Research on Language and Social Interaction · Casal
Depois de um aborto decidido após testes genéticos, na Polônia, uma mulher passa a se dizer “um monstro tão grande”. Bernadetta Janusz, que conduziu a terapia de casal, e Anssi Peräkylä acompanham ao longo de dezesseis sessões a maneira como a culpa é dita: primeiro atribuída aos outros, depois voltada contra si, ela acaba sendo nomeada, pensada e tolerada.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A culpa se torna pensável: história interacional de uma terapia após uma perda ambígua, de Bernadetta Janusz e Anssi Peräkylä, publicado na Research on Language and Social Interaction (Taylor & Francis) (2026), doi: 10.1080/08351813.2026.2616199, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas; os trechos de transcrição (polonês e tradução inglesa do artigo) e as figuras são reproduzidos como imagens, com legendas traduzidas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Uma história interacional por meio da qual a culpa passou a ser percebida, nomeada e tolerada.
Bernadetta Janusz e Anssi Peräkylä
Resumo
Este estudo analisa a história interacional de uma terapia de casal realizada após um aborto que despertou sentimentos de culpa, que o casal tematizou e sobre os quais refletiu durante a terapia. O estudo se concentra (1) nas mudanças na organização das sequências por meio das quais a culpa é abordada e (2) na mudança longitudinal das expressões de culpa ao longo do processo terapêutico. No início e no meio da terapia, as pessoas participantes abordavam sua culpa com cautela e de modo indireto. Perto do fim do processo terapêutico, elas passaram a evocar o tema da culpa de modo mais direto e menos cauteloso. No início do processo, o casal externalizava a culpa, queixando-se de ser recriminado por outras pessoas. Mais tarde, essa recriminação externa se transformou em uma autorrecriminação intensa. À medida que a terapia avançava, a autorrecriminação foi se tornando menos intensa, e o casal adotou uma postura mais reflexiva em relação à sua culpa. Os dados estão em polonês.
Por envolver uma série de encontros entre as mesmas pessoas, a psicoterapia poderia oferecer um domínio paradigmático para a análise da conversa longitudinal (Deppermann & Pekarek Doehler, 2021; Pekarek-Doehler et al., 2018). A abordagem da história interacional (ver Deppermann & Haddington, 2026) vem sendo aplicada há mais de uma década nos estudos de análise da conversa (AC) sobre psicoterapia (Voutilainen et al., 2011; Peräkylä, 2012; Bercelli et al., 2013; Muntigl, 2013; Voutilainen et al., 2018; Deppermann & Gubina, 2026). Os estudos existentes têm um duplo foco, no tema e na sequência: mostram como a fala das pessoas participantes sobre determinado tema muda ao longo de várias sessões, no contexto de um tipo específico de sequência. No presente estudo, mostramos além disso como a organização sequencial da fala sobre a culpa muda ao longo do tempo durante um processo de terapia de casal.
Identificamos um contexto sequencial recorrente da fala sobre a culpa. Identificar uma sequência recorrente permite comparar os segmentos que surgem em diferentes sessões (ver Schegloff, 1993). Além disso, nosso trabalho examina as formas como as pessoas participantes remetem à sua discussão anterior (ver, por exemplo, Betz & Deppermann, 2018) e verbalizam sua própria compreensão do processo de mudança em psicoterapia. Com isso, nosso estudo contribui para o conhecimento sobre as histórias interacionais ao discutir tanto a questão da comparabilidade quanto a perspectiva êmica das pessoas participantes (Deppermann & Pekarek Doehler, 2021).
A culpa é uma emoção negativa voltada para si, que surge quando uma pessoa percebe seu comportamento como uma violação de normas morais ou como algo que causa dano a outras pessoas (Yang et al., 2010; Yu et al., 2020). Diferentemente da vergonha, entende-se que a culpa se concentra em um comportamento específico, de modo que não se generaliza como acontece quando se tem uma imagem negativa de si como um todo (Tangney & Dearing, 2002). Nas perdas perinatais, a culpa também pode intensificar o luto. Nas mães, a culpa e o luto costumam ser mais fortes do que nos pais (Duncan & Cacciatore, 2015).
Analisamos o processo terapêutico de um casal que decidiu fazer um aborto após testes genéticos. Examinamos a mudança de sua experiência de culpa tal como se expressava em sua fala. O aborto provocou uma forte culpa na esposa. Nossos dados vêm da Polônia, um país em que há dois discursos sociais fortemente opostos e concorrentes sobre o aborto: o pró-vida (antiaborto) e o pró-escolha. Em razão dessas visões conflitantes no contexto social, o aborto após exames médicos pode ser considerado complicado e ambíguo.
Para os fins da presente análise, a perda ambígua é definida como “uma perda que permanece obscura e sem resolução” (Boss & Yeats, 2014, p. 2), uma perda que resulta em ambivalência e ansiedade (Boss, 2022). Esta pesquisa se insere no campo da perda ambígua em razão da complexidade da decisão dos pais quando consideraram o aborto após os testes genéticos e da incerteza, depois, de terem feito a escolha certa. O objetivo do trabalho terapêutico com a perda ambígua é desenvolver a capacidade do casal de sustentar simultaneamente duas ideias opostas, por exemplo, que a perda ocorreu e que não está claro para eles em que consiste essa perda. Isso significa que compreender a própria experiência de estados mentais possivelmente divergentes ou conflitantes requer o que se chama de capacidade de mentalização.
A mentalização é definida como a interpretação ativa, por uma pessoa, de suas próprias ações e das ações dos outros em termos de estados mentais (Allen et al., 2008; Fonagy et al., 2002). Ela se baseia na capacidade de observar o próprio estado mental e o de outra pessoa e de refletir sobre eles. Uma mentalização eficaz ajuda a viver situações emocionalmente carregadas sem se deixar submergir pelas emoções nem desligá-las (Slade, 2005). Nos processos terapêuticos que investigamos, uma mudança-chave observável ao longo do tempo foi o aumento da mentalização.
Como é habitual nos estudos de análise da conversa, nosso problema de pesquisa foi formulado durante a análise do material de pesquisa, guiada pelos dados. Este artigo procura determinar como a fala sobre a culpa muda durante a terapia.
