Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar
A pesquisa não cansa de repetir: é a relação terapêutica que faz a eficácia de uma terapia. Devemos concluir que a teoria pouco importa? Rudi Dallos e Arlene Vetere sustentam o contrário: a relação é o que a terapia tem de mais complexo, e ela pede uma teoria. A pista que propõem: o apego, a base segura de Bowlby e uma atenção renovada à emoção, inclusive nas divergências com as famílias sobre o diagnóstico.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de “Qual é o lugar da teoria na terapia familiar contemporânea?” Teorizar o conceito de relação terapêutica, de Rudi Dallos e Arlene Vetere, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2025), doi: 10.1002/anzf.70039, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A figura, sem legenda no original, é reproduzida na versão em inglês com uma legenda descritiva acrescentada; os pontos-chave foram colocados no quadro do resumo; o trecho da sessão é apresentado em forma de diálogo. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
É nesse solo quente e fértil da segurança que a curiosidade começa a florescer.
Rudi Dallos e Arlene Vetere
Resumo
Este artigo sustenta que a constatação de que o ingrediente-chave de toda forma bem-sucedida de psicoterapia é a relação terapêutica exige que essa relação seja teorizada e submetida à pesquisa. Há o risco de a relação terapêutica ser descartada como um conceito intangível, feito de qualidades como a “gentileza”, o “respeito” e a “simpatia” com as pessoas, os casais e as famílias. O artigo sustenta, ao contrário, que ela é uma das áreas mais importantes, que exige o desenvolvimento de uma base teórica sólida e de pesquisas que a sustentem. Argumenta-se que uma forte candidata a teoria pertinente e aplicável na clínica é a teoria do apego e seus vínculos com a neurociência contemporânea. O artigo discute como a teoria do apego pode oferecer um mapa para ajustar a relação terapêutica de modo a proporcionar uma sensação de segurança, levando em conta as diferenças individuais e os diferentes padrões familiares.
Pontos-chave:
Começamos este artigo voltando a uma das ideias que inspiraram este simpósio. Ela é descrita como fruto de uma discussão entre Glenn Larner e David Pocock sobre o livro de Peter Rober Becoming an Effective Family Therapist (Rober 2024). Uma das conclusões de Rober é que as evidências da pesquisa mostram que uma terapia eficaz está fortemente relacionada tanto à aliança terapêutica quanto às qualidades de quem conduz a terapia. Então, se a relação terapêutica é central, qual é o papel da teoria, se é que ela tem algum?
Formulada assim, a pergunta não traz o pressuposto implícito de que a aliança terapêutica não é, em si, algo que precisamos teorizar? De que ela é algo que já conhecemos, puro bom senso, como a “gentileza” com os membros da família? Queremos sugerir exatamente o contrário. Ela é, possivelmente, o que fazemos de mais complexo e sofisticado como terapeutas e, portanto, o que mais precisa ser pesquisado e compreendido. Para nós, a teoria é a base sobre a qual nós, e outras pessoas, nos responsabilizamos eticamente por nossa prática sistêmica: ideias, formulação e ação. Assim, é eticamente mais sólido trabalhar com uma teoria verificada por evidências do que com uma teoria sem validade estabelecida. Ao mesmo tempo, também acreditamos que há algo de místico, e até de mágico, no encontro entre seres humanos, cuja complexidade talvez nunca consigamos compreender plenamente. Talvez haja também o perigo de que, como acontece quando se teoriza o humor, acabemos matando aquilo que tentamos observar.
