Australian and New Zealand Journal of Family Therapy · Terapia familiar

Rompendo a “cultura do silêncio”: o olhar de terapeutas sobre a psicoterapia sistêmica culturalmente sensível em contextos sociopolíticos contestados. Um estudo de caso na Irlanda do Norte

Na Irlanda do Norte, décadas de conflito sectário ensinaram as pessoas a calar a própria identidade. Christiana Young e Suzanne Mooney, da Queen’s University Belfast, entrevistaram cinco profissionais de psicoterapia sistêmica sobre sua prática com famílias racializadas: esse silêncio se prolonga na sessão, a branquitude continua pouco explorada e certos princípios sistêmicos freiam a conversa sobre “raça”. As autoras defendem ir além da sensibilidade cultural, rumo a uma prática antirracista.

Autoras Christiana Young e Suzanne Mooney (School of Social Sciences, Education and Social Work, Queen’s University Belfast, Reino Unido)Primeira publicação Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 10 de julho de 2024Tradução Complexe Systémique, tradução não oficial

Tradução não oficial em português. Este artigo é a tradução de Rompendo a “cultura do silêncio”: o olhar de terapeutas sobre a psicoterapia sistêmica culturalmente sensível em contextos sociopolíticos contestados. Um estudo de caso na Irlanda do Norte, de Christiana Young e Suzanne Mooney, publicado na Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (Wiley) (2024), doi: 10.1002/anzf.1599, sob licença CC BY 4.0. Tradução realizada pelo Complexe Systémique em setembro de 2026: o texto original foi traduzido para português e reformatado, o que constitui uma modificação da obra nos termos da licença. As duas tabelas são apresentadas em forma de listas, e os pontos-chave aparecem no quadro do resumo; as pessoas entrevistadas são identificadas pelo número da entrevista; o apêndice on-line (roteiro de entrevista) não foi reproduzido. Esta tradução não foi feita nem pelos autores nem pelo editor, que não respondem pelo seu conteúdo nem por eventuais erros. A versão original prevalece.

Explorar a branquitude e o privilégio branco é uma exigência crucial da prática antirracista.

Christiana Young e Suzanne Mooney

Resumo

Acontecimentos nacionais e internacionais recentes lançaram luz sobre as desigualdades estruturais e o racismo institucionalizado, reacendendo uma luta contemporânea pela igualdade e levando a comunidade sistêmica do Reino Unido a reafirmar seu compromisso com a justiça social e o antirracismo. Este artigo prepara o terreno examinando como a teoria e a pesquisa sistêmicas abordaram historicamente a desigualdade racial e a prática intercultural, antes de descrever um estudo qualitativo pequeno, mas pioneiro, que explorou a prática da sensibilidade cultural por meio de entrevistas em profundidade com cinco profissionais de psicoterapia sistêmica com longa experiência na Irlanda do Norte (IN). Embora confirmem algumas semelhanças com outras regiões do Reino Unido, surgiram diferenças sutis, provisórias mas importantes, no contexto da IN, dada sua longa história de divisão sectária, conflito político e imigração mais limitada. O “silêncio” autoimposto em relação à própria identidade religiosa ou cultural, no contexto do conflito político da IN, surgiu como tema-chave, ao lado de uma branquitude pouco explorada nas pessoas terapeutas, de paradoxos teóricos que alimentam sua reticência e dos benefícios terapêuticos percebidos de explorar as diferenças culturais e a experiência vivida do racismo. As limitações e implicações do estudo são discutidas, apontando a necessidade de novas pesquisas e de esforços renovados (na teoria, na formação e na prática) para ajudar terapeutas a romper a “cultura do silêncio” em seu contexto sociopolítico local e a enfrentar desigualdades sociais mais amplas.

Pontos-chave

  • Compreender o impacto generalizado das desigualdades estruturais na vida das comunidades negras e das minorias étnicas racializadas é essencial para uma psicoterapia familiar e sistêmica ética.
  • A teoria e a prática sistêmicas tenderam a considerar as questões de “raça” e etnia sobretudo como questões de “diferença” no intercâmbio intercultural, com atenção mais limitada às desigualdades estruturais.
  • Uma formação vivencial, ancorada no contexto sociodemográfico local de quem está em formação, é considerada essencial para promover a compreensão da interseccionalidade e das relações de poder e para desenvolver uma capacidade de reflexividade crítica e de sintonia sociocultural.
  • Explorar a branquitude e o privilégio branco é identificado como uma exigência crucial da prática antirracista.
  • Dispor-se a reconhecer diretamente a experiência do racismo e da injustiça social na prática clínica oferece às pessoas negras e racializadas atendidas espaços terapêuticos que exploram as possibilidades de mudança, em vez de reforçar involuntariamente a opressão.

Introdução

Este artigo se baseia em um estudo de mestrado pequeno, mas pioneiro, que explorou a prática da sensibilidade cultural na psicoterapia sistêmica na Irlanda do Norte (IN), jurisdição contestada do Reino Unido, com uma longa história de divisão sectária e conflito político e uma experiência de imigração mais limitada do que as demais jurisdições do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, País de Gales). A sensibilidade cultural é uma questão relevante para a prática psicoterapêutica contemporânea, já que acontecimentos nacionais e internacionais recentes voltaram a iluminar a história britânica de escravidão, colonialismo e racismo sistêmico. Entre esses acontecimentos estão o uso aberto de uma retórica xenófoba no período que antecedeu o referendo de 2016 sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, que levou a um aumento dos crimes de ódio contra as comunidades negras e as minorias étnicas racializadas1 no Reino Unido (Booth 2019), e o escândalo Windrush, em que pessoas negras de cidadania britânica, vindas sobretudo do Caribe e chegadas ao Reino Unido entre 1948 e 1973 para suprir a falta de mão de obra do pós-Segunda Guerra Mundial, tiveram negado ilegalmente o direito ao trabalho, à moradia, à saúde e à assistência social e, em alguns casos, foram detidas ou deportadas (Williams 2020). A pandemia global de covid-19 expôs ainda mais o impacto das desigualdades estruturais e do racismo sistêmico, com as comunidades negras, asiáticas e de minorias étnicas2 super-representadas nas taxas de infecção e de morte (Patel et al. 2020) e visadas de forma desproporcional pelas multas por descumprimento do lockdown (Currenti e Flatley 2020). Esses acontecimentos, somados ao ressurgimento mundial do movimento Black Lives Matter (BLM) após o assassinato racista de George Floyd sob custódia da polícia nos Estados Unidos, assistido por milhões de pessoas no mundo em maio de 2020, mobilizaram muitas pessoas e organizações, incluindo a comunidade sistêmica do Reino Unido, a confirmar seu compromisso com a justiça social e o antirracismo (AFT statement BLM 2023; Dreyer et al. 2020; Joseph-Salisbury et al. 2020; Kelly et al. 2020; Lebow 2020). Mas como esses compromissos se expressam na teoria e na prática sistêmicas?

A resposta da teoria sistêmica à prática intercultural e à desigualdade racial ao longo do tempo

A teoria sistêmica se debate há muito tempo com a diferença cultural e a desigualdade racial, desde o estudo etnográfico de Bateson sobre o povo iatmul da Nova Guiné, nos anos 1920 (Bateson 1958), até a mudança de paradigma fundadora da primeira para a segunda ordem, no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980 (Goolishian e Anderson 1992; Hoffman 1985). Esses desenvolvimentos teóricos destacaram a importância crucial do contexto cultural para as relações sociais, com atenção crescente ao self da pessoa terapeuta, às desigualdades sociais e às diferenças de poder no trabalho terapêutico, incluindo “raça”, cultura e classe social (Krause 1995; McIntosh 1998; Waldegrave e Tamasese 1993; White e Epston 1990). A teoria crítica da raça reconhece a “raça” como uma construção política e social (Delgado e Stefancic 2000); as aspas usadas ao longo deste artigo assinalam essa contestação.

Até hoje, a prática intercultural foi abordada sobretudo pela evolução de vários referenciais-chave. A primeira grande resposta teórica foi o desenvolvimento do conceito de “competência cultural”, surgido primeiro na literatura de serviço social nos Estados Unidos (Green 1982; McKenzie 2008) e adotado pela comunidade sistêmica para descrever um objetivo importante de formação: ensinar a consciência cultural pela aquisição de conhecimentos sobre as tradições e práticas de diversos grupos culturais (Hardy e Laszloffy 1995). Esse referencial foi depois criticado por não captar a complexidade cultural, por apresentar as comunidades negras e racializadas como amplamente homogêneas (Kourgiantakis e Bogo 2017) e por definir a desigualdade simplesmente como “diferença”, sem despertar uma consciência crítica sobre a origem e a manutenção dos sistemas discriminatórios (Kelly et al. 2020; Krause 2022). Além disso, o grupo étnico dominante (geralmente branco3) tendia a ser representado como sem etnia, de modo que alcançar a competência cultural passava a significar aprender sobre outras culturas, em vez de exercer a autorreflexividade (Kumas-Tan et al. 2007). Considerava-se que essa “alterização” das pessoas negras e de minorias étnicas racializadas corria o risco de se tornar uma prática colonizadora, fortalecendo, reforçando e reproduzindo involuntariamente as diferenças de poder da sociedade (Lago 2006; Nolte 2007; Ryde 2009). Em resposta a essas críticas, surgiu um segundo conceito, a “sensibilidade cultural”, para descrever a capacidade afetiva da pessoa terapeuta de responder “emocionalmente aos estímulos com respeito e delicadeza” (Hardy e Laszloffy 1995, p. 228). Os modelos de prática colaborativa enfatizaram a necessidade crucial da autoconsciência de terapeutas para permitir a exploração das diferenças culturais a partir de uma posição de autorreflexividade (Halevy 1998; Hardy e Laszloffy 1995; McGoldrick e Hardy 2008). De fato, a autorreflexividade de terapeutas é considerada crucial nas conceituações recentes de sensibilidade cultural, que lhes pedem que “se voltem para [si] na tentativa de encontrar uma orientação sobre como se posicionar em relação aos outros” (Krause 2012, p. xxii). Gabb e Singh (2015, p. 210) propõem que terapeutas exerçam uma “reflexividade crítica” sobre semelhança e diferença, enquanto Daniel (2012) defende uma “reflexividade cultural” que permita o envolvimento com “aspectos da ‘alteridade’ e da diferença” (p. 92).

