela é constante… Você fala com seu parceiro por telefone, mas não é a mesma coisa… Você está sozinha, com crianças que sentem falta do pai, que estão sofrendo… Essa é a parte mais difícil, a separação, a ruptura com o parceiro. (Yafa)
A expressão “a ausência, ela é constante” sintetiza a sensação onipresente da participante quanto à ausência do parceiro. Isso contrasta fortemente com a dinâmica anterior de um casal em que ambos tinham carreira e mostra como as condições de crise arrancam estruturas de apoio que antes pareciam estáveis.
A proximidade da crise e a intensidade compartilhada da guerra pareceram catalisar inversões de papéis ou um desenvolvimento emocional acelerado nas crianças. As entrevistadas descreveram momentos em que crianças assumiram responsabilidades maiores ou demonstraram uma compreensão emocional nova, ocupando papéis que borravam a fronteira entre criança e adulto. Miri, mãe de quatro crianças com menos de 6 anos na época do ataque de 7 de outubro, contou como conversas francas sobre a morte a aproximaram do filho, mas também sinalizaram a perda da inocência da infância: “De repente, percebi que alguma coisa tinha mudado. Ele tinha crescido. Ficou mais maduro, mais consciente.” Yuli, mãe de três crianças com menos de 14 anos na época do ataque de 7 de outubro, fala do filho, que se tornou surpreendentemente autossuficiente durante a evacuação: “Ele acordava de manhã, preparava as coisas dele… Ficava sozinho, comia sozinho, simplesmente cuidava de si mesmo.” Quando o ataque começou, Yuli foi imediatamente chamada ao hospital onde trabalhava como enfermeira de pronto-socorro, enquanto o marido foi convocado para a equipe de emergência que combatia os terroristas. Embora esses relatos falem da capacidade de adaptação das crianças e de uma resiliência emergente, também carregam, nas entrelinhas, uma perda de proteção, de dependência e do espaço de desenvolvimento normalmente reservado à infância.
Em uma narrativa mais complexa, Yafa descreveu a explosão emocional do filho, que expressava ao mesmo tempo um luto pessoal, um discernimento moral e uma ambivalência em relação à comunidade:
Ele chorava… dizia que aquilo era horrível, que famílias não deveriam viver assim… “Quero ir até esse kibutz que está recebendo a gente e dizer que eles são horríveis. Eu odeio eles. Odeio estar aqui. Mas não vou dizer isso, porque… sei que preciso ficar aqui.” E tudo o que eu pude fazer foi abraçá-lo e dizer que eu entendia que era muito difícil, mas que essa era a nossa realidade. Não havia mais nada que eu pudesse fazer por ele. Não era suficiente. Ele dormiu chorando, de pura exaustão. Foi devastador. (Yafa)
Essa explosão reflete uma consciência em camadas: ele reconhece a necessidade da situação de moradia atual e ao mesmo tempo se ressente de seu custo emocional. Sua capacidade de conter a raiva para proteger um arranjo frágil evidencia um trabalho emocional prematuro, que normalmente não se espera de uma criança. A resposta de Yafa, limitada ao conforto físico e à validação, revela uma impotência paralela: a dor de quem reconhece o sofrimento do filho sem conseguir aliviá-lo plenamente.
Ao lado das narrativas de amadurecimento prematuro, parte dos pais descreveu uma regressão à dependência. Para essas famílias, a proximidade se tornou sufocante, com as crianças se agarrando aos pais em busca de segurança e regulação muito depois de o perigo imediato ter passado. Yafa contou:
Quando fui dormir com eles no abrigo no dia 7, eu não imaginava que ainda estaria dormindo com eles sete ou oito meses depois. Você perde a privacidade, física e emocionalmente. (Yafa)
Essa proximidade física prolongada, compreensível na esteira do trauma, também corroeu limites e complicou a volta às rotinas normais. A coexistência, nas diferentes entrevistas, de maturidade prematura e dependência prolongada ilustra uma tensão central: o trauma pode fraturar as trajetórias de desenvolvimento em direções divergentes, empurrando algumas crianças para a hiperindependência e outras para um apego regressivo, às vezes ambos dentro do mesmo sistema familiar.
As participantes descreveram a passagem de um senso familiar de coerência parental e de regulação emocional para experiências de sobrecarga, fragmentação e ruptura da continuidade parental. Todas as participantes relataram ter chegado a um ponto de ruptura emocional durante ou após a fase aguda do ataque e da evacuação. Esses colapsos não ocorreram no momento da ameaça direta, mas depois, quando uma segurança relativa já tinha sido alcançada.
Miri contou como protegeu os filhos do evento, uma habilidade que já praticava antes de 7 de outubro:
Não. Não, acho que as crianças estavam muito bem protegidas. Quase não foram expostas. A natureza do evento conta muito. Há uma diferença entre viver um alerta de foguete dentro de casa e fora dela. Você está exposto a outras pessoas, ao pânico, à ansiedade? Ou está em um ambiente calmo? Nós dois estávamos muito, muito calmos. (Miri)
Em contraste, outros pais descreveram o colapso emocional que sofreram quando chegaram a um lugar seguro, ao se permitirem sentir todas as emoções reprimidas durante a crise aguda. Yafa relatou:
No momento em que cheguei ao local de evacuação, comecei a chorar feito louca. Até então eu tinha me segurado, ficava muito calma… E aí, de repente, por uma bobagem, um pensamento qualquer, eu desabei. Completamente desproporcional… foi só uma descarga enorme… Eu tinha passado do controle para perder tudo de uma vez. (Yafa)
Esse trecho reflete a sobreposição complexa de papéis e expectativas que recaem sobre os pais em circunstâncias extremas. O colapso emocional de Yafa, desencadeado por “uma bobagem”, mostra como estados de hiper-regulação muitas vezes dão lugar a um afeto incontrolável quando passa a necessidade imediata de vigilância. Sua descrição também transmite uma dissociação entre a magnitude de seus sentimentos e o gatilho específico, sugerindo que o colapso não se devia a um único momento, mas ao acúmulo de medo, responsabilidade e exaustão reprimidos.