Feita essa ressalva, examinamos neste artigo algumas teorizações sobre a relação terapêutica e as pesquisas relacionadas: não apenas para saber se ela funciona, mas sobretudo para saber o que ela é. De modo mais amplo, embora essas duas questões relacionadas captem algumas das questões centrais da teorização na psicoterapia sistêmica e sobre ela, podemos pensar essa questão de forma ainda mais ampla. É possível não teorizar? O que isso significaria: que não pensamos no que fazemos, mas simplesmente avançamos com base na intuição, no “bom senso”, de forma pragmática? O pensamento do construtivista George Kelly (1955) nos é útil aqui. Ele cunhou a expressão “o homem como cientista” para designar a ideia de que ser humano é estar continuamente formulando e testando hipóteses sobre o mundo. Ele chamou essas hipóteses de construtos. Segundo Kelly, usamos esses construtos para explicar e, sobretudo, para prever o que nos acontecerá no futuro com base no que aprendemos no passado: nossos construtos são antecipatórios. De modo semelhante, Bowlby (1988) desenvolveu a ideia de “modelos operativos internos” (working models) para captar uma ideia parecida: formamos modelos de nossas relações com base no que vivemos, por exemplo, na infância. Isso, porém, introduz a ideia de que a “teoria” pode ser teoria com “T” maiúsculo, como as grandes teorias (macro), ou com “t” minúsculo, como as teorias locais (micro), por exemplo nossas previsões, de um momento para o outro, do que vai acontecer em nossas relações. Outra forma de pensar isso é que, na terapia familiar sistêmica, temos “grandes” teorias, como a de que as famílias podem ser compreendidas como sistemas e as relações descritas por padrões (Minuchin 1974), ou como sistemas de produção de sentido pela linguagem (Anderson e Goolishan 1988; White 1995). Na verdade, as teorias posteriores, construcionistas sociais, também apontam para teorias de nível mais micro sobre o que acontece nas conversas para criar significados locais nas famílias. Por exemplo, O’Reilly e Kiyimba (2023) usam a análise da conversa para explorar exemplos de encontros terapêuticos em contextos de saúde mental e ilustrar como a teoria pode orientar a prática. Do mesmo modo, na terapia familiar sistêmica, podemos pensar que quem conduz a terapia forma teorias “no momento”: por exemplo, o que vou perguntar ou investigar agora? Que atividade eu poderia sugerir? Que linha de argumentação eu poderia aprofundar? Da mesma forma, Peter Rober descreveu as conversas internas de terapeutas e como elas orientam a prática (2024).
Também é importante reconhecer que teorizar, sobretudo nesse nível mais micro, é algo que os membros da família também fazem. Assim, a pergunta passa a ser não apenas se a terapia familiar precisa de teoria, mas também de que teorias os membros da família se servem. Podemos pensar isso também como camadas recursivas: que teoria os membros de uma família têm sobre as teorias que eu uso? Quanta colaboração e transparência temos, ou podemos ter, ao compartilhar nossas teorias uns com os outros?
A teoria assim considerada também pode ser descrita como formulação (Johnstone e Dallos 2013). Isso levanta para nós uma questão fundamental para a terapia familiar sistêmica, a saber, o elefante na sala: o diagnóstico médico. Queiramos ou não, muitas famílias e muitos serviços com os quais trabalhamos, e que nos encaminham famílias, usam uma teoria central segundo a qual as pessoas têm condições “reais”, nomeadas e descritas como formas de doença mental, que funcionam como rótulos diagnósticos. E o que nos preocupa é o uso crescente dessas descrições e desses rótulos, muitas vezes ateóricos: veja-se, por exemplo, o aumento dos diagnósticos de autismo, que está atingindo proporções epidêmicas. Descrição não é explicação; a teoria tenta uma explicação. Ainda mais preocupante é a abordagem segundo a qual as experiências humanas de sofrimento podem ser explicadas como formas de doença mental, abordagem que ganha o status de fato incontestado. Ela é vista simplesmente como “realidade”, e esse pressuposto é sustentado por “evidências” tiradas, por exemplo, de exames de imagem cerebral e da herança genética de condições, e assim por diante. Na verdade, sustentamos que ela é altamente contestável, porque, nos diagnósticos de autismo, TDAH, depressão e anorexia, as diferenças cerebrais encontradas em tomografias podem igualmente ser explicadas por traumas não elaborados e por experiências precoces e adversas de apego relacional.
