BMC Health Services Research · Psiquiatria
Envolver a família e visar à recuperação: dois princípios que as políticas de saúde mental promovem, mas raramente juntos. Onze profissionais da Austrália rural contam aqui como os articulam. Têm dificuldade de dar uma definição comum, mas descrevem práticas concretas, freadas pela lógica médica dos cuidados agudos, pela falta de tempo, pelo estigma e pela confidencialidade.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A prática centrada na família em um referencial de recuperação: perspectivas qualitativas das equipes de saúde mental, de Bernadette Ward, Andrea Reupert, F. McCormick, Susan Waller e S. Kidd, publicado na BMC Health Services Research (BioMed Central) (2017), doi: 10.1186/s12913-017-2146-y, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. A Tabela 1, mal estruturada na fonte, é apresentada em forma de lista; o arquivo adicional (roteiro de entrevista) não foi reproduzido; as declarações do fim do artigo foram reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
Os percursos de recuperação são relacionais e bidirecionais: as famílias influenciam o percurso de recuperação de uma pessoa, e esse percurso tem efeitos sobre a família.
Bernadette Ward, Andrea Reupert, F. McCormick, Susan Waller e S. Kidd
Resumo
Contexto. A prática centrada na família (family-focused practice, FFP) é uma abordagem eficaz para apoiar pessoas com transtorno mental. A “recuperação” (recovery) também ocupa um lugar central nos cuidados contemporâneos em saúde mental. Faltam, porém, evidências sobre como os dois conceitos se relacionam e são postos em prática. O objetivo deste estudo foi explorar a compreensão e as práticas de FFP em um referencial de recuperação entre profissionais da linha de frente.
Métodos. Uma amostragem intencional e em bola de neve foi usada para recrutar 11 profissionais de saúde mental da Austrália rural e realizar entrevistas qualitativas com esse grupo. A amostragem e a coleta de dados, feitas simultaneamente, foram orientadas por uma análise temática e prosseguiram até a saturação dos dados.
Resultados. As pessoas entrevistadas tiveram dificuldade de formular sua compreensão da FFP em um referencial de recuperação. Ainda assim, conseguiram descrever práticas que encarnavam uma recuperação centrada na família. Entre as barreiras a essas práticas estavam os modelos médicos de cuidado, em que muitas vezes há escassez de pessoal qualificado e alta demanda de cuidados. O estigma (autoestigma e estigma vindo de outras pessoas) e a confidencialidade também foram apontados como barreiras ao envolvimento dos familiares em cuidados orientados para a recuperação.
Conclusões. O cuidado de recuperação centrado na família é uma prioridade em muitos países de alta renda. É necessário um referencial de recuperação centrado na família para ajudar quem planeja os serviços, as equipes, os familiares e as pessoas com necessidades em saúde mental, e para garantir que esse cuidado esteja inscrito nas diretrizes de prática.
Palavras-chave: prática centrada na família; recuperação; cuidados de saúde
Em nível internacional, os transtornos mentais representam uma proporção significativa dos anos de vida ajustados por incapacidade (DALYs) [1]. Vinte por cento da população relatam ter tido algum transtorno mental nos 12 meses anteriores, e 29% tiveram um transtorno mental em algum momento da vida [2]. O apoio da família é decisivo no percurso de recuperação de uma pessoa [3]. Os familiares costumam estar envolvidos no cuidado e no apoio às pessoas com questões de saúde mental; o transtorno mental, portanto, afeta mais do que apenas o indivíduo. A expressão “prática centrada na família” (FFP) é comumente usada como sinônimo de “orientada para a família”, “sensível à família” e “focada na família”, mas, de modo geral, designa uma abordagem que reconhece as necessidades das pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e de sua família e responde a elas [4]. Uma revisão integrativa recente fez o campo avançar ao identificar várias práticas essenciais do trabalho com famílias, entre elas o planejamento do cuidado, o apoio emocional e social ativo e a psicoeducação dos familiares dentro de um sistema de cuidado coordenado [5].
