Frontiers in Communication · Casal

O paradoxo do desengajamento: manifestações corporais de desatenção na terapia de casal

Enquanto é alvo de queixa na sessão, a pessoa visada não tem a palavra. Desvia o olhar, esconde-se atrás da mão, olha para as unhas, cobre o rosto. Anssi Peräkylä, Bernadetta Janusz e colegas de Cracóvia e Helsinque analisam, quadro a quadro, oito primeiras consultas de terapia de casal filmadas na Polônia: esses gestos de desatenção antecipam a queixa e dizem, sem uma palavra, o que se pensa dela.

Autores Anssi Peräkylä (Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Helsinque, Finlândia); Bartłomiej Taurogiński, Barbara Józefik e Feliks Matusiak (Laboratório de Psicologia e Psicoterapia Sistêmicas, Unidade de Terapia Familiar, Colégio Médico da Universidade Jaguelônica, Cracóvia, Polônia); Karolina Dejko-Wańczyk, Mariusz Furgał e Bernadetta Janusz (Departamento de Terapia Familiar e Psicossomática, Colégio Médico da Universidade Jaguelônica, Cracóvia, Polônia)Primeira publicação Frontiers in Communication, 16 de fevereiro de 2023Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de O paradoxo do desengajamento: manifestações corporais de desatenção na terapia de casal, de Anssi Peräkylä, Bartłomiej Taurogiński, Karolina Dejko-Wańczyk, Barbara Józefik, Mariusz Furgał, Feliks Matusiak e Bernadetta Janusz, publicado na Frontiers in Communication (Frontiers Media) (2023), doi: 10.3389/fcomm.2023.1066475, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As treze imagens de transcrição (desenho da sessão e transcrição em polonês e em inglês, em notação de análise da conversa multimodal) são reproduzidas tal como estão, em imagem, em seu lugar; os fragmentos citados na análise são traduzidos. A declaração sobre a disponibilidade dos dados não foi reproduzida. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Poderíamos dizer que a encenação do desengajamento, nesse contexto, é uma maneira particular de se engajar.

Anssi Peräkylä, Bartłomiej Taurogiński, Karolina Dejko-Wańczyk, Barbara Józefik, Mariusz Furgał, Feliks Matusiak e Bernadetta Janusz

Resumo

Com base em conceitos desenvolvidos por Goffman e na teoria da intercorporeidade, este artigo descreve as respostas que os membros do casal que não estão falando dão às queixas feitas a seu respeito pela outra pessoa do casal, no contexto de primeiras consultas de terapia de casal. Embora o sistema de alternância de turnos da terapia de casal exclua na prática a possibilidade de uma resposta verbal direta, quem não está falando frequentemente exibe, com o corpo, seu desengajamento em relação à fala da outra pessoa. Usando como método a análise da conversa multimodal, mostramos o repertório desses comportamentos de desengajamento e rastreamos, momento a momento, os contextos em que eles surgem. Ao mesmo tempo que encarnam a desatenção de quem os produz em relação à fala da outra pessoa do casal, os comportamentos de desengajamento são também, paradoxalmente, movimentos interacionais produzidos na presença de outras pessoas, que transmitem a posição negativa de quem os produz em relação à fala em curso. Sustentamos que o momento em que essas práticas de desengajamento ocorrem envolve uma antecipação da direção da fala: quem não está falando exibe desengajamento nos momentos em que a fala da outra pessoa toma a direção de uma intensificação das queixas a seu respeito.

1. Introdução

Quem participa de uma terapia de casal enfrenta um desafio particular: ouvir queixas a seu respeito, feitas pela pessoa com quem vive uma relação íntima, na presença de uma terceira pessoa. Os casais buscam ajuda para os problemas que encontram em sua vida conjugal e familiar. Ao explicar esses problemas à pessoa terapeuta, os membros do casal inevitavelmente expressam insatisfação, não só consigo mesmos e com seu funcionamento como casal, mas também, e muitas vezes principalmente, com a outra pessoa. O sistema de alternância de turnos nas primeiras consultas de terapia de casal limita os direitos de fala de quem participa, de modo que se espera, predominantemente, que se limitem a responder às perguntas da pessoa terapeuta e que não tomem a palavra por iniciativa própria (cf. Peräkylä, 1995). Só mais tarde, quando a pessoa terapeuta passa o turno para quem foi alvo da queixa, por meio de uma pergunta dirigida a essa pessoa, é que pode surgir a possibilidade de responder verbalmente à queixa. Como resultado, surgem recorrentemente situações em que um membro do casal conta à pessoa terapeuta sua insatisfação com o outro. Essa insatisfação e suas expressões são frequentemente emotivas e até amargas. O desafio da outra pessoa do casal é o seguinte: como ouvir as queixas que a outra pessoa apresenta a seu respeito, numa situação em que não lhe é permitido respondê-las diretamente.

Neste artigo, examinaremos as respostas dos membros do casal que não estão falando às queixas feitas a seu respeito pela outra pessoa, no contexto de primeiras consultas de terapia de casal. Como mostraremos, quem não está falando frequentemente exibe, com o corpo, seu desengajamento em relação à fala da outra pessoa. Mostraremos o repertório desses comportamentos de desengajamento e rastrearemos, momento a momento, os contextos em que eles surgem. Em vez de oferecer resultados conclusivos, o presente artigo oferece uma prova de conceito (cf. Tschacher e Meier, 2019): mostramos que o desengajamento corporal, neste contexto particular, pode ser analisado como uma contribuição significativa para a interação.

2. Engajamento, participação, queixas e intercorporeidade na pesquisa sobre interação

O engajamento é uma das noções-chave deste estudo. Estar engajado significa mostrar, com as próprias ações e o próprio corpo, que se está participando de bom grado e de corpo inteiro do encontro em curso e concentrando a atenção na ação e nas pessoas presentes (Peräkylä et al., 2022). O engajamento foi um tema que o sociólogo Erving Goffman tratou ao longo de toda a sua carreira (Goffman, 1957, 1963, 1974). Como é típico de Goffman, ele usava palavras alternadas para se referir ao mesmo campo de fenômenos; ao lado de engajamento, falava de “envolvimento” (involvement) e de “absorção” (engrossment).

O corpo pode indicar a resposta de uma pessoa ao que está acontecendo na interação em curso. Goffman (1963, p. 37) observou que “as atividades corporais (...) parecem bem desenhadas para fornecer informações sobre o envolvimento do indivíduo”. Sintetizando a perspectiva goffmaniana sobre o engajamento (Goffman, 1957, 1963, 1964, 1974), sustentamos recentemente que o engajamento envolve uma orientação postural e perceptiva para as outras pessoas presentes no encontro, e que essa orientação indica atenção e está entrelaçada com o envolvimento colaborativo na atividade em curso (ver também Bergmann e Peräkylä, no prelo; Peräkylä et al., 2022). Em seus primeiros trabalhos (Goffman, 1957, 1963), Goffman explorou a interação entre a obrigação moral de cada participante de mostrar engajamento com sua fala e a de mostrar, com o corpo, que está atento. Ele também discutiu formas de desengajamento: envolver-se em atividades que não a atividade compartilhada do encontro (por exemplo, envolvimentos paralelos, como tricotar enquanto se assiste a um seminário) e envolver-se com o próprio corpo ou com os próprios pensamentos durante o encontro em curso (autoenvolvimentos). Especialmente em seu artigo inicial “Alienation from Interaction”, Goffman (1957) pintou um quadro dos encontros sociais como um campo em que cada participante está sujeito a uma força em duas direções: há a obrigação moral de estar plenamente engajado e atento, e há a tendência sempre presente de se retirar do engajamento. A retirada pode ser provocada por preocupações alheias à interação em curso, ou pelo fato de a pessoa ter consciência de sua própria atuação interacional ou da atuação dos outros. O contexto da terapia de casal revelou-se um tipo de encontro social rico em diferentes formas de desengajamento, que foram o foco de nossa investigação.

