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Rehabilitation Counseling Bulletin · Terapia familiar

A terapia familiar como intervenção para adultos com afasia e outras deficiências de comunicação após lesão encefálica adquirida: uma revisão de escopo

Uma lesão encefálica abala toda a família, ainda mais quando priva um de seus membros de parte da fala. Jessica Henihan, Rebecca Henihan e Caroline Jagoe mapearam 24 estudos de terapia familiar após lesão encefálica adquirida, com a colaboração de uma pessoa da psicologia que vive com afasia. Constatação: metade dos estudos exclui, muitas vezes sem dizer, as pessoas com deficiência de comunicação, e a fonoaudiologia quase nunca participa.

Autores Jessica Henihan (Universidade de Dublin, Irlanda); Rebecca Henihan (pesquisa independente, Dublin, Irlanda); Caroline Jagoe (Trinity College Dublin, Universidade de Dublin, Irlanda; Universidade do Witwatersrand, África do Sul)Primeira publicação Rehabilitation Counseling Bulletin, 21 de março de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A terapia familiar como intervenção para adultos com afasia e outras deficiências de comunicação após lesão encefálica adquirida: uma revisão de escopo, de Jessica Henihan, Rebecca Henihan e Caroline Jagoe, publicado na Rehabilitation Counseling Bulletin (SAGE) (2025), doi: 10.1177/00343552241236859, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As tabelas são apresentadas em forma de listas (as estratégias de busca da Tabela 1 permanecem em inglês); o apêndice que descreve os 24 estudos não foi reproduzido; as declarações de fim de artigo estão reunidas nas notas. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

As famílias de pessoas com deficiência de comunicação têm direito à mesma terapia de alta qualidade que qualquer outra família.

Jessica Henihan, Rebecca Henihan e Caroline Jagoe

Resumo

A lesão encefálica adquirida (LEA) afeta toda a unidade familiar, alterando profundamente os papéis e as relações familiares, e as deficiências de comunicação associadas à LEA agravam ainda mais essas dificuldades. A terapia familiar é oferecida em situações em que os papéis familiares foram desestruturados, mas a pesquisa sobre a aplicação da terapia familiar a famílias afetadas pela LEA ainda não foi sintetizada. Este estudo mapeia sistematicamente a pesquisa sobre o uso da terapia familiar para pessoas com LEA, identificando em que medida as pessoas com deficiência de comunicação (PDC) estão incluídas na base de evidências. Foi realizada uma revisão de escopo da pesquisa primária, por meio de uma busca sistemática em cinco bases de dados acadêmicas multidisciplinares. Um processo de consulta, com a participação de uma pessoa com afasia, acompanhou todo o processo de pesquisa. Vinte e quatro estudos foram incluídos na revisão final, e quatro categorias de intervenções foram identificadas. Doze estudos excluíram PDC, 10 possivelmente por causa das exigências de comunicação do estudo. Doze estudos incluíram PDC, cinco dos quais contaram com profissionais de fonoaudiologia para apoiar a condução da terapia familiar. Existe uma pequena base de evidências sobre o uso da terapia familiar em uma população com LEA. No entanto, as PDC são frequentemente excluídas dessa pesquisa por causa das exigências de comunicação dos delineamentos dos estudos. São necessárias mais pesquisas para orientar intervenções adequadas às PDC.

Palavras-chave: lesão encefálica adquirida, terapia familiar, afasia, intervenções familiares, deficiências de comunicação

A lesão encefálica adquirida (LEA) afeta toda a unidade familiar, e não apenas a pessoa (Dawes et al., 2022). A LEA pode alterar profundamente os papéis e as relações familiares, com um efeito intenso sobre o bem-estar emocional, mental e social dentro do sistema familiar (McDermott e McDonnell, 2013). Essas dificuldades tendem a se agravar quando a LEA está associada a uma deficiência de comunicação. A deficiência de comunicação é definida como um comprometimento das funções da fala, da linguagem ou da cognição que afeta a capacidade de uma pessoa de compreender os outros ou de ser compreendida (adaptado do Washington Group on Disability Statistics, 2016). A comunicação é um dos componentes centrais da vida familiar, e o funcionamento familiar depende da comunicação bem-sucedida de emoções e informações. Por isso, perturbações nesse processo comunicativo afetam as interações entre familiares (Olson e Gorall, 2003).

O impacto da LEA na vida familiar

Os membros da família desempenham um papel crucial para ajudar e apoiar a pessoa querida após uma LEA. Com frequência, oferecem cuidado emocional e apoio diante dos aspectos psicossociais da LEA (Klonoff, 2014). Quando uma pessoa sofre uma LEA, a família enfrenta uma infinidade de dificuldades em cada etapa da recuperação. A lesão pode ter um efeito intenso sobre a família nuclear e a extensa e tem consequências importantes para o bem-estar emocional, mental e social dentro do sistema familiar (McDermott e McDonnell, 2013). Os membros da família podem precisar assumir novos papéis, como ajudar a pessoa com LEA a realizar as atividades diárias e oferecer apoio financeiro (Larøi, 2003). Essas mudanças são uma consideração importante, porque a família se estrutura em torno da assistência, da organização, do cuidado e da socialização de cada pessoa que a compõe (Galvin et al., 2016). Infelizmente, muitas vezes não há apoio emocional disponível para as pessoas com LEA nem para suas famílias (Larøi, 2003).

A pesquisa sobre o impacto da LEA nas famílias concentrou-se sobretudo nas pessoas cuidadoras principais. As poucas pesquisas realizadas com filhos e filhas de pais com LEA mostraram que essas crianças apresentam mais dificuldades emocionais e comportamentais. As crianças relataram sentimentos de tristeza, perda e preocupações em torno da desagregação familiar, ao mesmo tempo em que assumem responsabilidades adicionais e mais autonomia. Muitas vezes, têm dificuldade de elaborar e lidar com essas emoções (Charles et al., 2007). As famílias apontaram desigualdades nos apoios oferecidos após a LEA (Dawes et al., 2022), e as famílias afetadas enfatizaram a necessidade de apoio emocional, como grupos de apoio familiar ou terapia familiar (Bellon et al., 2015).