Cada vez mais, governos da Europa, da Austrália e da América do Norte defendem um modelo de prática centrado na família no trabalho com pessoas com questões de saúde mental. No Canadá, por exemplo, o documento governamental Rising to the Challenge defende o reconhecimento e o apoio às famílias na recuperação e no bem-estar das pessoas com transtorno mental [6]. Além disso, há um sólido conjunto de evidências a favor da FFP, que se mostrou eficaz tanto para a pessoa com o transtorno quanto para sua família. As intervenções centradas na família resultaram em menos recaídas e na redução dos sintomas de humor em pessoas com transtorno bipolar [7], enquanto reconhecer e apoiar as pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental no contexto familiar resultou na redução da sobrecarga subjetiva do cuidado para a família e no aumento de seu nível de autocuidado e de seu funcionamento emocional nos papéis [4]. A eficácia e a efetividade de muitas abordagens baseadas na família mostraram melhorar o prognóstico e beneficiar os cuidadores, reduzindo o estresse associado ao papel de cuidar [8].
Nos últimos anos, houve um investimento substancial na capacitação em FFP da força de trabalho em saúde mental dos países de alta renda. Ao mesmo tempo, a FFP varia entre grupos profissionais, entre países e entre diferentes contextos de cuidado dentro de um mesmo país. A enfermagem psiquiátrica pratica menos a FFP do que o serviço social e a psicologia, constatação atribuída a paradigmas filosóficos diferentes [9]. A enfermagem psiquiátrica australiana pratica mais a FFP do que a irlandesa, talvez porque foram introduzidos na Austrália padrões e instrumentos para medir a efetividade das iniciativas e intervenções em saúde mental centradas na família [10-12]. Outros estudos sustentam que os serviços de saúde mental para adultos são menos centrados na família do que outras organizações sediadas na comunidade [9, 13], possivelmente por causa da orientação médica para o “paciente” dos serviços de saúde mental para adultos.
Paralelamente, o conceito de recuperação é outro tema forte que emerge nos serviços de saúde mental de muitas partes do mundo desenvolvido. Anthony (1993, p. 13) descreve a recuperação como um
“… processo profundamente pessoal e único de mudança das próprias atitudes, valores, sentimentos, objetivos, habilidades e papéis. É uma maneira de viver uma vida satisfatória, esperançosa e contributiva, mesmo com as limitações causadas pela doença. A recuperação envolve o desenvolvimento de um novo sentido e de um novo propósito na vida, à medida que se cresce para além dos efeitos catastróficos do transtorno mental.”
A recuperação costuma se concentrar no percurso do indivíduo. Há, porém, uma série de outros fatores que influenciam a recuperação, e eles são mediados pela conexão [14], que geralmente inclui os familiares. Os percursos de recuperação são, portanto, relacionais e bidirecionais: as famílias influenciam o percurso de recuperação de uma pessoa, e esse percurso tem efeitos sobre a família. Apesar disso, as famílias costumam ser representadas na prática em saúde mental “como cuidadoras sobrecarregadas, como causadoras do transtorno mental de um de seus membros, como agentes que mantêm o transtorno ou como contribuintes para a recaída” [15]. Além disso, no que diz respeito às relações familiares, as pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental costumam ser representadas como: (a) receptoras passivas do apoio familiar, (b) cuidando ativamente de pais idosos e de filhos e/ou (c) participando de relações familiares recíprocas, de dar e receber [16]. A equipe de Reupert et al. (2015) conclui que as interações e os papéis familiares podem tanto favorecer quanto dificultar a recuperação das pessoas com transtorno mental. Em um paradigma de recuperação, o percurso de recuperação da própria família precisa ser reconhecido, paralelamente ao das pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental, e essas necessidades mudam com o tempo [15]. Por exemplo, quando uma pessoa está mal, as relações familiares podem ser unilaterais e marcadas pela dependência, enquanto, na fase de reconstrução, as famílias precisam “soltar” e passar do papel de cuidadoras ao de apoio [16].