A segunda noção-chave de nosso estudo é a queixa. Heinemann e Traverso (2009) definem as queixas como ações que “expressam sentimentos de descontentamento em relação a algum estado de coisas, cuja responsabilidade pode ser atribuída a ‘alguém’” (p. 2381). Os recursos verbais e prosódicos na preparação, na formulação e na recepção das queixas têm sido intensamente investigados (ver, por exemplo, Pomerantz, 1986; Drew e Holt, 1988; Drew, 1998; Schegloff, 2005; Monzoni, 2009; Couper-Kuhlen, 2012). Usando termos um pouco diferentes, Buttny (1993) e Edwards (1995) investigaram a queixa na terapia de casal. Enquanto Buttny explorou padrões de ação recíprocos (acusação–contra-acusação; acusação–justificativa), Edwards investigou as maneiras pelas quais as descrições de eventos problemáticos feitas pelos membros do casal os apresentam como decorrentes da personalidade da outra pessoa ou de seu estado de espírito duradouro.

A queixa geralmente envolve três papéis: (1) quem faz a queixa, (2) a pessoa a quem ela é dirigida e (3) a pessoa de quem se queixa (o alvo da queixa). Muitas vezes, quem ocupa o terceiro papel está ausente da situação de queixa, e a dinâmica da queixa envolve, em grande medida, a solicitação e a exibição de afiliação por parte da pessoa a quem a queixa é dirigida (por exemplo, Pomerantz, 1986; Couper-Kuhlen, 2012). Se o alvo da queixa está presente, a dinâmica se torna mais complicada (Heinemann e Traverso, 2009; Laforest, 2009). Recentemente, Wilkinson et al. (2023) mostraram que uma queixa a respeito de uma pessoa presente, dirigida a alguém que não é o alvo da queixa, cria para esse alvo uma expectativa de resposta, apesar de a queixa não lhe ter sido dirigida. No entanto, como mostrou Peräkylä (1995), a expectativa de responder pode ser contida em contextos institucionais como o aconselhamento. Neste estudo, examinamos as ações dos alvos das queixas num contexto em que sua oportunidade de responder verbalmente é restrita.

Nossa terceira noção-chave é a intercorporeidade. É importante notar que, nos primeiros encontros de terapia de casal que investigamos, os alvos das queixas não respondiam verbalmente. No entanto, como sustentaremos, sua conduta corporal respondia à queixa. Nos últimos anos, trabalhos de pesquisa sobre interação inspirados em Merleau-Ponty (1962) passaram cada vez mais a compreender a interação social como um processo inteiramente corporal (ver Meyer et al., 2017). Com base em Fuchs (2018), entendemos os movimentos do corpo como uma maneira de cada participante se relacionar com as affordances afetivas da situação e agir sobre elas. Assim, consideramos os movimentos corporais e as posturas dos membros do casal observados neste artigo como um meio de encarnar sua presença numa situação em que são alvo de queixa: de encarnar maneiras de perceber as queixas, avaliá-las e agir sobre elas (ver também Loenhoff, 2017). O paradoxo do desengajamento nasce daí: ao mostrar seu desengajamento corporalmente, os membros do casal na verdade tomam posição em relação ao que está sendo dito.

Neste artigo, os três fios da pesquisa sobre interação mencionados acima, engajamento, queixas e intercorporeidade, serão entrelaçados. Investigamos interações de terapia de casal nos momentos em que um membro do casal falava com a pessoa terapeuta (respondendo à sua pergunta) e, em sua fala, formulava uma queixa sobre o outro membro do casal, que estava presente. Examinaremos como esse outro membro do casal, destinatário não interpelado mas sujeito da queixa, responde corporalmente à queixa, ali mesmo, durante a fala da outra pessoa. Mostraremos como essa resposta corporal envolve exibições de desengajamento e sustentaremos que, paradoxalmente, as exibições de desengajamento transmitem a posição emocional de quem as produz em relação à queixa.

3. Dados e métodos

Os dados de nosso estudo compreendem oito primeiras consultas de terapia de casal realizadas num centro de terapia familiar do norte da Polônia. Nesse centro, as sessões de terapia são regularmente gravadas em vídeo para fins de formação e supervisão. Optamos por analisar primeiras consultas porque nelas as queixas são regularmente formuladas (em resposta às perguntas da pessoa terapeuta sobre o motivo pelo qual o casal procura terapia) e porque o conteúdo das conversas é acessível a quem analisa, já que ainda não existe uma história compartilhada de sessões de terapia que orientaria as inferências das pessoas participantes sobre a fala umas das outras. Oito terapeutas (5 mulheres, 3 homens) participaram do estudo, e todo o grupo tinha formação sistêmica. Os casais foram informados sobre o projeto de pesquisa e consultados sobre sua disposição de participar. Os casais que concordaram em participar assinaram, por fim, um termo de consentimento. Dos oito casais participantes do estudo, seis tinham problemas de longa data em seus relacionamentos e dois vieram à terapia por causa de uma crise aguda em sua relação conjugal. Os problemas de longa data dos seis casais estavam associados a problemas de personalidade e foram diagnosticados pelas pessoas terapeutas como “transtornos da personalidade” (Shedler e Westen, 2007). Embora a patologia da personalidade possa estar associada a uma inclinação a exibir desengajamento, praticamente todas as pessoas atendidas empregaram todo o leque de comportamentos de desengajamento que será descrito a seguir. Por isso, neste estudo qualitativo, as categorias diagnósticas não são tratadas como relevantes.

Como é típico nos estudos de análise da conversa, começamos a análise dos dados de vídeo por uma exploração “não motivada” (Maynard, 2013), com o objetivo de compreender as interações sociais nas primeiras consultas de terapia de casal. Tendo percebido que os membros do casal que não estavam falando, por meio do olhar, da postura corporal e dos movimentos do corpo, regularmente se desengajavam da interação, examinamos com mais detalhe os contextos interacionais desses comportamentos de desengajamento. Começamos a ver associações entre sua conduta corporal e o conteúdo de queixa da conversa. Isso levou à codificação sistemática de todas as ocorrências de queixa em nossos dados. Enquanto a duração habitual de uma sessão é de 60 minutos, o tempo médio de “fala de queixa” por sessão foi de cerca de 9 minutos. As pessoas atendidas ficavam desengajadas durante cerca de metade do tempo em que eram alvo de queixas. Analisando qualitativamente a interação multimodal nesses segmentos, chegamos à tipologia dos comportamentos de desengajamento que apresentamos neste artigo.

Em nossa análise, alternamos entre trabalhar diretamente com os dados de vídeo, anotar os vídeos com o software ELAN e transcrever os segmentos de interesse. Todas as sessões foram transcritas em notação ortográfica. Os segmentos que envolviam queixas foram transcritos na notação da análise da conversa (Hepburn e Bolden, 2013). Nos segmentos apresentados neste artigo, combinamos a notação da análise da conversa com a notação de Mondada (2019) para o comportamento não verbal.

