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Journal of Child and Family Studies · Família

Criança que floresce, pais em luto: um estudo qualitativo com crianças trans e seus pais diante da transição

Quando uma pessoa jovem trans sai do armário, o alívio costuma ser imediato do lado dela, enquanto o pai ou a mãe entra num tempo de incredulidade e de luto. Uma equipe canadense entrevistou separadamente 36 jovens atendidos em clínicas de afirmação de gênero e um de seus pais: os dois relatos começam defasados e depois se encontram quando a família se engaja junta na transição.

Autores Annie Pullen Sansfaçon, Morgane Gelly, Valeria Kirichenko e Frank Suerich-Gulick (Escola de Serviço Social, Universidade de Montreal) e Denise Medico (Departamento de Sexologia, Universidade do Quebec em Montreal), CanadáPrimeira publicação Journal of Child and Family Studies, 29 de novembro de 2021Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Criança que floresce, pais em luto: um estudo qualitativo com crianças trans e seus pais diante da transição, de Annie Pullen Sansfaçon, Denise Medico, Morgane Gelly, Valeria Kirichenko e Frank Suerich-Gulick, publicado na Journal of Child and Family Studies (Springer) (2022), doi: 10.1007/s10826-021-02178-w, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Os destaques do original (Highlights) foram reunidos no quadro do resumo. A tabela é apresentada em forma de duas listas de perguntas. As figuras permanecem em inglês, com legenda traduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Ao apoiar a criança, os pais podem aliviar as próprias preocupações.

Annie Pullen Sansfaçon, Denise Medico, Morgane Gelly, Valeria Kirichenko e Frank Suerich-Gulick

Resumo

Um número crescente de jurisdições facilita hoje as transições de pessoas jovens trans e não binárias (JTNB), permitindo que mudem legalmente de nome e de marcador de gênero e oferecendo cuidados médicos de afirmação de gênero para atender às necessidades de transição. A literatura demonstra os benefícios dessas medidas na redução de desfechos negativos de saúde mental. Um apoio parental forte também é apontado como essencial para que JTNB prosperem. Mas os estudos também mostram que os pais podem ter dificuldade para aceitar a identidade do filho ou da filha durante a transição e depois dela, o que torna essa etapa da vida particularmente difícil tanto para os pais quanto para JTNB. Este projeto qualitativo acompanha as experiências de JTNB e de seus pais, da descoberta de uma identidade de gênero diversa até sua afirmação. As pessoas participantes foram recrutadas em três clínicas canadenses especializadas que oferecem cuidados de afirmação de gênero, e as entrevistas foram realizadas separadamente com 36 díades formadas por jovens trans e por um de seus pais, num total de 72 entrevistas. Os dados revelam diferenças notáveis entre a experiência de JTNB e a de seus pais. Muitas dessas pessoas jovens começaram a questionar seu gênero em segredo, esperando ter certeza antes de contar aos pais. Embora a saída do armário (coming out) muitas vezes tenha sido um alívio para JTNB, ela foi vivida de outro modo pelos pais, que com frequência tiveram dificuldade para aceitar a identidade da criança, mesmo demonstrando apoio publicamente. Constatamos, porém, que JTNB e seus pais conseguiam superar essa distância engajando-se juntos no processo de transição. Como as experiências de tomada de consciência e de afirmação de JTNB diferem das de seus pais, reiteramos a importância de colocar a voz de JTNB no centro quando se busca compreender sua experiência.

Pontos-chave

  • Comparamos a experiência em evolução de tomada de consciência do gênero, de afirmação e de transição de jovens trans com a de seus pais.
  • As experiências dos pais muitas vezes não refletem a realidade de seu filho ou sua filha trans.
  • Há uma defasagem temporal entre os pais e a criança no caminho da aceitação.
  • A sincronização das narrativas e experiências de pais e jovens traz uma conexão familiar mais profunda.
  • O relato exclusivo dos pais não fornece informações suficientemente completas para compreender a experiência da criança.

Palavras-chave: jovens trans, pais de jovens trans, transição, tomada de consciência do gênero, afirmação de gênero, saída do armário, cuidados de afirmação trans, análise comparativa

Introdução

Pessoas jovens trans e não binárias (JTNB) representam quase 2% da população de 13 a 17 anos (John et al., 2019). JTNB são jovens que sentem alguma incongruência entre sua identidade de gênero, isto é, o sentimento profundo de pertencer a determinado gênero, como “feminino”, “masculino” ou outro gênero (Hildago et al., 2013), e o sexo que lhes foi atribuído ao nascer. Em algumas pessoas JTNB, esse sentimento de incongruência pode ser tal que leva a níveis importantes de sofrimento, às vezes chamado de disforia de gênero. Sabe-se que as transições, sejam elas sociais (por exemplo, mudança de apresentação, de roupas, de cabelo ou de pronomes), médicas (uso de bloqueadores hormonais, terapia hormonal etc.) ou legais (mudança de nome, de marcador de gênero), ajudam a aliviar algumas das experiências negativas que podem estar ligadas à disforia de gênero (Cohen-Kettenis et al., 2011; Wiepjes et al., 2018; Pullen Sansfaçon et al., 2018; Pullen Sansfaçon et al., 2019).

A literatura também mostra que JTNB podem passar por diferentes etapas rumo à transição, e que os processos e percursos de questionamento e de afirmação de sua identidade de gênero são variados. Segundo Cohen-Kettenis e Klink (2015), JTNB com disforia de gênero podem apresentar disforia de gênero de início precoce (geralmente no começo da infância, antes da puberdade) ou de início tardio. Pesquisas recentes no Canadá e na Suíça sugerem, contudo, outras trajetórias de desenvolvimento. Enquanto algumas pessoas JTNB afirmam seu gênero já na primeira infância (a criança afirmada), outras só saem do armário na puberdade, embora sentissem a incongruência de gênero muito antes (a criança silenciosa); outras ainda não terão vivido nenhuma dificuldade relativa ao gênero sentido até a chegada da puberdade (jovens neutros), o que permite traçar um retrato mais matizado do desenvolvimento típico da identidade de gênero e da dissonância no início da vida (Pullen Sansfaçon et al., 2020a; Medico et al., 2020).

JTNB formam, portanto, uma população diversa, por suas experiências e por seus percursos rumo à afirmação. Sabe-se que JTNB constituem uma população muito resiliente, que atravessa contextos difíceis saturados de transfobia (Singh, 2013; Pullen Sansfaçon et al., 2018; Shelton et al., 2018; Pullen Sansfaçon et al., 2021), mas essas pessoas jovens continuam a enfrentar muitas adversidades. Por exemplo, o risco de suicídio é alto: cerca de 47% das pessoas trans já tiveram ideação suicida (Scanlon, 2010). O risco de situação de rua também é alto. Estudos sugerem, porém, que as dificuldades vividas por JTNB não estão intrinsecamente ligadas à maneira como sentem seu gênero ou sua identidade trans, mas são, antes, consequências diretas e indiretas dos contextos sociais negativos em que vivem, sobretudo no que diz respeito à discriminação, à violência e ao não reconhecimento como JTNB (Watson et al., 2017; DeVries et al., 2016).

Não surpreende que ambientes de apoio, como pais que afirmam a identidade da criança ou o apoio de uma família escolhida, escolas inclusivas e o acesso a cuidados médicos de afirmação trans, favoreçam um maior bem-estar (Pullen Sansfaçon et al., 2018). Por exemplo, JTNB que podem viver em seu gênero autêntico com forte apoio parental parecem ter uma saúde mental tão boa quanto a de seus pares cisgênero (Durwood et al., 2017; Olson, et al., 2016). Assim, o apoio parental parece compensar alguns dos efeitos da discriminação vivida por jovens trans (Taliaferro et al., 2018; Simons et al., 2013), diminuindo o sofrimento psicológico e sustentando o desenvolvimento da resiliência da criança (Katz-Wise et al., 2018; Wilson et al., 2016). Diversos estudos sugerem que um apoio parental forte leva a uma maior satisfação com a vida entre jovens trans e tem impacto positivo em sua autoestima (Katz-Wise et al., 2018; Ryan, 2009; Wong e Drake, 2017).