Em nível internacional, a ênfase na FFP e, igualmente, na recuperação nas políticas dos serviços de saúde mental vem aumentando [17]. Embora muito trabalho conceitual tenha sido feito separadamente sobre a FFP e sobre a recuperação, a maneira como os dois conceitos se entrelaçam e se relacionam ainda não está clara. Embora muitos serviços de saúde mental adotem uma filosofia de FFP, faltam evidências sobre como a FFP se traduz na prática, especialmente em um referencial de recuperação. A definição e a implementação da FFP em um referencial de recuperação são vagas e pouco compreendidas. É necessário um referencial conceitual solidamente desenvolvido para uma FFP orientada para a recuperação, fundamentado na experiência vivida das pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e das famílias, para estabelecer padrões de prática e orientar o desenvolvimento profissional.
Para preencher essa lacuna, realizou-se um estudo para: (a) explorar a compreensão de profissionais de saúde mental sobre a FFP orientada para a recuperação, (b) descrever as práticas desses profissionais que encarnam conceitos centrados na família e orientados para a recuperação e (c) identificar as barreiras e os facilitadores de uma orientação para a recuperação no trabalho dentro de uma abordagem centrada na família.
Um estudo qualitativo, orientado por um grupo diretor formado por especialistas da prática, foi realizado para explorar a compreensão e as práticas de profissionais de saúde mental em torno da prática centrada na família e orientada para a recuperação. O contexto foi uma área de abrangência rural de 50.000 km2, que atende 230.000 pessoas nos estados de Victoria e de Nova Gales do Sul, na Austrália [18]. Em toda a região, os níveis de sofrimento psicológico e de incapacidade grave e profunda são mais altos do que em localidades comparáveis [18, 19].
As perguntas de pesquisa e a literatura atual [11, 20, 21] orientaram a elaboração do roteiro de entrevista. As perguntas semiestruturadas convidavam as pessoas entrevistadas a descrever sua compreensão da FFP em um referencial de recuperação e como esses conceitos poderiam se encarnar na prática (arquivo adicional 1). As perguntas foram pré-testadas e modificadas após os comentários do grupo diretor, formado por profissionais da prática e da gestão. Uma abordagem intencional e em bola de neve foi usada para recrutar profissionais com “riqueza de informação” [22] de diversos contextos de serviços de saúde mental (por exemplo, internação aguda, serviços comunitários, gestão de casos) que trabalham com pessoas (e/ou suas famílias) com transtorno mental grave e persistente e necessidades complexas. Buscamos perfis variados (por exemplo, serviço social, enfermagem, assistência social) e diferentes níveis de experiência.
Onze profissionais de saúde mental participaram das entrevistas. Oito atuavam em pelo menos metade da região geográfica. Conforme a Tabela 1, a formação de origem, o local de trabalho e o tempo de experiência no trabalho com famílias variavam. Por razões de confidencialidade, não são fornecidos detalhes específicos sobre a função e o local de cada pessoa. Não há regras específicas para determinar o tamanho adequado da amostra em pesquisa qualitativa. A coleta de dados costuma prosseguir até que se atinja a saturação [23]. Outras pesquisas comparáveis, baseadas em entrevistas com profissionais de saúde mental nessa área, envolveram seis profissionais [24], quatorze profissionais de enfermagem [25] e nove membros da equipe de internação [26]; tamanhos semelhantes às onze pessoas deste estudo.
Tabela 1 — Características das pessoas participantes
A pessoa que assina em primeiro lugar realizou toda a coleta de dados, que prosseguiu até a saturação temática e de informação. As entrevistas duraram de 40 a 90 minutos, com média de 57 minutos. Dada a distribuição geográfica das pessoas participantes, as entrevistas foram feitas presencialmente ou por telefone. Foram gravadas em áudio e transcritas literalmente. Cada participante recebeu uma cópia de sua transcrição para checagem; uma pessoa fez pequenas alterações. Os dados foram armazenados e gerenciados no NVivo [27]. Dois membros da equipe (BW e AR) leram, releram e codificaram de forma independente as transcrições e as notas de campo. Uma codificação aberta preliminar foi usada para extrair temas dos dados e orientar a continuidade da coleta [23]. Memorandos, notas de campo e representações visuais dos dados foram usados para facilitar as discussões da equipe e a revisão dos temas emergentes, tanto dentro dos contextos e das disciplinas das pessoas participantes quanto entre eles. As divergências foram registradas quando identificadas [23, 28].
