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Frontiers in Psychiatry · Terapia multifamiliar
O trauma de quem exerce a parentalidade não se “transmite” como um objeto: passa pelo apego, pela mentalização, pela regulação das emoções e pelo corpo, e também pode alimentar a resiliência. A equipe de Trudy Mooren, no centro nacional holandês de psicotrauma ARQ, faz um balanço dessas vias e descreve uma terapia multifamiliar focada no trauma para famílias com crianças pequenas.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Combater os efeitos intergeracionais do psicotrauma com a terapia multifamiliar, de Trudy Mooren, Elisa van Ee, Irma Hein e Julia Bala, publicado na Frontiers in Psychiatry (Frontiers Media) (2022), doi: 10.3389/fpsyt.2022.867305, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A tabela é apresentada em forma de lista e as figuras permanecem em inglês, com legenda traduzida; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
O impacto do trauma parental sobre as crianças pode ser visto como parte de um processo sistêmico dinâmico de adaptação familiar.
Trudy Mooren, Elisa van Ee, Irma Hein e Julia Bala
Resumo
Há cada vez mais evidências de que o trauma parental está associado, nas crianças, a transtornos psicossociais, a problemas externalizantes e internalizantes e a uma maior vulnerabilidade ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Resultados de pesquisas recentes sugerem vias de influência intergeracional multidimensionais, relacionais, psicológicas e neurobiológicas, inter-relacionadas. Além disso, os efeitos intergeracionais do trauma parental precisam ser compreendidos em um contexto sistêmico mais amplo, como parte da adaptação familiar. Este artigo explora resultados de pesquisa e a prática clínica para aprofundar a compreensão dos processos intergeracionais e apresenta direções para intervenções terapêuticas. Descreve-se uma terapia multifamiliar focada no trauma, que busca limitar as consequências relacionais do trauma parental e fortalecer a resiliência familiar. A proposta é que, para facilitar e melhorar a qualidade da interação parento-filial em resposta ao psicotrauma, é fundamental favorecer as capacidades de regulação emocional e a mentalização. Esses esforços, oferecidos por meio de intervenções em grupos de famílias, podem beneficiar famílias muito diversas que enfrentam adversidades em sociedades culturalmente plurais.
A busca pelos mecanismos das consequências intergeracionais do psicotrauma, que começou com observações clínicas de crianças de pessoas sobreviventes do Holocausto (1, 2), tem uma longa história marcada por muitas controvérsias. Apesar de décadas de pesquisa, os mecanismos das consequências intergeracionais do trauma continuaram insuficientemente explicados e sem uma base empírica sólida (3-5). A premissa subjacente, baseada em um modelo linear de causa e efeito, é que o trauma parental é transmitido direta ou indiretamente à descendência. O que é transmitido, por meio de quais processos e com quais consequências foi objeto de debates longos e, por vezes, acalorados. Uma das primeiras tentativas de esclarecer as controvérsias sobre a transmissão do trauma surgiu de um estudo meta-analítico sobre a traumatização secundária da descendência de pessoas sobreviventes do Holocausto (6). Em um conjunto de estudos controlados não clínicos, não se encontrou, na população geral, nenhuma evidência da influência das experiências traumáticas do Holocausto vividas pelas figuras parentais sobre o bem-estar das crianças. Assim, a conclusão foi que a traumatização secundária só aparecia em estudos com populações clínicas.
Nas últimas décadas, a pesquisa se ampliou e os estudos incluíram populações clínicas, a descendência de pessoas sobreviventes do Holocausto, veteranos de combate, pessoas refugiadas traumatizadas, vítimas de violência comunitária e de traumas interpessoais. Esses estudos aprofundaram nossa compreensão do impacto do TEPT parental sobre as crianças, as relações parento-filiais e a parentalidade. A tabela 1 resume os fatores que explicam o impacto do TEPT parental sobre a descendência. Esses fatores se baseiam em revisões e meta-análises publicadas recentemente sobre diversas populações traumatizadas.