No entanto, embora o apoio parental seja essencial, os pais podem enfrentar muitos desafios para se adaptar à nova realidade, e o processo de adaptação costuma ser longo (Pullen Sansfaçon et al., 2020b). Os pais podem sentir pesar e uma sensação de perda (Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Aramburu Alegria, 2018; Coolhart et al., 2018; Wahlig, 2015), negação, incredulidade ou raiva (Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Aramburu Alegria, 2018; Wahlig, 2015). É frequente que se preocupem com a segurança da criança e com sua aceitação pelos outros (Pullen Sansfaçon et al., 2015; Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Aramburu Alegria, 2018; Lawlis et al., 2017; Wahlig, 2015), e podem sentir impotência (Pullen Sansfaçon et al., 2015), julgamento social ou isolamento (Pullen Sansfaçon et al., 2015; Wahlig, 2015). Alguns pais relatam sentir culpa, olhando para trás, por não terem conseguido reconhecer e apoiar adequadamente a criança desde cedo (Aramburu Alegria, 2018). Alguns pais também podem se perguntar se a identidade de gênero declarada pela criança é real, e se ela poderia ser repentina e resultar da influência dos pares (Littman, 2018).

Diversos elementos se mostraram úteis para ajudar os pais a superar esses desafios e avançar rumo à aceitação: informar-se sobre as questões trans (Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Wong e Drake, 2017), saber que podem proteger a criança das repercussões negativas da discriminação e ajudar a promover sua felicidade (Coolhart et al., 2018), e ter um papel proativo na transição da criança, acompanhando-a ou defendendo seus direitos (Birnkrant e Przeworski, 2017; Aramburu Alegria, 2018). O apoio profissional e de pares também se mostrou muito útil nesse caminho de aceitação (Pullen Sansfaçon et al., 2015; Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Aramburu Alegria, 2018).

Embora muitos artigos tenham sido publicados nas últimas décadas sobre a experiência de JTNB ou de seus pais, até onde sabemos, o projeto Stories of Care foi o primeiro a se basear em entrevistas diádicas feitas tanto com o pai ou a mãe quanto com a criança, para compreender seus pontos de vista e obter uma compreensão mais ampla de suas experiências nesse percurso de transição médica. Apresentamos os resultados desse projeto, que entrevistou 36 JTNB que recebiam cuidados de afirmação de gênero no Canadá e um dos pais de cada criança, num total de 72 entrevistas aprofundadas (73 pessoas, pois em um caso o pai e a mãe foram entrevistados). Exploramos e contrastamos suas experiências e observações sobre crescer trans, dos primeiros questionamentos e da saída do armário até a transição médica.

Metodologia

O projeto foi realizado entre 2016 e 2019 e buscava conhecer melhor as experiências de JTNB e de seus pais ou responsáveis encaminhados a clínicas especializadas para cuidados médicos de afirmação de gênero. Mais especificamente, a equipe buscava compreender melhor as questões que afetam jovens e suas famílias, o modo como JTNB vivem sua identidade de gênero e, no caso de quem vive disforia de gênero, como lida com ela. Também prestamos atenção às muitas questões que jovens e suas famílias enfrentam, incluindo cuidados anteriores, dinâmicas familiares, questões sociais, forças e resiliência, e outros fatores que afetam sua saúde e seu bem-estar gerais.

Recorremos à metodologia da análise temática (Braun et al., 2019; Braun e Clarke, 2006, 2021), em sua versão indutiva e reflexiva (Braun e Clarke, 2021), que permitia dar conta da complexidade do projeto e de suas perspectivas multidisciplinares (ver Pullen Sansfaçon et al., 2019). O projeto partiu de perguntas de pesquisa, e não de uma hipótese: que questões afetam crianças e jovens trans e as pessoas que cuidam delas quando buscam atendimento; que estratégias são usadas para expressar ou tratar a disforia; como as situações sociais e familiares são atravessadas; que fatores influenciam o bem-estar psicossocial e a qualidade de vida; e como a intervenção médica é vivida? Nossa pesquisa foi orientada pelos valores da abordagem de afirmação trans, que reconhece as autoidentificações de gênero como não binárias, uma posição que guiou nosso processo de pesquisa, da formulação das perguntas à coleta e à análise dos dados (Braun e Clarke, 2021).

As pessoas participantes foram recrutadas em três clínicas canadenses especializadas que oferecem cuidados de afirmação de gênero: o Meraki Health Center (Montreal), o Children’s Hospital of Eastern Ontario (CHEO, Ottawa) e o programa Gender Dysphoria Assessment and Action for Youth (GDAAY, Winnipeg). Essas clínicas são especializadas em cuidados de saúde para crianças e jovens trans e de gênero diverso, e oferecem avaliação e opções médicas a JTNB que desejam passar por uma transição médica, incluindo a prescrição de bloqueadores da puberdade ou de terapia hormonal para aliviar a disforia de gênero. Para o recrutamento, as clínicas elaboraram uma lista de jovens em acompanhamento, incluindo JTNB pré-púberes e JTNB púberes (isto é, que haviam começado uma medicação, como bloqueadores da puberdade ou terapia hormonal). As clínicas enviaram a cada pai, mãe e jovem da lista uma carta-convite descrevendo o estudo, pedindo que entrassem em contato com a pessoa assistente de pesquisa do local correspondente caso tivessem interesse em participar do projeto. As pessoas participantes foram selecionadas segundo os princípios de uma amostragem por diversidade (idade, estágio da puberdade, identidade de gênero e intervenções médicas recebidas) até se atingir o número previsto (n = 12 jovens + 12 pais ou mães por clínica).

Os dados foram coletados por meio de entrevistas qualitativas semiestruturadas e de um questionário sociodemográfico. Foi elaborado um roteiro de entrevista para JTNB e outro para os pais, ambos com variações para contemplar os diferentes estágios de desenvolvimento e médicos das pessoas jovens. Pais e filhos foram entrevistados separadamente, exceto duas crianças pequenas que pediram a presença do pai ou da mãe durante a entrevista, sem que essa pessoa respondesse às perguntas; o questionário sociodemográfico foi preenchido pelo pai ou pela mãe. As entrevistas com JTNB tratavam do processo de elaboração da identidade de gênero, da saída do armário, das relações familiares e sociais e do apoio, bem como das experiências com os cuidados de afirmação de gênero. As entrevistas com os pais tratavam de sua situação de vida, de sua percepção do desenvolvimento da identidade de gênero da criança e do processo de transição, e de suas redes de apoio. Tanto nas entrevistas com jovens quanto nas entrevistas com os pais, exploramos o percurso da família até o atendimento clínico e sua experiência geral com as intervenções médicas e os demais serviços recebidos. As perguntas eram detalhadas e numerosas, o que garantia coerência entre entrevistas e entre locais, independentemente de quem conduzia a entrevista. A Tabela 1 apresenta todas as perguntas principais dos roteiros de entrevista para jovens e para os pais. Os roteiros incluíam perguntas adicionais sugeridas, que podiam ser feitas se necessário para obter mais detalhes ou respostas mais descritivas.