Conforme a Figura 1, temas-chave surgiram em relação à compreensão e à síntese da FFP em um referencial de recuperação, às práticas e às barreiras e facilitadores correspondentes. Cada tema e subtema é descrito a seguir e ilustrado com falas das pessoas participantes.

De modo geral, as pessoas participantes tiveram dificuldade de formular o que entendiam por FFP em um referencial de recuperação. Ainda assim, havia consciência da importância da família para a pessoa em questão, embora a compreensão da recuperação fosse limitada:
Todo mundo sabe… que, se você não envolve a família de forma significativa, a recuperação das pessoas [fica] muito limitada. (enfermagem)
e
A gente se certifica de que a pessoa e a família sejam o que a gente mantém, digamos, no centro o tempo todo, e de que, se a gente está realmente olhando para a recuperação, a gente olha para como ajudar a unidade familiar a funcionar melhor junta. (serviço social)
Oferecer um referencial ou uma definição que abarcasse os dois conceitos se mostrou difícil, e a maioria tendia a se concentrar apenas no que se entende por recuperação. A recuperação era, por exemplo, definida em termos de resultados:
Recuperação no sentido de ficar o melhor possível… para, sabe, conseguir que a sua vida seja de algum modo restabelecida ou volte aos trilhos. (terapia ocupacional)
Por outro lado, outras pessoas viam a recuperação como um percurso, mas tendiam a falar dele como um percurso individual de identidade:
Quem é que você quer ser, quem é você agora que essa doença entrou na sua vida desse jeito; como você quer se situar em relação a essa doença, ela não precisa definir você. (serviço social)
A esperança também era um elemento-chave das definições de recuperação dadas pelas pessoas participantes, mas, novamente, os familiares e as relações familiares não apareciam:
Se você não tem esperança e não compartilha com eles a esperança de que podem fazer diferente se quiserem, então acho que nós temos a obrigação, [como] terapeutas, de ajudar as pessoas a tentar se agarrar à esperança em algum lugar. (serviço social)
Havia algum reconhecimento, ainda que limitado, das necessidades da família e de seu próprio percurso de recuperação:
Então os familiares também terem acesso a trabalhar com alguém, para olhar a recuperação deles, pela provação que eles também passaram. (assistência social)
Apesar da dificuldade de formular uma compreensão sintetizada da recuperação e da FFP, as pessoas participantes conseguiram detalhar práticas específicas que, para elas, encarnavam a recuperação centrada na família. Essas práticas se dividem em dois subtemas: (i) incentivar e estimular a família a apoiar o familiar com o transtorno e (ii) apoiar a família e atender às suas próprias necessidades.
Incentivar a família a apoiar seu familiar
Muitas pessoas participantes entendiam a recuperação centrada na família como o incentivo para que os familiares apoiassem seu familiar de maneira muito prática, por exemplo:
… seja administrar os medicamentos, ou observar os efeitos colaterais para eles, ou o cuidado direto… é, a parte mais prática, é levar a pessoa às consultas, seja com a gente ou com um clínico geral, buscar os medicamentos na farmácia ou trazer os medicamentos junto com o paciente quando ele vem; é, provavelmente é isso a maior parte do nosso papel com as famílias, e é, provavelmente é isso. (enfermagem)
Esse apoio também envolvia uma atenção às dinâmicas familiares:
… se a gente está realmente olhando para a recuperação, a gente olha para como ajudar a unidade familiar a funcionar melhor junta. (serviço social)
A atenção à família como sistema de apoio também tinha um efeito recíproco, ao incentivar a pessoa com necessidades de cuidado em saúde mental a considerar sua família e o papel dela na recuperação, pedindo ajuda ou simplesmente refletindo sobre como poderia interagir com os familiares:
… mesmo que você não trabalhe diretamente com outros familiares na sala, tem que haver conversas sobre a família e sobre como a pessoa que tem a doença lida com a família e como a família lida com ela. (psicologia)
Atender às necessidades dos familiares
Em primeiro lugar, atender às necessidades dos familiares significava reconhecer a presença da família e o papel que ela desempenhava na recuperação da pessoa. Depois de identificar essas relações familiares, as pessoas participantes descreveram várias maneiras de atender às necessidades das famílias, entre elas a psicoeducação:
Eu faço bastante… educação com as famílias quando tenho um cliente que teve dificuldade de expressar para a família como a vida é para ele. Então às vezes eu convido a família ou o cuidador, muitas vezes um dos pais ou um parente próximo, para explorar um pouco com eles, com o cliente na sala, como é viver junto. (enfermagem)
A importância de dar às pessoas condições de conduzir, na própria família, as conversas sobre sua saúde mental foi uma prática descrita por outra pessoa participante como recuperação orientada para a família.