Tabela 1 — Mecanismos do efeito do TEPT parental sobre a saúde mental da descendência (revisões)
Para cada revisão: população estudada; país; número de estudos incluídos; período; número de pessoas; desfechos; teoria; análises; mecanismo; direções para a pesquisa.
Apresentadas em ordem alfabética, referências (7, 8, 12, 3, 13, 14 e 10).
Diferentes revisões sobre o impacto do TEPT parental na parentalidade sugerem que o TEPT afeta a parentalidade, as relações parento-filiais e os desfechos das crianças (7-10). Um estudo meta-analítico confirmou a associação entre trauma parental e sofrimento e problemas de comportamento nas crianças (11). Além disso, foram identificados vários padrões relacionais e diversas vias pelas quais o trauma parental afeta a descendência. Ao lado das evidências crescentes sobre as vias relacionais pelas quais o trauma parental atinge as crianças, a pesquisa sobre o funcionamento cerebral, a neuroendocrinologia e a (epi)genética trouxe mais compreensão sobre os mecanismos neurobiológicos subjacentes a essas vias (12).
Os efeitos intergeracionais do TEPT e da psicopatologia comórbida não se limitam à descendência. Uma revisão sistêmica da literatura (15) mostrou que o TEPT não apenas afeta as relações de quem sofre do transtorno, mas também é afetado por essas relações. Há, portanto, uma associação recíproca e bidirecional entre o TEPT e as relações próximas. O impacto do trauma parental sobre as crianças pode ser visto como parte de um processo sistêmico dinâmico de adaptação familiar. O trauma de um membro da família influencia a família inteira (16, 17). As experiências intrusivas são seguidas por uma adaptação e uma reorganização familiares pós-traumáticas complexas, com desfechos funcionais ou disfuncionais (18), dependendo das fases de desenvolvimento individuais e familiares e dos contextos sociopolíticos e culturais. O desfecho positivo de uma adaptação familiar bem-sucedida recebeu pouca atenção durante muito tempo, mas hoje há uma tendência crescente de focalizar a resiliência e os aspectos positivos das dimensões intergeracionais do trauma parental (19, 20).
Neste artigo, traçamos um quadro conceitual baseado em perspectivas teóricas e clínicas oriundas do campo do psicotrauma e do campo do apego. Para além do debate entre estabilização e exposição, que dominou por algum tempo o campo do trauma, consideramos a regulação emocional um processo transdiagnóstico, fundamental depois de vivências traumáticas. Contribuições da literatura sobre exposição ao trauma e sobre relações íntimas ajudam a compreender melhor os processos de risco e de proteção em vários níveis do sistema depois da violência, ampliando assim as possibilidades de intervenções que rompam a transmissão intergeracional do trauma. Vamos lançar luz sobre a dinâmica da regulação emocional e da mentalização como elementos fundamentais da interação parento-filial e descrever como essas perspectivas integradas são usadas em intervenções bem estudadas para aliviar as consequências do psicotrauma em famílias confrontadas com adversidades intrusivas. Como esses processos podem diferir conforme a faixa etária, optamos por focalizar especificamente famílias com crianças de 0 a 5 anos, em que a dependência é relativamente grande.
Revisões recentes sobre os mecanismos que delineiam a traumatização intergeracional em populações atingidas pelo Holocausto distinguiram como mecanismos plausíveis: a gravidade da traumatização das figuras parentais, o fato de ter pai, mãe ou ambos com psicopatologia, o apego e a qualidade da relação com a criança, e as alterações psicobiológicas (12, 21). O peso das experiências traumáticas, o apego e a mentalização, e as influências neurobiológicas e epigenéticas também foram identificados como questões-chave em revisões sobre os padrões relacionais entre figuras parentais traumatizadas com sintomas de TEPT e suas crianças não expostas (10, 13, 14). A seguir, vamos focalizar o apego e os processos a ele relacionados, assim como as influências biológicas e genéticas, como mecanismos intergeracionais. Um modelo conceitual é apresentado na figura 1.

