Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health · Terapia familiar
Quando uma criança pequena já apresenta sintomas, prevenir não basta: é preciso tratar, e a relação com quem cuida dela torna-se a alavanca do tratamento. A equipe de Katherine Matheson e Kathleen Pajer, em Ottawa, reuniu 62 estudos sobre terapias diádicas baseadas no apego para crianças de 0 a 6 anos: a PCIT e o Early Pathways predominam, e o restante segue promissor, mas frágil.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Terapias diádicas baseadas no apego para bebês e crianças pequenas com problemas de saúde mental: uma revisão de escopo, de Katherine Matheson, Constance de Schaetzen, Adrienne Li, Nicole Sheridan, Anne-Lise Holahan, Alexandra Tighe, Mina Salamatmanesh, Melissa Vloet, Paula Cloutier, Amanda Helleman, Lisa Currie, Nicole Racine, Sevda Saadat e Kathleen Pajer, publicado na Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health (BioMed Central) (2025), doi: 10.1186/s13034-025-00981-7, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura permanece em inglês, com legenda traduzida; as dez tabelas são apresentadas em forma de listas, com todos os valores; os apêndices on-line (lista PRISMA, estratégia de busca) não foram reproduzidos; as declarações de fim de artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O desenvolvimento de intervenções eficazes para crianças de 0 a 6 anos com sintomas de SM é de importância crucial para a próxima geração.
Katherine Matheson, Constance de Schaetzen, Adrienne Li, Nicole Sheridan, Anne-Lise Holahan, Alexandra Tighe, Mina Salamatmanesh, Melissa Vloet, Paula Cloutier, Amanda Helleman, Lisa Currie, Nicole Racine, Sevda Saadat e Kathleen Pajer
Resumo
Introdução. O apego precoce entre a criança e quem cuida dela é fundamental para a saúde mental (SM). Embora as ações de prevenção muitas vezes busquem melhorar a qualidade do apego, as equipes clínicas encontram com frequência bebês e crianças pequenas que já apresentam sintomas clínicos de transtornos de SM. Falta uma síntese abrangente das intervenções diádicas baseadas no apego para essa população. Esta revisão de escopo busca preencher essa lacuna.
Métodos. Foi realizada uma revisão de escopo nas bases CINAHL, MEDLINE, PsycINFO, Web of Science e Cochrane CENTRAL, com busca manual de artigos, para identificar e caracterizar intervenções diádicas baseadas na relação para crianças de 0 a 6 anos com sintomas clínicos de transtornos de SM. Os estudos foram triados quanto à elegibilidade e incluídos se examinassem modalidades terapêuticas usadas em populações clínicas, para além das abordagens preventivas.
Resultados. A triagem identificou estudos que avaliaram várias modalidades terapêuticas, por exemplo, a Terapia de Interação Pais-Criança (Parent Child Interaction Therapy, PCIT), o Early Pathways (EP), o Watch, Wait, and Wonder, a psicoterapia pais-bebê e as intervenções com videofeedback. A PCIT e o EP tinham o maior volume de dados publicados, atenderam o maior número de participantes e demonstraram melhoras significativas em desfechos da criança ou da relação. A maioria dos estudos, porém, tinha amostras pequenas e limitações metodológicas. Apenas algumas intervenções haviam sido avaliadas com delineamentos rigorosos, como ensaios clínicos randomizados.
Conclusões. As duas intervenções com mais evidências foram o EP e a PCIT, sobretudo para famílias afetadas por determinantes sociais de saúde adversos. Ambas exigem mais pesquisas sobre as barreiras à implementação (por exemplo, adaptabilidade a múltiplos contextos e culturas, redução dos recursos necessários para a oferta do serviço etc.). São necessárias pesquisas adicionais para fortalecer a base de evidências dos tratamentos diádicos baseados no apego voltados a problemas clínicos de SM em bebês e crianças pequenas.
Palavras-chave: saúde mental do bebê; primeira infância; apego; terapia diádica
O apego seguro na primeira infância é crucial para a saúde mental (SM) ao longo da vida, pois as crianças pequenas funcionam e crescem no contexto de suas relações com quem cuida delas. A Teoria do Apego de Bowlby enfatiza que relações seguras entre a criança e essas pessoas oferecem a base para a regulação emocional e para um desenvolvimento saudável ao longo da vida [1]. Rupturas no cuidado podem levar a problemas precoces de SM e são importantes preditores de psicopatologia na infância e na adolescência, sobretudo em interação com o ambiente e/ou o genótipo [2-5]. Quando surgem sintomas de SM em crianças pequenas, a intervenção clínica oportuna torna-se essencial. O período do nascimento aos cinco anos é a etapa mais formativa do desenvolvimento cerebral, marcada por sinaptogênese, poda sináptica e mielinização rápidas, e tem implicações para toda a vida [6].
No início do desenvolvimento, as crianças dependem de quem cuida delas para ajudar a regular seus estados emocionais e fisiológicos, o que faz deste um período sensível para a formação da SM [7, 8]. Um cuidado responsivo favorece o manejo do estresse e o enfrentamento adaptativo, enquanto o apego inseguro aumenta o risco de transtornos emocionais e comportamentais [9, 10]. As intervenções terapêuticas diádicas são especialmente eficazes, pois fortalecem diretamente a relação entre a criança e quem cuida dela [5]. Nesta revisão, usamos a expressão “intervenção baseada no apego” para nos referir a modelos de tratamento diádico explicitamente fundamentados na Teoria do Apego de Bowlby. Essas intervenções tomam a relação entre a criança e quem cuida dela como o principal agente de mudança e buscam ampliar a sensibilidade, a responsividade e a função reflexiva de quem cuida, além da reparação de padrões relacionais, para sustentar um apego seguro [3].
Programas para atenuar ou prevenir o apego inseguro mostram que intervenções que aumentam a sensibilidade materna às necessidades do bebê ou da criança pequena podem melhorar significativamente o apego seguro [12, 13]. Essas intervenções produzem os efeitos mais fortes quando usadas com famílias de alto risco [14]. Em contextos clínicos, porém, o objetivo é tratar bebês e crianças pequenas que já desenvolveram sintomas de transtornos de SM.