Há, portanto, duas questões aqui. Que teoria temos sobre a relação entre diagnóstico e explicação? E, mesmo que não queiramos aderir ao diagnóstico como explicação, como conversar com as famílias quando elas tomam descrições diagnósticas como explicações, por exemplo, do comportamento da criança? Para nós, esse é um dos lugares em que voltamos à questão com que começamos este artigo: a relação terapêutica. Como construir uma relação próxima, genuína e aberta com as figuras parentais, por exemplo, quando podemos discordar profundamente da teoria delas de que um diagnóstico de TDAH é a melhor maneira de compreender a criança? Será que devemos notar aqui que muitas vezes, como Peter Rober ao falar da relação terapêutica, se começa pensando na pesquisa de resultados, na eficácia de algo? Mas precisamos conhecer o processo: por exemplo, “como” algumas pessoas terapeutas conseguem construir uma relação positiva e eficaz, apesar de discordarem de uma família sobre suas explicações dos problemas? Precisamos saber como e por que a relação terapêutica funciona. Essa é a pesquisa de processo, e ela inclui a tentativa de definir o que estamos olhando, e o que estamos procurando.
Não esqueçamos que é a pessoa terapeuta que torna eficazes a psicoterapia e as demais profissões de ajuda. As pesquisas acumuladas demonstram que, na prática, assim como nos ensaios clínicos, grande parte da variabilidade dos resultados é atribuível à pessoa terapeuta, independentemente do tratamento aplicado. (Wampold 2011, 37)
Essa citação das pesquisas de Bruce Wampold (2011) destaca que precisamos compreender como a pessoa terapeuta contribui para essa eficácia constatada. A descrição de uma boa aliança não é o mesmo que a explicação de sua dinâmica. Para nós, isso tem implicações claras para o bem-estar contínuo de quem pratica e para o modo como essa pessoa contribui para o desenvolvimento da confiança na relação terapêutica. Duas das constatações de Wampold falam claramente disso: (a) a capacidade da pessoa terapeuta de perceber, compreender, monitorar e manejar suas próprias respostas de ativação em momentos difíceis da terapia; e (b) seu compromisso em construir uma formulação colaborativa que aponte a direção do percurso terapêutico. A segunda constatação mostra a necessidade de clareza teórica na origem e no desenvolvimento das ideias compartilhadas na terapia. Temos a responsabilidade ética de deixar claras as ideias e as ressonâncias que trazemos para a terapia, tanto quanto nos interessamos pelas ideias e ressonâncias que as pessoas atendidas trazem, especialmente em relação à mudança desejada e à sua direção. Isso aponta para a necessidade contínua de supervisão reflexiva e de autocuidado de terapeutas como atos de amor. A primeira constatação se apoia diretamente na ênfase que a teoria moderna do apego dá à compreensão da ativação fisiológica e da corregulação (Schore e Schore 2008, 2017). A revisão de Wampold das pesquisas existentes sobre a aliança terapêutica deixa claro que terapeutas eficazes formam alianças sólidas com uma ampla gama de pessoas atendidas e em contextos de vida variados (Wampold 2017).
Mas como se chega a isso? Para nós, uma pista está na possibilidade, que também remonta às raízes da terapia familiar sistêmica, de que a atenção recaia não apenas sobre o que é dito, mas sobre como é dito. Em outras palavras, nós nos conectamos com as emoções, a dor, a angústia, a mágoa e o medo que as figuras parentais estão sentindo. Essa ênfase na comunicação, e na comunicação como algo simultaneamente estratificado em vários níveis, era central nos primórdios da terapia familiar sistêmica. Era central nas teorias da equipe de Bateson et al. (1956), por exemplo, a teoria do duplo vínculo. Pode-se argumentar que, na terapia sistêmica contemporânea, o foco passou a recair tanto sobre a “produção de sentido” que marginalizamos a emoção, ou a “produção de emoção”, e, portanto, a relação entre esses processos.