A sensibilidade e a responsividade de quem exerce a parentalidade são consideradas essenciais para o desenvolvimento de um apego seguro na criança. No entanto, observou-se que mães com mais sintomas de TEPT eram menos sensíveis e responsivas (22-25), mais evitativas (26), mais intrusivas (27) e mais superprotetoras (28). Também se relatou, em figuras parentais com TEPT, mais hostilidade, rejeição ou agressividade em relação às crianças (29-31). A agressividade e o retraimento emocional parecem especialmente prováveis quando o trauma de quem exerce a parentalidade está ligado à criança, por exemplo quando a criança nasceu de um estupro, o que pode resultar em estilos de apego desorganizados (32). Além dos maus-tratos, o apego desorganizado da criança também pode resultar de negligência, da incapacidade de acalmar e confortar a criança e, portanto, da incapacidade de regulá-la emocionalmente (33). Consequentemente, mães e pais que viveram traumas podem ter uma relação de apego menos favorável com as crianças (34-36).
A mentalização é a capacidade de perceber e compreender os estados mentais de si e do outro, o que ajuda a explicar e prever sentimentos, pensamentos e comportamentos (37). A capacidade de quem cuida da criança de mentalizar e, em seguida, responder aos sinais dela sustenta fundamentalmente a regulação das emoções e o desenvolvimento das competências de mentalização na criança (38). O TEPT materno relacionado à violência interpessoal e o funcionamento reflexivo (como operacionalização da mentalização) estavam significativamente associados às representações mentais que as mães tinham de suas crianças pequenas (39). As mães com TEPT mostraram as maiores dificuldades para compreender a mente das crianças. De fato, uma meta-análise estabeleceu uma relação entre sintomas de TEPT e desempenho sociocognitivo, incluindo a mentalização (40).
Estudos com gêmeos indicaram que fatores genéticos influenciam a exposição a eventos potencialmente traumáticos e que essas influências genéticas explicam uma parte substancial da vulnerabilidade ao TEPT (41). A pesquisa sobre possíveis genes candidatos concentra-se nos genes do sistema dopaminérgico (DA) e no sistema serotoninérgico (41). Estudos neuroendócrinos com a descendência de figuras parentais com TEPT mostram que ela apresenta níveis plasmáticos de cortisol significativamente mais baixos do que a descendência de pessoas sobreviventes sem TEPT (42). Essas medidas neuroendócrinas estavam negativamente correlacionadas com a gravidade dos sintomas de TEPT parentais. Além disso, observações de bebês nascidos de mães que estavam grávidas no 11 de Setembro mostram que o cortisol baixo relacionado ao TEPT parental estava presente cedo no desenvolvimento e pode ser influenciado por fatores in utero, como a programação por glicocorticoides (42). Como os níveis baixos de cortisol estão particularmente associados à presença de TEPT materno, os resultados sugerem o envolvimento de mecanismos epigenéticos (42). Não está claro se as marcas epigenéticas são igualmente estáveis em todos os genes e em todas as regiões gênicas, pois algumas marcas epigenéticas se mostraram persistentes ao longo das gerações, enquanto outras mudaram em resposta a intervenções psicoterapêuticas (43).
Os membros de uma família respondem ao trauma e à ameaça como um sistema em que tanto a compensação quanto o agravamento da sintomatologia são possíveis. Nas famílias de vítimas de tortura, por exemplo, cada criança pode adotar papéis funcionais que diferem em resiliência e vulnerabilidade. Punamäki (44) descreve: uma criança da fratria pode ser o “portador do sintoma”, que mostra vulnerabilidade e expressa a dor; outra, o “psicólogo da família”, que cuida dos membros que sofrem, os consola e os encoraja; e a terceira, o “raio de sol”, a criança salvadora que faz as demais pessoas esquecerem e compensa as perdas.