Até onde sabemos, apenas dois tratamentos clínicos diádicos baseados no apego foram objeto de revisão em uma população clínica. As pesquisas sobre a Terapia de Interação Pais-Criança (PCIT), uma intervenção derivada das teorias da aprendizagem social e do apego [15], foram sintetizadas em uma metanálise em 2017 [11]. Essa revisão mostrou que a PCIT era eficaz para reduzir sintomas de transtornos externalizantes de SM em crianças muito pequenas. Embora eficaz, a PCIT nem sempre é viável [16]. Uma revisão Cochrane sobre a Psicoterapia Pais-Bebê (Parent-Infant Psychotherapy, PIP) realizou uma metanálise com dados de oito ensaios clínicos randomizados. PIP é um termo para um conjunto de intervenções psicodinâmicas destinadas a aumentar o apego seguro, mas essas abordagens também foram usadas para tratar problemas de SM na faixa de 0 a 6 anos. Embora os métodos de PIP se mostrassem promissores, nenhuma conclusão firme sobre sua eficácia pôde ser tirada [5]. Essa revisão não distinguiu os estudos que buscavam melhorar preventivamente o apego em díades de alto risco daqueles em que a PIP era usada como tratamento clínico para crianças de 0 a 6 anos com sintomas de transtornos de SM em nível clínico.
Não há revisão abrangente das terapias diádicas baseadas no apego ou na relação para crianças de 0 a 6 anos com sintomas de SM. Seria útil para as equipes clínicas da primeira infância dispor de uma revisão dos dados sobre intervenções clínicas baseadas no apego além da PCIT, para ampliar suas opções de tratamento. Por isso, realizamos uma revisão de escopo das terapias diádicas baseadas na relação voltadas a sintomas de SM em bebês e crianças pequenas (0 a 6 anos), com foco nas intervenções clínicas oferecidas a crianças sintomáticas e excluindo os estudos apenas preventivos. Ao sintetizar achados de estudos diversos, esta revisão busca destacar a base de evidências existente, identificar os principais modelos de intervenção e orientar possíveis recomendações clínicas. Identificar lacunas de conhecimento também ajudará a orientar as pesquisas futuras.
Esta revisão baseou-se em referenciais metodológicos [17-19] e seguiu as diretrizes PRISMA [20] (ver a lista de verificação no Apêndice 1). O protocolo não foi registrado prospectivamente. Foram pesquisadas as bases Ovid Medline, Cochrane Central, APA PsycInfo, CINAHL, Web of Science e a literatura cinzenta, desde a criação de cada uma até maio de 2024, e as buscas manuais foram concluídas em maio de 2024. A estratégia de busca (ver os detalhes completos no Apêndice 2) foi desenvolvida por uma pessoa bibliotecária experiente em consulta com a equipe da revisão, com base na Peer Review of Electronic Search Strategies (PRESS).
Para abranger toda a gama de apresentações clinicamente relevantes na primeira infância, adotamos critérios de inclusão amplos, englobando estudos com crianças que apresentassem quaisquer sintomas de SM, incluindo dificuldades emocionais, desafios comportamentais, diagnósticos do DSM-5 ou sintomatologia internalizante e externalizante. Reconhecendo que crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o atraso global do desenvolvimento ou deficiência intelectual (AGD/DI), muitas vezes precisam de abordagens terapêuticas muito especializadas, incluímos essas populações apenas quando a intervenção estudada incorporava explicitamente um referencial terapêutico baseado no apego ou relacional. Os estudos eram incluídos se seus métodos identificassem a criança como apresentando quaisquer sintomas de SM (conforme descrito acima), como em busca de ajuda por desafios comportamentais ou como parte de uma amostra de alto risco “selecionada na triagem” com base em uma escala de avaliação que situava seus sintomas de SM na faixa clínica de gravidade.
Por coerência, nossos critérios de inclusão (Tabela 1) apoiaram-se em uma definição amplamente aceita de terapia diádica baseada no apego. As intervenções baseadas no apego buscam melhorar a capacidade parental de oferecer um cuidado sensível e responsivo, com o objetivo final de melhorar os padrões de apego e as interações entre a criança e quem cuida dela. Embora essas intervenções tenham um objetivo comum, seus métodos variam: alguns programas intervêm no nível comportamental (por exemplo, com orientação ao vivo ou videofeedback das interações para trabalhar comportamentos de cuidado específicos), e outros buscam mudar as representações de quem cuida (por exemplo, a função reflexiva parental [21]). Nesta revisão, incluímos apenas terapias diádicas explicitamente fundamentadas na Teoria do Apego e concebidas para tratar problemas clínicos de SM em crianças de 0 a 6 anos. Para garantir o alinhamento entre nosso referencial teórico e a seleção dos estudos, verificamos a orientação baseada no apego de cada modalidade terapêutica examinando manuais de intervenção, sites dos programas e, no caso do Early Pathways, consultando diretamente quem desenvolveu o programa. Está bem estabelecido que intervenções em grupo baseadas no apego para quem cuida das crianças podem aumentar a segurança do apego e, consequentemente, reduzir os sintomas de SM em crianças pequenas [22, 23]. Nesta revisão, porém, optamos deliberadamente por focar nas modalidades de tratamento diádicas, tanto para contribuir com a literatura existente quanto para manter um escopo administrável.
Tabela 1 — Critérios de seleção dos estudos
Para ampliar ao máximo a inclusão, consideramos elegíveis os estudos que relatassem desfechos relacionados à relação criança-pais, aos sintomas da criança, ao funcionamento de quem cuida ou a qualquer combinação desses elementos. Não houve restrição quanto ao ambiente ou contexto de oferta do tratamento (por exemplo, visitas domiciliares, intervenções virtuais e ambientes clínicos foram todos incluídos). Excluímos intervenções concebidas apenas para populações em risco (por exemplo, pessoas cuidadoras com transtornos por uso de substâncias ou doença psiquiátrica), pois elas já foram amplamente estudadas na literatura sobre prevenção [14, 22, 24, 25]. Nosso foco foram as crianças clinicamente sintomáticas, dada a relativa escassez de revisões nessa área e nosso objetivo de produzir achados diretamente relevantes para serviços clínicos que desenvolvem modelos de tratamento para a população de 0 a 6 anos com problemas de SM.