Uma mãe veio conversar comigo várias vezes sobre uma conversa que ela pode ter tido ou sobre coisas que ela pode ter dito a uma criança e que não eram adequadas para a idade dessa criança. Então, obviamente, a gente retomava o que ela tinha dito, como ela poderia ter dito de outro jeito. (apoio comunitário)
Outra estratégia de recuperação orientada para a família era promover a conexão familiar e incentivar interações familiares positivas.
Fazer coisas juntos como família; então, quando a gente olha o plano de ativação comportamental dela, a gente incluiu tempo, tempo significativo, com os filhos, e estamos tentando conseguir recursos para ajudá-los a comprar bicicletas para que eles possam pedalar juntos. (serviço social)
O apoio aos familiares no plano emocional também foi mencionado:
… meu papel é [dizer]: “tá bom, agora, quando você estiver frustrado, sabe, lembra só que, sabe, a sua mãe tem essa doença e às vezes é difícil para ela lembrar das coisas e, sabe, ela fica muito cansada e precisa dormir. Quando você se sentir assim, sabe, que ferramentas a gente pode, o que você pode aprender para lidar com isso”. (apoio comunitário)
As pessoas participantes identificaram uma série de barreiras e facilitadores das práticas de recuperação centradas na família, entre eles as relações familiares, o contexto do serviço, o quadro de pessoal, o estigma e a linguagem, e a confidencialidade. Esses elementos nem sempre eram mutuamente excludentes.
Embora se reconhecesse que o apoio familiar podia influenciar positivamente a recuperação de um familiar, a família também podia ter um efeito adverso sobre a pessoa.
… Se parte das dificuldades que eles estão vivendo está ligada à família, então é difícil trabalhar com a família… se há problemas de relacionamento com a família e isso está afetando o humor, o estado mental atual e outros riscos, então vai ser difícil chegar à família e dizer que essa pessoa está se sentindo assim porque disse que a relação com vocês não é boa. (enfermagem)
O contexto do serviço, especialmente a localização de uma organização, podia favorecer um serviço de recuperação orientado para a família:
Eu estive num espaço ideal, onde um consultório médico é um consultório de medicina de família. Então as famílias entram juntas na sala de qualquer jeito, porque estão meio acostumadas, enquanto em outro serviço em que eu trabalho é sempre por convite. (enfermagem)
e
Lá eu divido o espaço com os serviços de saúde comunitária. As pessoas ficam muito mais à vontade para vir à sessão com a mãe, com o pai, com o parceiro ou a parceira, com os filhos, enquanto aqui, acho que, como é visto como muito mais médico e muito mais clínico, é bem raro. (serviço social)
Por outro lado, outros contextos, especialmente os situados em hospitais de cuidados agudos, não favoreciam esse trabalho:
Do jeito que a organização está no momento, você tem, você tem que fazer 2 horas de ronda, então tem 2 horas durante o dia em que você vai fazer isso, 2 horas em que você fica na UTI (unidade de alta necessidade) então é aí que você tem 4 pacientes sob sua responsabilidade… e quando eles têm familiares… [você] na verdade não tem muito tempo…
A falta de pessoal, e de pessoal capacitado nessa área, eram outras barreiras. Do mesmo modo, para muitas pessoas, outra barreira era o tempo para trabalhar com a família de maneira orientada para a recuperação.