Rony refletiu de modo semelhante sobre a dissonância dolorosa entre a forma como gostaria de aparecer para os filhos e a forma como acabou reagindo: “As crianças realmente me viram pela primeira vez muito, muito assustada. Eu nunca… na minha vida, eu nunca reagi assim.” Esse momento parece marcar uma ruptura em sua identidade parental, em que a fachada protetora se rachou e revelou o próprio medo. O custo emocional de tentar ser uma fonte de força, apenas para “fracassar” nessa tentativa, expõe as expectativas inalcançáveis que os pais podem carregar durante uma catástrofe. Aqui, a vulnerabilidade não foi escolhida, mas emergiu apesar de seus esforços. O relato de Yuli acrescenta ainda outra dimensão, deslocando o foco do colapso visível para o entorpecimento emocional e a fragmentação:
Era sobrevivência, simplesmente isso. Não sentir demais… e a incerteza e os pontos de interrogação constantes… Você não sabe quanto tempo vamos ficar lá… as catástrofes não param de chegar… a sensação de que nem temos uma âncora para dar a eles se apoiarem. Tem comida, tem lugar para dormir, tem atividades de vez em quando, mas muito menos tempo dos pais com eles. (Yuli)
Em vez de uma descarga emocional, Yuli descreveu um desligamento gradual do papel parental, que ecoa um sentimento mais profundo de desconexão e insuficiência. Seus marcadores logísticos, “comida”, “lugar para dormir”, contrastam fortemente com as faltas emocionais que ela nomeia: a ausência de “âncora”, de “tempo dos pais” e a evitação generalizada do sentir. O trecho ilumina outra contradição: embora as necessidades básicas da família estivessem atendidas, o núcleo emocional da parentalidade foi corroído pelo estresse e pelo esgotamento contínuos. Esses relatos mostram como, em condições extremas, os pais oscilavam entre autocontrole e colapso, entre regulação e sobrecarga. Os transbordamentos emocionais muitas vezes chegavam não como colapsos isolados, mas como sinais de uma tensão psíquica mais profunda, expondo ao mesmo tempo a força e a fragilidade do cuidado em tempos de guerra.
O período de deslocamento introduziu um fardo psicológico duradouro que pôs à prova a resiliência emocional e as capacidades de cuidado das participantes. Três das mães entrevistadas descreveram momentos de sobrecarga emocional aguda e de insuficiência parental. Esses sentimentos não eram colapsos isolados, mas respostas cumulativas à dissonância entre aquilo de que os filhos precisavam e aquilo que elas se sentiam capazes de oferecer. Todas as participantes se viram às voltas com o próprio sofrimento enquanto tentavam proteger os filhos do caos da guerra, muitas vezes sem sucesso.
Yafa, por exemplo, descreveu como a tensão se intensificou com o tempo, à medida que a novidade inicial do deslocamento se desfazia e dificuldades mais profundas vinham à tona:
Havia explosões de raiva e de nervos… No começo, tudo estava bem… mas quando as dificuldades surgiram, eu tentei ajudar e não consegui… Minha paciência, admito… com o tempo, foi ficando mais difícil… A gente se sente um fracasso como mãe. (Yafa)
Aqui, Yafa revela uma contradição dolorosa: sua consciência da deterioração emocional dos filhos colide com sua capacidade cada vez menor de permanecer presente e emocionalmente regulada. O uso repetido de “eu tentei… e não consegui” marca uma ruptura no ideal de cuidado, um padrão internalizado de eficácia materna que as condições de guerra tornaram insustentável.
Da mesma forma, a experiência de Rony nos primeiros dias do ataque evidencia como a intensidade do medo dos filhos se chocou com sua própria paralisia emocional:
Eu não conseguia acalmá-lo… ele estava on-line o tempo todo e sabia mais do que eu… Tentei fazer ele ficar quieto… Eu simplesmente não conseguia estar presente para ele… Só falei para ele: “Fica quieto!” (Rony)
A tentativa de Rony de proteger as filhas mais novas da enxurrada de informações trazida pelo filho mais velho acabou, paradoxalmente, por calá-lo. Esse momento ilustra uma tensão central: as necessidades concorrentes de diferentes filhos e a luta de quem cuida para dar conta delas quando as próprias emoções estão abaladas. Seu “eu não conseguia…” repetido é um refrão de impotência, que ressalta limites tanto situacionais quanto internos.
Yuli, por outro lado, enfatizou a lenta erosão do vínculo ao longo do tempo, à medida que o filho se tornava cada vez mais distante, emocional e fisicamente: “Uma perda total de controle… uma sensação de distância… ele era uma entidade separada de nós, e ele também sentia isso.” Essa “perda de controle” não se refere apenas à autoridade parental, mas à intimidade relacional. O que começou como estratégia de sobrevivência, confiar que um filho mais velho se viraria sozinho, transformou-se em uma sensação de negligência. Mais tarde, Yuli formula isso como culpa: “Tinha essa sensação… como se a gente simplesmente o tivesse deixado de lado, porque ele era mais velho e conseguia se virar… mas isso não é… não faz sentido.” Aqui surge a contradição entre razão e emoção: cognitivamente, ela sabe que delegar a responsabilidade era necessário; emocionalmente, aquilo é sentido como abandono. A repetição de “não faz sentido” sugere um desconforto moral não resolvido: o que fazia sentido do ponto de vista logístico feriu sua intuição materna.