O casal que foi objeto de nossa pesquisa decidiu fazer um aborto em razão de uma anomalia genética. Os cônjuges tinham por volta de 30 anos e um filho de três anos. Como a esposa apresentava sintomas de estresse traumático e atravessava uma crise geral, o casal foi encaminhado ao centro terapêutico. As consultas de terapia de casal começaram um mês após o aborto da esposa. O casal atribuiu inicialmente os sintomas da esposa às dificuldades que havia enfrentado com profissionais de saúde que defendiam abertamente posições antiaborto.
A terapeuta era uma mulher de quase 50 anos. Sua abordagem da terapia do luto se baseava na teoria do apego. Essa orientação teórica interpreta os sentimentos ligados à perda, incluindo o luto, como uma forma de ansiedade de separação provocada pela ruptura de um vínculo de apego (Middleton et al., 1993). Essa terapia busca melhorar a regulação do afeto estabelecendo a relação com as pessoas falecidas como um self-objeto internalizado (Schore, 2015) e restaurar a mentalização para reduzir a ativação tanto do sistema de apego quanto da resposta traumática (Allen et al., 2008). A terapeuta é também a primeira autora deste artigo. Na clínica, os processos terapêuticos são gravados em vídeo de forma rotineira. A distância analítica da terapeuta em relação aos dados foi favorecida pelo intervalo entre a terapia e o processo de pesquisa, já que se passaram apenas alguns anos entre o fim da terapia e o início da análise dos dados.
Aplicando a AC (Robinson et al., 2024), descrevemos a organização sequencial da ação (por exemplo, como enunciados adjacentes respondem uns aos outros) e a construção de entendimentos intersubjetivos. A primeira autora assistiu às 16 sessões da terapia. Ela reuniu os segmentos que continham referências verbais à gravidez, ao filho perdido e ao procedimento médico do aborto, e o resultado foi um conjunto de dados de 33 segmentos, que foram depois transcritos e traduzidos. Esses segmentos foram frequentes na primeira e na segunda sessão e reapareceram nas sessões 9 a 14, bem como na sessão 16. Nas outras sessões, a fala dos cônjuges envolvia temas como suas famílias de origem, a saúde mental da esposa e suas escolhas profissionais e as relações do casal com suas amizades.
Após a análise inicial dos dados com a pessoa que assina em segundo lugar, a primeira autora fez legendas em inglês para 26 segmentos, que depois foram analisados intensivamente pelas duas pessoas que assinam o artigo, em conjunto. A seleção final, conjunta, dos segmentos a analisar foi motivada por nosso foco analítico: as referências a um feto, à gravidez ou a um filho no contexto de recriminação, punição ou culpa. Como é típico nos estudos de análise da conversa, a análise foi indutiva. O problema de pesquisa final foi construído gradualmente ao longo do processo analítico.
A etapa inicial da análise foi longitudinal. Para isso, comparamos segmentos de diferentes fases da terapia e descobrimos que a fala do casal sobre sua culpa se transformava gradualmente. Na segunda etapa, a análise foi sequencial: investigamos como a culpa surgia como tema e se transformava dentro de cada segmento. A terceira etapa da análise fundiu as abordagens sequencial e longitudinal, quando exploramos como a organização sequencial da fala sobre a culpa se transformava durante a terapia, junto com seu conteúdo temático.
Apesar do quadro de participação triádico das sessões de terapia de casal, o foco desta análise está na transformação da culpa da esposa, porque tanto a intensidade de sua culpa quanto sua transformação foram mais profundas. Não diferenciamos, porém, analiticamente os dois cônjuges. Assim, quando o marido contribuía ativamente para a sessão (como no trecho 1), consideramos os cônjuges como uma unidade. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Collegium Medicum da Universidade Jaguelônica (decisão nº 118.0043.1.128.2024). O casal também deu seu consentimento informado por escrito para o uso dos dados neste estudo.
Começamos apresentando uma visão geral de nossos resultados e, em seguida, passamos a uma análise detalhada de casos que mostram a dinâmica resumida nessa visão geral. Durante a terapia, a transformação da fala sobre a culpa envolveu tanto a organização sequencial da fala quanto seu conteúdo. Observamos que, nas primeiras nove sessões (de 16), a fala sobre a culpa seguiu um padrão composto de quatro passos sequenciais, descrito na tabela 1. Depois da nona sessão, a fala incorporou formas sequenciais mais diversas. Quanto ao conteúdo, o casal falou primeiro de outras pessoas que o recriminavam pelo aborto e depois passou a uma forte posição de autorrecriminação. Por fim, perto do fim da terapia, o casal adotou uma posição na qual aceitava e mentalizava os conflitos morais e existenciais, bem como a culpa que decorria da decisão de abortar.
Tabela 1 — O padrão sequencial da fala sobre a culpa nas primeiras nove sessões
Na tabela 1, resumimos os aspectos-chave de nossos resultados: o padrão sequencial que facilitou a fala sobre a culpa nas primeiras nove sessões.
A seguir, apresentaremos seis trechos de nossos dados que mostram como o processo terapêutico transforma a representação da culpa. Os três primeiros trechos seguem o padrão sequencial descrito na tabela 1 (sessões 1 a 9), ao passo que os três últimos envolvem padrões sequenciais mais diversos (sessões 9 a 16).
Na primeira sessão, o casal falou de como se sentia condenado pelos outros por ter feito um aborto. O casal também criticou as equipes de saúde por não lhe terem oferecido a ajuda de que teria precisado. No início do trecho 1, o marido afirma sentir que ninguém considera a decisão deles justificada. No trecho, as quatro fases da fala sobre a culpa são separadas por subtítulos. Na transcrição, adotam-se os símbolos de transcrição jeffersonianos padrão (Jefferson, 2004), complementados pelas anotações de ações corporificadas de Mondada (2018). Além disso, as linhas analisadas são glosadas.


