Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar
Depois de uma lesão cerebral, muitos casais contam sua história em termos de perda: a relação de antes teria desaparecido, substituída por um vínculo de cuidado. Urszula Gajewska e Gerard A. Riley, da Universidade de Birmingham, propõem um protocolo narrativo em dez sessões, com árvores da vida, cartas e testemunha externa, para fazer reaparecer o que atravessou a lesão. Três casais descrevem seus efeitos.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A terapia narrativa de casal diante das narrativas de descontinuidade em casais que vivem com lesão cerebral, de Urszula Gajewska e Gerard A. Riley, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2026), doi: 10.1002/anzf.70091, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; na Tabela 2, as linhas das pessoas com lesão cerebral e as das pessoas sem lesão são distinguidas, e a coluna de continuidade corresponde, para as primeiras, à Head Injury Semantic Differential Scale. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As narrativas de continuidade podem permitir que a pessoa sem lesão se posicione como detentora de um conhecimento especializado sobre a outra pessoa do casal.
Urszula Gajewska e Gerard A. Riley
Resumo
As lesões cerebrais podem submeter casamentos e uniões a uma pressão considerável. Um dos fatores que contribuem para isso são as narrativas sobre a relação centradas na descontinuidade, na ruptura e na perda, em que a vida após a lesão é comparada desfavoravelmente com a vida anterior. Narrativas semelhantes de ruptura e perda também afetam a identidade e o bem-estar das duas pessoas do casal. Os objetivos foram elaborar orientações estruturadas para aplicar a terapia narrativa com casais após uma lesão cerebral e explorar sua utilidade para esse fim. A terapia se concentrou em ajudar os casais a identificar continuidades em sua vida (inclusive valores e forças) e a desenvolver narrativas mais ricas sobre a vida em comum. Os princípios gerais da terapia narrativa com casais são apresentados, e descreve-se um plano, sessão por sessão, que traduz esses princípios em prática concreta. Árvores da vida individuais e de casal também foram usadas na terapia. Três casais receberam a terapia. Para avaliar sua utilidade, pediu-se aos casais que dessem um retorno sobre a experiência e respondessem, antes e depois da terapia, a questionários sobre a relação e o bem-estar individual. Descreve-se a aplicação da terapia para cada um dos três casais e a resposta de cada um a ela. Os três casais relataram benefícios da terapia, e todos mostraram algumas melhoras estatisticamente confiáveis nos questionários. A terapia familiar narrativa, com sua ênfase no empoderamento e no valor de narrativas mais ricas, pode ser particularmente útil no contexto das lesões cerebrais, em que os casais muitas vezes se sentem impotentes e sua experiência é dominada por narrativas de ruptura e perda. Orientações estruturadas para sua aplicação também podem permitir que ela seja oferecida por profissionais de serviços de reabilitação sem formação altamente especializada em terapias relacionais. As orientações precisam ser aperfeiçoadas, e a abordagem precisa ser avaliada em contextos mais diversos.
Pontos-chave
Lesão cerebral adquirida designa qualquer condição não hereditária e não degenerativa decorrente de eventos que danificam o cérebro (Goldman et al. 2022). Esses eventos incluem traumatismos cranianos, acidentes vasculares cerebrais, infecções, anóxia e intoxicações. Os sintomas e sua duração variam muito, conforme a localização e a extensão do dano. Às vezes há mudanças duradouras no funcionamento social, cognitivo, emocional e comportamental da pessoa, e elas podem ter um impacto negativo em suas relações com os outros. São particularmente prejudiciais as dificuldades de expressar emoções e de percebê-las nos outros; a apatia e a falta de calor afetivo; o egocentrismo e a perda de empatia; e a agressividade e outros comportamentos interpessoais desafiadores (Anderson et al. 2002; van den Broek et al. 2022; Villa e Riley 2017; Wood et al. 2005; Yasmin e Riley 2022).
Níveis elevados de insatisfação e de rompimento em casamentos e uniões (isto é, outras formas de relação amorosa) têm sido relatados após lesões cerebrais (Anderson e Keating 2018). Por exemplo, um estudo recente na Dinamarca relatou que há cerca de três divórcios entre casais que vivem com uma lesão cerebral para cada dois na população geral (Rytter et al. 2024); e, em uma amostra do Reino Unido, as pessoas sem lesão avaliavam, em média, a relação atual como significativamente pior que a anterior à lesão (Falshaw e King 2026). Esse é um problema importante porque, além de seu valor intrínseco, boas relações íntimas ajudam a proteger o bem-estar mental (Stevens et al. 2013; Wang et al. 2022). Esse efeito protetor é particularmente importante nas lesões cerebrais, por causa do impacto negativo que a lesão pode ter sobre o bem-estar tanto da pessoa lesionada quanto da outra pessoa do casal (Low et al. 1999; Vogler et al. 2014).
Diversas terapias têm sido usadas para apoiar casais com dificuldades relacionais após uma lesão cerebral. Entre elas estão aplicações de terapias desenvolvidas para a população geral, como a terapia familiar sistêmica (Laroi 2003) e a terapia focada nas emoções (Yeates et al. 2013). Há também intervenções concebidas para o campo das lesões cerebrais, que visam questões específicas, como o manejo de comportamentos interpessoais desafiadores (Fisher et al. 2018), ou um leque mais amplo de questões, como comunicação, empatia e intimidade (Backhaus et al. 2019). Essas intervenções específicas para lesões cerebrais adotaram, em geral, uma abordagem cognitivo-comportamental.
Também já houve relatos do uso de abordagens narrativas para tratar questões relacionais na família após uma lesão cerebral (Butera-Prinzi et al. 2014; Daisley et al. 2014) e, em particular, nas relações de casal (Hawkins et al. 2019; Mwale et al. 2022). O objetivo principal é ajudar a família ou o casal a se afastar de narrativas centradas no problema em direção a histórias mais ricas e mais positivas sobre si, que incorporem seus valores e forças como indivíduos e como unidade familiar (Freedman 2014; Jacobson 2025). Essa abordagem narrativa pode ser particularmente útil no contexto das lesões cerebrais, por causa do predomínio das narrativas negativas e medicalizadas, centradas na perda e no déficit, que costumam acompanhar a lesão (Chamberlain 2006; Hutchinson et al. 2018; Whiffin e Ellis-Hill 2022). Um conjunto particular de narrativas centradas no problema, identificado na pesquisa sobre casais e lesões cerebrais, é a sensação de ruptura e descontinuidade entre as identidades anterior e posterior à lesão, tanto da relação quanto da pessoa com lesão cerebral. A pesquisa sobre a descontinuidade na relação tem sido conduzida principalmente a partir da perspectiva da pessoa sem lesão. Em essência, essa pessoa sente que a antiga relação se perdeu e foi substituída por algo novo (Bodley-Scott e Riley 2015; Gill et al. 2011; Kratz et al. 2017; Riley et al. 2020; Villa e Riley 2017; Whiffin et al. 2019; Yasmin et al. 2020; Yasmin e Riley 2022). A relação passa a ser dominada pelo dar e receber cuidados, e não pelas interações que unem um casal amoroso. Ela passa a ser percebida mais como uma relação entre quem cuida e quem é cuidado, ou entre genitor e criança, do que como a relação de um casal amoroso. As pessoas sem lesão podem perceber sua situação em termos individuais, e não de casal, como “eu” e “você” em vez de “nós”, e a sensação de estar junto e de formar uma equipe se perde. Outro aspecto da sensação geral de descontinuidade é a percepção de que a pessoa lesionada não é mais a mesma. Comentários como “esta não é a pessoa com quem me casei” e “é como viver com alguém estranho” já foram relatados (Wood 2005). O presente é comparado desfavoravelmente com o que era antes da lesão, e há um sentimento de luto e de perda pela pessoa e pela relação de antes. As percepções de descontinuidade na relação estão associadas a uma mudança nos sentimentos em relação à pessoa lesionada: o amor e o afeto são substituídos por outros sentimentos, como cuidado e proteção, ou por sentimentos mais negativos, como aversão e medo (Bodley-Scott e Riley 2015; Villa e Riley 2017).