Não tem como a gente fazer uma avaliação adequada… conversar com eles sobre a doença, conversar com eles sobre o plano de recuperação, envolver a família de forma significativa. O nosso [formulário de] avaliação abrangente tem 14 páginas e, em tudo isso, tem um campo… de alguns centímetros para a família. (serviço social)
O autoestigma e a vergonha dissuadiam algumas pessoas de envolver a família em seu percurso de recuperação:
Muitas vezes há uma resistência real por parte dos usuários a que a família seja envolvida de forma significativa, porque eles têm tanta vergonha do diagnóstico e tanto medo… (assistência social)
Da mesma forma, o poder da linguagem e o estigma a ela associado nas relações familiares eram uma barreira considerável ao trabalho com as famílias de maneira orientada para a recuperação, como mostra este caso específico:
Ele era agricultor. Ele se sentiu tão ofendido, humilhado, ele já estava muito deprimido e envergonhado com o que tinha acontecido com a fazenda, e eles estavam à beira da ruína financeira, e aí [ter de] ouvir a esposa ser chamada de cuidadora dele… aquilo se rompeu de forma irremediável. (assistência social)
O estigma associado a ser “cuidador” de alguém com uma questão de saúde mental foi levantado de novo neste caso, a propósito de um evento público:
Pouquíssimos deles [cuidadores] apareceram porque… [eles] não queriam estar em público e ser conhecidos como cuidadores de uma pessoa com doença mental. E alguns não gostam de ser fotografados e de sair no jornal local. (assistência social)
Por fim, a confidencialidade era problemática no trabalho com as pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e suas famílias:
Estou sempre tranquilizando as pessoas de uma família: se eu falar com outro familiar, vou dar a elas um resumo exato do que penso compartilhar, para que elas não achem que vou sair dos limites do que é aceitável para elas. (enfermagem)
Este estudo traz novas compreensões sobre o entendimento que profissionais de saúde mental têm da FFP em um referencial de recuperação e sobre as práticas que a encarnam. Nossos resultados confirmam que muitas equipes de saúde mental têm uma compreensão clara da FFP e, em menor grau, da recuperação [29]. A maioria, porém, teve dificuldade de oferecer uma definição fundida ou sintetizada desses conceitos. Apesar disso, várias pessoas conseguiram descrever práticas que demonstravam uma recuperação centrada na família encarnada nos atos. Nossos achados sugerem que as equipes têm consciência da relação entrelaçada entre as pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e seus familiares e do impacto que ela tem sobre o bem-estar mental de todos os membros da família [30].
Para as pessoas participantes, a recuperação centrada na família se operacionalizava de duas maneiras: primeiro, apoiando a família para que ajudasse melhor seu familiar na recuperação; segundo, atendendo às necessidades da própria família. No primeiro caso, o apoio prático que as famílias oferecem e, de fato, a dependência dos profissionais em relação a esse apoio, especialmente no que diz respeito à adesão à medicação, já foram descritos em outros estudos [31]. Ao mesmo tempo, as pessoas participantes do presente estudo destacaram a importância de promover dinâmicas familiares positivas, tanto no trabalho com as pessoas com questões de saúde mental quanto no trabalho com os familiares. Em comparação, Matos e Sousa (2004) constataram que a FFP envolvia tipicamente apoio instrumental em áreas como finanças, alimentação e medicamentos, e não o fortalecimento das relações familiares [32]. Esse achado é, portanto, um avanço importante, dada a importância do ambiente familiar na recuperação de uma pessoa.
Uma participante descreveu como incentivava e orientava uma pessoa a falar com a família, inclusive com os filhos, sobre suas questões de saúde mental. Embora a psicoeducação familiar seja uma prática estabelecida há muito tempo, ela costuma ser oferecida à família por um profissional ou por outro meio (como um DVD ou pela internet) [33]. Dar a uma pessoa condições de assumir o controle do processo psicoeducativo dentro da própria família está bem alinhado a uma abordagem de recuperação. O processo pelo qual as famílias dão sentido à doença de um familiar é importante, pois permite o apoio mútuo e a resolução construtiva de problemas [34] e, segundo essa participante, era uma prática importante associada a uma abordagem de recuperação centrada na família.