O referencial social GGRRAAACCEEESSS de Burnham (Burnham 1993, 2012) foi adotado pela comunidade sistêmica do Reino Unido para considerar as múltiplas dimensões sociais da experiência vivida, tanto das pessoas atendidas quanto de quem atende. Elas incluem questões como gênero, geografia, “raça”, religião, idade, capacidade, aparência, cultura, classe ou casta, educação, emprego, etnia, espiritualidade, sexualidade e orientação sexual, que se entrelaçam para moldar identidades e funcionam como fontes de marginalização ou de privilégio na vida das pessoas, o que a literatura sociológica chama de interseccionalidade (Crenshaw 2017). A persistência do abuso de poder e de privilégio na sociedade, porém, levou trabalhos teóricos sistêmicos recentes a defender que é preciso ir além (Krause 2022), com a formulação de uma abordagem transformadora de terceira ordem, em que a aspiração à justiça social é explicitamente integrada ao discurso terapêutico por meio de uma sintonia sociocultural ampliada (McDowell et al. 2017, 2019).

Pesquisa sistêmica e sensibilidade cultural

Embora esses debates deem uma ideia da atenção dada à teoria e à prática da sensibilidade cultural na psicoterapia sistêmica, buscas em bases de dados eletrônicas mostram uma notável escassez de pesquisa empírica no Reino Unido. Apenas 10 estudos publicados foram localizados em uma revisão de escopo inicial (Arksey e O’Malley 2005), com três grupos de conceitos (“terapia familiar”; “terapia culturalmente sensível”; “minorias étnicas”) em um período de 15 anos (2007-2022) (Collins 2022; Cottrell-Boyce 2022; Fox et al. 2017; Pakes e Roy-Chowdhury 2007; Pandya e Herlihy 2009; Singh 2009; Teh e Lek 2018; Ugazio et al. 2022; Wallis e Singh 2014; Yon et al. 2018). Chama a atenção que todos os estudos tenham sido realizados na Inglaterra, sem nenhuma pesquisa empírica identificada no País de Gales, na Escócia ou na IN. Além disso, em 9 dos 10 estudos, ao menos uma das pessoas autoras era ela própria de origem negra ou de minoria étnica racializada, o que leva a perguntar se essas questões continuam sendo uma preocupação minoritária. Os estudos incluídos eram todos qualitativos e tendiam a ser de pequena escala (no máximo 11 participantes), com três estudos de caso único. A maioria dos artigos se concentrava, de modo geral, em como a diferença cultural entre terapeuta e cliente afeta a aliança e o engajamento terapêuticos, enquanto dois examinavam as construções e encenações da branquitude e do privilégio branco na terapia (Cottrell-Boyce 2022; Wallis e Singh 2014). A análise dos artigos incluídos identificou um conjunto de temas pertinentes (ver a Tabela 1 para uma síntese).

Tabela 1 — Quadro-síntese dos artigos incluídos

Para cada estudo: título (em inglês), autoria, ano e local do estudo; objetivo; metodologia; participantes e critérios de inclusão; resultados e temas relevantes.

