Frontiers in Psychiatry · Terapia familiar
É possível transpor para Singapura um modelo de terapia multifamiliar nascido na Europa? Christopher Loh, Wilfred Liang, Helen Lee e Astelle Koh reuniram em grupos focais nove jovens adultos atendidos por um primeiro episódio psicótico e dez de seus familiares, ao fim de um programa de quatro sessões baseado em atividades (escultura, árvore genealógica, carta à psicose). A sensação de não estar na solidão, conversas enfim possíveis, melhor compreensão da doença: e uma divergência entre gerações sobre o lugar do especialista.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A terapia multifamiliar no primeiro episódio psicótico: a experiência de famílias em Singapura, de Christopher Loh, Wilfred Liang, Helen Lee e Astelle Koh, publicado na Frontiers in Psychiatry (Frontiers Media) (2021), doi: 10.3389/fpsyt.2021.788827, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista; a declaração sobre a disponibilidade dos dados não foi reproduzida; as declarações finais foram reunidas em notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O estudo convida as pessoas terapeutas a adotar uma postura flexível e fluida, atenta às diferentes gerações, no trabalho com famílias singapurenses.
Christopher Loh, Wilfred Liang, Helen Lee e Astelle Koh
Resumo
Objetivo. Este estudo qualitativo examinou a experiência de famílias com a terapia multifamiliar (TMF) oferecida pelo Programa de Intervenção Precoce na Psicose (Early Psychosis Intervention Programme, EPIP) de Singapura. A TMF foi testada em caráter piloto durante dois anos, e os resultados deste estudo foram usados para aprimorá-la, a fim de atender melhor às necessidades das famílias singapurenses atendidas pelo serviço.
Métodos. As famílias que concluíram a TMF foram convidadas a participar do estudo. Nove pessoas atendidas e dez pessoas cuidadoras que consentiram em participar foram distribuídas, respectivamente, em dois grupos focais de pessoas atendidas e dois grupos focais de pessoas cuidadoras. Um roteiro de entrevista semiestruturado foi usado para conduzir as discussões. Os grupos focais foram gravados em áudio, transcritos e anonimizados. Os dados foram examinados por meio de análise temática.
Resultados. Quatro temas principais emergiram da análise: (1) processos terapêuticos da TMF, (2) mudanças positivas nas relações familiares, (3) melhora na forma de lidar com a psicose e (4) sugestões de aprimoramento da TMF. As famílias sugeriram algumas mudanças estruturais na TMF, e mais pessoas cuidadoras do que pessoas atendidas prefeririam que as pessoas terapeutas oferecessem mais orientação especializada.
Conclusões. Os resultados sugerem que uma TMF de base ocidental pode ser adaptada ao trabalho com famílias singapurenses. Este estudo lança luz sobre os processos terapêuticos que podem estar relacionados às mudanças nas relações familiares e na forma de lidar com a psicose. Além disso, sugere que uma abordagem especializada e autoritária por parte das pessoas terapeutas pode não se ajustar às necessidades das gerações mais jovens em Singapura. O estudo defende que as pessoas terapeutas adotem uma postura flexível e fluida no trabalho com famílias singapurenses.
A terapia multifamiliar (TMF) é um modelo de base ocidental que combina a teoria e a prática das terapias de grupo e das terapias familiares, e seu principal objetivo terapêutico é promover o apoio e a aprendizagem mútuos entre famílias que enfrentam dificuldades semelhantes (1). Ao longo das últimas sete décadas, a TMF tem sido aplicada no mundo inteiro, em diversos contextos, como psicose (2–6), transtornos do humor (7), transtornos alimentares (8), saúde mental da infância e da adolescência (9–11), separação e divórcio (12), saúde física e contextos educacionais (13). A grande variedade de modelos e contextos de TMF dificulta o estabelecimento de uma base sólida de evidências. Uma revisão narrativa sugeriu que a TMF tem a base de evidências mais sólida na psicose, em comparação com outros contextos (14). De modo geral, a TMF na psicose baseou-se no modelo psicoeducativo anterior desenvolvido por McFarlane (15). Com o passar dos anos, a TMF no campo da psicose evoluiu em duas vertentes diferentes: uma que preserva um forte componente psicoeducativo (16, 17) e outra que se concentra em atividades terapêuticas (1, 18). A maioria das adaptações da TMF para o trabalho com famílias asiáticas se apoia num modelo psicoeducativo (3–6), e só recentemente uma TMF baseada em atividades terapêuticas foi desenvolvida em Singapura pela mesma equipe do presente estudo (19).