Tabela 1 — Principais perguntas feitas durante as entrevistas

Perguntas principais para JTNBa

  • Você pode me falar um pouco sobre você?
  • Onde você mora? Quem faz parte da sua família?
  • Você vem a esta clínica porque expressa seu gênero de determinada maneira. Pode me contar um pouco como você define seu gênero? Como você o descreveria?
  • Como você compreendia sua identidade de gênero enquanto crescia? Como ela mudou com o tempo? Você se lembra da primeira vez que começou a falar sobre seu gênero com seus pais ou responsáveis? Pode me contar mais sobre isso?
  • Seus pais aceitaram seu gênero imediatamente? Se não, quanto tempo levou? Como eles mostram se aceitam ou não? Pode me dar alguns exemplos? Eles chamam você pelo nome que você quer que usem? Usam para você os pronomes que você quer que usem? (por exemplo, ele, ela, elu ou outra coisa?)
  • Você sente que o clima ou a dinâmica familiar mudou desde que você saiu do armário? Há algo que você gostaria de ter feito de outro modo ao conversar com seus pais sobre seu gênero? Quais são as partes boas de ser [usar o termo empregado, por exemplo: menino, menina, trans, não conforme ao gênero] na sua família? Quais são as partes difíceis?
  • O que você sente que é difícil em expressar seu gênero na sua família? Você já teve problemas em casa por expressar seu gênero?
  • Você e sua família já discutiram por causa do seu gênero?
  • Quão próxima é a sua relação com a sua família?
  • Pode me contar como têm sido as coisas para você desde que contou a eles sobre sua identidade de gênero?
  • Você faz alguma atividade em grupo, como esporte, música ou dança? Você usa seu gênero de preferência, seu gênero de nascimento, ou os dois, quando participa desses grupos? Pode me contar um pouco como é para você participar dessas atividades? Você se sente livre para expressar sua identidade de gênero nesse grupo? Por quê? Como você sabe ou sabia que podia ou não expressar sua identidade de gênero (nesse grupo/nessa atividade)? Você sente aceitação e inclusão (no grupo/na atividade)?
  • Quais são algumas das coisas que fazem você se sentir muito bem ou com muita alegria? (Explorar: atividades físicas e de lazer, arte/música/dança, amizades, outras relações incluindo animais de estimação, natureza, dimensões espirituais, dimensões etnoculturais)
  • Há coisas que você faz para expressar seu gênero que fazem você se sentir muito bem ou com alegria? Há mais alguma coisa que você gostaria de nos contar sobre como é, para você, ser você em casa, na escola e nas suas atividades?
  • Eu gostaria de fazer algumas perguntas mais pessoais, por exemplo sobre como você se sente em relação ao seu corpo físico. Tudo bem para você? Pode ser difícil responder a essas perguntas, então, se houver perguntas que você prefira não responder, não tem problema nenhum. Nesse caso, vamos pular essas perguntas. Se mais tarde você decidir que gostaria de ouvir algumas dessas perguntas sobre como se sente em relação ao seu corpo, pode me dizer.
  • Você pode começar me dizendo simplesmente como se sente em relação ao seu corpo? Do que você mais gosta, do que menos gosta, o que gostaria que continuasse igual, o que talvez quisesse mudar? Você já fez alguma coisa para que seu corpo se parecesse mais com o gênero com que se identifica?
  • Houve momentos em que o que você sente em relação ao seu gênero deixou você muito para baixo?
  • (Se a criança disser que ficou muito para baixo, pode-se fazer uma pergunta de acompanhamento.) Conte-me o que deixou você tão triste?
  • Houve algum momento na sua vida em que você se sentiu tão mal que precisou buscar ajuda? Que tipo de ajuda você recebeu? Pode me dizer se e como isso estava ligado ou não à sua identidade de gênero?
  • Às vezes, quando crianças (jovens) estão muito para baixo, surgem pensamentos de se machucar. Você já teve pensamentos assim?
  • Você já quis se machucar de alguma forma?
  • Se a resposta for “Sim”,
  • Usar um estímulo geral como: Pode me contar sobre isso?
  • Você já agiu a partir desses pensamentos?
  • Às vezes, quando crianças (jovens) estão muito mal, surgem pensamentos sobre a morte ou sobre morrer. Você já desejou não viver mais? Às vezes, crianças (jovens) pensam em se matar. Você já teve pensamentos assim?
  • De quem foi a ideia de você falar sobre seu gênero com uma pessoa profissional?
  • Qual foi a primeira pessoa profissional com quem você falou sobre seu gênero? Essa pessoa ajudou? Ela conhecia bem o assunto?
  • Pode me contar um pouco como e por que você começou a vir a esta clínica?
  • Pensando em todas as pessoas importantes da sua vida, quem são seus principais apoios nesse percurso?
  • Pode me dizer como é estar tomando a medicação?
  • Você já pensou em parar a medicação?
  • Seus pais ou responsáveis apoiaram o uso da medicação?
  • Sua família ou outra pessoa já demonstrou preocupação com o custo dos medicamentos?
  • Como o uso desses medicamentos mudou o que você sente em relação a si?
  • Você já considerou interromper o processo de transição?
  • Se você tivesse dúvidas, se sentiria à vontade para falar sobre elas com sua família ou com seu médico?
  • Quem apoia você no processo de transição?
  • Você sente que tem apoio suficiente nesse percurso?
  • Se outros pais, médicos e jovens como você quisessem ouvir seus conselhos, o que você diria a eles? Que conselhos você daria aos pais de jovens como você? Que conselhos daria aos médicos que trabalham com jovens como você? Que conselhos daria a outros jovens não conformes ao gênero [ou usar o termo empregado]? O que você gostaria que jovens cisgênero (não trans) soubessem sobre jovens como você?

Perguntas principais para pais ou responsáveisb

  • Poderia me falar um pouco sobre a criança e sobre sua família?
  • Pode me falar um pouco sobre a criança e sua identidade de gênero?
  • Que termos a criança e sua família usam para descrever o gênero dela?
  • Que pronomes você usa para a criança ou jovem, por exemplo, ele, ela, outro termo?
  • Pode me contar como a criança ou sua família acabou sendo atendida nesta clínica? Pode me falar dos primeiros sinais de que o gênero da criança poderia ser diferente do que você esperava? Como a criança comunicou a necessidade deste serviço, por exemplo verbalmente ou de outra forma?
  • Pode me contar como tem sido esse processo para você, como pai ou mãe?
  • Houve dificuldades antes do encaminhamento para esta clínica?
  • Pode nos contar sobre o processo para obter o encaminhamento para esta clínica?
  • Sua família consultou outros profissionais, como orientação escolar, médico de família, liderança religiosa ou terapeuta, antes de vir à clínica? Se sim, quais? Quanto apoio você sentiu? Como foi recorrer a esses outros recursos? Eles tiveram alguma influência na busca por atendimento aqui? Como você descreveria a sua experiência, ou a da criança, com profissionais de saúde e de assistência social consultados antes desta clínica, como seu médico de família ou pediatra, serviços de orientação, lideranças religiosas ou terapeutas? Que estratégias você ou a criança usaram para falar com esse tipo de profissional?
  • Você já sentiu pressão para uma decisão ou abordagem com a qual não se sentia à vontade? Se sim, essa questão foi resolvida?
  • Algo importante mudou para você ou para a criança desde que começaram a frequentar esta clínica?
  • Há mais alguma coisa que você gostaria de nos contar sobre sua experiência de encaminhamento e de vinda a esta clínica?
  • Como você descreveria a experiência da criança com as outras pessoas da vida dela, como vizinhança, outras crianças, família extensa, comunidade étnica ou cultural, comunidade religiosa?
  • Até onde você sabe, a criança teve problemas de saúde mental, como depressão ou ansiedade? O que aconteceu? Poderia me dar mais detalhes? Você sentiu que a criança poderia estar em risco de suicídio? Tentou buscar ajuda para isso? Que tipo de apoio recebeu? Você acha que os problemas de saúde mental da criança estavam diretamente ligados à sua identidade de gênero, ou outros fatores poderiam estar em jogo?
  • Algo mudou com o tempo no ambiente social da criança (por exemplo, amizades, família, escola)? Como você descreveria essas mudanças? O que você acredita ter influenciado essas mudanças? Como qualificaria essas mudanças? Positivas? Negativas? Por quê?
  • Em relação à experiência social da criança, há momentos importantes que se destacam como particularmente significativos? Pode me dar um exemplo? Pode me dizer o que ajudou ou não ajudou nesses momentos? Por exemplo, pode nos contar como foi para a criança começar a escola?
  • Poderia listar algumas das principais redes de apoio da sua vida, especialmente no que diz respeito a apoiar a expressão e a identidade de gênero da criança?
  • Pode nos contar como foi, para a criança, sair do armário para outras pessoas?
  • Pode nos contar como foi, para a criança, a transição social, como a mudança de nome ou de pronome pessoal?
  • Algo mudou em decorrência desse momento? Quem ajudou ou não ajudou nesse momento?
  • Como tem sido para você a experiência da coparentalidade e da tomada de decisão sobre os cuidados da criança?
  • Você conseguiu ter acesso a grupos de apoio ou a leituras úteis para orientar você?
  • Em geral, o que parece ajudar mais a criança em termos de autoestima, valor próprio e felicidade?
  • Pelo que você observou, o que faz a maior diferença para o bem-estar dela?
  • Há mais alguma coisa que você gostaria de nos contar sobre suas experiências como família e sobre o seu dia a dia com a criança?
  • Algo mudou com o tempo no ambiente social da criança (por exemplo, amizades, família, escola)?
  • Pode me contar como a criança ou sua família acabou sendo atendida nesta clínica?
  • Pode me falar dos primeiros sinais de que o gênero da criança poderia ser diferente do que você esperava?
  • Pode me contar como tem sido esse processo para você, como pai ou mãe?
  • Pode me dizer um pouco como você ou a criança se sentem em relação ao início da puberdade?
  • Quantos anos a criança tinha quando a puberdade começou?
  • Como foi a puberdade para a criança?
  • Quantos anos a criança tinha quando começou a medicação de supressão da puberdade?
  • Que estratégias você ou a criança usaram para lidar com a supressão da puberdade?
  • Como você se sentiu nesse período, como pai ou mãe?
  • Houve algo surpreendente nesse período?
  • Houve implicações sociais para você ou para a criança?
  • Os pares da criança reagiram a isso, caso estejam sabendo? Que estratégias você ou a criança usaram para lidar com a transição? Pode me contar como foi a experiência da criança com os hormônios de afirmação de gênero? Você notou mudanças na criança? Notou mudanças em seu humor ou estado emocional? Notou mudanças físicas na criança? Como você se sentiu nesse período, como pai ou mãe? Houve algo surpreendente nesse período? Houve implicações sociais para você ou para a criança? Como os pares da criança reagiram à transição? E a família próxima e a família extensa? Que estratégias você ou a criança usaram para lidar com a transição? Há mais alguma coisa que você gostaria de nos contar sobre como tem sido para a sua família e para a criança ou jovem passar pelos aspectos mais médicos da transição?

a Ver o material suplementar para o roteiro completo da entrevista. b Ver Authors et al. 2019 para o roteiro integral da entrevista com pais ou responsáveis.