Gostamos de começar nosso ensino de terapia sistêmica com uma citação de John Bowlby:
Pois agora está claro que não só as crianças pequenas, mas os seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais capazes de pôr seus talentos a serviço de suas melhores possibilidades quando têm a confiança de que, atrás deles, há uma ou mais pessoas de confiança que virão em seu auxílio caso surjam dificuldades. A pessoa de confiança oferece uma base segura a partir da qual seu companheiro (ou sua companheira) pode agir. (Bowlby 1973, 41)
E Bowlby tinha razão: basta uma única outra pessoa. A pessoa terapeuta pode ser a primeira pessoa em quem alguém confia, depois de repetidas experiências de dano, decepção e/ou desconfiança. Bowlby descreveu isso como a “base segura”, que ele via como pré-requisito fundamental da terapia. Em seus termos, a aliança terapêutica consiste nessa experiência de ter uma pessoa de confiança, como uma figura parental, que sabemos com segurança estar “atrás de nós” e disponível para vir em nosso auxílio. Essa pessoa é vista como aquela que oferece uma base a partir da qual podemos explorar e correr riscos, com a segurança de poder voltar a ela para nos orientar e aconselhar. Nas pesquisas de Gottman, essa confiança tem três pilares: acessibilidade, responsividade e envolvimento (2011). Sheehan e Vetere (2023) desenvolveram ainda mais o conceito e a prática da confiança interpessoal como uma forma de amor terapêutico na tradição do ágape. O amor é visto como o impulso que diz “sim” ao pedido de ajuda e ao chamado implícito ao encontro. “Que sentimento de amor é este que tenho diante de você? Olho em seus olhos enquanto você fala do seu medo e da sua angústia, quando, mais uma vez, seu corpo parece lhe falhar. Já tivemos essa conversa muitas vezes ao longo dos anos. Tenho consciência das minhas próprias fragilidades físicas enquanto você fala, do meu desejo de apoiar você e de ajudar você a encontrar algum alívio para os medos corrosivos que crescem com os anos, de oferecer conforto e tranquilidade e, talvez, até de ajudar você a encontrar alguma paz. Sei que você confia em mim, que, em conjunto, criamos a segurança de que você precisa quando tem medo. Sei que a minha presença acalma você, e que então você consegue pensar. Isso é amor em ação.”
Também chama a atenção que, quando Bowlby falava em “pôr nossos talentos a serviço de nossas melhores possibilidades”, isso ressoa com achados contemporâneos da neurociência, que demonstraram que nossas capacidades de pensar, refletir, ver nossas opções e resolver problemas aumentam quando nos sentimos em segurança e estamos num estado ótimo de regulação da ativação (Porges 2022; Van der Kolk 2014; Siegel 2016; Vetere 2024). Nossa experiência clínica de mais de 45 anos tem mostrado que pouquíssimas das pessoas com quem trabalhamos tiveram uma figura assim na infância ou em suas relações atuais. A teoria do apego usa termos como estratégias de apego seguro/inseguro para descrever isso (Bowlby 1973; Crittenden e Landini 2011).
Mas, numa perspectiva de terapia sistêmica, algumas questões importantes surgem de imediato. Antes de tudo: seguro para quem, como e quando? A teoria do apego nos ajuda a começar a pensar o que constitui uma ameaça emocional. Algumas pessoas podem chegar à terapia ansiosas com a ideia de serem “obrigadas” a falar de coisas que não se sentem à vontade para abordar. Outras falam de sentimentos de bom grado, mas não querem ser criticadas. Essas pessoas se enquadrariam, em linhas gerais, nas estratégias de apego desinvestidas/desativadoras e preocupadas/hiperativadoras (Mikulincer e Goodman 2006; Ainsworth et al. 1978; Dallos e Vetere 2022). Constatamos que, se erramos nisso, as pessoas podem ficar muito relutantes em voltar. Desenvolvemos um esquema para pensar essa questão:

A ideia é tentar, de início, encontrar as pessoas onde elas se sentem emocionalmente seguras e à vontade. Nos padrões desinvestidos, nos concentramos em fatos e explicações e incentivamos gradualmente a exploração dos sentimentos; já nos padrões preocupados, nos concentramos nas emoções e passamos gradualmente para a cognição e os padrões.