  • Welcome to the motherland. An exploration into how experience is storied through generations of African Caribbean immigrants, Collins, J. (2022), Reino Unido (Inglaterra). Objetivo. Explorar as formas como famílias afro-caribenhas se comunicam entre si e com o mundo exterior no contexto pós-migração. Metodologia. Qualitativa, abordagem narrativa; entrevistas semiestruturadas. Participantes. n = 16: 7 famílias de duas gerações, migrantes do Caribe (incluindo Jamaica, Trinidad, São Vicente, Antígua), que criaram filhos na Inglaterra. Resultados. As pessoas participantes não nomeavam explicitamente o racismo, a opressão ou a política, embora o contexto racializado e cultural fosse parte integrante de sua vida; cabe, portanto, a quem atende fazê-lo. A importância de explorar o colonialismo com pessoas negras atendidas que foram afetadas pelo trauma do domínio colonial. Profissionais da prática sistêmica precisam adotar uma “posição anticolonial”, o que exige uma espécie de “autorreflexividade ampliada”.
  • Addressing White privilege in family therapy: a discourse analysis, Cottrell-Boyce, J. (2022), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Explorar o pensamento e o posicionamento de terapeutas em relação ao privilégio branco e questionar como a lente do privilégio branco pode influenciar o sentido que damos à vida de quem atendemos, nossa prática clínica e a relação terapêutica. Metodologia. Qualitativa; 4 entrevistas semiestruturadas; análise foucaultiana do discurso. Participantes. Terapeutas (n = 4): dois homens britânicos brancos, uma mulher norte-americana branca, uma mulher britânica negra. Resultados. A “cegueira de cor” e a “sinalização de virtude” (virtue signalling), sustentadas pela “ansiedade racial”, são identificadas como obstáculos para abordar o privilégio branco no domínio terapêutico. Quando o tema do privilégio branco era trazido por terapeutas do grupo branco, ajudava a “criar conexão” e “compreensão mútua”. É essencial nomear e explorar a “raça” por meio da “assunção de riscos relacionais” como forma de contestar o privilégio branco.
  • The role of cultural factors in engagement and change in multisystemic therapy (MST), Fox, S., Bibi, F., Millar, H. e Holland, A. (2017), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Explorar a experiência da terapia multissistêmica (MST) de pessoas cuidadoras de minorias étnicas e compreender como ela pode influenciar o engajamento, os problemas apresentados e o processo de mudança. Metodologia. Qualitativa, teoria fundamentada; entrevistas individuais semiestruturadas em domicílio; terapeutas e pessoas cuidadoras não tinham a mesma origem étnica. Participantes. Pessoas cuidadoras que receberam MST em 2 serviços de Londres; 7 pessoas cuidadoras (n = 7): 6 mulheres e 1 homem; faixa etária: dos 40 aos 60 e poucos anos; países de origem: Jamaica (1), Ruanda (1), Israel (1), Gana (2), China (1), Irlanda (1). Resultados. Sentir que a própria cultura era compreendida favorecia o engajamento das pessoas cuidadoras e facilitava a aliança terapêutica. As pessoas terapeutas conseguiram ser culturalmente sensíveis ao considerar as diferenças intra e interculturais. A pessoa terapeuta pode atuar como “mediadora cultural”, mediando as duas culturas da família (isto é, ajudando os pais a ver a perspectiva da criança e vice-versa) e negociando as diferenças culturais. As pessoas terapeutas ajudaram a normalizar o comportamento de adolescentes em relação ao que era culturalmente aceitável no contexto do Reino Unido. A etnia e a cultura da pessoa terapeuta eram indiferentes às pessoas cuidadoras se a abordagem fosse respeitosa, embora ter alguém de outra minoria étnica (fora da maioria branca dominante) ajudasse, segundo elas, a se sentirem culturalmente compreendidas.
  • Culturally sensitive therapy? Examining the practice of cross-cultural family therapy, Pakes, K. e Roy-Chowdhury, S. (2007), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Examinar o que torna culturalmente sensíveis as sessões de terapia familiar intercultural com famílias negras e de minorias étnicas (BME). Metodologia. Estudo de caso qualitativo, análise do discurso; estudo de caso único de sessões de terapia familiar intercultural; família e terapeuta não tinham a mesma origem étnica. Participantes. Uma família sudanesa: quatro integrantes do sexo feminino (a mãe, duas filhas jovens adultas e uma filha mais nova). Resultados. Desconstruir com a família o sentido de “cultura” era considerado fundamental para fazer emergir os discursos culturais pertinentes à vida da família, como a transição cultural, isto é, os conflitos de valores culturais que podem ocorrer em famílias migrantes. A autorreflexividade da pessoa terapeuta, examinando os próprios pressupostos culturais e tomando consciência de como eles influenciam a prática, era considerada essencial para uma terapia culturalmente sensível.
  • An exploratory study into how a sample of the British South Asian population perceive the therapeutic alliance in family therapy, Pandya, K. e Herlihy, J. (2009), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Relatar como pessoas britânicas de origem sul-asiática em terapia familiar percebem a aliança terapêutica e comparar essa percepção com os construtos de um instrumento recém-desenvolvido, o System for Observing Family Therapy Alliances. Metodologia. Qualitativa; entrevistas individuais semiestruturadas; análise temática indutiva. Participantes. Pessoas de origem sul-asiática que haviam participado de pelo menos três sessões de terapia familiar em quatro serviços de saúde mental da infância e adolescência ou de adultos; 9 participantes (n = 9): 2 homens e 7 mulheres, de 23 a 51 anos; 6 se identificavam como paquistanesas ou muçulmanas, 2 como britânicas de origem indiana e 1 como de ascendência mista paquistanesa, indiana e iraniana. Resultados. Estabelecer uma sensação de segurança na terapia era visto como fundamental para construir a aliança terapêutica. As pessoas que diziam se sentir seguras e confiar na pessoa terapeuta conseguiam falar sobre questões culturais. Algumas diziam não se sentir seguras quando não sabiam o que seria discutido, inclusive as questões culturais.
  • Constructing ‘the family’ across culture, Singh, R. (2009), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Explorar como “a família” é construída e mencionada em sessões clínicas sistêmicas interculturais e intraculturais. Metodologia. Qualitativa, delineamento de pesquisa socioconstrucionista; análise do discurso das transcrições de 11 sessões de terapia familiar gravadas em vídeo. Participantes. Famílias em terapia familiar em dois contextos clínicos; 7 famílias (n = 7): 4 famílias sul-asiáticas e 3 famílias britânicas brancas. Resultados. As famílias sul-asiáticas e as britânicas brancas construíam “a família” de modo diferente. As famílias sul-asiáticas definiam as fronteiras da família de modo a incluir laços da família extensa e padrões de parentesco, enquanto as famílias britânicas brancas se concentravam em uma família nuclear de duas gerações. Todas as pessoas terapeutas privilegiavam um discurso eurocêntrico da família, como unidade nuclear, de duas gerações e dois pais, baseada em laços biológicos, trabalhassem em contexto intracultural ou intercultural. Recomenda-se que terapeutas examinem seus vieses e pressupostos culturais sobre como pensam a “família”.
  • Culture and reflexivity: systemic journeys with a British Chinese family, Teh, Y. Y. e Lek, E. (2018), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Descrever dois percursos terapêuticos sistêmicos distintos vividos por uma família britânica de origem chinesa, os Chan, em relação à saúde mental. Metodologia. Descrever o processo reflexivo dos percursos terapêuticos. Participantes. Uma família britânica de origem chinesa: mãe, pai e dois filhos ou filhas adolescentes. Resultados. Uma terapia adaptada à cultura ajudou a família a se sentir compreendida e ouvida. A família disse que a nacionalidade chinesa da pessoa terapeuta a ajudou a se engajar na terapia. A importância da reflexividade, mesmo quando há semelhanças e diferenças de nacionalidade, gênero, etnia e valores culturais, ajudou a fortalecer a aliança terapêutica.
  • The ‘Arab spring’ within an intercultural couple: Does the unmentioned ‘racial difference’ matter?, Ugazio, V., Singh, R. e Guarnieri, S. (2022), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Usar uma análise semântica, baseada no modelo das polaridades semânticas familiares (FSPM) de Ugazio e Castiglioni (1998) e de Ugazio (2013), para compreender o conflito amargo do casal. Metodologia. Qualitativa, estudo de caso único com um casal, análise semântica. Participantes. Um casal: uma mulher marroquina negra e um homem dinamarquês branco. Resultados. O tema da “raça” surgiu em quatro ocasiões, mas o casal não o identificou como diferença racial entre os dois, nem disse que algumas interações da parceira com outras pessoas no Reino Unido se deviam à discriminação racial. A pessoa terapeuta não conseguiu nomear as diferenças raciais visíveis no casal. A equipe de pesquisa defende que cabe à pessoa terapeuta encarnar a perspectiva de terceira ordem e dar voz ao não dito, como a “raça” e o racismo, com casais interculturais.
  • Constructions and enactments of whiteness: a discursive analysis, Wallis, J. e Singh, R. (2014), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Explorar os discursos com que pessoas brancas que ensinam ou aprendem psicoterapia sistêmica constroem a branquitude, e os efeitos desses discursos sobre a terapia. Metodologia. Qualitativa, pesquisa-ação; grupos focais: 2 com pessoas em formação, 1 com a equipe docente; 2 conversas reflexivas com um grupo de consultoria de pessoas em formação (de etnias diversas); análise foucaultiana do discurso. Participantes. Pessoas em formação (n = 8) e integrantes da equipe docente (n = 3) de um mestrado em psicoterapia sistêmica; total (n = 11): 6 pessoas brancas britânicas e 5 “brancas de outra origem”; 9 mulheres e 2 homens. Resultados. A branquitude foi denominada uma “norma invisível”. As pessoas participantes foram descritas como demonstrando um “vazio” em relação à própria identidade branca. O privilégio branco era percebido como invisível pelas pessoas participantes brancas britânicas. As pessoas “brancas de outra origem” se dissociavam da ideia de ter privilégio branco, por causa de seu status de grupo minoritário e de suas próprias experiências de preconceito. O “autopoliciamento” e a “ansiedade racial” levavam a um “politicamente correto” pelo qual parte das pessoas em formação e da equipe docente evitava mencionar a cor, por medo de causar dano, o que se pensava favorecer uma abordagem “cega à cor” na prática. Conceitos teóricos de Milão, como a neutralidade, eram vistos como contribuindo para essa abordagem “cega à cor” e limitando as conversas sobre branquitude. Discursos sistêmicos pós-modernos, como o dilema do saber e do não saber, e o medo, entre as pessoas participantes, de “usar uma posição de poder” para definir a pauta eram citados como tensões para uma prática intercultural eficaz, com incerteza quanto ao uso da expertise terapêutica para iniciar conversas sobre cor.
  • Challenging core cultural beliefs and maintaining the therapeutic alliance: a qualitative study, Yon, K., Malik, R., Mandin, P. e Midgley, N. (2018), Reino Unido (Grande Londres). Objetivo. Explorar como terapeutas de um serviço cultural especializado em Londres conseguiram questionar o sistema de crenças culturais fundamentais de uma família enquanto construíam e mantinham uma aliança terapêutica sólida. Metodologia. Qualitativa, estudo de caso único de terapia familiar com uma família, análise temática; entrevista conjunta semiestruturada assistida por vídeo (com recordação do processo interpessoal). Participantes. Um pai (na casa dos 40 anos) e sua filha adolescente, de origem paquistanesa, em terapia familiar com outros membros da família. Resultados. A família relatou que a exploração, por parte das pessoas terapeutas, de seus valores culturais individuais e familiares foi importante. As pessoas terapeutas reconheceram “estressores relacionados à cultura” no trabalho clínico com a família, como a discriminação que a família sentia por parte dos serviços (sobretudo no contexto da proteção à infância) e as dificuldades conflituosas da dupla cultura entre pais e filhos. As pessoas terapeutas descreveram tolerância e aceitação das crenças da família que diferiam das suas, o que se pensava abrir espaço para exploração e questionamento. A “reflexividade cultural” foi identificada como essencial para promover a consciência das pessoas terapeutas sobre suas construções e seu posicionamento culturais. Elas conseguiram usar sua consciência das semelhanças e diferenças culturais para engajar a família. A autenticidade, o respeito e a curiosidade das pessoas terapeutas eram essenciais para abordar as questões culturais com sensibilidade.

Este estudo

O estudo no centro deste artigo buscou responder a essas limitações da pesquisa explorando a perspectiva de terapeutas sobre a psicoterapia sistêmica culturalmente sensível na IN, região do Reino Unido onde nenhum estudo havia sido realizado, marcada por um conflito político prolongado, uma divisão sectária persistente e imigração limitada. Esperava-se que esse contexto singular trouxesse novos aprendizados, dada sua grande maioria branca e o fato de a identidade cultural continuar sendo ali uma questão contestada. O estudo foi realizado como dissertação final do mestrado em psicoterapia sistêmica da primeira autora, Christiana Young, na Queen’s University Belfast (Young 2018). A segunda autora, Suzanne Mooney, integra o corpo docente sistêmico da Queen’s University Belfast e orientou o estudo.