Em alguns casos, pais e mães foram obrigados a deixar os filhos por longos períodos por causa de funções profissionais de emergência, o que agravou seu sentimento de fracasso e de desconexão. Yuli, enfermeira de pronto-socorro, conta como sua dupla responsabilidade de cuidado, com as pessoas feridas e com os próprios filhos, criou escolhas impossíveis: “O dia inteiro eu estava no inferno em Barzilai (um hospital)… e meu marido estava lutando na fronteira… as crianças iam de um lugar para outro… debaixo de fogo.” Aqui, a fragmentação é ao mesmo tempo física e simbólica: as crianças passam de mão em mão enquanto pais e mães se dividem entre o dever e o apego. A imagem de crianças que “iam de um lugar para outro… debaixo de fogo” reflete não só a exposição ao perigo, mas também a instabilidade do cuidado, produzindo o que se poderia chamar de deslocamento traumático do próprio vínculo de cuidado.
Duas mães descreveram momentos em que os filhos relataram informações terríveis que haviam absorvido de colegas ou em espaços digitais, antes mesmo que elas tivessem a chance de processar ou mediar esse conteúdo. Esses momentos deixavam à mostra a perda da autoridade narrativa e a impossibilidade de proteger plenamente as crianças da violência psicológica da guerra. Miri lembra que o filho pequeno lhe contou a morte de alguém da comunidade: “Na hora, eu fiquei em choque… fui pega desprevenida. Não sabia o que dizer… Só disse algo como: ‘Não, ninguém morreu… isso provavelmente não é verdade…’ E aí você simplesmente fica sem palavras.” Sua negação é menos uma mentira do que uma tentativa reflexa de reafirmar um mundo no qual ela ainda pode proteger o filho de verdades insuportáveis. No entanto, esse momento também revela sua própria incapacidade de regular o terreno emocional: “ficar sem palavras” torna-se emblema da impotência parental diante de um trauma compartilhado.
Outra dificuldade recorrente era como falar com as crianças sobre os reféns, um tema para o qual muitos pais e mães, como Miri, não tinham preparo:
Decidimos não contar nada para eles até sabermos o que estava acontecendo… Contei só para o meu filho mais velho, mas não contei para o mais novo… havia sempre o medo da diferença entre o que eu dizia a eles e o que eles ouviam ao redor… Não conseguimos ter uma conversa de verdade sobre isso. (Miri)
Isso revela outra contradição: o silêncio pretende proteger, mas também deixa um vazio rapidamente preenchido por narrativas externas descontroladas. O papel parental de intérprete emocional e de produtor de sentido é minado pela presença invasiva e sem filtro da guerra em todas as esferas da vida. O resultado é uma paralisia da linguagem, em que até mesmo uma “conversa de verdade” se torna inalcançável.
A metáfora da “faca de dois gumes” traduz a natureza ambivalente da comunidade de acolhimento. Por um lado, ela oferecia segurança, continuidade e pertencimento em um contexto desastroso; por outro, esse mesmo quadro comunitário também gerava tensões emocionais e relacionais, desenvolvidas no subtema seguinte. As participantes destacaram de forma constante o papel crucial da comunidade de acolhimento para aliviar o sofrimento imediato da evacuação. Para muitas, ser realocadas em um ambiente familiar oferecia uma sensação de segurança, continuidade e pertencimento em meio ao caos. Rony, por exemplo, descreveu a comunidade de acolhimento como um ambiente que lhe dava ancoragem emocional:
A aldeia que nos recebeu era um lugar de que gostávamos muito. Toda vez que éramos evacuados, íamos para lá. Já tínhamos amigos lá… Conhecíamos todo mundo. Era realmente como uma segunda casa. Então ajudou muito. Você só quer estar em algum lugar seguro, sobreviver, sabe? Você só quer que tudo esteja seguro… era como um centro de recuperação… Era uma pousada, tinha grama, era um ambiente de kibutz, e realmente… tivemos sorte. (Rony)
O relato de Rony reflete um raro momento de coerência em uma realidade desintegrada. A ênfase na familiaridade, “conhecíamos todo mundo” e “era como uma segunda casa”, sugere que a continuidade social pode ter funcionado como fator de proteção. A metáfora do “centro de recuperação” reforça a ideia do kibutz de acolhimento como ambiente terapêutico de sustentação (holding), onde atividades estruturadas e o cenário bucólico acalmavam temporariamente o sistema nervoso coletivo.
No entanto, as mesmas condições de acolhimento que traziam conforto também geravam novos fatores de estresse. A superlotação, a falta de privacidade e a incerteza prolongada pesavam muito sobre pais e filhos. Miri, por exemplo, descreveu como a vida coletiva corroeu sua sensação de ter um lar:
Era absolutamente terrível. Eu não conseguia nem dizer a palavra “casa”… Sem espaço, sem sala de estar, sem nenhuma possibilidade de fazer uma refeição em família, em privado, a gente come no refeitório coletivo. Sempre com todo mundo, sempre juntos. (Miri)
A repetição do “sem” sinaliza a negação dos rituais familiares que normalmente restauram a ordem e o sentido. A vida coletiva, embora necessária, privou as famílias de rotinas básicas que conferem dignidade e previsibilidade, elementos centrais da recuperação psicológica. Yafa ecoou essa tensão, destacando como o sufocamento físico espelhava uma claustrofobia emocional:
Era sufocante, um sufocamento de 360 graus, uma sensação de não ter ar. E eles também não tinham ar… Uma das coisas mais difíceis era que eu não conseguia dar a ele a sensação de que havia uma solução… Você vive realmente na incerteza, e é impossível se acostumar a viver na incerteza. (Yafa)
Aqui, a linguagem sensorial, “não ter ar”, funciona como metáfora visceral dos limites da continência parental. Yafa não só luta para lidar com a própria ansiedade, como lamenta não conseguir oferecer ao filho uma sensação de estabilidade. O deslocamento se torna uma ruptura não apenas logística, mas existencial.