Mas, quando trabalhamos com grupos familiares, isso já é limitado demais. O que parece seguro para um membro da família pode não ser para outro. Numa pesquisa em que crianças foram entrevistadas sobre sua experiência da terapia familiar, tivemos a surpresa de constatar que muitas a viviam como uma experiência aversiva e insegura (Strickland-Clark et al. 2000). As crianças relataram a intimidação de estar numa sala cheia de adultos, a sensação de estar no centro das atenções e de ser responsabilizadas pelos problemas da família, e o receio de um castigo por parte dos pais depois da sessão caso dissessem algo errado. Essa pesquisa ilustra o valor ético da pesquisa: teria sido fácil supor que, como a terapia sistêmica adota uma abordagem que não culpabiliza, ela seria melhor para a criança por quem a família busca atendimento. Evidentemente, as figuras parentais também podem se sentir inseguras. Numa família cuja filha de 14 anos apresentava anorexia, RD perguntou como a família queria começar: cada membro deveria ter a oportunidade de dizer por que a família tinha vindo e o que seria útil, ou a família deveria simplesmente conversar em conjunto? O pai e a filha disseram que sim, ter a oportunidade de falar parecia bom, mas a mãe disse que não queria isso, porque em casa, sempre que dizia o que pensava, sentia que a filha, e muitas vezes o marido, iam criticá-la. Parecia-lhe perigoso que isso pudesse acontecer na sessão. RD reconheceu o que tinha sido dito, agradeceu a toda a família pelos retornos e explorou como seria conversar sobre a maneira de conversar nesse novo contexto. Ele avançou devagar e explorou como podem ser sentidas as conexões seguras e como a família e ele poderiam criar essas condições ali.
Talvez inevitavelmente, num artigo sobre esse tema, deslizamos da pergunta sobre se a teoria ainda é útil na terapia familiar sistêmica para a pergunta sobre quais teorias “nós” achamos úteis. Assim, estamos agora nos aventurando por um de nossos referenciais teóricos favoritos, a teoria do apego. A teoria do apego foi amplamente pesquisada e evoluiu para uma teoria da adaptação diante do perigo relacional, da segurança e da proteção, e da corregulação das respostas de ativação, embora valha lembrar que a teoria do apego sempre foi um amálgama de perspectivas teóricas: psicodinâmica, neurociência cognitiva, biologia evolutiva, etologia e teoria sistêmica, ou seja, uma teoria do desenvolvimento sobre a regulação social da emoção nos grupos familiares. A base segura é vista como um sistema autocorretivo baseado na retroalimentação (corregulação): criança e figura parental são vistas como interagindo para manter um estado emocional confortável, nem excitado e ansioso demais, nem apático e inativo demais. A criança é incentivada a explorar e a correr riscos, e também a confiar que receberá conforto e tranquilidade quando precisar.