As entrevistas com os pais duraram de 24 a 105 min (média de 57 min) e as entrevistas com jovens, de 24 a 104 min (média de 61 min). Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas, e as pessoas participantes receberam pseudônimos. As entrevistas foram conduzidas por pessoas formadas na abordagem de afirmação trans, duas das quais se identificavam como trans. Todas as pessoas que conduziram entrevistas tinham formação psicossocial ou em intervenção, adquirida por formação universitária ou por experiências anteriores de intervenção comunitária com pessoas trans e não binárias, incluindo jovens.

O projeto foi aprovado por cada um dos comitês de ética responsáveis pelos locais clínicos (Meraki Health Center, CHEO e GDAAY), bem como pelos comitês de ética aos quais estavam vinculadas a coordenação da pesquisa e todas as pessoas da equipe com acesso aos dados brutos. No início de cada entrevista, obteve-se o consentimento por escrito do pai, da mãe ou da pessoa responsável e, conforme a idade, o assentimento ou o consentimento por escrito de JTNB. Como as entrevistas podiam trazer à tona assuntos sensíveis, estabelecemos um protocolo formal de segurança adaptado a cada local. Além de uma lista de recursos entregue às pessoas participantes, quem conduzia as entrevistas recebia instruções claras sobre as etapas a seguir em caso de perigo iminente para uma criança ou em caso de negligência ou abuso. As entrevistas também ocorreram nas clínicas onde as pessoas jovens eram acompanhadas, onde havia sempre profissional de saúde de plantão durante todas as entrevistas, para o caso de uma situação em que o protocolo de segurança precisasse ser acionado. Nenhuma entrevista, porém, exigiu o uso do protocolo de emergência.

No total, foram realizadas 72 entrevistas: em cada clínica, 12 entrevistas foram feitas com 12 JTNB que frequentavam a clínica (num total de 36 entrevistas com jovens), e 12 foram feitas separadamente com um dos pais de cada JTNB, escolhido pela própria família (num total de 36 entrevistas, incluindo 4 pais e 33 mães). Uma das entrevistas foi realizada com a mãe e o pai juntos, a pedido deles. Entre os pais, dois se descreveram como família acolhedora ou como responsáveis legais. Fizemos uma pergunta aberta sobre a etnia dos pais no questionário sociodemográfico. A maioria das pessoas participantes se identificou como branca, canadense ou caucasiana. Três declararam uma herança cultural mista ou origem europeia, e oito preferiram não responder. Cerca de um quarto das pessoas participantes tinha apenas um filho (a criança atendida na clínica), metade tinha dois, e outro quarto tinha de três a cinco. Não perguntamos a idade dos pais. Entre as pessoas jovens, cinco tinham de 9 a 12 anos (14%), 14 tinham de 13 a 15 anos (39%) e 17 tinham de 16 a 17 anos (47%). A média de idade era de 14,5 anos (mediana = 15,0; desvio-padrão = 2,1 anos). Ao todo, 21 jovens eram transmasculinos (designados como do sexo feminino ao nascer) e 15 eram transfemininas (designadas como do sexo masculino ao nascer). A maioria descrevia sua identidade em termos binários, exceto três jovens transmasculinos que usavam termos não binários para descrever sua identidade, embora dissessem usar habitualmente pronomes masculinos para si e embora seus pais descrevessem sua identidade em termos binários. Um quarto jovem, que descrevia sua identidade em termos binários, era descrito pela mãe como “masculino e fluido”.

As entrevistas com pais e com jovens foram analisadas primeiro separadamente por duas pessoas assistentes de pesquisa diferentes (uma para as entrevistas com jovens e outra para as dos pais). Uma terceira pessoa assistente de pesquisa integrou depois o projeto para realizar uma análise comparativa dos discursos de jovens e pais. As três assinam este artigo. Em coerência com nossas escolhas metodológicas, os temas foram gerados indutivamente a partir do material das entrevistas. Primeiro, códigos iniciais foram gerados em nível semântico para os dois conjuntos de entrevistas (JTNB e pais) (Braun e Clarke, 2006), e depois analisados e agrupados em temas. O software de análise de dados MAXQDA foi usado para facilitar o processo. O desenvolvimento dos temas continuou quando começamos a redigir artigos, parte integrante da análise temática que nos ajudou a “definir e refinar” e a escrever a “história” em torno desses temas (Braun e Clarke, 2006). Em seguida, os temas das entrevistas com pais e com jovens foram postos lado a lado e comparados. Inicialmente, foram comparados sete temas surgidos do processo de análise temática: 1. “Exploração do gênero por jovens e sinais de não conformidade de gênero (NCG)” vs “sinais de NCG observados pelos pais”; 2. Reação dos pais aos sinais de NCG; 3. Saída do armário (anúncio e primeiras reações); 4. Sentimentos sobre a saída do armário; 5. Caminho dos pais rumo à aceitação; 6. Sentimentos sobre o processo de transição; 7. Apoio parental. A denominação dos temas foi evoluindo à medida que a análise avançava (Nowell et al., 2017). Para cada tema, comparamos primeiro os dados por díade jovem-pai/mãe, buscando semelhanças e diferenças. Traçamos a linha do tempo de cada pai, mãe e jovem para observar as defasagens e as sincronias. Em seguida, examinamos e comparamos semelhanças e diferenças entre as díades. Dessa análise, surgiram cinco grandes pontos de convergência e de divergência, que apresentaremos nos resultados: a exploração do gênero, a saída do armário, criança que floresce/pais em luto, o apoio parental e a reescrita da narrativa.

Para garantir a credibilidade, a autenticidade e a coerência dos dados, adotamos alguns procedimentos ao longo da coleta e da análise. A pessoa assistente de pesquisa conferiu as transcrições com a gravação de áudio, para garantir que captassem as emoções e as experiências das pessoas participantes, assim como a autenticidade do material de pesquisa. O processo de análise dos dados foi supervisionado pela coordenação da pesquisa, e discussões entre as pessoas assistentes de pesquisa e a coordenação ocorreram regularmente em reuniões de balanço ao longo de todo o projeto, garantindo a credibilidade dos dados (Nowell et al., 2017). Nessas reuniões, a equipe examinava os temas, bem como sua coerência com o conteúdo dos textos, e cuidava de chegar a um acordo sobre a interpretação. Em caso de desacordo, a equipe reexaminava junta o trecho e chegava a uma decisão por meio da discussão, até alcançar um consenso. Os dados do conjunto de jovens e do conjunto de pais também foram publicados separadamente antes da comparação das perspectivas, o que submeteu à avaliação por pares as interpretações iniciais das perspectivas de jovens e de seus pais. Na etapa de redação deste artigo, cada pessoa da equipe que participou do processo também pôde verificar a interpretação final dos dados, garantindo a coerência da interpretação.

Resultados

Ao comparar as entrevistas de jovens trans com as de seus pais, observamos que vivem realidades e temporalidades diferentes. Por exemplo, todas as pessoas JTNB exploraram seu gênero muito antes de conversar sobre isso com os pais, ou antes de os pais perceberem seu gênero pela primeira vez. Nossos resultados também mostram que pais e JTNB viveram marcos diferentes em linhas do tempo semelhantes: assim, enquanto jovens sentiam alívio ao começar a viver como seu eu autêntico depois de terem esperado muito tempo para isso, os pais eram lançados numa realidade muitas vezes nova, geralmente carregada de sentimentos de luto e de preocupação com a criança. Também examinamos as diferenças entre o que jovens e seus pais nos disseram sentir internamente e o que disseram demonstrar externamente aos outros. As defasagens e divergências entre as experiências de jovens e as dos pais eram particularmente marcantes durante a exploração do gênero, a saída do armário e o processo de transição (criança que floresce e pais em luto), mas notamos que o apoio parental era um marco que aproximava jovens e pais, até compartilharem finalmente uma compreensão e uma narrativa comuns de seu percurso.