As duas pessoas do casal também podem sentir uma descontinuidade em suas identidades individuais, uma diferença radical entre o eu de antes e o eu de depois da lesão. A pessoa sem lesão pode sentir que perdeu sua vida e seu eu anteriores, ao ficar presa ao papel de cuidado (Kratz et al. 2017; Whiffin et al. 2019). Muitas pessoas com lesão cerebral percebem, de modo semelhante, uma ruptura entre o eu de antes e o eu de depois da lesão (Freeman et al. 2015; Nochi 1998; Villa et al. 2020). O eu pode ser descrito como “quebrado” ou “perdido”, e são feitas comparações desfavoráveis entre o eu de antes e o de depois da lesão, com um sentimento de luto pelo eu perdido.
A pesquisa constatou que essas narrativas centradas na ruptura e na descontinuidade estão associadas a desfechos piores. Em comparação com quem adere à continuidade, as pessoas sem lesão que descrevem descontinuidade avaliam de forma mais negativa sua relação em geral (Yasmin et al. 2020), oferecem cuidado e apoio de pior qualidade (Riley et al. 2020) e têm pior bem-estar emocional (Villa e Riley 2017). As percepções de descontinuidade da própria identidade por parte da pessoa lesionada estão associadas a baixa autoestima e a mais depressão e ansiedade (Beadle et al. 2016; Mascialino et al. 2022). Do mesmo modo, a descontinuidade da identidade está associada a pior bem-estar mental na pessoa sem lesão (Kratz et al. 2017).
Os objetivos deste estudo foram (a) oferecer orientações para aplicar a terapia narrativa de casal às narrativas de descontinuidade nas lesões cerebrais e (b) realizar uma avaliação exploratória de sua utilidade para esse fim. A terapia foi oferecida a três casais. Uma descrição de sua aplicação nesses três casos é usada para ilustrar as orientações.
O estudo difere de duas maneiras das aplicações anteriores de abordagens narrativas às relações familiares no contexto das lesões cerebrais (Butera-Prinzi et al. 2014; Daisley et al. 2014; Hawkins et al. 2019; Mwale et al. 2022). Primeiro, ele se concentrou especificamente nas narrativas de descontinuidade, o que os estudos anteriores não faziam. Embora esses estudos discutam mudança e perda, eles tratavam de um leque mais amplo de questões. Por exemplo, Butera-Prinzi et al. (2014) trabalharam com o trauma vivido pela família em reação à lesão cerebral. Segundo, ele buscou oferecer orientações mais estruturadas para conduzir a terapia. Os estudos anteriores, ao contrário, descreveram os princípios gerais da terapia familiar narrativa (por exemplo, “adensar a trama”, Hawkins et al. 2019) e apresentaram exemplos de casos sobre como esses princípios foram (ou poderiam ser) aplicados na prática. Embora essas descrições sejam valiosas, orientações estruturadas podem ser um complemento útil. Sem elas, a condução da terapia depende mais das habilidades e da experiência de quem atende, e só pode ser feita com formação especializada na abordagem geral. Apesar de sua importância, as relações familiares e de casal costumam ser negligenciadas pelos serviços de reabilitação de lesões cerebrais. Uma das principais razões é a falta de acesso a terapeutas com competência para trabalhar com famílias e casais (Stejskal 2012; Yeates et al. 2013). Orientações mais estruturadas permitiriam que as questões relacionais fossem tratadas por um leque mais amplo de profissionais com experiência em lesões cerebrais. Terapeutas com muita experiência talvez ainda ofereçam um serviço mais eficaz, mas ter as questões familiares tratadas por profissionais com habilidades menos especializadas, seguindo uma abordagem mais estruturada, seria melhor do que a situação atual, em que essas questões são negligenciadas.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética STEM da Universidade de Birmingham, Reino Unido (número de referência ERN_21-1608). As pessoas participantes deram consentimento por escrito plenamente informado, inclusive para a inclusão do material em um artigo acadêmico. Para proteger a confidencialidade, foram usados pseudônimos.
Concluídas as orientações, três casais receberam a terapia da pessoa que assina em primeiro lugar, que na época estava em formação em psicologia clínica. Como preparação, essa pessoa concluiu o módulo introdutório on-line de 20 horas “What is Narrative Practice?”, oferecido pelo Dulwich Centre (detalhes em: https://dulwichcentre.com.au/training-in-narrative-therapy/), além de leituras autodirigidas e de cerca de 6 horas sobre abordagens narrativas oferecidas no programa de formação em psicologia clínica. A supervisão foi feita pela pessoa que assina em segundo lugar, com formação completa em psicologia clínica. Os casais foram recrutados por meio da Headway, uma instituição beneficente do Reino Unido que apoia pessoas que vivem com lesão cerebral adquirida. Para participar, os casais precisavam viver juntos no momento da participação e ter vivido juntos por pelo menos 2 anos antes da lesão. A lesão cerebral devia ter ocorrido pelo menos 12 meses antes da participação, e os dois membros do casal precisavam ser capazes de participar de forma significativa de uma terapia verbal. Por causa do método de recrutamento, a equipe de pesquisa não teve acesso aos prontuários médicos das pessoas participantes.
O desenvolvimento da intervenção foi orientado pelos princípios gerais da terapia narrativa (White 2005, 2007) e por descrições dos componentes gerais da terapia narrativa com casais (Freedman 2014; Hawkins et al. 2019; Jacobson 2025). Esses princípios e componentes incluem:
A base de evidências da terapia narrativa é, em geral, bastante limitada, e poucos estudos avaliaram formalmente a terapia narrativa com casais (Dulwich Centre, s.d.). Em um estudo antes e depois conduzido por Chimpén-López et al. (2022), casais mostraram melhoras significativas em um questionário sobre a relação depois de receberem uma forma de terapia narrativa para casais. Em um ensaio clínico randomizado, Ghavibazou et al. (2020) relatam benefícios significativos da terapia em vários questionários relacionais, mas vale notar que a terapia envolveu apenas mulheres em relações heterossexuais, e não seus parceiros homens. Por causa dessa base de evidências limitada, não está claro quais componentes da terapia narrativa são decisivos para sua eficácia em ajudar os casais a melhorar a relação. Por isso, todos os componentes descritos em alguns recursos-chave sobre terapia narrativa para casais (Freedman 2014; Hawkins et al. 2019; Jacobson 2025) foram incluídos na elaboração do plano da terapia. Um plano de sessões detalhado, que incorporava esses componentes, foi desenvolvido. Ideias preliminares sobre o plano foram compartilhadas com três pessoas com ampla experiência no uso de abordagens narrativas e sistêmicas no trabalho clínico com famílias, e seus comentários ajudaram a moldar a versão final.