Os estudos de PCIT publicados após a metanálise de Thomas e equipe (2017) [11] foram incluídos, e não incluímos estudos já contemplados naquela revisão. Incluímos, por outro lado, estudos de PIP em amostras clínicas, porque a revisão anterior não havia relatado esses dados separadamente [5].
Os registros foram reunidos e as duplicatas removidas antes da triagem. A seleção dos estudos foi feita em duas etapas por quatro pessoas revisoras independentes, com base nos critérios de inclusão e exclusão. Títulos e resumos foram triados e, em seguida, os que atendiam aos critérios passaram por triagem do texto completo. Em caso de desacordo, outra pessoa da equipe signatária fazia uma revisão para chegar a um consenso sobre a elegibilidade.
Um formulário de extração em Excel das características dos estudos (por exemplo, delineamento, população, modelo de intervenção, desfechos etc.) foi desenvolvido com a lista de verificação STROBE (Apêndice 2). Quinze pessoas revisoras participaram, e duas revisavam de forma independente cada artigo, atribuído aleatoriamente, para extração. Desacordos ou dúvidas sobre a extração ou sobre a manutenção de um estudo foram resolvidos por consenso entre duas das três pessoas da equipe signatária encarregadas disso. Os dados foram sintetizados de forma descritiva.
A Figura 1 apresenta o fluxo de busca e triagem. Identificamos 33.960 artigos pelas buscas nas bases de dados e pelas buscas manuais, dos quais 15.195 foram mantidos após a remoção das duplicatas. Sessenta e dois estudos atenderam aos nossos critérios e apresentam dados sobre oito tipos de tratamento (Fig. 1).

A PCIT é uma intervenção com evidências significativas até o momento e continua sendo pesquisada com diferentes adaptações do tratamento, seja no modelo de oferta, em formato reduzido ou com menos sessões, seja adaptada a populações específicas. O Early Pathways (EP) é uma intervenção específica com oito estudos incluídos. A PIP é uma categoria de tratamentos baseados na teoria psicodinâmica do apego e reuniu cinco estudos. O Watch, Wait, and Wonder (WWW) é um tratamento específico investigado em duas publicações oriundas de um único estudo. As intervenções com videofeedback formam uma ampla categoria de tratamentos que demonstraram eficácia para aumentar a sensibilidade parental [26] e se mostraram particularmente benéficas em populações de alto risco [27]. No entanto, apenas dois modelos atenderam ao nosso critério de inclusão de terem sido avaliados em amostras clínicas: o Video-feedback Intervention to Promote Positive Parenting and Sensitive Discipline (VIPP-SD, intervenção com videofeedback para promover parentalidade positiva e disciplina sensível) e sua adaptação para coparentes (VIPP-Co). O Parent-Child Care (PC-CARE) é uma intervenção específica explorada em dois artigos, incluindo um ensaio clínico randomizado que a comparou à PCIT. Outras intervenções, com um artigo cada neste estudo, são o Play and Language for Autistic Youngsters (PLAY) e a Basic Trust Intervention (BTI).
O conjunto final de dados incluiu 33 ensaios clínicos randomizados (ECR), 11 ensaios não randomizados, oito estudos pré-pós intervenção, seis estudos quase experimentais, duas coortes retrospectivas e duas séries de casos com pelo menos cinco participantes. Quarenta estudos foram realizados nos Estados Unidos. Os demais ocorreram na Austrália (6), na Holanda (4), no Canadá (3), na Suíça (2), e um em cada um dos seguintes países: China, Noruega, Finlândia, Reino Unido, França, Irã e Japão. Os detalhes de cada estudo são apresentados nas Tabelas 1 a 10, organizados em ordem alfabética pelo sobrenome de quem assina em primeiro lugar.
Tabela 2 — Estudos de PCIT padrão incluídos na revisão de escopo
Para cada estudo: quem assina, data, local; delineamento; amostra; protocolo; principal desfecho na criança; resultados.
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. ADHD/TDAH: transtorno de déficit de atenção e hiperatividade; ASD/DD (TEA/AD): transtorno do espectro autista ou atraso do desenvolvimento; BASC-3: Behavior Assessment System for Children, terceira edição; BCAP: Brief Child Abuse Potential Inventory; BRIEF: Behavior Rating Inventory of Executive Function; CBCL: Child Behaviour Checklist; CDI: interação dirigida pela criança (Child-Directed Interaction); d: tamanho de efeito; D-EIS: Dyadic Emotional Interaction Style; DPICS: Dyadic Parent-Child Interaction Coding System; EAS: Emotional Availability Scale; ECBI: Eyberg Child Behavior Inventory; ERC: Emotion Regulation Checklist; F: meninas; idade média: MA no original; M-PCIT: reforço motivacional + PCIT; MIM: Marschak Interaction Method; MPH: metilfenidato; N: tamanho da amostra; NFT: trauma fora do acolhimento (Non-Foster Trauma); NFNT: sem acolhimento e sem trauma (Non-Foster No Trauma); NH: ajudantes naturais (Natural Helpers); PCIT: Terapia de Interação Pais-Criança; PCIT-W: PCIT com lista de espera; PDI: interação dirigida pelos pais (Parent-Directed Interaction); ECR: ensaio clínico randomizado; SCBE: Social Competence and Behavior Evaluation; SRS: Social Responsiveness Scale; SSP: procedimento da Situação Estranha (Strange Situation Procedure); TAU: tratamento habitual; TSCYC: Trauma Symptom Checklist for Young Children.