A exploração do gênero

Antes que JTNB saíssem do armário para eles, muitos pais não sabiam que a criança podia se identificar com um gênero diferente daquele que lhe fora atribuído ao nascer. A análise das entrevistas com pais e jovens sugere que pais e jovens estão fora de fase quando a criança começa a questionar seu gênero. Isso aparece até nas narrativas de crianças que fizeram a transição na primeira infância (a criança afirmada). Embora muitos pais notassem que a criança agia fora das normas de gênero ou manifestava algum desconforto com o gênero atribuído, com frequência interpretavam isso como uma orientação sexual não heterossexual ou como simples não conformidade de gênero. Por exemplo, Juliette, uma participante transfeminina, começou a pensar que era uma menina aos 6 anos. Seus pais viam que ela era diferente e interpretavam isso como sinal de que talvez fosse gay.

“Para ser honesta com você, Juliette tem um irmão mais velho. Eu tinha criado um menino e via a diferença entre os dois. E era meio que, entre aspas, ‘uma piada’. Eu vivia dizendo para a minha melhor amiga, tipo, estou falando de quando Juliette tinha 3 anos. […] ‘Se Juliette não for gay, sabe, eu vou ficar muito surpresa.’” (responsável por Juliette)

Em sua entrevista, Juliette afirmou que o pai achava que ela era gay e até tentou fazer com que reprimisse sua expressão de gênero, o que a fazia sentir vergonha.

“Eu tinha 6 anos quando pela primeira vez pensei: ‘Talvez eu seja uma menina. Talvez não.’ […] E aí, quando eu tinha 8 anos, comecei… Tipo, meu pai sempre dizia: ‘Você é gay, você é gay, você é gay.’” (Juliette, transfeminina)

Houve também pais que disseram não ter notado nenhum sinal evidente porque, segundo eles, não havia nenhum. Por exemplo, Brenda achava que seu filho transmasculino não tinha sido particularmente masculino ao crescer.

“E não é que [pausa] ele sempre tenha se interessado por coisas de menino quando era bebê ou pequeno, nada disso, nunca foi o caso. As roupas dele, hum, [pausa] no último ano ele tem usado calça de moletom e camiseta. Nunca pensei muito nisso. [risos] Então, é, fui pega totalmente de surpresa.” (responsável por Josh)

A entrevista do filho, no entanto, mostra que ele sempre expressou seu gênero de maneira andrógina: “Nunca fui uma menina muito menininha, sempre fui… tipo, sempre me vesti de um jeito bem andrógino. Então nunca… minha mãe comprava umas roupas superfemininas e tal, e eu nunca usava.” (Josh, transmasculino)

Em alguns casos, as pessoas jovens disseram que não expressavam seu gênero de outro modo porque não entendiam necessariamente o que estava acontecendo. Nesses casos, a saída do armário muitas vezes foi vivida pelos pais como uma surpresa.

“Tia nunca disse: ‘Não quero smoking, quero um vestido.’ Tia nunca [deu nenhuma pista]. [Não havia] nenhuma pista, nenhuma pista, nenhuma pista mesmo, pista nenhuma.” (responsável por Tia)

“Eu não sabia explicar o que sentia, então simplesmente ficava muito irritada. Eu meio que canalizava minha raiva nos videogames, mas aí, quando perdia, bom, eu batia na mesa, batia nas paredes.” (Tia, transfeminina)

Essas defasagens entre o que jovens vivem e sentem e o que os pais conseguem perceber (que podem variar conforme o grau de informação dos pais e conforme jovens manifestem forte não conformidade de gênero ou guardem a reflexão para si) parecem criar um atraso na compreensão da situação pelos pais, o que afeta sua reação à saída do armário.

A saída do armário

Algumas pessoas jovens parecem ter adiado a revelação do desconforto com seu gênero, ou a saída do armário para os pais, porque lhes faltavam palavras para expressá-lo ou porque queriam proteger os pais. Por exemplo, Jim contou que adiou sua saída do armário por causa de problemas emocionais ou de saúde mental dos pais. Notamos também que os pais que perceberam cedo que a criança podia ser trans ou de gênero diverso tiveram menos dificuldade para se adaptar à nova realidade.

A saída do armário também foi vivida de modo muito diferente por pais e jovens. Jovens muitas vezes a descreviam como um alívio depois de anos escondendo sua identidade e se preocupando em revelá-la aos pais, enquanto para os pais era uma nova realidade a assimilar e à qual se adaptar. Antes de sair do armário, jovens disseram ter sentido ansiedade porque temiam a reação dos pais. Essa apreensão levou algumas pessoas jovens a adiar a revelação, como conta Juliette:

“Eu tentava… eu estava tentando criar coragem para contar para a minha mãe. Tipo, eu escrevi, escrevi tantos bilhetes e amassava e jogava no lixo. Eu pensava: ‘Tá. Hoje é o dia. Hoje é o dia.’ E aí eu vou para casa. Vou para a escola, volto para casa, vou dormir. E penso: ‘Esqueci de contar para ela.’ […] Eu só estava preocupada. Não sabia qual ia ser a reação. Então meio que guardei para mim.” (Juliette, transfeminina)

Ao contrário do que temia, quando Juliette finalmente saiu do armário para a mãe, esta reagiu com aceitação imediata:

“E eu disse a ela: ‘Tudo o que importa para mim, no fim das contas, é que você seja feliz e tenha saúde, que seja uma pessoa equilibrada. Para mim não faz diferença. Você precisa ser quem você é para ser feliz.’ E acho que ela ficou um pouco surpresa com isso, mas essa é mais ou menos a abordagem que adotamos, e é realmente o que eu sinto.” (responsável por Juliette)

Embora o estresse ou a ansiedade que JTNB relataram ter sentido antes de sair do armário variassem muito, muitas dessas pessoas jovens relataram um mesmo sentimento de alívio depois da saída do armário, especialmente quando os pais reagiam melhor do que o esperado, o que muitas vezes aconteceu em nossa amostra. Isso pode ser um viés de amostragem, já que todas as famílias que encontramos davam apoio suficiente para acompanhar a criança à clínica especializada a fim de explorar a transição médica e para participar do projeto. “Foi como se essa pressão enorme tivesse sido tirada de repente. […] Ser aceito, e [não ter mais que] me esconder.” (Jeff, transmasculino). Mas, qualquer que fosse a reação dos pais à saída do armário, muitos pais começaram, a partir desse momento, a sentir estresse, preocupação e até pesar, porque de repente precisavam aceitar a identidade emergente da criança e lidar com uma situação que lhes era totalmente desconhecida. Foi o caso da mãe de Jeff:

“A aceitação, é, sabe, é um processo de luto. Não estou perdendo meu filho, ainda tenho meu filho, mas não é o mesmo filho. Bom, não é que não seja o mesmo filho, é [suspiro]. É que, não consigo explicar. É algo diferente.” (responsável por Jeff)

A saída do armário é, portanto, um marco em que pais e criança vivem uma assincronia de emoções e uma divergência de compreensão. Enquanto a criança vem pensando em seu gênero há muito tempo, sua saída do armário é interpretada pelo pai ou pela mãe como repentina, já que essa realidade acaba de lhe ser apresentada.

Criança que floresce, pais em luto

Depois da saída do armário, a maioria dos pais disse que precisou de tempo para se adaptar à nova realidade da criança. Aqui, de novo, notamos uma diferença importante nas narrativas: enquanto jovens descreviam o começo de uma vida mais feliz nesse momento (em alguns casos, até abandonando comportamentos autodestrutivos), os pais, por sua vez, estavam apenas iniciando um percurso de adaptação e, às vezes, de luto. Para os pais, isso incluía o luto pelo uso do nome que haviam dado originalmente à criança (frequentemente chamado de “nome morto”, dead name, pelas pessoas trans, porque não o usam mais). Por exemplo, a pessoa responsável por Debbie ainda se emocionava ao falar do assunto durante a entrevista: “Eu dei a ela o nome de [nome morto]. E partiu totalmente o meu coração quando ela escolheu o próprio nome. [chora] E nem é um nome de que eu goste [ri].” Em contraste, sua filha Debbie citou expressamente “us[ar] [seu] nome de menina, para esquecer [seu] nome de menino de antes” como uma das principais coisas que a faziam se sentir bem.

Não surpreende que o processo de transição como um todo muitas vezes tenha sido percebido e vivido de modo diferente pelos pais e pela criança. Jovens muitas vezes demonstravam entusiasmo para começar a transição médica e queriam que ela fosse mais rápida, enquanto alguns pais pareciam vivê-la como um choque, um processo em que queriam avançar devagar:

“Percebi que me aceitava muito mais e que era muito menos ruim me olhar no espelho depois que comecei a tomar os bloqueadores [da puberdade] [um tratamento prescrito a jovens trans para pausar a puberdade].” (Jeff, transmasculino)

“É, leva tempo para se acostumar. Na primeira vez que [nome morto] recebeu os bloqueadores, chorei 2 h sozinha à noite no meu quarto, sabe, foi. Aceitar a perda da filha.” (responsável por Jeff)

Alguns pais também compartilharam suas preocupações com a possibilidade de arrependimento futuro, sobretudo porque, do ponto de vista deles, a transição médica avançava rapidamente e, para alguns, parecia ter começado de repente e “do nada”. Para muitas pessoas jovens, no entanto, o processo de transição começava depois de meses ou até anos de reflexão que os pais desconheciam.