Mas as ideias de Bowlby são apenas uma entre várias conceituações da relação terapêutica. As origens remontam mais atrás, à teoria psicodinâmica e à centralidade da relação na promoção da mudança. Isso inclui as ideias de dinâmicas inconscientes que se reencenam na relação terapêutica, como a transferência e a contratransferência, a projeção e a identificação projetiva. A pessoa terapeuta se engajava numa extensa terapia pessoal para evitar se enredar de modo pouco útil nos processos inconscientes da pessoa atendida, ou entrar em ressonância com eles. Na terapia centrada na pessoa (Rogers 1972), a relação terapêutica também era vista como central, e suas características centrais eram a aceitação, a autenticidade, o acolhimento caloroso e a consideração positiva incondicional. O papel da pessoa terapeuta nessa relação era escutar, ter empatia e não tentar dirigir abertamente a terapia. Outro exemplo, uma espécie de metamodelo não especialmente ligado a um modelo terapêutico, está na visão de Bordin (1979) da relação terapêutica como composta de três componentes-chave: a conexão relacional/emocional, uma visão compartilhada de quais são os problemas a tratar e um acordo sobre o que deve ser feito a respeito. Bordin sugeria que os três precisavam estar presentes. Por exemplo, posso encontrar gentileza, compreensão e simpatia em quem me atende, mas, se discordamos sobre qual é o problema e o que fazer a respeito, os sentimentos positivos podem se deteriorar. Para nós, o exemplo mais comum de desafio à formação de uma relação terapêutica de confiança é a relutância em aceitar rótulos diagnósticos como explicações para os problemas, quando na verdade são descrições; e tampouco queremos apoiar a medicação como solução principal para o sofrimento relacional (Dallos e Vetere 2022). Isso significa que tentamos manter uma postura de abertura, presença e interesse pelos pontos de vista divergentes, às vezes explorando como poderíamos conversar sobre essas questões, e acompanhando as consequências relacionais das diferenças de opinião. Com muita frequência, pedem-nos que ajudemos pessoas a se adaptar a seus diagnósticos e a conviver com eles, tragam eles alívio ou não às pessoas envolvidas. A supervisão é fundamental para nós, tanto para manejar e equilibrar nossas respostas quanto para manter sempre em mente a segurança e a confiança na relação terapêutica.
Na terapia familiar sistêmica, a relação terapêutica foi conceituada de várias maneiras. Minuchin (1974) escreveu mais extensamente sobre isso, referindo-se, por exemplo, ao processo de “associação” à família (joining) e de “acomodação” à família. A associação enfatiza as ações da pessoa terapeuta, enquanto a acomodação enfatiza os ajustes que a pessoa terapeuta faz para facilitar a associação. Curiosamente, e não muito diferente de Bowlby (1973), Minuchin se via como alguém que se tornava como um membro da família, por exemplo, um tio ou um avô. Parte dessa atividade consistia em refletir sobre os sentimentos e pensamentos que isso despertaria nele como terapeuta e sobre como empregá-los para facilitar a mudança. A partir disso, Minuchin às vezes empregava a relação terapêutica de forma estratégica, por exemplo, aliando-se deliberada e temporariamente a um membro da família para revelar conflitos ocultos ou triangulações.
Talvez uma das posições mais influentes adotadas na terapia familiar sistêmica do Reino Unido tenha sido o conceito de neutralidade ou curiosidade, descrito com mais clareza pelo grupo de Milão (Cecchin 1987). Aqui, a relação terapêutica não é vista em termos individuais, mas como uma relação com o sistema familiar. Terapeutas tentam apoiar o sistema, mas evitam se deixar envolver nas dinâmicas emocionais da família ou tomar partido de algum de seus membros. Embora descrita como um forte contraste com a prática psicodinâmica, há uma ressonância interessante entre a espécie de distanciamento frio que a pessoa terapeuta sistêmica busca e a “tela em branco” oferecida pela pessoa terapeuta psicodinâmica. Podemos notar que toda a equipe de Milão tinha, originalmente, formação psicodinâmica e trabalhava com famílias com dificuldades antigas e profundamente arraigadas, ligadas a transtornos alimentares e à psicose. O desenvolvimento de seu posicionamento emocionalmente mais frio, com a ajuda do questionamento circular, visava facilitar um espaço mais reflexivo e cognitivo para os membros da família que tinham mais dificuldade, emocionalmente, de se desvencilhar.