De forma mais ampla, as intervenções familiares, embora diferentes em sua abordagem teórica, em seu método e em suas técnicas, compartilham objetivos semelhantes: favorecer o vínculo com o serviço, a adesão ao tratamento, a redução dos sintomas, a prevenção de recaídas e a melhora do bem-estar das pessoas cuidadoras (20, 21). Estudos anteriores sobre TMF constataram que essa intervenção familiar ajudou a melhorar a qualidade de vida das pessoas atendidas e o conhecimento das pessoas cuidadoras sobre a doença (6), a reduzir a sobrecarga das pessoas cuidadoras (4, 5), a reduzir a taxa de hospitalização e a favorecer um melhor vínculo com os serviços de saúde mental (3). Embora os benefícios da TMF estejam bem documentados no campo da psicose, uma revisão sistemática destacou a grande variedade de formas que essa intervenção terapêutica assume (22). Por exemplo, Kung et al. (6) testaram uma TMF especificamente voltada para pessoas sino-americanas com esquizofrenia. Esse modelo adotava uma abordagem psicoeducativa e de resolução de problemas, combinando grupos multifamiliares apenas para pessoas cuidadoras (sem as pessoas atendidas) e sessões de terapia de uma única família. Chien e Wong (5) descreveram uma TMF composta de 18 sessões de duas horas, realizadas quinzenalmente em quatro etapas-chave: (1) três sessões de orientação e vínculo, (2) seis sessões de oficina educativa, (3) sete sessões centradas no papel terapêutico da família e no fortalecimento de suas forças e (4) duas sessões de encerramento. Enquanto diferentes formas de TMF para famílias asiáticas continuam a se desenvolver no campo da psicose, é imprescindível que as pessoas terapeutas sejam sensíveis às nuances culturais ao aplicar um modelo ocidental ao contexto local (23–25). Embora existam incompatibilidades entre os modelos de tratamento de base ocidental e as culturas asiáticas, Bentelspacher et al. (26) indicaram que grupos psicoeducativos multifamiliares podiam ser benéficos para famílias singapurenses quando o processo de condução era ajustado às normas e aos valores culturais locais. As concepções etiológicas e as crenças sobre o tratamento dos problemas psicológicos das pessoas atendidas sino-singapurenses são ecléticas e derivam tanto das terapias ocidentais quanto das tradicionais (27). Portanto, abordagens de aconselhamento e psicoterapia que combinem terapias ocidentais e tradicionais tenderiam a atender melhor às necessidades da população sino-singapurense (28).
Antes deste estudo, a TMF passou por uma fase piloto de dois anos para definir a estrutura e o conteúdo do programa e compreender o processo de condução que melhor atenderia às necessidades das famílias singapurenses. Os resultados preliminares do estudo piloto foram promissores (19). Essa TMF era um programa baseado em atividades e fundamentado em princípios psicoterapêuticos, composto de quatro sessões semanais e uma sessão de seguimento. As atividades terapêuticas incluíam “Imagem da psicose”, “Discussão em grupo multifamiliar”, “Árvore genealógica”, “Escultura”, “Carta à psicose”, “Rio da vida familiar” e “Autopsicoeducação e consolidação do trabalho” [ver (19) para mais detalhes sobre a TMF]. Os objetivos da TMF eram: (1) melhorar a compreensão da psicose e de seu impacto sobre as pessoas atendidas e suas famílias, (2) oferecer às famílias um espaço para aprenderem umas com as outras novas formas de lidar com a psicose, (3) dar a famílias com experiências semelhantes oportunidades de ampliar sua rede de apoio e (4) ajudar as famílias a recorrer a seus recursos para lidar com a psicose. Este estudo qualitativo teve como objetivo explorar a experiência de famílias singapurenses com a TMF no EPIP. O posicionamento deste estudo foi influenciado por várias preocupações: (a) é preciso compreender melhor os processos, e não os resultados, da TMF; (b) é crucial examinar os detalhes finos da adaptação de um modelo de base ocidental a um contexto local específico (neste caso, Singapura); e (c) há interesse em pesquisar “com” as famílias que enfrentam a psicose, em vez de pesquisar “sobre” elas. O estudo serviu para gerar hipóteses, e não para testá-las. As hipóteses geradas poderão ser testadas em pesquisas futuras para compreender melhor o uso da TMF em Singapura. Além disso, os resultados do estudo serão usados na avaliação e no desenvolvimento do serviço.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Revisão Específico de Domínio (Domain Specific Review Board, DSRB) do National Healthcare Group (NHG) e pelo Comitê Institucional de Revisão de Pesquisa (Institutional Research Review Committee, IRRC) do Institute of Mental Health (IMH), em Singapura. No total, 16 famílias participaram de um ciclo de TMF e três famílias desistiram, o que resultou numa taxa de conclusão de 81,25%.
