Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry · Transtornos alimentares
Como se passou da anorexia vista como um conflito interior à anorexia vista como um fato relacional e, depois, a tratamentos familiares manualizados e avaliados? Johan Vanderlinden, que participou dessa história em Lovaina, percorre cinquenta anos de terapia familiar dos transtornos alimentares, de Selvini Palazzoli e Minuchin ao tratamento baseado na família e à terapia multifamiliar. Mostra também o que os ensaios estabelecem, o que deixam em aberto, e propõe uma hipótese sobre o papel do apoio familiar na regulação neural durante a realimentação.
Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de A terapia baseada na família nos transtornos alimentares: do modelo de Milão às evidências atuais, de Johan Vanderlinden, publicado na Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry (Frontiers Media) (2026), doi: 10.3389/frcha.2026.1765146, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.
As famílias eram reenquadradas como recursos, e não como causas da doença.
Johan Vanderlinden
Resumo
A terapia orientada para a família influenciou profundamente a conceituação e o tratamento dos transtornos alimentares ao longo das últimas cinco décadas. A partir de pioneiros sistêmicos como Mara Selvini Palazzoli e Salvador Minuchin, a clínica passou cada vez mais a ver os transtornos alimentares não apenas como perturbações intrapsíquicas, mas como fenômenos relacionais inseridos em sistemas familiares. Essas ideias levaram a modelos estruturados e baseados em evidências, como o tratamento baseado na família (FBT, Family-Based Treatment) e a terapia multifamiliar (MFT, Multifamily Therapy). Esta revisão resume os marcos históricos, as inovações teóricas e os achados empíricos sobre as intervenções orientadas para a família nos transtornos alimentares. O artigo discute também os mecanismos de mudança, as aplicações clínicas e os desafios atuais da implementação e da adaptação cultural dos tratamentos baseados na família. Por fim, formula algumas hipóteses de pesquisa sobre o apoio familiar e os circuitos neurais durante a realimentação, que podem inspirar estudos futuros.
Os transtornos alimentares (TA), como a anorexia nervosa (AN) e a bulimia nervosa (BN), são condições biopsicossociais complexas, com alta morbidade e mortalidade (1). As primeiras abordagens enfatizavam o conflito intrapsíquico ou a predisposição biológica e muitas vezes centravam o tratamento no indivíduo. A partir dos anos 1970, as teorias sistêmicas e familiares redefiniram os TA como transtornos da interação relacional, o que produziu uma mudança de paradigma fundamental (2, 3).
O movimento orientado para a família no cuidado dos transtornos alimentares surgiu simultaneamente na Europa e na América do Norte, combinando a teoria geral dos sistemas, a terapia familiar estrutural e perspectivas psicodinâmicas. Buscava entender como os padrões familiares sustentam ou aliviam os transtornos alimentares e mobilizar as forças da família a serviço da recuperação. Esta revisão acompanha essa evolução, das primeiras formulações sistêmicas aos modelos atuais baseados em evidências, destacando a pesquisa, a prática e possíveis direções futuras.
Cabe, porém, observar que, na prática clínica atual, a terapia orientada para a família é mais bem compreendida como um dos componentes de um quadro de tratamento multimodal dos transtornos alimentares. O cuidado baseado em evidências costuma integrar reabilitação nutricional, monitoramento médico e intervenções psicológicas, incluindo abordagens cognitivo-comportamentais (por exemplo, a TCC ou a TCC-E), com suporte farmacológico e programas de internação integral ou de hospital-dia quando clinicamente indicados. As intervenções familiares e sistêmicas não substituem essas modalidades: elas as complementam, mobilizando o ambiente familiar para apoiar a mudança comportamental, a estabilização médica e a retomada do desenvolvimento, sobretudo na infância e na adolescência. A presente revisão se concentra especificamente nas abordagens orientadas para a família, reconhecendo seu lugar em um contínuo de cuidado integrado.