Embora concebidas como lugares de refúgio, algumas comunidades de acolhimento se tornaram lugares de trauma secundário. Duas participantes descreveram como a fragilidade psicológica de outras pessoas evacuadas, somada à repetição das sirenes de ataque aéreo, intensificou o trauma dos filhos. Yafa relatou uma dessas experiências:
Foi terrível e horrível, chocante. Posso dizer que muitos anos de sirenes no entorno de Gaza não foram tão ruins quanto aquelas duas sirenes… Por causa da quantidade de gente, e éramos muitos, éramos centenas, correndo juntos para dois abrigos, todos espremidos… com gente gritando: “Cuidado para não perder as crianças! Olhem as crianças! Estão levando crianças!” Porque as pessoas, por causa das próprias experiências traumáticas, não estavam bem psicologicamente. Meus filhos nunca tinham chorado durante as sirenes, nunca, na vida. Mas aquelas duas foram chocantes. Foram as piores. Deixaram marcas, um dos momentos realmente mais difíceis, com uma ansiedade que ficou com a gente muito tempo depois, e dificuldades, e medo de ficar sozinho. Foi realmente terrível. (Yafa)
A descrição de Yafa complica a noção de apoio comunitário. O que deveria proteger, o “estar juntos”, acabou amplificando o caos. A dinâmica de multidão, o barulho e a hipervigilância compartilhada transformaram o abrigo em um lugar de desregulação coletiva. Seu relato ressalta que a proximidade com outras pessoas, sobretudo quando traumas não elaborados estão disseminados, pode paradoxalmente desestabilizar em vez de acalmar. As consequências emocionais, a ansiedade persistente, o medo da solidão, apontam para a longa cauda do trauma ligado ao deslocamento, mesmo quando a segurança física está, em princípio, garantida.
Este estudo explorou a experiência vivida de mães israelenses diante da parentalidade e de relações entre pais e filhos perturbadas após o ataque terrorista de 7 de outubro e o deslocamento que se seguiu. Os resultados lançam luz sobre o fardo psicológico agudo que recai sobre os pais, as mudanças na regulação emocional e nos papéis familiares dentro do sistema de apego e a relação complexa com a comunidade de acolhimento. Esses temas dialogam com, e em alguns casos ampliam, uma literatura emergente sobre parentalidade em situações de conflito armado, trauma cumulativo e deslocamento forçado, ao mostrar como a ameaça e o deslocamento remodelam tanto a corregulação quanto a “ecologia do cuidado” mais ampla que envolve a família (Ungar, 2011).
As narrativas das participantes revelaram uma profunda vulnerabilidade emocional e dúvidas sobre suas capacidades parentais, sobretudo quando estavam isoladas do coparente, da família extensa e das âncoras sociais familiares. As mães que participaram do presente estudo descreveram momentos de colapso psicológico seguidos de bruscas viradas para a ação, muitas vezes em benefício dos filhos. Esse pêndulo emocional está alinhado aos achados de Mijalevich-Soker e Taubman-Ben-Ari (2025), segundo os quais pais e mães em Israel, durante a guerra, oscilavam entre paralisia e um senso aguçado de responsabilidade, moldados por uma incerteza contínua e por redes de apoio desorganizadas. Nesses contextos, a parentalidade se tornou um campo de batalha emocional e logístico, em que demonstrar força era ao mesmo tempo uma estratégia de enfrentamento e um dever parental percebido.
Vários estudos mostram que uma regulação intensificada, somada a imperativos morais internos de manter a compostura diante das crianças, complica a dinâmica entre pais e filhos (Mijalevich-Soker e Taubman-Ben-Ari, 2025). Parece que quem cuida reprime as reações emocionais para proteger as crianças, o que dá origem a uma carga emocional invisível, capaz de comprometer sua disponibilidade para a corregulação justamente nos momentos em que as crianças mais precisam de um “regulador externo” (Lieberman e Van Horn, 2005; Lieberman e Horn, 2008).
Nosso segundo tema, “Meu filho cresceu da noite para o dia”, capta as mudanças drásticas nos papéis entre pais e filhos que se desenrolaram sob ameaça crônica e deslocamento. Nas quatro entrevistas, as mães descreveram uma combinação paradoxal de amadurecimento acelerado (crianças que se tornam vigilantes, protetoras e “hiper-responsáveis”) e dependência regressiva (apego excessivo, angústia de separação, distúrbios do sono e ansiedade aumentada). Essas trajetórias duplas, independência prematura ao lado de uma busca intensificada de proximidade, foram documentadas em famílias expostas ao trauma, inclusive em condições de estresse ligado à guerra (Feldman e Vengrober, 2011).
Do ponto de vista do apego, essas mudanças podem ser compreendidas como adaptações ao perigo, nas quais as crianças alternam entre pedidos de corregulação baseados na aproximação e estratégias mais autossuficientes quando o cuidado parece menos disponível (Bowlby, 1969; Taylor e Kaplan, 2023). O aparente “crescer da noite para o dia” das crianças também pode ser relacionado à inversão de papéis entre pais e filhos ou a dinâmicas próximas da parentificação, nas quais as crianças assumem vigilância, responsabilidades ou funções de cuidado próprias de adultos em condições de estresse familiar e de vulnerabilidade parental. A parentificação foi conceituada como uma perturbação das fronteiras entre gerações, na qual as crianças assumem responsabilidades emocionais e/ou funcionais que normalmente cabem aos adultos, sobretudo quando a disponibilidade parental está comprometida ou o sistema familiar está sob tensão (Boszormenyi-Nagy e Spark, 1973; Earley e Cushway, 2002; Engelhardt, 2012; Macfie et al., 2015). No presente estudo, porém, essas dinâmicas não devem ser entendidas como estruturas familiares fixas nem como parentificação formal, mas como deslocamentos de papéis situacionais, moldados pelo trauma, que surgem em condições extremas de ameaça, deslocamento e esgotamento materno.