Este estudo de centro único utilizou um método de amostragem intencional, no qual as pessoas participantes foram recrutadas por meio da TMF do EPIP ao longo de um ano. Uma pessoa da equipe de pesquisa apresentou o estudo na primeira sessão de TMF e, duas semanas depois, telefonou às pessoas atendidas e às pessoas cuidadoras para perguntar se gostariam de participar. Foi obtido consentimento informado por escrito das pessoas atendidas e das pessoas cuidadoras que aceitaram participar do estudo. Os critérios de inclusão para as pessoas atendidas eram: (1) ser atendida pelo EPIP por um primeiro episódio psicótico, (2) ter entre 16 e 40 anos, (3) ter nacionalidade singapurense ou residência permanente em Singapura, (4) estar clinicamente estável, (5) falar inglês e (6) ter concluído um ciclo de TMF. Os critérios de inclusão para as pessoas cuidadoras eram: (i) ser familiar de uma pessoa atendida pelo EPIP, (ii) ter 21 anos ou mais, (iii) ter nacionalidade singapurense ou residência permanente em Singapura, (iv) falar inglês e (v) ter concluído um ciclo de TMF. Os critérios de exclusão, tanto para as pessoas atendidas quanto para as pessoas cuidadoras, eram: (a) não ser fluente em inglês e (b) não aceitar a gravação da entrevista em áudio. Para as pessoas atendidas mais jovens, de 16 a 20 anos, foi obtido o consentimento dos pais.
No total, nove pessoas atendidas e dez pessoas cuidadoras participaram de um grupo focal. As características sociodemográficas das pessoas participantes estão resumidas na Tabela 1. A distribuição étnica da amostra era representativa da população de Singapura (e do EPIP), composta de 74,2% de pessoas de origem chinesa, 13,7% de origem malaia, 8,9% de origem indiana e 3,2% de outras origens (29). Todas as pessoas atendidas tinham um familiar (isto é, a pessoa cuidadora) que participou deste estudo. Apenas uma pessoa cuidadora não tinha um familiar (isto é, a pessoa atendida) participando junto, porque a pessoa atendida recusou o convite. Cada pessoa participante recebeu uma pequena remuneração ao concluir o grupo focal.
Tabela 1 — Características sociodemográficas das pessoas participantes
Os grupos focais foram conduzidos por uma pessoa facilitadora, com o apoio de uma pessoa responsável pelas anotações, ambas integrantes da equipe do EPIP e sem cegamento em relação ao estudo. Os grupos focais ocorreram imediatamente após a última sessão de TMF. As discussões foram conduzidas com um roteiro de entrevista semiestruturado (ver Apêndice 1). Foram organizados quatro grupos focais para dois públicos diferentes: um para as pessoas atendidas e outro para as pessoas cuidadoras. As pessoas atendidas e as pessoas cuidadoras foram agrupadas separadamente, com o objetivo de facilitar uma discussão mais aberta. Cada grupo focal durou cerca de uma hora e reuniu de quatro a cinco pessoas. Os grupos focais foram gravados em áudio e transcritos em relatos literais anonimizados, e a equipe de pesquisa verificou a consistência das transcrições.