A terapia também utilizou a “árvore da vida”. Os casais completaram uma árvore da vida do casal, além de uma árvore da vida individual. Elas se basearam na árvore da vida original para indivíduos (Ncube 2006) e na árvore da vida do casal adaptada da árvore individual por Chimpén-López et al. (2022). Outros trabalhos relataram o uso dessas árvores ou de metáforas semelhantes no contexto das lesões cerebrais. Butera-Prinzi et al. (2014) descrevem o uso da árvore da vida com familiares de pessoas com lesão cerebral adquirida, destacando sua utilidade para quem, de outro modo, teria dificuldade de articular suas narrativas (por exemplo, crianças). Mwale et al. (2022) descrevem o uso de árvores da vida individuais com pessoas com lesão cerebral adquirida em um contexto de grupo, e um exemplo de uso de uma árvore da vida do casal para ajudar um casal que vivia com uma doença neurológica progressiva. O casal relatou alguns benefícios para a relação, como conversar mais e redescobrir o que valorizava e gostava de fazer junto como casal. Chow (2018) avalia a eficácia de um “trem da vida” em um ensaio clínico randomizado com pessoas que vivem com as sequelas de um AVC. Em comparação com um grupo de controle que recebeu psicoeducação padrão, as pessoas participantes do grupo narrativo tiveram melhores resultados de bem-estar, como autoestima e satisfação com a vida. Chow et al. (2023) descrevem um ensaio clínico randomizado que avaliou a mesma terapia para casais que vivem com as sequelas de um AVC. Mais uma vez, as pessoas participantes do grupo narrativo tiveram melhores resultados de bem-estar. A terapia não se concentrava diretamente na relação, e os desfechos relacionais não foram avaliados.
As árvores da vida podem oferecer um andaime útil em um contexto neurológico. As lesões cerebrais podem levar a prejuízos de comunicação e cognitivos, como dificuldades de memória e de concentração e dificuldades de pensamento abstrato (Whyte et al. 2011). Mwale et al. (2022) sugerem que, em comparação com uma terapia apenas verbal, o uso das árvores torna a terapia mais acessível, ao exigir menos da linguagem, da memória e das habilidades de leitura e escrita. Como recurso visual, a árvore pode ajudar a pessoa a concentrar a atenção e, ao oferecer um registro visual do que foi discutido, pode ajudar a contornar problemas de memória. A natureza concreta da tarefa de completar a árvore também a torna mais fácil para quem tem dificuldades de pensamento abstrato.
As árvores também foram úteis para quem conduzia a terapia, ao oferecer uma estrutura para sua condução. Uma estrutura adicional foi oferecida na forma de um plano de sessões, resumido na Tabela 1. O plano de sessões detalhado usado na terapia não é apresentado, para evitar um artigo excessivamente longo e porque as orientações ainda estão sendo aperfeiçoadas (ver a Discussão). As orientações detalhadas que foram usadas estão disponíveis mediante solicitação à equipe de pesquisa.
Tabela 1 — Resumo das sessões de terapia
Na primeira sessão, pede-se ao casal que conte sua história em comum antes da lesão. Pergunta-se como se conheceram, o que era importante e valioso na relação, que valores éticos eram importantes (por exemplo, confiança, honestidade), o que fazia a relação funcionar bem e como os valores e os aspectos importantes da relação apareciam na vida cotidiana em comum. Reconectar-se com a vida em comum anterior à lesão tem o objetivo de ampliar o foco para a totalidade da vida a dois, afastando-se de um foco estreito na lesão e nas narrativas centradas no problema, e de lançar as bases para explorar, nas sessões seguintes, como alguns aspectos da relação não tinham sido mudados pela lesão. Os dois objetivos preparam o casal para caminhar em direção a narrativas de continuidade.
A segunda e a terceira sessões dão ao casal a oportunidade de articular as narrativas centradas no problema. Pede-se que descrevam os efeitos da lesão sobre a vida em comum, a família e as amizades, o trabalho, a vida social e o lazer, as esperanças e os sonhos e, em particular, sobre a relação. Quem conduz a terapia incentiva uma exploração mais detalhada das narrativas de descontinuidade (por exemplo, a sensação de que a união já não parecia uma relação amorosa) sempre que o casal as menciona. Como forma de externalizar o problema, quem conduz a terapia incentiva o casal a encontrar maneiras de descrever os problemas como separados de si e de sua relação. O próprio uso da linguagem por quem atende também reflete essa separação: por exemplo, pergunta-se ao casal que efeitos a lesão cerebral teve sobre suas amizades, e não como são suas amizades agora. Na terapia narrativa, a externalização facilita um deslocamento: afasta-se das narrativas sociais e culturais que atribuem os problemas ao indivíduo e a suas falhas pessoais (e, portanto, do estigma e da vergonha ligados a essas narrativas) em direção a uma posição de empoderamento, em que se pode reformular o problema como uma entidade externa a ser enfrentada mobilizando os próprios recursos pessoais e sociais (Jagatdeb et al. 2024). No presente contexto, considera-se também que a externalização facilita o movimento em direção a narrativas de continuidade: pessoas cujas identidades individuais e relacionais estão fortemente entrelaçadas com a lesão cerebral podem ter dificuldade de viver a si mesmas, e a sua relação, como uma continuação do que existia antes da lesão, e ser mais propensas a viver a descontinuidade e a diferença.
Nessas duas sessões, pergunta-se também ao casal como se sentiu diante dos efeitos da lesão sobre sua vida e pede-se que reflita sobre por que foi afetado dessa forma. Essas perguntas buscam favorecer a reflexão sobre valores, motivações e aspirações subjacentes. Essas conversas ajudam a criar oportunidades para destacar continuidades nessas influências subjacentes. Por exemplo, nas ilustrações de casos descritas adiante, um dos casais comentou que a distância emocional na relação não era aceitável porque as duas pessoas se importam uma com a outra e sentem falta da proximidade. Quem conduzia a terapia aproveitou a oportunidade para destacar a continuidade do amor entre elas e como ele tinha sobrevivido à lesão.
As sessões 4 a 6 se concentram na elaboração de três árvores da vida, uma para cada pessoa do casal e uma para a relação. Os casais recebem imagens de árvores que representam diferentes aspectos de sua vida. Na árvore individual, as raízes representam a origem, a história e a cultura da pessoa; o solo, as rotinas e atividades atuais; o tronco, os valores, as realizações e as habilidades; os galhos, os objetivos, as esperanças e as aspirações; as folhas, as pessoas importantes do passado ou do presente; e os frutos, os presentes recebidos de outras pessoas. A árvore do casal segue um formato semelhante. Cada parte da árvore é discutida. O casal então escreve um resumo da discussão na parte correspondente da árvore. À medida que as árvores são completadas, pede-se também aos casais que reflitam sobre o que ajudou as duas pessoas e a relação a resistir às “tempestades da vida”. Isso serve para destacar suas forças e recursos sociais. Ao discutir objetivos e aspirações, os casais são incentivados a pensar em como estes se relacionam com seus valores fundamentais. Pede-se também que pensem em que passos poderiam dar para alcançar os objetivos, apoiando-se em suas forças e recursos e uma na outra. A discussão da árvore do casal envolve pensar em quais aspectos da relação querem melhorar.