O contexto parecia ser um fator na compreensão e na oferta da prática de recuperação centrada na família, embora isso parecesse mais ligado ao tipo de organização (cuidados agudos ou comunitários) do que ao contexto rural. Quem trabalhava em serviços públicos de cuidados agudos, ou tinha vínculo com eles, se concentrava mais na recuperação pessoal e tinha menos propensão a compreender e descrever uma recuperação relacional do que quem tinha experiência atual ou passada em funções dedicadas à FFP. Nos cuidados agudos, as equipes costumam estar orientadas para uma psiquiatria biomédica, em que o tratamento se concentra nos sintomas, e não no contexto do cuidado da pessoa [35]. Nesses contextos, a cultura e a linguagem costumam se concentrar na avaliação de risco em saúde mental e na alta, porque são tarefas obrigatórias e urgentes [36]. Além disso, muitas pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental, assim como membros das equipes, viveram traumas [37, 38]. Como elemento da prática orientada para a recuperação, a prática informada pelo trauma pode ser mal compreendida, especialmente nos cuidados agudos [37]. Embora indicadores-chave de desempenho possam ser problemáticos [39], eles não existem para a prática de recuperação centrada na família. As equipes de cuidados agudos talvez ofereçam, sim, cuidados de recuperação centrados na família, mas é provável que esses cuidados estejam embutidos e integrados às tarefas médicas, de forma incidental, e por isso não sejam documentados nem identificados como prioridade.
Nos contextos de cuidados agudos, lideranças com compreensão aprofundada da FFP orientada para a recuperação poderiam servir de modelo e defender a capacitação na prática de recuperação centrada na família, para garantir que o conhecimento da família seja incluído na elaboração dos planos de cuidado [40]. Embora muitas das barreiras sociais (por exemplo, a história familiar) ao cuidado de recuperação centrado na família não sejam facilmente modificáveis, os fatores do sistema de saúde, como a falta de capacitação e de ênfase na prática de recuperação centrada na família nos serviços de cuidados agudos e no planejamento da alta, podem ser enfrentados. Reorientar esses serviços para um modelo não médico de recuperação, conduzido pelas pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental, é possível, mas exige o apoio dos serviços de saúde.
Muitas das pessoas que participaram deste estudo não conseguiram formular um referencial fundamentado para a recuperação centrada na família, o que talvez reflita o estado mais geral da pesquisa nessa área. Embora os referenciais possam ajudar profissionais a pensar de forma crítica e ampla sobre as intervenções oferecidas e as avaliações aplicadas [41], não é raro que profissionais de saúde mental tenham dificuldade de descrever a base teórica (ou outra) de seu trabalho [42]. Ainda assim, um referencial de recuperação centrado na família é importante, pois poderia ser usado para compreender os problemas de saúde mental no contexto das famílias. Esse referencial também poderia orientar as interações das organizações e dos profissionais com as pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e suas famílias, bem como sua resposta geral ao transtorno mental. Por isso, é imprescindível que trabalhos futuros sejam realizados para situar e posicionar a recuperação centrada na família nas políticas e nas diretrizes de prática.
Nosso estudo teve limitações. Restringiu-se a uma única área geográfica rural, e profissionais de outros contextos podem ter experiências diferentes. No entanto, a localidade é típica de muitas áreas rurais e remotas, onde há altos níveis de estigma (ou maior sensibilidade à privacidade) em torno do transtorno mental, acesso precário aos serviços de saúde geral e de saúde mental e níveis mais altos de transtorno mental [43, 44]. A literatura sobre FFP e recuperação cresce rapidamente [5, 29], mas nossa compreensão de como integrar essas duas filosofias complexas na oferta de serviços de saúde mental, e a pesquisa sobre isso, ainda são escassas. São necessárias mais pesquisas para teorizar a FFP dentro de referenciais de recuperação e explorar como esses conceitos podem ser incorporados em diversos contextos de prática.