Tabela 3 — Estudos de PCIT pela internet incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. BASC-3: Behavior Assessment System for Children, terceira edição; CBCL: Child Behaviour Checklist; CDI: interação dirigida pela criança; CGI-I: Clinical Global Impression-Improvement; CU: traços de insensibilidade e frieza emocional (callous-unemotional); d: tamanho de efeito; DPICS: Dyadic Parent-Child Interaction Coding System; ECBI: Eyberg Child Behavior Inventory; I-PCIT: Terapia de Interação Pais-Criança pela internet; ICU: Inventory of Callous Unemotional Traits; idade média: MA no original; N: tamanho da amostra; PCIT: Terapia de Interação Pais-Criança; PDI: interação dirigida pelos pais; ECR: ensaio clínico randomizado.
Tabela 4 — Estudos de PCIT para o desenvolvimento emocional incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. CSRP: relação criança-professor (Child-Teacher Relationship); CU: traços de insensibilidade e frieza emocional; DPICS: Dyadic Parent-Child Interaction Coding System; EBC: Emotion Regulation Checklist; ECBI: Eyberg Child Behaviour Inventory; F: meninas; HQB-P: Health and Behavior Questionnaire-Parent; K-SADS: Kiddie Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia; MA: idade média + desvio-padrão; TDM: transtorno depressivo maior (Major Depression Disorder, MDD); N: tamanho da amostra; TOD: transtorno opositor desafiante (Oppositional Defiant Disorder, ODD); PW: Parenting Wisely; PCIT: Terapia de Interação Pais-Criança; PCIT-ED: Terapia de Interação Pais-Criança para o Desenvolvimento Emocional; ECR: ensaio clínico randomizado.
Tabela 5 — Early Pathways: síntese dos estudos incluídos na revisão de escopo
‡ Todos os estudos do EP foram realizados no mesmo local. § Todas as pessoas participantes dos estudos do EP foram recrutadas entre crianças de 0 a 5 anos encaminhadas por sintomas de transtornos de saúde mental em nível clínico. † Todos os estudos do EP excluíram crianças com deficiência física, TGD ou problemas clínicos graves. * p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. AD: atraso do desenvolvimento; ECBI: Eyberg Child Behaviour Inventory; ECBS: Early Childhood Behaviour Screen; EP: Early Pathways; F: meninas; AGF: Avaliação Global do Funcionamento (Global Assessment of Function, GAF); K-SADS: Kiddie Schedule for Affective Disorders and Schizophrenia; idade média ± desvio-padrão: MA no original; N: tamanho da amostra; TGD: transtorno global do desenvolvimento; PEDS A/W: Pediatric Emotional Distress Scale, subescala ansiedade/retraimento; PEDS-F: PEDS, subescala medo; TEPT: transtorno de estresse pós-traumático; PYC: Parenting Young Children; ECR: ensaio clínico randomizado.
Tabela 6 — Psicoterapias pais-bebê: síntese dos estudos incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. TEA: transtorno do espectro autista; BMIP: Brief Mother-Infant Psychotherapy; BPIP: Brief Parent-Infant Psychotherapy; CBCL: Child Behaviour Checklist; CPP: Child-Parent Psychotherapy; DC: 0-3: The Diagnostic Classification of Mental Health and Developmental Disorders of Infancy and Early Childhood; AD: atraso do desenvolvimento; F: meninas; DI: deficiência intelectual; IG: orientação interativa (Interaction Guidance); ITT: intenção de tratar; idade média ± desvio-padrão: MA no original; N: tamanho da amostra; conforme necessário: PRN no original; TEPT: transtorno de estresse pós-traumático; ECR: ensaio clínico randomizado; SYX: Symptom Check-List.
Tabela 7 — Watch, Wait, and Wonder: síntese dos estudos incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. Bayley: Bayley Scales of Infant and Toddler Development; F: meninas; idade média ± desvio-padrão: MA no original; N: tamanho da amostra; PPT: psicoterapia psicodinâmica (psicoterapia mãe-bebê); ECR: ensaio clínico randomizado; WWW: Watch, Wait, and Wonder.
Tabela 8 — Terapias com videofeedback: síntese dos estudos incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. CBCL: Child Behaviour Checklist; F: meninas; idade média ± desvio-padrão: MA no original; N: tamanho da amostra; ECR: ensaio clínico randomizado; VIPP-Co: Video Feedback Intervention for Positive Parenting and Sensitive Discipline para coparentes; VIPP-SD: Video Feedback Intervention for Positive Parenting and Sensitive Discipline.
A PCIT (www.pcit.org) é um tratamento baseado em evidências que melhora a relação de apego entre crianças pequenas com desafios comportamentais ou de SM e quem cuida delas. Envolve sessões de orientação ao vivo, em que a pessoa terapeuta orienta no momento, mobilizando estratégias de interação positiva e de disciplina para fortalecer o apego, reduzir comportamentos disruptivos e desenvolver habilidades parentais eficazes [28].
Os estudos incluídos exploraram tanto a PCIT padrão (Tabela 2) quanto múltiplas adaptações, como a versão pela internet (I-PCIT; Tabela 3), a versão para desregulação emocional (PCIT-ED; Tabela 4), a versão para traços de insensibilidade e frieza emocional, a versão específica para crianças muito pequenas (PCIT-T) e formatos ampliados. A maioria dos estudos usou ECR ou delineamentos quase experimentais. Os estudos relataram melhoras pré e pós-intervenção nos sintomas de SM da criança, sobretudo nos comportamentos externalizantes. As taxas de perda variaram de 8 a 23%. Apesar da variedade das adaptações, a PCIT mostrou desfechos positivos consistentes em diferentes contextos e populações. Os tamanhos de efeito variaram de pequenos (0,33) a muito grandes (−1,43). Os estudos maiores, como os da PCIT-ED, relataram amostras de 976 participantes, enquanto os estudos de I-PCIT tinham amostras menores (40-60).