Como a vida familiar se baseia na comunicação, os papéis são discutidos e negociados entre os membros da família. Perturbações nesse processo comunicativo afetam as interações entre familiares (Olson e Gorall, 2003). A literatura, ainda limitada, que explora as deficiências de comunicação adquiridas e as relações familiares concentra-se na afasia. A afasia é uma deficiência de comunicação, causada principalmente por acidente vascular cerebral, que afeta a compreensão e a expressão da linguagem, o que pode repercutir nas interações, nas relações e na qualidade de vida da pessoa (Berg et al., 2022). Por exemplo, pessoas com afasia frequentemente passam por reajustes em seu papel de mãe ou de pai. O papel parental depende da comunicação entre pais e filhos (Cava et al., 2014; Levin et al., 2012; Romero-Abrio et al., 2019), e uma comunicação eficaz entre pais e filhos está associada a maior satisfação com a vida e a maior bem-estar emocional para toda a família (Levin et al., 2012). A própria natureza da deficiência de comunicação faz com que pais e mães com afasia possam ter dificuldade de reafirmar seu papel parental para apoiar os filhos, e altera a distribuição das responsabilidades parentais entre a pessoa com deficiência de comunicação (PDC) e a outra pessoa do casal (Manning et al., 2021). Dificuldades semelhantes podem surgir em outros papéis familiares, inclusive na relação conjugal (Stead e White, 2019) e na relação fraterna na idade adulta (Barrow, 2008).

As poucas pesquisas sobre papéis familiares e deficiência de comunicação destacaram a desestruturação dos papéis dentro das famílias. A terapia familiar tem potencial para trabalhar esses reajustes de papéis. No entanto, uma síntese das evidências existentes já tarda.

A terapia familiar

As terapias familiares se baseiam na teoria dos sistemas. Um sistema, no contexto da família, é um conjunto de pessoas em que cada uma tem um papel próprio, sustentado pelas interações entre elas (Smith-Acuña, 2010). Se houver uma mudança na estrutura ou nos papéis dentro da família, como o impacto de um evento traumático (neste caso, a LEA), isso pode afetar significativamente cada membro. Em resposta, o comportamento e o papel de cada pessoa podem se modificar, alterando a dinâmica familiar. Por isso, é necessária uma intervenção quando um ou mais papéis na família mudaram e desestruturaram a dinâmica familiar (Walker e Akister, 2004).

A terapia familiar pode assumir diferentes formatos, entre eles a terapia para a pessoa cuidadora principal, o aconselhamento conjugal, a terapia de uma família (para todos os seus membros) e a terapia de grupo com várias famílias presentes (Florian e Katz, 1991; Klonoff e Koberstein, 2010; Kreutzer et al., 2002; Rosenthal e Young, 1988). Tradicionalmente, a terapia familiar é conduzida sobretudo por terapeutas de família (Klonoff e Koberstein, 2010). Em alguns contextos, porém, apoiar o reajuste de papéis pode fazer parte do escopo de prática de outras profissões da saúde (Hodgson et al., 2014; Marlowe, 2011; Rolland e Walsh, 2005; Tyndall et al., 2012). A participação da fonoaudiologia na condução da terapia familiar pode ser especialmente pertinente quando um membro da família tem uma deficiência de comunicação importante.

Até hoje, não houve nenhuma síntese sistemática sobre como as intervenções de terapia familiar foram aplicadas a uma população com LEA. Além disso, não se sabe em que medida as PDC associadas à LEA foram incluídas nas intervenções de terapia familiar. Este estudo mapeia sistematicamente a pesquisa sobre terapia familiar para pessoas com LEA, identificando em que medida as PDC estão incluídas na base de evidências. A revisão foi guiada pelas seguintes perguntas de pesquisa: (a) Que evidências existem sobre o uso da terapia familiar em uma população adulta com LEA? e (b) As PDC estão incluídas na base de evidências?

Método

As perguntas de pesquisa foram abordadas por meio de uma revisão de escopo baseada no referencial de seis etapas desenvolvido por Arksey e O’Malley (2005). A amplitude das perguntas de pesquisa e o grande volume de evidências nessa área, além da grande variedade de variáveis, indicavam o uso de uma revisão de escopo. Essa metodologia permitiu à equipe de pesquisa mapear a amplitude da literatura, oferecendo uma visão geral dos principais conceitos e teorias que fundamentam uma área de pesquisa (Mays et al., 2001). Além disso, a síntese de evidências resultante de uma revisão de escopo pode orientar tanto a prática baseada em evidências quanto a prática clínica (Gough et al., 2020).

Primeiro, o referencial de seis etapas começou com a “identificação da pergunta de pesquisa”, já que as perguntas de pesquisa orientaram a forma como as estratégias de busca foram criadas. Segundo, a “identificação dos estudos relevantes” consistiu em encontrar pesquisas que respondessem adequadamente às perguntas de pesquisa. Essa etapa exigiu a identificação das principais bases de dados e a elaboração de estratégias de busca para encontrar estudos relevantes. Terceiro, a “seleção dos estudos” envolveu a definição de critérios de inclusão e exclusão que permitiram excluir as pesquisas que não respondiam às perguntas de pesquisa. A quarta etapa consistiu em “mapear os dados”, sintetizando os resultados de acordo com as informações-chave apresentadas em cada estudo. A quinta etapa, “reunir, resumir e relatar os resultados”, ofereceu ao público leitor uma visão geral narrativa dos resultados. Por fim, uma sexta etapa opcional, um “processo de consulta” que recorre a grupos de partes interessadas para trazer experiência profissional, foi adaptada e utilizada (Arksey e O’Malley, 2005). Mais detalhes sobre como essas etapas foram realizadas são descritos em cada seção abaixo.