A maneira como uma família enfrenta crises e desafios, se reorganiza e volta a investir na vida influenciará as capacidades adaptativas de todos os seus membros e suas relações (45). A resiliência tornou-se um conceito dinâmico, interativo e orientado para o processo (46-48). A resiliência individual é mais bem compreendida e promovida como uma interação mútua entre influências individuais, familiares, socioculturais e institucionais (47, 49). No nível familiar, os processos de proteção incluem a coesão e a flexibilidade familiares, uma comunicação aberta e clara, regras e rituais, o sentido que a família dá à adversidade, as capacidades de resolução de problemas e de uso de recursos externos, e as tradições culturais (45, 47, 50). A transmissão intergeracional da resiliência recebeu pouca atenção na literatura, mas esclarece ainda mais os processos complexos entre figuras parentais traumatizadas e suas crianças.
A parentalidade pode não só amortecer o efeito da guerra e da violência, mas também fortalecer os processos pelos quais as crianças se tornam resilientes apesar do contexto adverso. Na guerra, uma parentalidade afetuosa e não punitiva mostrou-se associada a alta criatividade e competência cognitiva nas crianças, o que, por sua vez, podia proteger sua saúde mental (51). A resiliência de quem exerce a parentalidade promove a resiliência das crianças. As representações de apego na vida adulta podem explicar diferenças no ajustamento pós-trauma e na parentalidade. Um estudo com 53 figuras parentais solicitantes de asilo e refugiadas analisou as relações entre o número de experiências traumáticas e os sintomas de TEPT, a sensibilidade parental e as representações de apego (52). Os resultados mostram que, quando as figuras parentais conseguem se apoiar menos em representações de apego seguras, o número de experiências traumáticas relatadas e os sintomas de TEPT aumentam o risco de uma parentalidade pouco sensível. Como as representações de apego seguras servem para proteger a criança do efeito do trauma parental, essas figuras parentais precisam de apoio para confirmar modelos seguros do mundo e das pessoas significativas, e para desenvolver a capacidade de oferecer à criança uma relação de apego sensível.
Comunicar sobre o passado traumático pode ajudar a fazer as pazes com o passado e melhorar o apego. A comunicação implícita, a revelação excessiva ou o silenciamento podem interferir na adaptação familiar pós-traumática funcional. Com base em sua revisão, Dalgaard e Montgomery (53) enfatizaram que o que mais importa é o momento e a estratégia da revelação do passado traumático pelas figuras parentais. O nível de revelação parental que favorece o ajustamento psicológico de crianças (refugiadas) depende de as próprias crianças terem sido ou não diretamente expostas a experiências traumáticas e de serem pré-púberes ou mais velhas (53). Além disso, o processo de revelação do trauma está fortemente enraizado na cultura, e diferentes estratégias favoráveis podem existir para diferentes públicos.