Contexto do estudo: a Irlanda do Norte

Na IN, as identidades religiosas, nacionais e culturais costumam se confundir. A IN, jurisdição distinta dentro do Reino Unido, foi criada em 1921 por uma lei britânica em resposta à Guerra de Independência Irlandesa (1919-1921), que buscava pôr fim ao domínio britânico na Irlanda. A fronteira foi traçada em torno de seis condados do nordeste, a parte mais industrializada da Irlanda, com uma maioria protestante e unionista que se identificava como britânica em consequência da colonização do século XVII (Bardon 2011). Esses condados, no entanto, também tinham uma minoria católica, nacionalista e republicana considerável, que se identificava em grande parte como irlandesa e aspirava a uma Irlanda unida (Bardon 2011). A formação da IN foi, portanto, sempre contestada e acompanhada de violência, a favor e contra a partição, e uma segregação mútua informal persistiu entre as duas comunidades principais (McKittrick e McVea 2002, p. 18). Os sucessivos governos unionistas autônomos foram acusados de discriminação sistemática contra a minoria católica, nacionalista e republicana em matéria de moradia, emprego e voto (McKittrick e McVea 2002). As tensões crescentes culminaram em um conflito violento que se agravou e degenerou em 30 anos de violência prolongada, conhecidos como “os Troubles”, que custaram mais de 3.500 vidas e deixaram mais de 50.000 pessoas feridas (Fay et al. 1999; Schiaparelli et al. 2015), com a maior proporção de mortes nas áreas com os mais altos níveis de segregação e privação (Cunningham e Gregory 2014; Mesev et al. 2009). Um processo de paz mediado pelos Estados Unidos levou, em 1998, ao Acordo de Belfast, ou Acordo da Sexta-Feira Santa, entre os governos britânico e irlandês e a maioria dos partidos políticos da IN. No entanto, apesar de um importante desarmamento paramilitar e da reforma da polícia da IN, o sectarismo, as divergências políticas e a violência comunitária (ainda que em nível menor) persistem na IN pós-conflito (Goeke-Morey et al. 2009; McAlister et al. 2013; Nolan 2018).

Há, porém, mudanças em curso no cenário sociodemográfico da IN: segundo o Censo de 2021, divulgado recentemente, a população católica superou pela primeira vez a maioria protestante (NISRA 2022). Os resultados do censo indicam, contudo, questões mais sutis de identidade cultural e nacional, com três grandes grupos distintos: 32% das pessoas se identificam apenas como britânicas, 29% apenas como irlandesas e 20% apenas como norte-irlandesas (NISRA 2022). Esses números ecoam os resultados da Northern Ireland Life and Times Survey (NILT 2021) sobre a identidade comunitária ou religiosa que as pessoas se atribuem e suas atitudes políticas unionistas ou nacionalistas, com sinais de mudança, sobretudo nas faixas etárias mais jovens (por exemplo, 51% das pessoas de 21 a 34 anos não se consideram nem nacionalistas nem unionistas). Ainda assim, a segregação por motivos religiosos (e também de classe social) continua sendo um traço marcante da sociedade da IN, mais acentuado na educação e na habitação social (Hughes et al. 2007; McClements 2018; Roulston e Hansson 2021), com altas taxas de privação social e problemas associados como uso de substâncias, doença mental, suicídio e violência (doméstica, paramilitar, criminal) (Black 2021; Bunting et al. 2012, 2013; Cummings et al. 2009; Doyle e McWilliams 2018; McAlister et al. 2013; Muldoon 2004). Muros altos conhecidos como “linhas de paz”, que separam bairros católicos, nacionalistas e republicanos de bairros protestantes, unionistas e lealistas em zonas de interface sobretudo urbanas, erguidos nos anos 1970 em consequência de distúrbios ou ataques, ainda existem e chegaram até a aumentar em número mais de 20 anos depois do Acordo de Belfast de 1998 (Irish Times 2022; Shirlow e Murtagh 2006).

Quanto às populações negras e de minorias étnicas racializadas, a IN não viveu, depois da Segunda Guerra Mundial, níveis de imigração semelhantes aos do resto do Reino Unido. Mas, nos anos seguintes ao Acordo de Belfast, e em especial desde a entrada dos países bálticos na União Europeia (Gilligan 2019), a população de 1,9 milhão de habitantes da IN se diversificou, a partir de uma base muito baixa. Embora 96,6% da população se identifique como branca, as populações de minorias étnicas dobraram, passando de 1,8% em 2011 (32.400 pessoas) para 3,4% (65.900 pessoas)4 no Censo de 2021 (NISRA 2022), com um aumento correspondente dos incidentes racistas registrados (Gilligan 2019). O Censo de 2021 registrou o maior número já observado de pessoas vivendo na IN nascidas fora do Reino Unido e da Irlanda, que passaram de 4,5% para 6,5% da população (NISRA 2022), e os nascimentos de mães nascidas fora do Reino Unido e da Irlanda representam hoje mais de 13,3% de todos os nascimentos da IN (NISRA 2020). Argumenta-se que as comunidades negras e de minorias étnicas racializadas foram negligenciadas na IN: o sistema político criado pelo Acordo de Belfast para garantir que as duas comunidades principais compartilhem o poder no governo, somado à falta de monitoramento étnico, contribui para a invisibilidade dessas populações na formulação de políticas públicas (House of Commons NI Affairs Committee 2022).

A psicoterapia sistêmica na Irlanda

A psicoterapia sistêmica é oferecida na ilha da Irlanda desde meados dos anos 1970, com a seção norte-irlandesa da Association for Family Therapy (AFT UK) e a Family Therapy Network of Ireland (FTAI) criadas até 1980, respectivamente ao norte e ao sul da fronteira (Carr 2013). Atualmente, há três institutos de formação em psicoterapia sistêmica no total, dois credenciados pela FTAI (University College Dublin; Clanwilliam Institute) e um pela AFT (UK), na Queen’s University Belfast (Boland et al. 2020). Embora haja cerca de 70 registros de profissionais de psicoterapia sistêmica na IN e 300 na República da Irlanda (RI), muitas dessas pessoas trabalham em cargos de enfermagem, serviço social e psicologia, por falta de vagas específicas (Boland et al. 2020; Carr 2013). Na IN, o maior empregador de profissionais de psicoterapia sistêmica é o setor público dos serviços de saúde mental da infância e da adolescência (CAMHS), e um pequeno número de organizações do terceiro setor emprega profissionais de psicoterapia sistêmica por sessão, em tempo parcial ou em tempo integral.

Motivação do estudo

Filha de pais serra-leoneses que migraram para o Reino Unido nos anos 1970, Young cresceu no norte de Londres e viveu o racismo na própria pele. A justaposição da ascendência serra-leonesa com o nascimento britânico fez com que ela vivesse a condição de minoria tanto em Serra Leoa quanto na Inglaterra: vista como parte da diáspora serra-leonesa e, por isso, chamada de inglesa em Serra Leoa, era vista como uma mulher negra na Inglaterra. A complexidade de viver entre duas culturas a acompanhou desde cedo e ajudou a moldar sua noção de identidade. Ao se mudar de Londres para Belfast, Young encontrou um contexto comunitário muito diferente, em que era a única pessoa negra da turma, e todas as demais pessoas do curso eram de origem irlandesa ou britânica branca e tinham crescido na IN ou na RI. Como parte de sua formação sistêmica de qualificação na IN, ela refletiu sobre sua experiência vivida e, a princípio, teve dificuldade em compreender onde as pessoas negras e racializadas “se encaixam” no contexto atual da IN, com sua história marcada por divisões sectárias, conflito político e questões identitárias complexas. Ela tinha consciência de sua condição minoritária na IN, de sua nacionalidade britânica e de sua cor, o que a deixava insegura sobre como abordar com sensibilidade conversas sobre “raça” e etnia nesse novo contexto cultural. Com o avanço da formação, Young percebeu que sustentar com cautela a postura terapêutica da curiosidade (Cecchin 1987), junto com a reflexividade cultural (Daniel 2012) e a assunção de riscos relacionais (Mason 2018), lhe dava a oportunidade de criar espaço para trazer à tona os aspectos raciais, étnicos e culturais de seu “self”, com bons efeitos nos encontros terapêuticos com famílias e em seu grupo de formação. Essas experiências cumulativas de dar “voz” à sua experiência vivida como mulher britânica negra de ascendência serra-leonesa na IN estimularam o interesse de Young em explorar a prática da sensibilidade cultural como tema central de sua dissertação de mestrado. A segunda autora, Mooney, orientou o estudo e trouxe ao projeto uma compreensão aprofundada do contexto sociodemográfico da IN. Ela também havia vivido desafios identitários complexos. Criada na IN em uma comunidade branca, protestante, unionista, lealista e britânica, estudou na Escócia (onde era percebida como irlandesa) antes de voltar à IN e se envolver, jovem adulta, em projetos intercomunitários e formações terapêuticas que buscavam explorar e ampliar o diálogo e o intercâmbio antissectários, com a aspiração de uma nova Irlanda. Hoje ela se identifica como mulher irlandesa branca e ateia. A orientação de pesquisa foi usada para abrir conversas sobre o posicionamento da pesquisadora e da orientadora (Wilson et al. 2022) e sobre a interseção de suas identidades sociais em relação ao contexto da IN (“raça”, cultura, religião, etnia, nacionalidade), o que permitiu uma postura crítica, autorreflexiva e socialmente situada ao longo de todo o processo de pesquisa.