Os dados foram examinados por meio de análise temática, que envolve identificar, analisar e relatar padrões (temas) (30). A análise foi feita manualmente, usando uma planilha do Excel para rotular, organizar e classificar os códigos e os temas. A análise começou com duas pessoas da equipe de pesquisa se familiarizando com os dados, lendo e relendo as transcrições e gerando uma lista de ideias para a codificação. Em seguida, os dados brutos foram organizados em unidades de análise, e cada unidade foi resumida para criar uma lista de códigos iniciais. A lista de códigos iniciais foi então organizada em grupos significativos (temas). Devido ao caráter exploratório do estudo, a codificação seguiu uma abordagem orientada pelos dados (31): as duas pessoas abordaram os dados sem perguntas específicas em mente, para permitir que os temas emergissem. Um livro de códigos foi elaborado e aplicado por elas a uma subamostra (20%) dos dados para verificar sua aplicabilidade. Ao longo desse processo, uma terceira pessoa da equipe era envolvida quando havia divergências na codificação. As três pessoas examinaram como os temas gerais se relacionavam entre si e como se ajustavam ao objetivo geral do estudo. Quando a análise foi considerada satisfatória, produziu-se um mapa temático para refletir o sentido do conjunto dos dados.
Os temas que emergiram dos grupos focais foram agrupados em quatro temas gerais: (1) processos terapêuticos da TMF, (2) mudanças positivas nas relações familiares, (3) melhora na forma de lidar com a psicose e (4) sugestões de aprimoramento da TMF. Esses temas gerais apareceram tanto nos grupos de pessoas atendidas quanto nos de pessoas cuidadoras, o que reflete as experiências semelhantes compartilhadas pelos dois grupos.
Este tema lança luz sobre os mecanismos da TMF. As pessoas participantes se sentiram validadas e confortadas por outras que estavam em situação semelhante; sentiram que não estavam sozinhas. Relataram sentir-se seguras, o que as ajudou a compartilhar abertamente umas com as outras.
Pessoa cuidadora 08: “Acho que, no fundo, é um programa que nos dá uma grande oportunidade de conhecer outros pais que têm filhos passando por essa condição, senão a gente se sentiria meio na solidão.”
Pessoa cuidadora 04: “Pelas histórias das outras famílias, parecidas com a da minha filha, sei que aqui não estou na solidão, e que tem alguém comigo.”
Pessoa atendida 02: “No fundo, o que eu sinto é que é um lugar onde a gente não se julga, que ajuda nossas relações a melhorar… e, no fundo, que nos ajuda a conseguir… falar com um pouco mais de franqueza sobre coisas como a psicose…”
Pessoa atendida 06: “Talvez mais… mais pessoas possam falar mais sobre a própria condição sem se esconder.”
Algumas pessoas participantes relataram que a TMF lhes deu a oportunidade de se conectar com outras pessoas e ampliar sua rede de apoio, que desejavam manter para além das sessões.
Pessoa atendida 03: “Vejo isso como uma forma de construir uma comunidade de pessoas que têm experiências semelhantes…”
Pessoa cuidadora 05: “Mas depois a gente se encontra de novo, e temos algo em comum. Então isso de fato ajudou, de forma progressiva.”
As pessoas participantes também sentiram que houve aprendizagem mútua entre elas.
Pessoa atendida 06: “Porque também tem outras famílias, então a gente pode aprender com as outras pessoas, mesmo que cada uma tenha um tipo diferente de doença.”
Pessoa atendida 04: “A gente compartilhou muita experiência e aprendeu junto. Mas acho que, falando dos problemas, acho que a gente tem mais tipo autoconsciência, tipo [saber] o que está acontecendo, sabe.”
As pessoas participantes relataram que havia mais empatia e compreensão mútua dentro da unidade familiar.
Pessoa atendida 09: “Para mim, acho que seria bom se nossa família soubesse que estamos melhorando da nossa doença. Assim a família nos entende bem.”
Pessoa cuidadora 02: “…como família, isso realmente nos ajuda a reajustar nossas expectativas…”
Algumas pessoas participantes notaram mais comunicação e interações positivas com seus familiares. A TMF as incentivou a ter conversas que, de outro modo, não teriam no contexto de casa. Algumas também relataram maior coesão e união familiar.