Fase 1: uma manifestação de aflição que pode ser lida como culpa. Nas linhas 01 a 06, o marido se queixa da dor que lhe causou a condenação da decisão do casal e termina seu enunciado afirmando: “afinal, nós não fizemos nada de errado” (we haven’t done anything wrong after all, linha 6). Por meio dessa asserção de formato negativo, o marido contesta possíveis alegações de que eles teriam feito algo errado. Sua defesa pode ser lida como reflexo de uma possível culpa.
Fase 2: a pergunta de desambiguação da terapeuta. Com uma pergunta dirigida aos dois cônjuges nas linhas 09 a 11, a terapeuta tenta cautelosamente explorar o que a aflição descrita pelo marido poderia ter envolvido. Ela se refere à reação dos cônjuges às pressões sociais como “tamanha incerteza” (such uncertainty, linhas 11 a 13) e se alinha cuidadosamente com a afirmação do marido de não ter feito nada de errado (“vocês não sentindo assim”; you not feeling so, linhas 10 e 11).
Fase 3: a expressão de culpa pela paciente. Em resposta à pergunta da terapeuta, a esposa toma o turno com uma inspiração (linha 12). O enunciado propriamente dito começa na linha 14, logo depois que a terapeuta conclui sua pergunta. O marido responde com um estalo de língua na linha 15, mas cede o turno. A descrição, pela terapeuta, de tamanha incerteza (linha 13) parece prontamente reconhecível como dirigida à esposa, já que ela responde com uma repetição na linha 14 e produz um longo relato que caracteriza as fontes da incerteza (linhas 14 a 39). Ela contrapõe as pessoas próximas, que não questionam a decisão do casal (linhas 14 a 17), e a sensação de uma ameaça vinda de muitas direções, a de que alguém pudesse lhe dizer que ela era um monstro (linhas 24 a 27).
A palavra “monstro” surge depois de uma busca (indicada pelas vocalizações hesitantes da linha 27), e sua prosódia, um contorno entoacional alto-baixo e o alongamento das vogais, parece indicar que rotular a esposa de monstro é apenas uma maneira possível de descrever a eventual mensagem de outras pessoas não nomeadas. O modo como a esposa pronuncia “monstro” tem certa leveza: ela não está levando essa acusação a sério ao falar dela. A esposa continua então seu relato de ser recriminada, caracterizando isso como uma pressão constante, como se alguém estivesse o tempo todo sentado em seus ombros (linha 38).
Fase 4: a resposta mentalizadora da terapeuta. Em sua resposta em terceira posição, a terapeuta investiga a dinâmica da experiência da esposa perguntando, nas linhas 40 e 42, se ela só começou a se sentir ansiosa depois de voltar para a Polônia. Dessa forma, a terapeuta se orienta para a ansiedade do casal como um estado mental subjetivo que tem seu próprio curso temporal (Allen et al., 2008).
Na sessão 2, a culpa foi construída de outra maneira: uma intensa autorrecriminação surgiu na fala da esposa. Isso ocorreu perto do fim da sessão, como mostra o trecho 2. Sua forte exclamação de culpa na linha 56 (“eu sou um MONSTRO tão grande”) é o ponto final de sua descrição da relação sensorial entre ela e o bebê que ainda não havia nascido, descrição construída em conjunto pela esposa e pela terapeuta. Neste trecho, o sinal @ indica voz chorosa, isto é, uma qualidade de voz que sinaliza que a pessoa está à beira do choro; “shih” indica o que Hepburn (2004) chamou de fungada ruidosa pelo nariz, e “skuh”, uma fungada úmida.




Fase 1: uma manifestação de aflição que pode ser lida como culpa. Imediatamente antes deste segmento, a conversa tratava da intensa tristeza do marido no momento em que o feto morto foi expulso. A esposa sugere que o marido se despediu do bebê naquele momento e especifica que ela se despediu antes, quando o bebê deixou de se mexer em seu ventre (linha 2).
Em resposta às perguntas da terapeuta (linha 7), a esposa confirma que os movimentos do feto cessaram no hospital, depois da administração do medicamento que induziu o aborto. Nas linhas 18 a 31, a esposa volta à diferença entre a sua experiência e a do marido no momento do parto, dizendo que, para ela, “era só uma questão do corpo” (just about the body), enquanto, para ele, “era uma questão da mente” (it was about the mind, linha 19).
Parece haver certa ambiguidade na descrição que a esposa faz de sua própria experiência. Por um lado, ela a caracteriza como indiferente (“só uma questão do corpo”, linhas 18 e 19) e, por outro, a descreve como avassaladora (“minha mente já não funcionava naquele momento”, linhas 21 e 22). Nas linhas 28 e 30, ela aponta que o marido não teve contato físico com o bebê (isto é, não o sentiu). Em outras palavras, ela deixa implícita sua própria experiência de sentir o feto, bem como de sentir a cessação dos movimentos do bebê (ver linha 2) enquanto ele estava em seu ventre.
Fase 2: a pergunta de desambiguação da terapeuta. Na linha 33, a terapeuta se concentra no enunciado da esposa, deslocando o foco do marido para ela. Com o início de turno “então, pode-se dizer” (so, you might say), ela apresenta seu enunciado como uma formulação, uma inferência a partir da fala anterior da esposa (cf. Antaki, 2008); em seguida, aponta que a esposa sentiu “ele” (o bebê que ainda não havia nascido) mais (linha 33) do que o marido. Com essa formulação, a terapeuta tornou explícita a implicação do enunciado da esposa.
Depois de retomar o que o marido havia dito imediatamente antes do trecho sobre “se despedir” (linhas 34 e 35), a terapeuta observa, com certa hesitação (usando a construção no subjuntivo “pode ser que”), que poderia haver uma ligação entre a experiência do marido (despedir-se de alguém que ele não conhecia) e a experiência da esposa, que sentiu mais o bebê (linha 33). O enunciado da terapeuta é seguido de um longo silêncio (linha 38) e de uma inspiração profunda da esposa (linha 39), que possivelmente mostra o processamento cognitivo ou emocional do que a terapeuta acabou de dizer.
Fase 3: a expressão de culpa pela paciente. Por fim, a esposa responde na linha 40: “Bem, sim, bem, porque nós nos sentíamos um ao outro” (Well yes, well because we sensed each other). Ela colabora assim com o redirecionamento da fala, operado pela terapeuta, para a experiência sensorial da esposa com o bebê que ainda não havia nascido; mas, com as referências de pessoa “nós” e “um ao outro”, introduz também a experiência do bebê no mundo referencial.