Metodologia

Como se viu, as discussões sobre o que constitui uma prática culturalmente sensível são complexas, sutis e socialmente situadas. Assim, adotou-se uma epistemologia de pesquisa socioconstrucionista, com sua postura crítica diante do conhecimento recebido e sua atenção à linguagem e ao contexto social (Burr 2015; Gergen 1985), para explorar a prática da sensibilidade cultural de profissionais de psicoterapia sistêmica na IN. Entrevistas qualitativas semiestruturadas com pessoas selecionadas foram escolhidas como o método de coleta de dados mais adequado para gerar dados ricos e detalhados (Braun e Clarke 2013) e permitir uma compreensão aprofundada e contextualizada de perspectivas singulares baseadas na experiência vivida (Kvale 1996). A aprovação ética foi concedida pela School of Social Sciences, Education and Social Work da Queen’s University Belfast. Uma estratégia de amostragem intencional (Campbell et al. 2020) buscou recrutar profissionais de psicoterapia sistêmica que atuavam no terceiro setor, como forma de chegar a pessoas elegíveis dentro do prazo restrito da dissertação, dado o processo de aprovação ética mais longo exigido para o recrutamento no setor público. As direções executivas das principais organizações do terceiro setor da IN conhecidas por empregar profissionais de psicoterapia sistêmica foram contatadas para divulgar os materiais de recrutamento do estudo. Cinco pessoas que atendiam aos critérios de inclusão deram seu consentimento informado. Depois do preenchimento de um breve perfil sociodemográfico, Young usou um roteiro de entrevista elaborado sob medida (Patton 2002) (ver o Apêndice S1) para convidar as pessoas participantes a refletir sobre suas próprias origens raciais, étnicas e culturais; descrever experiências de trabalho terapêutico com famílias negras e de minorias étnicas racializadas na IN; desconstruir a expressão “prática culturalmente sensível”; e explorar o que favorece e o que limita os encontros terapêuticos culturalmente sensíveis. Todas as entrevistas foram gravadas em áudio e transcritas na íntegra. Foi realizada uma análise temática “indutiva” dos dados (Frith e Gleeson 2004), orientada pelo guia em seis fases da análise temática de Braun e Clarke (2006). As transcrições foram lidas e relidas para permitir a imersão nos dados, seguidas de uma codificação manual para identificar padrões e temas potenciais (Hardy e Bryman 2004). Um mapeamento visual foi usado para explorar os temas principais e subtemas emergentes presentes no conjunto dos dados. Seguiu-se um processo recursivo entre os dados e o mapeamento temático, com os temas e subtemas renomeados conforme necessário, a fim de oferecer uma narrativa analítica concisa e coerente que buscasse captar a essência das perspectivas das pessoas participantes (Braun e Clarke 2006). Dessa forma, os temas foram descobertos, em vez de encaixados “em um quadro de codificação preexistente” (Braun e Clark 2006, p. 83). Como já foi dito, houve um cuidado especial em reforçar a credibilidade, a transferibilidade, a confiabilidade e a confirmabilidade do estudo (Lincoln e Guba 1985), incluindo um envolvimento crítico com a orientação (Severinsson 2015) e um processo de autorreflexividade (Berger 2015) do início ao fim.

Reflexões sobre “raça” e etnia no processo de pesquisa

Young tinha consciência de sua identidade britânica negra ao conduzir as entrevistas e temia que as pessoas participantes questionassem sua motivação. Para reduzir a probabilidade de que sua identidade funcionasse involuntariamente como barreira ao engajamento das pessoas participantes, ela deixou explícito, durante o recrutamento, que não buscava revelar opiniões preconceituosas nem criticar indevidamente a prática de ninguém. Apesar desses esforços, reconhece-se que sua identidade negra inevitavelmente exerceu alguma influência sobre as respostas, o que pode ter limitado as informações compartilhadas (Gerson e Horowitz 2002). Também é possível, porém, que a diferença visível de Young tenha enriquecido as conversas. Curiosamente, todas as pessoas participantes fizeram referência, em suas entrevistas, à identidade de Young como mulher britânica negra. Sua identidade negra e sua condição de “forasteira” na IN podem ter levado as pessoas participantes a tomar mais consciência de sua branquitude e ofereceram uma oportunidade singular de refletir sobre a prática intercultural no contexto da IN.

Resultados do estudo

No total, foram entrevistadas três mulheres e dois homens com mais de 45 anos. Embora todas as cinco pessoas tivessem crescido na IN, duas se identificavam como irlandesas brancas e três como britânicas brancas. Duas haviam concluído a formação sistêmica de qualificação na IN, duas na RI e uma na Inglaterra, com experiência pós-qualificação de 8 a 15 anos nos setores público, terceiro setor e privado, em assistência social, saúde mental e justiça (nem sempre em cargos de psicoterapia sistêmica). No momento do recrutamento, as pessoas participantes atuavam em psicoterapia sistêmica (por sessão ou em tempo integral) em quatro organizações distintas do terceiro setor, que ofereciam serviços terapêuticos em saúde mental, uso de substâncias e apoio às relações. Duas também relataram atuar em consultório particular. Apesar dessa longa experiência clínica, três pessoas relataram uma prática intercultural muito limitada (estimada em menos de 2% das pessoas atendidas), muito provavelmente por causa do tamanho relativamente pequeno da população negra e de minorias étnicas racializadas na IN. Apenas uma havia trabalhado com intérpretes. A pessoa com mais experiência intercultural (estimada em 30%-40% das pessoas atendidas) havia trabalhado em áreas conhecidas por abrigar comunidades negras e de minorias étnicas racializadas mais numerosas, em razão das oportunidades de emprego para migrantes (NISRA 2020). Quatro temas principais interligados surgiram da análise detalhada das entrevistas: a “cultura do silêncio” na IN; “a branquitude como norma invisível”; paradoxos teóricos que alimentam a reticência de terapeutas; e os benefícios percebidos de explorar as diferenças culturais e a experiência vivida do racismo (ver a Tabela 2 para uma síntese dos temas e subtemas).

Tabela 2 — Temas principais e temas constitutivos

  • A “cultura do silêncio” na IN. A persistência do sectarismo; o sectarismo visto como principal forma de discriminação; a ameaça à segurança pessoal; o medo de um tratamento desigual; uma sensação de medo em revelar abertamente a própria identidade étnica ou nacional; não falar explicitamente do contexto sociopolítico; a sintonia com normas culturais de não falar de si no contexto sociopolítico; a falta de hábito de falar de aspectos de si ligados às identidades culturais e étnicas.
  • A branquitude como norma invisível. Uma IN “insular”; os “Troubles” desestimulando a migração; uma sociedade branca monocultural; a falta de diversidade racial visível; o predomínio das identidades étnicas, unionistas ou nacionalistas, raciais e nacionais britânicas ou irlandesas brancas; a diversidade racial e étnica ausente dos cursos de formação sistêmica na IN e na RI; o foco na religião e nas identidades nacionais; a falta de oportunidades de formação continuada.
  • Paradoxos teóricos que alimentam a reticência de terapeutas. O dilema do “saber”, do “não saber” e do “saber” informado; preocupações com o uso do poder e da expertise; minimizar o poder da pessoa terapeuta; privilegiar a colaboração; adotar uma “posição de baixo”; a postura da humanidade compartilhada; o medo de abordar com as famílias a experiência ou as crenças culturais, raciais ou étnicas; a atenção às crenças e práticas culturais das pessoas atendidas.
  • Benefícios percebidos de explorar as diferenças culturais e a experiência vivida do racismo. A humanidade compartilhada; o sectarismo visto como principal forma de discriminação; uma consciência crescente do racismo; a importância de adotar uma postura antirracista; considerar a experiência vivida do racismo para fortalecer a aliança terapêutica.

Tema 1: a “cultura do silêncio” na IN

Dada a longa história de conflito político, violência sectária e discriminação da IN, todas as pessoas participantes comentaram uma norma cultural de proteger a própria identidade religiosa e cultural, por causa de uma sensação predominante de ameaça à segurança pessoal ou à igualdade de tratamento, preocupações que ainda existem hoje, apesar do Acordo de Belfast (1998) e do fim aparente do conflito (Morrow 2019). Em consequência, quatro das cinco pessoas participantes se perguntaram se a persistência de uma “cultura do silêncio” e a sensação de estar “na defensiva” em relação à própria identidade cultural e étnica não as deixavam reticentes e mal preparadas para iniciar conversas sobre “raça”, cultura e etnia com pessoas negras e de minorias étnicas racializadas atendidas:

… até que ponto a gente sente que pode começar a falar de trabalho multiétnico e essas coisas, quando ainda há tanta desconfiança e divisão em torno das nossas questões sectárias. (entrevista 1)

Curiosamente, cada pessoa participante hesitou e levou bastante tempo para definir suas próprias origens culturais e étnicas, como se essas questões raramente fossem perguntadas ou explicitadas. A falta de hábito de revelar a própria identidade cultural e étnica, e estar “na defensiva” quanto a isso, foi identificado como um obstáculo ao desenvolvimento de uma prática culturalmente sensível. Para uma pessoa participante, essa diferença ficou mais evidente diante da disposição, percebida em eventos de formação sistêmica na Inglaterra, de nomear explicitamente a própria identidade cultural e étnica:

se você vai à Inglaterra para reuniões em que as pessoas… se apresentam como brancas de classe média… Todo mundo aqui pensa, do que é que eles estão falando, a gente só diz o nome, mas também é que, bom… talvez a gente fique desconfortável com essa identidade declarada logo de cara, “isto é o que eu sou”, porque talvez seja preciso nomear coisas que a gente não nomeia nessa cultura do silêncio. (entrevista 1)

As respostas das pessoas participantes levantavam, assim, a questão de saber se, no contexto sociopoliticamente contestado da IN, seria necessário que pessoas em formação e terapeutas “rompessem o silêncio” e começassem por explorar sua história sociopolítica local, seu contexto, suas identidades culturais e suas desigualdades, como forma de se preparar para se envolver com outros povos e com desigualdades mais amplas.