Este artigo foi concebido como uma revisão narrativa, um estado da arte das abordagens terapêuticas orientadas para a família no tratamento dos transtornos alimentares. Em vez de buscar uma cobertura sistemática exaustiva, a revisão sintetiza os modelos historicamente influentes, os estudos empíricos marcantes e os desenvolvimentos recentes que moldaram a prática clínica e a pesquisa nas últimas cinco décadas.
A literatura foi identificada graças ao longo envolvimento, na área, da pessoa que assina este artigo e a buscas direcionadas nas principais bases bibliográficas usadas em pesquisa psiquiátrica e psicológica, entre elas PubMed/MEDLINE, PsycINFO e Web of Science. As buscas se concentraram em termos-chave como eating disorders, family therapy, family-based treatment, multifamily therapy, anorexia nervosa e bulimia nervosa, em diversas combinações.
O período abrangido vai das primeiras formulações sistêmicas dos anos 1970 aos estudos empíricos e de implementação recentes, publicados até 2025. A inclusão foi orientada pela relevância conceitual, pela influência clínica e pela importância empírica, com atenção especial às contribuições teóricas fundadoras, aos ensaios clínicos randomizados, às metanálises e às grandes publicações que definiram diretrizes. A revisão prioriza trabalhos com impacto demonstrável sobre os modelos clínicos, a difusão dos tratamentos ou a pesquisa de desfechos na infância e na adolescência.
Antes dos anos 1970, os paradigmas psicanalítico e biológico dominavam a conceituação da AN e da BN (4). A obra seminal de Hilde Bruch, Eating Disorders: Obesity, Anorexia Nervosa, and the Person Within (3), descrevia déficits de autonomia e de identidade, mas mantinha uma leitura individual. A teoria dos sistemas, com Bateson (2), contestou esse foco ao propor que a comunicação dentro das famílias forma uma rede autorregulada: os sintomas servem para manter o equilíbrio. Um transtorno alimentar torna-se, assim, um sinal comunicativo dentro de um campo interacional, e não uma patologia isolada.
Na Itália, a psiquiatra Mara Selvini Palazzoli passou da psicanálise aos sistemas familiares depois de constatar o sucesso limitado do tratamento individual da AN. Em 1971, fundou o Centro de Milão para o Estudo da Família com Luigi Boscolo, Gianfranco Cecchin e Giuliana Prata (4). O “modelo de Milão” enfatizava o questionamento circular, a formulação de hipóteses, a neutralidade e a conotação positiva. Os sintomas eram compreendidos como comunicações relacionais que preservavam a homeostase de redes multigeracionais. O modelo em seis etapas do processo anoréxico, proposto pela equipe de Milão, descrevia como o controle, a negação e o conluio parental mantêm a doença (5).
A terapia envolvia uma equipe atrás de um espelho unidirecional, que devolvia hipóteses e intervenções à família. Ao reenquadrar positivamente a doença (por exemplo, “o sintoma protege a unidade familiar”), o grupo de Milão convidava a novas interpretações e a mais flexibilidade. Embora fosse sobretudo conceitual, o modelo influenciou praticamente todos os tratamentos sistêmicos posteriores dos TA.
Na Filadélfia, Salvador Minuchin desenvolveu a terapia familiar estrutural (TFE), centrada na organização familiar, nas fronteiras e nas hierarquias (6). Ao estudar as “famílias psicossomáticas”, Minuchin identificou o emaranhamento, a rigidez, a superproteção e a evitação de conflitos como padrões típicos em torno da AN (7). O sintoma desviava a atenção de um conflito parental não resolvido ou das lutas da adolescência pela autonomia. O tratamento visava reestruturar as fronteiras por meio de encenações (enactments) e de exercícios de demarcação de fronteiras.
Embora críticas posteriores tenham alertado que a linguagem de Minuchin corria o risco de culpabilizar os pais (8), seu modelo oferecia critérios observáveis de mudança e uma postura terapêutica diretiva. Ele tornou a teoria dos sistemas operacional para a prática clínica e abriu caminho para os modelos manualizados posteriores.