Completar as árvores oferece várias oportunidades de promover narrativas de continuidade. Como na primeira sessão, ampliar o foco para a totalidade da vida, individual e de casal, busca enfraquecer o predomínio da lesão cerebral e de suas consequências nas narrativas. As discussões também oferecem oportunidades de destacar aspectos de si e da relação que sobreviveram à lesão, entre eles forças e valores, recursos sociais e aspirações. Destacar esses aspectos é importante na terapia narrativa em geral. A terapia narrativa adota uma abordagem “descentrada” e coloca a pessoa atendida no centro da criação de novas narrativas, em vez de lhe impor soluções especializadas vindas de quem conduz a terapia (Gaddis 2016; White 2005, 2007). Para isso, a pessoa atendida precisa recorrer a seus próprios valores, habilidades e recursos, e por isso é importante refletir sobre quais são eles. Há também oportunidades de refletir sobre como valores centrais da relação, que permanecem inalterados, continuam atuando mesmo quando há mudanças superficiais nas rotinas e nas atividades. Por exemplo, nas ilustrações de casos descritas adiante, um casal dava grande valor a novas experiências. Isso motivava as muitas viagens que fazia antes da lesão. Embora isso já não fosse possível depois da lesão, foram encontradas outras atividades conjuntas que satisfaziam o desejo de novas experiências. Incentivar os casais a buscar aspirações anteriores à lesão também promoveu a continuidade em seus planos para o futuro.
As quatro últimas sessões se concentram sobretudo na elaboração, na consolidação e na apropriação das narrativas alternativas, por meio de sua expressão a outras pessoas. Do ponto de vista da terapia narrativa, compartilhar a história é decisivo para desenvolver as narrativas alternativas e enraizá-las na maneira de pensar da pessoa (Freedman 2014; White 2005, 2007). No contexto das lesões cerebrais, isso pode ser particularmente útil, porque pode ajudar a compensar os prejuízos de memória e de pensamento abstrato que podem acompanhar a lesão. Primeiro, pede-se ao casal que componha uma carta endereçada a si mesmo, como se tivesse sido escrita pela relação (Bjorøy et al. 2016). Cada pessoa do casal escreve uma carta separada. Pede-se que incluam na carta mensagens-chave da elaboração das árvores, como o que sobreviveu à lesão e que forças permitiram que a relação sobrevivesse. Durante a sétima sessão, o casal lê essas cartas um para o outro pela primeira vez e reflete sobre o que escreveu.
Na oitava sessão, cada membro do casal conversa com quem conduz a terapia, e o outro membro é convidado a testemunhar a conversa, isto é, a ouvir sem interromper nem intervir (Freedman 2014). A conversa se concentra nos aspectos das sessões anteriores que a pessoa identificou como particularmente importantes para ela. Pede-se também que ela reflita sobre os objetivos e as aspirações considerados nas sessões anteriores e sobre qualquer mudança que tenha notado em si ou na relação desde o início da terapia. Quem conduz a terapia aproveita a oportunidade para enfatizar qualquer mudança que tenha aproximado a relação do que ela era antes da lesão (por exemplo, fazer mais atividades de lazer juntos), mais uma vez para consolidar as narrativas de continuidade. Depois da conversa com um dos membros do casal, pede-se à pessoa que testemunhou que reflita sobre o que lhe chamou a atenção no relato da outra pessoa do casal; em seguida, pede-se ao primeiro membro do casal sua reação a essas reflexões.
A nona sessão envolve uma testemunha externa (Freedman 2014; White 2005, 2007). Os casais podem escolher entre convidar alguém que conheçam ou contar com a participação de outra pessoa da equipe clínica, providenciada por quem conduz a terapia. A testemunha externa ouve uma conversa entre quem conduz a terapia e o casal sobre as duas pessoas e sua relação. Pede-se então sua resposta, em termos de imagens que lhe vieram à mente, de ressonância pessoal e de como foi tocada. Em seguida, o casal reflete sobre o que ouviu, como isso o afetou e o que levará do que a testemunha disse.
Na décima e última sessão, quem conduz a terapia resume o que foi abordado, as mudanças que vêm ocorrendo e as mudanças a que o casal aspira. O casal é então apoiado na criação de um documento para si, com um breve resumo escrito do que considera os pontos-chave da terapia e dos aspectos da relação que deseja continuar a melhorar.
Para avaliar a terapia, pediu-se às pessoas participantes que dessem um retorno oral sobre sua experiência ao fim de cada sessão e um retorno escrito ao término da terapia. Elas foram questionadas sobre componentes específicos da terapia e refletiram sobre se os consideraram úteis ou não. No retorno escrito, também se perguntou se a terapia tinha ajudado a relação.
As pessoas participantes também responderam, antes e depois da terapia, a questionários sobre a relação e o bem-estar individual. A expectativa de melhora no bem-estar se baseava na pesquisa sobre o impacto negativo da descontinuidade no bem-estar (por exemplo, Beadle et al. 2016; Villa e Riley 2017). Os dois membros do casal responderam à Relationship Assessment Scale (Hendrick et al. 1998) e à Warwick Edinburgh Mental Well-being Scale (Tennant et al. 2007), com pontuações mais altas indicando, respectivamente, maior satisfação com a relação e melhor bem-estar psicológico. As pessoas sem lesão também responderam à Birmingham Relationship Continuity Measure (Yasmin et al. 2020), que fornece uma medida da experiência de continuidade na relação e, como essas percepções estão associadas a uma relação melhor (Yasmin et al. 2020), uma medida da qualidade da relação. Pontuações mais altas indicam maior continuidade ou qualidade. Para medir as percepções de continuidade da identidade, as pessoas lesionadas também responderam à Head Injury Semantic Differential Scale, na qual avaliaram o eu de antes e o eu de depois da lesão em uma série de qualidades opostas (por exemplo, calmo-irritável) (Tyerman e Humphrey 1984).
A melhora nas pontuações dos questionários foi avaliada pelo critério de mudança confiável, que usa dados psicométricos do questionário para determinar se a mudança é estatisticamente confiável ou se poderia se dever simplesmente ao erro de medida associado ao questionário (Blampied 2022). O critério foi definido de modo que uma mudança confiável indica menos de 5% de probabilidade de que a mudança se deva ao erro de medida.
Esta seção apresenta os três exemplos de caso. Para cada casal, há uma descrição de algumas informações de contexto; um relato de suas perspectivas sobre as mudanças na relação e de suas narrativas de descontinuidade; e a percepção de quem conduziu a terapia sobre como ela ajudou a enfraquecer essas narrativas e como o casal pode ter se beneficiado de maneira mais geral da participação. A perspectiva do próprio casal sobre se a terapia ajudou e quais elementos considerou mais ou menos úteis também é apresentada, junto com os dados dos questionários. Foram usados pseudônimos.
Amy e Michael são um casal britânico branco que viveu junto por 3 anos antes do traumatismo cranioencefálico de Michael. Amy está perto dos quarenta anos, e Michael tem pouco mais de cinquenta. Eles têm dois filhos pequenos. A lesão cerebral ocorreu 3 anos antes de sua participação no estudo.
As narrativas de descontinuidade eram evidentes no relato de Amy sobre o impacto da lesão. Para ela, a relação tinha se tornado unilateral e já não era uma parceria. Ela se sentia responsável por cuidar de Michael e também dos dois filhos. Sentia-se até responsável pela segurança pessoal de Michael, citando o exemplo de ele nem sempre prestar atenção ao trânsito ao atravessar a rua. Ela destacava uma “falta de iniciativa” que a obrigava com frequência a lembrá-lo de fazer as coisas e, muitas vezes, a fazê-las ela mesma porque era mais fácil assim. Também sentia falta de calor e de afeto por parte de Michael, o que afetava seus próprios sentimentos por ele. Nas narrativas sobre sua própria vida, a descontinuidade também era evidente. Havia uma sensação de perder a identidade e de estar presa ao papel de cuidadora. Ela sentia que a lesão tinha levado embora sonhos e planos e que a vida deles girava em torno da lesão e da recuperação de Michael.