O EP (http://www.earlypathways.com/) é uma intervenção domiciliar pais-criança para crianças de 0 a 72 meses com dificuldades de SM. Antes conhecido como Programa Parenting Young Children (PYC), o EP integra a teoria do apego, a terapia cognitivo-comportamental e a teoria da aprendizagem social [29]. Oito estudos, todos realizados em Wisconsin, nos Estados Unidos, recrutaram principalmente famílias de baixa renda, racial e etnicamente diversas, em uma clínica de SM fruto de parceria entre universidade e comunidade. A maioria das crianças tinha um único atraso do desenvolvimento, em geral de linguagem.
Os delineamentos incluíram três ECR pragmáticos [30-32], um ECR que comparava intensidades [33], um ensaio não randomizado [34] e três estudos pré-pós [34-36]. O EP foi adaptado para famílias afro-americanas e latinas [30, 36] e, recentemente, para o transtorno de estresse pós-traumático na primeira infância [32]. Em 1.051 crianças, o EP demonstrou de forma consistente melhoras estatisticamente significativas nos desfechos emocionais e comportamentais, mantidas no seguimento de 4 a 6 semanas. As limitações, porém, incluem o fato de todos os estudos terem sido conduzidos por uma única equipe de pesquisa, a falta de seguimento de longo prazo além de três meses, as altas taxas de perda, sobretudo nos controles de lista de espera, e métodos de cegamento pouco claros. Três ECR usaram análise por intenção de tratar (ITT), o que atenua alguns vieses [30-32]. De modo geral, o EP oferece eficácia moderada para reduzir sintomas de SM em bebês e crianças pequenas, em especial agressividade e ansiedade.
Seguindo a estratégia da revisão Cochrane descrita acima [5], agrupamos cinco estudos baseados no trabalho de Selma Fraiberg [37, 38] em uma categoria denominada PIP. Essas intervenções buscam resolver conflitos intrapsíquicos dos pais por meio de técnicas psicodinâmicas e fortalecer o apego para melhorar a SM do bebê ou da criança. Cinco estudos (N = 200), realizados na Suíça, na França e nos Estados Unidos, avaliaram três versões da PIP: a Psicoterapia Criança-Pais (Child-Parent Psychotherapy, CPP), a Psicoterapia Breve Mãe-Bebê (Brief Mother-Infant Psychotherapy, BMIP) e a Psicoterapia Breve Pais-Bebê (Brief Parent-Infant Psychotherapy, BPIP).
Dois ECR avaliaram a CPP [39, 40], que mostrou maiores melhoras nos sintomas de SM da criança em comparação com a gestão de caso e os encaminhamentos comunitários. Os ganhos do grupo CPP se mantiveram no seguimento de seis meses. Duas outras publicações [41, 42] descreveram a BMIP, com delineamento parcialmente randomizado. Os dois grupos (BMIP e orientação interativa) mostraram melhoras nos sintomas físicos (por exemplo, alimentação, sono), mas não nos desfechos comportamentais ou emocionais. Nenhuma diferença entre grupos foi detectada. A BPIP foi avaliada em um estudo pré-pós [43], que mostrou desfechos favoráveis para a maioria das pessoas participantes nos sintomas de SM da criança e na depressão parental, embora nenhuma análise estatística tenha sido relatada.
Problemas metodológicos limitam a generalização. Os estudos de BMIP tiveram randomização limitada e amostras pequenas. A BPIP carecia de análises quantitativas. A CPP, no entanto, demonstrou efeitos estatisticamente significativos com métodos ITT e uma amostra maior, o que oferece evidências mais sólidas de eficácia. Em resumo, embora a CPP se mostre promissora para melhorar a SM de bebês e crianças pequenas, são necessárias mais pesquisas para avaliar os outros modelos de PIP.
O WWW (https://watchwaitandwonder.com/, “Observar, esperar e se perguntar”) é uma intervenção manualizada para melhorar a relação pais-bebê, com uma abordagem conduzida pelo bebê e não por quem cuida dele (Tabela 7). Desenvolvido por Elizabeth Muir [44], o WWW se apoia na teoria do apego e na teoria psicodinâmica: a pessoa terapeuta inicia o trabalho buscando compreender a história psicossocial materna e as representações atuais que a mãe tem de seu filho ou filha.
Dois estudos realizados em Toronto, no Canadá, avaliaram o WWW [45, 46]. As sessões eram semanais, de 60 minutos: na primeira metade, o bebê conduzia um brincar não estruturado enquanto a pessoa cuidadora observava; na segunda, havia um diálogo reflexivo com a pessoa terapeuta. Ao todo, 67 bebês e crianças pequenas foram incluídos no ensaio parcialmente randomizado: 67% foram randomizados e os demais alocados conforme a disponibilidade de terapeutas. O grupo de comparação recebeu psicoterapia psicodinâmica (PPT), inspirada no modelo de Fraiberg e na CPP [39]. As crianças do braço WWW mostraram, logo após o tratamento, melhoras significativamente maiores na segurança do apego e no desenvolvimento cognitivo do que as que receberam PPT [45]. No seguimento de seis meses, porém, o grupo PPT havia alcançado o mesmo nível, e não foram observadas diferenças significativas entre os grupos [46]. Esses resultados basearam-se nos dados de seguimento de 66% da amostra original.
Em resumo, o WWW mostrou benefícios de curto prazo em relação à PPT, mas os desfechos de longo prazo foram equivalentes. As limitações incluem o tamanho reduzido da amostra, a randomização parcial e a falta de clareza sobre os mecanismos subjacentes às mudanças pós-tratamento no grupo de comparação. São necessários estudos adicionais com delineamentos rigorosos para confirmar a eficácia.
A intervenção com videofeedback para promover parentalidade positiva (Video-feedback Intervention to Promote Positive Parenting, VIPP) toma as interações pais-criança como foco da reflexão e da mudança terapêutica. Duas intervenções relacionadas compõem esta categoria: o videofeedback para parentalidade positiva e disciplina sensível (VIPP-SD) e sua adaptação para coparentes (VIPP-Co). Juntos, esses estudos avaliaram 242 crianças.