Além disso, as diretrizes PRISMA-ScR (uma lista de verificação de 20 itens que detalha os elementos a relatar em revisões de escopo) foram consultadas e seguidas nesta pesquisa. Essas diretrizes visam garantir transparência e replicabilidade metodológicas (Tricco et al., 2018).

Processo de consulta

O processo de consulta opcional utilizado nesta pesquisa não foi o amplo grupo tradicional de partes interessadas descrito por Arksey e O’Malley (2005). Em vez disso, a consulta foi feita junto a uma pessoa copesquisadora que atua em psicologia e tem afasia após uma LEA. A inclusão de alguém com experiência profissional e vivida nessa área de pesquisa oferece a oportunidade de incorporar uma perspectiva única. Assim, esse método garante que a pesquisa seja relevante e significativa para as pessoas às quais se dirige (Hersh et al., 2021). A pessoa copesquisadora participou de todo o processo da revisão de escopo. Desde a formulação das perguntas, ofereceu uma primeira forma de consulta, servindo de interlocução e descrevendo a própria experiência de deficiência de comunicação e de mudanças de papéis em seu sistema familiar. Depois de formuladas as perguntas de pesquisa, fez a triagem de títulos e resumos e testou os formulários de extração de dados com a pessoa responsável principal pela pesquisa. Como a pessoa copesquisadora tem expertise própria nessa área, foi consultada durante a elaboração dos resultados e da discussão, para trazer uma visão única e pessoal. Por fim, foi consultada sobre direções para pesquisas futuras, para destacar as dificuldades que as PDC podem enfrentar ao acessar essas intervenções.

Identificação dos estudos relevantes

De acordo com as diretrizes PRISMA-ScR, foram elaboradas estratégias de busca para identificar evidências e artigos significativos relacionados às perguntas de pesquisa (Tricco et al., 2018). A estratégia inicial foi elaborada com o apoio de profissional de biblioteca com especialização na área e combinava palavras-chave de título e resumo com vocabulário controlado. As estratégias foram testadas e modificadas com base nos conceitos-chave das perguntas de pesquisa (por exemplo, family therapy, brain injury etc.). Para garantir que nenhum artigo centrado em diagnósticos de comunicação associados à LEA fosse perdido, os três diagnósticos mais comuns foram incluídos nas estratégias, a saber: afasia, disartria e distúrbios cognitivo-comunicativos.

As buscas foram realizadas em cinco bases de dados (PubMed, Embase, CINAHL Complete, Web of Science e PsycINFO), refletindo a natureza multidisciplinar das perguntas de pesquisa. Todos os artigos publicados foram incluídos, sem restrição de data de publicação. As estratégias de busca finais de cada base de dados são apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1 — Estratégias de busca

  • PubMed. ((“Family Therapy”[Mesh]) OR (family therap*[Title/Abstract])) AND ((“Brain Injuries” [Mesh]) OR “Aphasia” [Mesh] OR “Dysarthria” [Mesh] OR (brain injur*[Title/Abstract] OR stroke*[Title/Abstract] OR cerebrovascular accident*[Title/Abstract] OR head injur*[Title/Abstract] OR intracranial injur*[Title/Abstract] OR brain trauma*[Title/Abstract] OR brain damage*[Title/Abstract] OR concussion*[Title/Abstract] OR penetrating skull fracture*[Title/Abstract] OR aphasia*[Title/Abstract] OR dysarthria*[Title/Abstract] OR cognitive-communicat*[Title/Abstract]))
  • Embase. (“family therapy”/exp OR “family therap*”: ab, ti) AND (“brain injury”/exp OR “aphasia”/exp OR “dysarthria”/exp OR “brain injur*”: ab, ti OR stroke*:ab,ti OR “cerebrovascular accident*”: ab, ti OR “head injur*”: ab, ti OR “intracranial injur*”: ab, ti OR “brain trauma*”: ab, ti OR “brain damage*”: ab, ti OR concussion*:ab,ti OR “penetrating skull fracture*”: ab, ti OR aphasia*:ab,ti OR dysarthria*: ab, ti OR “cognitive-communicat*”: ab, ti) AND ([embase]/lim NOT [medline]/lim)
  • CINAHL Complete. ((MH “Family Therapy” OR (TI Family therap*) OR AB (Family therap*)) AND ((MH “Brain Injuries+” OR (MH “Aphasia+”) OR (MH “Dysarthria+”) OR TI (brain injur* OR stroke* OR cerebrovascular accident* OR head injur* OR intracranial injur* OR brain trauma* OR brain damage* OR concussion* OR penetrating skull fracture* OR aphasia* OR dysarthria* OR cognitive-communicat*) OR AB (brain injur* OR stroke* OR cerebrovascular accident* OR head injur* OR intracranial injur* OR brain trauma* OR brain damage* OR concussion* OR penetrating skull fracture* OR aphasia* OR dysarthria* OR cognitive-communicat*))
  • Web of Science. (TS=(“family therap*”)) AND TS=(“brain injur*” OR stroke* OR “cerebrovascular accident*” OR “head injur*” OR “intracranial injur*” OR “brain trauma*” OR “brain damage*” OR concussion* OR “penetrating skull fracture*” OR “aphasia*” OR “dysarthria*” OR “cognitive-communicat*”)
  • PsycINFO. ((DE “Family Therapy” OR DE “Conjoint Therapy” OR DE “Strategic Family Therapy” OR DE “Structural Family Therapy”) OR TI (family therap*) OR AB (family therap*)) AND ((DE “Brain Injuries” OR DE “Traumatic Brain Injury” OR DE “Brain Concussion” OR DE “Aphasia” OR DE “Dysphasia” OR DE “Dysarthria”) OR TI (brain injur* OR stroke* OR cerebrovascular accident* OR head injur* OR intracranial injur* OR brain trauma* OR brain damage* OR concussion* OR penetrating skull fracture* OR aphasia* OR dysarthria* OR cognitive-communicat*) OR AB (brain injur* OR stroke* OR cerebrovascular accident* OR head injur* OR intracranial injur* OR brain trauma* OR brain damage* OR concussion* OR penetrating skull fracture* OR aphasia* OR dysarthria* OR cognitive-communicat*))

Nota. Estratégias reproduzidas tal como foram executadas nas bases, em inglês.