Michael também tinha consciência da mudança no equilíbrio da relação. Achava que Amy era vigilante, controladora e restritiva demais, e expressava sua frustração por eles estarem “inseparáveis” desde a lesão. A supervisão e os lembretes eram uma fonte importante de atrito na relação. Michael tinha menos consciência de que Amy sentia falta de calor e afeto da parte dele. Ele achava “óbvio” que amava Amy e que lhe mostrava esse amor com frequência. Quanto às suas narrativas individuais, Michael se frustrava com as limitações físicas impostas pela lesão, sobretudo porque as atividades esportivas tinham ocupado um lugar muito importante em sua vida antes da lesão; mas parecia ter menos consciência de outras maneiras pelas quais tinha sido afetado, ou tendia a minimizá-las.
A carta que Michael escreveu e a sessão com a testemunha externa ajudaram a enfraquecer a narrativa de perda do amor na relação. Expressar-se por escrito parecia mais fácil para Michael, e a carta ofereceu a Amy um lembrete material e duradouro dos sentimentos que Michael não expressava facilmente de outras formas. O casal passou a uma narrativa em que a aparente falta de calor de Michael se devia a mudanças em sua capacidade de expressar sentimentos, e não a uma perda de amor. Michael se comprometeu a ser mais explícito no afeto que demonstrava a Amy. Para corrigir o desequilíbrio da relação, o casal combinou que Amy reduziria o monitoramento e as restrições impostas a Michael, dando-lhe mais controle e liberdade. O casal também trabalhou para desenvolver formas de Michael participar mais ativamente das tarefas domésticas e da vida familiar, para que ele se sentisse mais em pé de igualdade na parceria.
A terapia ajudou especialmente Amy a enxergar além da lesão cerebral e a escapar do domínio que ela exercia sobre a vida deles. Ela conseguiu se afastar do papel de cuidadora e se permitir voltar a cuidar das próprias necessidades, concentrando-se em objetivos pessoais ligados ao esporte e à arrecadação de fundos. Voltou a apreciar os aspectos positivos da sua vida, como sair com as amizades e estar com os filhos. Também começou a aproveitar mais o tempo com Michael, ao escapar da armadilha de se concentrar apenas nos cuidados e na reabilitação dele. Conseguiu vislumbrar um futuro juntos mais luminoso.
O casal destacou o valor de conversar abertamente sobre a relação e a oportunidade de fazer mudanças na vida. Amy valorizou as árvores da vida porque a ajudaram a se concentrar de novo nas coisas boas da sua vida. Michael achou útil falar sobre as forças da relação e sobre a necessidade de ser mais demonstrativo em seu afeto por Amy.
As pontuações dos questionários aparecem na Tabela 2. Não houve melhora na Relationship Assessment Scale para nenhuma das duas pessoas. No caso de Michael, a melhora não era possível porque sua pontuação já estava no máximo antes da terapia. O casal mostrou melhoras em continuidade e bem-estar, mas apenas as de Michael na Warwick Edinburgh Well-being Scale e de Amy na Birmingham Relationship Continuity Measure foram estatisticamente confiáveis.
Tabela 2 — Pontuações de mudança dos casais participantesa
Para cada escala: pontuação de mudança e, entre parênteses, pontuação depois e antes da terapia. Relação: Relationship Assessment Scale (amplitude 7–35). Continuidade: Head Injury Semantic Differential Scale (eu após a lesão) para as pessoas com lesão cerebral, Birmingham Relationship Continuity Measure (amplitude 23–115) para as pessoas sem lesão. Bem-estar: Warwick-Edinburgh Well-being Scale (amplitude 14–70).
Nota: a amplitude indica as pontuações mínima e máxima possíveis no questionário. O asterisco indica que a pontuação de mudança foi estatisticamente confiável (menos de 5% de probabilidade de que a mudança se devesse simplesmente a uma medida imprecisa). Na Head Injury Semantic Differential Scale, por causa da imprecisão do uso de pontuações de diferença para calcular a confiabilidade de uma pontuação de mudança, a mudança confiável foi calculada com as avaliações do eu após a lesão antes e depois da terapia, e as pontuações indicadas são as avaliações do eu após a lesão. As avaliações do eu antes da lesão foram as seguintes: Michael, 140; Tony, 113; Bill, 109. a As pontuações são pontuações de mudança, e os números entre parênteses mostram a pontuação após a terapia menos a pontuação antes da terapia. Em todos os questionários, pontuações de mudança positivas indicam melhora.
Caroline e Tony são um casal britânico branco com pouco mais de cinquenta anos, que está junto há quase 30 anos. Tony sofreu uma hemorragia subaracnoide cerca de 12 anos depois do início da relação. Eles têm um filho em idade escolar e, na época da terapia, enfrentavam algumas dificuldades relacionadas a ele.
A exploração das narrativas centradas no problema indicou certa divergência no casal. Tony expressava uma vaga consciência de que “algo estava diferente”, mas tinha dificuldade de articular como a lesão cerebral o tinha mudado e qual o impacto sobre a relação. Tendia a minimizar as mudanças nele que Caroline descrevia e parecia relativamente pouco consciente de como Caroline era afetada. Para Caroline, ao contrário, tanto Tony como pessoa quanto a relação tinham se transformado. Ela descreveu em detalhes como a personalidade de Tony tinha mudado radicalmente (por exemplo, falta de iniciativa, mais irritabilidade). A relação já não parecia uma parceria. Por exemplo, Caroline descreveu a falta de apoio prático e emocional de Tony para lidar com as dificuldades relacionadas ao filho. Ela se sentia presa ao papel de cuidadora, e suas próprias necessidades e seu bem-estar ficavam em segundo plano em relação aos de Tony. Muitas das lembranças-chave da relação antes da lesão giravam em torno de férias e aventuras juntos, e Caroline destacava o forte contraste com a falta dessas atividades na vida atual do casal.
O desenvolvimento de narrativas alternativas incluiu trazer para o primeiro plano o amor que o casal compartilhava. O casal refletiu sobre como esse amor os tinha unido no início e tinha sobrevivido à lesão. Ele teve destaque na sessão com a testemunha externa, que devolveu ao casal o quanto estava claro que as duas pessoas se importavam uma com a outra. As cartas que o casal escreveu também ajudaram nesse sentido, porque o formato permitiu a Tony expressar seus pensamentos e sentimentos por Caroline e se conectar emocionalmente com o estresse e a angústia que Caroline sentia. Na sessão de testemunho dentro do casal, ficou claro que Tony não percebia com facilidade os sinais de Caroline de que ela estava abalada e precisava de apoio. Quando Tony finalmente estendeu a mão de forma espontânea para consolar Caroline, ela comentou que isso não acontecia havia muito tempo. Quem conduzia a terapia incentivou o casal a pensar em como Caroline poderia tornar seus sinais mais claros e como Tony poderia responder a eles.