Depois de uma conversa intermediária em que refletiu sobre a incapacidade biológica do feto de senti-la (dados não mostrados), a esposa voltou, na linha 64, ao tema de se sentirem um ao outro, aludindo agora à qualidade traumática (linha 66) dessa experiência. Ela cria um contraste entre a intimidade física (sentir-se um ao outro) e o conhecimento antecipado das consequências da decisão do casal (“ele não vai nascer”; linha 67). A forte emoção negativa provocada por esse contraste se expressa, por exemplo, na voz alta da esposa ao dizer “ELE NÃO VAI NASCER” (HE WON’T BE BORN, linha 67), bem como na repetição rítmica da expressão “O TEMPO, O TEMPO todo” (ALL ALL the time) na linha 68 (cf. Setting, 1994). A esposa se refere a essa experiência dizendo que é um “pesadelo”, palavra que pronuncia duas vezes (linha 68).
Depois de uma breve pergunta de esclarecimento (linha 72) e de uma resposta curta (“sim”, linha 53), a esposa conclui descrevendo sua experiência de pesadelo por meio de uma expressão dramatizante de culpa: “que eu sou um monstro tão grande” (that I am such a monster, linha 73). Sua voz fica chorosa e ela balança a cabeça. Quando afirma que é um monstro (linha 73), usa como autocategorização o mesmo substantivo que havia usado no trecho 1 para descrever como os outros poderiam categorizá-la (ver trecho 1, linha 19). A reutilização do substantivo indica a continuidade entre as duas sessões, que envolve ao menos uma semelhança nas emoções e em sua formulação, se não uma consciência de estar retomando uma categorização anterior.
Fase 4: a resposta mentalizadora da terapeuta. A terapeuta responde à exclamação da esposa pedindo que confirme que se sentiu assim (linha 75). Esse pedido de confirmação parece produzido para estimular a esposa a falar mais, mas a pergunta também traz uma mudança de perspectiva epistêmica. Assim, enquanto a esposa relata a experiência de pesadelo de ser um monstro (linha 73), a terapeuta põe em primeiro plano o caráter subjetivo dessa experiência, isto é, o fato de a esposa ter sentido algo.
O ritmo lento e o volume baixo nas linhas 75 e 80 contribuem para a impressão de que a fala da terapeuta é calma, o que talvez traduza um esforço para acalmar a esposa. Ao responder, a esposa adota a perspectiva epistêmica subjetivada, passando de “ser” a “sentir-se como” (linha 76). Nas linhas 80 e 81, a terapeuta investiga a origem da experiência da esposa perguntando se esse sentimento era algo que a própria esposa começou a sentir ou se vinha do que os outros diziam.
Essa pergunta reflete a orientação da terapeuta para a história interacional: ela retoma de modo observável a discussão da sessão anterior (ver trecho 2, no momento em que a categoria monstro foi apresentada como vinda da forma como os outros avaliavam a esposa). Ao responder que não tem certeza (linha 82), a esposa parece adotar uma posição de não saber mais mentalizada: está aberta a aceitar a possibilidade de que o sentimento venha dela mesma. Isso indicaria uma mudança importante em sua experiência de culpa, isto é, a passagem da experiência de ser recriminada pelos outros para o reconhecimento de sua própria recriminação dirigida a si mesma.
Durante as sessões 3 a 8, o casal fala repetidamente de suas autoacusações e de suas experiências de ser recriminado pelos outros. No entanto, só na sessão 9 a palavra “culpa” é pronunciada. Mais ou menos na metade dessa sessão, a esposa pergunta à terapeuta o que poderia significar estar curada. Durante sua longa resposta, a terapeuta incentiva o casal a explorar os pensamentos e as fantasias associados às suas escolhas em relação ao aborto, dizendo: “isso pode despertar sentimentos diferentes, e eu acho (…) que vocês não estão mais em luta com os médicos poloneses, nem com o Estado polonês, nem com qualquer outra pessoa que os obrigue a continuar defendendo a decisão de vocês”.
Ao mencionar os “médicos poloneses” e o “Estado polonês”, a terapeuta alude à discussão da primeira sessão (trecho 1), durante a qual os cônjuges se queixavam de ter de se defender de quem os recriminava. Como mostra o trecho 3, linhas 01 a 04, a terapeuta continua seu longo enunciado com uma pergunta retórica: poderia a esposa alcançar uma sensação de segurança que lhe desse liberdade para refletir sobre sua decisão?



A intervenção da terapeuta nas linhas 01 a 04 é seguida de um silêncio de 4 segundos na linha 0.5. A terapeuta continua então sua intervenção (linhas 06 a 08) dizendo que não se sabe se essa segurança para compartilhar pensamentos sobre a decisão da esposa resultará, no fim, em cura, mas que o principal é alcançar uma liberdade interior.
Segue-se um longo silêncio, durante o qual se ouve a respiração da esposa (linhas 09 a 13). Por fim, na linha 14, a esposa começa um turno. Em vez de abordar a liberdade interior em um plano geral, ela descreve seus sentimentos. Em um enunciado um tanto complexo, observa que sua raiva contra o destino tem dois lados: o primeiro, mais simples, diz respeito ao fato de seu filho estar doente, e o segundo, a ter tido de decidir pelo aborto (linhas 14 a 21). Ao descrever o segundo lado, a esposa interrompe a progressão de seu enunciado na linha 19. Depois do sinal de recebimento da terapeuta (linha 20) e de uma pausa de 3 segundos (linha 21), a esposa recomeça o enunciado dizendo que talvez também esteja com raiva sobretudo por ter tido de tomar a decisão (do aborto).