Seleção dos estudos

A busca final foi concluída em 5 de outubro de 2021. Os resultados foram importados para o gerenciador de revisões sistemáticas Covidence (2021), e as duplicatas foram removidas. A triagem de títulos e resumos consistiu em ler todos os resumos e avaliar sua pertinência em relação aos critérios de inclusão e exclusão (ver Tabela 2). Para garantir a replicabilidade, 10% (n = 52) dos artigos também foram triados por uma pessoa copesquisadora. Não houve divergências.

Tabela 2 — Critérios de inclusão e exclusão da revisão de escopo

  • Critério de inclusão. Terapia orientada para a família que promova o ajustamento dentro da família ou tenha o bem-estar como desfecho. Critério de exclusão. Terapia orientada para a família que não aborde áreas de ajustamento dentro da família nem tenha o bem-estar como desfecho.
  • Critério de inclusão. Terapia familiar conduzida por profissional com formação (por exemplo, psicoterapeuta ou PSSS).
  • Critério de inclusão. Pessoas com diagnóstico de LEA com mais de 18 anos. Critério de exclusão. Pessoas com diagnóstico de LEA com menos de 18 anos.
  • Critério de inclusão. Pessoas com LEA, com ou sem deficiência de comunicação. Critério de exclusão. Qualquer pessoa com diagnóstico de doença neurológica progressiva.
  • Critério de inclusão. Pessoas identificadas como familiares de pessoas com LEA. Critério de exclusão. Pessoas não identificadas como familiares de pessoas com LEA (colegas, círculo de amizades etc.).
  • Critério de inclusão. Estudos de qualquer país, escritos em inglês.
  • Critério de inclusão. Estudos realizados em qualquer período.
  • Critério de inclusão. Artigos publicados em periódicos. Critério de exclusão. Literatura cinzenta (relatórios, teses etc.).
  • Critério de inclusão. Pesquisa primária. Critério de exclusão. Pesquisa secundária.

Nota. LEA = lesão encefálica adquirida; PSSS = profissional de saúde e serviço social (health and social care professional).

Quem participava dos estudos devia atender aos seguintes critérios: (a) ser uma pessoa adulta com diagnóstico de LEA ou (b) ser identificada como familiar de uma pessoa com LEA. Estudos que incluíam pessoas com uma doença neurológica progressiva foram excluídos. Para os fins deste estudo, a idade adulta das pessoas com LEA foi definida como acima de 18 anos, mas os familiares podiam ter qualquer idade (ver Tabela 2). Intervenções na área da terapia orientada para a família, conduzidas por profissional com formação em terapia familiar ou por outra profissão da saúde, foram incluídas na revisão (ver Tabela 2). Foram incluídos artigos que relatavam dados de desfecho, como o bem-estar ou o ajustamento dentro da família em decorrência da terapia familiar (ver Tabela 2).

Os artigos triados foram submetidos à leitura do texto completo para decidir se atendiam aos critérios de inclusão da revisão. Os artigos em texto completo que atendiam aos critérios de elegibilidade foram incluídos na revisão final. Para localizar artigos não encontrados na busca inicial, todas as listas de referências dos artigos incluídos na revisão final foram examinadas manualmente. Isso foi feito lendo o título de cada artigo e aplicando os critérios de inclusão e exclusão para avaliar sua adequação. A busca nas listas de referências não identificou nenhum artigo adicional.

Mapeamento dos dados

Esta etapa do processo de escopo exigiu a extração e o mapeamento de áreas importantes de dados dos artigos incluídos na revisão final. Um formulário de extração de dados foi elaborado a priori. Dois membros da equipe de pesquisa testaram o formulário com 25% (n = 6) dos artigos, para avaliar sua adequação às perguntas de pesquisa (Daudt et al., 2013; Levac et al., 2010). Cada artigo foi selecionado em ordem aleatória, e os dados foram extraídos segundo a sequência definida no formulário. Nenhum ajuste foi feito após o teste do formulário.

O formulário de extração organizou os dados segundo temas centrais. Foi adotada uma abordagem de revisão narrativa para a síntese, porque ela permitia registrar informações sobre o processo de uma intervenção e, assim, contextualizar a descrição do desfecho (Arksey e O’Malley, 2005). Os dados extraídos de cada artigo incluíram:

  • I. Características do estudo (autoria, ano de publicação, local do estudo, delineamento, objetivos, metodologia, idioma, número de participantes, idade e gênero);
  • II. Intervenção e desfechos (tipo de intervenção, foco da intervenção, frequência das sessões, profissões que conduziram a intervenção, populações estudadas, medidas de desfecho e resultados da intervenção);
  • III. Presença/ausência de PDC (natureza e gravidade da deficiência de comunicação e justificativa para a inclusão/exclusão de PDC).