Tema 2: “a branquitude como norma invisível”

Chamou a atenção que a palavra “insular” tenha sido usada pelas cinco pessoas participantes para descrever o contexto da IN e ilustrar como ele foi afetado pela falta de imigração:

A gente tem sido insular aqui… somos uma comunidade muito insular… estamos na costa da Inglaterra e da Grã-Bretanha e ninguém nunca realmente… veio para cá. (entrevista 4)

Considerava-se que a relativa ausência de imigração tinha contribuído para que a IN fosse um “país voltado para dentro”, com o foco nas divisões sectárias e políticas, em vez das questões de “raça” e etnia. Quatro das cinco pessoas participantes relataram que viver em uma sociedade dominada pelas identidades religiosas e nacionais as havia desencorajado ativamente de refletir sobre sua identidade étnica, com a branquitude percebida como uma “monocultura” abrangente, o que ecoa a constatação de Wallis e Singh de “a branquitude como norma invisível” como tema dominante no discurso de terapeutas (Wallis e Singh 2014, p. 46). O aumento mais recente de pessoas negras e de minorias étnicas racializadas na sociedade da IN teria levado uma pessoa participante a refletir sobre sua identidade racial, e especificamente sobre sua branquitude, suscitando uma sensação inédita de exploração:

Acho que eu me vejo como uma pessoa caucasiana… branca no sentido americano… só recentemente me dei conta disso… porque, vivendo numa monocultura, você não precisa realmente pensar sobre si nesses termos. É quando você está… interagindo com outras pessoas de culturas diferentes que começa a pensar, bom, onde eu estou, em que ponto eu estou. (entrevista 5)

As pessoas participantes aproveitaram a oportunidade para apontar os limites vivenciais de suas respectivas formações: apenas uma mencionou explicitamente o termo “autorreflexividade” quando lhe pediram que desconstruísse a expressão “sensibilidade cultural”. Com qualificação obtida entre 8 e 15 anos antes, quatro pessoas participantes consideravam que a formação sistêmica na Irlanda (Norte ou Sul) havia funcionado involuntariamente como barreira ao desenvolvimento de uma prática culturalmente sensível, pois os grupos de formação não eram, segundo elas, etnicamente diversos o bastante para provocar a discussão:

no meu grupo [de formação] todo mundo era branco e não tinha ninguém de outro país ou de outra raça, então acho que não dá para ter uma conversa rica. (entrevista 5)

Uma pessoa participante que se formou na RI comentou que nenhuma família negra ou de minoria étnica racializada havia chegado à terapia nesse período, o que foi percebido como uma limitação à oportunidade de desenvolver suas habilidades para trabalhar com a diferença cultural. Em contraste, a única pessoa que se formou na Inglaterra considerava que seu aprendizado tinha sido enriquecido pela diversidade étnica presente tanto no grupo de formação quanto nas famílias atendidas. De modo mais amplo, para essa pessoa, as premissas da psicoterapia sistêmica precisavam ser repensadas à luz de suas origens brancas:

… a terapia familiar foi em grande parte desenvolvida como um modelo branco, caucasiano… baseado em ideias brancas de quem nós somos, do que nós somos… de como nos comunicamos e do que é uma comunicação boa e útil e do que não é útil, então o desafio é meio que tentar deixar isso de lado. (entrevista 3)

As oportunidades de formação continuada também eram em geral percebidas como limitadas no contexto da IN, e a participação em eventos de formação em contextos geográficos mais diversos etnicamente era considerada essencial para o desenvolvimento profissional.

Tema 3: paradoxos teóricos que alimentam a reticência de terapeutas

Embora todas as pessoas participantes considerassem importante, para uma prática terapêutica eficaz, explorar a experiência vivida das pessoas atendidas, ficou evidente que a ênfase dada à inclusão de considerações culturais e da desigualdade social variava, e as posições contraditórias expressas revelavam certa reticência de terapeutas em abordar esse tema. Ao desconstruir a expressão “prática culturalmente sensível”, as respostas enfatizavam a atenção a como as crenças e práticas culturais das pessoas atendidas afetavam sua vida:

Prática culturalmente sensível significa, para mim, ter consciência ou sensibilidade de que a cultura de outra pessoa é dela e afeta como ela vive a vida, como ela vê o mundo, e por isso você precisa ter consciência disso e depois tentar… trabalhar com isso com sensibilidade. (entrevista 2)

Apesar desse aparente reconhecimento da importância crucial da cultura e da etnia na experiência vivida e na visão de mundo de uma pessoa, paradoxalmente quatro das cinco pessoas participantes expressaram relutância em abordar com as famílias a experiência ou as crenças culturais, raciais ou étnicas, vendo nisso um exercício de poder sobre as pessoas atendidas, ao definir a pauta terapêutica. Em vez disso, destacaram sua preferência por adotar uma “posição de baixo” e uma abordagem de “não saber informado” (Anderson e Goolishian 1992; Laird 1998) em seu envolvimento terapêutico com famílias de minorias étnicas racializadas, como forma de equilibrar expertise e incerteza (Mason 1993). Três pessoas participantes expressaram ainda a preocupação de que um foco na cultura também pudesse levar a uma “reificação da cultura” pouco útil (Pakes e Roy-Chowdhury 2007, p. 286) no contexto terapêutico; uma delas afirmou:

… [a família] não está ali porque tem uma certa etnia… está ali porque precisa de ajuda para refletir sobre o que está acontecendo na vida dela e o que precisa mudar… eu parto do ponto de vista de que ela está aqui por um motivo… e esse motivo não tem nada a ver com onde ela morou antes, ou com quem ela é ou o que ela é nesse sentido… eu presto muito mais atenção na ansiedade que entra na sala e no medo que entra na sala… do que no fato de a pessoa ser croata, polonesa, nigeriana ou o que for, na verdade… talvez não seja a resposta certa, mas essa é a minha primeira preocupação, e depois, sim, eu tento entrar em sintonia, porque existem diferenças e você não quer cometer uma grosseria, nem dizer algo inadequado ou bobo. (entrevista 4)

Chama a atenção que todas as pessoas participantes tenham expressado também a visão de que as dificuldades vividas pelas famílias “transcendem” a cultura, e relatado que os conceitos de universalidade e de “humanidade compartilhada” (Rober e De Haene 2014) funcionavam como guias importantes no trabalho terapêutico com famílias:

Eu adoro a humanidade comum… ela atravessa e transcende a cultura… significa que pode ser mais fácil não se preocupar com a cultura, porque é só humanidade e não uma questão cultural. (entrevista 2)

Essa abordagem corria claramente o risco de relegar a segundo plano a importância das questões específicas de “raça” e etnia, já que as pessoas participantes pareciam pensar a cultura como ligada apenas a certos aspectos da vida das pessoas, em vez de compreender as identidades racializadas e minorizadas como inscritas em toda a experiência vivida e estreitamente ligadas às estruturas de poder dominantes da sociedade. Pode, no entanto, indicar também a preocupação de que um foco explícito da pessoa terapeuta em “raça”, cultura ou etnia fosse percebido pela família como discriminatório. Isso pode sugerir um discurso de “politicamente correto”, identificado por Wallis e Singh (2014) como algo que impede terapeutas do grupo branco de abordar questões de “raça” no domínio terapêutico, por sentimentos de “ansiedade racial” e de “autopoliciamento” (p. 51).

Tema 4: benefícios percebidos de explorar as diferenças culturais e a experiência vivida do racismo

Embora as citações acima indiquem um risco de negar a consideração de “raça”, cultura e etnia no domínio terapêutico, ou de reduzi-la a uma simples “diferença” (em vez de desigualdade), quatro das cinco pessoas participantes relataram, ainda assim, que não deixavam a consideração da “humanidade compartilhada” impedi-las de reconhecer as muitas formas, muitas vezes desvantajosas, como a cultura e a etnia afetam a experiência vivida das pessoas. Foram dados exemplos de como um foco nas diferenças culturais havia sido benéfico para o trabalho terapêutico:

… [a conversa anterior] levou naturalmente à questão de como a família poderia se enriquecer fortalecendo algumas de suas próprias práticas culturais dentro dessa [nova] cultura [da IN]… [ou] havia maneiras de a família pegar emprestado algo dessa cultura [da IN] para ajudar com outros obstáculos que estava enfrentando?… isso trouxe [para o diálogo terapêutico], de forma muito aberta, toda a questão da cultura… fez da cultura uma parte muito presente da conversa. Para mim, essa foi uma das experiências mais enriquecedoras. (entrevista 2)

Para algumas pessoas participantes, a falta de imigração para a IN e o foco no sectarismo como principal sistema discriminatório tinham limitado a consciência social do racismo. Embora as considerações sobre racismo e desigualdades estruturais tenham sido um tema relativamente secundário no conjunto das entrevistas, as cinco pessoas participantes descreveram uma consciência crescente do racismo na IN, que teria aumentado à medida que a presença de comunidades de minorias étnicas se tornava mais visível:

é como a comunidade polonesa quando chegou… não havia problema nenhum, mas quando [a comunidade] começou a crescer… de repente veio toda essa reação contra eles… (entrevista 3)

Considerava-se que essas experiências, quando trazidas à sala de terapia, exigiam que a pessoa terapeuta adotasse uma postura antirracista:

se alguém traz o racismo que está sofrendo, você precisa dessa sensibilidade extra para… trabalhar com isso e para que a pessoa consiga entender que não é ela, é a cultura em que ela se encontra, infelizmente. (entrevista 2)

Considerava-se que essa postura permitia levar em conta a experiência vivida do racismo pelas pessoas atendidas, o que foi descrito como algo que fortalece a aliança terapêutica e facilita a continuidade do diálogo:

Eu com certeza senti que, quando a gente falou sobre [a experiência de racismo das pessoas atendidas]… havia uma aliança terapêutica mais forte, e isso nos permitiu falar de outras coisas. (entrevista 5)

Assim, apesar de referenciais teóricos que podem desencorajar involuntariamente a exploração da diferença cultural, e da relativa falta de formação vivencial, a maioria das pessoas participantes deste estudo reconheceu os benefícios terapêuticos de explorar as diferenças culturais e a experiência do racismo.