O que era empolgante em nossas primeiras experiências com a terapia familiar sistêmica era sua abertura e visibilidade: de início, era possível ver transcrições de conversas terapêuticas que tinham acontecido. Isso contrastava especialmente com a prática psicodinâmica, que era “privada” e na qual não se podia ver exatamente o que a pessoa terapeuta tinha feito e dito. Com a chegada da gravação em vídeo, isso ficou ainda mais empolgante, pois podíamos ver o que terapeutas como Minuchin realmente dizem e fazem nas sessões. Nesta pequena sequência, temos uma pequena janela para ver o que Minuchin faz numa sessão e como ele responde a uma mãe que diz estar nervosa. Isso se devia em parte ao fato de lhe terem dito que um terapeuta famoso viria em coconsulta com a pessoa que atendia a família naquele momento.
Suzanne, a mãe; Marcy, a filha
Suzanne: hum, eu estava… tenho que te dizer que estou muito nervosa hoje por vir te ver (olha para Minuchin)
Minuchin: ah, ah, eu também, então isso é bom, a-a gente está nervoso junto.
Minuchin e Suzanne apertam as mãos
Suzanne: hh… he… (ri)
Minuchin: está vendo, é por isso que eu estou fumando
Suzanne: tá? (olhando para Marcy)
Marcy: Não, eu não estou tão ansiosa
Minuchin: Não? então veja, a gente devia aprender com ela…
O trecho foi tirado do artigo de Peter Muntigla e Horvatha (2016). A análise da conversa nos ajuda a olhar em detalhe o que acontece na terapia (Peter Muntigla e Horvatha 2016). Curiosamente, aqui não vemos tanto a teoria familiar estrutural de Minuchin, mas o uso de um pouco de humor brincalhão para criar vínculo com a mãe, com uma certa provocação à filha. Mas sugeriríamos também que é possível ver como ele está construindo, com cuidado e rapidez, uma base segura ou uma relação calorosa com as duas. Parte disso é o reconhecimento da ansiedade que a mãe sente, mas também a admissão, por parte de Minuchin, de que ele também está ansioso. Curiosamente, a análise da conversa é uma teoria sobre como o uso da linguagem segue padrões previsíveis, mas o que, a nosso ver, ela revela aqui é a teoria de Minuchin sobre como se conectar emocionalmente com as pessoas, e o fato de que isso é central na terapia. A propósito, podemos notar o caráter histórico desse trecho, tirado do trabalho de Minuchin em 1974, quando ainda se fumava cigarro nas sessões de terapia. Talvez o equivalente contemporâneo seja olhar para nossos celulares?
O objetivo desta série de artigos foi promover uma discussão ampla sobre o papel da teoria na terapia familiar sistêmica contemporânea. Podemos acrescentar aqui que, pelo menos no Reino Unido, muitas figuras experientes da terapia familiar parecem encantadas não só pela teoria psicológica e sociológica, mas também pela filosofia. Algumas chegariam a sugerir que precisamos de menos teoria psicológica e de mais reflexão filosófica, o que este artigo e nossa posição a esse respeito deixam claro. Voltamos ao princípio de Lewin de que “não há nada mais prático do que uma boa teoria” (Lewin 1939) e acrescentamos que, em teoria, talvez não haja nada mais prático do que uma boa teoria sobre a relação terapêutica. Como dissemos no início deste artigo, precisamos da teoria para apoiar a prática da formulação, mas, mais importante ainda, como base sobre a qual respondemos eticamente pela prática: pelo que sabemos e por como sabemos. Em nenhum lugar isso é mais importante do que nas questões que levantamos sobre o diagnóstico. Não devemos esquecer, por exemplo, que um diagnóstico de TDAH, autismo ou psicose tende a acompanhar a pessoa por toda a vida. Que questões éticas há em atribuir um rótulo diagnóstico a uma criança de apenas três anos, quando as causas prováveis, múltiplas e entrecruzadas, podem estar tanto relacionadas à adaptação a experiências perigosas quanto a um transtorno biologicamente herdado?