Do ponto de vista do apego, esses deslocamentos de papéis podem afetar a percepção da criança de que a figura de cuidado é uma fonte de proteção disponível de forma confiável. Quando a criança se sente obrigada a monitorar o sofrimento do pai ou da mãe ou a ajudar a estabilizar o sistema familiar, a direção do cuidado pode se inverter em parte: em vez de depender da figura de cuidado para se regular, a criança pode tentar preservar a proximidade tornando-se útil, vigilante ou emocionalmente sintonizada com as necessidades do adulto (Earley e Cushway, 2002; Engelhardt, 2012). Com o tempo, essas dinâmicas podem moldar os modelos internos de funcionamento da criança, reforçando uma percepção de si como responsável pela estabilidade emocional dos outros e uma visão das relações como organizadas em torno do cuidado, do dever e do manejo da ameaça (Bowlby, 1969; Earley e Cushway, 2002; Engelhardt, 2012). No presente contexto, isso não implica uma perturbação fixa do apego, mas sugere que o perigo extremo e o esgotamento materno podem tensionar temporariamente a hierarquia comum do apego, produzindo ao mesmo tempo uma busca intensificada de proximidade e uma autossuficiência prematura. É importante notar que as narrativas das mães sugerem que esses deslocamentos de papéis foram comoldados pela própria capacidade de regulação das mães sob o trauma: quando elas se sentiam esgotadas, inundadas emocionalmente ou fragmentadas em seu papel de cuidado, as estratégias das crianças pareciam se polarizar, ora assumindo uma responsabilidade quase adulta (para estabilizar a casa), ora intensificando os comportamentos de dependência (para obter proximidade e continência). Assim, o tema não sugere uma simples aceleração do desenvolvimento, mas uma oscilação, moldada pelo trauma, entre responsabilidade prematura e dependência intensificada.
As narrativas das mães revelaram que o deslocamento não terminava quando o perigo físico diminuía; ao contrário, continuava a se desenrolar nas condições relacionais e comunitárias do ambiente de acolhimento. As participantes descreveram o kibutz de acolhimento ou o assentamento temporário como um contexto de dois gumes: um lugar que inicialmente oferecia segurança, continuidade e cuidado comunitário, mas que aos poucos passou a ser associado à superlotação, à tensão, à perda de privacidade e à sensação de ser julgada. O impacto do deslocamento sobre o ambiente de acolhimento foi destacado em vários trabalhos (Lozynskyy et al., 2023; Grinshtain e Haruv, 2025; Richmond, 1988). Richmond (1988) discutiu como a adaptação sociocultural de pessoas imigrantes é moldada tanto pelo apoio institucional quanto pelos conflitos sociais nos países de acolhimento, enfatizando as tensões que surgem quando os esforços de integração se chocam com a preservação cultural e com resistências da sociedade. Da mesma forma, no presente estudo, embora as participantes tenham inicialmente vivido o kibutz de acolhimento como um espaço estabilizador e até terapêutico, “como um centro de recuperação”, essa sensação de refúgio muitas vezes se desgastou com o tempo. As próprias estruturas que permitiam pertencimento e continuidade também se tornaram fontes de fragmentação psicológica. As expectativas culturais, a perda de privacidade e a convivência com outras famílias traumatizadas intensificaram o sofrimento e minaram a eficácia parental. Esses achados ressoam com pesquisas sobre apoio social após desastres, que mostram que o apoio comunitário pode ser fortemente protetor logo após o trauma, mas também pode se deteriorar ou se desgastar com o tempo quando a própria comunidade do entorno está sobrecarregada (Kaniasty, 2012).
O contexto israelense posterior a 7 de outubro esclarece ainda mais essa dualidade. Estudos recentes sobre pessoas evacuadas em Israel descrevem o deslocamento não simplesmente como uma mudança para um lugar mais seguro, mas como uma perturbação prolongada da autonomia, da privacidade, das rotinas familiares, do pertencimento e da continuidade comunitária. Assaraf e Dagan (2025), por exemplo, estudaram pessoas evacuadas do norte e do sul de Israel que foram deslocadas para hotéis durante a guerra entre Israel e o Hamas, mostrando como até ambientes destinados a oferecer proteção podiam ser vividos como restritivos, liminares e psicologicamente angustiantes.
Do ponto de vista ecológico, esses relatos podem ser compreendidos como uma mudança no microssistema da família, em que os “ambientes de sustentação” do dia a dia (rotinas, privacidade, papéis previsíveis e apoios sociais) são reconfigurados pelo local de acolhimento e por suas normas (Beck, 2025; Taylor e Kaplan, 2023). Na pesquisa sobre refúgio e deslocamento, os modelos de integração também enfatizam que as conexões sociais (laços, pontes e vínculos institucionais), ao lado do acesso a serviços e das atitudes locais, determinam se os contextos de acolhimento funcionam como ambientes protetores ou estressantes (Ager e Strang, 2008; Hadar, 2024). Por uma lente ecológica informada pelo apego, essas pressões parecem reduzir a capacidade de quem cuida de sustentar uma corregulação consistente e de oferecer uma base segura, já que o funcionamento parental ficava continuamente exposto à vigilância, à comparação e à incerteza (Mladenović et al., 2021). Isso é particularmente importante porque as comunidades de acolhimento não eram recipientes neutros do sofrimento das pessoas evacuadas; ao contrário, estavam elas mesmas inseridas na mesma emergência nacional e, em muitos casos, em uma realidade traumática compartilhada e ainda em curso. A literatura sobre realidade traumática compartilhada enfatiza que o cuidado, a ajuda e o apoio se complicam quando quem ajuda, as equipes profissionais e os ambientes de acolhimento estão expostos a ameaças, perdas e incertezas que se sobrepõem (Dekel e Baum, 2010; Baum, 2014; Segev et al., 2026).