A VIPP-SD integra estratégias baseadas no apego, para aumentar a sensibilidade parental, a abordagens comportamentais da teoria da aprendizagem social de Patterson, para fortalecer as habilidades de disciplina [47, 48]. Em um ECR realizado em Leiden, na Holanda, mães receberam seis sessões em casa ao longo de vários meses, tendo o videofeedback como principal mecanismo terapêutico. Embora não tenham sido observadas diferenças globais significativas entre os grupos VIPP-SD e placebo, análises post hoc revelaram redução da hiperatividade nas crianças de famílias com estresse elevado ou discórdia conjugal.
Uma série de casos piloto no Reino Unido [49] avaliou a VIPP-Co, que adapta a VIPP-SD a contextos de coparentalidade modificando conteúdo e estrutura, mas mantendo o videofeedback como núcleo da intervenção. Embora não tenham sido relatadas estatísticas inferenciais, os dados descritivos mostraram redução dos escores globais de sintomas e de comportamento do pré ao pós-tratamento.
Em resumo, a VIPP-SD tem apoio preliminar para subgrupos com estresse elevado e discórdia familiar, mas requer avaliação em maior escala. A VIPP-Co mostra-se promissora nos dados piloto, o que justifica novas investigações com delineamentos rigorosos.
Tabela 9 — Parent-Child Care: síntese dos estudos incluídos na revisão de escopo
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. ECBI: Eyberg Child Behavior Inventory; F: meninas; M: meninos; idade média ± desvio-padrão: MA no original; N: tamanho da amostra; PC-CARE: Parent-Child Care; PCIT: Terapia de Interação Pais-Criança; ECR: ensaio clínico randomizado.
O PC-CARE (https://pcit.ucdavis.edu/pc-care) é uma intervenção diádica breve, de seis sessões, informada por evidências, concebida para fortalecer a relação entre a criança e quem cuida dela e melhorar o comportamento da criança por meio de uma combinação de psicoeducação, orientação ao vivo e prática diária de habilidades. O PC-CARE é particularmente eficaz para famílias que lidam com trauma, desafios comportamentais ou transições, e é adaptável a populações e contextos de serviço diversos.
Foram incluídos dois artigos que exploraram a viabilidade e a eficácia do PC-CARE com um ensaio clínico não randomizado e um delineamento quase experimental. Os dois estudos incluíram crianças pequenas recrutadas em clínicas de instituições comunitárias de SM [50, 51]. Ambos mediram principalmente a redução de comportamentos externalizantes ou disruptivos da criança. Nos dois estudos, os sintomas comportamentais melhoraram após o tratamento e a retenção de participantes foi alta. Em comparação com a PCIT, o PC-CARE mostrou maiores reduções nos comportamentos da criança e no estresse parental. As famílias no PC-CARE também tiveram maior probabilidade de concluir a intervenção do que na PCIT [51].
O PC-CARE é uma intervenção promissora para tratar crianças pequenas com dificuldades de SM. Por ser uma terapia recém-desenvolvida, suas limitações incluem a falta de evidências disponíveis que sustentem sua eficácia; ela se beneficiaria de mais pesquisas com amostras maiores e da exploração de diferentes desfechos ao longo do tempo.
Tabela 10 — Outras intervenções
* p < 0,05; ** p < 0,01; *** p < 0,001. ADOS: Autism Diagnostic Observation Schedule; AISI: Attachment Insecurity Screening Inventory; BTI: Basic Trust Intervention; F: meninas; idade média ± desvio-padrão: MA no original; MCBRS: Maternal and Child Behavior Rating Scales; número médio de visitas: Mv no original; N: tamanho da amostra; PLAY: Play and Language for Autistic Youngsters; ECR: ensaio clínico randomizado.
O Projeto PLAY é um programa de desenvolvimento mediado pelos pais, concebido para melhorar as interações pais-criança e reduzir os sintomas de TEA, com foco específico na melhora da reciprocidade social [52]. O PLAY se dirige aos pais e mães, oferecendo-lhes treinamento para engajar a criança em técnicas estruturadas baseadas no brincar, a fim de apoiar seu progresso no desenvolvimento. Envolve visitas domiciliares mensais de 3 horas ao longo de 12 meses. Pessoas consultoras oferecem orientação, modelagem e videofeedback a quem cuida da criança. Pais e mães são preparados para conduzir sessões de brincar de 15 a 20 minutos, durante duas horas por dia. Embora os desfechos fossem principalmente sintomas do neurodesenvolvimento, a terapia foi incluída porque a revisão do manual revelou uma base na Teoria do Apego, além de seu caráter diádico. O ECR incluiu 128 famílias, alocadas à terapia PLAY ou ao cuidado padrão [52], e avaliou as interações pais-criança, o desenvolvimento da linguagem e as categorias diagnósticas e os sintomas relacionados ao autismo. O PLAY superou o grupo controle ao melhorar significativamente a qualidade das interações pais-criança, reduzir o estresse parental e favorecer o desenvolvimento funcional global da criança. O PLAY fortaleceu a autonomia dos pais e a dinâmica familiar. Com taxas de perda moderadas, estudos adicionais em larga escala seriam úteis para validar melhor sua eficácia.
A Basic Trust Intervention (BTI, intervenção de confiança básica), desenvolvida por Polderman (1998), destina-se a tratar dificuldades de apego e psicopatologia na criança e inclui oito sessões ao longo de três meses [53]. Concentra-se em melhorar a sensibilidade parental e a consideração dos estados mentais da criança (mind-mindedness) para fortalecer a relação pais-criança e reduzir os problemas relacionados ao apego. A intervenção usava métodos (por exemplo, videofeedback) para rever as interações pais-criança, psicoeducação dos pais sobre questões de apego e a técnica de “nomeação” (em que os pais nomeiam as emoções e os comportamentos da criança para favorecer a autorregulação e o apego seguro) [53]. O estudo incluiu vinte famílias holandesas com crianças de 2 a 5 anos adotadas internacionalmente e constatou melhoras nos apegos inseguros e desorganizados das crianças e nos problemas de conduta. Não houve, porém, mudanças significativas na sensibilidade parental. O tamanho reduzido da amostra (N = 20), a ausência de grupo de comparação e a dependência de desfechos relatados pelos pais são fragilidades notáveis. Apesar dessas limitações, a BTI mostra-se promissora como terapia para dificuldades de apego, sobretudo para díades mãe-criança, e pesquisas futuras poderão confirmar sua eficácia em estudos de maior escala.