Muitas figuras parentais traumatizadas apresentam um conjunto complexo de dificuldades e problemas de saúde mental. Por isso, muitas vezes é necessária uma combinação de técnicas para aliviar os sintomas de estresse e melhorar as interações familiares. Existem vários métodos de tratamento voltados para públicos traumatizados específicos. Por exemplo, o programa Families OverComing Under Stress (FOCUS) busca apoiar famílias de militares veteranos após missões (54). Diamond e sua equipe desenvolveram um modelo baseado no apego para trabalhar com famílias que enfrentam ideação e comportamentos suicidas na adolescência (55). Figley e Kiser oferecem às famílias traumatizadas um programa de tratamento baseado em um formato de grupo familiar (56). Embora existam diferenças entre os modelos, por exemplo quanto aos públicos-alvo, os pontos em comum são o foco na definição e na comunicação de objetivos, a psicoeducação, a construção de narrativas (sobre o que aconteceu) e o desenvolvimento de habilidades (regulação emocional, comunicação e resolução de problemas). Recentemente, ao reunir modelos de tratamento do trauma infantil, Kiser e sua equipe ressaltaram que poucos estudos exploram o impacto da inclusão de quem exerce a parentalidade ou o cuidado nesses modelos. “Há uma necessidade significativa de estudos futuros sobre o impacto e os mecanismos do trauma de quem exerce a parentalidade ou o cuidado e sobre sua integração no tratamento do trauma infantil” [(57), p. 66]. Como exemplo de abordagem terapêutica que inclui adultos e crianças, passamos a descrever a terapia multifamiliar (TMF). Os programas de TMF para diferentes grupos de famílias traumatizadas (58, 59), como famílias refugiadas e de veteranos, são multidimensionais e focalizam a interação entre influências internas (biológicas, psicológicas) e externas (familiares, culturais, sociais, políticas) que dificultam ou facilitam o desenvolvimento das crianças e das famílias. A TMF é uma abordagem que oferece um enquadre contextual que permite às famílias mudar por meio de variações de enquadres flexíveis (grupo de famílias ou de figuras parentais, díades parento-filiais, subgrupos de pais, de mães, de crianças, e indivíduos) (ver a figura 2). Terapias individuais focadas no trauma para as figuras parentais, dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR), terapia de exposição narrativa (NET), psicoterapia eclética breve (BEPP), e o EMDR pré-verbal para crianças podem ser integrados ao programa simultânea ou sucessivamente. Intervenções sistêmicas, baseadas na mentalização e comportamentais são planejadas em múltiplos níveis do sistema.

O tratamento busca reduzir as limitações parentais provocadas pelo TEPT, fortalecer uma parentalidade sensível e um apego seguro. A mentalização, a regulação emocional e o empowerment (fortalecimento da capacidade de agir) são as principais vias usadas para reduzir os efeitos intergeracionais relacionados ao trauma sobre a parentalidade, as relações parento-filiais e o desenvolvimento da criança (60, 61).
A terapia multifamiliar para famílias traumatizadas se apoia na terapia multifamiliar baseada na mentalização, desenvolvida no Marlborough Family Service, em Londres (62). Ela se baseia na teoria do apego (melhorar as relações interpessoais com foco na mentalização) e nas teorias sistêmicas. Criar um contexto para explorar as influências ligadas ao trauma que moldam as representações parentais de uma criança, as representações de apego atuais e as práticas parentais, em interação com influências culturais e familiares, pode ser feito de diferentes maneiras. Discussões em grupo ou subgrupo de figuras parentais, entrevistas mútuas ou dramatizações, modelação e videofeedback são usados para fortalecer a capacidade de mentalização das figuras parentais. A reflexão sobre pensamentos e sentimentos durante um retraimento parental e sobre suas consequências para a criança pode ocorrer, por exemplo, em um momento de interação durante uma brincadeira diádica, ao assistir a um videofeedback ou em uma dramatização. Uma figura parental pode, por exemplo, manter um “rosto imóvel” (still face) enquanto outra tenta fazer contato, para fortalecer a empatia e a compreensão do que a criança sente quando quem cuida dela está emocionalmente indisponível. Durante um videofeedback ou uma interação real, outra figura parental pode “falar pela criança”. Diferenciar as experiências precoces de apego, as influências culturais e o impacto das influências induzidas pelo trauma sobre as expectativas e representações parentais facilita mudanças nas práticas parentais que interferem em relações parento-filiais positivas. Além disso, o retorno positivo e crítico de outras figuras parentais tem grande força e é mais fácil de aceitar.