Grinshtain e Haruv (2025) constataram que pessoas evacuadas da periferia norte de Israel descreviam o deslocamento comunitário como produtor tanto de fatores de atração quanto de repulsão: sensação de desligamento, perda involuntária da capacidade de agir e profunda preocupação com o bem-estar das crianças. A ambivalência emocional relatada, segurança, mas fragmentação emocional, ressalta que o apoio precisa ir além das necessidades materiais para enfrentar as rupturas relacionais nos ambientes de acolhimento.
As revisões sistemáticas de Bürgin et al. (2022) e de Hazer e Gredebäck (2023) mostram que o deslocamento forçado e o sofrimento parental afetam significativamente o desenvolvimento socioemocional e cognitivo das crianças pequenas, sobretudo quando as pessoas que cuidam delas estão sobrecarregadas ou ausentes. No presente estudo, esses relatos profundamente pessoais de parentalidade solo durante os ataques de 7 de outubro e ao longo de um deslocamento prolongado ressaltam o fardo psicológico cumulativo que recai sobre quem cuida, em especial as mães, ao atravessar a crise sem coparente.
A ausência de decisões compartilhadas e de apoio emocional intensificou os sentimentos de impotência, culpa e insuficiência parental. Como mostram as narrativas de Rony e Yafa, o duplo papel de protetora e de reguladora emocional tornou-se ao mesmo tempo crucial e insustentável sob estresse crônico.
Alfasi et al. (2025) documentaram de modo semelhante um estresse parental elevado e seu impacto negativo sobre o funcionamento familiar entre pais e mães em Israel após 7 de outubro, reforçando a centralidade do bem-estar de quem cuida na adaptação ao trauma. Ainda assim, mesmo diante da exaustão e da fragmentação, as mães deste estudo fizeram esforços notáveis para conter o sofrimento dos filhos, seja pela proximidade física, pela proteção emocional ou por um enquadramento moral da adversidade. Isso ecoa Gillespie et al. (2022), que destacam o papel protetor crucial que as mães deslocadas desempenham ao resguardar os filhos de um trauma complexo. Esse trabalho enfatiza a necessidade urgente de intervenções relacionais que se concentrem não só nos sintomas das crianças, mas nas capacidades de quem cuida e na restauração da coerência parental como base da recuperação.
Em conjunto, nossos resultados ressaltam o duplo fardo: as mães atravessaram o trauma ao mesmo tempo como cuidadoras e como reguladoras relacionais. Nesse contexto, cuidadoras remete sobretudo às dimensões práticas e protetoras da parentalidade, incluindo garantir a segurança, lidar com as exigências ligadas ao deslocamento e manter o cuidado cotidiano em condições de instabilidade. Reguladoras relacionais, por sua vez, designa o papel emocional diádico das mães: seus esforços para conter o medo das crianças, sustentar a disponibilidade emocional e restaurar a corregulação apesar da própria ativação traumática. O deslocamento não fraturou apenas a estabilidade física, mas também a identidade parental e as capacidades internas de regulação, dificultando a restauração de uma base segura e de uma corregulação confiável na relação entre pais e filhos. Estudos recentes reforçam a importância do funcionamento reflexivo e da eficácia parental em contextos de exposição à guerra (Enav e Mayer, 2025; Hadar, 2025). Isso sugere que as intervenções deveriam fortalecer a capacidade reflexiva dos pais como caminho para apoiar a resiliência tanto das crianças quanto de quem cuida delas. Além disso, Khraisha et al. (2024) sugerem que sistemas de cuidado redesenhados, que enfatizem a urgência da coparentalidade, a dignidade, a negociação e a delicadeza, podem promover a saúde mental e a coesão familiar geral no contexto do deslocamento.
Este estudo se baseia em entrevistas aprofundadas com quatro mães que viveram o ataque de 7 de outubro e o deslocamento que se seguiu, e suas conclusões devem, portanto, ser interpretadas com cautela. O tamanho reduzido da amostra e o escopo restrito das entrevistadas limitam a transferibilidade dos resultados; não se pode presumir que representem toda a variedade de experiências de pais e mães em Israel nas diferentes regiões, comunidades, estruturas familiares ou contextos socioculturais.
Além disso, todas as participantes eram mães recrutadas por meio de uma clínica terapêutica temporária, o que significa que seus relatos podem refletir os de famílias que tinham algum acesso a apoio terapêutico e que puderam refletir sobre suas experiências em um contexto relativamente continente.