Durante os anos 1980, equipes clínicas europeias combinaram as ideias sistêmicas de Milão com abordagens comportamentais e psicodinâmicas. O livro de Vandereycken, Kog e Vanderlinden, The Family Approach to Eating Disorders (8), apresentava um quadro pragmático e não culpabilizante, baseado na avaliação, nas sessões conjuntas e em alianças colaborativas. As famílias eram reenquadradas como recursos, e não como causas da doença. Esse trabalho uniu sofisticação conceitual e praticidade clínica e influenciou a elaboração das diretrizes posteriores.
Nos anos 1990, estudos controlados mostraram que envolver a família melhorava os desfechos em comparação com a terapia individual em adolescentes com AN (9, 10). Esses achados lançaram as bases empíricas do tratamento baseado na família (FBT).
No fim dos anos 1970 e no início dos anos 1980, equipes clínicas do Maudsley Hospital, em Londres, entre elas Christopher Dare, Ivan Eisler, Gerald Russell e colegas, traduziram os conceitos sistêmicos e estruturais em um tratamento por fases, manualizado, concebido especificamente para a anorexia nervosa (AN) na adolescência. Essa abordagem, descrita inicialmente por Russell e colegas (9), ficou conhecida como tratamento baseado na família (FBT) ou método Maudsley. Embora o método Maudsley seja muitas vezes apresentado como um modelo de tratamento distinto e bem definido, é mais exato entendê-lo como um quadro fundador que continuou evoluindo em resposta à experiência clínica, aos achados empíricos e a desenvolvimentos mais amplos da terapia familiar. As intervenções familiares posteriores ampliaram a abordagem Maudsley nos planos teórico e técnico, conservando sua ênfase central no empoderamento dos pais e na mudança comportamental.
O FBT concebe a anorexia como um “transtorno biopsicossocial” no qual os pais são o principal recurso para favorecer a recuperação. O modelo se declara explicitamente agnóstico quanto à etiologia: parte do princípio de que os membros da família não causaram o transtorno, mas são quem está em melhor posição para apoiar a pessoa adolescente na retomada de uma alimentação saudável (15). O FBT compreende três fases sucessivas:
Os princípios-chave, às vezes chamados de cinco pilares do FBT, incluem o empoderamento dos pais, a externalização da doença, a ênfase na restauração precoce do peso, uma postura não culpabilizante e um foco pragmático no comportamento.
A evolução das intervenções familiares depois do método Maudsley pode ser descrita, em linhas gerais, em três dimensões que se cruzam. No plano teórico, os modelos posteriores incorporaram contribuições da teoria do apego, da regulação emocional e da psicopatologia do desenvolvimento, ampliando a postura agnóstica original rumo a uma compreensão mais matizada dos processos relacionais e afetivos. No plano técnico, as adaptações refinaram o uso do coaching parental, do apoio às refeições e das estratégias de externalização, e introduziram mais flexibilidade na estrutura das sessões, na postura terapêutica e no ritmo da transferência de responsabilidades. No plano da oferta de serviços, o tratamento baseado na família foi estendido a formatos multifamiliares (ver a seção 5), a variantes centradas nos pais, a modelos de cuidado escalonado e à telessaúde, o que reflete esforços para aumentar o engajamento, a aceitabilidade e a escalabilidade em sistemas de saúde diversos (11).
Em primeiro lugar, cabe notar que, apesar da coerência geral dos achados a favor das intervenções familiares, a literatura empírica se caracteriza por uma grande heterogeneidade de delineamentos e de definições de desfecho. Os ensaios diferem quanto às faixas etárias, aos limiares diagnósticos, às condições de comparação e aos desfechos principais (em geral, restauração do peso, remissão ou redução dos sintomas), bem como quanto à duração do seguimento. Essas variações metodológicas limitam a comparabilidade direta entre estudos e impedem uma simples agregação dos resultados, o que reforça a importância de uma interpretação cautelosa ao sintetizar ensaios e revisões. Em segundo lugar, antes de resumir os desfechos empíricos, é importante esclarecer que as evidências a favor das intervenções orientadas para a família nos transtornos alimentares dizem respeito a modelos e formatos de tratamento distintos, que evoluíram com o tempo. Os primeiros ensaios clínicos randomizados dos anos 1990 avaliavam sobretudo formas de terapia familiar próximas do método Maudsley original, ao passo que os estudos posteriores examinaram cada vez mais o tratamento baseado na família (FBT) manualizado, a terapia multifamiliar (MFT) e diversas adaptações diagnósticas e de formato. A literatura empírica reflete, portanto, uma sequência de modelos, e não uma abordagem única e uniforme de terapia familiar.