Esta revisão de escopo identificou 41 artigos sobre a PCIT e 21 sobre outras terapias diádicas baseadas no apego para crianças de 0 a 6 anos com sintomas de SM. Apesar da importância da intervenção precoce em SM, fora da PCIT há escassez de pesquisas nessa área. Vale notar que uma revisão recente de programas ou intervenções de prevenção para crianças de 0 a 5 anos em risco de dificuldades socioemocionais relatou que apenas 9% dos estudos testavam tratamentos [22].
Esta revisão sintetiza os tratamentos diádicos baseados no apego para crianças sintomáticas e se soma a outras revisões que reúnem informações sobre intervenções concebidas para melhorar preventivamente o apego materno em populações de alto risco. Ela amplia o conhecimento sobre as opções de tratamento e pode ajudar profissionais e equipes de gestão a escolher modalidades de tratamento diádico para o cuidado clínico de crianças pequenas com sintomas de SM.
Houve mudanças positivas significativas em vários dos tratamentos investigados. Os estudos de PCIT incluídos mostraram desfechos positivos na redução dos sintomas de SM nas crianças, inclusive com novas adaptações não contempladas em revisões anteriores. Os estudos do EP revelaram achados estatisticamente significativos na melhora dos problemas de SM. Em comparação com a gestão de caso, a CPP [39, 40] também relatou mudanças significativas no braço de tratamento ativo. Embora esse achado precise ser replicado, ainda é promissor. O WWW mostrou inicialmente mudanças positivas em relação ao grupo controle de PIP, mas aos seis meses as melhoras do grupo PIP superaram as do grupo WWW. Isso limita a possibilidade de concluir que o WWW é um tratamento eficaz, e recomenda-se mais pesquisa. Os demais tratamentos de PIP, assim como a VIPP-SD e a VIPP-Co, não demonstraram suficientemente a superioridade de cada intervenção. As intervenções mais recentes, com apenas algumas publicações, também relataram desfechos favoráveis, mas também se beneficiariam de pesquisas adicionais com amostras maiores.
Dois terços dos estudos incluídos usaram delineamento de ECR, o mais robusto para medir a eficácia em pesquisa clínica, o que indica um corpo de literatura sólido. No entanto, apenas quatro estudos ao todo usaram análise por ITT, três deles do EP. A ITT é considerada o procedimento padrão para analisar ECR e pode reduzir o viés decorrente da não adesão ao protocolo. Os demais estudos eram variações de delineamentos controlados não randomizados, delineamentos pré-pós não controlados, quase experimentais e séries de casos com pelo menos cinco participantes. Todos eles oferecem evidências mais fracas de associação com mudança positiva [54].
Outra fragilidade metodológica foi a falta de métodos padronizados para lidar com dados faltantes [55]. Também pareceu que nenhum dos estudos fez a coleta dos dados de desfecho de forma cega. O tamanho das amostras da maioria dos estudos variou muito, de 6 a 75 participantes. As exceções foram alguns estudos do EP e da PCIT, com algumas centenas de participantes, e um dos artigos sobre a VIPP-SD, que incluiu 247 crianças.
Um desafio notável na maioria dos estudos foi a perda de participantes, que aumenta o risco de viés nos desfechos [56]. A VIPP-SD teve a menor taxa de perda, de 0,04%, e vários estudos do EP tiveram as mais altas, chegando a 57% em um deles. Tratar bebês e crianças com sintomas de SM é sempre desafiador, e as taxas de perda relatadas nesses estudos não são incomuns [57, 58]. Os estudos de PCIT também têm taxas de perda de até 50% em uma adaptação comunitária, embora a maioria dos estudos de PCIT em clínica tenha taxas de 18 a 36% [59], o que se manteve nos estudos incluídos nesta revisão.
O EP talvez tenha tido taxas de perda tão altas porque recrutou apenas famílias de baixo nível socioeconômico e pertencentes a minorias raciais ou étnicas, fatores que continuam sendo um desafio nos estudos pediátricos [60]. À medida que a pesquisa sobre o EP avançou, a equipe que o desenvolveu examinou se um tratamento mais intensivo era mais eficaz [33] ou se algumas pessoas desistiam mais cedo porque melhoravam mais rápido [30, 35]. É evidente que a questão da perda é complexa e que é preciso criar soluções para estudar tratamentos para as famílias que mais precisam de cuidado [61]. Em contraste, o PC-CARE teve altas taxas de retenção em dois estudos com amostras diversas. Dada a brevidade dessa intervenção de 7 semanas, isso sugere que abordagens mais enxutas e focadas podem favorecer o engajamento e a retenção. O ECR, porém, não tinha grupo de comparação sem tratamento.
Esta revisão tem várias limitações. A busca limitou-se a modalidades de tratamento diádico voltadas a fortalecer a relação entre a criança e quem cuida dela. Assim, pode haver tratamentos eficazes não baseados no apego, por exemplo o treinamento comportamental de pais, que não foram examinados aqui. Como o foco foram os tratamentos diádicos, outros tratamentos em grupo baseados no apego para problemas de SM podem ter ficado de fora. Línguas além do inglês não foram incluídas. Embora todos os estudos tenham relatado desfechos de quem cuida das crianças, esta revisão concentrou-se apenas nos desfechos relativos à criança. É possível, contudo, que em alguns estudos esses desfechos ajudem a responder a certas questões sobre os desfechos da criança. Muitas dessas intervenções são concebidas para os problemas externalizantes da criança e centradas neles, mas há muitos outros sintomas importantes que são mais difíceis de medir em bebês e crianças pequenas. Também seria útil que pesquisas futuras tivessem mais consistência nas medidas usadas para avaliar a mudança dos sintomas de SM em crianças pequenas.