Discussão

Acontecimentos recentes como a pandemia de covid-19 e o movimento BLM lançaram luz sobre o impacto do racismo e das desigualdades estruturais na vida cotidiana das pessoas negras e racializadas no Reino Unido. A luta contemporânea para reconhecer e enfrentar a injustiça racial e social ganhou novo fôlego na comunidade sistêmica do Reino Unido: a AFT, órgão de governança da psicoterapia familiar e sistêmica no Reino Unido, divulgou, com o UK Council for Psychotherapy, uma declaração de apoio aos protestos antirracistas, afirmando a intenção de usar sua “plataforma e seus recursos para desempenhar um papel na luta para superar desafios sistêmicos profundamente enraizados… ampliar nossa campanha para evidenciar as disparidades raciais na experiência dos serviços de saúde mental e nos desfechos em saúde mental” (UKCP 2022). A teoria também clama por modelos de prática transformadores, que promovam ativamente a justiça social (Krause 2022; McDowell et al. 2017, 2019). Mas como essas aspirações se concretizam na prática terapêutica em contextos sociopolíticos contestados? E o que isso poderia significar para a formação sistêmica? Este estudo de mestrado pioneiro buscou responder a essas perguntas explorando a prática da sensibilidade cultural com profissionais de psicoterapia sistêmica na IN. Surgiram três áreas de interesse principal, com implicações para a teoria, a pesquisa, a prática e a formação sistêmicas.

A importância de considerar o contexto sociopolítico local e a interseccionalidade nas formações sistêmicas

Embora os resultados do estudo reflitam temas discutidos na pesquisa existente no Reino Unido, talvez sem surpresa, dada a compreensão sistêmica da importância vital do contexto, a localização do estudo na IN trouxe algumas diferenças sutis em relação aos estudos realizados na Grande Londres, bem como possíveis paralelos com outras áreas do Reino Unido e da Irlanda com grandes maiorias brancas. A ausência de imigração significativa para a IN levou a uma sensação de homogeneidade branca expressa pelas pessoas participantes. A falta de interações com pessoas não brancas e de outras origens culturais, na formação e nos ambientes clínicos, fez com que até terapeutas com longa experiência descrevessem uma experiência limitada de terapia intercultural e uma branquitude pouco explorada. Essas lacunas eram agravadas no contexto da IN pelo foco dominante nas identidades religiosas e nacionais, resultado do longo conflito político da IN, que contribuía para uma “cultura do silêncio” na nomeação e na exploração das identidades culturais e étnicas enquanto tais. Os resultados sugerem que é necessário um aprendizado vivencial adicional em contextos sociopolíticos contestados como a IN. Explorar as próprias identidades interseccionais pela lente do privilégio e da desvantagem exige compreender a história social de uma comunidade e suas relações de poder, o que inevitavelmente fará emergir tensões e desafios subjacentes para as instituições de formação em contextos politicamente contestados, onde não existe uma narrativa compartilhada desse tipo.

Branquitude pouco explorada e desigualdades estruturais pouco reconhecidas

Reconhecendo as especificidades do contexto da IN, este estudo confirma e amplia resultados de pesquisas anteriores sobre a exploração criticamente insuficiente da branquitude e do privilégio branco entre profissionais de psicoterapia sistêmica do grupo branco (Cottrell-Boyce 2022; Wallis e Singh 2014): a maioria das pessoas participantes descreveu a “prática culturalmente sensível” como uma atenção voltada sobretudo às crenças e práticas culturais das pessoas atendidas, em vez de uma vigilância crítica sobre as próprias construções, com atenção relativamente limitada à experiência da desigualdade e do racismo na vida das pessoas. Não há como exagerar a importância de considerar a opressão sistêmica na vida das pessoas negras e racializadas, sendo o preconceito e a discriminação racial implícitos e explícitos forças poderosas, que se reforçam mutuamente e criam barreiras ao acesso a oportunidades em domínios cruciais da vida, como moradia (Gulliver 2017), educação (Joseph-Salisbury 2020), saúde (Salway et al. 2020) e justiça criminal (Lammy 2017), além do potencial de “microagressões” na relação terapêutica (Sue et al. 2007). Esses resultados sugerem que, no Reino Unido, profissionais de psicoterapia sistêmica do grupo branco, onde quer que atuem, continuam correndo o risco de agir segundo “a branquitude como norma invisível” (Wallis e Singh 2014, p. 46), obscurecendo ainda mais como o racismo é institucionalizado e não pode ser enfrentado apenas por indivíduos (Patel 2022). Essa reflexão aponta os desafios, para as instituições de formação sistêmica de todo o Reino Unido e da Irlanda, de “tornar a branquitude visível” (Wallis e Singh 2014, p. 56), entendendo a branquitude não como uma característica ou identidade individual, mas como “uma lente hegemônica que racializa o outro, uma ideologia dinâmica e reprodutora na manutenção da vantagem estrutural e na sustentação de determinadas estruturas, instituições e práticas” (Patel 2022, p. 94). Assim, promover uma prática culturalmente sensível exige não apenas uma consciência crítica da própria etnia branca (Barratt et al. 1999; Singh 2009), mas também uma compreensão das desigualdades interseccionais e, explicitamente, de como a branquitude opera como um sistema invisível de vantagem racializada, cujo resultado é o racismo (Patel 2022). Esse conhecimento, somado a capacidades vivenciais, é uma exigência crucial para um engajamento intercultural e antirracista ético (Cottrell-Boyce 2022; Knudson-Martin et al. 2019; Krause 2012; Patel 2022; Wallis e Singh 2014). Incorporar essa práxis antirracista exige, portanto, não só reflexividade crítica de cada profissional, mas também ação da instituição de formação (Patel 2022).

Para além da “sensibilidade cultural”: a necessidade de novos referenciais teóricos

Os discursos teóricos sistêmicos contêm contradições inerentes, que ao mesmo tempo incentivam e limitam o reconhecimento e a exploração de “raça”, cultura e etnia na prática clínica. Embora se considere que a exploração das “universalidades” tem impacto positivo na aliança terapêutica (Rober e De Haene 2014), a pesquisa também destaca a importância de sentir a própria cultura compreendida (Fox et al. 2017; Teh e Lek 2018; Yon et al. 2018). As respostas das pessoas participantes refletiram algumas dessas contradições teóricas, com uma hesitação notável em iniciar conversas sobre “raça”, cultura e etnia. Os discursos pós-modernos sobre minimizar o exercício do poder terapêutico na definição da pauta foram citados como obstáculos, assim como uma propensão a derivar para uma postura de “humanidade compartilhada” e, em consequência, a se afastar da consideração da diferença cultural e da desigualdade. Embora bem-intencionada, a “evasão da cor” (Annamma et al. 2017) traz riscos quando opera fora da consciência de quem atende, pois pode, ao contrário, preservar o status quo e deixar o racismo e a desigualdade interseccional sem reconhecimento. Considera-se que essa abordagem “cega à cor” corre o risco de obscurecer e invalidar a experiência vivida das pessoas racializadas atendidas, pela igualdade que implicitamente pressupõe (Cottrell-Boyce 2022; Wallis e Singh 2014), tornando invisíveis o privilégio branco e a marginalização das pessoas negras (Sue 2010).

A reticência de terapeutas indica a necessidade de novos referenciais de prática, que vão além de conceitos como sensibilidade cultural e da compreensão de “raça” e etnia como meras questões de diferença, e que façam referência explícita à aspiração de justiça social do engajamento terapêutico contemporâneo, para evitar perpetuar uma prática colonizadora (Collins 2022; Rober e De Haene 2014). A nosso ver, a abordagem de terceira ordem, formulada recentemente, é um passo na direção certa, pois passa do “saber” sobre as questões sociocontextuais ao “fazer” de uma prática socioculturalmente sintonizada, por meio de um processo de: sintonia com o contexto e o poder – nomear a injustiça – valorizar o que é minimizado – intervir nas dinâmicas de poder – vislumbrar alternativas justas – e transformar para tornar realidade o que foi imaginado (Knudson-Martin et al. 2019, p. 50-56). Esse referencial convoca terapeutas a prestar contas de como sua prática reproduz as iniquidades sociais ou ajuda a transformá-las (Almeida et al. 2007), passando de um compromisso com a diversidade e a equidade social à ação (Knudson-Martin et al. 2019, p. 47). Como afirma Krause (2022), embora talvez não possamos “ensinar raça e equidade”, podemos “destacá-las, sinalizá-las, nos comprometer com elas, gritá-las, agitar, agir politicamente… podemos fazer tudo isso na maneira como… ousamos ter curiosidade e questionar o que até agora considerávamos óbvio” (p. 168).