Para garantir que a presença ou ausência de PDC fosse registrada com precisão em cada estudo, considerou-se o uso de três rótulos, semelhantes aos usados por Jagoe et al. (2021). O rótulo “incluídas” foi usado quando um estudo afirmava explicitamente a participação de PDC. Em segundo lugar, “excluídas” foi usado quando um estudo afirmava explicitamente a exclusão de PDC. Para os estudos que não afirmavam explicitamente a exclusão de PDC, mas nos quais uma análise crítica das exigências de comunicação indicava que essas pessoas provavelmente tinham sido excluídas, foi usado o rótulo “possivelmente excluídas por causa das exigências de comunicação do estudo”.

Reunir, resumir e relatar os resultados

Esta etapa consistiu em organizar, resumir e discutir os resultados (Arksey e O’Malley, 2005). Primeiro, foi feita uma análise quantitativa do volume, da descrição e da distribuição das evidências. Segundo, foi elaborada uma sinopse de todos os estudos revisados. Terceiro, as evidências foram relatadas segundo os tipos de intervenção terapêutica, as profissões que conduziram a terapia e os desfechos da intervenção.

Resultados

O processo de busca identificou 668 artigos nas bases de dados eletrônicas, dos quais 516 permaneceram após a remoção de duplicatas. No total, 24 estudos atenderam aos critérios de inclusão na revisão de escopo (ver Figura 1).

Fluxograma PRISMA em quatro etapas. Identificação: 668 registros nas bases PubMed, Embase, CINAHL Complete, Web of Science e PsycINFO; 516 após a remoção de duplicatas. Triagem: 516 registros triados por título e resumo, 413 excluídos. Elegibilidade: 103 artigos avaliados em texto completo, 79 excluídos (pesquisa secundária 46, intervenção inadequada 17, sem texto completo em inglês 9, medidas de desfecho inadequadas 5, população pediátrica 1, informação insuficiente 1). Inclusão: o fluxograma original indica 103 estudos incluídos para análise.
Figura 1. Fluxograma PRISMA (esquema original em inglês).

Características dos estudos

Os 24 estudos foram publicados entre 1952 e 2019. Os artigos foram publicados em quatro países: 58,3% (n = 14) nos Estados Unidos, 20,8% (n = 5) na Austrália, 12,5% (n = 3) na Suécia e 8,3% (n = 2) no Reino Unido (ver Figura 2). A maioria dos artigos tinha delineamento de estudo de caso (n = 15; 62,5%), seguida de métodos mistos (n = 3; 12,5%) e de grupos focais (n = 2; 8,3%). Os quatro artigos restantes tinham delineamentos diversos (n = 4; 16,7%): um ensaio controlado randomizado, uma série temporal, um estudo descritivo qualitativo e um estudo piloto (ver Figura 3). Todos os artigos foram escritos em inglês, e a maioria das intervenções também foi conduzida em inglês. O sueco foi a principal língua de intervenção em três estudos (estudos 2, 5 e 21; ver Apêndice). Um estudo não informou o número de participantes da intervenção, e os demais relataram entre 2 e 152 participantes.

Gráfico de setores com a distribuição dos 24 estudos por país: Estados Unidos, 14 estudos (58%); Austrália, 5 (21%); Suécia, 3 (13%); Reino Unido, 2 (8%).
Figura 2. Distribuição dos estudos por país (gráfico original em inglês).
Gráfico de barras com o número de estudos por delineamento: estudos de caso, 15; métodos mistos, 3; grupos focais, 2; ensaio controlado randomizado, 1; série temporal, 1; estudo descritivo qualitativo, 1; estudo piloto, 1.
Figura 3. Delineamentos dos estudos (gráfico original em inglês).

Intervenções de terapia familiar

Os artigos incluídos nesta revisão concentraram-se em quatro tipos principais de intervenções de terapia familiar para pessoas com LEA e suas famílias: psicoeducação (n = 4; 16,7%), terapia familiar tradicional (n = 8; 33,3%), terapia familiar adaptada para pessoas com LEA (n = 10; 41,7%) e intervenções psicossociais (n = 2; 8,3%).

Intervenções psicoeducativas (estudos 1 a 4)

Essas intervenções forneceram informações sobre a natureza e o processo de reabilitação da LEA, incluindo as deficiências de comunicação adquiridas associadas à LEA (ver Apêndice). Esses estudos ofereceram apoio emocional para lidar com o reajuste de papéis e responsabilidades e para melhorar o funcionamento familiar. As profissões envolvidas nesse tipo de intervenção foram: trabalho conjunto entre psicologia e fonoaudiologia (estudo 1), fonoaudiologia de forma independente (estudo 2), serviço social de forma independente (estudo 3) e uma equipe multidisciplinar (estudo 4; ver Tabela 3). A frequência das sessões foi registrada em três dos estudos (estudos 2 a 4). Ela variou de sessões semanais ao longo de 6 semanas (estudo 2) a 3 sessões ao longo de 5 meses (estudo 3), passando por sessões quinzenais ao longo de 5 meses (estudo 4). As medidas de desfecho utilizadas incluíram medidas de autorrelato (estudo 1), o McMaster Family Assessment Device (Epstein et al., 1983) (estudo 3) e questionários (estudos 2 e 4). Esses quatro estudos mostraram melhoras, entre as pessoas participantes, em: (a) consciência do impacto da LEA e das deficiências de comunicação (estudos 2 e 4); (b) compreensão dos papéis e responsabilidades familiares (estudos 1 a 3); (c) capacidade de defender os interesses dos familiares com LEA (estudo 4); (d) capacidade de reconhecer a importância do apoio emocional nesse período (estudos 2 e 4); e (e) atitudes em relação às profissões da saúde (estudo 4). Um dos estudos relatou redução dos sentimentos de ansiedade e culpa associados à LEA (estudo 1). Outro mostrou que a terapia familiar não teve efeitos substanciais sobre a depressão da pessoa com LEA (estudo 3; ver Apêndice).