A capacidade das figuras parentais de tolerar e regular as próprias emoções fortalece a contenção e a regulação das experiências emocionais das crianças (63). As respostas de estresse pós-traumático limitam as capacidades reflexivas de uma figura parental traumatizada. A hiperexcitação, a raiva e a irritabilidade podem levar à hostilidade parental ou, ao contrário, a hipoexcitação e o embotamento das emoções podem aumentar a hostilidade e a indisponibilidade emocional, ambos interferindo na sensibilidade parental (59). Desenvolver habilidades que fortaleçam a regulação emocional ajuda as figuras parentais a manter um nível ótimo de ativação. Quando aprendem a reconhecer gatilhos e a controlar emoções intensas que podem assustar as crianças e levar à negligência e à hostilidade, as figuras parentais também estão aprendendo o processo de fortalecer um apego seguro. Assim, mesmo que o tratamento do trauma não seja possível no momento ou possa levar muito tempo, as figuras parentais ainda podem aprender a regular melhor suas emoções, tornar-se emocionalmente mais disponíveis e evitar momentos de parentalidade dura. Ao fortalecer a forma de lidar com emoções intensas, podem gradualmente se deixar absorver menos pelos próprios problemas e priorizar as necessidades das crianças. Nos encontros do grupo de famílias, as figuras parentais podem exercitar novos comportamentos em grupo, em diferentes enquadres, e aprender habilidades para atender às necessidades das crianças, confortá-las e colocar limites com calma quando necessário. Pode-se pedir aos membros do grupo que apoiem de modo crítico as tentativas de novos comportamentos.
A resiliência pode ser forjada mesmo quando existem problemas (45). Construir resiliência é um processo contínuo na TMF. A ideia de que as famílias se ajudam mutuamente enquanto a equipe terapêutica fica em segundo plano ajuda as figuras parentais traumatizadas a sair do sentimento de desamparo e impotência, encoraja-as a ativar os próprios recursos e a superar o isolamento social. Trechos positivos dos videofeedbacks, o apoio e o retorno mútuos, a descoberta das competências e o apoio nelas servem para fortalecer a autoestima das figuras parentais e gerar a esperança de que, apesar dos problemas internos e externos, é possível ser figuras parentais suficientemente boas para as crianças. A capacidade de apoiar outras pessoas, de oferecer a elas o benefício da própria experiência, é gratificante. Isso pode ser significativo para pessoas que vivem há muito tempo com inúmeras dificuldades. Adversidades crônicas e múltiplas minam o sentimento de eficácia e a esperança. Conseguir ajudar outras pessoas pode contribuir para o início de um sentimento de mais resiliência e força.
As atividades lúdicas com as crianças, breves momentos de prazer e alegria, tornam-se para as figuras parentais sinais de que a mudança é possível e ajudam a construir esperança. Apoiar as figuras parentais a compartilhar estratégias de enfrentamento do estresse, a descobrir e trocar seus recursos individuais, familiares e culturais fortalece a resiliência parental e, por sua vez, ajuda a estimular os potenciais adaptativos das crianças.
O enquadre multifamiliar, com quatro a seis famílias, cria holding, uma base segura e acolhedora para famílias isoladas. As famílias se apoiam mutuamente, e o papel da equipe terapêutica é facilitar e maximizar as interações e criar um contexto de mudança. O apoio mútuo entre famílias é uma das formas mais fecundas de facilitar a adaptação familiar e a mudança diante da adversidade (64). Reunir em uma sessão quatro a seis famílias com vários membros implica a presença de uma ampla experiência. Os demais membros do grupo são fundamentais tanto para o apoio quanto para o retorno. Quando estão em jogo questões sensíveis, como a parentalidade, o retorno de outras figuras parentais evita sentimentos intensos de vergonha e fracasso, comuns em muitas figuras parentais traumatizadas. Isso pode ser favorecido pelo trabalho em subgrupos, por exemplo com indivíduos, suas parcerias ou casais.