4. Resultados

4.1. Queixar-se da outra pessoa do casal

Antes de passarmos às práticas corporais que são o cerne deste artigo, apresentaremos os contextos verbais dos quais elas emergem. Nas consultas de terapia de casal, os membros do casal são frequentemente questionados sobre os problemas que levaram o casal à terapia. As respostas à pergunta da pessoa terapeuta podem transmitir queixas abertas ou implícitas sobre a outra pessoa do casal. Um exemplo é dado no Trecho 1 abaixo. Pouco antes do trecho, o marido vinha descrevendo suas expectativas em relação à terapia, dizendo que esperava que os problemas “de comunicação” “se resolvessem sozinhos” e acrescentando que esperava que “as esferas sexuais” fossem “resolvidas” (dados não apresentados). A pergunta de seguimento do terapeuta está na linha 1, em que ele pediu ao marido que esclarecesse o que queria dizer com problemas de comunicação.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 1. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Em sua resposta, nas linhas 3 a 8, o marido descreveu a comunicação problemática evocando o “prometer alguma coisa” (linha 6) que não leva a nada (linhas 7-8). Não havia referência direta a uma pessoa, mas, em seu contexto, as promessas quebradas podiam ser inferidas como promessas da esposa relativas ao sexo. Com isso, transmite-se também a atribuição de responsabilidade.

As pessoas que são alvo de queixa, como no Trecho 1, precisam encontrar uma maneira de se relacionar com o que estão ouvindo. O enquadramento institucional da sessão de terapia de casal as impede, na prática, de responder verbalmente: a pessoa terapeuta atribuiu o turno ao outro membro do casal, de modo que a pessoa sobre quem se fala precisa permanecer em silêncio durante a resposta e depois dela, até que a pessoa terapeuta lhe dê o turno. No entanto, as restrições na alternância de turnos não impedem ações não verbais. Ao examinar nossos dados, observamos práticas corporais recorrentes que ocorriam enquanto um membro do casal se queixava. A maioria dessas práticas, mostradas a seguir, envolve exibições corporais de desengajamento. Mas o membro do casal que é alvo da queixa também pode mostrar engajamento com a fala de queixa, e começaremos mostrando um caso assim.

4.2. Engajamento: olhar para quem fala

Quando o alvo da fala da outra pessoa do casal olha para quem fala, mostra que está prestando atenção ao que a outra pessoa está dizendo. O Trecho 2 abaixo é um exemplo. A esposa respondia à pergunta da pessoa terapeuta sobre o que gostaria de abordar na terapia e falava da divisão de papéis no casamento. Ao longo de toda a entrevista, ela descreveu essa inversão de papéis como problemática para ela. Enquanto falava, a esposa olhava na direção da pessoa terapeuta. O marido olhava para a esposa desde o início da resposta dela (linha 1); deslocou o olhar para a pessoa terapeuta no ponto de possível conclusão da resposta (fim da linha 1) e o trouxe de volta para a esposa quando ela continuou a resposta (linha 3), mantendo o olhar dirigido a ela até o fim do trecho. A descrição da inversão de papéis feita pela esposa pode ser entendida como uma queixa; sentimentos de descontentamento se encarnavam também em sua voz trêmula e em sua expressão facial. Não havia atribuição explícita de responsabilidade, mas, pelo contexto, entendemos que o marido carregava pelo menos parte da culpa. Ao olhar para a esposa, o marido mostrava que estava prestando atenção à fala dela. A configuração em que quem se queixa olha para a pessoa destinatária (nos nossos casos, a pessoa terapeuta) e o sujeito da queixa olha para quem fala pode ser encontrada também nas queixas indiretas da conversa cotidiana analisadas recentemente por Wilkinson et al. (2023). O Quadro 1 corresponde a um ponto-chave da queixa, na linha 3. Todos os quadros deste artigo são desenhos que reproduzem minuciosamente as posturas corporais das pessoas participantes nos fotogramas originais, garantindo ao mesmo tempo seu anonimato. Em cada sessão, a pessoa terapeuta estava sentada em frente ao casal, mas não aparecia no vídeo.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 2. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Em nossos dados, quem falava olhava predominantemente para a pessoa terapeuta (a destinatária), como no Trecho 2 acima. Para momentos em que quem falava lançava um olhar ao alvo, ver, no entanto, os trechos 8 e 9 abaixo. Não era incomum, em nossos dados, que o alvo da queixa olhasse para o membro do casal que se queixava, como no Trecho 2 acima. Olhares mais breves dos alvos para quem fala também podem ser vistos nos trechos 3, 5 e 9 abaixo. No entanto, acontecia com frequência que o alvo da queixa, em vez de olhar para quem falava, exibisse desengajamento da interação em curso. Nos trechos abaixo, mostraremos o leque de práticas usadas para exibir desengajamento.

Há um paradoxo nos comportamentos de desengajamento que observamos. Por um lado, como esses comportamentos envolviam desviar o olhar e o corpo de quem falava, eles encarnam a desatenção em relação à fala em curso da outra pessoa do casal. Alguns desses comportamentos incluíam também um envolvimento com outra coisa, como o próprio corpo. Assim, os comportamentos de desengajamento indicavam que a pessoa desengajada não estava participando de bom grado e de corpo inteiro do encontro e não estava concentrando a atenção no que estava sendo dito. Mas há o outro lado da moeda: esses comportamentos ocorriam dentro de um encontro, enquanto o outro membro do casal falava da pessoa que exibia o comportamento. Eram produzidos na presença perceptiva de outras pessoas. Por isso, ao mesmo tempo que exibiam desatenção, os comportamentos de desengajamento indicavam paradoxalmente a atenção e a posição de quem os produzia em relação à fala e às outras pessoas presentes.

4.3. Práticas de desengajamento

A seguir, mostraremos instantâneos de práticas de desengajamento. Elas podem ser ordenadas, de forma aproximada e intuitiva, segundo o grau de retirada do engajamento e segundo o aspecto do comportamento corporal e as partes do corpo que envolvem.

Talvez a prática de desengajamento mais simples e menos saliente seja o desvio passivo do olhar. No Trecho 3 abaixo, o marido se queixava de que a esposa não entendia seu “…modo de proceder e de funcionar” (linha 2). A esposa respondeu concordando (linha 3); antes que seu enunciado estivesse concluído, o marido a interrompeu e desenvolveu sua queixa (linhas 4 a 11). Durante a queixa inicial do marido (linhas 1-2), o olhar da esposa estava dirigido um pouco para baixo, numa direção que se afastava tanto do marido quanto da pessoa terapeuta a quem o marido falava. Quando ela formulou sua concordância, na linha 3, olhou por um instante para o marido e, em seguida, provavelmente deslocou o olhar para a pessoa terapeuta. Depois que o marido retomou o turno (linha 4), ela trouxe o olhar de volta à posição anterior (para a frente e para baixo) enquanto a resposta continuava. Seu olhar permaneceu nessa posição até o fim da queixa do marido (ver Quadro 2). Esse olhar desviado indica falta de engajamento com a fala do marido. No entanto, essa exibição era passiva: a esposa não indicava nenhum outro objeto de atenção, nem se envolvia em alguma ação ou gesto concorrente.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 3. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