O primeiro ensaio randomizado (9) comparou a terapia familiar a um aconselhamento individual de apoio e mostrou melhor recuperação do peso e maior retorno da menstruação entre adolescentes atendidos em terapia familiar. Replicações confirmaram esses benefícios, sobretudo em pacientes mais jovens e com menor tempo de doença (10, 12).
A partir de meados dos anos 1990, os ensaios clínicos randomizados (ECR) se tornaram a base da validação empírica da terapia orientada para a família nos transtornos alimentares. Os primeiros ensaios britânicos e norte-americanos mostraram que intervenções familiares estruturadas superavam a psicoterapia individual ou as abordagens ecléticas na anorexia nervosa da adolescência (12–18). No conjunto dos estudos, cerca de 45 a 50% das pessoas adolescentes chegaram à remissão completa e até 80% atingiram um peso clinicamente saudável em doze meses (19).
Uma metanálise de Couturier e colegas (17) e revisões posteriores (11, 16, 20) confirmaram que a terapia familiar melhora significativamente a restauração do peso, reduz as recaídas e fortalece o funcionamento psicossocial a longo prazo em comparação com tratamentos não familiares. A revisão Cochrane de 2018 (21) concluiu que a terapia familiar oferece melhores desfechos de curto prazo quanto ao peso e à redução dos sintomas na anorexia nervosa da adolescência, embora a heterogeneidade dos delineamentos limite a precisão dos tamanhos de efeito agregados.
O FBT também foi aplicado a pessoas com bulimia nervosa (BN) (14, 22). A pesquisa sobre o FBT para a bulimia nervosa (FBT-BN) indica, em adolescentes, vantagens de curto prazo moderadas a grandes em relação à terapia cognitivo-comportamental (TCC) individual (14). A abstinência de compulsões e purgações foi alcançada ao fim do tratamento por 39 a 44% de quem participou do FBT-BN, contra 20 a 25% nos grupos de TCC-A (14). No seguimento de um ano, as diferenças diminuíram, mas o FBT manteve taxas mais altas de engajamento parental e de adesão. Ainda assim, o FBT-BN deve ser entendido como uma adaptação promissora, atenta ao desenvolvimento, e não como um padrão de evidência plenamente equivalente. A TCC-E continua sendo o tratamento mais bem fundamentado em evidências no caso da BN.
No transtorno alimentar restritivo/evitativo (ARFID), as abordagens orientadas para a família estão em um estágio mais inicial de desenvolvimento clínico e empírico. As primeiras séries de casos e estudos-piloto sugerem que adaptar os princípios do tratamento baseado na família ao ARFID (em especial o apoio parental à exposição a alimentos temidos e a redução da evitação) pode facilitar a reabilitação nutricional e a melhora funcional (19). Os ensaios controlados, porém, continuam escassos, e a heterogeneidade das apresentações do ARFID dificulta a padronização. As intervenções familiares atuais para o ARFID devem, portanto, ser vistas como modelos emergentes, apoiados em uma lógica clínica e em evidências preliminares, e não como protocolos estabelecidos e baseados em evidências.
Além da eficácia, a pesquisa examinou os mecanismos de mudança das abordagens familiares. O ganho de peso precoce, nas quatro primeiras semanas de FBT, prediz fortemente a remissão completa e uma recuperação duradoura (18, 23). As análises de mediação apontam a autoeficácia parental, a redução da emoção expressa e uma coesão familiar reforçada como motores centrais dos desfechos (24–26). As famílias caracterizadas por menos críticas, menor tempo de doença e uma aliança parental unida são as que respondem melhor (24–26).