Trabalhar com famílias traumatizadas e suas crianças de diferentes origens políticas, religiosas e culturais significa lidar com múltiplos marcadores de diversidade. Isso vale para todos os públicos, como policiais, veteranos e pessoas refugiadas. As influências culturais, de gênero, políticas e religiosas podem se entrelaçar de diversas maneiras com as limitações pós-traumáticas da parentalidade. A cultura foi descrita como o contexto primordial que determina as associações entre atividade, como a interação parento-filial, e significado, influenciando as cognições e as práticas parentais (65). Embora praticamente todos os aspectos da criação dos filhos sejam moldados pela cultura, o padrão subjacente da sensibilidade, como componente saudável de uma interação parento-filial benéfica para a criança, é universal (66, 67). Assim, comportamentos parentais específicos podem variar entre culturas, mas o padrão do comportamento sensível permanece o mesmo. Intervenções parentais focadas no fortalecimento da sensibilidade são compatíveis com as crenças de mães de crianças pequenas de diferentes grupos culturais (68). As adaptações culturais do programa incluem a atenção ao grau e à influência de fatores familiares de risco e de proteção próprios de cada cultura, ao nível e à influência da aculturação e à história migratória (69).
A influência das experiências e dos sintomas traumáticos sobre a parentalidade, ou sobre o uso de estratégias de enfrentamento, pode ser muito diferente conforme o contexto familiar e cultural. O que parece lógico, ainda que pouco útil, para uma família pode ser percebido de outra perspectiva por outras. A terapia multifamiliar em grupo, com famílias vindas de diferentes partes do mundo, como a África Ocidental, o Cáucaso, os Bálcãs ou o Oriente Médio, abre possibilidades de troca intercultural de estratégias úteis e gera muitas oportunidades de conversa sobre quais são as forças de cada família, o que lhe dá esperança e como seus membros se ajudam. Nos grupos de TMF, tanto os pontos em comum quanto as diferenças ou contrastes importam. As semelhanças entre membros ajudam a encontrar reconhecimento e aumentam o sentimento de segurança e de confiança. Os contrastes, por sua vez, são necessários para a troca de opiniões, pensamentos e ideias diferentes. As diferenças ligadas à origem cultural, às condições de vida, à idade ou ao gênero ajudam a questionar ideias fixas, preconceitos e pressupostos. A curiosidade pelos outros membros do grupo é fundamental para que surja a coesão. Isso é paralelo à atenção e à sensibilidade que as figuras parentais precisam ter com as crianças (59).
Resultados de pesquisas recentes sugerem múltiplas vias de processos intergeracionais que influenciam a qualidade das relações parento-filiais e o desenvolvimento das crianças. A menor sensibilidade, a menor responsividade e o aumento da hostilidade associados aos sintomas pós-traumáticos de figuras parentais refugiadas são fatores de risco para o apego seguro. O TEPT pré-natal e pós-natal das mães pode provocar alterações no sistema que regula o estresse, por meio de mecanismos neuroendócrinos e genéticos, levando a uma maior vulnerabilidade das crianças ao transtorno de estresse pós-traumático. Questões-chave identificadas nos padrões relacionais, como a mentalização, o apego, o ciclo da violência e a transmissão fisiológica, são importantes para orientar as intervenções. O impacto do trauma parental sobre as crianças pode ser visto como parte de um processo sistêmico dinâmico de adaptação familiar, que inclui aspectos positivos das dimensões intergeracionais do trauma parental que favorecem a resiliência. Os potenciais de risco e de proteção da influência intergeracional do trauma parental entre pessoas refugiadas precisam ser considerados no contexto mais amplo da comunidade e do contexto sociocultural, antes e depois da migração.