O desvio passivo do olhar representado no Quadro 2 acima envolve a direção da cabeça e dos olhos. Às vezes, porém, os membros do casal também organizam a cabeça e a parte superior do corpo numa exibição de desengajamento, virando-se para o outro lado. Considere o Trecho 4. A pessoa terapeuta pediu à esposa que comentasse o que o marido havia dito antes sobre os problemas do casal, ou que introduzisse outra questão potencialmente problemática (linhas 1 a 6). A esposa voltou a mais um tema levantado antes pelo marido e o formulou duas vezes como “a gente não se entende” (linhas 8 e 10). Em seguida, passou a um relato de sua total incompreensão do riso do marido (linhas 11 a 14); esse relato implicava que havia algo errado na maneira como o marido expressava suas emoções. A queixa, que nas linhas 8 a 14 foi expressa indiretamente, tornou-se explícita quando a esposa, nas linhas 15-16, deslocou o tema para o próprio sofrimento e apontou, com voz de choro (indicada pelos sinais ~), que a inacessibilidade emocional do marido tornava impossível para ela reagir. Além disso, na linha 25, revelou a solidão que daí decorria. No início da resposta da esposa, o marido olhava passivamente para outro lado, à sua frente. Começou a virar-se para a direita, afastando-se da esposa, na linha 7, dirigindo gradualmente a cabeça para a direita e para baixo. Por fim, na linha 8, chegou a uma posição em que estava virado para o outro lado e olhando para baixo (ver Quadro 3). O marido permaneceu nessa posição durante todo o relato da esposa, até a linha 16, quando a esposa começou a explicitar seu sofrimento. Durante o processo de se virar ainda mais (linhas 8 e 9), o marido também expirou de forma audível e cerrou a mandíbula.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 4. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Ao se virar para o outro lado, afastando-se de quem falava, o parceiro do Trecho 4 mostrou desengajamento de maneira ativa: ele fez visivelmente algo para exibir que desviava sua atenção e sua percepção de quem falava.

As mãos são usadas em várias práticas de desengajamento. Em nossos dados, os membros do casal às vezes usavam a mão ou as mãos como barreira. No Trecho 5 abaixo, na linha 1, pede-se ao marido que descreva sua visão dos problemas do casal. O marido respondeu nomeando um “problema sexual” como o problema principal (linha 5). A partir da linha 6, desenvolveu então o problema, apontando primeiro que a disfunção crescente havia causado nele frustração e raiva reprimida (linhas 07-08) e, por fim, formulando a falta de excitação da esposa como destrutiva para sua potência. Com isso, a responsabilidade pelos problemas sexuais do casamento foi atribuída à esposa. Durante a pergunta, a esposa olhava para baixo, para os óculos que tinha nas mãos, sobre o colo. No silêncio anterior ao início da resposta (linha 2), o marido mudou de posição na cadeira, e a esposa lançou-lhe um olhar, depois voltou a olhar para os óculos. Ela os colocou sobre a cadeira no início da resposta do marido (linha 3). Depois de mover os óculos, a esposa continuou os movimentos da mão e do braço, levantando a mão direita em direção ao rosto (linha 3). Assim que a mão chegou à altura do rosto, ela começou a esfregar o rosto com a mão (linha 4). Quando a construção da frase do marido chegou ao ponto em que ele ia nomear o problema, a esposa colocou a mão na lateral do rosto, de modo que ela ficasse posicionada entre o rosto dela e o marido, e continuou a tocar delicadamente a lateral do rosto (linha 4; Quadro 4). A mão permaneceu ali enquanto o marido descrevia sua frustração e sua raiva. O desengajamento envolvia aqui separar a esposa de quem falava, bloqueando o acesso visual. Ela também se proporcionava uma experiência tátil enquanto o marido falava (ver adiante a seção sobre o autotoque). Por fim, na linha 09, quando o marido passou à descrição da situação sexual do casal, a esposa moveu a mão para cobrir o rosto, uma prática descrita mais adiante no Trecho 9.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 5. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Às vezes, os membros do casal olham para a própria mão enquanto a outra pessoa descreve problemas que os implicam. O Trecho 6 abaixo mostra o mesmo momento mostrado no Trecho 1. O que o marido diz nas linhas 03 a 06 pode ser inferido como uma queixa de que a esposa promete sexo e não o concretiza. Na primeira parte do trecho, a esposa mantinha a mão direita junto ao rosto, como uma barreira entre ela e o marido. Quando o marido se aproximava do ponto-chave da queixa, a esposa baixou a mão para uma posição à sua frente (linha 5) e, enquanto ele efetivamente enunciava o ponto-chave (linha 6), a esposa olhava para a mão (aparentemente para as unhas; ver Quadro 5). Ao olhar para a mão, a esposa mostrava que sua atenção estava agora, ao menos em parte, voltada para outra coisa que não a fala do marido (para a continuação dessa interação, ver o Trecho 10, linhas 24 a 32).

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 6. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Além de olhar para as mãos, os alvos silenciosos das queixas também brincam com as mãos ou com objetos que têm nas mãos. No Trecho 7 abaixo, o marido falava de sua visão sobre a relação conflituosa da esposa com o filho pequeno do casal. Antes do segmento, a esposa havia descrito sua incapacidade de lidar com as emoções provocadas pelo mau comportamento do filho, o que a levava a bater nele. Ela também havia afirmado ser mais decidida do que o marido em relação aos filhos, o que implicava uma queixa contra o marido. Na linha 1, a pessoa terapeuta perguntou ao marido como ele entendia a situação. O marido começou minimizando a importância da “firmeza” da esposa na questão (linhas 2 a 4). Em seguida, descreveu, hesitante, o que considerava uma questão-chave: o filho fugir da mãe quando a firmeza dela se transformava em rejeição (linhas 6 a 8). A queixa consistia em o marido converter uma autoatribuição potencialmente positiva da esposa (ser firme) numa atribuição negativa (rejeitar a criança). No início do trecho, a esposa assoou o nariz e o limpou com um lenço de papel (linhas 1-2). Depois, guardou o lenço na bolsa (linha 4). No momento em que o marido se aproximava da revelação de sua visão do problema (linha 5), a esposa começou a olhar para as mãos e a brincar com elas (ver Quadro 6). Isso criava a impressão de um envolvimento paralelo (Goffman, 1963) com as mãos. A esposa permaneceu nessa posição, brincando com as mãos, até o fim do Trecho 8, e também depois, enquanto o marido descrevia a confusão do filho e sua própria frustração, resultantes do comportamento de rejeição da esposa em relação ao filho (dados não apresentados).