O casal também refletiu sobre o nível de cuidado e apoio que Caroline oferecia e decidiu que Caroline deveria se afastar do papel de “cuidadora da família” e dar a Tony mais liberdade e responsabilidade. Isso permitiu que Tony se envolvesse mais em seus papéis de parceiro e pai. Por exemplo, Caroline deixou Tony resolver uma emergência na escola em vez de sair do trabalho para resolvê-la ela mesma, como normalmente teria feito. Também deixou Tony e o filho tocarem alguns projetos de reforma caseira sem supervisionar o que faziam. Afastar-se do papel de cuidadora permitiu que Caroline pensasse em como poderia atender melhor às próprias necessidades. Ao completar sua árvore da vida, Caroline percebeu o pouco tempo que dedicava a atividades prazerosas e a fazer coisas para si.
Completar as árvores da vida também mostrou que faltava prazer na vida em comum e que muitas das coisas de que costumavam gostar juntos tinham se perdido. O casal foi incentivado a pensar em como poderia trazer algumas dessas coisas de volta para a vida. Essas ideias alimentaram uma visão mais positiva do futuro, em que o casal podia esperar com alegria aproveitar a vida em comum.
No retorno, o casal disse ter achado particularmente úteis a sessão com a testemunha externa, as árvores da vida e a escrita das cartas. Sentiram que esses componentes mostraram o quanto ainda se importavam um com o outro e que, nesse sentido, a relação tinha sobrevivido intacta à lesão. Caroline expressou alguma preocupação com a duração dos benefícios que tinham obtido da terapia. Caroline e Tony mostraram melhora na Relationship Assessment Scale, mas apenas a melhora de Caroline foi estatisticamente confiável (Tabela 2). Ambos também mostraram melhora nos questionários de continuidade, mas apenas a de Tony foi confiável. Caroline também mostrou melhora confiável em suas pontuações de bem-estar.
Ellen e Bill são um casal britânico branco, com idades entre o fim dos quarenta e o início dos cinquenta anos, que está junto há 20 anos. Bill sofreu uma lesão cerebral hipóxica 8 anos antes da participação no estudo. Eles têm um filho com algumas necessidades especiais.
Na narrativa centrada no problema, destacava-se a ideia de que Bill precisava de cuidados por causa da lesão cerebral. Diferentemente dos outros dois parceiros com lesão, Bill tinha grande consciência do impacto da lesão sobre suas capacidades e era muito crítico em relação ao que percebia como suas próprias falhas. Essa autocrítica parecia alimentar a narrativa de que Bill era incompetente e incapaz de se virar, e ser alimentada por ela. Ellen também criticava os esforços de Bill e muitas vezes apontava como ou por que ele tinha feito algo “errado”. Ellen reconhecia que frequentemente assumia um papel parental com Bill e que havia certa confusão entre a forma como falava com Bill e com o filho. Apesar de sentir que precisava de cuidados, Bill se ressentia de ser tratado com condescendência dessa maneira, e isso era uma fonte frequente de brigas entre eles. O casal também descreveu como o prazer tinha desaparecido da relação. O tempo passado juntos parecia “mecânico” e se concentrava em atividades de cuidado ou em coisas com pouca interação significativa (por exemplo, assistir à TV juntos).
Ao desenvolver uma alternativa, o casal começou a se afastar da narrativa de que Bill não conseguia fazer nada certo e precisava de um alto nível de cuidado e supervisão. As discussões e as sessões de testemunho trouxeram para o primeiro plano as contribuições positivas e atenciosas que ele dava como parceiro e como pai. Ellen reconheceu que precisava abrir mão do papel de cuidadora, trabalhar para parecer menos crítica e confiar mais nas capacidades de Bill. Isso incluiu reconhecer que, quando Bill fazia algo de um jeito diferente do de Ellen, isso não significava necessariamente que estava “errado”. Ellen falou em aprender a “escolher minhas batalhas”, em vez de sentir que as coisas precisavam ser feitas do seu jeito todas as vezes. O casal achou útil pensar nas intenções por trás das ações, e não apenas em suas consequências. Por exemplo, quando Bill comprou uma louça nova, Ellen de início tomou isso como prova de que ele gastava de forma irresponsável. Conversando, ela percebeu que Bill era motivado pelo desejo de tomar a iniciativa de fazer melhorias na casa.
O casal também se comprometeu a trazer o prazer de volta para a relação. Relembrar a vida em comum enquanto trabalhavam nas árvores da vida suscitou conversas animadas e destacou coisas de que costumavam gostar juntos. Antes do fim da terapia, o casal tinha começado a reintroduzir algumas delas, como sair para tomar um café na hora do almoço e participar em família da corrida semanal do parque do bairro.
No retorno, o casal disse ter achado a elaboração das árvores da vida particularmente útil, porque suscitou uma discussão sobre como serem melhores parceiros um para o outro. Ellen também valorizou as cartas, porque lhe permitiram falar abertamente de seus sentimentos. Até então, seu papel de cuidadora a impedia de expressá-los. Como Caroline, Ellen expressou alguma preocupação com a duração dos benefícios da terapia. Bill disse que o trabalho sobre os valores fundamentais do casal foi muito útil. Ele guardava uma cópia escrita desses valores e se referia a ela com frequência durante as sessões. Bill e Ellen mostraram melhoras em todos os questionários. No caso de Bill, houve melhoras confiáveis nos questionários de continuidade e de bem-estar; no de Ellen, nos questionários de relação e de bem-estar.
A terapia narrativa pode ser uma forma útil de abordar as histórias medicalizadas e saturadas pelo problema, centradas na perda e no déficit, que costumam acompanhar a lesão cerebral (Whiffin e Ellis-Hill 2022). Mais especificamente, uma abordagem narrativa pode ajudar os casais a enfrentar o efeito danoso que essas histórias podem ter sobre a relação. No entanto, muitos serviços de reabilitação não têm acesso a profissionais com formação especializada nesta ou em outras terapias relacionais (Laroi 2003; Yeates et al. 2013). O objetivo deste estudo foi elaborar orientações estruturadas que possam ser usadas por profissionais com conhecimento sobre lesões cerebrais, mas sem formação especializada aprofundada em terapia narrativa. As orientações se concentravam nas narrativas centradas na descontinuidade entre a relação e as identidades pessoais de antes e de depois da lesão. O estudo também buscou realizar uma avaliação exploratória da utilidade da terapia para esse fim.
A avaliação sugeriu que a terapia foi, em geral, bem recebida pelos casais participantes. Embora tenham ocorrido algumas conversas dolorosas, as pessoas participantes sentiram que eram necessárias para seguir adiante, e nenhuma relatou qualquer impacto adverso duradouro sobre seu bem-estar emocional ou sua relação. Pessoas diferentes destacaram diferentes componentes da terapia como particularmente úteis. Não houve retorno negativo sobre nenhum dos componentes. Em termos gerais, os casais valorizaram a oportunidade de refletir sobre si e sobre a vida em comum, de perceber que ainda havia muitas coisas boas que a lesão não tinha afetado e de desenvolver esperança quanto ao futuro juntos. Nos questionários aplicados antes e depois da terapia, todas as pessoas mostraram melhora estatisticamente confiável em pelo menos um questionário (Tabela 2). Nenhuma das pessoas com lesão relatou melhora confiável no questionário sobre a relação, mas isso talvez se deva ao fato de que, ao contrário das pessoas sem lesão, as três avaliaram a relação como boa no questionário anterior à terapia, deixando pouca margem para melhora.