Tabela 3 — Leque de profissões que conduziram a terapia familiar

  • Psicologia apenas. 6 estudos; terapia familiar tradicional, terapia familiar adaptada para pessoas com LEA; estudos 7, 9, 10, 13, 14, 16.
  • Terapia familiar apenas. 4 estudos; terapia familiar tradicional, terapia familiar adaptada para pessoas com LEA; estudos 6, 8, 11, 15.
  • Equipe multidisciplinar. 3 estudos; psicoeducação, terapia familiar adaptada para pessoas com LEA, terapia psicossocial; estudos 4, 20, 24.
  • Psiquiatria apenas. 2 estudos; terapia familiar adaptada para pessoas com LEA; estudos 18, 19.
  • Psicoterapia apenas. 2 estudos; terapia familiar adaptada para pessoas com LEA; estudos 21, 22.
  • Fonoaudiologia e psicologia. 2 estudos; psicoeducação, terapia familiar tradicional; estudos 1, 5.
  • Fonoaudiologia apenas. 1 estudo; psicoeducação; estudo 2.
  • Fonoaudiologia e terapia familiar. 1 estudo; terapia familiar tradicional; estudo 12.
  • Serviço social. 1 estudo; psicoeducação; estudo 3.
  • Pessoas com LEA e seus familiares. 1 estudo; terapia psicossocial; estudo 23.
  • Psicologia e serviço social. 1 estudo; terapia familiar adaptada para pessoas com LEA; estudo 17.

Nota. LEA = lesão encefálica adquirida; no original, SLT (speech and language therapist) = fonoaudiologia.

Intervenções de terapia familiar tradicional (estudos 5 a 12)

Essas intervenções permitiram que as pessoas com LEA reconhecessem sua lesão, informaram a família sobre a lesão, melhoraram as relações interpessoais dentro da família e identificaram e redefiniram papéis e responsabilidades. Além disso, esses estudos exploraram as mudanças nas relações causadas pela LEA e pela afasia e ofereceram habilidades para lidar com essas mudanças (ver Apêndice). As profissões envolvidas na terapia familiar tradicional foram: trabalho conjunto entre psicologia e fonoaudiologia (estudo 5), terapia familiar de forma independente (estudos 6, 8 e 11), psicologia de forma independente (estudos 7, 9 e 10) e trabalho conjunto entre terapia familiar e fonoaudiologia (estudo 12; ver Tabela 3). A frequência das sessões foi registrada em seis dos estudos (estudos 5, 6, 8, 9, 11 e 12). Houve uma variedade de frequências: um curso de 5 dias (estudo 5), sessões ilimitadas durante toda a pesquisa (estudos 6 e 8), sessões quinzenais ao longo de 12 meses (estudo 9), 21 sessões ao longo de 9 meses (estudo 11) e 5 sessões de terapia durante o período do estudo (estudo 12; ver Apêndice). As medidas de desfecho utilizadas para avaliar a eficácia da intervenção incluíram desfechos autorrelatados (estudos 7 a 11), questionários (estudos 5 e 12) e a Family Environment Scale (Moos e Moos, 1981) (estudo 6). A terapia familiar tradicional: (a) melhorou a qualidade de vida, a coesão familiar, a negociação de papéis e experiências parentais, as habilidades emocionais, o sentimento de orgulho e de realização, com esperança no futuro (estudos 5 a 10); e (b) reduziu o sofrimento, a sobrecarga de cuidado e os conflitos familiares (estudos 6, 11 e 12; ver Apêndice).

Terapia familiar adaptada para pessoas com LEA (estudos 13 a 22)

Essas intervenções ofereceram apoio psicológico para lidar com os efeitos da LEA, melhoraram a comunicação dentro das famílias em todos os níveis de interação e ajudaram a família a ajustar suas expectativas quanto a papéis e responsabilidades. As profissões envolvidas na terapia familiar adaptada para pessoas com LEA foram: psicologia de forma independente (estudos 13, 14 e 16), terapia familiar de forma independente (estudo 15), trabalho conjunto entre psicologia e serviço social (estudo 17), psiquiatria de forma independente (estudos 18 e 19), uma equipe multidisciplinar (estudo 20) e psicoterapia de forma independente (estudos 21 e 22; ver Tabela 3). A frequência das sessões foi registrada em sete dos estudos (estudos 13, 14 e 16 a 20). Houve uma variedade de frequências: sessões quinzenais ao longo de 10 semanas (estudo 13), sessões semanais ao longo de 12 semanas (estudo 14), 5 sessões durante o estudo (estudo 16), 20 sessões ao longo de 2 anos (estudo 17), sessões quinzenais ao longo de 9 meses (estudo 18), 3 sessões durante o estudo (estudo 19) e sessões ilimitadas ao longo de 7 meses (estudo 20; ver Apêndice). As medidas de desfecho utilizadas envolveram desfechos autorrelatados (estudos 15 a 17, 20 e 22), grupos focais (estudos 14 e 19), a Family Empowerment Scale (Koren et al., 1992) (estudo 18) e questionários (estudos 13 e 21). Esses estudos mostraram que: (a) pacientes e pessoas cuidadoras se beneficiaram dessas intervenções (estudos 13 a 22); (b) houve melhoras na negociação e na retomada de papéis e responsabilidades familiares, além de mais sucesso, orgulho e empoderamento (estudos 14 a 18 e 21); (c) houve maior aceitação dos efeitos da LEA (estudo 20); e (4) houve redução dos conflitos, da sobrecarga de cuidado e do isolamento (estudos 14 e 17 a 19). No geral, essas intervenções melhoraram muito a qualidade de vida das pessoas participantes.