Por outro lado, uma psicopatologia parental importante ou conflitos intrafamiliares podem dificultar o progresso; essas famílias podem se beneficiar de formatos só com os pais ou multifamiliares (15, 18, 26). A postura terapêutica de neutralidade e de empoderamento parece decisiva para manter o engajamento e, ao mesmo tempo, evitar a culpabilização (7–9).
Uma das evoluções mais recentes do FBT (desde 2010) é a terapia multifamiliar (MFT), desenvolvida por Eisler e Asen no Maudsley Hospital para intensificar o trabalho sistêmico e combater o isolamento das famílias que enfrentam transtornos alimentares (27). Várias famílias participam juntas de sessões de grupo que combinam psicoeducação, dramatizações e diálogo reflexivo. As famílias percebem paralelos com as dificuldades das outras, o que favorece a normalização e a resolução coletiva de problemas.
Um ECR pragmático multicêntrico (12) mostrou desfechos de peso comparáveis entre a MFT e o FBT com uma única família, mas melhoras superiores na comunicação, no funcionamento familiar geral e na satisfação com o tratamento. Estudos observacionais posteriores constataram que a MFT beneficia famílias com alta emoção expressa ou às voltas com uma doença crônica (24, 25, 27). Modelos híbridos que combinam a MFT com sessões só com os pais melhoraram ainda mais a viabilidade nos serviços ambulatoriais (20).
As intervenções orientadas para a família começam por uma avaliação detalhada da organização familiar, da motivação e do risco médico. A terapia deixa claro que os pais não são culpados pelo transtorno, mas parceiros indispensáveis da recuperação. A psicoeducação reenquadra o transtorno alimentar como um inimigo externo e compartilhado. As primeiras sessões costumam incluir uma refeição familiar acompanhada, que permite observar a dinâmica e orientar condutas de alimentação que deem apoio (15).
As estratégias terapêuticas centrais incluem a externalização da doença, o reforço da unidade parental e a devolução gradual da autonomia à pessoa adolescente (15, 27). A postura terapêutica é de empatia firme: diretiva no manejo dos comportamentos, mas respeitosa das necessidades do desenvolvimento. O questionamento circular e o reenquadramento convertem a culpa em curiosidade, transformando padrões familiares rígidos em colaboração adaptativa (7).
Quem conduz a terapia encontra com frequência ambivalência, resistência ou alta ansiedade nos pais e em adolescentes. Enfrentar esses desafios implica validar o sofrimento emocional mantendo as expectativas comportamentais. O esgotamento parental, o ressentimento dos irmãos e as tensões conjugais podem exigir sessões temporárias por subsistema ou articulação com serviços de apoio. Para famílias com hostilidade persistente ou comorbidade psiquiátrica, um tratamento complementar centrado nos pais (8) ou formatos multifamiliares (27) podem melhorar os desfechos.
Na fase final, a terapia se concentra em consolidar os ganhos e elaborar planos de prevenção de recaídas. As famílias identificam sinais precoces de alerta, reforçam estratégias de enfrentamento e agendam sessões de reforço aos três e aos seis meses. A ênfase passa do monitoramento do comportamento alimentar para a comunicação, a autonomia e o desenvolvimento da identidade, marcadores de uma recuperação sustentável (15, 17, 27).
O endosso da terapia familiar nas diretrizes britânicas do NICE (28) e no padrão de acesso e tempo de espera do NHS England (29) institucionalizou o tratamento sistêmico nos serviços nacionais. O FBT comunitário reduziu as internações e encurtou as permanências hospitalares, gerando economias substanciais (17, 20). Em muitos países, os modelos de cuidado escalonado priorizam o FBT ambulatorial para adolescentes clinicamente estáveis e reservam a internação para os casos agudos (26, 30).