“E sou eu que tenho que tomar essa decisão. Certo? E depois viver com as consequências. Certo? E eu não quero ter alguém de 25 ou 30 anos me dizendo: ‘Por que você me deixou fazer isso? Eu tinha 15 anos.’ Certo? Acho que esse é o meu maior medo, porque eu sou tão, porque eu vejo tanto do feminino, tantos traços femininos […]. Mas Joey é impulsivo. Tipo, Joey: ‘Eu quero, eu quero, eu quero.’ E dois minutos depois: ‘Não quero mais.’ Certo? Então isso faz parte da minha preocupação.” (responsável por Joey)

“Sei que minha mãe me diz o tempo todo que achava que eu ia ser só uma menina moleca ou algo do tipo. Mas eu sempre soube. Nunca foi diferente. Só chegou num ponto em que, eu só queria parar de falar disso. […] É isso. Mas nunca mudei de ideia nem nada. Isso nunca mudou. […] Nesses dias [difíceis], eu penso: ‘Isso precisa acontecer agora. Isso tem que acontecer.’” (Joey, transmasculino)

Notamos, porém, também que, em algumas famílias, era o pai ou a mãe que parecia querer que a transição fosse mais rápida e que as mudanças acontecessem mais depressa para a criança, seja por pensar que isso deixaria a criança mais feliz, seja por pressa de virar a página e seguir em frente. Na mesma linha, alguns pais relataram ter mais dificuldade quando a criança expressava seu gênero de forma não binária, como a mãe de Barbara, que parecia ter pressa “de ter uma filha” em vez de lidar com a expressão de gênero ambígua da criança:

“Ao mesmo tempo, às vezes, eu queria que fosse mais rápido, eu penso, bom, aí você ainda parece um rapaz, mas você quer isso ou não […] de algum jeito, mal posso esperar para que ela tome estrogênio, tenha seios e que isso faça diferença. Se desse para fazer tudo em uma semana, tá, vamos lá. […] Aí estaria feito, caramba, estaria acabado, aí eu teria uma filha.” (mãe de Barbara)

Em suma, o processo de transição é vivido por jovens como uma libertação longamente esperada, um processo pelo qual finalmente podem expressar seu eu de gênero autêntico, enquanto, para os pais, o início do processo de transição gera choque e hesitação, pois precisam fazer o luto da imagem equivocada que tinham da criança. Ao mesmo tempo, descobrir a identidade autêntica da criança facilita o processo de aceitação.

O apoio parental

Depois que a criança saiu do armário, a maioria dos pais de nossa amostra procurou ajudá-la e apoiá-la. Movidos pela preocupação com o bem-estar da criança, esses pais se envolveram ativamente, enfrentando os próprios medos e perguntas sem resposta, informando-se ou acompanhando a criança em seu processo de transição. A maioria das pessoas jovens relata sentir o apoio dos pais, mesmo nos casos em que o pai ou a mãe disse na entrevista que às vezes ainda tinha dificuldade para aceitar a identidade da criança e lidar com a situação. Alguns pais pareciam esconder esses sentimentos da criança para apoiá-la melhor, enquanto algumas crianças tentavam esconder os próprios sentimentos dos pais para não preocupá-los.

“[Sobre fazer confidências à mãe] Bom, depende do assunto. Mas me surpreenderia se ela, porque ela chora fácil, então é sempre mais difícil conversar com ela, mas fora isso, não, posso falar de tudo. […] Claro que toda vez eu nunca sei se ela está chorando porque está orgulhosa de onde cheguei ou porque está com dificuldade de entender.” (Jim, transmasculino)

Envolver-se ativamente e demonstrar apoio parecia, por sua vez, ajudar os pais em seu processo de aceitação. De fato, saber finalmente que podiam fazer algo para deixar a criança mais feliz era um alívio para muitos pais que, antes da saída do armário, haviam sentido impotência para ajudar a criança às voltas com dificuldades como problemas de saúde mental. Aliás, esse apoio muitas vezes era mútuo: quando os pais apoiavam o processo de transição da criança, jovens também encontravam maneiras de ajudar os pais a atravessar esse percurso, envolvendo-os e tranquilizando-os. Com isso, os pais tendiam a ganhar confiança, com mais ferramentas para apoiar a criança.

“Porque muitas vezes é mais o Jim que me explica. Em que pé estão as coisas, como ele está se sentindo com isso, tudo isso, é principalmente ele que me passa as informações. […] ‘Não se preocupa, mãe, eu estou muito bem.’” (responsável por Jim)

Algumas pessoas jovens ajudaram os pais no processo preparando-os e informando-os sobre as questões enfrentadas pelas pessoas trans. Outras disseram ter envolvido o pai ou a mãe na escolha do nome: “Não sei o que me fez ficar com ‘Jason’. Eu só, tipo, perguntei para a minha mãe, acho, um dia: ‘Que nome você teria me dado se eu fosse um cara?’ Ela disse: ‘Jason.’ Eu disse: ‘Tá.’” (Jason, transmasculino). Gestos simbólicos como esse pareciam importantes para alguns pais.

Em muitas famílias, pais e criança pareciam ter se aproximado em decorrência do percurso compartilhado no processo de transição, e à medida que o bem-estar da criança melhorava.

A criança não vinha mais até mim. Era “Boa noite” e só. A gente não interagia mais e aí, bom, desde que a gente, desde que a gente começou a vir aqui [à clínica especializada], agora que temos uma espécie de acompanhamento estruturado, é fácil. Agora eu ganho abraços, eu ganho, a gente vê TV, a criança voltou a se aconchegar comigo. Ficou mais fácil. Ficou mais fácil [repetição na gravação]. O sorriso voltou também. (responsável por Jim)

Então agora eu tenho meus bloqueadores e minha mãe, ela está contente, ela vê as mudanças de antes de eu sair do armário até hoje, estou muito mais feliz. Estou fazendo muito mais amigos novos, saio mais e estou mais, simplesmente, feliz de levantar de manhã para ir à escola, e durmo melhor e tudo, então minha mãe está simplesmente contente de ver isso. (Jim, transmasculino)

Engajar-se no processo de transição com a criança parecia, assim, permitir que os pais fortalecessem a relação com ela e que ambos se aproximassem.

Reescrever a narrativa

No momento da entrevista, a maior parte das narrativas de pais e crianças parecia ter se alinhado na descrição da realidade presente e, em alguns casos, do passado. Por exemplo, alguns pais que desconheciam a identidade transgênero da criança antes da saída do armário disseram que, olhando para trás, agora conseguiam ver o que provavelmente tinham sido sinais precoces da identidade ou do questionamento da criança, que na época não haviam notado nem compreendido como tais.

“Eu não diria que tivéssemos alguma suspeita antes de ele vir nos contar […] mas depois que ele nos contou e eu pude saber mais sobre o que ele sentia, muita coisa passou a fazer sentido. […] E eu me sinto boba agora, por nunca ter me dado conta de que aquilo era mais do que simples reclamação dele. […] E agora parece óbvio.” (responsável por Joseph)

Notamos também que alguns pais e jovens usavam as mesmas histórias ligadas à transição para contar sua trajetória nas respectivas entrevistas, o que sugere que tinham conversado sobre essas experiências e, assim, sincronizado suas narrativas. Por exemplo, algumas pessoas jovens contavam histórias da primeira infância, ilustrando um questionamento precoce do gênero, de que não se lembravam, mas que os pais lhes haviam contado. Isso era mais frequente entre jovens que tinham expressado seu gênero cedo na vida. Os pais às vezes contavam essas mesmas histórias em sua própria entrevista, como o primeiro indício, para eles, de que a criança era “diferente”. Da mesma forma, algumas pessoas jovens citavam fotos de infância tiradas pelos pais como evidência de um questionamento precoce do gênero. Por exemplo, Debbie, uma jovem participante transfeminina, descreveu uma foto que a mãe tinha tirado dela de “pijama de menina […] com presilhas”. Apoiar-se nesses detalhes compartilhados pelos pais parecia permitir que jovens enriquecessem sua história e talvez reforçassem a sensação de que a compreensão atual de seu gênero resultava de um longo percurso de busca de si e de exploração.