As narrativas de descontinuidade descritas pelas pessoas sem lesão ecoaram as descritas na literatura anterior (Bodley-Scott e Riley 2015; Gill et al. 2011; Kratz et al. 2017; Riley et al. 2020; Villa e Riley 2017; Whiffin et al. 2019; Yasmin et al. 2020; Yasmin e Riley 2022). Nos três casos, a relação parecia mais uma relação entre quem cuida e quem recebe cuidados do que uma relação amorosa. A pessoa com lesão cerebral era posicionada como alguém em pedaços, que precisa de apoio. Uma perda de calor e de conexão emocional também era evidente, assim como uma sensação de contraste entre a vida antes e depois da lesão e um sentimento de perda pela vida em comum anterior à lesão. Amy e Caroline também descreveram como o papel de cuidadora tinha tomado conta, em detrimento das próprias necessidades, o que também foi descrito em pesquisas anteriores (Kokorelias et al. 2020; Zarzycki et al. 2024).
Quanto aos parceiros com lesão, Bill tinha uma consciência aguda, e sofrida, do contraste entre o eu de antes e o eu de depois da lesão e do caráter quebrado do eu posterior à lesão. Mais uma vez, isso repete uma narrativa de descontinuidade frequentemente relatada em estudos qualitativos (Freeman et al. 2015; Nochi 1998; Villa et al. 2020). Em contraste, embora Michael e Tony tivessem consciência de que eles próprios e a relação estavam diferentes, sua compreensão das mudanças era mais limitada, e a sensação de contraste com o passado não era tão nítida.
Os exemplos de caso lançam alguma luz sobre o que pode estar por trás das narrativas de descontinuidade. Um dos fatores que colocavam o cuidado no centro das relações dos três casais era a dificuldade de negociar níveis adequados de supervisão e apoio. As pessoas sem lesão pareciam ter dificuldade de ajustar o nível de cuidado necessário à medida que a pessoa lesionada progredia em sua recuperação. Ficar presa ao papel de cuidado também estava associado à negligência das próprias necessidades da pessoa sem lesão e a atritos na relação, porque a pessoa lesionada se ressentia da supervisão excessiva. As três pessoas sem lesão reconheceram que precisavam abrir mão do papel de cuidado. A dificuldade de abrir mão é compreensível. As decisões sobre quanto cuidado oferecer podem ser complexas, por causa da variedade de questões a considerar, e há poucas orientações disponíveis sobre a melhor maneira de fazer essa transição (Carparelli et al. 2026).
Os exemplos de caso também sugeriram que a descontinuidade naquilo que os casais fazem juntos pode contribuir para o enfraquecimento da conexão emocional. Ellen e Bill, em particular, destacaram como o tempo que passavam juntos parecia “mecânico”, centrado em atividades de cuidado e já não natural ou prazeroso. Muitas das atividades que faziam juntos antes da lesão tinham parado, e decidiram que precisavam reverter isso, retomando algumas delas e passando mais tempo de qualidade juntos. A forma como as pessoas passam o tempo juntas é importante para consolidar o vínculo emocional (Ben-Ari e Lavee 2007), e as mudanças que ocorrem nessas atividades de vínculo após uma lesão cerebral precisam ser abordadas quando se tenta reparar a relação.
Embora os retornos e os resultados dos questionários tenham sido promissores, surgiram algumas questões que indicam a necessidade de desenvolver mais a terapia no contexto das lesões cerebrais. Caroline e Ellen expressaram preocupação com o tempo que os benefícios da terapia durariam. É preciso pensar mais sobre a melhor maneira de garantir que o casal leve as novas narrativas adiante depois que a terapia termina. Uma forma possível de fazer isso é ajudar o casal a realizar, na vida cotidiana e nas interações, mudanças concretas que encarnem as novas narrativas. Ao discutir objetivos para a relação, os casais foram, de fato, incentivados a pensar nos primeiros passos que poderiam dar para alcançá-los. Embora se considerasse importante que as mudanças viessem do próprio casal, e não fossem impostas por quem conduzia a terapia, talvez se pudesse fazer mais para apoiá-los nas mudanças, por exemplo explorando possíveis obstáculos e incentivando-os a persistir nos esforços de mudança. Yasmin e Riley (2020) descrevem um estudo de caso em que se adotou uma abordagem comportamental mais sistemática para incentivar um casal a reintroduzir formas de interagir, como maneira de promover a continuidade no modo como vivem juntos. Outro passo que pode ajudar a prolongar a vida das novas narrativas é oferecer um registro escrito da terapia (por exemplo, na forma de uma carta terapêutica) que os casais possam rever mais tarde. Pessoas atendidas em terapia narrativa em outros contextos comentaram o valor desse tipo de documentação (Freeman et al. 1997). As cartas que o casal escreveu também podem merecer alguma reflexão. Pediu-se que escrevessem uma carta para si como se fosse escrita pela relação. Esse conceito se mostrou abstrato demais para algumas das pessoas participantes, sobretudo as que tinham lesão cerebral, que acabaram escrevendo o que eram, essencialmente, apenas expressões do que sentiam pela outra pessoa do casal e pela relação. Instruções mais concretas sobre a escrita das cartas podem ser preferíveis.
Outra questão a considerar surgiu do fato de que nem Michael nem Tony pareciam ter plena consciência de como a lesão tinha afetado a outra pessoa do casal e a relação. Não ficou claro em que medida isso refletia suas dificuldades cognitivas e/ou dinâmicas da relação e a relutância da outra pessoa do casal em se comunicar sobre temas tão sensíveis. No caso de Tony, a lesão cerebral tinha ocorrido 18 anos antes, e esse intervalo pode ter aumentado sua dificuldade de comparar a vida antes e depois da lesão. O processo de desenvolver novas narrativas envolve, em parte, rejeitar as antigas narrativas saturadas pelo problema. Assim, uma plena compreensão das narrativas antigas pode contribuir de forma importante para que o casal desenvolva novas narrativas. Isso sugere que é preciso cuidar, logo no início da terapia, de estabelecer a consciência das narrativas antigas e de oferecer um ambiente terapêutico acolhedor em que a pessoa com lesão possa ouvir e compreender essas narrativas. O caso de Tony sugere a necessidade de investigar se existe uma janela de tempo ideal para oferecer a terapia e se seus benefícios diminuem quando passa tempo demais entre a lesão e o engajamento na terapia.
Os casais eram todos britânicos brancos e de idade semelhante (do fim dos 30 ao início dos 50 anos). Isso levanta a questão de saber se casais com outras identidades culturais e demográficas se beneficiariam da terapia. A abordagem da árvore da vida pode ter uma vantagem em termos de acessibilidade cultural, porque foi desenvolvida em um contexto africano (Ncube 2006) e tem sido usada com sucesso com grupos marginalizados e vulneráveis, como pessoas refugiadas (por exemplo, Stark et al. 2019). Parham et al. (2019) revisam 14 artigos que avaliaram o uso da árvore da vida em saúde mental e destacam vários aspectos da abordagem que podem torná-la acessível a um leque mais amplo de culturas e grupos demográficos. Entre eles estão seu alinhamento com as práticas de contar histórias presentes em muitas culturas; seu foco no coletivo e no contexto social, que se ajusta a muitas culturas, em contraste com o foco ocidental no indivíduo; e sua flexibilidade, que lhe permite incorporar formas alternativas, não ocidentais, de compreender as dificuldades. De modo mais geral, a ênfase da abordagem narrativa no empoderamento pode atrair quem está em posição de desempoderamento na sociedade.