A terapeuta recebe as reflexões da esposa com um continuador (linha 24) e, de novo, ocorre um longo silêncio. Esse silêncio é quebrado pela inspiração (linha 26) e pela expiração (linha 28) da esposa. Essas perturbações prolongadas e excessivas na fala da esposa indicam tanto a luta quanto o esforço de lidar com a questão sensível de suas decisões (Lerner, 2013). Por fim, na linha 30, a esposa afirma que talvez carregue “algum sentimento de culpa” (some sense of guilt) por ter tomado a decisão. A terapeuta recebe essa revelação de culpa com um “mm-hm” dito suavemente (linha 31; a qualidade da voz é indicada pelos sinais @), e a esposa continua afirmando que a culpa pode provocar sua ansiedade diante da possibilidade de ter um segundo filho (linhas 33 a 35).
O segmento acima é o primeiro momento do processo terapêutico em que o tema da culpa é enunciado explicitamente. Ele surge durante o turno de múltiplas unidades da esposa, uma fala autorreflexiva, mas emocional e trabalhosa, que ocorre sequencialmente como resposta à longa intervenção da terapeuta, na qual ela incentiva a esposa a refletir livremente sobre seus pensamentos ligados à decisão. Depois de revelar a culpa, a esposa continua no tema de uma possível gravidez futura, aludindo à possibilidade de que seu próximo filho não seja saudável. A parte final dessa fala é apresentada nas linhas 01 e 02 do trecho 4.



Fase 1: uma manifestação de aflição que pode ser lida como culpa. No contexto da fala anterior, a expressão idiomática da esposa, traduzida aqui como “não se pode escapar do destino” (you cannot escape your destiny, linha 1), alude à possibilidade de o casal ter outro filho com uma anomalia congênita. A esposa continua na linha 2 articulando resignação (“para quê”, what’s the point). Seu turno termina com um som prolongado e um contorno entoacional plano, que sugere continuação. Depois do continuador da terapeuta (linha 3), a esposa funga, diz “mas”, funga de novo, mas não continua seu enunciado (linha 4).
Depois de outro continuador da terapeuta (linha 6), a esposa permanece em silêncio e depois suspira de forma audível (linha 8). Sua aflição, ou sua dificuldade de encontrar palavras para expressar suas preocupações, se manifesta na interrupção do enunciado, nos suspiros e nas fungadas. A esposa expressa o receio de que as coisas não corram bem em uma possível próxima gravidez. Embora não articule as razões pelas quais espera que algo ruim aconteça, ela o diz tendo como pano de fundo suas reflexões anteriores sobre a culpa, que produz sua ansiedade diante de uma nova gravidez (trecho 3, linhas 31 a 33).
Fase 2: a pergunta de desambiguação da terapeuta. Ao fazer uma pergunta que traz ao mesmo tempo uma formulação (por exemplo, Antaki, 2008; Weiste & Peräkylä, 2013) e uma interpretação (ver Bercelli et al., 2008), a terapeuta volta ao que a esposa disse na linha 1, primeiro sugerindo que o fatalismo da esposa pode resultar de seu sentimento de culpa (linhas 10 e 11) e depois propondo que a esposa talvez espere ser punida (linha 13). Ao ligar culpa e destino, a terapeuta retoma assim os temas da culpa e da ansiedade em relação à gravidez que a esposa havia revelado alguns momentos antes (trecho 3, linhas 31 a 33). A terapeuta também intensifica esses temas ao introduzir a ideia de punição.
Fase 3: a expressão de culpa pela paciente. A esposa começa a assentir intensamente com a cabeça quando a terapeuta chega ao fim da primeira oração de sua pergunta, com a palavra “culpada” (winna, linha 11). Os acenos da esposa continuam durante todo o desenvolvimento da terapeuta (linha 12), durante a reformulação da pergunta (linha 14) e durante o silêncio que se segue (linha 15). Durante esse silêncio, os cantos da boca e as sobrancelhas da esposa assumem traços de choro, que começam com a palavra “punição” (kara) na linha 13. Os acenos contínuos da esposa confirmam o que a terapeuta sugeriu sobre culpa e punição (linhas 10 a 13). Ao confirmar com acenos enfáticos, e não verbal ou vocalmente, a esposa parece tratar o tema em discussão como algo indizível.
Na linha 18, a esposa toma o turno. Com seu enunciado, produzido em tom muito agudo e com voz de choro, ela confirma e desenvolve o que a terapeuta sugeriu entre as linhas 10 e 14, revelando que não consegue deter os sentimentos que a terapeuta descreveu. Ao caracterizar sua relação com os próprios sentimentos (não consegue detê-los), a esposa, como falante, se distancia de seus sentimentos propriamente ditos. Essa distância constitui uma postura mentalizadora incipiente em relação à culpa.
Depois dos sinais de recebimento da terapeuta (linhas 19 e 20), a esposa expande seu enunciado com um incremento nas linhas 22 e 23, no qual formula os sentimentos (ser uma “pessoa terrível” que fez uma “coisa terrível”). Sua voz continua chorosa; as palavras que expressam sua autorrecriminação são marcadas por um tom agudo (linhas 22 e 23). A esposa formula agora as fontes de sua culpa e da punição esperada: suas graves deficiências. Por outro lado, com o atenuador jakimś, jaka (“uma espécie de”) nas linhas 22 e 23, ela indica que as categorias pessoa terrível e coisa terrível talvez não se apliquem plenamente, sendo antes aproximações do que ela vive.
Fase 4: a resposta mentalizadora da terapeuta. Na conversa comum, a autodepreciação tornaria relevante uma concordância ou uma discordância, sendo a discordância a opção preferida (Speer, 2019). A terapeuta, porém, recebe a afirmação de autorrecriminação da esposa na linha 24 pedindo uma confirmação. Em vez de concordar ou discordar, a terapeuta centra explicitamente o pedido de confirmação na maneira como a esposa pensa sobre si mesma. Ela reforça a postura mentalizadora que havia surgido no turno anterior da esposa, reformulando “ser uma espécie de pessoa terrível” (a autodescrição da esposa na linha 22) como “ter esses pensamentos sobre você mesma” (having such thoughts about yourself, linha 24). Quando a terapeuta não reformula o conteúdo efetivo dos sentimentos de autoacusação da esposa, mas se refere a eles como “esses pensamentos”, a pergunta deixa de tratar de a esposa ser ou não um monstro e passa a se concentrar em seus pensamentos. A esposa confirma com um aceno de cabeça (linhas 24 e 25), e a terapeuta então pergunta se os pensamentos estão mais intensos agora (linha 26). A esposa responde primeiro negativamente, dando a entender assim que tem o sentimento de ser um monstro há algum tempo, e depois formula sua falta de vontade de falar desses pensamentos porque eles são “tão totalmente sem sentido” (so totally pointless, linha 28).