Esses exemplos mostram como as perspectivas dos pais e as da criança se encontravam e se complementavam para confirmar a identidade da pessoa jovem. Assim como os pais podiam levar jovens a revisitar o passado com um novo olhar, jovens podiam levar os pais a fazer o mesmo. Alguns pais descreveram o processo de transição como uma experiência reveladora, que mudou sua visão da parentalidade e das dinâmicas familiares, induzindo um compromisso afetivo mais profundo entre eles e a criança. Com o desejo de apoiar a criança, esses pais ampliaram sua consciência das questões de gênero e se comprometeram a aprender sobre as realidades trans. Alguns pais afirmaram que essa experiência os tornou pais melhores.

“E, é, isso abre minha mente e meu coração, e percebo que é tão fácil odiar e ficar com raiva, e… mas é tão melhor entender, tirar um tempo para entender e ser de fato uma pessoa gentil. […] Isso nos torna pais melhores, acho. […] Menos julgadores, saber deixar ir.” (responsável por Jason)

Em resumo, pais e filhos começaram o processo de transição a partir de lugares e perspectivas muito diferentes. Nossos dados mostraram como conseguiam sincronizar suas narrativas ao longo do tempo, por meio do diálogo e da ação mútua, aproximando-se às vezes afetivamente mais do que nunca.

Discussão

Até onde sabemos, este estudo foi o primeiro a coletar dados de forma diádica, mas separada, junto a uma ampla amostra qualitativa de pais e de seus filhos JTNB. Nossa análise temática permitiu ver que pais e crianças podem viver muitos desencontros ao longo do percurso de exploração do gênero, de saída do armário e de adaptação ou transição. De fato, a comunicação sobre gênero pode ser complicada, o que levou algumas pessoas jovens a esconder sua identidade por anos antes de revelá-la aos pais. Os pais também às vezes interpretavam mal ou não conseguiam ver os sinais da identidade ou do questionamento de gênero da criança, porque desconheciam as questões trans ou a própria existência de pessoas trans. Nesses casos, a revelação muitas vezes gerava neles choque, pesar e luto, fenômeno amplamente descrito por Coolhart et al. (2018) e por Wahlig (2015).

Analisar simultaneamente as narrativas dos pais e as da criança nos permitiu aprofundar nossa compreensão dos processos e ver que os percursos de pais e crianças rumo à transição muitas vezes estão completamente fora de fase e às vezes parecem ir em direções opostas. A Figura 1 ilustra o processo.

Esquema que compara, numa mesma linha do tempo, o percurso da criança e o do pai ou da mãe, do questionamento do gênero à saída do armário e depois à transição
Figura 1. Criança e pais diante da tomada de consciência do gênero, da saída do armário e do processo de transição (esquema original em inglês)

Primeiro, a criança começa a questionar seu gênero. Isso pode vir acompanhado de sentimentos de desconforto, disforia e ansiedade. Muitas pessoas jovens temem a reação dos pais e sentem que precisam esconder sua identidade autêntica, o que pode afetar sua autoestima e sua saúde mental. Enquanto isso, a maioria dos pais parece ignorar ou negar os sinais, mas muitas vezes começa a se preocupar quando a criança passa a ter dificuldades de saúde mental. A revelação, ou saída do armário, é um momento-chave, que inverte a situação. Os pais podem sentir choque, começar a fazer o luto da criança e se angustiar com a tomada das decisões certas para ela, com sua segurança e aceitação etc. (em consonância com resultados anteriores sobre as reações parentais: Pullen Sansfaçon et al., 2020b; Aramburu Alegria, 2018; Coolhart et al., 2018; Wahlig, 2015), enquanto jovens sentem alívio porque finalmente podem ser quem são, parar de esconder sua identidade e começar um processo de transição que reduz os sentimentos de disforia. O bem-estar de jovens começa a melhorar à medida que sentem esperança e entusiasmo na expectativa dessas mudanças. Ao apoiar a criança, os pais podem aliviar as próprias preocupações. De fato, envolver-se ativamente no processo de transição da criança (permitindo que explore seu gênero, defendendo seus direitos ou concentrando-se em sua felicidade) foi muitas vezes descrito pelos pais nas entrevistas como uma forma de superar os desafios e de se reconectar com a criança. Coolhart et al. (2018) também explicam como os pais tendem a priorizar a felicidade da criança como mecanismo de enfrentamento para superar o processo de luto, o que também se destaca claramente em nossos dados.

À medida que a criança afirma e assume sua identidade de gênero, os pais conseguem finalmente ver a criança e reconhecer que ela nunca foi a criança que pensavam. Muitas vezes, isso acontece retrospectivamente, quando pai ou mãe e criança reinterpretam juntos o passado sob uma nova luz. Observamos também que permitir que a criança explorasse seu gênero, e ver as mudanças positivas que se seguiram, ajudou a aliviar as preocupações dos pais com arrependimentos futuros e os ajudou a aderir à decisão da criança, o que confirma a literatura anterior sobre o tema (Aramburu Alegria, 2018). O processo que leva os pais que decidiram se engajar ativamente no apoio à pessoa jovem, apesar de sua relutância e de seus medos, também parece conduzir à criação de um círculo virtuoso, isto é, um processo de mudança positiva que contribui ele mesmo para produzir outras mudanças positivas. De fato, depois que a criança se sentiu inicialmente capaz de revelar sua identidade de gênero ao pai ou à mãe, e depois de superado o choque inicial, o apoio crescente dado à pessoa jovem a ajuda a se sentir mais feliz e capaz de viver um eu de gênero mais autêntico, o que por sua vez alimenta nos pais a segurança quanto à decisão de apoiar a pessoa jovem, reforçando o apoio que lhe é dado. Nas famílias que dão apoio, todo esse processo geralmente leva a dinâmicas familiares melhores, a um vínculo afetivo mais próximo e a um compromisso mútuo mais forte. A Figura 2 ilustra o processo.

Esquema circular do círculo virtuoso do apoio entre os pais que apoiam e a criança cujo bem-estar melhora
Figura 2. O círculo virtuoso do apoio (esquema original em inglês)

Nosso estudo também revelou uma defasagem entre os pais e a criança em relação a uma expressão de gênero que não correspondia às expectativas sociais de nenhum dos dois gêneros binários. Notadamente, enquanto algumas pessoas jovens se sentiam à vontade com uma expressão de gênero “entre os dois” e não sentiam urgência de acessar certas intervenções médicas, os pais expressavam o desejo de ver as mudanças acontecerem mais depressa, muitas vezes de forma binária. Isso ecoa Aramburu Alegria (2018), que explica que os pais relatavam ansiedade quando a expressão de gênero da criança era fluida ou quando ela manifestava fluidez de gênero “entre os gêneros” (p. 142). Embora todas as pessoas jovens tenham dito ter se beneficiado das intervenções médicas recebidas, nossos dados nos levam a concordar com a recomendação desse estudo de educar melhor a sociedade sobre a diversidade das identidades de gênero. Também é importante notar que, embora o fato de jovens trans se dedicarem a atividades associadas ao gênero atribuído seja com demasiada frequência interpretado como vacilação em sua identidade, isso pode na verdade indicar que a criança se sente suficientemente à vontade e segura em seu gênero autêntico para já não sentir tanta pressão para provar seu gênero aos outros (Wong e Drake, 2017).

Ao destacar essas diferenças no percurso de transição, queremos sublinhar que os pais e a criança muitas vezes têm necessidades diferentes, que as equipes que os acompanham nesse processo deveriam levar em consideração. Jovens muitas vezes têm certeza de suas decisões e precisam acessar ferramentas que lhes permitam expressar seu gênero (o que muitas vezes implica transição social e médica), enquanto os pais precisam aceitar a identidade da criança e de garantias quanto às motivações da criança e às consequências de suas decisões. Algumas linhas de trabalho tendem hoje a promover uma abordagem de afirmação trans no acompanhamento da criança, o que significa deixá-la viver seu gênero sem restrições nem pressões (Keo-Meier e Ehrensaft, 2018).

Notamos que um pequeno número de pais de nossa amostra percebeu cedo que a criança era diferente e a deixou explorar livremente seu gênero, sem tentar reprimi-lo. Nessas famílias, observamos menos assincronia, e o processo de transição parece mais tranquilo, já que a criança não precisa sair formalmente do armário para os pais, como sugere Travers (2018) e como ecoa a pesquisa de Aramburu Alegria (2018) sobre pais. Isso reforça a importância de educar todos os pais sobre a existência e as realidades das identidades trans, para que possam acompanhar o mais cedo possível a exploração do gênero da criança, se e quando ela ocorrer. Como sugerem estudos anteriores (Coolhart et al., 2018; Wong e Drake, 2017; Pullen Sansfaçon et al., 2015; Pullen Sansfaçon et al., 2020b), acreditamos que ter mais conhecimento sobre as questões trans ajudaria os pais a se sentirem mais preparados para enfrentar uma situação assim e provavelmente lhes permitiria ficar mais atentos a qualquer questionamento de gênero, o que, por sua vez, ajudaria a diminuir suas preocupações. De fato, os pais de nosso estudo muitas vezes citavam, entre o que os ajudou no caminho da aceitação, ter informação e saber como o apoio parental promove o bem-estar de JTNB (por exemplo, reduzindo o risco de suicídio).