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 7. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Mais uma atividade das mãos é o autotoque. Ele envolve tocar, esfregar, afagar, acariciar ou mexer no próprio corpo (Harrigan, 1985). O autotoque também pode ser feito por outras partes do corpo que não as mãos, por exemplo, os lábios, a língua ou os pés. No Trecho 8, o marido falava de ter ficado “aterrorizado” (linha 1) quando a esposa estava “passando por” (linha 2) algo que se revelou um “apogeu” (linha 3) de perturbações emocionais que o marido caracterizou como “essa confusão terrível” (linha 5). Houve uma mudança temporária de direção no relato do marido, na linha 3, em que ele apontou que, na época de que falava, o “apogeu” na verdade estava perdendo intensidade. No entanto, a queixa se cristalizou na descrição “confusão terrível” (linha 05), que transmitia não aceitação. Quando o marido pronunciou a palavra “aterrorizado” (linha 1), a esposa começou a apertar os lábios. Quase no mesmo momento, o marido voltou o olhar para a esposa, permanecendo orientado para ela até o fim da linha 1; a esposa, porém, não retribuiu o olhar. Enquanto o marido tossia e depois fazia uma pausa, na linha 2, no ponto em que estava claro que ele ia nomear aquilo que o havia aterrorizado, a esposa levou a mão à boca e começou a pressionar os lábios cerrados com os dedos (ver Quadro 7). Ela continuou a pressioná-los até o fim do trecho. Isso criava um efeito de autoenvolvimento (Goffman, 1963) que ocorria paralelamente à fala do marido e contribuía, assim, para o desengajamento em relação a essa fala.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 8. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

Por fim, há práticas de desengajamento em que o posicionamento da mão, o do corpo e o bloqueio do campo visual coincidem. É o que acontece na prática de cobrir o rosto. Considere o Trecho 9. O marido se queixava do comportamento da esposa em relação a ele, aparentemente por ela ter dito algo muito ofensivo sobre ele a respeito de sexo. Enquanto o marido se referia a “isso” nas linhas 2 e 3 (na linha 1 do original polonês), a esposa interveio na linha 4 dizendo “quer dizer sexo”, aparentemente contestando o modo indireto de falar do marido. Durante essa contestação, os dois se olharam por um momento (linhas 4 e 5), depois ambos olharam para baixo e para a frente. Nas linhas 5 e 6, o marido primeiro confirmou a correção da esposa e depois (linha 6) sinalizou a continuação de sua fala de queixa pronunciando “é:::”. Em seguida, a esposa expirou de forma audível, levantou a mão e cobriu o rosto. Imediatamente depois, o marido continuou sua fala de queixa, falando da perda de seu desejo de ter relações sexuais (linhas 8 e 10). Durante essa fala, a esposa continuou a cobrir o rosto com a mão esquerda e inclinou a cabeça em direção à mão (ver Quadro 8).

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com o desenho de um quadro da sessão
Trecho 9. Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com o desenho de um quadro da sessão.

No Trecho 9, a esposa que cobria o rosto também exibia desengajamento em relação à fala do outro membro do casal. Ela obstruía o próprio campo visual, criava uma sensação tátil como envolvimento paralelo e orientava a postura para baixo, afastando-se do marido que falava a seu lado. Cobrir o rosto poderia ser caracterizado como uma prática de desengajamento “sintética”, pois envolvia também aquilo que chamamos de virar-se para o outro lado e de autotoque.

4.4. O desengajamento como antecipação

Em todos os trechos mostrados acima, havia uma coordenação observável entre a fala de um membro do casal que atribuía problemas ao outro e as práticas particulares de desengajamento corporal desse outro. No surgimento das práticas de desengajamento, era possível antecipar uma passagem à fala de queixa ou uma intensificação da queixa. Às vezes, o membro do casal estava engajado com quem falava antes do surgimento da prática corporal de desengajamento; em outros casos, essa pessoa já empregava outra prática antes do surgimento da prática de desengajamento em foco. O desvio passivo do olhar parece ser uma prática de desengajamento “de base”, que não está diretamente associada às mudanças na fala da outra pessoa. Nas outras práticas, parece que os membros do casal iniciam suas práticas de desengajamento em momentos da fala da outra pessoa em que a queixa ou sua intensificação está prestes a emergir, mas ainda não emergiu. Assim, no Trecho 4, o marido começou a se virar para o outro lado no ponto em que a esposa acabava de indicar que falaria de uma questão problemática mencionada antes por ele. No Trecho 5, a esposa começou a levantar a mão quando o marido acabava de indicar que ia descrever “o problema principal”, e colocou a mão como barreira no momento em que o marido começou a explicitar qual era esse problema. No Trecho 6, a esposa começou a levantar a mão quando a fala do marido indicou que ele ia se queixar e, no mesmo momento em que ele pronunciou a descrição-chave da queixa (“prometer”), a esposa começou a olhar para a mão. No Trecho 7, a esposa começou a brincar com as mãos no momento em que o marido apontou que a questão problemática não era a firmeza da esposa, sinalizando assim que falaria de outra coisa no cerne do problema (que depois se revelou ser a rejeição do filho). No Trecho 8, a esposa começou a apertar os lábios no momento em que o marido deixou claro que ia falar de um acontecimento da vida do casal que o havia aterrorizado. No Trecho 9, a esposa começou a levantar a mão para cobrir o rosto no momento em que o casal havia deixado claro que o marido estava se queixando da maneira como a esposa retratava a vida sexual deles.

As pessoas que participam de uma terapia de casal formam casais casados ou que coabitam, com uma longa história de dificuldades no relacionamento. É razoável pensar que já conversaram sobre seus problemas inúmeras vezes e que também sabem o que a outra pessoa considera problemático. Assim, parece que o momento das práticas de desengajamento envolve uma antecipação da direção da fala rumo ao surgimento ou à intensificação de uma queixa. As práticas de desengajamento emergem quando essa direção se torna observável para o membro do casal que não está falando.

4.5. A exibição do desengajamento como engajamento

Sustentamos que os comportamentos de desengajamento estão ligados, de maneira antecipatória, às queixas que quem fala formula a respeito da outra pessoa do casal. Os comportamentos de desengajamento transmitem que o alvo da queixa não está prestando plena atenção à fala da outra pessoa nem está plenamente envolvido na atividade em curso. Nesse contexto sequencial e institucional, emerge um paradoxo do desengajamento: as pessoas que mostram sua desatenção por meio de comportamentos de desengajamento o fazem num momento particular, no contexto de uma fala particular (de queixa). Elas estão na proximidade perceptiva das outras pessoas presentes (a outra pessoa do casal e a pessoa terapeuta), de modo que sabem que essas pessoas podem ver tudo o que fazem e que associarão seus comportamentos ao que a outra pessoa do casal está dizendo. O conteúdo da fala da outra pessoa envolve questões íntimas ou emocionais que lhes dizem respeito como membros do casal. Além disso, estão institucionalmente obrigadas a permanecer na posição de quem escuta. Assim, ao mesmo tempo que reivindicam desatenção e falta de envolvimento, os comportamentos de desengajamento indicam paradoxalmente a atenção e a posição de quem os produz em relação à fala e às outras pessoas presentes. Poderíamos dizer que a encenação do desengajamento, nesse contexto, é uma maneira particular de se engajar. Ver os comportamentos de desengajamento dessa forma está em sintonia com a teoria da intercorporeidade (Loenhoff, 2017; Fuchs, 2018). Desviar o olhar e o corpo, envolver-se em outras atividades, objetos e sensações, bloquear o próprio contexto perceptivo em relação a quem fala: todas essas são maneiras corporificadas de perceber as queixas feitas a seu respeito, de avaliá-las e de agir sobre elas.

4.6. Desengajamento prolongado

Até aqui, examinamos casos em que o membro do casal se retirava do engajamento num momento específico. Embora não tenhamos podido mostrar todas as ocorrências em detalhe, nesses casos as pessoas desengajadas geralmente voltavam ao engajamento após um período limitado de desengajamento. Havia, porém, ocorrências em nossos dados em que o membro do casal desengajado permanecia em desengajamento por um período mais longo. Nesses casos, as práticas efetivas de desengajamento podiam se alterar ao longo do desengajamento. Para um caso assim, considere o Trecho 10 abaixo.