Intervenções de terapia psicossocial (estudos 23 e 24)

Essas intervenções concentraram-se no apoio comunitário às pessoas com LEA e às suas famílias e no fortalecimento das relações amorosas. A terapia psicossocial foi conduzida por pessoas com LEA e seus familiares (estudo 23) e por uma equipe multidisciplinar (estudo 24; ver Tabela 3). A frequência das sessões variou de sessões ilimitadas ao longo de 1 ano (estudo 23) a 15 sessões ao longo de 24 semanas (estudo 24). As medidas de desfecho correspondentes a esses objetivos incluíram entrevistas estruturadas retrospectivas (estudo 23) e desfechos autorrelatados (estudo 24). Os resultados dessas intervenções mostraram: (a) maior conhecimento dos efeitos da LEA (estudos 23 e 24); (b) melhora da qualidade de vida, do humor familiar e da coesão (estudo 23); (c) maior orgulho pelas conquistas (estudo 24); e (d) fortalecimento do vínculo entre os casais, com mais afeto e reconhecimento mútuo (estudo 23; ver Apêndice).

Deficiências de comunicação e terapia familiar

As PDC foram incluídas em 50% (n = 12) dos estudos (1, 2, 4, 5, 9, 12, 15 a 17 e 20 a 22). A afasia foi a deficiência de comunicação mais frequente nos estudos, com 29,3% (n = 7 dos 24 estudos) de todos os estudos incluindo pessoas com afasia (estudos 1, 2, 5, 12, 17, 20 e 21). Os delineamentos dos estudos que incluíram pessoas com afasia foram estudos de caso ou séries temporais. Esses estudos ofereceram psicoeducação (n = 2), terapia familiar tradicional (n = 2) e terapia familiar adaptada para pessoas com LEA (n = 3). Pessoas com disartria foram incluídas em 8,3% (n = 2 dos 24 estudos) dos estudos (estudos 16 e 22). Esses estudos tinham delineamento de estudo de caso e ofereceram terapia familiar adaptada para pessoas com LEA. Pessoas com distúrbios cognitivo-comunicativos foram incluídas em um estudo de caso que ofereceu terapia familiar adaptada para pessoas com LEA (estudo 9). Um estudo incluiu pessoas com afasia, disartria e distúrbios cognitivo-comunicativos (estudo 15) e utilizou métodos mistos. Esse estudo ofereceu terapia familiar adaptada para pessoas com LEA. Outro estudo afirmou explicitamente a inclusão de pessoas com qualquer deficiência de comunicação (estudo 4; ver Figura 4). Com uma metodologia de estudo de caso, essa pesquisa ofereceu psicoeducação como intervenção para apoiar as famílias após a LEA.

Gráfico de barras com o número de estudos que incluíram pessoas com deficiência de comunicação, por tipo: afasia, 7; disartria, 2; comunicação cognitiva, 1; múltiplos distúrbios da comunicação, 1; não especificado, 1.
Figura 4. Tipos de deficiência de comunicação representados entre as pessoas participantes ou no foco dos estudos (gráfico original em inglês).

Esta revisão de escopo identificou que metade dos estudos (n = 12) não incluiu PDC, sendo que 2 estudos excluíram explicitamente essas pessoas (estudos 3 e 24) e 10 estudos possivelmente excluíram esse grupo por causa das exigências de comunicação do estudo (estudos 6 a 8, 10, 11, 13, 14, 18, 19 e 23). Os delineamentos empregados foram estudos de caso (n = 5), métodos mistos (n = 3), grupos focais (n = 2), estudos piloto (n = 1) e um ensaio controlado randomizado (n = 1). A maioria dessas intervenções utilizou terapia familiar tradicional (n = 5), seguida de terapia familiar adaptada para pessoas com LEA (n = 4), intervenções psicossociais (n = 2) e psicoeducação (n = 1).

Discussão

O objetivo desta revisão de escopo foi mapear sistematicamente a pesquisa realizada sobre terapia familiar no contexto da LEA, identificando em que medida as PDC estão incluídas na base de evidências. Esta revisão mostra como as necessidades específicas das pessoas com deficiência de comunicação estão sub-representadas na literatura, o que cria o risco de desigualdade no acesso a cuidados baseados em evidências.

O processo de revisão de escopo identificou 24 estudos que ofereceram terapia familiar a famílias em que uma pessoa tem LEA. Apesar da prevalência da deficiência de comunicação após a LEA, metade dos estudos não incluiu famílias em que um membro tinha deficiência de comunicação. Apenas dois desses estudos relataram explicitamente a exclusão de PDC (Clark et al., 2003; Glass et al., 2000). Os outros 10 estudos foram registrados como possivelmente excluindo PDC por causa das exigências de comunicação do estudo, o que reforça a afirmação de que continuam faltando intervenções psicológicas baseadas em evidências para PDC (Baker et al., 2019). Esses achados também ecoam os resultados de Townend et al. (2007), que constataram que apenas 3% dos estudos de intervenções voltadas ao AVC e à depressão afirmavam explicitamente a exclusão de pessoas com afasia.

No geral, os estudos relataram que a qualidade de vida pessoal e familiar das pessoas participantes melhorou após a intervenção. A maioria das medidas de desfecho usadas nos estudos consistia em desfechos autorrelatados, pelas pessoas participantes ou pelas equipes clínicas. Quando medidas formais eram usadas, o tipo de medida variava. Por isso, foi difícil estabelecer semelhanças e diferenças entre os estudos. O relato da inclusão ou exclusão de PDC na pesquisa sobre terapia familiar deveria ser mais claro, com dados desagregados nos artigos publicados, para aumentar a generalização dos resultados. Fornecer esse tipo de dado ajudará a aplicar esses resultados à prática clínica com PDC.