A transformação da culpa observada nos três trechos está resumida na figura 1, em especial na linha 3, que revela a transformação, ao longo do tempo, da expressão de culpa do casal. No trecho 1, a acusação é atribuída aos outros; no trecho 2, a autorrecriminação é expressa de forma não atenuada e emocional; no trecho 4, uma forte autorrecriminação é expressa no quadro de uma mentalização incipiente. Além disso, as expressões de culpa estão enraizadas em seus contextos sequenciais. A expressão de culpa é uma resposta às perguntas de desambiguação da terapeuta (linha 2 da tabela 1), que por sua vez respondem à fala anterior do casal sobre a aflição que sente por causa do aborto (linha 1 da tabela 1).

É importante notar que a fala sobre a aflição é diferente nos três trechos. No trecho 1, o marido se defende de uma recriminação que, a seu ver, os outros dirigiam ao casal, ao passo que no trecho 2 a esposa descreve a falta de relação sensorial do marido com o feto abortado, contrastando-a com sua própria experiência de tê-lo carregado. Por fim, no trecho 4, a esposa alude ao “destino” assustador que lança uma sombra ameaçadora sobre sua possível gravidez futura.
As perguntas de desambiguação da terapeuta tratam os relatos anteriores como tendo implicado três fatores que permanecem inexplicados. O primeiro é o sentimento de incerteza causado pelas atitudes dos outros (trecho 1). O segundo é a estreita ligação sensorial da esposa com o filho que ainda não havia nascido (trecho 2). O terceiro é a expectativa do casal de ser punido (trecho 4). Ao articular e explicitar essas questões, a terapeuta convida o casal a refletir sobre suas experiências ligadas à culpa. O casal responde ao convite expressando diretamente sua experiência de ser recriminado ou de ser culpado. Por meio de suas intervenções mentalizadoras (linha 4), a terapeuta transforma as asserções da paciente em atribuições de processos ou estados mentais à paciente. Mostramos como a paciente adotou a perspectiva mentalizada oferecida pela terapeuta. No trecho 2, isso ocorre ao permitir que os cônjuges assumam uma postura de não saber, ao passo que, no trecho 4, a perspectiva mentalizadora se reflete na preferência que ela expressa de não falar da culpa onipresente. Resumindo a organização interacional representada na figura 1, pode-se ver que as descrições das experiências ligadas à culpa se transformam tanto localmente, dentro da sequência, quanto longitudinalmente, de uma sessão para outra (cf. Peräkylä, 2019).
Uma virada na fala sobre a culpa ocorre na sessão 9, da qual foi extraído o trecho 4. Depois que a esposa admite a onipresença da culpa em seu mundo mental (ver trecho 4), sua culpa passa a ser abordada de forma aberta e direta, de modo que a entrada cautelosa e gradual na fala sobre a culpa deixa de ser necessária. As pessoas participantes também mudam sua maneira de falar da culpa, mostrando cada vez mais a aceitação de seu caráter inevitável. Essa mudança pode de fato ser considerada um resultado da interação terapêutica.
A seguir, apresentamos três trechos que ilustram a mudança ocorrida durante essa terapia de casal. A mudança envolve novas percepções, novas compreensões e novos processos emocionais associados à culpa, tal como se expressam na fala do casal. Nesses trechos, as pessoas participantes também mostram seu conhecimento sobre o próprio processo de mudança.
O trecho 5 faz parte da discussão de encerramento da sessão 9, da qual foi extraído o trecho 4. Essa síntese inclui o incentivo da terapeuta, dirigido principalmente à esposa, a reconhecer e aceitar seus sentimentos de culpa. A terapeuta enfatiza a universalidade da culpa e seu peso nessa família. Quando a esposa finalmente responde, ela indica que o comentário da terapeuta lhe trouxe uma nova compreensão.


Nas linhas 01 a 04, a terapeuta se refere a “nós” como quem se torna culpado. Ao dar a entender que todo mundo é culpado, a terapeuta convida a esposa a se incluir entre as pessoas culpadas. A partícula final nie pode ser traduzida nesse contexto como “não é?” na linha 04, o que torna inequívoco que a terapeuta busca a resposta da esposa. A esposa, no entanto, permanece em silêncio (ver linha 05) e suspira de forma audível (linha 06); durante o silêncio e o suspiro, olha para a terapeuta. A terapeuta responde à falta de retomada verbal da esposa com uma ressalva nas linhas 07 a 09 (dados não mostrados). Em sua longa resposta (linhas 11 a 18), a esposa concorda com hesitação e desenvolve o comentário da terapeuta. Ela indica que a compreensão da culpa sugerida pela terapeuta é diferente da que tinha até então: para ela, a culpa era algo como uma questão judicial (linha 14), ao passo que a terapeuta sugeriu agora outra perspectiva, uma culpa que se opõe à inocência e envolve muitos aspectos e escolhas da vida (linhas 14, 15 e 18). A esposa aponta que essa nova compreensão da culpa não subestima sua gravidade, mas muda o fardo que o sentimento de culpa lhe impõe. Ela conclui seu desenvolvimento na linha 23 voltando ao ponto de partida da linha 11: nunca tinha concebido a culpa dessa maneira.
O trecho 6, da sessão 10, mostra mais uma vez essa nova maneira de falar. No início da sessão, a esposa diz que a conversa sobre a culpa na sessão anterior havia ficado em sua mente. Pouco antes do trecho, a terapeuta perguntou se a culpa ainda poderia alimentar o medo da esposa de uma próxima gravidez. Depois da confirmação da esposa, a terapeuta pergunta se os cônjuges compartilham um sentimento de culpa ou se só a esposa sente culpa. A esposa afirma com bastante firmeza que só ela a sente. Em seguida, lança-se numa descrição reflexiva de sua culpa, cuja parte principal é apresentada abaixo. As pessoas participantes agora conseguem falar da culpa de maneira objetiva, sem a sequência preparatória cautelosa descrita nos trechos 1, 2 e 4.