A implementação em larga escala exige formação e supervisão formais para garantir a fidelidade. Os estudos mostram que, com supervisão estruturada, equipes clínicas comunitárias conseguem aplicar o FBT com eficácia comparável à dos centros acadêmicos (30). Adaptações recentes em telessaúde (31, 32) e programas de orientação on-line levam o cuidado baseado na família a regiões mal atendidas, sem perda de eficácia.
A inovação digital está transformando a área. O FBT a distância e os programas híbridos on-line ampliaram o acesso mantendo a fidelidade clínica (32). Plataformas de psicoeducação na internet ajudam os pais a aprender habilidades de realimentação e a acompanhar o progresso entre as sessões. Os primeiros estudos de desfecho mostram resultados comparáveis aos do tratamento presencial quando o contato terapêutico e o monitoramento se mantêm constantes (31).
A seção a seguir adota uma perspectiva teórica e geradora de hipóteses para explorar as possíveis ligações entre o apoio familiar, os processos de realimentação e os circuitos neurais nos transtornos alimentares. Embora achados emergentes das neurociências e da psicofisiologia forneçam correlatos sugestivos, essas formulações devem ser entendidas como integrações conceituais, e não como mecanismos empiricamente estabelecidos.
Estudos de neuroimagem demonstraram alterações nos circuitos de recompensa e de ansiedade em pessoas com anorexia nervosa e condições relacionadas, sobretudo nas vias dopaminérgicas e límbicas que influenciam a motivação e a regulação emocional (33, 34). Pouco se sabe, porém, sobre como o apoio social, especialmente o dos membros da família, modula esses sistemas neurais em tempo real. Quadros teóricos da neurobiologia interpessoal e da teoria do apego propõem que a sintonia relacional e a corregulação favorecem estados neurofisiológicos de segurança, podendo influenciar o funcionamento dos circuitos ligados à recompensa e dos que respondem ao estresse (35–37). As evidências empíricas também ressaltam a importância do funcionamento familiar e da qualidade relacional percebida nos desfechos dos tratamentos dos transtornos alimentares (38). Uma via promissora para a pesquisa futura é, portanto, investigar se interações familiares de apoio e emocionalmente sintonizadas durante a realimentação (42) se associam a mudanças mensuráveis na atividade neural em regiões ligadas à recompensa, como o estriado ventral e o córtex orbitofrontal, e em regiões ligadas à ansiedade, como a amígdala e a ínsula. Esses estudos poderiam aproximar os modelos psicossociais e neurobiológicos dos transtornos alimentares, trazendo uma compreensão nova de como os processos interpessoais contribuem para a recuperação e a resiliência no plano neural. A pesquisa futura poderia, por exemplo, descobrir que uma terapia familiar bem-sucedida envolve uma mudança tanto corporificada quanto cognitiva: as famílias poderiam “aprender” novos padrões fisiológicos de conexão que reforçam a recuperação. Por ora, essas supostas ligações entre processos familiares e regulação neural continuam em grande parte não testadas no nível dos mecanismos e devem ser vistas como direções para uma futura pesquisa interdisciplinar, e não como modelos explicativos sustentados por evidências causais diretas.
A terapia orientada para a família transformou o tratamento dos TA ao redefinir os pais como parceiros terapêuticos, e não como fontes de patologia. Seus pontos fortes incluem um foco comportamental claro, a replicabilidade e a coerência com a teoria do desenvolvimento. Além disso, o FBT e a MFT alcançam desfechos duradouros em sistemas de saúde variados, e sua manualização permite uma expansão com boa relação custo-efetividade (17, 27, 43).