Pessoa cuidadora 05: “Primeiro, me dá a oportunidade de apresentar meus pensamentos ao meu filho. A sós, normalmente não falamos disso, mas neste formato, a própria apresentação me dá a oportunidade de falar um pouco mais sobre mim, sobre o que estou pensando, ao meu filho.”
Pessoa cuidadora 05: “Mudamos nossos hábitos e fazemos mais frente comum sobre o que vemos.”
Pessoa cuidadora 03: “Acho mais próximo agora, principalmente do pai…”
Além dos ganhos interpessoais mencionados acima, houve relatos de ganhos intrapessoais, em termos de uma maior capacidade de lidar com a psicose. As pessoas participantes relataram ter passado a compreender melhor a doença e a aceitá-la.
Pessoa cuidadora 07: “…ele também fica frustrado por ter essa doença. Então, depois de passar por tudo isso, aos poucos ele vai entendendo melhor.”
Pessoa atendida 07: “É mais, tipo, só a compreensão da doença em si, e meio que explicar os próprios sintomas aos próprios pais… não só às outras famílias.”
As pessoas participantes também relataram ter adquirido, por meio da TMF, novas habilidades para lidar com a psicose no dia a dia.
Pessoa atendida 07: “…meio que me trouxe consciência… tipo, agora tenho consciência disso, então como eu posso, tipo… começar a lidar com isso.”
Pessoa atendida 08: “Ajudaria a gente no dia a dia… vai nos ajudar a aprender a lidar melhor com nossas tarefas do cotidiano com a nossa condição…”
Houve sugestões construtivas de algumas mudanças estruturais no programa.
Pessoa atendida 01: “Acho que deveria haver alguns momentos em subgrupos… mais momentos em subgrupos, eu diria, porque certas coisas, dá para ver que, na frente das pessoas queridas, acho que as pessoas cuidadoras também guardam certas coisas para si.”
Pessoa atendida 08: “Acho que talvez pudessem nos fazer fazer alguns exercícios juntos, tipo em família ou tipo [em] dupla[s], para conhecer melhor as outras pessoas também.”
Pessoas participantes, em sua maioria cuidadoras, também expressaram preferência por mais orientação profissional durante a TMF.
Pessoa cuidadora 02: “Sinto que certos temas precisam dessa expertise para simplesmente nos dizer, no final, se estamos no caminho certo e se esse é o jeito certo.”
Pessoa cuidadora 03: “O que o pessoal da área fala sobre isso? Tipo, que doença é essa? Eu gostaria de ter informações mais confiáveis.”
O presente artigo explora a experiência de famílias com a TMF no contexto do EPIP em Singapura. Os resultados deste estudo trazem elementos sobre os processos da TMF que podem explicar as mudanças nas famílias. As devolutivas construtivas das pessoas participantes podem ter relevância clínica direta para o desenvolvimento do serviço, de modo a atender melhor às necessidades das famílias singapurenses.
Um ambiente seguro é a base para que o trabalho terapêutico aconteça em qualquer forma de terapia. As pessoas atendidas e as pessoas cuidadoras deste estudo sentiram que não estavam sozinhas na situação. Isso reflete a conexão entre as pessoas do grupo e o sentimento de segurança que se estabeleceu no grupo ao longo da TMF. O processo de criar um espaço seguro na TMF é um esforço conjunto das pessoas participantes e das pessoas terapeutas, como ilustra um estudo (11). A essência da TMF é recorrer aos recursos do grupo, com as pessoas terapeutas se “descentrando”, isto é, assumindo um papel menos ativo ao longo do tempo, e permitindo que as pessoas participantes conduzam mais o trabalho (1). No trabalho com as pessoas atendidas pelo EPIP e suas famílias, a noção de descentramento das pessoas terapeutas assumiu outra forma: elas continuaram a exercer um papel bastante ativo, mantendo ao mesmo tempo uma postura especializada e autoritária, durante todo o ciclo de TMF.