A formulação é uma prática crucial em todas as psicoterapias: nela, explicações para a experiência se reúnem a uma base de evidências para a prática, dentro de um referencial ético de conduta. Ela guia e orienta a ação de todas as pessoas participantes, num processo iterativo de retroalimentação e ação. A formulação tem intenção emancipatória e torna a prática responsável. Mas as figuras parentais, por exemplo, podem discordar e argumentar que precisam de um diagnóstico para ter acesso a um apoio essencial para a criança na escola, e nossa percebida relutância em apoiar suas ideias a esse respeito pode ser vista como falta de compreensão e prejudicar nossa relação terapêutica com essa família. Nosso foco estaria em ajudar a garantir o apoio de que a criança precisa, ampliar o olhar sobre ela e mobilizar e apoiar os recursos das figuras parentais, em vez de depender de descrições de comportamento ou de diagnósticos para definir os caminhos a seguir.
Pensamos que o campo das psicoterapias sistêmicas deu uma contribuição importante a esses dilemas ao apoiar e experimentar práticas de formulação colaborativas e integrativas. Por exemplo, a posição de curiosidade e o convite para que as famílias trabalhem conosco, por meio de uma exploração contínua e iterativa dos problemas e das relações em torno deles, são extremamente úteis. Mas nossa teoria é que nossa preocupação principal não é desenvolver “novos significados”, e sim estabelecer uma base segura a partir da qual a exploração possa ser favorecida. É nesse solo quente e fértil da segurança que a curiosidade começa a florescer e que as famílias conseguem correr o risco de se afastar da certeza insegura (Mason 2022) dos rótulos diagnósticos para desenvolver teorias relacionais úteis sobre a própria vida. Nisso, como terapeutas, prestamos atenção à trama entre conteúdo e processo, mediada por uma observação compartilhada e reflexiva. A exploração e a formulação, o que poderíamos chamar de avaliação colaborativa das dificuldades, não são uma atividade pontual. Nossa prática de acompanhar os retornos nos encontros, verificar nossas compreensões em curso com todas as pessoas envolvidas e manter essas compreensões abertas à revisão à luz de informações “novas” nos mantém responsáveis perante cada uma dessas pessoas por nossos pensamentos e ações (Vetere e Dallos 2003).
Complexe Systémique: a reter
Este texto tem mais a vivacidade de uma tomada de posição num simpósio do que o rigor de um estudo: defende que a relação terapêutica deixe de ser o “fator comum” cujo efeito se constata sem explicá-lo. A proposta é nítida: a segurança antes do sentido. Antes de coconstruir novos significados, cada membro da família precisa se sentir em segurança o bastante para explorar, e o que tranquiliza um pode ameaçar outro, como mostram as crianças que vivem a sessão familiar como um tribunal ou a mãe que teme ser criticada. O esquema baseado nas estratégias de apego, partir dos fatos com uns e das emoções com outros, é simples e diretamente utilizável. O trecho em que Minuchin responde à ansiedade de uma mãe admitindo a sua própria vale como demonstração. É possível discutir a crítica ao diagnóstico, mais afirmada do que fundamentada, e o peso dado às neurociências; a questão prática permanece: como manter a aliança com figuras parentais apegadas ao diagnóstico da criança? Para ler junto com o artigo sobre o reenquadramento relacional na terapia familiar baseada no apego e com o artigo sobre a neutralidade em terapia.
Referências
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Tradução não oficial em português de “Qual é o lugar da teoria na terapia familiar contemporânea?” Teorizar o conceito de relação terapêutica, de Rudi Dallos e Arlene Vetere, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 46, no 4 (2025), doi: 10.1002/anzf.70039, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (figura em inglês, legenda acrescentada). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “‘What Is the Place of Theory in Contemporary Family Therapy?’ Theorising the Concept of the Therapeutic Relationship”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Dallos, R., et Vetere, A. (2025). “Qual é o lugar da teoria na terapia familiar contemporânea?” Teorizar o conceito de relação terapêutica (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/qual-e-o-lugar-da-teoria-na-terapia-familiar-contemporanea-teorizar-a-relacao-terapeutica (Obra original publicada em 2025 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 46(4), e70039 (2025); republicada em 2025 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.70039)
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