Embora o presente estudo tenha confirmado noções anteriores da prática de recuperação centrada na família voltada às necessidades emocionais e práticas das famílias [45], nossa pesquisa trouxe novas compreensões sobre o entendimento que profissionais têm da recuperação centrada na família. Entre os achados importantes que fazem o campo avançar está o fato de que as práticas ligadas à recuperação centrada na família envolvem promover dinâmicas familiares positivas e dar à pessoa condições de conduzir conversas, dentro da família, sobre suas questões de saúde mental. Esses achados têm implicações para a formação, por exemplo, capacitar profissionais para apoiar as pessoas a conduzir conversas sobre sua saúde mental na família. É importante notar, porém, que as pessoas participantes deste estudo não consideraram os percursos de recuperação dos próprios familiares, no que diz respeito a manter a esperança, restabelecer vínculos e superar o trauma secundário (como já teorizado) [15]. Essas lacunas específicas sugerem uma necessidade de formação sobre como profissionais poderiam apoiar o percurso de recuperação da própria família.
A prática de recuperação centrada na família é dinâmica [5]. Ela precisa responder à natureza mutável do percurso de recuperação das pessoas com necessidades de cuidado em saúde mental e de seus familiares. Esse é um desafio contínuo para os serviços de saúde, e a efetividade de qualquer intervenção de recuperação centrada na família deveria ser acompanhada com instrumentos validados que permitam medir a mudança. A implementação das reformas nacionais do sistema australiano de cuidados em saúde mental [46] precisa priorizar a prática de recuperação centrada na família dentro dos serviços de cuidados agudos e de saúde comunitária e entre eles.
Complexe Systémique: a reter
O interesse do estudo está em trazer à luz um ponto cego: as equipes sabem que a família importa, mas ainda pensam a recuperação como um percurso individual. A família aparece sobretudo como recurso para o paciente (medicamentos, consultas, transporte), mais raramente como um sistema com seu próprio percurso de recuperação, suas provações e sua necessidade de esperança. Duas práticas merecem a atenção da clínica sistêmica: apoiar as dinâmicas familiares, e não só a ajuda material, e ajudar a própria pessoa a falar de seu transtorno com os familiares, inclusive com os filhos, em vez de fazer a psicoeducação no lugar dela. Os obstáculos apontados são tanto relacionais quanto institucionais: o campo “família” de poucos centímetros em um formulário de 14 páginas, mas também a palavra “cuidadora”, que humilha um agricultor já deprimido. Os limites estão em uma amostra pequena de uma única região rural e em entrevistas que não dão voz às famílias. Para ler junto com o artigo sobre o que facilita ou dificulta o foco na família e com o artigo sobre as reuniões de rede orientadas para a recuperação.
Notas do original
Agradecimentos. A equipe agradece às pessoas que participaram do estudo pelo tempo e pela expertise.
Financiamento. Programa Partners in Recovery.
Contribuições. AR, BW e FMcC conceberam o estudo; toda a equipe participou de seu desenho e coordenação; AR e BW realizaram a análise qualitativa; toda a equipe leu e aprovou o manuscrito final.
Conflitos de interesse. A equipe declara não haver conflitos de interesse.
Consentimento para publicação. Foi obtido consentimento por escrito para publicar as citações anonimizadas.
Aprovação ética e consentimento para participar. O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Bendigo Health e da Universidade Monash. As pessoas participantes deram consentimento por escrito.
Nota da editora. A Springer Nature permanece neutra em relação a reivindicações jurisdicionais em mapas publicados e afiliações institucionais.
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Tradução não oficial em português de A prática centrada na família em um referencial de recuperação: perspectivas qualitativas das equipes de saúde mental, de Bernadette Ward, Andrea Reupert, F. McCormick, Susan Waller e S. Kidd, BMC Health Services Research, vol. 17, article 234 (2017), doi: 10.1186/s12913-017-2146-y, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabela apresentada em lista). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family-focused practice within a recovery framework: practitioners’ qualitative perspectives”, publicado em BMC Health Services Research (2017) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Ward, B., Reupert, A., McCormick, F., Waller, S., et Kidd, S. (2017). A prática centrada na família em um referencial de recuperação: perspectivas qualitativas das equipes de saúde mental (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-pratica-centrada-na-familia-em-um-referencial-de-recuperacao-perspectivas-qualitativas (Obra original publicada em 2017 em BMC Health Services Research, 17, 234 (2017); republicada em 2017 por BMC Health Services Research, https://bmchealthservres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12913-017-2146-y)
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