Está bem documentado que o apoio e a aprendizagem mútuos são fatores terapêuticos-chave da TMF no trabalho com famílias asiáticas (6, 10, 26). Os relatos das pessoas atendidas e das pessoas cuidadoras deste estudo ecoam os resultados desses estudos asiáticos. O apoio e a aprendizagem mútuos só foram possíveis porque as famílias participaram abertamente das discussões em grupo. Os relatos de apoio e aprendizagem mútuos, tanto das pessoas atendidas quanto das cuidadoras, foram especialmente pertinentes para o trabalho com famílias singapurenses, pois contestaram a visão de que elas dificilmente se engajariam num contexto de grupo como esse, por causa da crença de que “roupa suja se lava em casa”. Além disso, o engajamento das pessoas atendidas e das pessoas cuidadoras ao longo da TMF também contestou a visão de que as famílias singapurenses dificilmente buscariam ajuda por causa do estigma da doença mental. O espaço seguro cocriado entre as pessoas participantes e as pessoas terapeutas aqueceu o contexto para o compartilhamento e a comunicação abertos, o que, por sua vez, pode ter facilitado o apoio e a aprendizagem no grupo. Sentir-se ouvidas e validadas pode ter levado as pessoas participantes a compartilhar com mais abertura e, com isso, fortalecido ainda mais o sentimento de segurança no grupo.
Outro resultado-chave é a experiência compartilhada pelas pessoas atendidas e pelas cuidadoras de mudanças positivas nas relações familiares, com mais empatia, comunicação e compreensão. O espaço terapêutico seguro pode ajudar as famílias a ter conversas que, de outro modo, seriam difíceis de ter em casa. Além de oferecer psicoeducação, a TMF tem o potencial de fortalecer as relações. Também pode prevenir o risco de ruptura relacional provocada pela psicose. Vários estudos na Ásia sugeriram o uso da TMF para fortalecer as relações familiares (9–12). Mais importante ainda, as pessoas atendidas e as pessoas cuidadoras relataram um maior sentimento de coesão familiar. Os processos descritos acima podem estar relacionados às mudanças na comunicação e nas relações familiares, em que havia, talvez, um espírito de corpo para enfrentar a psicose como unidade familiar. As mudanças na relação também podem estar ligadas à redução da sobrecarga das pessoas cuidadoras relatada em alguns estudos de TMF no contexto da psicose em Hong Kong (4, 5); as pessoas atendidas e suas famílias provavelmente estão em melhor condição de trabalhar a relação quando a sobrecarga das pessoas cuidadoras diminui. A emoção expressa (EE) está associada à sobrecarga familiar nas famílias de pessoas com primeiro episódio psicótico (32), e há evidências que sustentam o uso de intervenções familiares para reduzir a EE (33). Além de atuar sobre a sobrecarga das pessoas cuidadoras, a TMF pode ter o potencial de atenuar a EE nas relações familiares. No entanto, não existe uma norma universal na vivência da EE, e por isso é importante ter em mente que os comportamentos de prestar e de receber cuidados diferem entre culturas (34).
De modo geral, houve melhora na experiência subjetiva de lidar com a psicose. Em consonância com estudos anteriores (6, 9), as pessoas participantes relataram que a TMF as ajudou a compreender melhor a doença. Além disso, adquiriram novas habilidades de enfrentamento e passaram a aceitar mais a psicose. Com maior confiança na capacidade de lidar com a situação e mais aceitação da doença, as pessoas atendidas e as pessoas cuidadoras podem estar mais aptas a trabalhar o impacto relacional da psicose.
Os relatos das pessoas atendidas e das pessoas cuidadoras revelaram algumas diferenças na maneira como os dois grupos preferiam que a TMF fosse conduzida. As pessoas atendidas gostariam de ter mais atividades em grupo multifamiliar para criar laços e conversar com suas famílias. As pessoas cuidadoras, ao contrário, expressaram a necessidade de mais discussões entre elas, sem as pessoas atendidas, porque sentiam necessidade de se conter. Um benefício da TMF é a possibilidade de oferecer tanto atividades em grupo multifamiliar quanto discussões em grupos separados, que atendam às duas preferências relatadas. A TMF pode servir como ponto de partida para encaminhar as pessoas atendidas e as pessoas cuidadoras a outros serviços adequados às suas necessidades. As pessoas atendidas e suas famílias, por exemplo, podem ser encaminhadas para terapia de uma única família após a conclusão da TMF. A necessidade das pessoas cuidadoras de ter mais conversas com outras pessoas cuidadoras pode ser atendida pela participação em grupos de apoio para pessoas cuidadoras na comunidade. Além disso, as pessoas cuidadoras (e as pessoas atendidas) podem ser incentivadas a formar sua própria rede de apoio para além da TMF, mantendo contato por grupos de mensagens e redes sociais. Vale notar que alguns grupos de TMF conseguiram fazer isso e consideraram essa rede de apoio útil.