Uma ampla gama de profissões conduziu intervenções de terapia familiar para pessoas com LEA, e a psicologia e a terapia familiar responderam pela maioria das intervenções. Embora metade dos estudos tenha incluído PDC, apenas cinco estudos contaram com a fonoaudiologia (Blom Johansson et al., 2013; Borenstein et al., 1987; Lauer-listhaus, 1991; Nichols et al., 1996; Turnblom e Myers, 1952), e em um único estudo a fonoaudiologia conduziu a intervenção de forma independente (Blom Johansson et al., 2013). Quando a fonoaudiologia participou da terapia familiar com PDC, os estudos relataram o uso de intervenções específicas que não dependiam apenas da comunicação verbal para a participação. A escassez da fonoaudiologia nessas pesquisas pode ser atribuída a um desconhecimento de seu papel por outras profissões da saúde. Essa lacuna na participação da fonoaudiologia foi reconhecida na literatura sobre o papel da fonoaudiologia nos cuidados paliativos (Hawksley et al., 2017), no cuidado da demência (Dooley e Walshe, 2020) e na colaboração entre psicologia educacional e fonoaudiologia (Dunsmuir et al., 2006), o que sugere que a questão é recorrente em diversos contextos multidisciplinares.

Implicações para a prática

As famílias de PDC têm direito à mesma terapia de alta qualidade que qualquer outra família. Nessas situações, as barreiras de comunicação podem exigir a participação da fonoaudiologia (Sekhon et al., 2015), uma prática colaborativa sub-representada na literatura analisada nesta revisão de escopo. A pesquisa existente em neurorreabilitação sugere que o trabalho conjunto é uma forma produtiva de engajar as pessoas após a LEA na busca de objetivos significativos (Clarke e Forster, 2015). Princípios semelhantes poderiam ser aplicados, com a terapia familiar e a fonoaudiologia trabalhando juntas para oferecer terapia familiar às PDC.

Limitações e pesquisas futuras

A metodologia usada nesta pesquisa foi uma revisão de escopo, o que significa que o estudo é limitado na avaliação da qualidade dos artigos incluídos. Além disso, limitar a busca a publicações em inglês pode ter excluído outras pesquisas relevantes. A pesquisa na área de terapia familiar e LEA deveria incluir deliberadamente PDC, dada a frequência da deficiência de comunicação após a lesão encefálica. Para alcançar essa inclusão, são necessárias práticas de pesquisa acessíveis do ponto de vista da comunicação (Dee-Price et al., 2020; Jagoe et al., 2023; Luck e Rose, 2007; Shiggins et al., 2022). Pesquisas futuras deveriam publicar dados desagregados, incluindo o relato dos desfechos das intervenções específicos para PDC. Essa transparência nos desfechos poderia então ser aplicada à prática clínica com PDC. Estabelecer medidas de desfecho essenciais relacionadas à terapia familiar, incluindo medidas de desfecho relatadas por pacientes que sejam adequadas às PDC, é um passo importante que permitiria uma comparação mais robusta entre estudos e decisões sobre as melhores práticas em terapia familiar e PDC.

Conclusão

Esta revisão de escopo identificou que existe uma pequena base de evidências sobre o uso da terapia familiar após a LEA. Os estudos incluídos nesta revisão demonstraram que pessoas com LEA e seus familiares podem se beneficiar da terapia familiar. No entanto, a escassez de pesquisas sobre o uso da terapia familiar com PDC após a LEA traz o risco de criar ou perpetuar uma desigualdade no acesso a cuidados baseados em evidências, em comparação com pessoas com LEA sem deficiência de comunicação. Uma pesquisa representativa das PDC é imprescindível para que se alcance a igualdade de acesso às intervenções.

Complexe Systémique: a reter

Para uma leitura sistêmica, o artigo faz uma pergunta simples e incômoda: a quem se dirige a terapia familiar quando um dos membros já não consegue falar como antes? A lesão encefálica redistribui os papéis, parentais, conjugais, fraternos, e esses papéis se negociam falando. Ora, metade dos 24 estudos analisados exclui as pessoas com deficiência de comunicação, na maioria das vezes de fato, porque o dispositivo pressupõe uma troca verbal fluente. A terapia passa então a ser feita sobre a pessoa, e não com ela, o que reproduz no consultório a exclusão que a família já vive. A saída proposta é concreta: trabalhar em equipe com a fonoaudiologia, adaptar os recursos, tornar o enquadre acessível em vez de selecionar as famílias. A revisão permanece descritiva, sem avaliação da qualidade dos estudos e com medidas heterogêneas. Para ler junto com o artigo sobre a terapia narrativa de casal após lesão cerebral e com o estudo sobre a doença crítica crônica como assunto de família.

Notas do original

Conflitos de interesse. A equipe signatária declara não haver potenciais conflitos de interesse relacionados à pesquisa, à autoria e/ou à publicação deste artigo.

Financiamento. A pessoa que assina em primeiro lugar recebeu um prêmio em dinheiro, o Tavistock Trust for Aphasia Student Prize, pela dissertação na qual o artigo se baseia.

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Tradução não oficial em português de A terapia familiar como intervenção para adultos com afasia e outras deficiências de comunicação após lesão encefálica adquirida: uma revisão de escopo, de Jessica Henihan, Rebecca Henihan e Caroline Jagoe, Rehabilitation Counseling Bulletin, vol. 68, no 3 (2025), doi: 10.1177/00343552241236859, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas, apêndice não reproduzido). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Family Therapy as an Intervention for Adults With Aphasia and Other Communication Disabilities After Acquired Brain Injury: A Scoping Review”, publicado em Rehabilitation Counseling Bulletin (2025) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Henihan, J., Henihan, R., et Jagoe, C. (2025). A terapia familiar como intervenção para adultos com afasia e outras deficiências de comunicação após lesão encefálica adquirida: uma revisão de escopo (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-terapia-familiar-como-intervencao-para-adultos-com-afasia-e-outras-deficiencias (Obra original publicada em 2024 em Rehabilitation Counseling Bulletin, 68(3), 182-196 (2025); republicada em 2025 por Rehabilitation Counseling Bulletin, https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00343552241236859)

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