Outra limitação diz respeito à especificidade cultural e geopolítica do estudo. O foco empírico está fortemente situado no contexto israelense e, mais precisamente, em famílias da periferia israelense afetadas pelo terror, pela guerra e pelo deslocamento interno. Essa especificidade também é uma força: permite um relato rico e sensível ao contexto da parentalidade sob ameaça aguda e deslocamento prolongado. No entanto, significa também que os resultados não devem ser generalizados sem senso crítico para outros cenários de guerra, migração forçada ou trauma comunitário. A parentalidade no deslocamento é moldada pelas histórias locais, pelas realidades políticas, pelas estruturas familiares, pelas expectativas culturais, pela organização comunitária e pelos sistemas de apoio disponíveis. Essas características contextuais são centrais para os significados que as participantes atribuíram à parentalidade solo, ao amadurecimento acelerado das crianças, ao cuidado fragmentado e ao papel ambivalente da comunidade de acolhimento. Ao mesmo tempo, essas participantes ilustram muito bem um fenômeno mais amplo: mães que exercem a parentalidade em condições de terror agudo, incerteza contínua e deslocamento prolongado. Suas narrativas oferecem exemplos ricos e conceitualmente fortes de processos provavelmente compartilhados por muitas pessoas em circunstâncias semelhantes, mas o estudo deve ser entendido antes como fonte de profundidade e de compreensão matizada do que de amplitude ou representatividade estatística.
Pesquisas futuras devem examinar a parentalidade no deslocamento em contextos culturais, sociais e geopolíticos mais diversos. São necessários estudos qualitativos e de métodos mistos mais amplos para verificar se padrões semelhantes surgem em famílias deslocadas por outras formas de conflito armado, violência política, desastres naturais ou deslocamento forçado. No contexto israelense, estudos futuros devem incluir pais e mães de diferentes regiões, comunidades étnicas e religiosas, níveis socioeconômicos e configurações familiares, incluindo pais, famílias monoparentais, avós e outras pessoas que cuidam das crianças.
Também são necessários estudos longitudinais e diádicos que acompanhem pais e filhos ao longo do tempo, sobretudo em momentos-chave de transição, como a evacuação, a realocação temporária, o acolhimento prolongado, o retorno para casa ou o reassentamento em outro lugar. Esses delineamentos poderiam ajudar a esclarecer como as representações parentais, o ajustamento das crianças, os comportamentos ligados ao apego e as rotinas familiares mudam com o tempo. Também poderiam examinar como os ambientes de acolhimento apoiam ou minam o funcionamento parental, a privacidade, a autonomia e a coerência familiar.
Programas. Os serviços que trabalham com famílias deslocadas (por exemplo, centros comunitários, kibutzim de acolhimento, clínicas, escolas) devem oferecer aos pais intervenções em grupo breves e estruturadas que tenham como alvo direto (a) habilidades de regulação emocional (por exemplo, ancoragem, corregulação com as crianças, manejo do pânico nos abrigos), (b) autoeficácia parental (ajudar as mães a nomear o que estão fazendo bem em condições impossíveis) e (c) orientação relacional (estratégias práticas para conversar com as crianças sobre o medo, a ausência do outro genitor e a incerteza). Essas intervenções podem ser oferecidas em grupos de 6 a 8 sessões ou integradas às reuniões de pais já existentes e aos programas voltados às crianças.
Apoio comunitário. Os ambientes de acolhimento devem ser obrigados a incorporar a segurança psicológica a seu funcionamento cotidiano, e não apenas fornecer hospedagem e comida. Isso pode incluir: reuniões de acolhida que apresentem explicitamente as pessoas evacuadas como hóspedes bem-vindas, e não como um fardo; formação da equipe local e do voluntariado em comunicação informada pelo trauma (por exemplo, evitar comentários que julguem a forma de criar os filhos); espaços tranquilos e reservados onde pais e mães possam descomprimir sem se sentir em exposição; e fóruns comunitários regulares em que as tensões possam ser expressas e mediadas em vez de ficarem latentes.
Políticas públicas. As políticas de reassentamento e de deslocamento interno devem priorizar (a) a manutenção da unidade familiar sempre que possível (evitando separações desnecessárias entre pais e filhos em locais diferentes), (b) o financiamento, no próprio local, de serviços de cuidado infantil de fácil acesso e de programas de desenvolvimento da primeira infância nas moradias temporárias e (c) a inclusão de um apoio parental informado pela saúde mental (por exemplo, grupos psicoeducativos, aconselhamento parental) nos pacotes nacionais de resposta a emergências (Bernhardt et al., 2024). Diretrizes de políticas públicas podem fixar padrões mínimos de apoio psicossocial em hotéis, kibutzim e centros temporários e reservar orçamentos para a contratação de pessoal psicossocial qualificado, em vez de depender apenas de voluntariado.
Este estudo lança luz sobre a experiência vivida de mães israelenses que exercem a parentalidade em condições de terror extremo e de deslocamento prolongado. Em todas as entrevistas, a parentalidade surgiu como uma tarefa ao mesmo tempo prática e profundamente relacional, moldada pelas exigências simultâneas de proteção, regulação emocional, negociação de papéis e sobrevivência. Os resultados mostram como a crise traumática e o deslocamento podem fraturar não só as casas e as rotinas diárias, mas também a identidade parental, a coerência emocional e o campo relacional entre pais e filhos. As mães precisavam manter a segurança e a continuidade para os filhos enquanto lidavam com o próprio medo, luto, exaustão e desorientação. Nesse contexto, o cuidado se tornou um ato contínuo de continência emocional, que muitas vezes exigia das mães que projetassem estabilidade justamente quando seu próprio senso interno de estabilidade estava profundamente abalado.
O estudo destaca a necessidade de respostas informadas pelo trauma que reconheçam pais e mães em situação de deslocamento não apenas como responsáveis pela recuperação das crianças, mas também como pessoas sobreviventes cujas próprias capacidades emocionais e relacionais precisam de apoio. As intervenções clínicas e comunitárias devem, portanto, considerar o sistema familiar como um todo, fortalecendo a segurança relacional, a capacidade reflexiva parental, a regulação emocional e as oportunidades de agência e dignidade parentais. Apoiar as crianças após a guerra e o deslocamento não pode ser separado do apoio aos pais e mães a quem se pede que sustentem, interpretem e regulem por elas a realidade traumática. A recuperação, nesse sentido, envolve mais do que restaurar rotinas ou oferecer um refúgio temporário; exige atenção às estruturas emocionais e relacionais fraturadas por meio das quais as famílias tentam reconquistar continuidade, vínculo e uma sensação de segurança.