Em consonância com estudos anteriores que defendiam a adoção de uma postura especializada e autoritária no trabalho com famílias asiáticas (19, 24, 26, 35, 36), as pessoas participantes (em sua maioria cuidadoras) indicaram que gostariam de mais contribuições profissionais. Um resultado particular do presente estudo é que esse retorno veio das pessoas cuidadoras, e não das pessoas atendidas. Vale reiterar aqui que as pessoas atendidas eram pessoas jovens (com média de idade de 21,1 anos) e que a diferença de preferência quanto à abordagem das pessoas terapeutas pode estar relacionada à diferença de geração entre essas pessoas jovens e suas famílias. Essa diferença pode ser influenciada pela mudança dos valores tradicionais e das mentalidades ao longo das gerações em Singapura. Como destacaram Foo et al. (27), a compreensão dos problemas psicológicos e de seu tratamento pelas pessoas atendidas sino-singapurenses é influenciada por modelos ocidentais e por crenças locais tradicionais. Portanto, as pessoas terapeutas precisam ser flexíveis em suas abordagens, e é crucial não presumir que adotar uma postura especializada e autoritária seria adequado às famílias singapurenses.
As quatro pessoas da equipe de pesquisa são sino-singapurenses e estão numa etapa da vida situada, em geral, entre a das pessoas atendidas e a das pessoas cuidadoras. Duas são homens e duas são mulheres. Seu envolvimento com a TMF assumiu formas diferentes. A equipe esteve atenta à forma como a idade, o gênero, a origem étnica e o envolvimento de cada pessoa com a TMF poderiam influenciar a maneira de compreender e interpretar as narrativas das pessoas participantes. Por isso, a equipe se reuniu em muitas ocasiões para cotejar as análises, com o objetivo de discutir eventuais divergências e examinar a influência de seus possíveis vieses sobre o estudo.
A maioria das pessoas cuidadoras deste estudo era formada por pais e mães, o que significa que as experiências de cônjuges ou parcerias e da fratria não estavam representadas. As pessoas atendidas eram, em sua maioria, pessoas jovens e provavelmente compartilhavam preocupações semelhantes, próprias da mesma etapa da vida. Portanto, os resultados deste estudo podem não se aplicar a pessoas atendidas de mais idade. A TMF foi testada em inglês (língua oficial de Singapura), e a maioria das pessoas participantes era sino-singapurense. Isso pode significar que a TMF não se ajusta às necessidades das famílias de Singapura que não falam inglês. Futuras TMF poderiam recrutar cônjuges ou parcerias e membros da fratria, bem como pessoas atendidas de mais idade. Seria útil incluir mais famílias de outras origens étnicas e, possivelmente, conduzir a TMF em outras línguas. Paralelamente, futuras pesquisas sobre a TMF poderiam explorar as experiências desses grupos de famílias que não estavam representados no presente estudo. Por fim, as experiências das pessoas terapeutas com a TMF estão ausentes deste estudo. Talvez estudos futuros também pudessem examinar essa questão para compreender os desafios de conduzir a TMF e, mais importante, apoiar o serviço que a oferece na sustentação dessa intervenção terapêutica.
Este projeto se apoia nos resultados preliminares do estudo piloto sobre o uso da TMF com pessoas atendidas pelo EPIP e suas famílias (19). Os resultados deste estudo corroboram o argumento de que a TMF pode ajudar as famílias a lidar melhor com a psicose e a reconstruir suas relações; também endossam a visão de que um modelo terapêutico de base ocidental pode ser adaptado para atender às necessidades das famílias singapurenses. O que este estudo acrescenta à literatura existente é destacar os processos terapêuticos da TMF que ajudam as famílias singapurenses em sua recuperação da psicose. Curiosamente, ele também sugere que adotar uma postura especializada e autoritária pode não se ajustar às gerações mais jovens em Singapura, já que as pessoas participantes que manifestaram preferência por essa abordagem eram pessoas cuidadoras, e não as pessoas jovens atendidas. Assim, o estudo convida as pessoas terapeutas a adotar uma postura flexível e fluida, atenta às diferentes gerações, no trabalho com famílias singapurenses.