Trecho de transcrição de uma primeira consulta de terapia de casal (polonês original e tradução inglesa), com desenhos de quadros da sessão
Trecho 10 (1/4). Trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo, notação de análise da conversa multimodal), com desenhos de quadros da sessão.
Continuação do Trecho 10: transcrição (polonês original e tradução inglesa) e desenhos de quadros da sessão
Trecho 10 (2/4). Continuação do trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo), com desenhos de quadros da sessão.
Continuação do Trecho 10: transcrição (polonês original e tradução inglesa) e desenhos de quadros da sessão
Trecho 10 (3/4). Continuação do trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo), com desenhos de quadros da sessão.
Fim do Trecho 10: transcrição (polonês original e tradução inglesa) e desenhos de quadros da sessão
Trecho 10 (4/4). Fim do trecho de transcrição (polonês original e tradução inglesa do artigo), com desenhos de quadros da sessão.

Antes deste trecho, as pessoas presentes vinham discutindo os motivos pelos quais o casal não tinha filhos, e o marido vinha atribuindo boa parte desses motivos à esposa (as dificuldades dela com o sexo e sua falta de contribuição para as finanças do casal). A esposa havia permanecido fisicamente desengajada durante a maior parte dessa conversa. Nas linhas 01 a 03, o terapeuta mudou de assunto com uma pergunta sobre as expectativas em relação à terapia. Durante toda a pergunta, a esposa permaneceu na posição em que estava antes: cobrindo parte do rosto com a mão (ver Quadro 10, linha 03).

O terapeuta dirigiu sua pergunta aos dois membros do casal (usando a forma de tratamento plural de segunda pessoa, państwo; linha 2). Seguiu-se um longo silêncio (linha 4), antes que o marido respondesse expressando o desejo de que os problemas de comunicação se resolvessem sozinhos (linhas 5 a 8). Nas linhas 10 a 14, expressou então, com alguma hesitação, sua esperança de que os problemas sexuais também fossem resolvidos. Como mostrado antes nos trechos 1 e 6, o terapeuta pediu que se especificassem os “problemas de comunicação” a que o marido havia se referido primeiro (linha 16); em resposta, o marido formulou uma queixa indireta, mas (neste contexto) inferível, sobre as promessas vazias da esposa em relação ao sexo (17 a 22). O ápice da queixa estava nas linhas 21-22, em que o marido aparentemente citava a esposa prometendo intimidade “a qualquer minuto”, quando na verdade “nada, nada” se seguia. Na linha 23, o terapeuta pediu ao marido que confirmasse se a esfera íntima era central para ele; o marido confirmou parcialmente (linha 25), mas também acrescentou, hesitante, outra área de problemas: sua raiva das outras pessoas e da esposa (26 a 31).

Durante essa troca iniciada pela pergunta do terapeuta, a esposa adotou várias posturas com o corpo, as mãos e o olhar. As posturas que adotou envolviam, em diferentes variações e combinações, todas as práticas de desengajamento descritas acima: desvio passivo do olhar (mais nitidamente nos quadros 12 e 17), virar-se para o outro lado (quadros 18 e 19), mão ou mãos como barreira (quadros 11 e 13), olhar para as próprias mãos (quadros 14 e 16), brincar com as mãos (Quadro 20), autotoque (quadros 9, 10, 11, 13, 15 e 17) e cobrir o próprio rosto (quadros 9 e 10). O casal entrou neste segmento vindo de uma série de falas em que o marido já vinha se queixando da esposa (dados não apresentados), e o próprio segmento envolvia novas queixas. As exibições de desengajamento da esposa estavam coordenadas com as mudanças momentâneas na fala do marido. Por exemplo, na linha 11, quando o marido havia indicado (pelo “se-” interrompido) que não ia esconder que o “sexo” era algo importante para ele, a esposa se virou para o outro lado; e, na linha 20, quando o marido havia iniciado uma queixa (pelo descritor “o tempo todo”, na linha 19) e estava prestes a nomear o alvo da queixa (tendo dito “há uma espécie uma espécie de”), a esposa moveu a mão e começou a olhar para as unhas (Quadro 16). No entanto, nem toda passagem de uma prática de desengajamento a outra parecia ligada a estímulos antecipatórios distintos na fala do marido. Parece, antes, que o contínuo de práticas de desengajamento constituía uma retirada prolongada e contínua da interação. A retirada prolongada era, por assim dizer, a resposta da esposa à continuação esperada da fala de queixa.

Embora as práticas de desengajamento da esposa constituíssem uma retirada contínua e prolongada, ainda assim era possível observar uma mudança geral na “Gestalt” dessas práticas. Na parte inicial do segmento (até o Quadro 13, linha 19), as práticas de desengajamento envolviam principalmente a criação de barreiras físicas entre ela e o marido, que estava falando. O autotoque e o ato de cobrir o rosto estavam associados à manutenção dessa barreira. Na parte final do segmento, porém, a esposa exibiu desengajamento de forma mais abrangente, não só evitando o contato visual com o marido, mas também concentrando-se num objeto concorrente de atenção visual, isto é, um envolvimento paralelo. Ao brincar com as mãos e olhar para as unhas, ela parecia transmitir que havia outra coisa em sua mente além da fala do marido. No entanto, tanto para as pessoas presentes quanto para quem analisa, era evidente que a atenção visual concorrente não impedia a esposa de ouvir a fala do marido. Portanto, a exibição de envolvimento paralelo devia ser entendida também como exibição de uma posição negativa em relação ao que o marido dizia. Da mesma forma, o gesto da esposa de se virar para longe do marido (quadros 18-19) era muito acentuado, por ser ostensivo, e constituía assim também uma exibição ativa de posição. Curiosamente, as práticas da esposa de criar uma barreira física foram exibidas enquanto o marido transmitia que um assunto difícil estava prestes a emergir e depois o nomeava num nível geral (“esferas sexuais”, linha 11). Por outro lado, as exibições de desengajamento mais ativas e abrangentes pareciam ser provocadas por acusações diretas.

5. Discussão

Neste artigo, descrevemos os comportamentos de desengajamento realizados num contexto sequencial e institucional particular, que indicam paradoxalmente o engajamento de quem não está falando. Mostramos esse fenômeno por meio de uma análise detalhada das dinâmicas não verbais nas sequências de queixa na terapia de casal: como os alvos presentes respondiam às queixas que a outra pessoa do casal formulava e dirigia à pessoa terapeuta nas primeiras sessões de terapia de casal. Sustentamos que o sistema institucionalizado de alternância de turnos da terapia de casal bloqueia, na prática, a resposta verbal “comum” que o sujeito de uma queixa provavelmente daria (ver Wilkinson et al., 2023). Em vez disso, os membros do casal que eram alvo de queixa exibiam sua posição em relação à queixa em curso por meio do corpo (direção do olhar, movimentos das mãos e postura corporal). Identificamos sete práticas corporais recorrentes que, de diferentes maneiras, encarnavam a desatenção à fala de queixa, ou objetos de ação e de atenção concorrentes com essa fala. As práticas se sobrepõem parcialmente, de modo que elementos de uma prática podem ser incorporados a outra: por exemplo, brincar com as mãos ou com objetos normalmente incorpora olhar para as mãos; e cobrir o rosto normalmente incorpora o autotoque e o virar-se para o outro lado. Em nossos dados, as pessoas alvo de queixa normalmente iniciavam os comportamentos de desengajamento de maneira antecipatória, nos momentos em que a queixa era projetada, isto é, quando a outra pessoa do casal se aproximava de um ponto de sua fala em que uma queixa seria formulada. Os comportamentos de desengajamento antecipatórios mostraram ainda outro paradoxo: uma atenção realizada por meio de sinais de desatenção. Sustentamos também que, às vezes, os comportamentos de desengajamento se “encadeavam” ao longo de segmentos mais longos de fala de queixa, o que resultava numa longa série de exibições de desengajamento, em que uma nova fase de queixa podia ser antecipada por uma mudança no comportamento de desengajamento.