Ainda assim, persistem desafios. As conclusões dessa literatura sobre a “superioridade” de um tratamento devem ser entendidas como referentes sobretudo aos desfechos clínicos, e não à aceitabilidade comparada ou à experiência das famílias, que continuam sendo avaliadas de forma menos sistemática na maioria dos estudos. Por conseguinte, a eficácia do FBT é mais sólida em adolescentes com anorexia nervosa, com tempo de doença relativamente curto e estrutura familiar intacta (26). Sua efetividade em adultos, em casos crônicos ou em famílias culturalmente diversas está menos estabelecida (39, 40). Parte da clínica se pergunta se o FBT não dá pouca ênfase ao processamento emocional ou ao desenvolvimento da autonomia e propõe integrá-lo à terapia familiar focada nas emoções (Emotion-Focused Family Therapy) (41) ou a módulos de terapia cognitivo-comportamental aprimorada (TCC-E) (44). Os refinamentos em curso buscam equilibrar rigor comportamental, profundidade emocional e sensibilidade cultural.
A adaptação cultural é uma fronteira decisiva. Ensaios realizados no Leste Asiático e na América Latina destacam valores coletivistas e o envolvimento de várias gerações, o que exige ajustar os pressupostos ocidentais sobre a autoridade parental e a individuação (39). A tradução e a adaptação local dos manuais, dos padrões de supervisão e dos conteúdos digitais continuam sendo prioridades para uma difusão global.
Trabalhos emergentes buscam personalizar as intervenções familiares por meio de abordagens da medicina de precisão. A modelagem preditiva poderá em breve ajustar a intensidade do tratamento aos perfis de risco iniciais, à psicopatologia parental e à dinâmica familiar (20). Quadros integrativos que combinam as perspectivas sistêmica, do apego e neurobiológica podem esclarecer como as interações familiares regulam a fisiologia do estresse e reforçam os comportamentos de recuperação.
A próxima geração de pesquisas deve privilegiar o seguimento longitudinal, o teste de mecanismos e os desfechos econômicos em saúde. Os programas de formação precisam incluir não só a adesão aos protocolos, mas também competências de conceituação sistêmica e sensibilidade aos fatores culturais e de desenvolvimento. Os modelos híbridos de telessaúde prometem ampliar o alcance mantendo a aliança terapêutica (32). A inovação digital já molda a oferta de cuidados. O FBT a distância e os formatos híbridos on-line preservam a fidelidade do tratamento e ampliam a acessibilidade. Os primeiros dados mostram não inferioridade em relação ao FBT presencial quando se mantêm a supervisão estruturada e o monitoramento. Essas abordagens são essenciais para chegar às famílias distantes dos centros especializados. Em última análise, a terapia orientada para a família do futuro provavelmente combinará saberes relacionais, tecnológicos e biológicos em um sistema de cuidado unificado e flexível (38).
Das formulações sistêmicas de Mara Selvini Palazzoli e Salvador Minuchin às intervenções atuais baseadas em evidências, como o FBT e a MFT, a terapia orientada para a família revolucionou o tratamento dos transtornos alimentares, em especial o da anorexia nervosa na adolescência. As extensões a outros diagnósticos, como a BN, o ARFID, os transtornos alimentares em adultos e os transtornos alimentares crônicos, continuam emergentes, e a eficácia do tratamento orientado para a família nesses grupos diagnósticos precisa ser mais pesquisada no futuro próximo. Isso significa que as aplicações transdiagnósticas são promissoras, mas desigualmente sustentadas por evidências.
Outra limitação importante da presente síntese diz respeito à concentração contextual da base de evidências. A maioria dos ensaios randomizados, dos estudos de implementação e das publicações que definiram diretrizes sobre o tratamento baseado na família provém de sistemas de saúde ocidentais de alta renda e se apoia em pressupostos culturais que valorizam a família nuclear, a autoridade parental e o acesso a serviços ambulatoriais especializados. Por isso, a viabilidade, a aceitabilidade e a efetividade desses modelos podem ser moduladas pelas normas culturais, pela organização familiar e pela infraestrutura de saúde em contextos não ocidentais ou com poucos recursos. Embora as adaptações emergentes em contextos diversos sejam promissoras (39, 40), a generalização para além dos ambientes de cuidado em que esses modelos foram desenvolvidos deve ser interpretada com a devida cautela.