Complexe Systémique: a reter
Apenas quatro entrevistas, mas uma descrição fina do que a ameaça faz com o sistema pais-filhos: a mãe aguenta firme durante o perigo e desaba quando chega a um lugar seguro, a criança se parentifica ou regride conforme o que o adulto ainda consegue conter, e o silêncio protetor dá lugar aos relatos de colegas e das telas. A contribuição mais sistêmica está na comunidade de acolhimento: o contexto que salva torna-se, com o tempo, um lugar de aglomeração, comparação e trauma compartilhado, e por isso faz parte do problema tanto quanto da solução. Para a clínica, vale reter três pontos: apoiar a parentalidade em vez de tratar só a criança, ler as mudanças de papéis como adaptações situacionais e não como parentificação cristalizada, e trabalhar com os próprios ambientes de acolhimento. Os limites são claros: uma amostra muito pequena de mães recrutadas por uma clínica, uma pesquisadora que também atuou como terapeuta de famílias deslocadas, nenhum pai e nenhuma criança ouvidos, e um contexto israelense muito situado, que a autora pede que não se generalize. Para ler junto com o artigo sobre primeiros socorros psicológicos para famílias em tempo de guerra e com o ensaio de um programa familiar com jovens e famílias em Gaza.
Notas do original
1 A regulação emocional refere-se aos processos pelos quais uma pessoa monitora, compreende e modula seus estados emocionais para responder de forma adaptativa às demandas internas e externas. Na primeira infância, essa capacidade se desenvolve em grande parte por meio da corregulação com as pessoas que cuidam da criança, que a ajudam a organizar o sofrimento, a recuperar a calma e a internalizar gradualmente estratégias de manejo dos afetos (Paley e Hajal, 2022).
2 O apego refere-se ao vínculo emocional duradouro da criança com uma figura de cuidado vivida como fonte de proteção, conforto e regulação nos momentos de sofrimento. Por meio de interações repetidas, a criança desenvolve expectativas sobre a disponibilidade e a responsividade dos outros, que moldam seus padrões posteriores de segurança, exploração, regulação dos afetos e relacionamento (Bowlby, 1969).
3 Neste artigo, parentalidade solo refere-se aos períodos em que um dos pais assume a principal responsabilidade cotidiana pelos filhos sem a presença física do coparente. O termo não indica necessariamente uma situação formal de família monoparental. Essa experiência tornou-se especialmente relevante em Israel após o ataque de 7 de outubro, em razão do deslocamento e de outras separações ligadas à guerra, incluindo o serviço prolongado na reserva militar. Em janeiro de 2024, cerca de 300 mil reservistas haviam sido convocados, dos quais cerca de 120 mil eram pais ou mães; aproximadamente 12% das pessoas mobilizadas tinham filhos com menos de nove anos (Shay et al., 2024; Zerach, 2024).
Agradecimentos. A autora expressa sua profunda gratidão às mulheres corajosas que participaram deste estudo e compartilharam suas experiências durante a guerra e o deslocamento. Sua disposição para falar abertamente, apesar da incerteza e das perdas que continuam, tornou esta pesquisa possível. A autora agradece também às equipes profissionais e às organizações que ajudaram no recrutamento e apoiaram o processo de pesquisa, e a todas as pessoas que ofereceram orientação e apoio prático para levar o estudo adiante.
Financiamento. Financiamento do acesso aberto pela Universidade de Haifa. Não se aplica.
Aprovação ética. Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética (Institutional Review Board) de Ciências da Saúde e do Bem-Estar Social da Universidade de Haifa (n.º 345/24).
Consentimento para publicação. Todas as participantes assinaram um termo de consentimento para publicação.
Consentimento para participação. Cada participante deu seu consentimento livre e esclarecido para participar.
Uso de IA na revisão. A autora declara ter usado o ChatGPT para revisão linguística e estilística durante a preparação do manuscrito. A ferramenta foi usada apenas para melhorar a clareza, a gramática e a legibilidade. Todo o conteúdo intelectual, a análise, a interpretação e as decisões finais sobre o manuscrito continuam sob a responsabilidade da signatária.
Conflitos de interesse. Nenhum conflito de interesse é declarado.
Número de ensaio clínico. Não se aplica.
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Tradução não oficial em português de “Sem palavras diante dos meus filhos”: uma análise temática das experiências de pais e mães durante a guerra e o deslocamento, de Tamar Hadar, Journal of Child & Adolescent Trauma, publicação on-line antecipada (2026), doi: 10.1007/s40653-026-00974-4, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, hierarquia dos intertítulos harmonizada). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de ““Left Speechless in Front of My Children”: A Thematic Analysis of Parents’ Experiences During War & Displacement”, publicado em Journal of Child & Adolescent Trauma (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Hadar, T. (2026). “Sem palavras diante dos meus filhos”: uma análise temática das experiências de pais e mães durante a guerra e o deslocamento (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/sem-palavras-diante-dos-meus-filhos-uma-analise-tematica-das-experiencias-de-pais-e-maes (Obra original publicada em 2026 em Journal of Child & Adolescent Trauma, publication en ligne anticipée (2026); republicada em 2026 por Journal of Child & Adolescent Trauma, https://link.springer.com/article/10.1007/s40653-026-00974-4)
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