Embora esta revisão tenha se concentrado em intervenções testadas em crianças clinicamente sintomáticas, algumas intervenções bem estabelecidas baseadas no apego, como o Attachment and Biobehavioral Catch-Up (ABC), foram excluídas por focarem na prevenção em populações de alto risco. Uma revisão recente apoia sua eficácia em populações atendidas pela proteção à infância, o que levanta a questão de saber se o ABC também poderia beneficiar crianças encaminhadas à clínica com sintomas de SM [24].
O desenvolvimento de intervenções eficazes para crianças de 0 a 6 anos com sintomas de SM é de importância crucial para a próxima geração. São necessárias mais pesquisas com metodologia padronizada e rigorosa e amostras diversas. Sugerimos que as pesquisas futuras incluam os seguintes componentes:
Dada sua base de evidências sólida e crescente, a PCIT continua sendo a terapia diádica baseada no apego com maior respaldo disponível atualmente. Ela enfrenta, porém, barreiras significativas de implementação (por exemplo, dificuldade de obter recursos suficientes, adaptabilidade à cultura das pessoas atendidas etc. [62]) e acessibilidade limitada mesmo em alguns países de alta renda (por exemplo, apenas três profissionais com certificação em todo o Canadá [63]). Apesar de achados encorajadores, as evidências sobre as intervenções diádicas além da PCIT ainda são limitadas por desafios metodológicos como amostras pequenas, ausência de cegamento, seguimento limitado e altas taxas de perda. Ainda assim, justifica-se continuar pesquisando o EP, a CPP e outras intervenções promissoras, sobretudo em populações pouco atendidas. O desenvolvimento contínuo de intervenções relacionais acessíveis e baseadas em evidências para bebês e crianças pequenas com problemas de SM é fundamental para melhorar os desfechos precoces e as trajetórias de longo prazo.
Complexe Systémique: a reter
Esta revisão lembra algo que a prática muitas vezes esquece: na criança pequena, o sintoma se trata na relação, e quem está em tratamento é a díade. Ela oferece um mapa útil das ferramentas, da orientação ao vivo da PCIT ao videofeedback, passando pelas psicoterapias pais-bebê e pelo Watch, Wait, and Wonder, e mostra que sua base de evidências é muito desigual. Para a clínica, vale reter a solidez da PCIT e do Early Pathways, o interesse dos formatos breves, em casa ou a distância, e a questão da perda de participantes entre as famílias mais expostas a determinantes sociais adversos. Uma leitura sistêmica convida, porém, a ampliar o olhar: a díade muitas vezes continua sendo “mãe-criança”, pais, coparentalidade, irmãos e rede quase não aparecem, e os desfechos medidos se concentram sobretudo nos comportamentos externalizantes da criança. Para ler junto com o artigo sobre a experiência das psicoterapias diádicas no trauma do desenvolvimento e com o artigo sobre a orientação por vídeo em saúde mental do bebê.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece a Margaret Sampson e Patrick Labelle, da equipe de biblioteca, pela generosa ajuda na elaboração da estratégia de busca desta revisão de escopo, e a Brian Dewar, Esther Carefoot, Sophie Barriault e Sophie Zarb pela ajuda no processo de triagem.
Contribuições. KM e KP contribuíram para a conceituação do estudo, a metodologia, a investigação, a validação e a curadoria dos dados, os recursos, a visualização, a supervisão e a administração do projeto. CDS e AL realizaram a investigação, a curadoria dos dados e a visualização. NS contribuiu para a investigação, a validação dos dados, a análise, a curadoria dos dados, os recursos, a visualização, a supervisão e a administração do projeto. AL, AT, MS, MV, PC, AH, LC e SS contribuíram para a investigação e a curadoria dos dados. NR supervisionou a investigação, a curadoria dos dados, os recursos e a supervisão. Toda a equipe signatária participou da revisão e da edição do manuscrito e leu e aprovou a versão final.
Financiamento. A equipe agradece ao Knowledge Institute of Child and Youth Mental Health and Addictions, ao Children’s Hospital of Eastern Ontario Psychiatry Associates Fund e à Happy Roots Foundation pelo generoso financiamento deste trabalho. As opiniões, os resultados e as conclusões apresentados neste artigo são da equipe signatária e independentes das fontes de financiamento.
Disponibilidade dos dados. Os dados que sustentam os achados deste estudo não estão disponíveis abertamente por razões de confidencialidade; estão disponíveis com a pessoa responsável pela correspondência, mediante solicitação razoável.
Aprovação ética e consentimento para participar. Não se aplica.
Consentimento para publicação. Não se aplica.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
Nota do editor. A Springer Nature permanece neutra em relação a reivindicações jurisdicionais em mapas publicados e afiliações institucionais.
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Tradução não oficial em português de Terapias diádicas baseadas no apego para bebês e crianças pequenas com problemas de saúde mental: uma revisão de escopo, de Katherine Matheson, Constance de Schaetzen, Adrienne Li, Nicole Sheridan, Anne-Lise Holahan, Alexandra Tighe, Mina Salamatmanesh, Melissa Vloet, Paula Cloutier, Amanda Helleman, Lisa Currie, Nicole Racine, Sevda Saadat e Kathleen Pajer, Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, vol. 19, article 124 (2025), doi: 10.1186/s13034-025-00981-7, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, legenda da figura traduzida). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Dyadic attachment-based therapies for infants and young children with mental health problems: a scoping review”, publicado em Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Matheson, K., de Schaetzen, C., Li, A., Sheridan, N., Holahan, A.-L., Tighe, A., Salamatmanesh, M., Vloet, M., Cloutier, P., Helleman, A., Currie, L., Racine, N., Saadat, S., et Pajer, K. (2025). Terapias diádicas baseadas no apego para bebês e crianças pequenas com problemas de saúde mental: uma revisão de escopo (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/terapias-diadicas-baseadas-no-apego-para-bebes-e-criancas-pequenas-com-problemas-de-saude (Obra original publicada em 2025 em Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, 19, 124 (2025); republicada em 2025 por Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health, https://capmh.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13034-025-00981-7)
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