Implicações para a prática, as políticas e a pesquisa

Os dados obtidos tanto com os pais quanto com jovens esclarecem como os pais podem ter desconhecido o longo questionamento de gênero que a criança relatou ter vivido antes de sair do armário. Esse resultado é importante, pois questiona a confiabilidade dos estudos que se baseiam exclusivamente em relatos dos pais para compreender as experiências e perspectivas de jovens (ver, por exemplo, o estudo de Littman, 2018, baseado em relatos de pais e que sugere uma nova trajetória de desenvolvimento para crianças). Por meio de entrevistas com crianças e seus pais, nossos dados mostram que jovens muitas vezes começam seu percurso de questionamento de gênero bem antes de levá-lo pela primeira vez ao conhecimento do pai ou da mãe, muitas vezes porque temem a reação dos pais ou, em alguns casos, porque querem poupá-los de uma preocupação desnecessária. Em alguns casos, os pais interpretaram mal ou ignoraram sinais mais visíveis. Isso sugere que, embora os pais possam se surpreender com a identidade da criança quando ela a revela pela primeira vez (sobretudo se não haviam notado nenhum sinal antes), isso não significa que a identidade de gênero da pessoa jovem tenha surgido de repente ou “rapidamente”, como já se sugeriu (Littman, 2018). Nossos dados mostram que a maioria das pessoas jovens na verdade questionou seu gênero durante anos, esperando ter certeza de sua identidade de gênero ou que o momento fosse oportuno antes de revelá-la aos pais. A pesquisa que busca compreender o desenvolvimento e a afirmação da identidade de gênero em crianças não deveria se apoiar apenas nos relatos dos pais, porque suas perspectivas muitas vezes são muito diferentes, como evidencia este estudo. Por isso, é essencial colocar a voz de JTNB no centro desse tipo de pesquisa. Além disso, nossos resultados destacam a importância do tempo no processo de adaptação e as diferentes experiências que podem surgir dele. Como este projeto se apoiou em lembranças de experiências passadas, pesquisas futuras deveriam explorar longitudinalmente as questões de tomada de consciência e de afirmação do gênero, para captar com mais precisão as diferenças de experiência entre pais e criança. Por fim, no plano da prática, nosso estudo reitera a importância de oferecer apoio separadamente aos pais e a JTNB, pois ambos têm necessidades importantes, mas diferentes, a atender em seu percurso rumo à aceitação e à afirmação.

Limitações do estudo

Os resultados deste estudo devem ser interpretados com cautela. Como as pessoas participantes foram recrutadas em clínicas onde já recebiam, ou estavam prestes a começar a receber, cuidados de afirmação de gênero, os resultados não podem ser generalizados para todas as pessoas jovens e só devem ser aplicados a esse grupo específico. Além disso, os pais precisavam concordar em participar de uma entrevista para que a criança pudesse participar, o que significa que o apoio desses pais à criança pode ser considerado razoável ou até forte. As experiências de pais e jovens em famílias em que o apoio parental é limitado podem ser diferentes. No caso de jovens que deram entrevista na presença do pai ou da mãe, essa presença pode ter inibido suas respostas. Por fim, o tamanho de nossa amostra e sua diversidade sociodemográfica limitada restringem a generalização de nossos resultados. Por exemplo, nossa amostra de pais era composta principalmente de mães, de modo que temos poucos dados sobre a perspectiva dos pais homens. Também foram poucos os pais que mencionaram uma experiência de migração internacional ou que relataram uma ascendência diferente da branca de origem europeia. Estudos futuros se beneficiariam de maior diversidade, embora recrutar amostras mais diversas possa trazer desafios significativos nesse aspecto. Estudos futuros poderiam examinar como a experiência dos pais em relação à transição da criança é influenciada pelo gênero do pai ou da mãe.

Conclusão

Explorar ao mesmo tempo as experiências de jovens e as de seus pais no processo de saída do armário, de adaptação à nova realidade e de aceitação permitiu revelar a assincronia de experiências e emoções que cada parte atravessa. Também nos permitiu descobrir, por um lado, que o ato de apoiar a criança permitia aos pais recuperar algum controle da situação: enquanto muitos pais podiam, no início, sentir impotência para ajudar a pessoa jovem, que estava infeliz e, em alguns casos, se autolesionava ou tinha pensamentos ou comportamentos suicidas, descobrir e compreender a identidade de gênero da criança os fez perceber que tinham o poder de ajudá-la a melhorar. Por outro lado, jovens que encontravam aceitação e apoio e que finalmente podiam ser quem são ganhavam em felicidade e abertura, o que às vezes fortalecia os laços com os pais. Essas mudanças positivas facilitavam, para os pais, aceitar a identidade da criança e ganhar confiança de que a transição era o caminho certo e fazia sentido dentro da história da criança.

Complexe Systémique: a reter

A força deste estudo está em seu dispositivo: ouvir separadamente a criança e o pai ou a mãe de uma mesma família e depois sobrepor suas linhas do tempo. Vê-se que a saída do armário não marca um começo para ambos: é o fim de um longo trabalho silencioso para a pessoa jovem e o início de um luto para os pais. Para a clínica sistêmica, surgem três pistas: oferecer espaços separados, porque as necessidades e os ritmos diferem; apoiar a releitura compartilhada do passado (fotos, histórias), que costura uma história comum; identificar o círculo virtuoso em que o apoio parental acalma a criança, que por sua vez tranquiliza os pais. O estudo também convida à cautela diante de teses baseadas apenas em relatos parentais. Seus limites contam: famílias que já davam apoio, recrutadas em clínicas, sobretudo mães, pouca diversidade cultural e uma leitura retrospectiva. A pressa de alguns pais rumo a uma transição binária lembra, por fim, que o acompanhamento deve seguir o ritmo da pessoa jovem. Para ler junto com o artigo sobre tratamentos de base familiar para jovens LGBTQ+ com ideação suicida e com o artigo sobre as negociações familiares de pessoas queer e trans racializadas na universidade.

Notas do original

Conflito de interesses. A equipe de pesquisa declara não haver conflito de interesses.

Aprovação ética. Todos os procedimentos realizados em estudos envolvendo participantes humanos estiveram de acordo com os padrões éticos do comitê de pesquisa institucional ou nacional e com a Declaração de Helsinque de 1964 e suas emendas posteriores, ou com padrões éticos comparáveis. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Artes e Ciências da Universidade de Montreal, instituição da coordenação da pesquisa (número de aprovação CERAS-2016-17-186-P); pelos comitês de ética responsáveis pelos locais clínicos: o Health and Research Ethics Board (HREB) da Universidade de Manitoba (número de aprovação HS20652(H2017:112)), o comitê de ética em pesquisa do CHEO (número de aprovação CHEOREB# 16/176X) e o Institutional Review Board da Faculdade de Medicina da Universidade McGill (número de aprovação A06-B27-17B); bem como pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade do Quebec em Montreal, instituição de uma das pessoas da equipe com acesso aos dados brutos (número de aprovação 2241_e_2017).

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Tradução não oficial em português de Criança que floresce, pais em luto: um estudo qualitativo com crianças trans e seus pais diante da transição, de Annie Pullen Sansfaçon, Denise Medico, Morgane Gelly, Valeria Kirichenko e Frank Suerich-Gulick, Journal of Child and Family Studies, vol. 31, no 7 (2022), doi: 10.1007/s10826-021-02178-w, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (destaques reunidos no quadro do resumo, tabela apresentada em listas, figuras em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Blossoming Child, Mourning Parent: A Qualitative Study of Trans Children and Their Parents Navigating Transition”, publicado em Journal of Child and Family Studies (2022) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Pullen Sansfaçon, A., Medico, D., Gelly, M., Kirichenko, V., et Suerich-Gulick, F. (2022). Criança que floresce, pais em luto: um estudo qualitativo com crianças trans e seus pais diante da transição (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/crianca-que-floresce-pais-em-luto-criancas-trans-e-seus-pais-diante-da-transicao (Obra original publicada em 2021 em Journal of Child and Family Studies, 31(7), 1771-1784 (2022); republicada em 2022 por Journal of Child and Family Studies, https://link.springer.com/article/10.1007/s10826-021-02178-w)

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