Limitações do estudo e necessidade de novas pesquisas

Este estudo de dissertação tem várias limitações importantes, que acentuam o caráter provisório dos resultados discutidos e exigem novas pesquisas sobre a prática intercultural em diferentes locais do Reino Unido e da Irlanda. Reconhece-se que as identidades da pesquisadora e das pessoas participantes (e também da orientadora) podem ter enviesado os resultados e a análise, e que pesquisas futuras sem dúvida se beneficiariam de uma amostra maior de profissionais atuando em uma gama mais ampla de contextos. Embora não se saiba se o recrutamento no setor público teria trazido participantes com maior experiência terapêutica intercultural, é muito provável que a IN espelhe a experiência do Reino Unido. Um relatório recente e marcante do NHS Race & Health Observatory constatou que, na Inglaterra, as pessoas de origem negra e de minorias étnicas racializadas têm menos probabilidade de acessar as terapias pela fala do NHS, esperam mais tempo pelas avaliações e têm menos probabilidade de receber tratamento após a avaliação (NCCMH 2023). Essas disparidades raciais também são reconhecidas na Escócia, no País de Gales e na IN (UK Parliament 2022), e a Comissão de Assuntos da Irlanda do Norte do governo de Westminster constatou que “as pessoas de comunidades marginalizadas são muitas vezes esquecidas nas decisões de políticas públicas. Além disso, os serviços de saúde não atendem às necessidades das pessoas de fora das duas comunidades (‘verde e laranja’) que continuam a dominar o discurso político na Irlanda do Norte” (Weaver 2022, p. 6). Uma exploração mais aprofundada das identidades das pessoas participantes e um protocolo de entrevista revisado também poderiam ter permitido uma análise mais avançada da interseção de múltiplas identidades e de sua influência na prática intercultural. Além disso, dado o aumento recente na IN de pessoas que não se filiam a nenhum dos lados das divisões habituais (religiosas, comunitárias, políticas ou de nacionalidade) (NILT 2021), um grupo de participantes mais jovem ou com qualificação mais recente poderia ter trazido nuances sobre o impacto do conflito político da IN na necessidade percebida de proteger a própria identidade étnica e cultural e/ou sobre uma maior atenção terapêutica às desigualdades sociais.

Conclusão e reflexões finais

Acreditamos que o contexto sociopolítico atual oferece uma oportunidade importante para que a comunidade sistêmica renove seu compromisso com o antirracismo e a justiça social, revendo como essas questões cruciais estão incorporadas nos referenciais teóricos e práticos contemporâneos e são introduzidas no contexto da formação. Este artigo busca contribuir para essa tarefa, destacando debates atuais e paradoxos teóricos e apoiando-se nos resultados de um pequeno estudo pioneiro na IN. Os resultados confirmam e ampliam pesquisas anteriores, apontando a necessidade de incorporar mais claramente na teoria e na formação sistêmicas uma compreensão do impacto generalizado das desigualdades interseccionais, com maior ênfase no aprendizado vivencial ancorado no contexto sociodemográfico local de cada estudante. No corpo docente sistêmico da Queen’s University Belfast, buscamos levar os aprendizados deste estudo para nossos próprios cursos de formação, com bons efeitos observados até agora. A formação básica em diversidade e desigualdades é conduzida em conjunto pelas autoras deste artigo, e o aprendizado é disseminado por todos os níveis da formação. Essas iniciativas pretendem ajudar as pessoas em formação (todas profissionais de áreas diversas), desde o início da formação sistêmica, a explorar suas próprias origens culturais e étnicas (inclusive abrindo conversas sobre a identidade norte-irlandesa) e oferecer um exame crítico da branquitude como precursora do racismo institucionalizado. Ir além do conceito de sensibilidade cultural pode facilitar a integração explícita do antirracismo e da justiça social como componentes centrais de uma prática sistêmica ética. Essas medidas são, acreditamos, essenciais para que profissionais possam romper “a cultura do silêncio” e enfrentar diretamente as desigualdades estruturais em sua prática clínica, oferecendo às pessoas negras e racializadas atendidas espaços terapêuticos que explorem as possibilidades de mudança, em vez de reforçar involuntariamente a opressão.

Complexe Systémique: a reter

O estudo é pequeno (cinco terapeutas, uma dissertação de mestrado), mas toca em um mecanismo muito sistêmico: um contexto aprende a se calar, e esse silêncio se reproduz na sessão. Na Irlanda do Norte, décadas de conflito ensinaram a não dizer de onde se vem; terapeutas levam essa cautela para o trabalho com famílias racializadas, e a branquitude permanece impensada. O mais útil está no paradoxo teórico revelado: a posição de baixo, o não saber e a “humanidade compartilhada”, pensados para limitar o poder terapêutico, podem virar uma forma de evitar a cor e deixar o racismo fora de cena. A neutralidade deixa de ser neutra quando o sistema a torna confortável. Para a prática, uma pergunta simples: o que meu próprio contexto me ensinou a calar, e quem paga o preço disso na sala? Limites: uma amostra homogênea, recrutada no terceiro setor, e entrevistas conduzidas por uma pesquisadora cuja identidade pode ter orientado as respostas, como o artigo reconhece. Para ler junto com o artigo sobre a armadilha do não julgamento, quando calar-se deixa de ser neutro e com o estudo sobre as competências multiculturais de terapeutas de casal e família não brancos.

Notas do original

1 O termo “negro” refere-se a pessoas de ascendência africana que compartilham uma identidade cultural coletiva e a experiência do racismo institucionalizado (Grant e Grant 1975). A expressão “minorias étnicas racializadas” (minoritised ethnic communities) inclui outras pessoas não brancas racializadas e as minorias étnicas brancas, que também vivem desvantagens múltiplas, entre elas o preconceito racial, a marginalização e a discriminação (Aspinall 2020).

2 A expressão “Black, Asian and minority ethnic” (BAME) era usada no momento da coleta de dados desta pesquisa. Embora contestada, ainda é comum em comparações estatísticas entre as populações branca, negra, asiática e de minorias étnicas racializadas. Na sigla BAME, o termo “Minority Ethnic” exclui as minorias étnicas brancas.

3 A palavra “branco” (White) é grafada com maiúscula em todo o artigo original, como forma de nomear explicitamente a branquitude e chamar a atenção para ela como uma “raça” que confere privilégio, evitando a invisibilidade racial pela qual a branquitude é vista como neutra ou como a norma (Fine et al. 1997).

4 Os principais grupos da população da IN que se identificam como pertencentes a uma minoria étnica são: etnias mistas (0,8%, 14.400 pessoas); negra (0,6%, 11.000 pessoas); indiana (0,5%, 9.900 pessoas); chinesa (0,5%, 9.500 pessoas); filipina (0,2%, 4.500 pessoas); Irish Travellers (0,1%, 2.600 pessoas). As etnias árabe, paquistanesa e roma também somavam, cada uma, 1.500 pessoas ou mais (NISRA 2022).

Conflitos de interesse. As autoras declaram não ter conflitos de interesse relevantes para o conteúdo deste artigo, nem interesses financeiros ou de propriedade em qualquer material discutido neste artigo.

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Tradução não oficial em português de Rompendo a “cultura do silêncio”: o olhar de terapeutas sobre a psicoterapia sistêmica culturalmente sensível em contextos sociopolíticos contestados. Um estudo de caso na Irlanda do Norte, de Christiana Young e Suzanne Mooney, Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, vol. 45, no 3 (2024), doi: 10.1002/anzf.1599, sob licença CC BY 4.0. Tradução e paginação: Complexe Systémique, setembro de 2026 — a obra foi modificada nos termos da licença (tabelas apresentadas em listas). Nem os autores nem o editor respondem por esta tradução; a versão original prevalece.

Tradução não oficial para o português de “Breaking the ‘culture of silence’: exploring therapist perspectives of culturally sensitive systemic psychotherapy in contested sociopolitical contexts – a Northern Ireland case study”, publicado em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy (2024) sob licença CC BY 4.0. A tradução foi realizada pelo Complexe Systémique, não provém dos autores nem da editora, que não respondem por seu conteúdo; a versão original prevalece.

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Como citar este artigo

Young, C., et Mooney, S. (2024). Rompendo a “cultura do silêncio”: o olhar de terapeutas sobre a psicoterapia sistêmica culturalmente sensível em contextos sociopolíticos contestados. Um estudo de caso na Irlanda do Norte (Complexe Systémique, trad.). Complexe Systémique. https://app.complexe-systemique.com/pt_BR/artigos/rompendo-a-cultura-do-silencio-o-olhar-de-terapeutas-sobre-a-psicoterapia-sistemica (Obra original publicada em 2024 em Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, 45(3), 300-324 (2024); republicada em 2024 por Australian and New Zealand Journal of Family Therapy, https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/anzf.1599)

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