A terapia se concentrou nas narrativas de descontinuidade. Aplicações anteriores da terapia narrativa nesse contexto estavam abertas a abordar quaisquer narrativas de problema que a família trouxesse (Butera-Prinzi et al. 2014; Daisley et al. 2014; Hawkins et al. 2019). Essa flexibilidade é uma vantagem clara. No entanto, tem o custo de exigir mais habilidade de quem conduz a terapia. O foco em um tipo específico de narrativa oferece a oportunidade de orientações mais estruturadas e, portanto, abre a terapia a um leque mais amplo de profissionais com experiência em lesões cerebrais.
O foco restrito da terapia também levanta questões sobre sua coerência com uma abordagem narrativa. A intenção da terapia é incentivar os casais a desenvolver novas narrativas que abarquem as continuidades de sua vida como indivíduos e como casal. Há certa tensão entre isso e a ênfase da terapia narrativa no empoderamento da pessoa atendida e em sua abordagem “descentrada”, que destaca a importância de a pessoa atendida estar no centro da criação de novas narrativas, em vez de lhe serem impostas soluções especializadas por quem conduz a terapia (Gaddis 2016; White 2005, 2007). No entanto, a terapia narrativa também posiciona quem conduz a terapia como “influente” (Gaddis 2016; White 2005, 2007): essa pessoa tem um papel importante em guiar as reflexões da pessoa atendida e em apoiá-la enquanto desenvolve novas histórias. Para tentar manter esse equilíbrio entre ser descentrada e influente, as orientações enfatizavam que quem conduz a terapia deve destacar as continuidades para o casal quando elas surgem na conversa, em vez de tomar a iniciativa de sugeri-las. Também se enfatizou que se deve evitar sugerir ao casal que as narrativas de continuidade seriam a maneira correta de pensar. A apropriação das narrativas alternativas também foi promovida nas quatro últimas sessões, por meio do relato do casal a outras pessoas, independentemente de quem conduzia a terapia (por exemplo, na escrita das cartas). De modo mais amplo, a terapia foi coerente com o objetivo de empoderamento ao incluir a reflexão sobre as forças e os recursos do casal que o ajudaram a enfrentar adversidades no passado e que ainda estão à sua disposição, e o incentivo a pensar em passos que poderia dar para melhorar a relação e a situação em geral. Ainda assim, as orientações para conduzir a terapia talvez precisem ser mais detalhadas nesse aspecto, para garantir que quem conduz a terapia evite a armadilha de ditar narrativas.
A mensagem de empoderamento parece particularmente importante no contexto das lesões cerebrais. As narrativas medicalizadas dominantes associadas às lesões cerebrais se concentram no déficit decorrente de um dano irreparável ao cérebro (Cloute et al. 2008; Whiffin e Ellis-Hill 2022). Diante delas, passividade e impotência são uma resposta natural. Bill era muito crítico em relação ao que percebia como suas próprias falhas, e isso parecia alimentar a narrativa de que Bill era incompetente e precisava de cuidados, e ser alimentado por ela. Cloute et al. (2008) observam uma passividade semelhante em algumas das pessoas participantes de seu estudo qualitativo. A passividade também foi observada nas pessoas sem lesão. Por exemplo, diante da falta de compreensão e da medicalização de comportamentos interpessoais difíceis da pessoa lesionada, as pessoas sem lesão podem sentir impotência e depender de ajuda externa para lidar com a questão (Bodley-Scott e Riley 2015; Braine 2011). As narrativas de continuidade podem permitir que a pessoa sem lesão se posicione como detentora de um conhecimento especializado sobre a outra pessoa do casal e use esse conhecimento para compreender e manejar melhor essas situações (Riley et al. 2020). A terapia familiar narrativa, com sua ênfase no empoderamento, pode ser uma forma potente de ajudar os casais a se livrar da passividade e da impotência geradas pelas narrativas medicalizadas e a assumir o controle da própria vida.
A terapia narrativa para casais oferece um caminho promissor para ajudar os casais a lidar com as narrativas de descontinuidade que fragilizam as relações após uma lesão cerebral e para empoderá-los a retomar o controle da própria vida. Sua utilidade nesse contexto é reforçada pelo fato de poder ser oferecida por profissionais sem formação especializada aprofundada em terapia narrativa, desde que haja orientações estruturadas disponíveis. Isso é importante por causa das dificuldades que a maioria dos serviços de reabilitação tem para ter acesso a terapeutas com formação especializada no trabalho com relações.
As orientações desenvolvidas para este estudo precisam ser aperfeiçoadas. Nas fases iniciais da terapia, as pessoas com lesão cerebral podem às vezes precisar de mais ajuda para perceber como a lesão afetou a relação. Terapeutas podem precisar de mais ajuda para evitar a armadilha de impor narrativas e soluções, e os casais podem precisar de mais apoio para promover as mudanças que desejam fazer na relação e na vida em comum.
Essa aplicação da terapia narrativa para casais requer uma avaliação mais formal de sua eficácia em um ensaio controlado. Ela precisa ser avaliada em contextos culturalmente diversos e com uma faixa etária mais ampla. Sua utilidade em serviços reais de reabilitação também precisa ser testada, em especial se pode ser oferecida de forma eficaz por profissionais como terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e profissionais de psicologia com apenas formação introdutória na abordagem narrativa.
Complexe Systémique: a reter
O interesse deste trabalho está em nomear com precisão o que desgasta os casais após uma lesão cerebral: menos as sequelas em si do que a narrativa que as organiza, a de um “antes” perdido e de um “depois” reduzido ao cuidado. A resposta proposta é modesta e estruturada: dez sessões, árvores da vida individuais e de casal, cartas, uma testemunha externa. Para uma leitura sistêmica, duas observações importam. A relação desliza para uma complementaridade rígida, uma pessoa cuida, a outra recebe cuidados, que as duas mantêm sem querer; e a externalização devolve a lesão a seu lugar, o de um terceiro que pesa sobre o casal sem defini-lo. O artigo assume também uma tensão honesta: orientar para a continuidade sem ditar a narrativa, conciliar postura descentrada e influência. Os limites são os de um estudo exploratório: três casais britânicos brancos de idade próxima, uma terapia conduzida pela pessoa que concebeu as orientações, nenhum acompanhamento a distância e dúvidas expressas sobre a duração dos efeitos. Para ler junto com o artigo sobre a terapia familiar narrativa breve e o autismo e com o artigo sobre a externalização do problema.
Notas do original
Financiamento. A equipe de pesquisa não tem nada a declarar.
Aprovação ética. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática da Universidade de Birmingham, Reino Unido (referência ERN_21-1608).
Consentimento. Todas as pessoas participantes deram consentimento por escrito plenamente informado.
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver conflitos de interesse.
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Tradução não oficial em português de A terapia narrativa de casal diante das narrativas de descontinuidade em casais que vivem com lesão cerebral, de Urszula Gajewska e Gerard A. Riley, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 47, no 3 (2026), doi: 10.1002/anzf.70091, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Using Narrative Therapy for Couples to Address Discontinuity Narratives in Couples Living with Brain Injury”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Gajewska, U., et Riley, G. A. (2026). A terapia narrativa de casal diante das narrativas de descontinuidade em casais que vivem com lesão cerebral (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-terapia-narrativa-de-casal-diante-das-narrativas-de-descontinuidade-apos-lesao-cerebral (Obra original publicada em 2026 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 47(3) (2026); republicada em 2026 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.70091)
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