O tratamento de famílias traumatizadas busca reduzir o TEPT e as limitações parentais a ele relacionadas, fortalecer uma parentalidade sensível e um apego seguro. A mentalização, a regulação emocional e o empowerment são as principais vias usadas para reduzir os efeitos intergeracionais relacionados ao trauma sobre a parentalidade, as relações parento-filiais e o desenvolvimento da criança. O tratamento em formato de grupo (TMF) é multidimensional e focaliza a interação entre processos internos (biológicos, psicológicos) e externos (familiares, culturais, sociais, políticos) que dificultam ou ajudam o desenvolvimento das crianças e da família. A TMF cria um contexto de mudança por meio de variações de enquadres flexíveis (intrafamiliar, interfamiliar, figuras parentais–crianças, individual), integrando as intervenções parento-filiais ao tratamento do trauma das figuras parentais. A interação dinâmica entre pontos em comum e diferenças em um grupo multicultural abre a possibilidade de gerar múltiplas perspectivas sobre os efeitos das experiências traumáticas e dos sintomas de TEPT na parentalidade. Em um grupo seguro e continente, famílias de diferentes origens culturais se apoiam mutuamente na busca conjunta de como se tornar figuras parentais “suficientemente boas” para suas crianças, apesar das experiências traumáticas passadas e do estresse atual.
Complexe Systémique: a reter
Este texto é útil porque tira a transmissão do trauma do modelo linear de causa e efeito para recolocá-la na adaptação familiar: o trauma de quem exerce a parentalidade modifica a relação, mas a relação também modifica o trauma, e uma mesma família pode distribuir entre as crianças a vulnerabilidade, o cuidado com os outros e a reparação. Para a clínica, a proposta é concreta: antes mesmo de o trauma parental ser tratado, trabalhar a regulação das emoções e a mentalização no vínculo com a criança pequena e apoiar-se no grupo de famílias para que os retornos venham de pares, e não de especialistas, o que reduz a vergonha. O enquadre em círculos concêntricos (grupo, famílias, subgrupos, indivíduos) fala diretamente às equipes sistêmicas. É preciso, porém, lê-lo pelo que é: uma síntese narrativa e a descrição de um programa pela equipe que o pratica, sem dados de avaliação próprios; a palavra “transmissão” aparece às vezes mais afirmada do que demonstrada. Para ler junto com o estudo Delphi sobre a terapia multifamiliar para famílias de pessoas veteranas e refugiadas e com a revisão sobre o trauma intergeracional em famílias refugiadas.
Notas do original
Contribuições. TM, EE, IH e JB contribuíram para desenvolver e compartilhar as ideias do manuscrito, conheciam muito bem o trabalho e o tratamento e redigiram partes do manuscrito. TM integrou todas as partes. Toda a equipe contribuiu para o artigo e aprovou a versão submetida.
Conflitos de interesse. JB atuava como consultoria independente. As demais pessoas da equipe declaram que a pesquisa foi conduzida na ausência de qualquer relação comercial ou financeira que pudesse ser interpretada como potencial conflito de interesse.
Nota da editora. Todas as afirmações expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da equipe que o assina e não representam necessariamente as de suas organizações afiliadas, nem as da editora, do corpo editorial e das pessoas que fizeram a revisão. Qualquer produto que possa ser avaliado neste artigo, ou afirmação feita por seu fabricante, não é garantido nem endossado pela editora.
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Tradução não oficial em português de Combater os efeitos intergeracionais do psicotrauma com a terapia multifamiliar, de Trudy Mooren, Elisa van Ee, Irma Hein e Julia Bala, Frontiers in Psychiatry, vol. 13 (2022), doi: 10.3389/fpsyt.2022.867305, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela em lista, legendas das figuras traduzidas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Combatting intergenerational effects of psychotrauma with multifamily therapy”, publicado em Frontiers in Psychiatry (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Mooren, T., van Ee, E., Hein, I., et Bala, J. (2022). Combater os efeitos intergeracionais do psicotrauma com a terapia multifamiliar (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/combater-os-efeitos-intergeracionais-do-psicotrauma-com-a-terapia-multifamiliar (Obra original publicada em 2023 em Frontiers in Psychiatry, 13, 867305 (2023); republicada em 2023 por Frontiers in Psychiatry, https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fpsyt.2022.867305/full)
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