Embora a terapia orientada para a família seja solidamente sustentada pela pesquisa clínica e de desfechos, os avanços das neurociências e de áreas afins poderão oferecer no futuro oportunidades para refinar os modelos teóricos da mudança. Por ora, essas perspectivas neurobiológicas continuam complementares e exploratórias, e não constitutivas da base de evidências que sustenta as intervenções familiares. A colaboração entre pesquisa, clínica e as próprias famílias permitirá que a área continue evoluindo rumo a modelos de recuperação mais inclusivos, personalizados e eficazes.
Complexe Systémique: a reter
Esta revisão vale tanto como testemunho quanto como síntese: vem de alguém que ajudou, nos anos 1980, a fazer a família passar do lugar de causa ao de recurso. Para a clínica sistêmica, o interesse é duplo. Primeiro, ela mostra a filiação entre o modelo de Milão, a terapia estrutural e o tratamento baseado na família, muitas vezes apresentado como uma ruptura “comportamental” com a sistêmica. Depois, é honesta quanto aos limites: a superioridade do tratamento familiar está estabelecida sobretudo para a anorexia da adolescência, de início recente, em famílias intactas e países ricos; para adultos, formas crônicas, bulimia ou ARFID, as evidências são escassas. Pode-se lamentar que a experiência das famílias, e a de adolescentes, seja tão pouco medida, e receber com cautela a hipótese neural, que o próprio texto apresenta como especulativa. Fica uma bússola útil: a postura não culpabilizante, a externalização e o trabalho sobre a aliança parental são gestos sistêmicos, não meras técnicas de realimentação. Para ler junto com a metanálise sobre o tratamento baseado na família para a anorexia nervosa e com o artigo sobre a escola de Milão na terapia familiar sistêmica.
Notas do original
Edição científica. Camillo Loriedo, Istituto Italiano di Psicoterapia Relazionale (IIPR), Itália.
Revisão por pares. Juan Moisés De La Serna, Universidade Internacional de La Rioja, Espanha; Atsurou Yamada, Universidade Municipal de Nagoya, Japão.
Abreviaturas. AN, anorexia nervosa; ARFID, transtorno alimentar restritivo/evitativo; BN, bulimia nervosa; CBT (TCC), terapia cognitivo-comportamental; CBT-A (TCC-A), terapia cognitivo-comportamental para adolescentes; CBT-E (TCC-E), terapia cognitivo-comportamental aprimorada; ED (TA), transtorno alimentar; FBT, tratamento baseado na família; FBT-BN, tratamento baseado na família para a bulimia nervosa; MFT, terapia multifamiliar; NICE, National Institute for Health and Care Excellence; NHS, National Health Service; RCT (ECR), ensaio clínico randomizado.
Contribuições. JV: redação do rascunho original, revisão e edição.
Conflitos de interesse. Este trabalho foi realizado na ausência de qualquer relação comercial ou financeira que pudesse ser interpretada como potencial conflito de interesse.
Inteligência artificial generativa. A pessoa que assina o artigo declara não ter usado IA generativa na redação deste manuscrito. Qualquer texto alternativo que acompanhe as figuras foi gerado pela Frontiers com o apoio de inteligência artificial.
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Tradução não oficial em português de A terapia baseada na família nos transtornos alimentares: do modelo de Milão às evidências atuais, de Johan Vanderlinden, Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, vol. 5 (2026), doi: 10.3389/frcha.2026.1765146, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença. Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.
Tradução não oficial para o português de “Family-based therapy for eating disorders: from the Milan model to contemporary evidence”, publicado em Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry (2026) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.
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Vanderlinden, J. (2026). A terapia baseada na família nos transtornos alimentares: do modelo de Milão às evidências atuais (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/a-terapia-baseada-na-familia-nos-transtornos-alimentares-do-modelo-de-milao (Obra original publicada em 2026 em Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, 5, 1765146 (2026); republicada em 2026 por Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry, https://www.frontiersin.org/journals/child-and-adolescent-psychiatry/articles/10.3389/frcha.2026.1765146/full)
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