A esposa descreve suas duas experiências inteiramente diferentes: a aceitação da decisão de abortar e sua culpa como mãe. Ao construir o conflito entre as duas experiências, a esposa enfatiza os dois polos: embora esteja “plenamente consciente” (fully aware, linha 01) de sua concordância com a decisão, a “culpa de mãe” está ali, po prostu (“simplesmente”, linha 03).
Depois dos sinais de recebimento da terapeuta (linhas 04 e 05), a esposa continua refletindo (dados não mostrados). Nas linhas 30 a 32, ela resume essas reflexões, formulando de novo os fundamentos de sua culpa: “algo aconteceu contra esse curso natural, e eu fui agente disso” (something has happened against this natural course and I was an agent in this). Assim, a esposa define os fundamentos específicos de sua culpa (ver Tangney & Dearing, 2002), sem estendê-la mais a si mesma como um todo (como fazia nos trechos 2 [e 4], ao afirmar que é “um monstro” e “uma pessoa terrível”).
Depois de seu sinal de recebimento e de um silêncio de 10 segundos, a terapeuta produz uma avaliação positiva da fala anterior da esposa, valorizando sua capacidade de nomear e descrever como vive a culpa (linhas 35 e 36). A terapeuta transmite assim aceitação e até incentivo, que respondem de modo observável à postura autocrítica expressa na fala anterior da esposa. A esposa recebe essa apreciação com acenos de cabeça (linhas 36 e 37) e dizendo “mm-hm” (linha 38). No entanto, como mostra o trecho 7, só depois de mais um silêncio de 10 segundos a esposa toma o turno, na linha 40, e desenvolve sua resposta à avaliação da terapeuta. Ela descreve a transformação gradual de sua culpa, não só criando sua própria descrição metafórica desse processo, mas também ilustrando-o com seus gestos.

Nas linhas 40, 41, 43 e 44, a esposa responde à apreciação da terapeuta sobre sua reflexão ligada à culpa dizendo que “só agora” (only now) começou a reconhecê-la (linha 40), embora isso venha se desenvolvendo nela “com o tempo” (over time, linha 41) e “lentamente” (slowly, linha 43). A esposa descreve então esse processo, de forma metafórica, nas linhas 43 e 44, como um processo em que “essas tampas sucessivas estão se abrindo” (these layered lids of it are opening). Com seus gestos, ela figura o processo (figuras 2 a 5): ao dizer as palavras “essas sucessivas” (te kolejne), mostra com as mãos uma espécie de cobertura ou tampa (figura 2) e a abre (figura 3). Ela repete esse gesto de abertura com maior amplitude ao dizer a palavra tampas (figuras 4 e 5). Na linha 49, reformula sua descrição da mudança que ocorre nela observando: “isso está, lentamente, em algum lugar dentro de mim, começando a ser nomeado” (it is becoming slowly somewhere in me named). Embora o enunciado da esposa indique sua percepção mental da mudança e sua capacidade de verbalizá-la, ele também descreve sua experiência ao longo de todo o processo terapêutico, que é uma história interacional por meio da qual a culpa passou a ser percebida, nomeada e tolerada.




Esta análise apresentou uma transformação na fala das pessoas participantes sobre a culpa durante um processo de terapia de casal após um aborto. Nossa análise destaca três facetas dessa mudança: o contexto referencial da culpa, a expressão interacional da culpa e a sequência em que ocorre a fala sobre a culpa. Os resultados estão resumidos na tabela 2.
Tabela 2 — Transformação do contexto referencial, da expressão e da sequência
Neste estudo, como em estudos anteriores sobre histórias interacionais em psicoterapia (ver Voutilainen et al., 2018), seguimos um fio temático (Schegloff, 2007) ao longo de várias sessões terapêuticas. Exploramos a transformação, durante a terapia, da compreensão que a paciente tinha de um tema emocionalmente significativo. Nos estudos anteriores, o tipo de contexto sequencial em que ocorria a evolução temática permanecia o mesmo (Voutilainen et al., 2011). Em nosso trabalho, ao contrário, demonstramos uma mudança na organização sequencial da fala sobre um mesmo tema, de uma abordagem gradual e cautelosa da culpa para sua tematização aberta. Na primeira metade do processo terapêutico, a trajetória da fala sobre a culpa era iniciada por uma fala do casal que podia ser lida como ligada à culpa, mas que não a expressava nem a abordava abertamente. A terapeuta respondia a essa fala com perguntas de desambiguação, que convidavam a respostas quando a experiência ligada à culpa vinha à tona. Essas respostas envolviam a liberação de emoções intensas; na parte final do processo terapêutico, as pessoas participantes abordaram sua culpa de forma mais direta. A terapeuta podia então introduzir o tema da culpa em suas perguntas sem trabalho preparatório, e a esposa tendia a falar dele por iniciativa própria. Parece que a estrutura sequencial que havia facilitado a fala sobre a culpa na primeira metade das sessões já não era necessária.
Na história interacional que descrevemos, a terapeuta facilitou a expressão da culpa, primeiro por meio de intervenções cautelosas que levaram a desambiguar a culpa e, perto do fim do processo, abrindo a discussão sobre as diferentes dimensões da perda e sobre a relação dos pais com sua decisão. Assim, uma parte essencial do projeto terapêutico consistiu não só em incentivar uma expressão mais aberta da culpa, mas também em permitir que o casal reconhecesse os aspectos diferentes e conflitantes de sua experiência.