Poderíamos perguntar: por que alguém exibiria desengajamento em resposta a uma queixa? Responder, numa conversa, seja verbal ou não verbalmente, normalmente transmite engajamento. Mesmo sem falar, as pessoas podem, em princípio, usar o corpo de outras maneiras: fazer caretas, fazer gestos de desaprovação, até mesmo sair do consultório de terapia. A lógica interacional das exibições de desengajamento pode decorrer de suas affordances paradoxais.

As exibições de desengajamento não são ações no sentido manifesto e imputável. Não documentam uma intenção de comunicar. No entanto, paradoxalmente, são acontecimentos no interior do encontro e muito provavelmente são percebidas pelas outras pessoas presentes. Ao indicar desatenção e falta de envolvimento, poderíamos dizer que as práticas de desengajamento transmitem, da maneira mais indireta e menos imputável possível: “não estou colaborando na escuta do que está sendo dito agora a meu respeito”. Ao não colaborar, as pessoas que se desengajam mostram, paradoxalmente, sua posição emocional em relação à queixa. Portanto, as exibições de desengajamento envolvem, por assim dizer, “responder sem responder”, “atenção por meio da desatenção” ou até “engajar-se por meio do desengajamento”. Indicamos que esses fenômenos surgem particularmente em contextos sequenciais e institucionais que envolvem uma fala de queixa a respeito de uma pessoa presente (a parceria íntima) que diz respeito a questões íntimas ou emocionais, enquanto o alvo da queixa está sujeito à obrigação institucional de permanecer na posição de quem escuta.

5.1. Limitações e direções para pesquisas futuras

O fato de nossos vídeos não mostrarem as pessoas terapeutas é uma limitação importante do estudo. Conhecendo a disposição física do local do estudo, podemos inferir quando o olhar de quem fala está dirigido à pessoa terapeuta. No entanto, o olhar das pessoas terapeutas nos é inacessível.

A análise da conversa normalmente se concentra nos comportamentos manifestos em sequências de ação e evita referências às propriedades psicológicas ou de outra natureza das pessoas em interação. Recentemente, porém, alguns trabalhos também começaram a investigar os vínculos entre processos interacionais e psicológicos (ver, por exemplo, Peräkylä et al., 2015; DeLand, 2021). O engajamento interacional é um tema em que a exploração desses vínculos pode ser relevante. É de esperar que ser alvo de uma queixa provoque em quem ouve uma ativação emocional negativa, já que sua autoimagem está então em jogo. Na tradição de pesquisa sobre interação, foi Goffman (1955, p. 214) quem reconheceu as consequências emocionais das ameaças à autoimagem: “os modos e a compostura” da pessoa “podem vacilar, desmoronar e se desfazer. Ele pode ficar embaraçado e desgostoso: pode ficar envergonhado”. Pesquisas futuras poderiam partir da hipótese de que as práticas de engajamento envolvem um esforço para gerir essa ativação emocional negativa. Isso não significaria reduzir o significado das práticas interacionais a processos psicológicos. Poderíamos antes supor que a regulação “interna” das emoções e a gestão dos processos de interação se entrelaçam, de modo que as mesmas práticas podem servir à regulação interna e à gestão das interações (Beebe e Lachmann, 2002). Três tipos de desenho de pesquisa poderiam ajudar a esclarecer o papel dos comportamentos de desengajamento na regulação das emoções. Um seria medir respostas fisiológicas indicativas de ativação emocional durante sequências de queixa e desengajamento (cf. Peräkylä et al., 2015); outro seria investigar comportamentos de desengajamento em casais que sofrem de condições associadas a dificuldades de regulação emocional (como o transtorno da personalidade borderline; Soloff, 2018); o terceiro seria obter relatos das pessoas participantes sobre suas experiências subjetivas em relação aos comportamentos de desengajamento durante sequências de queixa (cf. Janusz e Peräkylä, 2020).

Complexe Systémique: a reter

O artigo inverte uma evidência clínica: o membro do casal que “se desliga” enquanto o outro se queixa não está ausente, está respondendo. Desviar o olhar, virar-se, fazer barreira com a mão, olhar para as mãos, brincar com elas, tocar-se, cobrir o rosto: sete gestos identificados, que surgem logo antes de a queixa se precisar, como se o corpo já conhecesse a continuação de um conflito antigo. Para a clínica sistêmica, é uma bela ilustração da impossibilidade de não comunicar, e um lembrete de que o próprio enquadre, ao tirar a palavra da pessoa visada, produz essas respostas mudas. Ler esses gestos como uma posição, e não como desinteresse, abre caminhos: nomeá-los com tato, devolver a palavra mais cedo, desacelerar quando a queixa sobe. Limitações: oito consultas de um único centro polonês, terapeutas fora do enquadramento da câmera, uma tipologia que continua sendo uma prova de conceito. Para ler com o estudo da mesma equipe sobre as práticas de controle na terapia de casal com narcisismo e com o artigo sobre a sincronia não verbal na terapia de casal.

Notas do original

Ética. Os estudos envolvendo seres humanos foram avaliados e aprovados pelo Comitê de Bioética do Colégio Médico da Universidade Jaguelônica (n.º 1072.6120.76.2020). As pessoas atendidas e participantes deram consentimento informado por escrito para participar deste estudo.

Contribuições. AP: concepção do estudo, análise dos dados, supervisão da análise dos dados e redação do artigo. BT: análise dos dados e redação do artigo. KD-W e BJó: análise dos dados. MF e FM: coleta e análise dos dados. BJa: concepção do estudo, coleta dos dados, análise dos dados e redação do artigo. Todas as pessoas que assinam o artigo contribuíram para ele e aprovaram a versão submetida.

Financiamento. A pesquisa foi financiada pelos subsídios 319113 e 320248 da Academia da Finlândia.

Conflitos de interesse. A equipe declara que a pesquisa foi realizada na ausência de quaisquer relações comerciais ou financeiras que pudessem ser interpretadas como potencial conflito de interesses. A pessoa responsável pela avaliação MB declarou à pessoa responsável pela edição uma colaboração anterior com AP.

Nota da editora. Todas as afirmações expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva da equipe que o assina e não representam necessariamente as das organizações a que ela está vinculada, nem as da editora, das pessoas responsáveis pela edição e pela avaliação. Nenhum produto que possa ser avaliado neste artigo, nem qualquer afirmação feita por seu fabricante, é garantido ou endossado pela editora.

Referências

Beebe B., Lachmann F. M. (2002). Infant Research and Adult Treatment. Co- Constructing Interactions.Hillsdale, NJ: The Analytic Press.