Principais perguntas a responder no grupo focal:
Qual foi a experiência das pessoas jovens ou adultas e de suas famílias com a TMF?
Que impacto a TMF teve sobre as pessoas jovens ou adultas e suas famílias?
O que é uma TMF bem-sucedida para as pessoas jovens ou adultas e suas famílias?
Complexe Systémique: a reter
Para além da psicoeducação, esta TMF singapurense aposta em atividades sistêmicas clássicas (escultura, árvore genealógica, rio da vida familiar), e as famílias dizem ter encontrado ali o que a casa não permitia: conversar, entender-se, fazer frente comum diante da doença. Dois resultados interessam diretamente à clínica. Primeiro, o receio cultural de “lavar roupa suja em público” não impediu o engajamento no grupo: foi a segurança construída em conjunto que o tornou possível. Depois, o pedido de orientação especializada vem dos pais, não das pessoas jovens atendidas: uma postura de autoridade, muitas vezes recomendada com famílias asiáticas, corre o risco de falar a uma geração e perder outra. O estudo continua modesto: quatro grupos, uma única língua, sobretudo pais e mães, terapeutas que também conduziram os grupos focais e nenhuma medida de resultados. Para ler com a metassíntese sobre a terapia multifamiliar no Leste e no Sudeste Asiático e com a abordagem TIPS de grupos de psicoeducação familiar no primeiro episódio psicótico.
Notas do original
Ética. Os estudos envolvendo seres humanos foram avaliados e aprovados pelo Comitê de Revisão Específico de Domínio (DSRB) do National Healthcare Group (NHG) e pelo Comitê Institucional de Revisão de Pesquisa (IRRC) do Institute of Mental Health (IMH). O consentimento informado por escrito para participar deste estudo foi dado pelo responsável legal ou pelo familiar mais próximo das pessoas participantes.
Contribuições. CL liderou o desenvolvimento da TMF e deste estudo. WL, HL e AK apoiaram o desenvolvimento da TMF e todos os aspectos deste estudo. Todas as pessoas que assinam o artigo contribuíram para ele e aprovaram a versão submetida.
Financiamento. Este estudo foi financiado pelo Centre Grant Research Seed Funding (estudo piloto) do IMH, num total de 2.880 dólares de Singapura.
Conflitos de interesse. WL trabalha na Cigna Europe Insurance Company S.A.-N.V. As demais pessoas da equipe declaram que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que pudessem ser interpretadas como potencial conflito de interesses.
Nota da editora. Todas as afirmações expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da equipe que o assina e não representam necessariamente as das organizações a que ela está vinculada, nem as da editora, das pessoas responsáveis pela edição e pela avaliação. Nenhum produto que possa ser avaliado neste artigo, nem qualquer afirmação feita por seu fabricante, é garantido ou endossado pela editora.
Agradecimentos. A equipe agradece a Mythily Subramaniam, Janhavi Vaingankar, Poon Lye Yin, Peter Wong, Ang Suying e Charlene Hon, do Institute of Mental Health de Singapura, pelo generoso apoio e pela contribuição a este projeto.
Referências
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Tradução não oficial em português de A terapia multifamiliar no primeiro episódio psicótico: a experiência de famílias em Singapura, de Christopher Loh, Wilfred Liang, Helen Lee e Astelle Koh, Frontiers in Psychiatry, vol. 12, art. 788827 (2021), doi: 10.3389/fpsyt.2021.788827, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Multi-Family Therapy for First Episode Psychosis: Experiences of Families in Singapore”, publicado em Frontiers in Psychiatry (2021) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Loh, C., Liang, W., Lee, H., et Koh, A. (2021). A terapia multifamiliar no primeiro episódio psicótico: a experiência de famílias em Singapura (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/terapia-multifamiliar-no-primeiro-episodio-psicotico-a-experiencia-de-familias (Obra original publicada em 2021 em Frontiers in Psychiatry, 12, 788827 (2021); republicada em 2021 por Frontiers in Psychiatry, https://www.frontiersin.org/journals/psychiatry/articles/10.3389/fpsyt.2021.788827/full)
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