Esta análise também mostrou como as respostas mentalizadoras da terapeuta às expressões de culpa acalmaram a paciente e, em consequência, permitiram que ela adotasse uma postura mais reflexiva sobre sua culpa. A organização gradual da fala sobre a culpa parece contribuir para o que Asen e Fonagy (2021) chamaram de “mentalização equilibrada”. Esse trabalho considera importante a alternância entre mentalização cognitiva e emocional. No início da história interacional, a mentalização equilibrada da culpa se realizou em dois deslocamentos. O primeiro foi de afirmações gerais emocionalmente carregadas sobre o mundo e/ou sobre si (a manifestação, pela pessoa atendida, de uma aflição legível como culpa) para emoções nomeadas abertamente (a expressão de culpa pela pessoa atendida). O segundo foi das emoções para as reflexões (da expressão de culpa pela pessoa atendida para a resposta mentalizadora da terapeuta e para a fala da pessoa suscitada por ela). Essa organização gradual da fala sobre a culpa facilitou alternâncias dinâmicas entre emoção e cognição. Em consequência, chegou-se a uma maneira mais integrada de lidar com a culpa.
A estrutura sequencial da fala e as mudanças longitudinais estão inseparavelmente entrelaçadas. De uma perspectiva mais geral da história interacional, sugerimos que estabelecer um tema, que pode ser delicado ou assustador, como relevante para um conjunto particular de participantes em um tipo específico de encontro torna possível abordar esse tema de forma mais direta e menos cautelosa nas interações seguintes.
Embora a terapia de casal envolvesse duas pessoas, nossa análise dos dados se concentrou principalmente em uma delas: a esposa. Isso se deveu ao fato de a expressão de culpa e de luto da esposa ser claramente mais acentuada que a do marido. Em geral, considera-se que a reação de luto de uma mãe, em razão de seu vínculo físico com o filho perdido (Watson et al., 2019), é mais intensa que o luto do pai (cf. Duncan & Cacciatore, 2015). Ainda assim, em estudos futuros, esperamos acompanhar de forma longitudinal a coordenação do desempenho interacional dos dois cônjuges.
Nosso estudo também contribui para a análise das emoções na conversa. Os estudos anteriores sobre a emoção na interação (ver Robles & Weatherall, 2021) costumam adotar um desenho “sincrônico”: exploram a organização interacional das manifestações de emoção tal como surgem em momentos específicos. Como Heritage e Lindström (2012), adotamos a perspectiva da história interacional para descrever a mudança de uma emoção ao longo do tempo.
Também é importante reconhecer que a culpa não havia sido abordada nos estudos anteriores de AC sobre as emoções. Por meio da AC, mostramos que a expressão de culpa do casal mudou ao longo da história interacional. No início do processo terapêutico, o que o casal expressava estava mais próximo da vergonha do que da culpa, na medida em que nutria uma imagem negativa generalizada de si como um todo, codificada em autoatribuições como “monstro” e “pessoa terrível”. Perto do fim do processo, o foco da autoatribuição negativa se deslocou para uma ação específica (cf. Tangney & Dearing, 2002), a decisão de abortar, que a esposa considerava ao mesmo tempo justificada e ruim. É intrigante que o pleno reconhecimento da culpa e sua relativização tenham caminhado juntos. Também é interessante observar que a passagem gradual de um sentimento de ser recriminado e de vergonha para uma expressão emocional mais direta e livre da culpa foi acompanhada da adoção, pelo casal, de uma postura mentalizadora em relação a ela.
Por meio de suas ações, as pessoas participantes mostraram que entendiam a terapia como um processo de mudança que se estenderia por vários encontros. As perguntas da terapeuta eram informadas pelas interações anteriores e, depois de ter passado por uma mudança importante em sua compreensão da culpa, a esposa contrastou sua compreensão anterior com a nova percepção da culpa e, por fim, caracterizou todo o processo de mudança. Segundo Deppermann e Pekarek Doehler (2021), um desafio central da análise da conversa longitudinal é alcançar uma perspectiva êmica da mudança na interação. Essa mudança pode permanecer oculta, pois “as pessoas geralmente não mostram que elas ou outros estão fazendo algo ‘de modo diferente’ em determinado momento em relação ao que faziam antes” (Deppermann & Pekarek Doehler, 2021, p. 134). A psicoterapia pode constituir um ambiente em que as pessoas em terapia às vezes se orientam de forma manifesta para mudanças que, em outros contextos, permaneceriam ocultas. Foi certamente o que aconteceu em nosso estudo.
Complexe Systémique: a reter
Este estudo mostra em câmera lenta o que a clínica muitas vezes faz sem perceber: preparar o terreno para que um afeto indizível se torne dizível. Durante nove sessões, a culpa nunca chega de frente. Ela passa por uma sequência em quatro tempos: uma aflição ambígua, uma pergunta que a desambigua, uma confissão e, por fim, uma resposta que transforma a confissão em um estado mental a explorar (“ter esses pensamentos sobre você mesma”), e não em uma verdade sobre si. Só depois de traçado esse caminho a culpa pode ser nomeada diretamente, e a esposa consegue distinguir um ato assumido de uma identidade condenada. Para a prática sistêmica, o interesse é duplo. A culpa aparece primeiro como um fenômeno relacional e social, atribuída a profissionais de saúde hostis e a um debate nacional polarizado, antes de ser retomada em primeira pessoa. E o enquadre de casal funciona como continente, ainda que a análise deixe o marido quase fora de cena, o que a equipe reconhece. Os limites são os de um caso único, analisado pela própria terapeuta. Para ler junto com a análise das reivindicações de controle na terapia de casal e com o artigo sobre perda ambígua e rituais.
Notas do original
Conflitos de interesse. A equipe de pesquisa declara não haver nenhum potencial conflito de interesse.
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Tradução não oficial em português de A culpa se torna pensável: história interacional de uma terapia após uma perda ambígua, de Bernadetta Janusz e Anssi Peräkylä, Research on Language and Social Interaction, vol. 59, no 3 (2026), doi: 10.1080/08351813.2026.2616199, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Guilt becomes thinkable: Interactional history of therapy after ambiguous loss”, publicado em Research on Language and Social Interaction (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
Ler o artigo originalComo citar este artigo
Janusz, B., et Peräkylä, A. (2026). A culpa se torna pensável: história interacional de uma terapia após uma perda ambígua (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-culpa-se-torna-pensavel-historia-interacional-de-uma-terapia-apos-uma-perda-ambigua (Obra original publicada em 2026 em Research on Language and Social Interaction, 59(3), 339-362 (2026); republicada em 2026 por Research on Language and Social Interaction, https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/08351813.2026.2616199)
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