Bergmann J., Peräkylä A. (in press). The social organization of (in-)attention, in In New Perspectives on Goffman in Language Interaction, eds MondadaL.PeräkyläA. (London: Routledge).

Buttny R. (1993). Social Accountability in Communication. New York, NY: Sage.

Couper-Kuhlen E. (2012). Exploring affiliation in the reception of conversational complaint stories in Emotion in interaction, eds. PeräkyläA.SorjonenM.-L. (Oxford, UK: Oxford University Press) 113–146. 10.1093/acprof:oso/9780199730735.003.0006

DeLand M. F. (2021). Men and their moments: Character-driven ethnography and interaction analysis in a park basketball rule dispute. Soc. Psychol. Q. 84, 155–176. 10.1177/01902725211004894

Drew P. (1998). Complaints about transgressions and misconduct. Res. Lang. Soc. 31, 295–325. 10.1207/s15327973rlsi3103&4_2

Drew P., Holt E. (1988). Complainable matters: The use of idiomatic expressions in making complaints. Soc. Probl. 35, 398–417. 10.2307/800594

Edwards D. (1995). Two to tango: Script formulations, dispositions, and rhetorical symmetry in relationship troubles talk. Res. Lang. Soc. Inter.28, 319–350. 10.1207/s15327973rlsi2804_1

Fuchs T. (2018). Ecology of the Brain: The Phenomenology and Biology of the Embodied Mind.Oxford, UK: Oxford University Press. 10.1093/med/9780199646883.001.0001

Goffman E. (1955). On face-work: An analysis of ritual elements in social interaction. Psychiatry J. 18, 213–231. 10.1080/00332747.1955.11023008

Goffman E. (1957). Alienation from interaction. Hum. Relat. 10, 47–60. 10.1177/001872675701000103

Goffman E. (1963). Behavior in Public Places: Notes on the Social Organization of Gatherings.New York, NY: The Free Press.

Goffman E. (1964). The neglected situation. Am. Anthropol.66, 133–136.

Goffman E. (1974). Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Harrigan J. A. (1985). Self-touching as an indicator of underlying affect and language processes. Soc. Sci. Med. 20, 1161–1168. 10.1016/0277-9536(85)90193-5

Heinemann T., Traverso V. (2009). Complaining in interaction. J. Pragmat. 41, 2381–2384. 10.1016/j.pragma.2008.10.006

Hepburn A., Bolden G. (2013). The Conversation Analytic Approach to Transcription, in The Handbook of Conversation Analysis, eds. SidnellJ.StiversT. (New York, NY: Wiley-Blackwell) 57–76. 10.1002/9781118325001.ch4

Janusz B., Peräkylä A. (2020). Quality in conversation analysis and interpersonal process recall. Qual. Res. Psychol. 18, 426–449. 10.1080/14780887.2020.1780356

Laforest M. (2009). Complaining in front of a witness: Aspects of blaming others for their behaviour in multi-party family interactions. J. Pragmat. 41, 2452–2464. 10.1016/j.pragma.2008.09.043

Loenhoff J. (2017). “Intercorporeality as a foundational dimension of human communication”, in Intercorporeality: Emerging Socialities in Interaction, ed. MeyerC.StreeckJ.JordanJ. S. (Oxford, UK: Oxford University Press) 25–50. 10.1093/acprof:oso/9780190210465.003.0002

Maynard D. W. (2013). Everyone and no one to turn to: Intellectual roots and contexts for conversation analysis, in The Handbook of Conversation Analysis, ed. SidnellJ.StiversT. (UK: John Wiley & Sons Ltd.) 11–31. 10.1002/9781118325001.ch2

Merleau-Ponty M. (1962). Phenomenology of Perception. London: Routledge and Kegan Paul.

Meyer C., Streeck J., Jordan J. S. (2017). Intercorporeality: Emerging Socialities in Interaction. Oxford, UK: Oxford University Press. 10.1093/acprof:oso/9780190210465.001.0001

Mondada L. (2019). Conventions for multimodal transcription. Available online at: https://www.lorenzamondada.net/multimodal-transcription (accessed January 25, 2023).

Monzoni C. M. (2009). Direct complaints in (Italian) calls to the ambulance: The use of negatively framed questions. J. Pragmat. 41, 2465–2478. 10.1016/j.pragma.2008.09.042

Peräkylä A. (1995). AIDS counselling: Institutional Interaction and Clinical Practice.Cambridge: Cambridge University Press. 10.1017/CBO9780511597879

Peräkylä A., Henttonen P., Voutilainen L., Kahri M., Stevanovic M., Sams M.et al. (2015). Sharing the emotional load: Recipient affiliation calms down the storyteller. Soc. Psych. Q.78, 301–323. 10.1177/0190272515611054

Peräkylä A., Voutilainen L., Lehtinen Wuolio M. (2022). From engagement to disengagement in a psychiatric assessment process. Symbolic Inter.45, 257–296. 10.1002/symb.574

Pomerantz A. (1986). Extreme case formulations: A way of legitimizing claims. Hum. Stud. 9, 219–230. 10.1007/BF00148128

Schegloff E. A. (2005). On complainability. Soc. Probl. 52, 449–476. 10.1525/sp.2005.52.4.449

Shedler J., Westen D. (2007). The Shedler-Westen Assessment Procedure (SWAP): Making personality diagnosis clinically meaningful. JPA. 89, 41–55. 10.1080/00223890701357092

Soloff P. H. (2018). Emotional regulation and emotional processing, in Handbook of Personality Disorders: Theory, Research, and Treatment, ed. LivesleyW. J.LarstoneR. (New York, NY: The Guilford Press) 271–282.

Tschacher W., Meier D. (2019). Physiological synchrony in psychotherapy sessions. Psychother. Res. 30, 558–573. 10.1080/10503307.2019.1612114

Wilkinson R., Bouchard J., Gonzalez Temer V., Kamunen A., Katila J., Munhoz Xavier C. C.et al. (2023). Participation within multiparty conversation: Responses to indirect complaints about a co-present participant, in Body, Participation and the Self: New Perspectives on Goffman in Language and Interaction, ed. MondadaL.PeräkyläA.London: Routledge.

Tradução não oficial em português de O paradoxo do desengajamento: manifestações corporais de desatenção na terapia de casal, de Anssi Peräkylä, Bartłomiej Taurogiński, Karolina Dejko-Wańczyk, Barbara Józefik, Mariusz Furgał, Feliks Matusiak e Bernadetta Janusz, Frontiers in Communication, vol. 8, art. 1066475 (2023), doi: 10.3389/fcomm.2023.1066475, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (trechos de transcrição reproduzidos em imagem, em polonês e em inglês). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “The paradox of disengagement: Bodily displays of inattention in couple therapy”, publicado em Frontiers in Communication (2023) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

Ler o artigo original

Como citar este artigo

Peräkylä, A., Taurogiński, B., Dejko-Wańczyk, K., Józefik, B., Furgał, M., Matusiak, F., et Janusz, B. (2023). O paradoxo do desengajamento: manifestações corporais de desatenção na terapia de casal (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/o-paradoxo-do-desengajamento-manifestacoes-corporais-de-desatencao-na-terapia-de-casal (Obra original publicada em 2023 em Frontiers in Communication, 8, 1066475 (2023); republicada em 2023 por Frontiers in Communication, https://www.frontiersin.org/journals/communication/articles/10.3389/fcomm.2023.1066475/full)

Carrinho

Seu carrinho está vazio.